terça-feira, novembro 10, 2015

O país das mentiras

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O Brasil se transformou no país das promessas — todas não cumpridas, ressalte-se. Do governo ao Congresso, não há economia quando o assunto é ludibriar a população. Promete-se qualquer coisa, pois se sabe que, na hora da prestação de contas, basta apresentar uma desculpa esfarrapada para justificar o fracasso e tudo estará resolvido. Os brasileiros já se acostumaram em ser enganados. Virou rotina. Não há por que se rebelar diante de tanto descaramento.

O dia de ontem, particularmente, foi pródigo em promessas. Começou cedo com o Banco Central. Nas palavras do diretor de Política Econômica, Altamir Lopes, a instituição levará a inflação para o centro da meta, de 4,5%, até o fim de 2017. Justificativas não faltaram para sustentar o compromisso: o desemprego maior derrubará os preços dos serviços, não haverá tanto aumento de tarifas públicas, o dólar tenderá a se acomodar e, claro, o governo fará um ajuste fiscal consistente.

Desde o início do governo Dilma, o BC vem prometendo entregar a inflação na meta. Nunca conseguiu. O compromisso mais recente era de chegar aos 4,5% no fim de 2016. Mas, como das vezes anteriores, foi obrigado a adiar o prazo. Infelizmente, segundo a diretoria da autoridade monetária, o dever de casa foi feito, com os juros chegando a 14,25% ao ano, os maiores desde 2006, mas fatores externos inviabilizaram a promessa. Agora, porém, não haverá falhas.

Não se pode negar que o discurso do BC soa bonito. Pena que entre as palavras e a realidade haja uma distância enorme. É por isso que a instituição já não consegue mais controlar as expectativas do mercado. Todas as projeções para o Índice de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA) até 2017 mostram índices bem distantes do centro da meta. Como o BC não consegue dizer o que será amanhã, fica difícil prever como estará o Brasil daqui a dois anos.

Mundo da lua
O deputado Acir Gurgacz (PDT-RO) assegura que entregará um Orçamento sem ficção para 2016. Basta, porém, ouvir as primeiras declarações do parlamentar para constatar que ele vive no mundo da lua e que está jogando para a plateia, ou melhor, jogando para o governo, que entregou o Ministério das Comunicações ao partido dele em troca de votos. Gurgacz conseguiu a proeza de ampliar em R$ 39 bilhões as receitas previstas no projeto encaminhado ao Congresso pelo Planalto.

A promessa, disse ele, é de o governo embolsar R$ 12,5 bilhões com concessões, R$ 11 bilhões com a repatriação de recursos enviados ilegalmente ao exterior, R$ 2,3 bilhões com a venda de ações da Caixa Seguridade e outros tantos bilhões de reais com projetos que não mostram qualquer consistência. A fartura de recursos será tanta, deixou claro o parlamentar, que o governo poderá abrir mão da ressurreição da CPMF e de elevar tributos como a Cide, que incide sobre os combustíveis.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, resolveu entrar no jogo. Justo ele, que não entregou nada do que prometeu desde que chegou ao governo. Segundo Levy, bastará o ajuste fiscal ser aprovado para o Brasil sair rapidamente da recessão. O chefe da equipe econômica repetiu ontem o mesmo discurso da sua posse, quando prometeu uma arrumação rápida e profunda das contas públicas. A meta era entregar superavit primário (economia de pagamento de juros da dívida) de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), com crescimento econômico já no segundo semestre de 2015.

A realidade, contudo, é cruel. O superavit se transformou em rombo de 2% do PIB e o país encerrará o ano com retração de 3%. A recuperação não virá nem em 2016. O PIB deverá cair mais 2%. E não será por causa do arrocho, caso venha a acontecer, como dizem alguns economistas. A atividade tombará porque ninguém confia no governo. Nem os empresários nem os consumidores.

Ladainha
Mesmo envolta em descrédito, a presidente Dilma Rousseff não se furta de assumir compromissos que não vai cumprir. Em Alagoas, cercada por uma claque, ela disse que não faltarão recursos para o combate à seca no Nordeste. Entra ano, sai ano, e nada é feito de efetivo para livrar a região desse tormento. Mas, para a petista, não há nada demais em repetir a ladainha de engana trouxa. Ela se especializou nisso.

Durante a campanha à reeleição, Dilma abusou das promessas. Garantiu que não mexeria em direitos trabalhistas, descartou qualquer aumento da gasolina e da energia elétrica e ressaltou que ampliaria os programas educacionais. Bastaram as urnas selarem os resultados, para que a presidente fizesse tudo ao contrário. Passados quase 11 meses de empossada para o segundo mandato, a petista continua a mesma. O país, no entanto, vai afundando no atoleiro de mentiras.

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