domingo, junho 28, 2015

A desconfiança impera

O Estado de S. Paulo
Editorial

É risível a repercussão, no centro do poder e nos quadros do partido, dos recentes pronunciamentos de Luiz Inácio Lula da Silva com críticas devastadoras ao governo Dilma e ao PT. Enquanto a presidente da República mal disfarçava seu constrangimento com a declaração de que “todo mundo tem direito de fazer críticas, principalmente o presidente Lula”, a bancada petista no Senado divulgava uma nota de “desagravo” ao ex-presidente, que estaria sendo vítima de uma “sórdida campanha” por parte dos adversários políticos, que usam a luta contra a corrupção como pretexto para “tentar destruir um projeto nacional e popular”.

Por parte de Dilma não se poderia esperar mais do que uma encabulada contemporização, pois cabe à comandante da nau que soçobra fazer o possível para manter a água abaixo do queixo. E, oficialmente, a postura de toda a equipe de governo é a mesma. Por exemplo, para o palavroso ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, um quadro petista à esquerda de Lula, este está assumindo uma posição “de vanguarda” e suas palavras “induzem todos os petistas e simpatizantes a refletirem”. No máximo, os ministros de Dilma se permitem manifestar alguma surpresa diante das manifestações de Lula, como Jaques Wagner, da Defesa, que admitiu não estar “entendendo” e considerar “estranho” o discurso do chefe.

Já no PT e no Congresso ninguém se preocupa muito em ficar em cima do muro. As reações variaram desde o desagravo ao agravador promovido pelos próprios agravados – como foi o caso da bancada petista no Senado –, até a manifestação de cauteloso repúdio feita pelo líder do PT na Câmara, José Guimarães (CE): “Quem fica apregoando essa história do PT estar no fundo do poço, estar no volume morto... vamos esperar as eleições”. O presidente nacional do PT, Rui Falcão, refugiou-se na ironia: “Prefiro quando o Lula diz que os que acham que o PT vai acabar darão com os burros n’água”.

Em resumo, no clima de salve-se quem puder que domina o governo e, muito mais ainda, o PT, Lula, com suas críticas, colocou todo mundo na defensiva e reitera seu protagonismo na cena política. E é claro que não vai ficar só no discurso. A ridícula nota de “desagravo” não surgiu espontaneamente na bancada de senadores, mas foi o resultado da mobilização que Lula promove entre seus correligionários no Congresso para reforçar sua imagem de líder e preparar a blindagem de que ele precisa diante do avanço das investigações da Operação Lava Jato.

Do ponto de vista estratégico há um certo consenso, entre os observadores e os agentes da cena política, de que Lula está preparando o terreno para um gradual afastamento de Dilma e de seu pessimamente avaliado governo. E esse prognóstico decorre da avaliação de que a economia dificilmente dará sinais sólidos de recuperação em tempo de não prejudicar a candidatura à Presidência, em 2018, de um nome apoiado pela presidente. O “puxão de orelha” que Lula está dando no PT demonstraria que é hora de mais uma reviravolta na trajetória do partido para garantir a continuidade de seu projeto de poder. E essa guinada só ele próprio tem condições de liderar, como já fez uma vez com sucesso ao adotar um programa econômico “neoliberal” para vencer a eleição de 2002. Mas para tanto é necessário desvencilhar-se da notória identificação com Dilma e ferretear em seu governo o estigma de “dissidência” do PT. Essa nova metamorfose não parece impossível para um político que não tem nenhum compromisso com a coerência e já demonstrou grande capacidade de seduzir as massas.

Essa estratégia incorre, porém, na imprudência de subestimar o discernimento dos brasileiros, inclusive os que vivem nos mais tradicionais redutos eleitorais do lulopetismo, que estão sofrendo em seu cotidiano os amargos efeitos de uma “nova matriz econômica” irresponsavelmente imposta pela combinação de miopia ideológica com oportunismo eleitoral e indignados com o assalto aos cofres públicos que se tornou marca registrada dos governos petistas.

Afinal, se Lula demonstra não confiar em Dilma e esta certamente já não confia em seu criador, por que os brasileiros hão de confiar em qualquer um dos dois?

Sobre mandiocas, rolas e sertanejos

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Façamos justiça. A presidente Dilma tem feito enorme esforço para se tornar mais exótica

Os brasileiros reclamam quando estrangeiros chamam nosso país de “exótico”. Natural. Há uma tendência de defender o que é nosso do olhar gringo. Só nós podemos meter o pau. Mas, quando colocamos o pé fora do Brasil, percebemos que somos mesmo para lá de exóticos. Longe, conseguimos até rir de nossa República da Mandioca. Melhor mandioca que banana.

Façamos justiça. A presidente Dilma tem feito enorme esforço para se tornar mais exótica. Seus últimos discursos podem tirar emprego de muito humorista. O mais recente, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília, é intraduzível em qualquer idioma. “Nós estamos comungando a mandioca com o milho. E, certamente, nós teremos uma série de outros produtos que foram essenciais para o desenvolvimento de toda a civilização humana ao longo dos séculos. Então, aqui, hoje, eu estou saudando a mandioca. Acho uma das maiores conquistas do Brasil.”

Depois da mandioca, foi a vez de saudar a bola e a mulher. “Essa bola vem de longe, da Nova Zelândia. E é uma bola que eu acho que é um exemplo, ela é extremamente leve. Eu já testei e ela quica. Eu testei, eu fiz assim uma embaixadinha, minto, uma meia embaixadinha. (…) Então, o esporte tem essa condição, essa bênção. Ele é um fim em si. (…) Então, para mim essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em Homo sapiens ou mulheres sapiens.”

Sei que o discurso “indignou” muitos e serviu para que a presidente fosse ridicularizada. Mas eu até simpatizei e morri de rir. Gente, é esse o Brasil, o Brasil da mandioca, das rolas e dos sertanejos, era um discurso para índios em Brasília. O Brasil que se diz laico e vê um bando de marmanjos deputados erguer os braços na Câmara em transes pentecostais.

É exótico ver a Dilma rodando de bicicleta em Brasília, enquanto a crise pega todo mundo, miserável, pobre, rico e a classe média gigantesca, traída e amorfa. Dilma tenta tudo de marketing pessoal, além da dieta milagrosa que a deixou elegante e lépida, para fazer o país esquecer sua aliança com os pastores evangélicos. A banda mais reacionária, conservadora ao extremo, que recebeu dela isenções para igrejas. É o dízimo gordo do Planalto, o cala-veto.

Se Dilma criou, num discurso jocoso, a espécie “mulheres” sapiens, Eduardo Cunha, Silas Malafaia e seguidores tentam criar o “hétero” sapiens como a única espécie saudável e legítima para formar uma família. Isso não é só exótico, é perigoso. A ex-guerrilheira feminista estende o tapete vermelho para o neo-PMDB pentecostal, que não respeita o direito da mulher a seu corpo e ao aborto em qualquer circunstância, e que defende mudanças no Estatuto do Desarmamento para armar a população. No meio da crise, aprova a construção do bilionário ParlaShopping, para abrigar com pompa a Câmara e sua maioria de... como disse o ex-Lula... “picaretas”?

Dilma reza para todos os deuses, mas não cala seu diabinho criador, Lula, o opositor transgênero. Lula afirma que o PT de Dilma acabou com os sonhos e utopias, traiu trabalhadores e aposentados e “só pensa em cargos”. O que é isso, ex-companheiro, além de jogo de cena? Um dia após o outro, para padres ou laicos, Lula aperta a garganta de Dilma, a acusa de ter mentido na campanha e tenta se desvincular dela e do PT para salvar sua pele e o lulismo. Como se ele nada tivesse a ver com o que está aí. Como traduzir para um estrangeiro?

É o exótico patropi, uma casa brasileira com certeza. Onde um dos mais conceituados e mais populares jornalistas multimídia do Brasil, Ricardo Boechat, manda o pastor Malafaia “procurar uma rola”, em vídeo postado em rede social. Boechat chamou o pastor de “paspalhão e otário” e “tomador de grana de fiel”. O pastor tinha acusado Boechat de “idiota” e de “falar asneira” por comentar que igrejas neopentecostais incitam a intolerância religiosa e criam o ambiente para ataques como as pedradas em uma menina de 11 anos, praticante do candomblé. Dá para imaginar a situação, com personagens semelhantes, em outro país?

A rola provocou uma histeria nas redes sociais, com torcidas pró e contra. Uma histeria só comparável, em temperatura, à que se seguiu à morte trágica, em acidente de carro, do cantor Cristiano Araújo, o “sertanejo universitário” adorado por multidões, mas desconhecido por quem não gosta de música sertaneja. Um rolo compressor de mídia lacrimosa irritou quem nunca havia ouvido Cristiano cantar. Os fãs se irritaram com a “elite” que não curte música sertaneja, como se fosse uma traição à brasilidade. E, para culminar, Fátima Bernardes se confundiu e lamentou ao vivo a morte de “Cristiano Ronaldo”. O Brasil é muito exótico. Xô, ódio. Só o humor nos salva. Amém.

Nem mãe nem rainha

Folha de São Paulo
Editorial

Queixa-se a presidente Dilma Rousseff (PT), em entrevista ao jornal americano "The Washington Post", de haver "um pouco de preconceito sexual" na forma com que é descrito seu modo de governar.

Seria essa a razão, prosseguiu, de tantas críticas a seu detalhismo administrativo e a seu hábito de interferir em escalões decisórios inferiores. Inexiste, diz ela, quem fale mal de "presidente do sexo masculino [que] coloca o dedo em tudo".

Dilma estaria sendo vítima, portanto, das construções sexistas em torno da "mulher metida", da "patroa implicante", ou de qualquer das incontáveis formulações que, dos contos de fada às comédias de Molière, exigem modéstia e subserviência do sexo feminino.

Pode ser. A variedade dos estereótipos femininos negativos é tão grande que dificilmente alguma liderança ou mulher de destaque estará livre de grosseria ou injustiça.

Beleza ou feiura, cabelos brancos ou tingidos, sexualidade forte ou ausente, plástica ou rugas, roupas assim ou assado: é como se quase nada fosse perdoado à mulher em postos de comando –que o digam Luiza Erundina, Marta Suplicy e Graça Foster, por exemplo.

E Dilma? Preservado que seja seu direito de reclamar, o fato é que por muito tempo o "viés sexista" contou, na verdade, a seu favor. Em 2008, o então presidente Lula (PT) foi o primeiro a lançar sua candidatura valendo-se de tal ótica. A então ministra da Casa Civil seria "a mãe do PAC".

Nos primeiros meses de governo, Dilma beneficiou-se de outra ficção mercadológica inspirada na sua identidade de gênero. Era a "faxineira", capaz de varrer do governo os acusados de corrupção.

Em voo bem mais ousado, o publicitário João Santana já tinha atribuído a Dilma, em 2010, o lugar imaginário da "rainha", dentro do que chamou de "mitologia política e sentimental" dos brasileiros.

Vê-se, atualmente, que não houve rainha, nem faxineira, nem mãe, nem qualquer outra imagem fantasiosa capaz de corresponder à atuação de Dilma como presidente.

Diferenças ideológicas à parte, Dilma Rousseff poderia ter obtido o respeito que cerca mulheres como Margaret Thatcher ou Angela Merkel; hoje o risco é que, num cenário econômico desastroso, pelo qual em grande parte foi responsável, sua figura esteja mais próxima da de Cristina Kirchner.

Pois a questão principal não é, e nunca foi, de "preconceito de gênero": teimosa, detalhista ou rude, características desse tipo seriam vistas com outros olhos se seu governo mostrasse responsabilidade, rigor e competência.

Espantoso, na verdade, é que tenha aparentado possuir tais virtudes sem que a farsa, como num conto de fadas, se desfizesse rapidamente no ar.

PT fica no lado errado ao criticar a Lava-Jato

O Globo
Editorial

Com um tesoureiro já condenado à prisão e outro detido em regime provisório, o partido já tem a imagem bastante avariada, e por isso precisaria agir com cautela

Depois de duras e inéditas críticas públicas de Lula a seu partido, algo jamais visto em 35 anos de PT, o líder partidário supremo se reuniu com o presidente da legenda, Rui Falcão, na quarta-feira, e, no dia seguinte, a comissão executiva nacional petista emitiu nota com 16 itens, interpretada como resultado do entendimento entre o criador do PT e sua criatura.

Em três dos itens, críticas à Operação Lava-Jato, de desmontagem do esquema do petrolão, responsável por um assalto bilionário à Petrobras, numa aliança entre partidos e empreiteiras. O resultado do saque beneficiou, como já comprovado, políticos do PT, PMDB e PP. Representantes dessas mesmas legendas, entre algumas outras, também foram pilhados em um primeiro esquema de ordenhamento de dinheiro de estatal, o Banco do Brasil, no golpe batizado de mensalão.

Uma coincidência entre o mensalão e o petrolão é sugestiva: dois tesoureiros do partido foram presos. No mensalão, Delúbio Soares ainda cumpre pena, há algum tempo em regime aberto; no petrolão, João Vaccari Neto continua detido em Curitiba, em prisão provisória. Vê-se que o envolvimento do partido nos casos de corrupção foi intenso.

A nota do partido alveja um ponto fraco da Lava-Jato, operação em que se destacam o juiz federal Sérgio Moro, promotores (MP) e a Polícia Federal. É fato que a prodigalidade com que Moro decreta prisões preventivas e temporárias preocupa juristas e magistrados de instâncias superiores.

Consta que a técnica é inspirada na Mani Pulite, a Operação Mãos Limpas, desfechada na Itália para desbaratar esquemas entre políticos e a máfia. Nela, prisões preventivas longas facilitaram a obtenção de delações premiadas e de provas adicionais.

Há, ainda, preocupação com a qualificação de policiais federais e promotores para decifrar questões e termos técnicos usados no mundo dos negócios e com os quais se deparam na coleta de provas. Como lhes falta conhecimento, e parece não terem consultores especializados, há o risco de provas que justificam prisões serem inconsistentes.

Mas o PT comete um erro político ao obedecer ao líder máximo e investir contra a Lava-Jato. Afinal, mesmo com os reparos que possam e devam ser feitos — ninguém deseja que todo um trabalho de investigação como este seja derrubado mais à frente por falhas processuais —, o PT, com os ataques a Moro, promotores e PF, apenas piora de imagem, já trincada, junto à população.

Militantes sempre podem ser mobilizados para aplaudir “heróis do povo brasileiro” na figura de mensaleiros condenados, Vaccari e outros. Já a massa de eleitores costuma se comportar de forma diferente. Como demonstram pesquisas recentes. Melhor faz a presidente Dilma, discreta espectadora do trabalho de organismos do Estado.

Dilma acha que é vítima de preconceito sexual. Dá pena!

Ricardo Noblat

(Foto: Ailton de Freitas / Agência O Globo)
 Dilma Rousseff


Era só o que faltava.

Para defender-se da acusação de que é uma chefa centralizadora, Dilma disse ao jornal americano “The Washington Post” que “há um pouco de preconceito sexual” nisso.

- Eu acredito que há um pouco de preconceito sexual, ou viés de gênero. Sou descrita como uma mulher dura e forte que coloca o nariz em tudo, e eu estou [me dizem] cercada por homens meigos. Alguma vez você já ouviu alguém dizer que um presidente do sexo masculino coloca o dedo em tudo?

Por aqui, a acusação de que é uma chefa centralizadora jamais veio acompanhada de qualquer referência a sexo. Ela está querendo se fazer de coitadinha. Aprendeu com Lula.

É Dilma – e mais ninguém – que se diz cercada por homens meigos. Ela se vale disso para justificar a necessidade de ser dura.

Quanto à pergunta que fez ao entrevistador (“Alguma vez você já ouviu alguém dizer que um presidente do sexo masculino coloca o dedo em tudo?”), a resposta é fácil. Sim, ele já ouviu. Todo mundo ouviu.

Entre nós, o general Ernesto Geisel, um dos presidentes da ditadura militar de 1964, foi um centralizador de primeira. Metia o dedo em tudo. Fernando Collor também foi. Ao seu modo, Lula foi.

Dilma garantiu que não “pretende arrancar os cabelos” pelo fato de ser rejeitada por 65% dos brasileiros. De fato, não adiantaria arrancá-los.

Perguntada se em algum momento no primeiro mandato pensou que o país não ia bem, saiu de lado respondendo que houve um agravamento da situação econômica no final de 2014.

Ela atravessou todo o primeiro mandato sabendo que a crise não era a “marolinha” falsamente identificada por Lula, mas um maremoto. Como queria se reeleger, usou medidas para atrasar a chegada da crise.

Uma vez reeleita, não tinha mais o que fazer senão tomar dos brasileiros empregos e renda.

Dilma insistiu que desconhecia a corrupção na Petrobras.

— Não (sabia). Uma investigação teve que ser conduzida pela Polícia Federal e pelo Ministério Público antes que descobríssemos. Você normalmente não vê a corrupção acontecendo. Isso é típico da corrupção, ela se esconde.

A corrupção se esconde, sim. Mas um chefe atento, cuidadoso, acaba descobrindo. Mais ainda quando a corrupção assume as proporções de um tsunami.

Lula e seu companheiro de viagens – o lobista da Odebrecht Alexandrino Alencar

Thiago Bronzatto
Revista ÉPOCA

A Polícia Federal rastreia viagens do ex-presidente ao exterior – entre elas as realizadas ao lado de Alexandrino, preso na Lava Jato

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acomodava-se no Gulfstream G200, avião executivo com altura de cabine de quase 2 metros, naquele 21 de maio de 2011. O jatinho é um dos maiores de sua classe, a executiva. Tem mesa de reunião, acabamento em madeira de lei e pontos USB para laptops. A viagem de cerca de 5.000 quilômetros do Panamá a São Paulo aconteceu na aeronave prefixo PR-WTR. Lula não estava sozinho. Voava ao lado do lobista da Odebrecht Alexandrino Alencar, preso recentemente na Operação Lava Jato, acusado de ajudar a empreiteira a operar as propinas do petrolão no exterior. Alexandrino pediu demissão na semana passada de seu cargo na Odebrecht e teve a prisão preventiva decretada pelo juiz Sergio Moro. Em seu despacho, Moro escreveu: “Além das provas em geral do envolvimento da Odebrecht no esquema criminoso de cartel, ajuste de licitações e de propina, há prova material de proximidade entre Alberto Youssef e Alexandrino Alencar”. Naquele dia de maio de 2011, Lula passou pelo sistema de migração da Polícia Federal às 7h07; o lobista, quatro minutos depois. Estavam juntos, como juntos estavam em mais aventuras do que admitem até hoje.

 COMPANHIA
O ex-presidente Lula e o lobista Alexandrino Alencar (ao fundo, de gravata)
 em visita ao Peru, em 2013. Os dois são amigos e costumam se cumprimentar
 com beijos no rosto durante as viagens que fazem juntos

ÉPOCA obteve um relatório da PF com as entradas e as saídas do Brasil de Lula e do lobista Alexandrino, entre 2011 e o início deste ano. Há a comprovação de duas viagens da dupla, que já haviam sido noticiadas (para Cuba e para Guiné Equatorial), e a revelação de que ambos estiveram juntos em mais quatro ocasiões (nessa viagem para o Panamá; numa outra para Colômbia, Peru e Equador; numa terceira para Portugal; e numa quarta para a África, passando por Angola e Gana). Além de atestar que a relação de Lula e Alexandrino era muito próxima, as planilhas da PF permitem, pela primeira vez, conhecer o sistema Uber particular de Lula – quem banca e como viaja o ex-presidente pelo mundo afora. São 78 trechos internacionais. As planilhas não identificam destino e origem das viagens. Mas apontam quem são os donos das aeronaves: em alguns casos, empreiteiras, bancos, importadores e companhias têxteis. Em outros, empresas alugando jatinhos de companhias de táxi-aéreo.

As viagens de Lula e Alexandrino não foram ocasionais. Os dois são amigos. Depois das viagens que faziam juntos, costumavam se cumprimentar com afetuosos beijos no rosto. Na sala de Alexandrino, na sede da Odebrecht em São Paulo, uma foto com Lula dividia espaço com retratos de familiares do executivo. Quando se referia a Lula, Alexandrino o chamava de “presidente” ou de “chefe” – deferência não dispensada nem sequer ao próprio Marcelo Odebrecht.

Tamanha era a intimidade entre os dois que Alexandrino acompanhava Lula em reuniões e eventos restritos a autoridades de Estado, mesmo quando o tour não era bancado exclusivamente pela Odebrecht. Numa excursão pela América do Sul, Lula viajou com uma comitiva de executivos da OAS, da Camargo Corrêa, da Andrade Gutierrez e da onipresente Odebrecht – todas acusadas de participar do cartel do petrolão. A viagem começou pela Colômbia: Lula embarcou em 3 de junho de 2013, às 9h41, de São Paulo para Bogotá. Lula foi a bordo do mesmo jatinho que o levara ao Panamá, dois anos antes. O lobista da Odebrecht (Alexandrino, não Lula) havia embarcado horas antes, às 7h39, para a capital colombiana. Lá, eles se encontraram com o presidente do país, Juan Manuel Santos, e participaram de encontros com empresários. Lula e Alexandrino seguiram então para o Peru, onde foram recebidos pelo então chefe de Estado, Ollanta Humala. Em fotos oficiais, o lobista da Odebrecht aparece a um passo de Lula. Os dois não param de rir. O périplo político da dupla terminou no dia 8 de junho de 2013, data em que ambos regressaram ao Brasil, em voos diferentes.

Em encontros com autoridades estrangeiras, Lula sempre defendia o interesse das empresas brasileiras em fazer negócios com o país de destino. “Por isso, a gente fazia questão de bancar as viagens dele”, disse um executivo de uma grande empreiteira antes de ser preso na última fase da  Lava Jato. O investimento se mostrava certeiro. Em 13 de março de 2013, por volta das 8 horas, Lula e Alexandrino embarcaram no aeroporto de Guarulhos com destino a Nigéria, Benin, Gana e Guiné Equatorial. Quatro meses depois dessa passagem de Lula pela África, a Odebrecht ganhou um contrato de uma obra de transporte com o governo ganês, contando com US$ 200 milhões do BNDES. Em 17 de abril do mesmo ano, o presidente de Gana, John Mahama, visitou o Brasil para lançar o seu livro Meu primeiro golpe de Estado. Aproveitou para ter reuniões reservadas com Lula e representantes da Odebrecht, segundo telegramas do Itamaraty.

Em alguns casos, era o próprio Lula quem decidia quando e para onde queria viajar. Em mensagens de celular enviadas em 12 de novembro de 2013, Léo Pinheiro, presidente da construtora OAS, outro amigo de Lula preso na Lava Jato, e o diretor da área internacional da companhia, Augusto César Uzeda, acertavam detalhes dos preparativos para uma viagem do petista, a quem chamam de “Brahma”. “O Brahma quer fazer a palestra dia 24/25 ou 26/11 em Santiago”, diz Léo Pinheiro. “Amanhã começamos a organizar, o avião é por nossa conta”, escreve Uzeda. No dia 26 de novembro, às 10h53, conforme o combinado, o ex-presidente passou pela imigração e, em seguida, embarcou no mesmo Gulfstream G200, alugado da Global Aviation. No Chile, ele participou do seminário Desenvolvimento e integração da América Latina. No dia 10 de dezembro de 2013, um consórcio integrado pela OAS, a sul-coreana Hyundai, a francesa Systra e a norueguesa AasJakobsen venceu a licitação para a construção de uma ponte de 2.750 metros sobre o Canal de Chacao, considerado o mais longo da América Latina, depois de apresentar a única oferta. O valor estimado do investimento da obra é de US$ 680 milhões.

Numa viagem de Lula e Alexandrino para Cuba, República Dominicana e Estados Unidos, em janeiro de 2013, a Odebrecht pagou, por meio de sua parceira comercial D.A.G. Construtora, R$ 435 mil para fretar uma aeronave da Líder Táxi-Aéreo, segundo revelou o jornal O Globo em abril deste ano. Em 2011, Lula incluiu Alexandrino numa viagem à Guiné Equatorial em que ia como chefe da delegação brasileira participar da Assembleia da União Africana, de acordo com reportagem da Folha de S.Paulo.

Documentos obtidos por ÉPOCA revelam que empresas de diversos setores bancaram as viagens de Lula pelo mundo afora. Ainda no ramo das empreiteiras, no dia 5 de setembro de 2011, por volta das 11h30, o ex-presidente embarcou numa aeronave modelo Falcon 900EX Easy no aeroporto internacional do Recife. A operadora do jato é a Morro Vermelho Táxi-Aéreo, do grupo Camargo Corrêa – que, além de cobrir as despesas com o avião, doou R$ 3 milhões ao Instituto Lula e repassou R$ 1,5 milhão para a empresa do líder petista LILS Palestras Eventos e Publicidade entre 2011 e 2013. Meses antes, em fevereiro, Lula viajara a bordo de um Cessna C750, dacompanhia têxtil Coteminas, do empresário Josué Gomes da Silva, e embarcara num Bombardier BD-700 Global Express, pertencente à mineradora Vale, com destino a Guiné, onde participou de um evento de início das obras de reconstrução de uma ferrovia.

(Foto: reprodução)
PLANO DE VOO
O Gulfstream usado por Lula (acima) e as planilhas da Polícia Federal (abaixo).
 Elas mostram a chegada de Lula e Alexandrino Alencar a Guarulhos, com quatro minutos de diferença 


Outros aviões de grandes empresários brasileiros também já estiveram à disposição das viagens do ex-presidente petista entre 2011 e 2014: o de Sérgio Habib, da montadora JAC Motors; o de José Seripieri Junior, dono da operadora de de saúde Qualicorp; de Jonas Barcellos, da empresa de máquinas Brasif e conhecido como o “rei dos free-shops”; Marcelo Henrique Limirio Gonçalves, fundador da Neo Química e sócio da Hypermarcas. Além deles, de Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto, ex-ministro do Turismo no governo Lula e conselheiro de Administração da empresa de educação Kroton.

Procurada, a Odebrecht informou que pagou as despesas das viagens do ex-presidente para Angola, Gana, Panamá, Peru, Portugal e República Dominicana. A empresa ainda disse que o ex-diretor de relações institucionais, Alexandrino Alencar, acompanhou Lula a todos esses destinos – e que o executivo “não participava de reuniões do ex-presidente, além daquelas estritamente relacionadas às palestras que o ex-presidente faria”. Além disso, a empresa confirma que fez doações ao Instituto Lula, mas não revela valores. A Camargo Corrêa, dona da Morro Vermelho Táxi-Aéreo, diz que patrocinou as palestras do ex-presidente Lula em Portugal, em setembro de 2011; em Moçambique e na África do Sul, em novembro de 2012; na Colômbia, em julho de 2013.

A Vale informou que Lula fez apenas uma viagem em aeronave da empresa. A Queiroz Galvão informa que contratou Lula para três palestras na América Latina e na África em 2011 e em 2013 como uma forma de patrocinar eventos promovidos por entidades de fomento ao desenvolvimento econômico e social. “Tais contratações se deram de forma legal e declarada aos órgãos competentes. Em nenhuma dessas situações houve utilização de aeronave de propriedade da empresa para transporte do palestrante”, diz a companhia. A Brasif afirmou que cedeu ocasionalmente a aeronave para Lula, sendo algumas vezes a convite da própria empresa. O empresário Josué Gomes afirmou que, em 2011, o assunto já “foi o objeto de reportagens”.

Sérgio Habib e Marcelo Henrique Limirio Gonçalves não responderam até o fechamento desta edição. Walfrido Silvino dos Mares Guia Neto, por meio de sua assessoria, disse que Lula realizou 14 viagens entre 2013 e 2015 em sua aeronave Cessna Citation CJ3. Já a OAS disse que não vai responder às perguntas feitas por ÉPOCA. Procurado, o Instituto Lula informou por meio de sua assessoria de imprensa que tem como política divulgar as viagens do ex-presidente ao exterior. “As viagens do ex-presidente Lula ao exterior não foram de turismo ou passeio. Foram dando palestras, falando bem do Brasil no exterior para investidores e autoridades estrangeiras, estimulando a participação de jovens na política e divulgando políticas sociais de combate à fome em eventos na África, América Latina, Estados Unidos, Europa e Ásia”, diz o Instituto Lula. “No caso de atividades profissionais, palestras promovidas por empresas nacionais ou estrangeiras, o ex-presidente é remunerado, como outros ex-presidentes que fazem palestras. O ex-presidente já fez palestras para empresas nacionais e estrangeiras dos mais diversos setores – tecnologia, financeiro, autopeças, consumo, comunicações – e de diversos países como Estados Unidos, México, Suécia, Coreia do Sul, Argentina, Espanha e Itália, entre outros. Como é de praxe, as entidades promotoras se responsabilizam pelos custos de deslocamento e hospedagem”, complementa. “A maioria das viagens do ex-presidente ao exterior não foram pagas pela Odebrecht, que contratou palestras para empresários e convidados em países onde a empresa já atua”, reitera. Além disso, o Instituto diz que todas as doações recebidas são contabilizadas e foram pagos todos os impostos correspondentes.

Conforme ÉPOCA revelou em maio, o Núcleo de Combate à Corrupção da Procuradoria da República no Distrito Federal iniciou uma investigação para apurar se o ex-presidente praticou tráfico de influência internacional junto a chefes de Estado e autoridades em favor da Odebrecht, maior beneficiária dos financiamentos do BNDES no exterior. O MPF está analisando as relações entre o ex-presidente e a construtora baiana, sobretudo com o lobista Alexandrino Alencar. Lula está passando por uma turbulência sem fim.

Planalto monta linha de defesa frágil para Dilma153

Josias de Souza


Ao confirmar que transferiu R$ 7,5 milhões do dinheiro roubado da Petrobras para a tesouraria da campanha presidencial de Dilma Rousseff em 2014, o empreiteiro Ricardo Pessoa transformou a presidente da República numa personagem irreconhecível —uma mistura de administradora ingênua com candidata distraída. Na presidência do Conselho de Administração da Petrobras, Dilma não viu a ação dos assaltantes. No palanque eleitoral, usufruiu do produto do roubo.

Consumado o constrangimento, o Planalto montou uma linha de defesa precária. Nesse enredo, a presidente continuará fazendo pose de aliada dos investigadores. Repetirá que a Lava Jato só avança porque os governos do PT criaram as condições. Tomará distância do caixa de sua campanha, mas ecoará o discurso de que o dinheiro da eleição foi 100% legal. E seus auxiliares cuidarão de realçar que as construtoras enroladas doaram verbas também a candidatos da oposição.

Essa linha de defesa é frágil porque exige que a plateia aceite Dilma como uma cega atoleimada. E supõe que a Procuradoria, o STF o próprio TSE aceitarão passivamente a conversão da Justiça Eleitoral em lavanderia de verbas mal asseadas. Se tudo funcionar como planejado, Dilma chega ao final do mandato como uma presidente de desenho animado.

Às vezes parece faltar-lhe o chão. Mas Dilma continua caminhando no vazio. Se reconhecer que está pisando em nada, despencará. Acha que, simulando que não se deu conta, conseguirá atravessar o abismo. Torce para que ninguém estranhe nada e para que não lhe façam muitas perguntas. Só não pode olhar para baixo.

Para jurista, propina 'oficial' não livra Dilma de punição

Gabriel Castro
Veja online

Para ex-ministro, confissão de Ricardo Pessoa pode levar a investigação por lavagem de dinheiro; na Justiça Eleitoral, possibilidade de punição é nebulosa

(Bruno Domingos/Reuters)
 A Presidente Dilma Rousseff participa da cerimônia de lançamento 
do Plano Nacional de Exportações, no Palácio do Planalto, 
em Brasília (DF), nesta quarta-feira (24)

A campanha de Dilma Rousseff em 2014 recebeu 7,5 milhões de reais desviados da Petrobras, segundo o autor das doações, o empreiteiro Ricardo Pessoa. Como revelou VEJA, o dono da UTC admitiu ter repassado o dinheiro por meio de doações legais, registradas na Justiça Eleitoral. Na avaliação de juristas, entretanto, isso pode não ser suficiente para livrar a presidente de uma investigação criminal.

O advogado e ex-ministro da Justiça Miguel Reale Júnior não tem dúvida de que, com base no relato de Ricardo Pessoa, tanto o empreiteiro quanto os beneficiários das doações podem ser enquadrados no crime de lavagem de dinheiro. "Ele transformou dinheiro ilícito em dinheiro lícito. E quem recebe participa do processo porque é coautor", afirma.

Em uma primeira análise, o imputado diretamente seria o tesoureiro Edinho Silva, que, de acordo com Ricardo Pessoa, mencionou os contratos na Petrobras para pressionar o empreiteiro a doar dinheiro do petrolão para a campanha - o petista nega.

Na avaliação de Reale, a responsabilização de Dilma Rousseff dependeria da comprovação de que ela tinha ciência dos atos.

Além da questão criminal, o ex-ministro afirma que a delação premiada de Ricardo Pessoa é um argumento a mais para os defensores do impeachment de Dilma. A confissão demonstra como, de um lado, o governo não impediu os desvios na Petrobras e, de outro, a presidente foi diretamente beneficiada pelo esquema. "Está tudo se fechando", opina o jurista.

Justiça Eleitoral -
 O advogado eleitoral Eduardo Nobre afirma que o recebimento de recursos ilícitos - mesmo que por meio de doações oficiais - é uma possível causa de ação na Justiça Eleitoral. Mas ele lembra que, à luz da legislação e da jurisprudência, os prazos para questionar as contas da campanha de 2014 já se encerraram. "A ação com maior prazo prevê 180 dias depois da diplomação", explica.

Uma possível brecha seria o uso da delação de Pessoa para sustentar um pedido de cassação do registro feito pelo PSDB ainda em dezembro, dentro do prazo legal. Na petição, os tucanos questionam a diplomação de Dilma justamente por causa das acusações de que a campanha foi abastecida por dinheiro sujo. A ação ainda não foi julgada pela Justiça Eleitoral.

Fernando Pimentel é apontado como “chefe da organização” de lavagem de dinheiro

Filipe Coutinho, com Leandro Loyola
Revista ÉPOCA

E, segundo a PF, a mulher do governador de Minas recebia dinheiro de empresas ligadas ao BNDES


(Fotos: Luiz Costa/Hoje Em Dia/Estadão Conteúdo e reprodução)


REDE
O governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel, e sua mulher, Carolina(acima). 
De acordo com a Polícia Federal, eles usaram a empresa de Carolina para receber 
dinheiro de empresas. O operador do esquema, segundo a PF, era o empresário 
Benedito Oliveira Neto (abaixo) 


Sexta-feira, 15 de novembro de 2013. José Dirceu, José Genoino e outros petistas iam presos pelo escândalo do mensalão. O Brasil fervia. Mas uma estrela do PT estava serena. O então ministro Fernando Pimentel, amigo próximo da presidente Dilma Rousseff e hoje governador de Minas Gerais, tirava uns dias de folga do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. Às 9h55, Pimentel e sua namorada, Carolina Oliveira, decolavam do hangar de Brasília com destino à Bahia. O jatinho era do empresário Benedito Oliveira Neto, o Bené, amigo de Pimentel e suspeito de lavagem de dinheiro. Enquanto petistas históricos iam presos, Pimentel ia com a namorada para o Kiaroa Resort, na Península de Maraú, ao sul de Salvador. O bangalô master do resort era um luxo. Duas piscinas privativas, enxoval de algodão egípcio e travesseiros de pluma de ganso. No feriadão, o casal comprou boné, tomou cinco caipiroskas com vodca Absolut, comeu dois pratos de camarão à provençal, duas tapiocas, moqueca e mandioca frita. O weekend custou R$ 12.127,50.Bené pagou. A nota fiscal é apenas uma das fartas provas obtidas pela Polícia Federal, no âmbito da Operação Acrônimo, que coloca Pimentel no topo da cadeia de comando de um esquema que envolve contratos públicos, consultorias de fachada – e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES.


 (Fotos: Wesley Rodrigues/Hoje em Dia/Folhapress e reprodução)


 CAIPIROSKA
A fatura do resort em que Pimentel se hospedou com Carolina (acima) em 2013 
e agentes da PF recolhendo provas na última quinta-feira (abaixo). O Brasil fervia, 
e Pimentel tirava férias pagas pelo empresário Bené 


O feriado que Pimentel passou na Bahia com a namorada é uma amostra do esquema que a Polícia Federal desbaratou, em outubro do ano passado, depois de uma batida pegar Bené e outros empresários com R$ 113 mil em um avião. Bené é apenas um intermediário. Nas palavras de um investigador, ele tem tudo para ser um “Marcos Valério de estimação”. O centro da Operação Acrônimo é Fernando Pimentel e o principal foco é o BNDES. A PF descobriu que Carolina Oliveira mantinha uma empresa com apenas um funcionário e, mesmo assim, fez fortuna. Em comum, todos os clientes de Carolina Oliveira têm negócios diretos ou indiretos com o BNDES, banco subordinado ao Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, que seu marido, Pimentel, chefiava. Segundo a PF, o casal pode ser enquadrado em três crimes: corrupção passiva, participação em organização criminosa e lavagem de capitais.

“O atual governador Fernando Pimentel, enquanto ocupou o cargo de ministro e em razão daquela condição, recebeu vantagem financeira indevida, no valor de R$ 299.882,05, da Diálogo Ideias e Pepper Interativa, esta última pessoa jurídica que foi contratada e recebeu valores do BNDES, por meio de contratação simulada da empresa de titularidade da companheira de Fernando Pimentel”, diz um trecho do relatório da PF. A Pepper recebeu cerca de R$ 500 mil do BNDES entre 2013 e 2014. E deu para Carolina R$ 236.882,05 no mesmo período. A PF levantou a suspeita de que, na verdade, a mulher de Pimentel pode ser sócia oculta da Pepper, “condição esta que deveria ser escamoteada em razão do recebimento de valores pela Pepper do BNDES”.

No apartamento que o casal mantinha em Brasília, a PF descobriu uma tabela que trazia o nome de Carolina e seu número de celular – o que significava que a planilha havia sido escrita por uma terceira pessoa. O título era “Planilha de Acompanhamento dos Pagamentos”. O frigorífico Marfrig aparece com valores de R$ 595 mil, referentes a novembro de 2011 a abril de 2012. O grupo Casino, que controla a rede Pão de Açúcar, é marcado com R$ 362.868,20, entre abril e julho de 2012, como ÉPOCA revelou na quinta-feira. Ambos tiveram negociações com o BNDES. “É razoável inferir-se que pode ter havido simulação de contratação da Oli Comunicação (empresa de Carolina)e pelo grupo Casino e pelo Marfrig, a fim de repassar valores, que, em última análise, poderiam ter como destinatário o então ministro”, escreveu a PF em seu relatório.

Ajuste fiscal: ruim com ele, pior sem ele

João Pedro Caleiro 
Exame.com 

Leo Cinezi/SXC


São Paulo - As medidas de ajuste fiscal passaram, mas a dúvida permanece: elas serão suficientes para garantir a meta de superávit primário de 1,2% em 2015?

A arrecadação está desabando, disparando rumores de que o alvo será modificado. O ministro da Fazenda Joaquim Levy diz que o debate é precipitado.

Alguns agentes do mercado consideram que atingir algo próximo de 0,8% já seria suficiente para impedir o rebaixamento da nota de crédito, objetivo primeiro do esforço fiscal.

No debate “O Ajuste Fiscal, Emprego e Produtividade”, promovido pela Fecomercio na sua sede em São Paulo na manhã desta sexta-feira, alguns economistas notaram o outro lado: mesmo difícil, a economia atual pode não ser suficiente.

“Enquanto não tivermos a capacidade de sinalizar estabilidade na trajetória da dívida pública, o crescimento não vai voltar. Quem fala que o governo está forçando a barra precisa lembrar que um superávit de 2% é o mínimo para estabilizar divida bruta, e mais que o dobro é necessário para estabilizar a dívida líquida”, diz Fernando Holanda Barbosa, pesquisador do IBRE/FGV.

Além disso, o ajuste só está enxugando gelo na medida em que o aumento de juros pelo Banco Central exige por si só uma montanha cada vez maior de recursos. A despesa com juros saltou de R$ 195 bilhões em 2010 para uma estimativa de R$ 390 bilhões em 2015. 

“Ao elevar os juros se está ampliando o custo de financiamento da dívida que já é elevado, asfixiando o sistema de crédito e inibindo a atividade. Todo o esforço hercúleo para geração de um superávit primário será insuficiente para pagar o acréscimo do custo de financiamento da divida. É uma grande distorção que tem que ser enfrentada”, diz Antonio Corrêa de Lacerda, professor da PUC-SP.

Todos apontaram que o ajuste é necessariamente doloroso, com efeitos sobre o emprego e os salários, mas ainda assim é possível proteger os mais pobres das suas piores consequências.

Além disso, a alternativa ao ajuste é ainda pior: “uma crise mais profunda e mais prolongada”, nas palavras de Holanda. 

É possível proteger os mais pobres do ajuste, diz professor

João Pedro Caleiro, 
Exame.com 

Vladimir Platonow/Abr 
Favela do Mandela, na zona norte do Rio, é uma das mais pobres da cidade, 
com esgoto correndo em meio às casas

São Paulo – Com a aprovação pela Câmara do fim das desonerações, o ajuste fiscalé cada vez mais uma realidade concreta – assim como suas consequências.

Ontem, o Ibge divulgou que o desemprego subiu para 6,7% em maio, maior nível em quase 5 anos - e a taxa deve continuar subindo. 

Para Samuel Pessôa, chefe do Centro de Crescimento Econômico do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE/FGV), por enquanto é precipitado colocar isso na conta do ajuste, já que a economia vem de um processo longo de desaceleração.

 “Nestes anos, nunca houve falta de demanda agregada, e sim desorganização da produção e queda da produtividade, o resultado de um ensaio nacional desenvolvimentista”.

Segundo ele, o ajuste se tornou inevitável: "nossos gastos são fruto de um modelo de contrato social, mas o nosso estado já não cabe dentro do PIB”.

Para Fernando Holanda Barbosa, também pesquisador do IBRE/FGV, a alternativa ao ajuste é uma “crise mais profunda e mais prolongada”. 

Os dois economistas participaram nesta manhã do debate “O Ajuste Fiscal, Emprego e Produtividade”, promovido pela Fecomercio na sua sede em São Paulo.

Para os presentes, fazer o ajuste não é só controlar gastos, mas mudar o equilíbrio em uma economia com problema crônico de produtividade e que já esgotou a inclusão da força de trabalho como força de crescimento.

O Brasil vinha de um círculo virtuoso no qual a entrada na força e os aumentos de salário dos trabalhadores menos qualificados geravam demanda pelos serviços que empregavam mais este próprio grupo.

O aumento da renda das mães, em particular, permitiu que muitos jovens saíssem da força de trabalho para estudar, o que puxou para baixo a taxa de desemprego entre estes jovens – que sempre foi mais alta.

Por que essa dinâmica não continuou? Porque “é impossível um país dar reajuste de salário acima da produtividade para sempre”, diz Holanda.

E a produtividade brasileira mal se moveu na última década: hoje, um trabalhador brasileiro produz o mesmo que um chinês. Até pouco tempo, eram necessários dez chineses para fazer o trabalho de um brasileiro. 

“E a partir do momento que e a renda de trabalho dos adultos começa a cair, termina essa dinâmica positiva e a taxa de participação dos jovens começa a subir um pouco”, diz Naércio Menezes, coordenador do Centro de Políticas Públicas do Insper.

Desemprego
É esta pressão dupla que empurra o desemprego a partir de agora: corte de vagas no momento em que mais pessoas voltam ao mercado acuadas pela crise.

Mas se o salário real cai, o desemprego não sobe tanto, e vice-versa. Nesse sentido, os economistas notam que mercado de trabalho brasileiro tem se mostrado mais flexível do que o esperado.

Dados compilados por Hélio Zylberstajn, professor da FEA-USP, mostram que pela primeira vez em uma década, a variação anual na folha salarial está caindo. 

Além disso, os acordos feitos já em 2015 entre trabalhadores e empresas têm consolidado reduções de jornada e de salários reais: "a dificuldade chegou à mesa de negociação”, resume Hélio.

Desigualdade
Neste contexto, a prioridade deve ser preservar os ganhos dos últimos anos entre os mais vulneráveis. Paradoxalmente, a ainda altíssima desigualdade brasileira faz com que isso não seja tão difícil.

Como os 50% mais pobres (100 milhões de brasileiros) tem apenas 15% da renda nacional, é possível – pelo menos na teoria – fazer com que a outra metade absorva a queda do PIB per capita sem maiores consequências para o equilíbrio macroeconômico.

“Os pobres estão hoje mais conectados ao carro chefe da economia brasileira, então também sentem mais a crise, mas agora é o momento de aproveitar a desigualdade que ainda existe para isolá-los. Você ainda tem 2 Brasis, o que é péssimo, mas no momento da crise é bom”, diz Ricardo Paes de Barros, professor do Insper.

Ele nota que como a pobreza no Brasil ainda é desproporcionalmente concentrada em municípios pequenos e áreas rurais, a interiorização do gasto público e dos recursos de transferência de renda pode ser um instrumento poderoso para preservar uma dinâmica positiva.

Os focos de cortes deveriam ser outros: a alta desigualdade de remuneração no setor público, os subsídios para grandes grupos e os desequilíbrios na Previdência.

Governo é mentiroso ou desinformado sobre criminalidade?

Francisco Vieira
Tribuna da Internet

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), órgão do governo federal, divulgou um estudo que demonstra que os menores foram responsáveis, em 2013, por 12,7% dos crimes considerados graves, como homicídio, latrocínio, lesão corporal e estupro. Mas há outros números muito piores. Por exemplo: 92% dos homicidas nunca compareceram à Justiça e os seus crimes permanecem impunes.

E olha que eu não estou falando dos bandidos que têm direito às benesses que o Partido dos Trabalhadores tratou de empurrar goela abaixo da população, nem dos que estão respondendo em liberdade e nem dos mandados de prisão não cumpridos, porque o PT, pelo fato de não querer ver bandido na cadeia, simplesmente não construiu presídios em mais de 12 anos de governo.

No Rio de Janeiro, a coisa está mais feia: A chance de uma pessoa assassinar outra no e ser denunciada pelo Ministério Público, com base em inquérito policial, é de apenas 3,5%, segundo pesquisa do sociólogo Michel Misse, diretor do Núcleo de Estudos em Cidadania, Conflito e Violência Urbana da UFRJ. O estudo foi realizado em 2012, mas de lá para cá continua tudo na mesmo.

Isso significa que 96,5% dos responsáveis pelas mortes no Rio de Janeiro estão por aí, desfilando no trânsito, nos bares, nas festas, nas padarias, nos mercados, entre as pessoas de bem… Uma esculhambação total e descaso do Estado com as vítimas e com o sofrimento dos seus parentes, ainda vivos.


Papo de pulador de cerca

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Neste momento, mais importante do que estreitar as bandas da meta de inflação é obter a derrubada dela 

O Conselho Monetário Nacional, também conhecido pela sigla Cemenê - assim, com sotaque do sertão -, decidiu quinta-feira que o intervalo de escape da política de metas de inflação ficou mais estreito. A partir de 2017, não será mais de 2 pontos porcentuais para cima e para baixo, mas sim de, 1,5 ponto. 

Esse não é um assunto tão chato quanto para alguns possa parecer. Mexe fortemente com os juros e é fator importante na vida econômica de qualquer pessoa. Por isso, convém esmiuçá-lo. A meta de inflação, sempre determinada pelo governo, no caso pelo Cemenê, é o ponto para onde têm de embicar os efeitos da política de controle de inflação. 

O instrumento para isso é a política monetária (política de juros), que é o sistema de válvulas que regulam o volume de dinheiro na economia. Se a inflação se afasta da meta, o Banco Central tem de retirar dinheiro até o nível em que o jogo da oferta e da procura de moeda pratique os juros predeterminados pelo Copom. Neste momento, são de 13,75% ao ano. Se a inflação reflui, o Banco Central pode injetar moeda e, com mais dinheiro na praça, os juros caem. 

No momento, a meta de inflação é de 4,5% ao ano e tem de ser atingida a cada fim de ano. Como nem sempre é possível essa precisão, a cada 31 de dezembro o sistema brasileiro admite intervalos de tolerância. No momento, são de 2 pontos porcentuais acima ou abaixo desses 4,5%, portanto, de 2,5% a 6,5%. 

Essa área de escape é uma característica do regime de metas do Brasil. Outras economias não operam nem precisam desse molejo, porque também não têm data prefixada para o cumprimento da meta. Os bancos centrais dos Estados Unidos (Federal Reserve) e da Inglaterra (Bank of England), por exemplo, miram sempre nos 2% em 12 meses - e não no fim do ano-calendário. Por isso, não criam vagalhões no mercado se, episodicamente, em consequência dos imponderáveis de sempre, acusarem certo desvio do objetivo. 

O problema do Brasil, no momento, não é só o descumprimento da meta, mas o enorme desvio do tiro. Apontou para o Pico do Jaraguá e acertou o alto da Freguesia do Ó. A inflação está disparando para a altura dos 9,0% ao ano, o que dá o dobro da meta. Nessas condições, o mais importante do ponto de vista das diretrizes de política monetária não é reduzir a área de escape da meta, mas acertar pelo menos a placa do alvo. 

A explicação oficial é a de que o estreitamento do intervalo entre as bandas poderá facilitar o esforço do presidente Alexandre Tombini a recuperar a credibilidade do Banco Central, corroída por três anos de irresponsabilidade monetária e muito discurso vazio. 

Isso parece papo de pulador de cerca. Já que não pode ou não quer ser fiel, o sujeito jura que voltará meia hora mais cedo para casa. Não é propriamente garantia de fidelidade, mas pode ser entendido como reafirmação de bons propósitos. 

Neste momento, mais importante do que estreitar as bandas da meta é obter a derrubada da inflação. As apostas gerais são de que, depois de enterrados os mortos e tratados os feridos, lá por meados de 2017 a inflação pode, finalmente, voltar para os trilhos dos 4,5% ao ano. Ou seja, não está ganha nem a batalha contra a alta de preços nem a da reconquista das expectativas. 

CONFIRA:

  

Apesar da crise, a Bolsa não está despencando. Ao contrário, neste ano até essa sexta-feira, o Ibovespa avançou 8,02%. 

Regime de urgência
O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), garantiu nesta sexta-feira que, uma vez aprovada pelo Senado a proposta de eliminar a exigência de participação da Petrobrás em qualquer consórcio do pré-sal, a Câmara votará a matéria em regime de urgência. A forte adesão dos políticos à correção do marco regulatório do pré-sal é consequência da ameaça de redução do pagamento de royalties.

Natureza da crise

Míriam Leitão
O Globo 

Uma semana depois da prisão de Marcelo Odebrecht e Otávio Azevedo, o balanço possível é que, por mais emblemático que seja prender os presidentes das duas maiores empreiteiras do país, não é só isso que vai nos livrar da corrupção. O que pode mudar é todo o processo, simbolizado pela Lava-Jato, de combate às práticas de relações viciadas entre políticos e empresas no Brasil.

Não há uma única operação de combate à corrupção. Há várias em curso. Elas têm a mesma natureza e nasceram da urgência que o país deu a este assunto, e o fez porque houve uma escalada dessa relação promíscua entre o público e o privado nos últimos anos. A Lava-Jato representa a melhor oportunidade que surgiu de o país pôr um limite ao descalabro e começar a estabelecer novas formas, transparentes e seguras, da relação entre empresas que prestam serviços aos órgãos e empresas públicas.

Toda prisão preventiva é, por sua natureza, temporária. É decretada para proteger o processo contra riscos específicos, como fuga do suspeito ou destruição de provas. O primeiro perigo não havia. Marcelo Odebrecht estava em local certo e sabido. Sobre o segundo risco, os temores aumentaram pelo próprio punho do investigado, em um bilhete em que, no mínimo, a palavra "destruir" foi escrita de forma impensada. O importante na prisão de Odebrecht e do presidente da Andrade Gutierrez, Otávio Azevedo, é provar que não há intocáveis. Havendo indícios, a lei recai sobre qualquer cidadão.

O governo quer retomar os investimentos e, com a maioria das grandes empreiteiras sendo investigadas, propõe a saída mais rápida: fazer acordo de leniência para as empresas continuarem operando. A palavra "leniência" já contamina a ideia, com a sensação de que vai ser aceito o inaceitável. Há duas visões em conflito. A primeira é que a economia precisa recuperar seu ritmo e, se a empresa não foi condenada, não pode ser punida. A segunda é que empresas suspeitas de práticas de delitos, que estão sendo investigadas, não deveriam voltar a fazer contratos com o setor público, sob pena de repetição da prática delituosa. O governo defende a primeira ideia; o juiz Sérgio Moro sustenta a segunda. É um impasse difícil de resolver, mas o que faz a balança pender para o juiz é que, mesmo diante de todas as evidências, delações, provas materiais, algumas dessas grandes empresas não admitem ter feito algo de errado. Como é mesmo que a elas se daria a "leniência"? É uma contradição: se, como alegam, não cometeram delitos, por que precisariam de perdão prévio?

A economia está mal por vários motivos. Mesmo se não houvesse operação Lava-Jato, é certo que os erros na administração da política econômica teriam levado o país à recessão e à crise de confiança. As incertezas em torno da gestão das principais empreiteiras aumentam, sem dúvida, o clima recessivo e têm efeitos concretos em vários negócios. Mas há projetos de investimento recentemente anunciados cujas preliminares nem foram feitas. Em qualquer cenário, não poderiam ser deslanchados, por falta de coisas, como estudo de viabilidade.

O financiamento do investimento continuaria sendo um problema, havendo ou não Lava-Jato, porque ele estava sendo garantido pelos repasses bilionários do Tesouro ao BNDES, que foram interrompidos, por serem insustentáveis. Chegaram a R$ 500 bilhões. O corte nos investimentos públicos ocorreria de qualquer maneira porque o governo não está conseguindo cumprir suas metas fiscais, não tem cortado o suficiente em despesas não obrigatórias, e as obrigatórias têm crescido.

Portanto, não é a Lava-Jato que está provocando a crise, apesar de a operação de combate à corrupção, pela sua magnitude e pelas empresas investigadas, ter de fato um impacto na economia. É equivocado tentar resolver de outra forma, que não o devido processo legal, sob o argumento de que a economia precisa andar. Seria temerário encobrir, em nome da economia, todas as dúvidas que surgiram nestas 14 fases da operação. A prisão de um específico empresário, por mais poderoso que seja, não imuniza o país contra a corrupção. O processo como um todo é que fará a diferença. E, infelizmente, ele não pode ser abreviado.

O Reizinho do BNDES

Sebastião Nery
Tribuna da Internet

Meses depois da renúncia em agosto de 1961, Jânio Quadros voltou da Europa em 1962 e se candidatou a governador de São Paulo, com um slogan do saudoso deputado baiano, cassado em 1964, João Dória: -“A renúncia foi uma denúncia”.

Por sugestão de José Aparecido de Oliveira, Luís Lopes Coelho, presidente do “Barzinho do Museu”, em São Paulo, reuniu alguns jornalistas e intelectuais amigos, de São Paulo e do Rio, na casa dele, para uma conversa com Jânio: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Mário Neme, Darwin Brandão, eu, outros. Jânio estava alegre, até que Darwin perguntou:

– Presidente, o senhor prometeu que, quando voltasse da Europa, denunciaria as “forças ocultas” que o levaram à renúncia. Quais foram?

Jânio ficou irritado: – Meu caro Darwin, não falei em “forças ocultas”, mas em “forças terríveis”! É o que disse. E mantenho. Forças muito poderosas!

Revirou os olhos e se calou. Pegou o uísque, levantou-se, chamou Paulo Mendes Campos a um canto da sala:

– Meu caro Paulinho, quero dizer-te uma coisa. Não é fácil renunciar a tanto poder. O Presidente, neste País, meu caro Paulinho, é um rei. Fui um reizinho! Um reizinho, Paulinho, tu sabes!

A reunião acabou. Sobre a renúncia, nada. Morreu sem explicar.

LULA
O Brasil está com um reizinho de coroa suja, agora enlameada na Operação Lava Jato. Lula saiu do governo e criou algumas arapucas para fabricar dinheiro fácil.  Ele diz que o Instituto Lula e o LILS (Palestras, Eventos e Publicidade) são para articularem suas “conferências”.

Mas que “conferências”? Quando, onde, sobre que assunto? Ele chama de “conferências” suas baboseiras nas reuniões do PT. Quem já assistiu a uma “conferência” de Lula? Ele não faz “conferencias”. Faz “transferências”. Só a Camargo Correia transferiu 3 milhões de dólares para o cofre do Instituto Lula e mais 1 milhão e meio para o cofre do LILS.

Apesar da conhecida esperteza do reizinho, o escândalo ia acabar nas manchetes dos jornais como Globo e capas de revistas como Época e Veja.

BNDES
Todo reizinho tem seu trono. O de Lula está instalado no BNDES. É lá que ele fatura seus lobes viajando pela America Latina e África nos jatinhos das empreiteiras, de preferência a serviço de um ditador corrupto.

1.-No primeiro trimestre deste ano, o BNDES tinha R$ 202 bilhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 40% do total dos recursos do FAT. Com a transferência de dinheiro do Tesouro, o banco tinha uma carteira para investimentos de R$ 500 bilhões. O governo paga a taxa selic de 13,75%, ao ano, elevando a dívida pública, pela transferência de dinheiro caro para subsidiar os banqueiros “amigos”.

1. – As dez maiores empresas brasileiras concentram 40% dos recursos destinados aos investimentos interno e externo. Juros baixos e prazos longuíssimos caracterizam esses empréstimos. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje está em 6% ao ano, com prazos variáveis de 10 até 25 anos. Nos últimos anos, as empresas apelidadas de “campeões do desenvolvimento” concentraram a quase totalidade dos investimentos.

2. – Obrigado pelo TCU e STF, o BNDES divulgou obras realizadas por empresas brasileiras de engenharia. Elas têm do banco, lá fora, crédito mais barato do que os praticados quando o investimento é realizado no Brasil. Aqui, na área de infraestrutura, o financiamento mais barato é o Programa de Investimento em Logística (7% ao ano).Em Honduras, em junho de 2013, em financiamento de US$ 145 milhões, o BNDES fixou juros em 2,83%. Em Angola, os juros foram de 2,79%.

MÃE DILMA
1. – O BNDES investiu US$ 11,9 bilhões em projetos das empreiteiras lá fora. As maiores beneficiárias são Odebrecht (US$ 8,2 bilhões, 69% dos recursos), Andrade Gutierrez (US$ 2,81 bilhões), Queiroz Galvão (US$ 388 milhões); OAS (US$ 354 milhões); Camargo Correa (US$ 255 milhões).

2. – O BNDES, com garantia do Tesouro, a taxas de juros “amigas”, opera em Angola com empréstimos de US$ 3.383 bilhões e juros de 5,32%; na Venezuela US$ 2.252 bilhões e juros de  4,29%; na República Dominicana US$ 2.204 bilhões e juros 4,85%, na Argentina US$ 1.872 bilhão e juros de 4,83%, em Cuba US$ 847 milhões e juros de 5,38%.

3. – Em Moçambique US$ 444 milhões e juros de 4,89%, na Guatemala US$ 280 milhões e juros de 4,94%, no Equador US$ 228 milhões e juros de 3,75%; em Gana US$ 216 milhões e juros de 3,75%, em Honduras US$ 145 milhões e juros de 2,83%; e Costa Rica US$ 44,2 milhões e juros de 4,07%.

Aqui dentro é a “Mãe Dilma” do PT. Lá fora, a “Filha de Lula”.

O dinheiro é público

Míriam Leitão e Alvaro Gribel  
O Globo

O Brasil está tomado de debates diferentes, mas que se resumem à saudável discussão de qual é o melhor destino do dinheiro que é público. Na democracia, é natural que contribuintes participem das decisões sobre origem e destino dos impostos. Discute-se o dinheiro do BNDES às empresas, o gasto da previdência, as pedaladas, as desonerações, as metas fiscais.

São debates aparentemente diferentes, mas que fazem parte do mesmo conjunto de decisões das quais a sociedade tem que participar. O GLOBO trouxe ontem a informação de que custa R$ 1,1 bilhão ao Fundo de Amparo ao Trabalhador o financiamento de operações externas, citando cálculo do Insper. O “Valor” disse que os empresários querem um debate despolitizado sobre o tema e argumentam, na defesa dos créditos subsidiados, que eles geram emprego. O BNDES estranha que se discuta agora o que existe há muito tempo.

Existe há muito tempo, mas jamais chegou a um volume tão alto, a ponto de ameaçar o equilíbrio fiscal. Por isso, entrou fortemente na agenda o interesse de ter mais informações sobre o que se passa no banco — critérios, custos, garantias de empréstimos concedidos às empresas com juros subsidiados. O TCU quer saber mais, o STF acha que quem lida com dinheiro público tem que prestar contas. Esse debate já deveria existir há mais tempo. Há vozes roucas de tanto pedir por essa transparência, com o argumento que foi agora apresentado pelo ministro Luiz Fux, do STF.

Conhecidos os dados, a sociedade pode decidir se o melhor a fazer com o dinheiro público é emprestar os recursos do FAT ao BNDES cobrando 1% de juros ou não. O FAT é dinheiro público, cujo destino principal é garantir o seguro-desemprego. Tem tido déficit, e o seu rombo é coberto pelo Tesouro que, por sua vez, tem déficit também e se financia pagando juros de quase 14% ao ano. Portanto, além dos recursos que originalmente capitalizam o fundo, há no FAT capital derivado de endividamento do governo federal. As empresas financiadas criam emprego, mas não o fazem por benemerência. Têm lucros em suas operações, portanto, por que deveríamos agradecê-las subsidiando tão fortemente suas operações?

O dinheiro, farto em uma ponta, falta em outra ponta. É um único Tesouro. É um único cobertor curto. Recentemente, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, nos informou que “o dinheiro acabou”. Por isso, há um acirramento do debate sobre onde é melhor gastar o dinheiro público.

O déficit da previdência, só do INSS, foi de R$ 61 bilhões no ano passado, e o da previdência dos servidores públicos está no mesmo patamar. O Congresso decidiu que, no caso do trabalhador do setor privado, que se aposenta pelo INSS, o país deve contratar um aumento de gasto justamente em época em que o déficit tende a subir pelo envelhecimento da população. Por que faz isso? Por demagogia. E por que o PSDB, que criou o fator previdenciário, votou a favor da medida? Oportunismo inconsequente e contraditório. Não podemos jogar sobre as crianças de hoje o peso de carregar, amanhã, uma previdência falida. A previdência é um pacto entre gerações. O que o Congresso fez foi jogar sobre quem não tem voz, nem consciência dos problemas hoje, o peso de trabalhar mais, quando chegar a sua vez, para sustentar os mais velhos.

Ao mesmo tempo, o Congresso é contra acabar com as desonerações. Elas aliviaram muitas empresas em 56 setores do pagamento excessivo de impostos sobre o trabalho. O ideal seria que o alívio continuasse, mas o que a equipe econômica está mostrando é que o desequilíbrio é tão forte que é preciso cortar todos os benefícios fiscais, mesmo os mais meritórios.

O TCU está olhando com lupa as contas da presidente Dilma e verifica que o governo mandou os bancos pagarem obrigações orçamentárias e demorou a cobrir a conta ou nem pagou ainda. Em alguns casos, o passivo é oculto. A Lei de Responsabilidade Fiscal proíbe. E proíbe porque no passado isso quebrou bancos públicos e gerou inflação. 

Se o dinheiro é público, é preciso saber de onde vem, para onde vai, como é gasto, que escolhas são feitas, como a despesa é registrada, que subsídios embutidos existem. Quanto maior o debate sobre isso, mais forte é a democracia. O nome do jogo é: o contribuinte tem o direito de saber e de participar das decisões.


Créditos do BNDES a países estrangeiros embutem subsídios de US$ 4,5 bilhões

Alexa Salomão 
O Estado de S. Paulo

Cifra é apontada em cálculos feitos pelo Insper, que comparam taxas cobradas pelo banco com taxas de emissões de títulos públicos feitas pelos países que receberam os financiamentos

Os financiamentos concedidos a países estrangeiros, para abrir caminho a empreiteiras brasileiras no exterior, embutem bilhões de dólares em subsídios oferecidos pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A cifra beira os US$ 4,5 bilhões, segundo cálculos feitos pelo professor João Manoel Pinho de Mello, do Insper. O valor é quase metade do volume de recursos que o banco emprestou desde 2007, que foi de US$ 11,9 bilhões.

Os chamados financiamentos à exportação de serviços de engenharia têm um padrão. Não são concedidos diretamente às empreiteiras. São feitos, em dólar, com os países onde as obras vão ocorrer. Quem se responsabiliza pelos pagamentos são os governos estrangeiros. O dinheiro, porém, é liberado para a construtora brasileira, em reais, aqui no Brasil, pela cotação da moeda americana. A empresa se compromete a usar o dinheiro na aquisição de produtos e de serviços brasileiros destinados ao empreendimento no exterior. Segundo o BNDES, os desembolsos ocorrem à medida que a obra vai avançando. 

Para fazer o cálculo, Mello utilizou uma métrica padrão para identificar subsídios: comparou as taxas dos financiamentos do BNDES comas taxas de emissões de títulos públicos que os países tenham feito em datas e prazos similares.

Obras do metrô na região central de Caracas: 
empreendimento da Odebrecht com subsídios do BNDES

Lógica. No mundo das finanças, quanto maiores são os prazos e os riscos, maiores são as taxas cobradas. Os financiamentos do BNDES nem sempre seguem essa lógica. Veja o exemplo de seis financiamentos concedidos entre março e abril deste ano. Foram liberados em meio às discussões sobre cortes de investimentos no Brasil para se fazer o ajuste fiscal, e beneficiaram uma única construtora, a Odebrecht, que, como outras de grande porte, está sob investigação na Operação Lava Jato. 

A operação com o valor mais elevado, de US$ 656 milhões, foi para a construção de uma termoelétrica a carvão na República Dominicana. O contrato de financiamento entre o BNDES e o governo daquele país foi assinado em 9 de março deste ano. Por coincidência, a República Dominicana fez uma emissão de títulos públicos uma semana antes. Os números destoam. A emissão teve uma taxa de 10,38% para um prazo de 7 anos. O financiamento do BNDES teve mais que o dobro do prazo – 16 anos –, mas menos da metade da taxa exigida pelo mercado – 4,14%. Por causa dessas disparidades, o subsídio ficou em US$ 330 milhões, praticamente metade do financiamento. 

Os outros cinco financiamentos somam US$ 4,4 bilhões para um sistema de abastecimento de água na Argentina. Ocorre que a Argentina, que passa por séria crise financeira, travou uma queda de braço na Justiça americana para renegociar títulos de sua dívida e está fora do mercado de emissões. Recorreu ao BNDES justamente porque não conseguia tocar a obra com recursos próprios. Ainda assim, as taxas dos financiamentos são baixas: entre 3,9% e 4,6%. 

Jayme Gomes da Fonseca Júnior, diretor financeiro na Odebrecht para a América Latina, defende a lógica das operações. “Primeiro, a Odebrecht pode estar sob investigação, mas não foi indiciada e tem acessado sem problemas linhas de financiamentos”, diz. “Segundo, o mercado na região está ultra competitivo e ‘subsidiadíssimo’: concorremos com países da Europa e com a China e sem o apoio do BNDES perderíamos contratos em países como a República Dominicana, que está dedicada a um ajuste fiscal que limita sua capacidade para financiar grandes obras.”

Apoio. Pelos números, o BNDES não mediu esforços para apoiar empresas brasileiras nesses países mais complicados. A Venezuela, por exemplo, recebeu o subsídio mais gordo: US$ 1,4 bilhão em quatro operações. O país fez uma emissão de títulos em agosto de 2010, com prazo de 12 anos. Na época, já seguia a cartilha controversa de Hugo Chávez (falecido em 2013), como medidas intervencionistas no mercado interno e um discurso anti-imperialista na cena internacional. Por ser considerado um país arriscado, a taxa de juros da emissão foi de dois dígitos: 12,75%. Em dezembro daquele ano, o BNDES assinou um empréstimo, com prazo idêntico ao da emissão. A taxa, porém, foi bem menor: 4,45%. 



Taxas generosas também foram oferecidas a países africanos. Gana é um exemplo ilustrativo. Fez uma emissão de títulos em julho de 2013, com prazo de dez anos. O mercado aceitou o título a uma taxa de 8%. Por coincidência, naquele mesmo ano e mês, o BNDES deu um financiamento a Gana com o mesmo prazo, dez anos. A taxa, porém, foi de apenas 2,80%. 

“O presidente do BNDES já argumentou várias vezes que concorrentes como a China levariam contratos em países emergentes se o BNDES não fizesse essas operações, mas fica a pergunta: o Brasil quer entrar na disputa por subsídios lá fora quando há tantas obras a fazer aqui?”, diz Mello.

Empreiteira pediu a Cardozo munição para anular provas

Veja online

Advogados da Odebrecht se reuniram com o ministro da Justiça para questionar a legalidade de informações obtidas sobre a empresa na Suíça

(Ueslei Marcelino/Reuters)
 Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o novo bombeiro do PT 

Com o intuito de conseguir munição para minar as investigações da Operação Lava Jato no exterior, advogados da empreiteira Odebrecht se reuniram com o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para saber se os procuradores da força-tarefa que investiga o esquema de corrupção na Petrobras obtiveram provas na Suíça de maneira ilegal, informou o jornal Folha de S. Paulo nesta sexta-feira. A reunião ocorreu no gabinete do ministro no dia 5 deste mês e consta na agenda pública de Cardozo. Nesta quinta-feira, ele admitiu que tratou da Lava Jato com três advogados da empresa, o diretor jurídico Mauricio Ferro, o constitucionalista Pedro Serrano e a criminalista Dora Cavalcanti.

A defesa da Odebrecht suspeita que os procuradores conseguiram informações bancárias da empreiteira no país europeu antes que o Ministério da Justiça apresentasse às autoridades suíças um pedido de colaboração. Se isso for confirmado, a empresa poderá recorrer à Justiça para anular as provas. A legislação determina que informações coletadas em outros países só podem ser usadas no Brasil após passar por trâmites legais intermediados pelo Ministério.

Após ouvir o questionamento dos advogados, o ministro teria sugerido que formalizassem uma solicitação para obter mais detalhes sobre a cooperação com a Suíça. O Ministério ainda não respondeu ao pedido. Na mesma ocasião, a defesa também registrou em ata uma reclamação sobre supostos vazamentos da investigação conduzida pela Polícia Federal do Paraná.

A petição contesta duas visitas dos procuradores à Suíça, em novembro de 2014 e em janeiro deste ano. "Não se sabe quando, por quem, em que termos e por quais fundamentos tais diligências foram autorizadas, e nem mesmo se houve prévia tramitação do indispensável pedido de cooperação às autoridades suíças", escreveram os advogados.

A Procuradoria Geral da República disse estar "tranquila" quanto à legalidade das provas obtidas na Suíça, pois as duas viagens foram intermediadas pelo órgão central de cooperação internacional. No país europeu, eles tiveram acesso a informações que julgaram ser úteis no processo e fizeram pedidos formais ao Ministério para que as provas fossem enviadas para o Brasil.

Após reportagem de VEJA revelar que o ministro se lançou numa ofensiva para acalmar as empreiteiras envolvidas no petrolão, Cardozo se defendeu nesta quinta-feira, dizendo que "em nenhum momento tocou-se na possibilidade de o governo ajudar a libertação de presos". "Eu disse: 'me façam uma representação que eu apuro'. A quem eles tinham que dirigir essa representação. Ao juiz? Não. Ao Ministério da Justiça, porque a Polícia Federal está subordinada ao Ministério da Justiça", completou.