quarta-feira, dezembro 02, 2015

PATÉTICO: Brasil espera que Macri reveja decisão sobre Maduro

Eliane Oliveira
O Globo

Governo brasileiro deseja que novo presidente argentino fortaleça bloco sul-americano

Federico Parra / AFP
 Presidente da Venezuela, Nicolás Maduro 

BRASÍLIA - O governo brasileiro avalia que Mauricio Macri falou como um candidato que acabou de vencer a eleição, e não como presidente da Argentina, ao defender a suspensão da Venezuela do Mercosul. Embora a declaração tenha sido recebida com preocupação em Brasília, a expectativa do Palácio do Planalto e do Itamaraty é que o sucessor de Cristina Kirchner mude de opinião, ao tomar posse na Casa Rosada no próximo dia 10 de dezembro.

— Foi uma declaração feita 24 horas depois de ele ter sido eleito. Por isso, deve ser olhada com certo cuidado. Vamos esperar um pouco — disse uma fonte.

Se o presidente eleito da Argentina persistir em sua proposta, ele não terá apoio do governo brasileiro, que considera que Maduro foi eleito democraticamente. No entanto, ganhará um aliado de peso no Mercosul: o Paraguai, que chegou a ser afastado do bloco temporariamente há cerca de três anos, devido à destituição do então presidente Fernando Lugo pelo Congresso daquele país. A saída de Lugo foi considerada um golpe branco da oposição do país vizinho que, no fim, acabou elegendo o atual presidente Horácio Cartes.

Maduro foi um dos articuladores da suspensão do Paraguai e poderá receber o mesmo castigo no dia 21 de dezembro, em Assunção, durante a cúpula de presidentes do Mercosul. O chanceler uruguaio, Rodolfo Nin Novoa, por sua vez, não vê razão para suspender a Venezuela.

Na avaliação do governo brasileiro, os sócios do Mercosul precisam trabalhar para que o bloco se torne mais robusto. É esse pensamento que leva o Palácio do Planalto e o Itamaraty a esperarem que Macri trabalhe não apenas com seus próprios interesses, mas focado no que é melhor para a união aduaneira.

Guilherme Casarões, da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), acredita que há dois componentes nessa questão, um ideológico e outro pragmático. Ideologicamente, Macri é um liberal, que acredita em tipos de integração econômica e regimes políticos muito diferentes daqueles que, hoje, prevalecem no Mercosul. Ele quer, portanto, distanciar-se da Venezuela, que vive uma profunda crise econômica e um endurecimento das feições autoritárias da Presidência de Nicolás Maduro. Também não lhe interessa um bloco pouco eficiente em termos de promoção comercial, como é o Mercosul.

— Como a política externa brasileira zela pelo Mercosul, a movimentação de Macri pode forçar o Brasil a fazer concessões à Argentina, que ainda é seu principal parceiro comercial na região. Nessa queda de braço, o futuro imediato da Venezuela no bloco dependerá do tipo de acordo que sair das negociações brasileiro-argentinas — afirmou Casarões.

Já o ex-ministro das Relações Exteriores Luiz Felipe Lampreia pensa de forma diferente.

— A Venezuela nunca cumpriu as formalidades de adesão ao Mercosul e só entrou por desejo político de seus aliados.

Dinâmica favorável ao Brasil
No governo, a avaliação é que a eleição de Mauricio Macri será um ganho para o Brasil nas relações políticas e comerciais, apesar das diferenças ideológicas entre ele e Dilma Rousseff. Foi com esse espírito que a presidente brasileira telefonou ontem para o candidato vitorioso, para parabenizá-lo. Não se sabe, ainda, se Macri demonstrará alguma mágoa pelo fato de Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva terem apoiado a candidatura do governista Daniel Scioli à Presidência argentina.

No Rio, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que a vitória traz uma “dinâmica favorável” à economia brasileira. Isso se o novo presidente “for pelo caminho de mais liberalismo econômico”.

— A dinâmica da Argentina pode mudar. Eles vão ter um trabalho muito grande pra acertar umas tantas coisas. Mas, evidentemente, até pela potencialidade do país e pelo capital humano, muda sim a dinâmica se eles forem para um caminho de mais liberalismo econômico. Cria uma dinâmica favorável para o Brasil, E nos põe ainda mais nessa busca de focar no aumento da produtividade. — disse Levy.

Editoria de arte / O Globo  
O comércio entre Brasil e Argentina 

Já o ministro Ricardo Berzoini, da Secretaria de Governo, afirmou que não cabe ao Brasil fazer “juízo de valor" sobre a vitória de Macri na Argentina, mas deixar as portas abertas para o diálogo.

— O pressuposto da democracia é dialogar sempre com quem vence as eleições. A democracia argentina tem nosso apoio e nossa consideração, seja quem for o presidente — disse Berzoini. — Nesse caso, só resta desejar bons resultados e manter as portas abertas para o diálogo.

Colaboraram Daiane Costa, Eduardo Bresciani, Mariana Sanches e Simone Iglesias

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