quarta-feira, dezembro 02, 2015

Andando para trás

Celso Ming
O Estado de São Paulo

O cenário é de desânimo, ainda mais baixa disposição a investir, avanço perigoso do desemprego para os 10% da força de trabalho e daí para o que Deus quiser

O setor produtivo e a renda nacional não estão recuando apenas um tantinho. Estão recuando rapidamente, como o efeito produzido por certos filmes do cinema mudo.

O comportamento do PIB no terceiro trimestre deste ano foi muito pior do que o esperado e esse resultado arrasta para baixo não só o PIB de 2015, mas também o de 2016.

Foi um tombo de 1,7% em relação ao segundo trimestre e de 3,2% no acumulado do ano (veja o gráfico ao lado). Todos os setores tiveram comportamento negativo, inclusive a agropecuária. A partir dos novos números, ficou inevitável a revisão das projeções. Para este ano, os analistas esperavam uma queda do PIB de 3,5%. Terão agora de rever essa projeção para uma queda ainda maior, mais para perto de menos 4%. E para 2016, o piso para avaliações passou para menos 2,5%.


Como o IBGE reviu para baixo os cálculos anteriores das Contas Nacionais, o passado imediatamente anterior também piorou. Mais impressionante é o mergulho dos investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo), de 4% no trimestre e de 12,7% no acumulado do ano (veja o Confira). Isso aí é água morro abaixo e fogo morro acima. Como menos investimento hoje é menos crescimento amanhã, o futuro chega comprometido. Desta vez o setor de serviços, que vinha puxando a economia, apontou uma queda no trimestre (sobre o trimestre anterior) de 1,0%. Como pesa 70,8% no todo, foi fator relevante para o recuo do PIB.

Esse tombo da renda nacional acontece numa situação de alta inflação, de mais de 10% em 12 meses. É um quadro grave de estagflação. As causas do desastre já são por demais conhecidas. É a política econômica do governo Dilma que, a partir de 2011, acelerou o giro dos motores do Titanic em direção ao iceberg e  demorou demais para entender o que se passava. E é, também, a forte deterioração das condições da política propriamente dita, que solaparam a sustentação do governo. 

É um quadro desolador com potencial para produzir consequências perversas. É mais desânimo, ainda mais baixa disposição a investir, avanço perigoso do desemprego para os 10% da força de trabalho e daí para o que Deus quiser. E acrescentem-se novas derrubadas do consumo e da arrecadação, disparada do rombo das contas públicas e trajetória da dívida para níveis explosivos. A crise política ou, mais especificamente, a incapacidade de reequilibrar as contas públicas e de conduzir a virada por parte do governo Dilma é parte substancial do problema.

Apesar de todos os males que compõem hoje a vida nacional, o Brasil não está condenado a mergulhar indefinidamente. A crise de nossos dias não é tão braba como a dos anos 80, quando as contas externas derretiam e havia fuga de capitais.

Bastará que o rombo fiscal seja equacionado e que a crise política seja ultrapassada, com ou sem impeachment, para que a esperança possa vencer o medo do futuro e a confiança retome o espaço hoje ocupado pelo desânimo. Mas isso exige atitude, especialmente dos políticos. E isso não está à vista.

CONFIRA:



O gráfico mostra como a participação do investimento no PIB está despencando. 

Balança comercial
Saíram nesta terça-feira os resultados da balança comercial de novembro. É um setor das contas externas em plena recuperação. O superávit comercial nestes 11 meses de 2015 já soma US$ 13,4 bilhões. Esse é o resultado de dois fatores: forte redução do consumo, que derrubou as importações em 23,1% no acumulado do ano; e alta do dólar (desvalorização cambial) que ajudou a segurar a queda das exportações a 14.9%.

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