segunda-feira, junho 29, 2015

A lista de favorecidos no petrolão, segundo Ricardo Pessoa

Revista VEJA

VEJA desta semana revela quem são os 18 figurões da República a quem o dono da UTC, em sua delação premiada, diz ter dado dinheiro

(VEJA.com/VEJA)
Ricardo Pessoa revela detalhes do esquema de corrupção da Petrobras
 e entrega a lista dos beneficiados com o dinheiro desviado: 
as campanhas eleitorais de Dilma e Lula, deputados, 
senadores e ministros do governo

O engenheiro Ricardo Pessoa, dono da construtora UTC, tem contratos bilionários com o governo, é apontado como o chefe do clube dos empreiteiros que se organizaram para saquear a Petrobras e cliente das palestras do ex-presidente Lula. Desde a sua prisão, em novembro passado, ele ameaça contar com riqueza de detalhes como petistas e governistas graúdos se beneficiaram do maior esquema de corrupção da história do país. Nos últimos meses, Pessoa pressionou os detentores do poder - por meio de bilhetes escritos a mão - a ajudá-lo a sair da cadeia e livrá-lo de uma condenação pesada. 

Ao mesmo tempo, começou a negociar com as autoridades um acordo de delação premiada. o empresário se recusava a revelar o muito que testemunhou graças ao acesso privilegiado aos gabinetes mais importantes de Brasília. O Ministério Público queria extrair dele todos os segredos da engrenagem criminosa que desviou pelo menos 6 bilhões de reais dos cofres públicos. Essa negociação arrastada e difícil acabou na semana passada, quando o ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), homologou o acordo de colaboração entre o empresário e os procuradores.

VEJA teve acesso aos termos desse acerto. O conteúdo é demolidor. As confissões do empreiteiro deram origem a 40 anexos recheados de planilhas e documentos que registram o caminho do dinheiro sujo. Em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília, Pessoa descreveu como financiou campanhas à margem da lei e distribuiu propinas. 

Ele disse que usou dinheiro do petrolão para bancar despesas de 18 figuras coroadas da República. Foi com a verba desviada da estatal que a UTC doou dinheiro para as campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. Foi com ela também que garantiu o repasse de 3,2 milhões de reais a José Dirceu, uma ajudinha providencial para que o mensaleiro pagasse suas despesas pessoais. A UTC ascendeu ao panteão das grandes empreiteiras nacionais nos governos do PT. Ao Ministério Público, Pessoa fez questão de registrar que essa caminhada foi pavimentada com propinas. Altas somas.

A lista dos acusados
Valores
Campanha de Dilma em 2014
7,5 milhões de reais
Campanha de Lula em 2006
2,4 milhões de reais
Ministro Edinho Silva (PT)
*
Ministro Aloizio Mercadante (PT)
250.000 reais
Senador Fernando Collor (PTB)
20 milhões de reais
Senador Edison Lobão (PMDB)
1 milhão de reais
Senador Gim Argello (PTB)
5 milhões de reais
Senador Ciro Nogueira (PP)
2 milhões de reais
Senador Aloysio Nunes (PSDB)
200.000 reais
Senador Benedito de Lira (PP)
400.000 reais
Deputado José de Fillipi (PT)
750.000 reais
Deputado Arthur Lira (PP)
1 milhão de reais
Deputado Júlio Delgado (PSB)
150.000 reais
Deputado Dudu da Fonte (PP)
300.000 reais
Prefeito de São Paulo Fernando Haddad (PT)
2,6 milhões de reais
O ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto
15 milhões de reais
O ex-ministro José Dirceu
3,2 milhões de reais
O ex-presidente da Transpetro Sergio Machado
1 milhão de reais
* Como tesoureiro, arrecadou dinheiro para a campanha de Dilma de 2014


A ruína da era Lula

Flávia Tavares, Leandro Loyola e Diego Escosteguy
Revista ÉPOCA

Acossado pelas investigações da Lava Jato e cada vez mais impopular, o ex-presidente parte para o ataque – e expõe o ocaso do modo petista de fazer política

Num encontro recente com os principais chefes do PMDB, o ex-presidente petista Luiz Inácio Lula da Silva, novo líder da oposição ao governo petista de Dilma Rousseff, comparou a presidente a uma adolescente mimada. Na analogia, Lula se apresenta no papel de pai preocupado. O petista, como é de seu hábito, sempre aparece nesse tipo de metáfora como figura sensata, arguta, sábia. Desempenha a função do pai – do bom pai. “Ela (Dilma) faz bobagem, você senta para conversar e dizer por que aquilo foi errado. Ela concorda, claro”, disse Lula. “Mas não demora, logo no dia seguinte, ela vem e faz tudo de novo. Te chamam na delegacia para buscar a filha pelo mesmo motivo.” Todos eram homens, e riram. A culpa pelas desgraças do país não é da Geni. É de Dilma.

A historinha de Lula, compartilhada num momento de intimidade política, revela quanto Lula tem, de fato, de argúcia – e quanto Dilma tem de impopularidade. Conforme a aprovação da presidente aproxima-se do chão (10%), como mostrou o Datafolha na semana passada, mais à vontade ficam os políticos para fazer troça da petista. Até ministros próximos de Dilma, que conseguem trabalhar há anos com ela, apesar das broncas mal-educadas que recebem cotidianamente, não escondem mais o desapreço pela presidente. “A Dilma conseguiu implodir as relações com os movimentos sociais, com o Congresso e com o PIB”, diz um desses ministros, que é do PT. “O segundo governo acabou antes de começar. Estamos administrando o fracasso e os problemas do primeiro mandato. Resta apenas o ajuste fiscal para o país não quebrar.”

Ninguém discorda que Dilma é uma presidente estranha. Num momento de crise profunda no país que ela governa, só aparece em público para pedalar pelas ruas de Brasília. Os políticos mais antigos lembram-se das corridas matinais de Collor nas proximidades da Casa da Dinda, quando o governo dele desmoronava. Transmite o mesmo tipo de alienação. Na semana passada, num discurso que entrará para os arquivos da Presidência da República, Dilma “saudou a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil”. Estava no lançamento dos Jogos Indígenas. Falou de improviso. Inventou expressões como “mulheres sapiens” e pôs-se a elogiar a bola usada pelos índios. “É uma bola que eu acho um exemplo, é extremamente leve. Já testei e ela quica”, disse Dilma. Um ministro que presenciou o discurso não acreditou no que via. “Dava vontade de sair correndo e tirar o microfone dela”, diz ele, ainda rindo da cena.

O esporte do momento em Brasília, como fez Lula, é ridicularizar Dilma. Mas será ela a verdadeira responsável pela crise que acomete o Brasil em 2015? Ninguém discorda de que a presidente tem responsabilidade – e muita – pela crise econômica. Mas os fatos políticos dos últimos meses, e em especial das últimas semanas, demonstram que a crise prolongada – política, social, criminal e econômica – é sintoma da ruína de uma era, uma era definida não por Dilma, mas por quem a concebeu politicamente: Lula, o pai. Trata-se de uma era em que o PT exerceu o poder por meio do fisiologismo do mensalão e do petrolão, abandonando, a partir do governo Dilma, a razoabilidade econômica e a conciliação política.



O tesoureiro do PT e a República do pixuleco

Robson Bonin
Revista VEJA

Era essa a palavra que, por pudor, vergonha, ou puro despiste, João Vaccari Neto usava para se referir ao dinheiro de propina com que a empreiteira UTC abastecia o caixa de seu partido

(VEJA.com/VEJA)
 MOCH - Ricardo Pessoa contou que o tesoureiro do PT ia regularmente 
a seu escritório em São Paulo nos sábados para buscar dinheiro 
desviado dos cofres da Petrobras

Homem do dinheiro, João Vaccari Neto é citado em diferentes trechos da delação de Ricardo Pessoa. O tesoureiro do PT aparece cobrando propina, recebendo propina, tratando sobre propina. O empreiteiro contou que conheceu Vaccari durante o primeiro governo Lula, mas foi só a partir de 2007 que a relação entre os dois se intensificou. Por orientação do então diretor de Serviços da Petrobras, Renato Duque, um dos presos da Operação Lava-Jato, Pessoa passou a tratar das questões financeiras da quadrilha diretamente com o tesoureiro. 

A simbiose entre corrupto e corruptor era perfeita, a ponto de o dono da UTC em suas declarações destacar o comportamento diligente do tesoureiro: "Bastava a empresa assinar um novo contrato com a Petrobras que o Vaccari aparecia para lembrar: 'Como fica o nosso entendimento político?'". A expressão "entendimento político", é óbvio, significava pagamento de propina no dialeto da quadrilha. Aliás, propina, não. Vaccari, ao que parece, não gostava dessa palavra.

Como eram dezenas de contratos e centenas as liberações de dinheiro, corrupto e corruptor se encontravam regularmente para os tais "entendimentos políticos". João Vaccari era conhecido pelos comparsas como Moch, uma referência à sua inseparável mochila preta. Ele se tornou um assíduo frequentador da sede da UTC em São Paulo. Segundo os registros da própria empreiteira, para não chamar atenção, o tesoureiro buscava "as comissões" na empresa sempre nos sábados pela manhã. Ele chegava com seu Santa Fé prata, pegava o elevador direto para a sala de Ricardo Pessoa, no 9º andar do prédio, falava amenidades por alguns minutos e depois partia para o que interessava. 

Para se proteger de microfones, rabiscava os valores e os porcentuais numa folha de papel e os mostrava ao interlocutor. O tesoureiro não gostava de mencionar a palavra propina, suborno, dinheiro ou algo que o valha. Por pudor, vergonha ou por mero despiste, ele buscava o "pixuleco". Assim, a reunião terminava com a mochila do tesoureiro cheia de "pixulecos" de 50 e 100 reais. Mas, antes de sair, um último cuidado, segundo narrou Ricardo Pessoa: "Vaccari picotava a anotação e distribuía os pedaços em lixos diferentes". Foi tudo filmado.

Senha: tulipa? Contrassenha: caneco!

Robson Bonin
Veja online

A campanha de Lula à reeleição recebeu dinheiro sujo das empreiteiras envolvidas no petrolão

 (Leslie Mazoch/AP) 
Lula durante campanha para reeleição em 2006
 na cidade de São Bernardo do Campo (SP)

Em 2006, Lula conquistou um novo mandato ao derrotar, em segundo turno, o tucano Geraldo Alckmin. Com a vitória, ele adotou como prática zombar dos efeitos eleitorais do mensalão, descoberto um ano antes e até então o maior esquema de corrupção política da história do país. As denúncias de compra de apoio parlamentar, dizia o líder petista, não haviam sido capazes de conter o projeto de poder do partido. Também pudera. Sem que ninguém soubesse, na campanha à reeleição, Lula contou com a ajuda do petrolão e recebeu uma bolada desviada dos cofres da Petrobras. 

Segundo o empreiteiro Ricardo Pessoa, a UTC contribuiu com 2,4 milhões de reais em dinheiro vivo para a campanha à reeleição de Lula, numa operação combinada diretamente com José de Filippi Júnior, que era o tesoureiro da campanha e hoje trabalha como secretário de Saúde da cidade de São Paulo. Para viabilizar a entrega do dinheiro e manter a ilegalidade em segredo, o empreiteiro amigo de Lula e o tesoureiro do presidente-candidato montaram uma operação clandestina digna dos enredos rocambolescos de filmes sobre a máfia.

Pessoa contou aos procuradores que ele, o executivo da UTC Walmir Pinheiro e um emissário da confiança de ambos levavam pessoalmente os pacotes de dinheiro ao comitê da campanha presidencial de Lula. Para não chamar a atenção de outros petistas que trabalhavam no local, a entrega da encomenda era precedida de uma troca de senhas entre o pagador e o beneficiário. Ao chegar com a grana, Pessoa dizia "tulipa". Se ele ouvia como resposta a palavra "caneco", seguia até a sala de Filippi Júnior. A escolha da senha e da contrassenha foi feita por Pessoa com emissários do tesoureiro da campanha de Lula numa choperia da Zona Sul de São Paulo.

 Antes de chegar ao comitê eleitoral, a verba desviada da Petrobras percorria um longo caminho. Os valores saíam de uma conta na Suíça do consórcio Quip, formado pelas empresas UTC, Iesa, Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, que mantém contratos milionários com a Petrobras para a construção das plataformas P-53, P-55 e P-63. Em nome do consórcio, a empresa suíça Quadrix enviava o dinheiro ao Brasil. A Quadrix também transferiu milhares de dólares para contas de operadores ligados ao PT.

Pessoa entregou aos investigadores as planilhas com todas as movimentações realizadas na Suíça. Os pagamentos via caixa dois são a primeira prova de que o ex-presidente Lula foi beneficiado diretamente pelo petrolão. Até agora, as autoridades tinham informações sobre as relações lucrativas do petista com grandes empreiteiras investigadas na Operação Lava-Jato, mas nada comparável ao testemunho e aos dados apresentados pelo dono da UTC. 

Depois de deixar o governo, Lula foi contratado como palestrante por grandes empresas brasileiras. Documentos obtidos pela Polícia Federal mostram que ele recebeu cerca de 3,5 milhões de reais da Camargo Corrêa. Parte desse dinheiro foi contabilizada pela construtora como "doações" e "bônus eleitorais" pagos ao Instituto Lula. Conforme revelado por VEJA, a OAS também fez uma série de favores pessoais ao ex-presidente, incluindo a reforma e a construção de imóveis usados pela família dele. UTC, Camargo Corrêa e OAS estão juntas nessa parceria. De diferente entre elas, só as variações dos apelidos, das senhas e das contrassenhas. "Brahma", "tulipa" e "caneco", porém, convergem para um mesmo ponto.

Um desafio maior que a conquista da mandioca

Rolf Kuntz 
O Estado de São Paulo

Buscar emprego será o esporte de inverno para centenas de milhares de pessoas postas na rua pela recessão, no Brasil, e ainda sujeitas a preços em disparada. Foram fechadas 452.835 vagas formais nos 12 meses terminados em maio. Nos primeiros cinco meses do ano foram 243.948 postos encerrados e há sinais de piora. O semestre finda com desemprego na vizinhança de 8%, inflação no rumo de 9%, atividade em queda e Tesouro em crise, enquanto a presidente Dilma Rousseff saúda a mandioca e o PT defende as empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato. 

Não há mistério na preocupação do PT e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com as empreiteiras. Mas o entusiasmo presidencial com a mandioca, apontada como “uma das maiores conquistas do Brasil”, intriga por um detalhe: por que “conquista”? Embora o assunto seja fascinante, o Brasil poderá sobreviver sem resposta a essa pergunta. Difícil, mesmo, será sair do atoleiro com uma governante frágil, confrontada no Congresso, condenada e esnobada por seu eleitor mais importante, acuada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) e em risco permanente de ser contaminada pelo escândalo da Petrobrás. 

Em breve a presidente deverá explicar ao TCU as pedaladas fiscais do ano passado. Não há como negar os atrasos de repasses, tentativas evidentes de maquiar as contas da administração federal. Restará discutir se os adiantamentos feitos por bancos oficiais, com recursos próprios, caracterizam financiamento ao governo e, portanto, violação da Lei de Responsabilidade Fiscal. A resposta dependerá mais de sutilezas legais do que de uma simples e límpida verificação financeira. Não há, enfim, como excluir a hipótese de um arranjo para poupar a presidente e evitar uma crise política muito mais grave.

Contornado esse risco, sobrarão todos os grandes desafios – técnicos e políticos – do programa de governo. Com uma Presidência quase vaga e muita resistência no Congresso, a equipe econômica terá de avançar, de qualquer forma, no conserto das contas públicas, no ataque à inflação e na busca do retorno ao crescimento. Nessa altura, já se terá decidido, quase certamente, se a meta inicial para as finanças públicas será mantida ou se o governo buscará um resultado menos ambicioso. A meta original, um superávit primário de R$ 66,3 bilhões para pagamento de juros, parece hoje quase inalcançável. 

O governo central – Tesouro, Previdência e Banco Central (BC) – deve, em princípio, alcançar um resultado primário de R$ 55,2 bilhões, ficando o resto para os demais níveis da administração e para as estatais. O poder central fechou o mês passado com um déficit primário de R$ 8 bilhões e acumulou em cinco meses um superávit de apenas R$ 6,63 bilhões, 67,5% menor que o de um ano antes, descontada a inflação. Para cumprir a sua parte de acordo com o plano original terá de obter um resultado primário de R$ 48,6 bilhões em sete meses, quase um milagre. É preciso um enorme otimismo para apostar nisso. Com a economia atolada, a receita em cinco meses, R$ 529,57 bilhões, foi 3,5% menor que a de janeiro a maio de 2014. 

Nada permite prever um quadro muito melhor no segundo semestre. O novo cenário apresentado pelos economistas do Banco Central em seu relatório trimestral de inflação é bem pior que o anterior. A inflação prevista para ao ano subiu de 7,9% para 9%, enquanto a contração estimada para o produto interno bruto (PIB) passou de 0,5% para 1,1%. No mercado financeiro, a mediana das projeções na semana anterior já era de um PIB 1,46% menor que o do ano passado. Para a produção industrial estava prevista uma redução de 3,65%. Um mês antes ainda se estimava uma diminuição de 2,8%. 

Antes de sair o balanço do governo central, o pessoal da Receita já havia apontado os efeitos da recessão na coleta de impostos e contribuições. As quedas da produção industrial, do emprego, do consumo e das importações puxaram para baixo a arrecadação dos principais tributos. Se a atividade continuar deprimida, o aumento de alíquotas dificilmente reforçará de forma significativa a posição do Tesouro.

Além do aumento da tonelagem de grãos e oleaginosas, têm aparecido, no País, poucos indicadores positivos. O BC reduziu de US$ 84 bilhões para US$ 81 bilhões o déficit previsto para a conta corrente do balanço de pagamentos. Se a projeção for confirmada, haverá uma inegável melhora contábil, especialmente se for levado em conta o resultado de 2014, um buraco de US$ 104,84 bilhões. Mas a explicação principal será a piora da economia. Pela estimativa do BC, a exportação de mercadorias será 10,95% menor que a de um ano antes. O encolhimento da importação será bem maior, 14,68%. Com o desemprego elevado, a renda corroída, o consumo retraído e mais uma redução do valor investido em máquinas e equipamentos, a diminuição das importações será, como tem sido até agora, inevitável. 

Com a depreciação do real os produtos brasileiros deveriam ficar mais baratos no exterior, mas nem por isso as exportações deixaram de cair. O dólar mais caro pode ter pesado em algumas importações e certamente afetou a disposição de viajar e de gastar fora do Brasil. Mas o desequilíbrio menor das contas externas tem sido até agora, e com certeza será até o fim do ano, explicável principalmente pelo mau estado da economia.

Se o ajuste avançar e a inflação diminuir, retomar o crescimento será mais fácil. Mas ainda falta implantar medidas para o aumento da produtividade, uma condição indispensável. O programa de infraestrutura e o recém-anunciado plano de exportações indicam o caminho. Mas ainda são uma lista de bons propósitos. Sua execução depende, em parte, de recursos orçamentários muito escassos. A conquista do crescimento parece bem mais difícil, por enquanto, que a conquista da mandioca. 

Dilma afundou a economia e Lula acha que vai sobrar para ele

J.R. Guzzo
Revista EXAME

Divulgação 
Criatura e criador: o ex-presidente teme que os erros 
da sucessora deteriorem o mito que ele popularizou

São Paulo - Têm ampla circulação, nas salas onde se conversa a portas fechadas, os comentários de que o ex-presidente Lula estaria plenamente insatisfeito com o desempenho de sua sucessora, Dilma Rousseff, à frente do governo.

Lula, segundo se repete nos círculos à sua volta, não está feliz com quase nada do que tem visto, mas o foco central de seu descontentamento é a gestão atroz da economia durante estes quatro anos e meio da presença de Dilma no Palácio do Planalto — logo ela, Dilma Rousseff em pessoa, que seu criador descrevia como uma gerente “excepcional”, capaz de proezas administrativas que iriam deixar o planeta em transe de admiração.

Durante algum tempo, Lula fez bravos esforços para acreditar na fantasia da “gerentona”, pelo menos nos discursos. Mas quem diz economia diz resultados, e os resultados que Dilma tem posto à mesa são exatamente os que estão aí na frente de todo mundo — uma gororoba de números horrorosos que acaba com qualquer boa vontade em relação à cozinheira.

Ninguém gosta, é claro, mas o ex-presidente parece gostar menos do que todo mundo. Pelo que se murmura em suas vizinhanças, Lula começa a ficar com a impressão de que a performance econômica de Dilma pode causar avaria grossa em sua biografia; ela estaria “estragando” tudo aquilo que ele imagina ter construído.

A má notícia, aí, é que Lula pode estar certo. O atual governo ainda tem três anos e meio de contrato a cumprir — e, se de um lado isso significa que ainda há tempo para uma recuperação, também está perfeitamente claro que a caminhada até o fim do mandato vai demorar um colosso.

O que se tem à vista, no momento, não é de animar. O problema não está propriamente na ação do governo; ao contrário, o comando econômico, de janeiro para cá, tem agido de maneira consistente, profissional e aplicada contra o desastre arquitetado e executado com pertinácia pelo Palácio do Planalto desde 2011.

Tenta tomar as medidas necessárias para lidar com a situação objetiva que está aí; trabalha dentro de uma racionalidade desconhecida pela política econômica dos quatro primeiros anos do governo Dilma.

O problema está na evidência de que ao Brasil, com os problemas que tem hoje, não basta escapar do abismo — é preciso construir um futuro, e disso não há sinal. Nada do que possa levar ao progresso verdadeiro está em consideração pelos gestores da economia nacional, e nada indica que venha a estar em prazo próximo.

Os receios de Lula quanto à possível desconstrução de sua imagem ganham reforço com a divulgação, a cada mês, dos números doentes do balanço de contas externas — um dos setores da economia que mais brilharam em seu governo e colocaram o Brasil provavelmente na melhor situação cambial de sua história econômica.

Em seus oito anos na Presidência, Lula viu a balança comercial ter superávit oito vezes seguidas. No ano passado, as exportações brasileiras ficaram abaixo das importações em 4 bilhões de dólares — não se via isso desde 2000, o último ano em que o país teve déficit na balança comercial.

Na conta maior, a do balanço de pagamentos, a coisa está pior. Os últimos números, referentes ao mês de abril de 2015, mostram um déficit de 7 bilhões de dólares no total das transações externas do Brasil; até o fim do ano, o rombo deve chegar a 85 bilhões.

Não se trata de um percalço transitório, e sim da consequência direta de decisões econômicas e políticas claramente ineptas, tanto na frente interna quanto nas relações do país com o exterior. A evidência disso é o déficit de 105 bilhões de dólares no balanço de pagamentos de 2014, o maior que o Brasil jamais teve. Não existe acaso em catástrofes desse tamanho.

Lula sabe que os cerca de 370 bilhões de dólares que o Brasil tem em reservas cambiais no momento, e que nos separam de uma situação de insolvência em moeda forte, foram originados pelo sucesso das contas externas brasileiras durante seu governo. Não quer, é óbvio, ver essa poupança indo para o espaço.

Lula quer devolver Dilma?

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

O ex-presidente vê, como todo mundo, que o melhor lugar neste momento é na oposição — de preferência numa oposição popular

Ada Colau é a prefeita de Barcelona e certamente era nela que Lula estava pensando quando disse que o PT precisa de pessoas mais novas, audaciosas e com utopias. Ada vem de um movimento social, uma associação que se tornou conhecida por combater o despejo de moradores que não conseguiam pagar a prestação da casa própria. Foi detida algumas vezes por protestos de rua e se elegeu ao lado do Podemos, agremiação de esquerda que foi bem nas recentes eleições municipais. A plataforma: contra o ajuste fiscal do neoliberalismo, a mesma que conduziu ao governo grego o também militante Alexis Tsipras, do partido Syriza, uma coligação de esquerda radical.

No discurso da última segunda, Lula se referiu especialmente ao Podemos. Talvez porque Tsipras esteja neste momento enfrentando um dilema radical: ou faz um acordo com os credores (FMI, União Europeia e Banco Central Europeu) e, nesse caso, aceita um programa de ajuste fiscal, ou não faz o acordo, cumprindo a promessa eleitoral de romper com os credores, e quebra a Grécia e os gregos.

O espanhol Podemos, portanto, está na fase, digamos, romântica. Ganhou algumas eleições municipais, mas não a nacional. Tem força, é protagonista, mas não assumiu responsabilidade sobre a política econômica. Pode continuar, pois, a atacar os credores e o ajuste aplicado na Espanha, Portugal e Grécia.

O PT está longe da fase romântica dos movimentos de rua. O pessoal agora, segundo o próprio Lula, só quer saber de empregos e cargos. Ao contrário de Ada Colau, arrastada por policiais em diversos protestos, os petistas, ainda segundo o chefe, só saem dos gabinetes se o chefe liberar a folga. E ainda assim não engrossam mais as manifestações.

Para piorar as coisas, o governo Dilma, governo do PT, pelo menos por enquanto, criado e inspirado por Lula, está justamente aplicando um ajuste fiscal do tipo daqueles que Podemos e Syriza combatem. Ou seja, se Lula está certo, o governo do PT é formado por pelegos e oportunistas que, ainda por cima, aplicam um programa econômico dito neoliberal, que, de fato, impõe sacrifícios às famílias e severas restrições à atividade econômica.

Dá para complicar ainda mais. Lula não pode colocar a culpa na direita, nos neoliberais, nos credores internacionais, na banca global. O Brasil está como está por causa da chamada “nova matriz econômica”, introduzida no segundo mandato de Lula e reforçada no primeiro governo Dilma. A política de ajuste fiscal é o remédio necessário — o único que sobrou.

Eis porque as manifestações recentes de Lula deixam todos estupefatos, amigos e adversários. O ex-presidente vê, como todo mundo, que o melhor lugar neste momento é na oposição — de preferência numa oposição popular. Mas, para chegar lá, Lula tem que ser oposição ao seu próprio governo e ao seu próprio partido. O seu governo e seu partido têm que se defender do seu maior líder.

Não pode dar certo.

Por outro lado, reparem no seguinte: Dilma está no seu pior momento, com rejeição de 65% conforme o último Datafolha. O PT despenca, está abaixo do volume morto, segundo a boa imagem do ex-presidente. Mas ele, Lula, ainda salva 25% das preferências dos eleitores em qualquer cenário para 2018. De novo: a economia no chão, desemprego em alta, PT esculhambado e afundando na Lava-Jato, o próprio Lula citado como parceiro de empreiteiras cujos dirigentes estão presos, e ele faz 25%!

É tentador, não é mesmo? Desembarcar do governo, do PT, das alianças espúrias, inclusive com o PMDB, e formar um Lula-Podemos.

Lula tem jeito para convencer os outros. Precisará muito disso para convencer os demais eleitores que ele não tem nada com a política econômica, nem com a Lava-Jato, nem com os velhos companheiros, os presos e os soltos.

Tem mais: quando um partido ou uma pessoa desembarca do governo, é normal que devolva os cargos que tinha naquela administração. E como é que Lula devolve a presidente Dilma? Para quem?
Enquanto isso, melhor dar uma olhada no que acontece na Grécia. O momento não é nada bom para o jovem Tsipras. Com os cofres vazios, ele precisa de dinheiro dos credores. Para receber, tem que entregar um programa de ajuste — com cortes nos benefícios sociais e nas aposentadorias (é sempre o mesmo tema, sim) — e aprovar esse programa no Parlamento.

Muito difícil, porque ele formou uma maioria antiajuste e anticredores nesse mesmo Parlamento. Pode cair nas duas situações, portanto: ou porque não consegue aprovar o pacote — e a Grécia entra numa recessão horrorosa, daquela que derruba não um, mas vários governos; ou porque aprova o pacote e sua maioria se desfaz.

Tsipras aboliu a gravata. Vai às reuniões formais de paletó, mas sem gravata. Bem capaz de ser essa a única novidade que deixará.

Hino a Lula

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo 

Luiz Inácio Lula da Silva, nosso querido Lula, é uma das raras e fantásticas lideranças que conseguem transcender os limites de sua origem social, de sua cultura e de seu tempo histórico. Obrigado, Stálin. Obrigado, pois estou jubilante.

O culto a Stálin, deflagrado em meados dos anos 1930, acompanhou a ascensão do líder à condição de ditador inquestionável da URSS. O culto a Lula, expresso pela nota da bancada de senadores do PT, acompanha o declínio do ex-presidente, exposto como lobista do alto empresariado associado ao Estado.

Lula se fez contra os terríveis limites históricos, sociais e políticos que lhe foram impostos. É aquela criança pobre do sertão nordestino que deveria ter morrido antes dos cinco anos, mas que sobreviveu. É aquele miserável retirante que veio para São Paulo buscar, contra todas as probabilidades, emprego e melhores condições de vida, e conseguiu. Lula é, sobretudo, esse fantástico novo Brasil que ele próprio ajudou a construir. Obrigado, Stálin, pois estou bem. Séculos transcorrerão e as gerações futuras nos venerarão como os mais afortunados dos mortais porque tivemos o privilégio de ver Stálin.

O culto a Stálin tinha a finalidade de legitimar a eliminação física de toda a liderança bolchevique dos tempos da revolução de 1917, que se faria por meio dos Processos de Moscou. O culto a Lula tem, apenas, as finalidades de conservar o status quo no PT, evitando a crítica e a mudança, de impulsionar uma candidatura presidencial fragilizada e de tentar esterilizar as investigações da Lava Jato.

No cenário mundial, ninguém põe em dúvida a liderança de Lula no combate à pobreza, à fome e às desigualdades. Lula é o grande inspirador internacional das atuais políticas de inclusão social, reconhecido por inúmeros governos de diferentes matizes políticos e ideológicos. Lula é o rosto do Brasil no mundo. Os homens de todas as épocas chamarão teu nome, que é forte, formoso, sábio e maravilhoso.

O culto a Stálin atravessou duas fases. Na primeira, quando os ecos da revolução ainda reverberavam, o líder foi descrito como a imagem viva do proletariado internacional. Na segunda, marcada pela guerra mundial e associada à propaganda patriótica, Stálin tornou-se a personificação do povo soviético. O culto a Lula assemelha-se, nesse particular, à fase derradeira do culto a Stálin: o PT almeja ser igual ao Brasil.

Lula está muito acima da mesquinhez eleitoreira. Todas as vezes que me vi em sua presença, fui subjugado por sua força, seu charme, sua grandeza –e experimentei um desejo irreprimível de cantar, de gritar de alegria e felicidade. Lula é tão grande quanto o Brasil. Lula carrega em si a solidariedade, a generosidade e a beleza do povo brasileiro. Para esse povo e por esse povo, Lula fez, faz e fará história.

O culto a Stálin, uma engrenagem da propaganda de massas do totalitarismo, era a face midiática de um Estado-Partido que abolira a política, extinguindo por completo o fogo da divergência. O culto a Lula, ensaiado por políticos de terceira numa democracia representativa, é uma farsa patética: o sinal distintivo da degradação da linguagem petista. Atrás do culto ao líder soviético, desenrolava-se uma tragédia histórica. Atrás do culto ao chefão petista, descortina-se somente o vazio de ideias de um partido desnorteado, precocemente envelhecido.

Lula é uma afronta às elites que sempre apostaram num Brasil para poucos, num Brasil de exclusão e de desigualdades. Ó grande Lula, ó líder do povo/Tu que trazes os homens à vida/Tu que frutificas a terra/Tu que fazes a primavera florescer/Tu que vibras as cordas da música/Todas as coisas pertencem a ti, chefe do nosso grande país. E, quando a mulher que amo me presentear com um filho, a primeira palavra que ele deve proferir é: Lula.

Stálin matava de verdade; Lula mata de tédio.

A blindagem da caixa-preta

Elio Gaspari
O Globo

Graças à Polícia Federal e ao Ministério Público já se sabe que há décadas funcionavam no Carf quadrilhas

Há anos parlamentares e curiosos fazem perguntas banais ao Conselho Administrativo de Recursos Fiscais. Qual a percentagem de contribuintes que se livram de pagar impostos recorrendo a ele contra autuações da Receita Federal? Qual a percentagem de contribuintes que recorreram contra autuações superiores a R$ 1 milhão e foram atendidos? Graças à Polícia Federal e ao Ministério Público já se sabe que há décadas funcionavam no Carf quadrilhas de conselheiros, auditores aposentados e escritórios de advocacia. A Operação Zelotes investiga a conduta de 21 conselheiros e a central de bocarras teve seu funcionamento suspenso.

A má notícia é que as perguntas banais nunca foram respondidas. A boa é que o presidente de Conselho, doutor Carlos Alberto Freitas Barreto, informou à Câmara dos Deputados que “em breve” poderá divulgá-las. Só não o faz logo porque surgiu um problema no serviço de armazenamento de dados do Serpro. Fica combinado assim, faltando definir o significado de “em breve”.

Apesar do silêncio, o Carf divulgou uma valiosa planilha. Ela mostra que entre 2004 a 2014 chegaram ao Conselho 77 mil pleitos. Em metade deles os contribuintes recorreram contra autuações com valores na faixa de R$ 10 mil a R$ 100 mil. Juntos deviam R$ 1,2 bilhão. Outros 19 mil pleitos (24,6%) envolviam autuações superiores a R$ 1 milhão. Totalizavam cerca de R$ 515 bilhões. Para se ter ideia do tamanho desse ervanário, de janeiro a maio deste ano a Viúva arrecadou R$ 510 bilhões.

Recorrer ao Carf não é coisa para o andar de baixo. Mesmo empresas de porte médio pensam duas vezes antes de contratar advogados ou consultores especializados no assunto. Isso para não se falar nas contratações desvendadas pela Operação Zelotes. Na série agora divulgada, em nenhum ano o valor total dos recursos dos contribuintes milionários ficou abaixo de R$ 10 bilhões. 2013 foi um ano gordo: R$ 129 bilhões.

“Em breve”, quando o Carf especificar os valores dos recursos atendidos, vai-se descobrir o tamanho e a qualidade de sua compreensão. Se os recursos aceitos pelo conselho contra atuações milionárias ficar acima de 50%, de duas uma: a Receita está autuando de forma leviana ou o Carf virou um ralo. Por enquanto, o conselho está na posição de um hospital que não sabe informar as estatísticas de seu desempenho.

A Polícia Federal e o Ministério Público se meteram numa saia justa com o juiz Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília. O doutor negou todos os pedidos de prisão, suspendeu escutas telefônicas e não autorizou operações policiais. Acusam-no de cultivar um “crônico e grave quadro de ineficiência”.

Blindar o Carf pode parecer uma boa ideia. Afinal, em 2009 a empreiteira Camargo Corrêa blindou-se contra a Operação Castelo de Areia, e as empreiteiras assistiram a um verdadeiro milagre. Os recursos judiciais, ratificados pelo próprio Supremo Tribunal Federal, limparam os acusados e condenaram os investigadores. Passou o tempo e veio a Lava-Jato.

OS ALPES CARIOCAS DA DOUTORA LAGARDE
Sempre que os sábios do Fundo Monetário Internacional opinam sobre a economia brasileira são ouvidos com reverência. Tudo bem, mas outro dia sua diretora-executiva, a elegantérrima Christine Lagarde, viajou no teleférico do Morro do Alemão, no Rio de Janeiro, e disse o seguinte:

“Estou me sentindo numa estação de esqui.” Aquilo era algo “só visto nos Alpes”.

A doutora conhece as estações de esqui dos Alpes, e os brasileiros conhecem o morro do Alemão. Para juntar as duas coisas, é necessário soltar algum parafuso da cabeça. Madame Lagarde estava diante de outra realidade, mais instrutiva, mas não a viu.

O teleférico do Alemão tem 3,5 quilômetros de extensão e custou R$ 210 milhões. Foi inaugurado por Lula em 2010 e pela doutora Dilma em julho de 2011. Em nenhuma das duas ocasiões estava operando para os moradores da região. Quando o serviço começou, era inacessível para quem devia chegar ao trabalho às 8h da manhã. Um mês antes da visita da doutora aos Alpes cariocas, o serviço do teleférico fora suspenso por 20 dias. Ao ser restabelecido, a operação que começava às 6h foi pedalada para as 8h da manhã. Os repórteres Rodrigo Bertolucci e Luiz Gustavo Schmitt mostraram que o teleférico está numa vala da burocracia. O governo do Estado atrasou o pagamento de dois repasses mensais de R$ 3,2 milhões à empresa concessionária e, como o contrato está prestes a vencer, alguns funcionários foram desmobilizados.

Um teleférico dos Alpes que começa a rodar às 8h da manhã pode ser ótimo para quem vai esquiar, mas esqueceram de contar à doutora que essa é a hora em que a turma do Alemão precisa estar no trabalho. O governo do Rio diz que a partir de amanhã restabelece o horário antigo.

Tomara que Madame Lagarde entenda de economia.

AULA DE CANA
Conselho útil do advogado Marcelo Cerqueira para quem teme ir para a cadeia:

“Não perca o sono na primeira noite, a fome na primeira semana ou a cabeça no primeiro mês”.

Cerqueira sabe do que fala. Como advogado, cuidou de muitos presos. Como militante político, pegou pelo menos duas canas.

MADAME NATASHA
Madame Natasha concedeu mais uma de suas bolsas de estudo ao novo diretor-presidente da Agência Nacional de Saúde, doutor José Carlos de Souza Abrahão, pelo seguinte resumo de seus objetivos no cargo:

“Temos que estimular campanhas pelo uso consciente do sistema de saúde brasileiro e do sistema de saúde suplementar. A sua preservação acontecerá por meio de um conjunto múltiplo de ações, como critérios no processo de incorporação tecnológica, desenvolvimento de protocolos clínicos, avaliação do custo-efetividade dos procedimentos, combate ao desperdício. Temos de rediscutir o modelo de remuneração entre operadoras e prestadoras, precisamos reduzir o custo setorial e a imprevisibilidade; e não podemos esquecer que a sociedade mundial e a brasileira conseguiram uma conquista, que é a maior sobrevida da nossa população.”

A senhora acha que, na melhor das hipóteses, ele não quis dizer nada.

PARA CIMA
O jornalista Ernesto Rodrigues concluiu seu documentário “O sonho de Tipsi”, com a história de Zilda Arns, a criadora da Pastoral da Criança, morta em 2010 durante o terremoto do Haiti.

Numa época de decepções e más notícias, a lembrança da doutora Zilda é um hino à vida, ao altruísmo e à fé de uma grande mulher.

Até quando vamos conviver com a roubalheira institucionalizada

José Carlos Werneck
Tribuna da Internet

Até quando este Governo abusará da paciência do povo brasileiro? Até onde pretende substituir, por meio de medidas provisórias, o papel do Poder Legislativo? Até que ponto contribuirá para a intranquilidade e insegurança que tomaram conta da Nação? Até quando pretende, por meio da inflação e do aumento do custo de vida, levar ao desespero a população que paga impostos absurdos, sem receber nada em troca?

É inaceitável permanecer nesta desordem que se alastrou pelos setores administrativo, econômico e financeiro de todo um país com enormes potencialidades e que está parado por conta de tanta corrupção.

Chega de subterfúgios. Chega de deslavadas mentiras criadas por um partido com o intuito de confundir os brasileiros e levar adiante seu plano de se perpetuar no Poder. Basta de casuísmos e demagogia barata, para que, realmente, se façam os ajustes econômicos necessários.

A maioria das medidas tomadas pelo Governo petista, são balelas, sem outro intuito a não ser enganar a boa-fé dos brasileiros, que, estão fartos de tanta ineficiência e roubalheira.

O PAÍS ESTÁ PARADO
Não é aceitável que este caos provocado pela administração petista, que implantou a desordem generalizada, paralise toda a Nação.

Há intranquilidade nas cidades, com uma segurança pública ineficiente, e no o campo, com ações criminosas do MST, intranquilizando igualmente proprietários e camponeses.

A opinião pública repudia veementemente esta política de origem duvidosa contrária às instituições, cuja preservação cabe, por imperativo constitucional, ao próprio Governo.

A Nação anseia pelo respeito à Constituição. Precisamos de ajustes discutidos e votados, sem o toma-lá-dá-cá, pelo Congresso Nacional. Desejamos a preservação das conquistas democráticas. O povo quer eleições limpas e com apuração confiável.

ENTREGUE O PODER
Se a presidente Dilma Rousseff não pode cumprir o papel que lhe é destinado constitucionalmente, não lhe cabe outra saída senão entregar o Governo ao seu legítimo sucessor.

É consenso que a presidente termine o seu mandato como prevê a Constituição. Tudo isso é salutar para a Democracia. Mas, para isso, a presidente da República terá de desistir desta sua política nociva, que está prejudicando o Brasil e os brasileiros.

Os brasileiros não desejam golpes nem contragolpes. Querem preservar e cada vez mais aperfeiçoar o processo democrático, duramente construído, e manter a estabilidade econômica obtida pelo Plano Real, que está sendo jogada no lixo da História. Mas não admitem que seja o Poder Executivo, por interesses espúrios, quem promova o caos social e tente cercear a Imprensa e todos os meios da livre manifestação do pensamento, levando a Nação à ditadura de um partido, corroído pela corrupção.

Os Poderes Legislativo e Judiciário, as Forças Armadas, e todos os segmentos democráticos devem estar vigilantes para combater todos aqueles que pretendem ameaçar a Democracia.

O País já sofreu além dos limites com este desgoverno. Agora, chega de tanta podridão e de tanta mentira!

Dilma, sozinha à beira do abismo

Tribuna da Internet
Bernardo Mello Franco, Folha de São Paulo



A delação de Ricardo Pessoa empurrou Dilma Rousseff de volta para a beira do abismo. Desde os protestos de março, o governo nunca pareceu tão frágil, e o desfecho da crise, tão incerto.

O chefe do “clube das empreiteiras” transferiu a delegacia da Lava Jato para o Palácio do Planalto. Em uma só tacada, envolveu dois ministros no escândalo, os petistas Aloizio Mercadante e Edinho Silva, e lançou suspeitas sobre o financiamento das duas campanhas que elegeram Dilma, em 2010 e 2014.

Segundo o jornal “O Estado de S. Paulo”, Pessoa ainda entregou aos procuradores uma planilha com título autoexplicativo: “Pagamentos ao PT por caixa dois”. Se comprovados, os repasses podem desmontar o discurso do partido de que a prática de receber dinheiro em espécie ficou para trás com o mensalão.

De quebra, o delator acrescentou um novo verbete ao dicionário da corrupção, ao relatar que o tesoureiro João Vaccari se referia à propina como “pixuleco”. Nos últimos dias, o partido voltou a pedir a libertação do ex-dirigente preso, alimentando os rumores de que ele está ameaçando romper o pacto de silêncio.

Ninguém mais questiona a gravidade da situação. Entre sexta e sábado, Dilma convocou duas reuniões de emergência no Alvorada, atrasando a aguardada viagem oficial aos Estados Unidos. Passará a visita de quatro dias com a cabeça no Brasil, onde sua base se desmancha e a oposição tenta ressuscitar o fantasma do impeachment.

O repique da crise encontra a presidente mais fraca e mais sozinha, pouco depois de bater novo recorde de impopularidade no Datafolha. Enrolado em seus próprios problemas, Lula ensaia um afastamento e sinaliza que não saltará do precipício com ela. O PMDB retomou o clima de ameaças, lideradas pelo presidenciável Eduardo Cunha. As citações a Mercadante e Edinho fragilizam a blindagem que resta, a das paredes e janelas do palácio.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Não se vá tomar Dilma na situação atual de isolamento, como uma coitadinha injustiçada. Nada disso. Dilma vive exatamente aquilo que plantou desde que Lula a levou para o Executivo Federal. Sua arrogância, prepotência e falta de educação para com seus auxiliares mais próximos acabaram por criar áreas de atrito a tal ponto que muitos se recusam em assumir determinados cargos para evitarem o contato pessoal com a senhora Rousseff. 

Reflexões sobre o volume morto

Fernando Gabeira
O Globo

Há perdas na economia e na credibilidade do sistema político

RIO- Lula teve alguns momentos de sinceridade na última semana. Disse que tanto ele como Dilma estavam no volume morto e que o PT só pensa em cargos. Ele se referiu ao volume morto num contexto de análise de pesquisas, que indicavam a rejeição ao governo e ao PT. Nesse sentido, volume morto significa estar na última reserva eleitoral. No entanto, o termo deve ser visto de forma mais ampla.

Estar por baixo nas pesquisas nem sempre significa um desastre. Em alguns momentos da História, o próprio PT, e disso me lembro bem, não alcançava 10% dos eleitores, mas tinha esperança, e os índices não abalavam sua autoestima. O volume morto em que se meteu agora é diferente. Ele indica escassez da água de beber e incapacidade energética, depois de 12 anos de governo. Foi um tempo em que, sob muitos aspectos, andamos para trás.

Há perdas na economia, na credibilidade do sistema político, todo um projeto fracassado acabou jogando o país também num volume morto. Há chuvas esparsas como a Operação Lava-Jato, mas elas caem muito longe dos reservatórios do PT. Tão longe que ajudam a ressecar ainda mais o terreno lodoso que ainda abastece as torneiras petistas.

Lula pode estar apenas querendo se distanciar de Dilma e do PT. Ele a inventou como estadista e agora bate em retirada. E quanto ao PT, quem vai rebater suas críticas e arriscar o emprego e a carreira? Pois é esse o combustível de seus quadros.

Há cerca de uma década escrevi um artigo intitulado “Flores para os mortos”, no qual afirmava que uma experiência com pretensão de marcar a História terminava, melancolicamente, numa delegacia de polícia. Foi muito divulgado, e na internet usaram até fundo musical para compartilhá-lo. O título é inspirado numa cena do filme de Luis Buñuel, a florista gritando na noite: “Flores, flores para os mortos”.

Devo ter recebido muitas críticas dos petistas. Passados dez anos e algumas portas de delegacia, hoje é o próprio líder que admite a incapacidade política de Dilma e a voracidade dos seus seguidores.

Olho para esse tempo com melancolia. Ao chegar ao Brasil, os tempos do exílio não pesavam tanto. O futuro era tão interessante, o processo de redemocratização tão promissor que compensavam o passado recente. Agora, não. O futuro é mais sombrio porque a tentativa de mudança foi uma fraude, a própria palavra mudança tornou-se suspeita: poucos creem que o sistema político possa realizar os anseios sociais.

Lula fala em esperança para sair do volume morto. Mas que esperança pode arrancá-los do volume morto quando o próprio líder, apesar de sua sinceridade ocasional, não consegue vislumbrar uma saída? Lula repete aquela frase atribuída ao técnico Yustrich: “Eu ganho, nós empatamos, vocês perdem”.

Lendo no avião uma entrevista do escritor argelino Kamel Daoud, muito criticado pelos muçulmanos mais radicais do seu país. O título da entrevista é: “Nem me exilar, nem me curvar”.

Uma de suas respostas me tocou fundo. O repórter perguntou: “Como você, depois de viver anos ligado aos Irmãos Muculmanos, conseguiu escapar desse mundo?”. “Leitura, muita leitura”, respondeu Kamel Daoud.

O resto da viagem fiquei pensando como teria sido bom para a esquerda brasileira leitura, muita leitura, para poder escapar da sua própria miopia ideológica.

Na verdade, ela mastigou conceitos antigos, cultivou políticas retrógradas, como essa de apoiar o chavismo, e se perdeu nos escaninhos dos cargos e empregos. Ela me lembra os jovens do filme “O muro”. Um dos seus ídolos acaba como porteiro de hotel, e é melancólica a cena em que os admiradores o descobrem, paramentado, carregando malas.

Leitura, muita leitura, não importa em que plataforma, talvez impedisse a esquerda de ver seu predestinado líder proletário trabalhando como lobista de empreiteiras. Talvez nem se chamaria mais de esquerda.

Um dos mais ricos petistas critica os outros por só pensarem na matéria. A realidade surpreendeu todas as previsões da volta ao exílio, tornou-se uma espécie de pesadelo.

Tomara que chova nos reservatórios adequados e as forças que caíram no volume morto continuem por lá, fixadas na única esperança que lhes resta: sobreviver.

O país precisa sair do volume morto, reencontrar um nível de crescimento, credibilidade no seu sistema político. Hoje o país é governado por um fantasma de bicicleta e um partido de míseros oportunistas, segundo seu próprio líder, chamado de Brahma pelas empreiteiras.

Universo de sombras

Sandro Vaia
Blog do Noblat

A figura do bobo da corte, que divertia o rei e seus áulicos no final da Idade Média, carregava consigo mais nobreza do que os bajuladores de hoje

A adulação talvez seja uma das práticas mais antigas na história da humanidade.

Também pode ser definida ou identificada como bajulação, culto à personalidade, idolatria, ou mero puxa-saquismo, para usar uma expressão mais rudimentar.

Quem adula alguém o faz ou por simples espírito subalterno ou por interesse, para abrir caminho para extrair do bajulado alguma vantagem material.

O sótão do universo da prática política é um ambiente adequado para o desenvolvimento desse tipo de comportamento moralmente degenerado. Caudilhos, salvadores da pátria, líderes providenciais, condottieri, fuhrers, duces, guias geniais, costumam reunir em torno de si os mais diversos tipos de aduladores- desde os justificadores intelectuais pretensamente sofisticados até os bajuladores mais vulgares.

Czeslaw Milosz, poeta polonês, Nobel de Literatura de 1980, escreveu “Mentes Cativas”, onde descreve com precisão assustadora como essa prática, que ele conheceu de perto no ambiente intelectual da Polônia ocupada por um regime totalitário,” cria separadamente os estágios sobre os quais a mente dá passagem à compulsão do nada”.

A rendição intelectual, segundo Milosz, cria um “universo de sombras ambulantes”. Ele se referia ao ambiente intoxicado de um regime de partido único instalado à força, num país dominado e subjugado de fora para dentro. Mas nem sempre a força é ferramenta indispensável para subjugar as mentes. A rendição pode ser voluntária, como é voluntária a rendição aos dogmas de fé das religiões.

Esse tipo de rendição suprime o senso crítico, que é fundamento da independência intelectual, e produz abjeções como o discurso póstumo de Lavrenti Béria no funeral de Stálin - “o grande arquiteto do comunismo, guia genial”, por quem “nossos corações estão cheios de tristeza infinita”. Essa obra prima da bajulação não impediu que oito meses depois do enterro do guia genial, Béria fosse fuzilado por traição.

A grandiloquência retórica- Guia, Timoneiro, Grande Líder, Comandante, Chefe Supremo - quase sempre conduz ao ridículo.

O manifesto de apoio a Lula assinado pelos senadores do PT (apoio por que? contra quem?), beira perigosamente o kitsch político e literário:

"Luiz Inácio Lula da Silva, nosso querido Lula, é uma das raras e fantásticas lideranças que conseguem transcender os limites de sua origem social, de sua cultura e do seu tempo histórico. Ele figura no rol escasso dos líderes que rompem os limites, mudam a realidade, fazem a diferença na vida das pessoas, fazem História.”

A prestimosa rapidez com os tradutores juramentados do dialeto dilmês saíram em defesa do peculiar senso de humor da presidente (a mulher sapiens era apenas uma refinadíssima tirada de humor, destinada a mentes privilegiadas e sofisticadas) e de sua profunda erudição (a referência à saga da mandioca tem profundas raízes na história da formação agrícola do país), foi tão abjeta que chega a ganhar tons caricaturais de comédia italiana.

A figura do bobo da corte, que divertia o rei e seus áulicos no final da Idade Média, carregava consigo mais nobreza do que os bajuladores de hoje. Ele tinha agudo senso crítico e fazia o papel de bufão porque tinha licença para criticar e ser mordaz.

O “universo de sombras ambulantes” de que falava Milosz é apenas patético.

Em editorial, ‘Post’ aponta crise na democracia brasileira

Flávia Barbosa e Isabel De Luca
O Globo

Jornal americano avalia que Dilma enfrenta desafio para sobreviver mais três anos e meio no Planalto

Kena Betancur / AFP 
Dilma durante a reunião em Nova York com empresários 

NOVA YORK - A visita da presidente Dilma Rousseff aos Estados Unidos motivou um duro editorial do jornal “The Washington Post” neste domingo. “A presidente enfrenta o desafio de sobreviver no Planalto e tentar governar por mais três anos e meio”, diz o texto, intitulado “Um retrocesso no Brasil”.

De acordo com o “Post”, “a bolha parece ter explodido”: o editorial aponta a recessão econômica e o caso Petrobras – “o maior escândalo de corrupção na História do país, com dezenas de empresários e mais de 50 integrantes do Congresso implicados” – como entraves que “provocam uma crise na democracia brasileira”.

O jornal diz que Dilma se reelegeu com um discurso de que seu principal opositor, Aécio Neves, se submeteria a banqueiros e ao Fundo Monetário Internacional (FMI), e ressalta que o PT se opõe às correções econômicas da presidente. “A senhora Rousseff está impondo as mesmas medidas de austeridade tipicamente defendidas pelo FMI, incluindo cortes nos subsídios de energia”, aponta o “Post”, que defende medidas liberalizantes na economia para resgatar a confiança de investidores.

O editorial cita ainda a queda de popularidade da presidente, frisando que “não será fácil” reverter o quadro. “Ela viu muito de seu poder efetivamente esvaziado por líderes congressistas, que diluíram algumas de suas medidas de austeridade”, diz. E defende a remoção de barreiras para o investimento privado doméstico e estrangeiro: “Sem isso, o futuro do Brasil permanecerá em suspenso”, conclui.

Sigam o dinheiro

Merval Pereira
O Globo 

Chapa de Dilma pode vir a ser impugnada. 

A famosa frase "Follow the money" ("Sigam o dinheiro") nunca foi dita por Mark Felt, o vice-diretor do FBI que ficou famoso como o informante Deep Throat do Watergate, para os repórteres do "Washington Post" Bob Woodward e Carl Bernstein. Foi inventada pelo diretor do filme, Alan J. Pakula, mas entrou para a história. 

Assim como em Watergate, a orientação de seguir a trilha do dinheiro é o caminho que o Ministério Público tem para validar a delação premiada do chefe do "Clube das Empreiteiras", Ricardo Pessoa da UTC. 

Em cinco dias de depoimentos prestados em Brasília, Pessoa descreveu minuciosamente como financiou campanhas com o dinheiro desviado da Petrobras, confirmando a prática de lavar dinheiro fruto da corrupção em doações registradas legalmente no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), inclusive para as campanhas de Lula em 2006 e de Dilma em 2014. 

A denúncia de Ricardo Pessoa confirma outra delação premiada, a do vice-presidente da empreiteira Camargo Corrêa, Eduardo Leite, que acusou o tesoureiro do PT João Vaccari de tê-lo coagido a fazer o pagamento de propinas como doações legais. 

Assim como o ex-gerente Pedro Barusco, subordinado de Duque na Petrobras, Ricardo Pessoa também forneceu detalhes que possibilitam verificar suas acusações, como as planilhas de distribuição de propinas com as datas. Cabe ao Ministério Público comparar os dias de desembolso de verbas para as obras da Petrobras e a chegada de dinheiro na conta do PT. 

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, já havia prorrogado por mais um ano o prazo para que as contas eleitorais da presidente Dilma permaneçam disponíveis na internet. A decisão foi motivada por suspeitas de outras irregularidades, que ele considera "gravíssimas", como o pagamento de R$ 20 milhões a uma gráfica fantasma ou a uma firma, a Focal, para montar palanques presidenciais, no valor de R$ 25 milhões. 

Há além disso outros dois processos no Tribunal Superior Eleitoral contra a campanha do PT e 2014, a partir de denúncias do PSDB, um com a ministra Maria Teresa, e outro com o ministro João Noronha, ambos do STJ. Paulo Roberto Costa e o doleiro Youssef já foram ouvidos sobre outras denúncias de uso de dinheiro desviado da Petrobras na campanha de 2014. 

A impugnação da chapa por "abuso de poder político e econômico" pode ser uma das consequências da denúncia, o que provocaria uma nova eleição se o caso for resolvido na Justiça Eleitoral nos dois primeiros anos de mandato, isto é, até o final de 2016. 

Caso ocorra uma decisão a partir do terceiro ano, haveria uma eleição indireta pelo Congresso, para o término do mandato. A gravidade de usar o TSE para "lavar" o dinheiro da corrupção pode gerar uma reação mais dura da Justiça Eleitoral, pois fere a credibilidade do tribunal, como já escrevi aqui. 

O processo no TSE pode gerar também o de impeachment, por crime de responsabilidade, além do questionamento do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre os crimes contra o Orçamento cometidos no último ano do primeiro mandato da presidente Dilma. 

Aos poucos vai se formando um cenário difícil de ser ignorado, tantas são as irregularidades cometidas durante o primeiro mandato, culminando com a eleição presidencial em 2014. Como as denúncias se referem a fatos ocorridos quando Dilma já era presidente da República, cabe o processo, ao contrário das denúncias rejeitadas pelo procurador geral da República, Rodrigo Janot, que se referiam à eleição de 2010, quando Dilma era ministra e candidata a presidente. As "pedaladas" fiscais e demais crimes contra o Orçamento pegam apenas a presidente Dilma, o que permitiria ao vice Michel Temer assumir o cargo em caso de impeachment. O financiamento eleitoral com o uso de dinheiro desviado do petrolão leva à impugnação da chapa.