domingo, novembro 29, 2015

O fim do radicalismo

Ludmilla Amaral
Revista ISTOÉ

A vitória do liberal Mauricio Macri nas eleições presidenciais abate o nacionalismo-populista que levou a Argentina para a mais severa crise econômica dos últimos anos

Nos 12 anos em que permaneceu no poder, a presidente da Argentina Cristina Kirchner colocou em prática os conceitos mais atrasados da esquerda latino-americana. Cristina expropriou bens de empresas estrangeiras, deu calote nos credores internacionais, tentou calar a imprensa e comprou briga com o mercado financeiro. O custo de tudo isso foi uma inflação anual superior a 25%, uma das mais altas do mundo, e o mais baixo nível de investimento em duas décadas. Na semana passada, o radicalismo chegou ao fim. O opositor de centro-direita Mauricio Macri, 56 anos, foi eleito presidente do país com um discurso que contraria todas as máximas do kirchnerismo. Macri, do Partido Proposta Republicana (PRO) , defende a austeridade fiscal como ponto de partida para a recuperação econômica, prega uma intensa aproximação com todos os setores da sociedade, a despeito de partidos ou inclinações ideológicas,e não parece inclinado a cair na tentação do populismo nacionalista, como Cristina fizera durante todo o seu governo. “Macri tem um estilo de liderança muito diferente de sua antecessora”, diz o cientista político argentino Patrício Gusto. “Ele é um líder moderado e disposto ao diálogo. Seu primeiro grande objetivo será reverter o isolamento político em que Argentina se encontra .” A vitória de Macri também simboliza a derrocada do peronismo, corrente política nacional-populista inaugurada pelo general Juan Domingo Perón (1985-1974) nos anos 1940. Será a primeira vez desde 1987 que o peronismo ficará ao mesmo tempo fora da Presidência e do governo da província de Buenos Aires, quando ambos eram controlados pela União Radical Cívica. 



NOVAS IDEIAS
Ele defende a saída da Venezuela do Mercosul



Um dia depois de ser eleito, Macri, que tomará posse no dia 10 de dezembro, deu um sinal do que está por vir. Ele se declarou favorável à retirada da Venezuela do Mercosul, sob o argumento de que o país fere preceitos democráticos Não é de hoje que condena os movimentos de esquerda que ganharam corpo na América Latina nos últimos anos. Enquanto chefe de governo da cidade de Buenos, de 2007 a 2015, Macri foi um ferrenho crítico de Hugo Chávez, ex-presidente da Venezuela, e de Nicolás Maduro , o líder atual. “Chávez é um louco que não deve ser ouvido”, chegou a dizer o novo presidente argentino. Para especialistas, a eleição na Argentina pode significar uma guinada ideológica no continente. No Brasil, a presidente Dilma Rousseff escolheu um ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que tem um discurso econômico similar ao de Macri. Na Venezuela, Maduro deve sofrer uma derrota avassaladora na eleição parlamentar do próximo dia 6. No Equador, Rafael Correa enfrenta uma onda de protestos. 


FESTA
Comemoração da vitória: eleição de Macri pode significar 
uma guinada ideológica no continente

Na quarta-feira 25, Macri anunciou uma equipe econômica que tem a simpatia do mercado. O ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, se declara um desenvolvimentista. Estudou economia na Universidade da Pensilvânia (EUA) e trabalhou no JP Morgan em Nova York antes de ingressar na política argentina. O ministério da Energia e Mineração ficará com Juan José Aranguren, ex-presidente da Shell na Argentina, que terá o desafio de conter os apagões que afetam a produção industrial e causam transtornos para milhões de argentinos. Outro empresário representado no novo governo é Guilhermo Dietrich, dono de redes de concessionárias da Ford e da Volkswagen, e que comandará o ministério do Transporte. “A Argentina deve encontrar um novo lugar no cenário mundial depois de anos de fechamento ao mundo”, diz Santiago Lacase, cientista político e presidente do Agora Buenos Aires Assuntos Públicos. “O Brasil será um país-chave nessa empreitada.” Pouco depois da eleição, Macri disse que a presidente Dilma será a primeira chefe de Estado a receber uma visita oficial, num recado inequívoco de que pretende intensificar relações comerciais adormecidas nos últimos anos.



Fotos: REUTERS/Marcos Brindicci; AP Photo/Natacha Pisarenko  




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