terça-feira, novembro 17, 2015

Para opositores, detenções terão impacto nas urnas na Venezuela

Marina Gonçalves
O Globo

Forças de segurança teriam apreendido cocaína na casa de sobrinho de Maduro

AFP/12-11-2015 
Campanha. Capriles, governador de Miranda, durante inauguração de escola: 
pesquisas dão vantagem à oposição -

RIO — A semana agitada para o presidente Nicolás Maduro — que viu seu governo envolvido em uma denúncia feita ao Tribunal Penal Internacional ao mesmo tempo que dois sobrinhos de sua mulher, Cilia Flores, eram detidos nos EUA — terminou abafada pelo início da campanha para as eleições legislativas. E, apesar de grande parte dos meios de comunicação, muitos controlados pelo governo, terem noticiado pouco os casos, opositores acreditam que o impacto dos escândalos nas urnas no dia 6 de dezembro será grande. Na sexta-feira, de acordo com a TV local CDN, forças de segurança dominicanas invadiram a casa de Francisco Flores de Freitas, sobrinho da primeira-dama da Venezuela, e apreenderam 80 quilos de cocaína, além de um iate registrado nas Bahamas em nome de Flores.

Para Jesús Torrealba, secretário-geral da aliança Mesa de Unidade Democrática (MUD), os escândalos, principalmente as detenções, irão influenciar diretamente no resultado da votação — cujas pesquisas de intenção de votos dão, pela primeira vez em 17 anos, vantagem de até 30 pontos percentuais à oposição.

— Na realidade, as detenções tiveram sim grande repercussão na Venezuela, mas não nos meios de comunicação, graças ao que o governo chama de “hegemonia constitucional” e nós chamamos de censura e autocensura. Mas as prisões geraram grande mal estar em diversos setores da sociedade. Nos insulta que o nome do país esteja mais uma vez vinculado a delitos tão graves no exterior. — afirmou Torrealba ao GLOBO, por telefone de Caracas. — Os escândalos apenas confirmam a necessidade de mudança na Venezuela, a necessidade de sobrevivência do pais.

‘População está indignada’
Alvo de censura direta ou indireta, boa parte da imprensa venezuelana silenciou ou deu poucos detalhes sobre as detenções de Freitas e Efraín Campos Flores, acusados de conspirar para transportar cocaína aos EUA. Para a ex-deputada María Corina Machado, o silêncio evidencia o forte cerco à imprensa no país — o que já foi denunciado por organizações como a Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) e a Organização dos Estados Americanos (OEA).

— Em qualquer país com um mínimo de institucionalidade um evento dessa natureza provocaria uma renúncia imediata de quem está no topo do governo. Aqui, ocorre o contrário: o regime nega os fatos e pratica censura. Salvo poucos jornais, houve um silêncio quase absoluto dos meios de comunicação locais, enquanto a noticia foi uma das mais importantes no mundo — denunciou María Corina, proibida de exercer cargos públicos por um ano.

No dia das prisões, a opositora esteve em Trujillo, cidade predominantemente rural, e contou ter ficado surpresa com a repercussão do caso. Na sexta-feira, o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Mark Toner, disse que os dois jovens não devem possuir imunidade diplomática.

— Não posso falar por todos no país. Mas as cerca de 2 mil pessoas que participaram de um encontro em Trujillo, que há pouco tempo era um reduto chavista, estavam escandalizadas e indignadas. Apesar da censura, a informação está gerando repúdio absoluto em todo o pais.

A partir de agora, os partidos podem captar votos dos cerca de 19 milhões de venezuelanos habilitados para escolher os 167 deputados da Assembleia Nacional. A campanha, que terá uma duração de 21 dias, deverá terminar na noite de 3 de dezembro, três dias antes da votação. A oposição convocou um comício em Caracas para lançar a campanha “Venezuela quer”.

“Está bem claro: candidatos de Nicolás-Cabello-crise versus candidatos da mudança e do progresso”, escreveu Henrique Capriles, um dos líderes da oposição, em seu Twitter.

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