quarta-feira, dezembro 02, 2015

Com bolivarianismo em xeque, até chavistas mostram querer mudança

Janaína Figueiredo, Correspondente
O Globo

Tensão precede pleito mais difícil para governo, que tenta manter controle do Legislativo

FEDERICO PARRA / AFP 
Candidatos da MUD fazem campanha na favela Yaguara, Caracas. 
Objetivo é conseguir maioria no Congresso e aprovar leis 
como a da libertação de presos políticos
  
BUENOS AIRES - O pano de fundo da violência que tomou conta da campanha venezuelana nos últimos dias é o cenário eleitoral mais adverso já enfrentado pela autoproclamada Revolução Bolivariana desde sua chegada ao poder, em janeiro de 1999. Até mesmo empresas de pesquisas claramente alinhadas com o Palácio de Miraflores, como a Hinterlaces, comandada pelo analista Oscar Schémel, projetam uma vitória dos candidatos da Mesa de Unidade Democrática (MUD) nas legislativas do próximo domingo, o que implicaria, pelo menos, a conquista de maioria parlamentar simples. O inferno astral do presidente Nicolás Maduro é consequência, segundo analistas locais ouvidos pelo GLOBO, da gravíssima crise econômica que assola o país e levaria até mesmo seguidores do chavismo a votarem contra o governo.

A oposição está confiante e assegura que sua vantagem em relação ao Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) chegaria a 30 pontos percentuais. Com essa certeza, dirigentes da oposição, como a deputada cassada María Corina Machado, afirmam que “desta vez, não vamos permitir que nos roubem uma eleição”. O objetivo da MUD é alcançar maioria qualificada, o que permitiria ter ampla margem de manobra para aprovar leis ordinárias e extraordinárias, entre elas, uma anistia para presos políticos (atualmente, mais de 60).

— Nunca vivemos uma situação assim, e isso acontece porque estamos diante de um governo fraco e ilegítimo — disse Maria Corina, uma das tantas candidatas inabilitadas pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

Acusação sobre grupos armados governistas
Para ela, “a violência do governo contra a oposição nas ruas está cada vez maior”, com candidatos “recebidos com disparos”. A morte de Luis Manuel Díaz, dirigente do partido Ação Democrática (AD), aprofundou ainda mais o clima de tensão que predomina em todo o país.

— Não temos acesso à mídia e somos atacados por grupos armados, claramente identificados com o governo — enfatizou a deputada cassada.

A ONG Espaço Público tem monitorado a campanha em vários estados e confirma as agressões a candidatos da MUD, por exemplo, em Petare, na capital, considerada a maior favela da América Latina.

— No começo da campanha, as dificuldades eram menores, mas agora tornaram-se graves. Em Guárico, onde foi assassinado Diaz, existem grupos armados que selaram acordos com o governo — contou Carlos Correa, diretor da ONG.

Segundo ele, foram negociadas zonas liberadas para a atuação de gangues, “lugares que acabaram virando refúgios de sequestradores”.

— Não podemos dizer que o assassinato está ligado ao governo, mas sim que os grupos violentos que atuam na região têm entendimentos com o partido de governo — apontou.

STRINGER/VENEZUELA / REUTERS 
Pró-governo. Eleitores carregam uma foto 
de Hugo Chávez durante um comício em Barinas

Correa acha que o “discurso violento do presidente favorece esse tipo de incidentes”. A ONG também detectou “forte pressão aos servidores públicos, ameaças, campanha do medo”. Tudo isso se mistura com um ambiente de profundo mal-estar social, não somente entre opositores.

— Existe muita ansiedade porque a sensação que predomina é de que o governo será derrotado e a situação vai começar a melhorar — opinou a jornalista e analista política Argelia Rios.

Declarações do presidente do tipo “temos de ganhar esta eleição de qualquer maneira”, disse Argelia, geram preocupação, e mostram “um governo que atua como um leão ferido”.

— O problema é que, quando o leão está ferido, é mais perigoso. Mas a oposição está forte, e a recuperação da maioria parlamentar deveria ser o início de uma nova etapa política — acredita.

Não existem candidatos-estrela na campanha. Para os opositores e os que querem mudança, principalmente em matéria econômica, a opção é votar nos dirigentes da MUD. A aliança opositora praticamente não tem acesso a meios de comunicação nacionais, com raríssimas exceções.

— A MUD está fazendo uma proeza. Se tem essa vantagem sem a mídia e com a violência do governo, é porque realmente a sociedade está cansada de tanta crise e desgoverno — frisou.

O presidente e seus aliados tentam transmitir a sensação de que ou são eles ou o dilúvio.

— Sem dúvidas, a batalha de 6 de dezembro decidirá se vamos para frente ou despencamos — declarou Maduro, que prometeu “radicalizar a revolução e retificar todos os erros e problemas” após as legislativas.

Observação eleitoral foi rejeitada
O chefe de Estado rechaçou uma observação eleitoral qualificada, oferecida por Organização de Estados Americanos, União Europeia e ONU, e na reta final da campanha, disse o jornalista Ernesto Villegas, “deveria moderar seu discurso e até mesmo sair um pouco da campanha”.

— A própria União de Nações Sul-Americanas (Unasul) pediu aos atores políticos que contenham a violência — apontou Villegas.

Ele acredita, como muitos colegas e analistas, que a crise econômica levou Maduro à situação mais difícil já enfrentada pela Revolução Bolivariana. 

— Até mesmo o chavismo pede mudanças, quer medidas de combate à insegurança, à inflação, à escassez de produtos. Ninguém quer que o país continue como está — comentou o jornalista.

A MUD e seus líderes, entre eles o ex-candidato presidencial e governador de Miranda, Henrique Capriles, confiam que a violência e a campanha do medo não impedirão “uma tsunami eleitoral”.

— No dia 6 de dezembro derrotaremos os violentos — assegurou Capriles.

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