domingo, julho 12, 2015

Pior que o complexo é o esforço para ser vira-lata

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

O Brasil continua na contramão da economia mundial, pouco preparado para aproveitar a recuperação dos países mais avançados e mais exposto que muitos outros a qualquer dificuldade mais séria na China, o maior mercado para suas exportações de produtos básicos. Uma das façanhas da diplomacia inaugurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2003, foi isolar o País das grandes oportunidades de integração comercial, torná-lo dependente em excesso do Mercosul e da vizinhança e condená-lo a uma relação semicolonial com a China. Na segunda maior economia do mundo, governada por um partido comunista, mas empenhada em jogar na primeira divisão do capitalismo, os líderes devem gargalhar quando comentam o tosco e requentado terceiro-mundismo ainda seguido, embora com alguns sinais de divergência, nos gabinetes oficiais de Brasília.

Os brasileiros têm motivos especiais para se assustar com o tombo das bolsas chinesas. É muito difícil de dizer, neste momento, se se trata apenas de um forte ajuste no mercado de ações ou se a turbulência indica problemas econômicos mais graves e perigosos para todo o mundo. O susto espalhou-se pelo sistema financeiro internacional, já afetado pela crise grega, e chegou também às bolsas brasileiras. Ainda será preciso algum tempo para uma avaliação mais segura.

Na melhor hipótese, no entanto, pelo menos a perda de impulso da economia chinesa é apontada como certa por muitos analistas. Mesmo sem grandes consequências do estouro de uma bolha, o ritmo de atividade continuará influenciado pela reorientação da política econômica. Até aqui a acomodação foi suave.

Há algum tempo o crescimento do produto interno bruto (PIB) saiu da faixa de 9% a 10% ao ano. Ficou em 7,7% em 2013, passou a 7,4% no ano passado, deve chegar a 6,8% em 2015 e a 6,3% no próximo ano, segundo as novas projeções do Fundo Monetário Internacional (FMI), divulgadas na quinta-feira. Ainda são números muito altos, pelos padrões internacionais, mas preocupantes para quem se acostumou a atender ao enorme apetite chinês por matérias-primas.

No ano passado as vendas brasileiras à China ficaram em US$ 40,62 bilhões, o menor valor em quatro anos. As exportações de industrializados somaram US$ 6,29 bilhões (US$ 1,62 bilhão de manufaturados e US$ 4,67 bilhões de semimanufaturados). No mesmo ano o País exportou para os Estados Unidos US$ 27,03 bilhões. A maior parte desse valor correspondeu a industrializados, US$ 19,03 bilhões. A receita obtida com manufaturados chegou a US$ 13,67 bilhões. Os semimanufaturados renderam US$ 5,36 bilhões. Também a União Europeia compra muito mais da indústria brasileira do que a China. Para o bloco europeu foram US$ 19,97 bilhões de industrializados. A parcela dos manufaturados chegou a US$ 14,12 bilhões. No comércio exterior brasileiro, quem representa, hoje, o papel de potência colonial, compradora de matérias-primas em troca de produtos da indústria?

Não há nada errado em exportar matérias-primas e bens semielaborados. As potências mais desenvolvidas são grandes vendedoras desses produtos e atuam nesse mercado com subsídios e protecionismo. Os brasileiros devem aproveitar suas vantagens comparativas, o potencial produtivo de seu agronegócio e seus enormes recursos naturais, sem cometer a tolice de classificar os produtos do campo como bens primários ou de baixo valor agregado. Há muita tecnologia embutida em cada tonelada de alimentos exportada. Também isso compõe o poder de competição do agronegócio. Mas é preciso cuidar das vendas de produtos industriais, amplamente negligenciadas há muitos anos.

Essas vendas têm sido prejudicadas pelo baixo poder de competição da maior parte da indústria. Essa deficiência resulta de problemas estruturais – logística deficiente, energia cara, tributação irracional, mão de obra mal formada, etc. – e de uma coleção de erros estratégicos. Desprezando os acordos com as potências desenvolvidas, amarrando o Brasil a um Mercosul emperrado, mantendo o País fora dos grandes circuitos de formação de valor, apostando no protecionismo e reeditando políticas anacrônicas, o governo condenou o Brasil a jogar nas divisões inferiores do comércio global. Ter complexo de vira-lata é muito ruim. Condenar-se a viver como vira-lata no mercado global é uma estupidez olímpica.

Na Rússia a presidente Dilma Rousseff defendeu a cooperação entre os Brics – Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul – como reação à crise. Presa ao cacoete, mais uma vez uma autoridade brasileira insiste na fantasia do clubinho alternativo como forma de sobreviver no mundo malvado.

Sim, o Brasil deve comerciar, e de forma bem mais ampla, com os outros membros do grupo e também com todos os demais mercados. Para isso precisará de melhor política, maior eficiência e maior poder de competição. Além disso, é tolice ou mistificação continuar atribuindo os males do País a problemas externos. Apesar de tudo, o mundo rico avança. O ritmo dos países desenvolvidos deve passar de 1,8% no ano passado para 2,1% em 2015 e 2,4% em 2016, segundo as projeções do FMI.

Há incertezas e riscos, por causa da Grécia, da China e também da esperada elevação de juros americanos. Mas o mundo se mexe e até a desaceleração chinesa tem um lado positivo, porque resultou, pelo menos até agora, de um rearranjo planejado pelo governo. Enquanto isso, a economia brasileira está condenada a encolher 1,5% neste ano, também segundo as contas do FMI, e a crescer apenas 0,7% em 2016. O desemprego bate em 8,1%, a inflação avança para 9% e o desajuste externo só diminui porque as importações caem mais que as exportações. Enquanto isso, o País expia, num imenso escândalo, as lambanças da grande farra populista. 

Sairemos dessa apelando para a união dos Brics?

O triunfo de Dilma: deu tudo errado

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Os pessimistas estavam certos, a presidente, errada, muito errada. Como Dilma pode ter se equivocado tanto?

Na noite de 23 de janeiro de 2013, Dilma surgiu triunfante em rede nacional de televisão para a anunciar uma redução de 18% na conta de luz de todos os brasileiros, acentuando: “Primeira vez que acontece no país".

Embora já fosse bastante, a presidente não ficou nisso. Explicou, “com números", conforme ressaltou, que o “Brasil vai ter energia cada vez melhor e mais barata".

Foi além. Desafiadora, atacou os pessimistas e zombou das “previsões erradas" daqueles que “diziam que não iríamos conseguir baixar os juros e nem o custo da energia".

De fato, naquele momento, a taxa básica de juros era de 7,25% ao ano, a mais baixa na era do Real e a conta de luz caiu no dia seguinte.

Animada com isso, Dilma informou que os investimentos estavam em alta, empregos idem, salários subindo, de modo que o Brasil vivia “dos melhores momentos da história".

Hoje, todo mundo sabe, os juros estão nas alturas — a taxa vai passar dos 14% — e a conta de luz não para de subir. Desde 2013, ano em que Dilma anunciou a redução, já ficou 60% mais cara, na média nacional. E ainda há vários reajustes previstos para este e o próximo ano. O desemprego sobe — 500 mil vagas formais fechadas este ano —, o PIB empacou, o salário perde poder de compra para a inflação e os investimentos públicos e privados desabaram.

Os pessimistas estavam certos, a presidente, errada, muito errada. Como Dilma pode ter se equivocado tanto?

Começa que ela não ouve ou não entende as críticas. Ninguém dizia que o governo não conseguiria ou não podia reduzir juros e tarifas de energia. Os críticos diziam, sim, que essas medidas eram insustentáveis mesmo no curto prazo.

Para resumir o ponto de vista dito pessimista: a redução da conta da luz se fizera por um artificialismo que desorganizava o setor elétrico; naquele momento, a tendência do custo da energia, sem truques, era de alta. Quanto à inflação, já estava alta e, mesmo assim, contida artificialmente pelo controle de preços administrados, como o da gasolina.

Era o ponto de vista correto. Dirá o pessoal da presidente: agora, em retrospectiva, é fácil falar. Negativo. Como bem apontava Dilma, os críticos e pessimistas diziam, fazia tempo, que o modelo econômico dela iria explodir em inflação, baixo crescimento, juros altos, contas públicas em déficit e desorganização de diversos setores, como o elétrico, hoje atolado em dívidas, prejuízos para a Petrobrás.

Também diziam que o aumento do crédito e do consumo era insustentável; que não havia ambiente para investimento privado. e que o governo não conseguiria dar conta das promessas de investimentos dos PACs. Lembram-se do trem bala?

Pois é — e não foi a primeira vez que a presidente exibiu um triunfalismo infundado. No início de seu governo, em março de 2011, deu uma entrevista para o jornal “Valor Econômico", garantindo que em seu mandato a economia cresceria na faixa de 5% ao ano, com inflação de 4,5%, na meta.

Também atacou os pessimistas e disse que era adivinhação daqueles que sustentavam não haver condições para uma expansão sustentada.

A coisa saiu ainda pior do que imaginavam os pessimistas. A média de crescimento anual do PIB (2011/14) ficou em 2,2%, só melhor que o período Collor. E a inflação foi de 6,16%.

Discursos e entrevistas da presidente Dilma podem ser encontrados no site do Planalto. Essa exposição não seria um motivo suficiente para a presidente vir a público e dizer “desculpaí, foi mal"?
Mas não. A presidente e seus próximos dizem que passamos por um probleminha passageiro, consequência da crise mundial, e que logo, logo... os pessimistas serão derrotados.

De novo, como pode se equivocar tão completamente?

Socialistas no capitalismo
Dá para entender o desconforto de Alexis Tsipras e seu ministro das Finanças, Euclides Tsakalotos.

Imaginem: você faz sua formação intelectual no marxismo; inicia-se na política dizendo que a União Europeia e Zona do Euro formam uma construção neoliberal, uma falsa democracia, e que tudo se resume num sistema de dominação capitalista pelo qual os países ricos do Norte exploram os pobres do Sul. Ah, sim, e que o sistema financeiro europeu está lá para garantir os lucros imorais dos banqueiros, danem-se as pessoas. E que pregar ajuste fiscal é terrorismo de credor contra o devedor.

Aí, surpreendentemente, seu partido de extrema esquerda ganha a eleição prometendo o socialismo — e lá está você sentado à mesa com os terroristas neoliberais, tentando salvar o sistema financeiro/capitalista, prometendo ajustes e sacrifícios em troca de uns trocados a mais.

Não pode dar certo.

O golpe é só uma fantasia

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Nada como transformar Dilma em vítima, para tentar recuperar um naco do apoio popular perdido

O golpe contra a presidente Dilma Rousseff não passa de uma ficção. Por que então tanta especulação sobre “o golpe”? A alguém deve interessar esse blá-blá-blá sobre a ameaça de um golpe iminente, ali, ao dobrar uma esquina de nossa História. “O golpe” derrubará Dilma numa saidinha de banco – o BNDES talvez?

“Eu não vou cair. Eu não vou, eu não vou”, disse Dilma ao jornal Folha de S.Paulo. “As pessoas caem quando estão dispostas a cair. Não tem base para eu cair. E venha tentar, venha tentar.” A presidente agora deu para repetir o que fala, em refrões. É quase um rap. O rap da Dilminha. Nisso, ela está certa. O rap é popular e, se até Lula diz que a presidente está “no volume morto”, ela precisa aumentar o som.

Não é a primeira vez que Dilma se repete. Em setembro de 2010, ao se opor a um plebiscito sobre legalização do aborto, disse: “Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder”. Deu para entender? Você pode assistir ao vídeo no YouTube. E rir. Mas essa declaração em 2010 foi premonitória. O Brasil inteiro perdeu em qualidade de vida. Só quem não perde são os político$.

Dilma sempre se confundiu ao falar de improviso, sempre tropeçou nas palavras. Não são as gafes seu problema maior. São as mentiras. Foram muitas e, por isso, a massa no Brasil perdeu de vez a confiança nela e no PT. Juros, contas, ajustes fiscais, repasses – tudo era mentira durante a campanha. E censura velada. Na semana passada, o ex-diretor do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Herton Araújo reafirmou ter sido impedido, em 2014, de divulgar o aumento da extrema pobreza no Brasil.

Para salvar o país de suas pedaladas, Dilma se rendeu ao arrocho fiscal e por isso tem sido encurralada por gregos e troianos. Mas a presidente eleita não será derrubada por um golpe. Isso não existe. Este país não quer golpe, nem de direita nem de esquerda. Se houvesse um plebiscito à grega no Brasil, o resultado seria nem sim nem não, muito pelo contrário.

Os ministros e os blogueiros chapa-branca ignoram as críticas do próprio PT a Dilma e alimentam a tese da “ameaça golpista” da direita. O motivo é claro. Nada como transformar a presidente em vítima, para tentar recuperar um naco do apoio popular perdido. Esquecem que quem transformou Dilma em vítima de vaias e panelaços foi Dilma. Quem transformou Dilma em algoz dos trabalhadores demitidos e prejudicados pela inflação foi... Dilma. Quem colocou Dilma no “volume morto” foi... Lula.

O PAC – Programa de Aceleração do Crescimento, para quem já esqueceu o significado – foi abandonado, e a sigla da vez se tornou o PPE, Programa de Proteção ao Emprego. O PPE se propõe a preservar o emprego de quem ganha até R$ 6 mil. Como? Reduzindo jornada e salário em 30%, por um ano. Para compensar o corte salarial, seriam usados recursos de um fundo que está sem fundos, o FAT, de Amparo ao Trabalhador. Mais uma promessa vazia da presidente.

O mico da semana do Planalto foi usar, como garoto-propaganda do PPE, Charles Chaplin no filme clássico Tempos modernos. Que lambança. Chaplin abraçado às engrenagens, numa sátira às péssimas condições de trabalho na Revolução Industrial, rindo de si próprio (e dos trabalhadores brasileiros) com a seguinte legenda em maiúsculas: “Jornada de trabalho menor... e meu emprego garantido!”. A imagem foi apagada rapidinho na página do governo federal no Facebook. Pegou mal.

O momento da presidente nunca foi tão delicado. Suas contas de 2014 podem ser rejeitadas em agosto pelo Tribunal de Contas da União (TCU). Sua conduta na campanha pode ser condenada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que a julga por abuso de poder econômico. Seu ministro da Fazenda, Joaquim Levy, pode ser alvo da criPTonita – e aí, adeus ajuste.

Até agora não há nada contra Dilma, e ela não deve cair. Mas, se isso ocorrer, o Brasil carece de líderes confiáveis. Quem seria o presidente? O enigmático vice Michel Temer, que não articula nada e já tenta sair de fininho? O imprevisível Eduardo Cunha, presidente da Câmara, líder da direita evangélica do PMDB? O tucano Aécio Neves, que agradeceu ter sido reeleito “presidente da República”? O PSDB não pode afirmar, em convenção, que “está pronto para assumir” o país. Não está vago o posto de presidente. Esse açodamento é no mínimo inoportuno. Abre o flanco para quem adora falar de “golpe”.

Temos uma presidente fraquíssima – e um monte de partidos, aliados ou não, contra ela. Quem, afinal, apoia Dilma? “Eu não vou, não vou, não vou cair”. Só se repete assim quem tem medo.

Resposta a Guido Mantega, na frente de sua filha Marina

Stephen Kanitz (*)
Tribuna da Internet

Mantega reclama que é hostilizado nos restaurantes

Seu artigo “Sobre Intolerâncias”, publicado na Folha, mostra como um Ministro da Fazenda mal preparado não consegue nem entender o mal que cometeu a sociedade. Quando lhe chamam de ladrão nos restaurantes, na frente de sua filha Marina Mantega, estes poucos corajosos nem sabem que a ladroagem foi de R$ 8.000.000.000.000,00. Nem você sabe disto.

Quando mostrei a Lula, na sua frente, a necessidade de resolver o déficit da previdência logo no início de governo, você interrompeu e arruinou a conversa dizendo que não havia sequer déficit da previdência. Santa ignorância, Prof. Guido Mantega.

Se você pelo menos tivesse estudado administração e contabilidade, saberia que o déficit era na época de R$ 260 bilhões por ano, financiado por uma dívida. Uma dívida para com as novas gerações, os R$ 260 bilhões que os jovens, incluindo a sua filha, estavam contribuindo.

Mas no seu despreparo, você achava que as despesas de R$ 260 bilhões estavam sendo “financiadas” por uma receita, uma receita previdenciária de R$ 260 bilhões, portanto déficit zero.

LULA TROCOU DE ASSUNTO
Santa ignorância, e você atrapalhou e destruiu minha tentativa de explicação ao Lula, naquela reunião com Antoninho Trevisan. Diante da nossa discussão ele decidiu mudar de assunto, dizendo: “Bom, vamos mudar de assunto, mas pelo que o Kanitz está afirmando, ainda bem que já sou aposentado, porque já garanti o meu”

Lula “garantiu o dele” às custas das receitas de sua própria filha, Marina Mantega , e você nem sabe disto.

Acontece que a nossa constituição federal é bem clara, Guido. “Art. 201. A previdência social será organizada observados critérios que preservem o equilíbrio financeiro e atuarial.”

O dinheiro da Marina Mantega deveria ter sido depositado por você num Fundo Financeiro, e as aposentadorias determinadas por cálculos atuarias.

Nenhum Fundo foi criado por você, por Arminio Fraga, por Pedro Malan, e pior, você sumiu com a contribuição da sua Marina para imediatamente pagar a velha geração, imprevidente, sem nenhum equilíbrio atuarial.

Os jovens brasileiros são literalmente roubados por economistas como você, em vez dos jovens terem seu dinheiro rendendo juros por 30 anos, e podendo se aposentar com um salário digno.

SUMIRAM 3 TRILHÕES
Só na sua gestão como Ministro, sumiram R$ 3 trilhões, que você roubou da nova geração, mas só você sabe exatamente o valor. E isto é muito mais do que a corrupção da Petrobras, da qual você foi presidente do Conselho, cargo que você jamais deveria ter acumulado.

Você está fora de si quando diz que a população se tornou intolerante com você. O Brasil está tolerante demais com economistas despreparados, que não sabem o que é déficit atuarial, que não sabem o que é gestão financeira, que nunca leram o artigo 201 da nossa Constituição.

Você vai devolver este dinheiro? Sim ou não ?

Sua filha deveria ter sido a primeira a lhe alertar, como eu lhe alertei na frente do Lula. Em vez de me ajudar convencer o sapo barbudo, você atrapalhou e cortou a discussão dizendo que não havia déficit.

“VOU ACUSÁ-LO”
Se eu lhe encontrar num restaurante, eu vou acusá-lo de ter desviado R$ 3 trilhões de jovens como a Marina Mantega. E de ter desviado R$ 3 trilhões de recursos de investimentos de longo prazo, 30 anos em média.

E de ter assim elevado os juros a estes níveis estratosféricos. E de ter condenado 20 milhões de jovens a uma aposentadoria mínima, tudo pela sua incompetência contábil e financeira.

Espero que sua filha Marina Mantega seja a primeira a cuspir no seu prato.

Você tem sorte que o brasileiro é tolerante e ignorante demais em termos de Financas e Atuaria. Tenho certeza que o Joaquim Levy está desviando da mesma forma, e ele é economista de Chicago. Por isto você vai escapar.

Mas eu sei, e a Marina Mantega também.

(*) Stephen Kanitz é um consultor de empresas, mestre em Administração de Empresas de Harvard e bacharel em Contabilidade pela Universidade de São Paulo. Artigo enviado por Dione Castro da Silva

O Pixuleco

Arnaldo Jabor
O Globo

'Eles furtam em todos os tempos de verbo: furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse'

“Tenho tido pesadelos, senhor juiz; sonho que morri assassinado por mim mesmo, que estou preso com traficantes estupradores. Não mereço isso, eu, que sempre assumi minha condição de corrupto ativo e passivo. Por isso, hoje sou delator, senhor. Mas não sou apenas um delator de obviedades sabidas há séculos, tipo fulano levou tanto de grana, sicrano recebeu propina etc. Isso é café pequeno. Eu vi muita coisa com estes olhos que espiam pelas janelas da Papuda, esperando minha redução da pena. Eu faço uma delação profunda que desentranha dos suspeitos e acusados o que lhes vai na alma, nesta maratona de roubalheiras.

Digamos, até faço uma delação psicanalítica. Sou profissional e didático... Considero-me um técnico, um cientista da corrupção nacional...

Eu estou hoje, senhor juiz, feliz no lugar da verdade — tenho o prazer vingativo do dedo-duro. Para mim, que vivi mergulhado na mentira, falar a verdade até me inebria, me sossega.

Já levei muito dinheiro vivo para uns canalhas durante um jantar nordestino, dei-lhes a grana, entre moquecas e sarapatéis, que eles repartiram ali na cara, enquanto se refocilavam em chopes e gargalhadas, notas de dólares voltejando no ar, promessas de joias para as esposas fascinadas com os belos maços de grana, prostitutas à espreita nos bordéis próximos, ‘laranjas’ recebendo gorjetas magras, sorrindo com bocas desdentadas, notas frias preenchidas com avidez, em suma, um espetáculo sem ‘finesse’ que a mim escandaliza. Mas não sou um otário e me resguardei — gravei tudo no meu celular iPhone 6, à disposição de vossa meritíssima pessoa. Lá estão as bocas gotejantes de volúpia, os dedos vorazes, um espetáculo educativo sobre a alma nacional.

Também, senhor juiz, delatei aquele caolhinho da Petrobras que conseguiu amealhar R$ 97 milhões só de gorjeta, o que até me deixa um pouco deslumbrado, porque é um marco histórico na corrupção do planeta. Sem querer debochar de seu defeito, aqueles olhinhos piscavam, passando uma fragilidade quase proposital que esconde uma alma de desbravador, um ousado inventor de tretas e tramoias; dá até uma certa pena vê-lo magrinho esmagado por um tesouro perdido, enlouquecendo de arrependimento na celinha da polícia.

Delatei a vossa senhoria um ex-presidente da República que me tomou R$ 20 milhões, mesmo debaixo de opróbrio em que vive há 25 anos. Eu não aguentei e ousei lhe perguntei: ‘Por que você quer essa grana toda? Você já tem tanto...’. Ele não respondeu, óbvio, mas eu ouvi sua resposta muda: ‘Não roubo mais por necessidade; é prazer mesmo. Estou muito bem de vida, tenho sete fazendas reais e sete imaginárias, mando em cidades do Nordeste, mas sou viciado na adrenalina que me arde no sangue na hora em que a mala de dólares voa em minha direção.’

Delatei o tesoureiro que me levou milhões em doações para o PT eleger o Lula e a Dilma. Ele teve a cara dura ‘revolucionária’ de me exigir: ‘Precisamos de dinheiro para renovar nossa utopia, como disse nosso Lula!’.‘Agora se você não soltar a grana logo, esquece o contrato para superfaturar a nova refinaria.’ E riu debochado: ‘Afinal, o petróleo é nosso!’. Soltei o tutu sim, senhor juiz, se não minha empresa quebrava... E valeu a pena, apesar de a PF ter descoberto o superfaturamento 20 vezes maior do que aquela mixaria de um milhão de dólares que doei para a ‘revolução socialista’... Perdoe-me por rir dessa piada vermelha...Eu mesmo levei dinheiro vivo à sede do PT, eu, um homem refinado (creia-me, sr. juiz), tive de me submeter a senhas, se não não entrava. O porteiro perguntou a mim: ‘Tulipa’? E eu respondi: ‘Caneco’. Pode essa humilhação depois dos muitos milhões que entreguei àqueles moleques bolivarianos? E o ladrão receptor, um boçal com estrelinha no peito, ainda foi grosso: ‘Cadê o ‘pixuleco’?’.

Delatei aquele ‘mão grande’ da Petrobras que investiu em arte, em quadros e esculturas contemporâneas para lavar dinheiro, mas suas obras de arte são medíocres. Esse burro poderia ao menos comprar coisas de valor e não aquelas bobagens penduradas na parede — um Miró falso ao lado de um Romero Britto. Roube, mas com ‘finesse’. Eu delato, senhor juiz, porque me tiram do sério suas negações diante do óbvio. Eles negam tudo, ninguém fez nada nunca e Brasília vira um palco vazio sem atores. Isso desperta em mim os ‘impulsos mais primitivos’, como disse nosso pioneiro Roberto Jefferson... E nada chega ao Lula, esse sim, o grande culpado desse filme de horror... Será que ele tem parte com o demônio para ficar tão blindado? Como disse um dos presos do petrolão: ‘Que país é este?’.

Um país onde os presidentes do Congresso estão sendo investigados na Lava-Jato? Aliás, eles nem ligam, sorriem, pois têm foro privilegiado no STF...

Por isso vos digo: tenho orgulho de mim, senhor. Minha delação é histórica. Eu topava uma propinazinha, tudo bem, mas isso, não. Eles estão desmanchando o país. Um dia serei louvado por isso.

Assim, senhor juiz, permita-me citar o Padre Antônio Vieira: ‘Eles furtam em todos os tempos de verbo: furtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse’.

Sem contar as carantonhas que nem precisam de acusações: Ricardo Pessoa (o paletó apertado em sua grande barriga), o Edison Lobão (fascina-me a vaidade desse feio), o sorriso tático do Marcelo Odebrecht, as caras “revolucionárias” de Edinho Silva, Vaccari, aplaudidos de pé pelo ex-PT… Tudo está na cara…

Por isso, senhor juiz, acho que presto um serviço relevante ao país e lhe peço: não me ponha numa cela de 12 metros quadrados, varrendo o chão e limpando a privada.

Anseio, meritíssimo, pela doce tornozeleira eletrônica que me comunicará com os satélites no céu, o que me deixa emocionado, pela poesia que isso encerra: meus malfeitos no espaço sideral perto do Cruzeiro do Sul!”

O fisiologismo sai do armário

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Lula está fazendo a parte dele. O ex-presidente informou ao país: “A gente só pensa em cargo”

Dilma Rousseff está no volume morto, conforme definição de seu padrinho, alcançando o formidável índice de reprovação de 65%. Só Collor conseguiu superar essa façanha, às vésperas do impeachment – quando era rejeitado por 68% dos brasileiros. Será que se o gigante acordar mais 3% o Brasil toma jeito? Lula está fazendo a parte dele: além de alertar que a sua criatura está na lama, o ex-presidente informou ao país: “A gente só pensa em cargo”. Demorou, mas finalmente o fisiologismo petista saiu do armário.

A confissão de Luiz Inácio da Silva é um dos momentos mais dramáticos da história recente. Percebendo a si mesmo e a seu partido afundados no volume morto da política nacional, o número um abriu o peito e soltou lá de dentro a verdade sufocada, dolorida, obscena: o PT só pensa em emprego, só pensa em “ser eleito” como meio de vida, para viver à custa do Estado brasileiro fantasiado em bandeiras bondosas. Claro que Lula quis dizer que o PT ficou assim, tipo de repente, mas não é preciso ser psicanalista para captar a autodelação: “A gente só pensa em cargo” – é assim que somos, e sempre fomos. O famoso “partido da boquinha”, conforme apelido cirúrgico criado por um colega de populismo parasitário.

Se existisse justiça divina, estariam todos na boquinha do inferno: qual a pena para quem forja consciência social com o fim de espoliar conscientemente a sociedade? O padre pedófilo transforma seu protegido em vítima, vendendo segurança espiritual para se servir da carne. Os petistas prometem o céu para se locupletarem na Terra. “A gente só pensa em cargo.” Até que enfim o oráculo jogou o óbvio na cara do Brasil. Não há mais tempo para autoengano: o partido que governa o país há 12 anos foi, é e será fisiológico. Não há São Levy que possa fazer transplante de alma em vampiro.

Descendo da Bíblia companheira à justiça terrena: uma vasta operação policial expôs o maior esquema de corrupção da história da República, montado sob o governo do partido que só pensa em cargo. O tesoureiro desse partido é réu nesse escândalo e está preso. Entre outras atribuições, esse tesoureiro cuida de abastecer as campanhas dos companheiros que “só pensam em ser eleitos”, conforme explicou o número um. Entre as campanhas abastecidas por dinheiro roubado da maior estatal do país, segundo as investigações, está a da presidente da República. Entre os presos por operar o esquema estão dois diretores da estatal indicados ou protegidos pelo partido que só pensa em cargo. Aí surge o milagre brasileiro: nenhuma investigação – nenhuma – envolve os governantes do país, representantes do partido que só pensa naquilo.

A mais recente etapa da vasta operação policial prendeu donos de empreiteiras envolvidas no esquema – pelo menos uma delas com claros indícios de promiscuidade com o ex-presidente Lula. Ninguém flagrou algum desses empresários corrompendo ninguém. Eles foram presos segundo a teoria de domínio do fato, isto é, autoria indireta dos crimes. A Justiça é cega, mas não é burra, e sabe o que é cadeia de responsabilidades. Claro que no Brasil ninguém nunca é responsável por nada – todo delito é obra de algum aloprado que agiu por conta própria. Mas a prisão dos empreiteiros quebrou essa lógica, e a pergunta agora é: onde está a teoria de domínio do fato para implicar as autoridades governamentais?

A cadeia de responsabilidades do petrolão está mais do que exposta, cantada em prosa e verso nas delações premiadas, nos jornais e nas TVs: um sistema bilionário de corrupção envolvendo a cúpula da Petrobras não poderia funcionar por mais de década sem algum nível de conivência do Palácio do Planalto.

Seria obra de alguns aloprados que só pensam em cargos e em dinheiro para se elegerem? Não. Agora sabemos que essa conduta não é desvio, é DNA. Quando foi defenestrado pelos brasileiros, Collor tinha dois anos de peripécias, não 12. Não tinha petrolão nem mensalão no currículo. Não tinha sido flagrado em pedaladas fiscais e contabilidade criativa para torrar escondido o dinheiro do contribuinte. Não tinha avacalhado a estabilidade econômica trazendo de volta a inflação que estava controlada.

Ou o Brasil resolve isso agora, ou assume de uma vez que virou agência de empregos.

Trégua sem trégua

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Auxiliares mais afoitos da presidente Dilma Rousseff preparavam os bumbos ontem para comemorar o fato de a inflação de junho, de 0,79%, ter ficado ligeiramente abaixo da média prevista pelo mercado, de 0,83%, mas foram atropelados com tudo pelo terremoto financeiro vindo da China.

A ideia era difundir o discurso de que a carestia estava seguindo, ainda que lentamente, o caminho de desaceleração traçado pelo Banco Central. O ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, fez muito bem esse trabalho ao ser questionado sobre o fato de o custo de vida ter registrado, no mês passado, a maior alta para junho em 19 anos. Mas soou falso.

Por trás do otimismo que o governo tenta espalhar, o que se viu foi um sentimento de pânico. Não estava, no roteiro da equipe econômica, ter que lidar, agora, com uma crise vinda da China, o segundo parceiro comercial do país, para onde seguem quase 20% dos produtos brasileiros. Foram os chineses, com a demanda frenética por matérias-primas, que, nos oito anos da era Lula, levou o Brasil a dar saltos expressivos no Produto Interno Bruto (PIB).

Desde que Dilma assumiu o poder, contudo, a China foi desacelerando as compras e, com isso, o PIB brasileiro, minguando. Assim, na hipótese de o estouro da bolha acionária chinesa contaminar toda a economia real daquele país, não haverá escapatória para o Brasil, admite Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Partners. A recessão brasileira, que hoje já se mostra perturbadora, será mais profunda.

A tendência é de as exportações para a nação asiática, que acumulam queda de 22,6% no primeiro semestre do ano, despencarem. Com menos dólares circulando pela economia brasileira, as cotações da moeda norte-americana devem disparar — somente ontem, o salto foi de 1,7% —, jogando a inflação para além dos 10% em 2015 e tornando quase impossível para o BC entregar a carestia no centro da meta, de 4,5%, até o fim do ano que vem.

Velho chama a atenção para os efeitos perversos do agravamento da crise chinesa sobre o Brasil. No entender dele, muito do estrago que está se desenhando agora poderia ser evitado se o governo tivesse usado os tempos de chuva de dólares para promover reformas estruturais na economia, melhorar a infraestrutura e incentivar o aumento da produção. O que se viu, porém, foi um desenfreado estímulo ao consumo, como se a bonança nunca fosse acabar.

“A situação da economia brasileira é desoladora e pode piorar. O governo achou que teria uma trégua com a inflação abaixo do que previa o mercado, mas vieram as péssimas notícias da China. Foi uma espécie de trégua sem trégua”, diz. Ele acredita que, com os chineses espalhando pânico, a aversão ao risco a países emergentes tende a atingir níveis alarmantes. E o Brasil, por estar em situação muito delicada, conjugando recessão com crise política que ameaça o mandato da presidente Dilma, será visto com olhos mais desconfiados.

Desmoralização
Tudo joga contra o país neste momento. Em meio ao turbilhão chinês, o Congresso desmoralizou o ajuste fiscal prometido pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O senador Romero Jucá (PMDB-RR) apresentou proposta para reduzir, de 1,1% para 0,4% do PIB, a meta de superavit primário deste ano e de 2% para 1% a de 2016. Todo mundo sabe que o objetivo ambicioso de Levy, totalizando R$ 66,3 bilhões, não seria alcançado, mas, por credibilidade da política fiscal, seria importante que o próprio ministro anunciasse a redução.

Jucá, ao se justificar, disse que havia chegado “a hora da verdade dos números”, uma vez que o governo se especializou em pedaladas fiscais. O problema é que, mesmo mais realistas, as metas de superavit primário definidas pelo Congresso indicam que a esperada estabilidade da dívida pública não vai se confirmar. O endividamento cravou, em maio, o nível recorde de 62,5% do PIB. E vai continuar subindo, assim como o deficit nominal, que inclui os gastos com juros e já esbarram em 8% de todas as riquezas produzidas pelo país.

A sensação é de que os parlamentares estão contratando o rebaixamento do Brasil pelas agências de risco, que, certamente ficou mais perto, diante da ratificação, pelo Senado, do projeto que vincula a correção das aposentarias superiores ao salário mínimo à política de reajuste do piso salarial. É como se jogassem uma pá de cal na possibilidade de reação da economia a partir do ano que vem. Mais do que isso: estão atropelando todo o bom senso com o intuito de tornar insustentável a permanência de Dilma no poder.

Insensatez custa caro. Se os parlamentares que fustigam o governo acreditam que poderão ratear o poder com a desejada queda de Dilma, devem se atentar que quebrar o país não beneficia ninguém. Muito pelo contrário.

Observação de Delfim
» Ex-ministro da Fazenda, Delfim Netto vem dizendo, em conversas com economistas, que o PT acabou como opção para o poder. Agora, só resta à legenda sobreviver como oposição.

Descaso com a confiança
» Dentro do governo, todos lamentam a falta de confiança no país. Dizem, sem meias palavras, que tanto Guido Mantega, ex-ministro da Fazenda, quanto a presidente Dilma subestimaram o poder da credibilidade para um país.

Arrocho perto do fim
» Metade do mercado financeiro já acredita que o Banco Central dará mais uma alta de 0,25 ponto percentual nos juros, no fim de julho, para 14% ao ano, e encerrará o arrocho que tanto incomoda o Planalto.

Madame cria problemas para os outros

Carlos Chagas
Tribuna da Internet


Anuncia o palácio do Planalto que a presidente Dilma vetará o reajuste das aposentadorias e pensões de acordo com os cálculos do salário mínimo, conforme aprovaram Câmara e Senado. Quer dizer, mais uma vez o governo dos trabalhadores penaliza os próprios. Se é para poupar recursos e engordar o tesouro nacional, por que não taxar o lucro dos bancos? Ou criar o imposto sobre grandes fortunas?
Tem sido sempre assim, desde que Madame assumiu o poder. Na hora dos sacrifícios é o trabalhador que paga. Em especial os aposentados e pensionistas, desde o governo Fernando Henrique submetidos ao fator previdenciário e outras maldades. Não demora muito e todos os que pararam de trabalhar estarão nivelados por baixo, recebendo apenas o salário mínimo. Exceção, é claro, de certas categorias privilegiadas do serviço público.

Ignora-se o regime previdenciário de Dilma, mas como ex-presidente da República, a partir de 2019 ou mesmo antes, ela não enfrentará dificuldades. Receberá vencimentos mensais iguais aos de um ministro do Supremo Tribunal Federal, dispondo de dois automóveis com motoristas, mais um gabinete com oficiais e soldados do Exército, além de seguranças. Aposentadoria para ninguém botar defeito. Por que pensar nos outros?

Vem de tempos imemoriais as vantagens dos poderosos. Apenas dois ex-presidentes da República passaram apertados, por não dispor de fortunas pessoais: Café Filho, cujos ex-ministros fundaram uma empresa imobiliária para ele dirigir, com salário mensal, e Itamar Franco, nomeado embaixador para poder sobreviver. Dilma não terá problemas, ainda que pretenda criá-los para a população.

EM FAIXA PRÓPRIA
Jamais se contestará a lealdade de Michel Temer para com a presidente Dilma. Até aceitar uma polêmica coordenação política ele aceitou. Mesmo assim, salta aos olhos que o vice-presidente transita em faixa própria. Continua construindo imagem específica, de conciliador e homem do diálogo até com os adversários. Seu objetivo não é ocupar o palácio do Planalto antes da hora, mas está de olho em 2018, quando o PMDB lançará candidato, venha ou não o Lula candidatar-se pelo PT.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Não é aumentando impostos, como sugere Carlos Chagas, que o governo pode atingir o ambicionado ajuste fiscal sem penalizar ainda mais os trabalhadores que já vivem o fantasma do desemprego,  que precisam suportar a inflação de 9 % que lhes corrói a renda além da pesada carga de impostos sem retorno algum e o confisco salarial via imposto de renda fonte. Tem ainda os juros estratosféricos, os mais altos do planeta.

Vimos nesta edição a farra das diárias e do cartão corporativo, dois canais de desperdício explícito que o governo Dilma não se preocupa em por freios. Além disto, há mais de 23 mil cargos de confiança sem nenhuma utilidade para o país, sem contar os 39 ministérios dos quais, pelo menos metade são inúteis e fontes de puro desperdício. 

Coloque nesta balança a superestrutura da própria presidência da República e teremos, nestes pontos todos,  bastante gordura para cortar tendo em vista o ajuste fiscal. 

Quem pagará o enterro e as flores?

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo

Um jornalista que escreve que o governo afundou na corrupção, diante dos juízes não pode alegar que o governo apenas tropeçou ou resvalou na corrupção. Afundou mesmo. Teremos um longo período de governo sitiado. 

No momento em que escrevo, começo uma jornada pela Amazônia oriental. Entro numa área de pobre conexão, mas ao sair dela, creio, ainda estaremos no mesmo estado de crise.

O cerco contra o governo cada vez aperta mais. O esperado depoimento de Ricardo Pessoa, o homem da UTC, envolve diretamente tesoureiros e campanhas de Lula e Dilma. Em Minas, o governador Fernando Pimentel está sendo investigado pela Polícia Federal (PF) com autorização do Superior Tribunal de Justiça.

Dentro da cadeia, o cerco se fecha também contra os empreiteiros. A força-tarefa de procuradores apurou apenas 25% dos casos de corrupção. A presença de grandes empresários na cadeia traz à cena alguns dos melhores escritórios de advocacia do País. Nesses casos - infelizmente, apenas nesses - o respeito aos direitos humanos é minuciosamente monitorado.

Só com os dados divulgados nem sempre é possível fazer uma análise precisa. O bilhete de Marcelo Odebrecht, por exemplo, foi tema de discussão. No bilhete, apreendido pela PF, ele manda destruir um e-mail. A defesa de Odebrecht diz que ele usou o termo destruir num sentido figurado. Queria dizer desconstruir, combater os argumentos associados a um negócio de sondas, com sobrepreço.

Só tenho meus recursos próprios para avaliar um caso desses. Pelo que conheço de cadeia, os presos, de fato, usam linguagem cifrada para evitar que a polícia descubra o conteúdo de seus bilhetes: Arnaldo, não se esqueça do remédio das crianças menores; Maria, pegue o meu guarda-chuva e empreste ao Adriano. Na cadeia, a linguagem figurada não é usada apenas para que a polícia não perceba o conteúdo, mas também para que a polícia não possa provar que você falou algo diferente do que está ali, no papel.

Prisioneiros usam metáforas para escapar do crivo policial. Marcelo Odebrecht usou para se incriminar. Inexperiência? De modo geral, um empresário como ele tentaria ser objetivo. Ele sabe que um simples bilhete de cadeia tem de ser preciso. Poderia ter escrito desconstruir, combater, no lugar de destruir.

Vamo-nos ater aos verbos construir e desconstruir. A desconstrução de um argumento, de modo geral, é um processo longo e diversificado. Neste caso, não haveria tanta urgência: era tema para tratar nas conversas regulares com os advogados. O verbo destruir implica uma certa pressa e cabe precisamente num bilhete, num comunicado que não possa esperar visitas legais e regulares de seus defensores. Os advogados de Odebrecht afirmam que não mandaria destruir o e-mail sobre compra de sondas porque já era conhecido da polícia. Argumento forte: de que adianta destruir algo que a polícia já conhece e utiliza? Mas não era só um e-mail, vários foram escritos pelo mesmo diretor. Agora a Braskem já entregou todos os e-mails e a operação foi auditada por uma firma independente.

Novas batalhas estão em curso. Uma delas é sobre o sentido da palavra sobrepreço. Nós a entendemos como superfaturamento. Eles dizem que é um termo comum no mercado, com sentido diferente.
A liberdade de Marcelo Odebrecht depende de uma profunda simpatia da Justiça por seus argumentos. Para conceder habeas corpus será preciso deixar de lado o que está escrito e acreditar só no que ele queria dizer.

Um jornalista que escreve que o governo afundou na corrupção, diante dos juízes não pode alegar que o governo apenas tropeçou ou resvalou na corrupção. Afundou mesmo.

Teremos um longo período de governo sitiado. As peripécias jurídico-policiais serão emocionantes, mas inibem um pouco a discussão sobre alternativas. Tanto a PF quanto o Ministério Público (MP) já devem ter ideia do extenso trabalho que têm pela frente. A usina de Belo Monte, por exemplo, não tinha entrado na história da corrupção. Agora já entrou. Os estádios construídos pelas empreiteiras para a Copa do Mundo também passam por dificuldades e a história de sua construção ainda não é de todo conhecida.

Os empreiteiros estão ressentidos com o governo porque não impediu a ação da PF e do MP. Mas como, se o governo está cercado e se comporta como num avião em queda: primeiro ajusta a máscara de oxigênio em si próprio, depois vai pensar em cuidar do outro.
Lula não poderá dizer que ignora o que se passou na Petrobrás ou não conhece nem trabalhou com a Odebrecht. Dilma, por sua vez, já se complicou com as pedaladas no Orçamento e dificilmente conseguirá explicar-se. Além disso, com as declarações de Pessoa, terá de explicar, juntamente com seu ministro Edinho Silva, onde foram parar os R$ 7,5 milhões da UTC injetados no caixa 2 de sua campanha. Tudo isso já era esperado. Ricardo Pessoa fez várias referências na cadeia, indicando o rumo de sua delação premiada. Com tantos escândalos, quase esquecemos dessa variável. No fim de semana, ela apareceu com toda a força.

As complicações de Fernando Pimentel também eram pressentidas, desde 2014, quando o empresário Bené foi preso com dinheiro no avião. A sensação que tivemos no momento eleitoral foi de abafa. Mas também aí o fio foi sendo puxado. O caso implica a mulher de Pimentel. Jornalista, ela recebeu de outro jornalista, Mario Rosa, mais de R$ 2 milhões por seu trabalho. Deve ser extremamente talentosa. Um jornalista mediano rala dez anos para chegar a essa soma, e muitos não chegam lá.

Estamos assistindo a cenas finais dessa luta da Justiça contra o partido político que domina o País ao lado de seu parceiro, o PMDB. Não me parece tão produtivo falar mal de um governo e um partido cercados pela polícia.

Dilma faz saudações à mandioca, como se o ridículo fosse o mais leve fardo que pudesse carregar. Lula esbraveja contra o PT, como se fosse um observador de outro planeta. Vai chegar o momento de discutir o País e alternativas diante da crise. Está demorando. O minuto de silêncio pelo funeral do PT se estende além da conta. Já sabemos quem pagará o enterro e as flores. 

Arruinado, o Brasil precisa recomeçar.

Comunistas sem fronteiras

Percival Puggina
Tribuna da Internet

Lula é um dos articuladores do Foro de São Paulo

Foi Olavo de Carvalho quem primeiro denunciou a existência e os objetivos do Foro de São Paulo. Ele chamava a atenção para o que estava em curso e a imensa maioria dos comentaristas o acusava de ser porta-voz de uma teoria da conspiração. O FSP era visto como tema para ser balbuciado a portas fechadas e enfrentado em divã de psiquiatra. Jamais como objeto de interesse do jornalismo bem-informado. Enquanto isso, o Foro, criado em 1990, existia e se expandia. Deliberava e suas metas iam sendo atingidas.

Mesmo quando se reunia no Brasil, ele permanecia como tema sigiloso, até que o próprio Lula, então presidente, em discurso proferido no encontro de 2005, recolheu a cortina: “Foi assim que nós pudemos atuar junto a outros países com os nossos companheiros do movimento social, dos partidos daqueles países, do movimento sindical, sempre utilizando a relação construída no Foro de São Paulo para que pudéssemos conversar sem que parecesse e sem que as pessoas entendessem qualquer interferência política.

Foi assim que surgiu a nossa convicção de que era preciso fazer com que a integração da América Latina deixasse de ser um discurso feito por todos aqueles que, em algum momento, se candidataram a alguma coisa, para se tornar uma política concreta e real de ação dos governantes. Foi assim que nós assistimos a evolução política no nosso continente”.

EM 12 PAÍSES
Hoje, os partidos do FSP governam 12 países da região e são a principal oposição em outros quatro. A partir dele se entende que o Brasil ande de cambulhada numa geopolítica exclusivamente petista, como as decorrentes da concepção de “Pátria Grande” (defendida por Lula quando se reúne com os seus). Também a partir do Foro, se explicam: a) o oneroso apoio brasileiro aos países do grupo; b) o nosso envolvimento com encrencas e dificuldades do Paraguai, Honduras, Venezuela, Cuba, Bolívia, El Salvador; c) os conciliábulos da Unasul e a criação da Escola Sul-Americana de Defesa; d) as incursões das FARC em território brasileiro; e) o desdém de Dilma aos presos políticos de Cuba e Venezuela; e f) a contrastante conduta do nosso governo durante as duas visitas de senadores brasileiros em recentes viagens a Caracas.

Quem conhece a história do FSP, nascido no rescaldo do fim da URSS, sabe que a entidade é uma espécie de “Comunistas sem fronteiras”, ao qual a nação está sendo entregue, empacotada como presente à tal Pátria Grande. É intolerável que as afinidades e estratégias políticas de um único partido, conectado com os interesses de organizações comunistas internacionais, determinem nossa política externa e não passem pelo crivo das instituições da República.

Golpe é tergiversar sobre pixulecos e pedaladas

Josias de Souza


Danem-se os pixulecos e as pedaladas. Sob Lula, estruturou-se na Petrobras uma organização criminosa de funcionários corruptos e empreiteiros corruptores. De acordo com a penúltima soma da Polícia Federal, roubaram-se pelo menos R$ 19 bilhões. Presidia o Conselho de Administração da estatal Dilma Rousseff. Chefe do cartel da pilhagem, o empreiteiro-companheiro Ricardo Pessoa, agora delator, contou à Procuradoria que um pedaço do butim foi convertido num pixuleco de R$ 7,5 milhões, borrifado em 2014 nas arcas da campanha de Dilma, agora presidente do Brasil.

Diante do descalabro, o PT justificou-se trombeteando que a doação foi legal e consta da prestação de contas entregue ao TSE. Dilma disse que não respeita delator e que a campanha do rival Aécio Neves recebeu verbas da mesma fonte. “O meu é propina e o dele não?”. Usado como lavanderia, o TSE investiga o caso. Tomará o depoimento do delator na semana que vem. E dará um veredicto no segundo semestre. Dilma e o PT acham que quem fala sobre esse tema em voz alta é golpista. Sustentam que está tudo bem explicado.

Corta para o Tesouro Nacional. Ao varejar a contabilidade do governo Dilma referente a 2014, auditores do TCU encontraram uma soma de irregularidades equivalente ao número que identifica o PT: 13. Depois de passar o ano pedalando uma bicicleta sem rodas e fazenda mandracarias fiscais, o Planalto premiou seus aliados com verbas e cargos para que aprovassem no Congresso uma lei desobrigando o governo de cumprir a meta de superávit que se autoimpusera. Uma economia de R$ 116 bilhões virou uma mixaria de R$ 10,1 bilhões. Convidada a se explicar, Dilma entregará sua defesa até o próximo dia 21. E o TCU dirá se as contas estão mesmo em desacordo com a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Espremida, Dilma diz que a resposta do governo será “circunstanciada, item a item.” Por via das dúvidas, a Fazenda acomoda todas as culpas sobre os ombros de um alquimista que já deixou o governo, o ex-secretário Arno Algustin. Com esse biombo, insinua-se que a ex-gerentona, de novo, não sabia de nada. De resto, Dilma afirma que FHC também pedalou. Está tudo muito claro. Só não vê quem é cego ou golpista.

O comportamento imperial do petismo e de Dilma —“Eu não vou cair, eu não vou cair, eu não vou…”— revelam um fenômeno desalentador: mesmo situadas no “volume morto”, as forças que governam o país acham que não devem nada a ninguém. Muito menos explicações. Fogem dos próprios problemas exilando-se em algum lugar do Brasil pré-1964. Um país em que certos políticos, quando queriam revogar resultados eleitorais, armavam uma cena de histeria e acionavam a linha direta que os ligava aos quarteis.

Há nessa tentativa de fugir da realidade um quê de ridículo. A presença de Dilma no Planalto é a principal evidência de que a conexão da política com a caserna caiu em desuso. Se alguma dúvida houvesse, ela teria sido fulminada em 1º de janeiro de 2011, quando a ex-guerrilheira, ex-presa política e ex-torturada assumiu a Presidência pela primeira vez, no lugar do ex-operário.

Desde que se reencontrou com a democracia, o brasileiro convive com duas formas de governo. Ambas são civis. A diferença é que uma forma é ruim e a outra é muito pior. A despeito desse inconveniente, não há como apagar o fato de que o Brasil respira ares democráticos.

Na oposição, o PT vivia tentando atear fogo no cenário político. O “Fora FHC”, por exemplo, foi às ruas nas faixas da CUT. Chegou ao Legislativo nos discursos de congressistas do partido de Lula. E fez escala no jornal num artigo em que o ideólogo petista Tarso Genro pregou o impeachment do presidente tucano. Hoje, depois de tanto banalizar a retórica golpista e flertar com a ruptura institucional, o ex-PT enxerga fantasmas onde só há tribunais tentando fazer cumprir as leis e oposicionistas fazendo o que se espera que façam: se opondo.

A Dilma cabe, por ora, se explicar. Se for convincente, o TCU atesta a correção das contas de 2014 e o Congresso fica impedido de abrir contra ela um processo de impeachment por crise de responsabilidade. Mantendo o mesmo padrão de convencimento, o TSE aprova a contabilidade de sua campanha e arquiva a ação que poderia levar à cassação de Dilma e do seu vice Michel Temer.

Nesse jogo, todo mundo tem o direito de preferir Dilma, sonhar com Aécio ou torcer por quem quer que seja. Apenas duas coisas não são admissíveis: manipular as leis para derrubar presidentes ou permanecer na Presidência violando as leis. Enquanto o parâmetro for o respeito às leis e à Constituição, haverá normalidade democrática, não golpismo. A verdadeira tentativa de golpe é a desconversa. Uma democracia genuína não pode conviver com dúvidas sobre pixulecos e pedaladas.

Prisões da Lava Jato têm sido feitas dentro da lei

Tribuna da Internet
Mariana Barros, Revista VEJA

Entre 315 pedidos de habeas corpus, apenas três concedidos


De acordo com a Justiça Federal do Paraná, neste momento da operação Lava Jato há 27 réus presos em regime fechado. Para os críticos da operação, não há motivos para mantê-los atrás das grades. Segundo eles, trata-se apenas de uma forma de coagi-los a colaborar com as investigações. Para usar uma palavra que tira o sono dos acusados, transformá-los em “delatores”. A tese, no entanto, não se ampara na prática. O mais bombástico dos delatores recentes, Ricardo Pessoa, firmou o seu acordo apenas duas semanas depois de ter sido liberado por uma decisão do Supremo Tribunal Federal – ou seja, tomou a decisão no conforto de sua casa.

O histórico das decisões judiciais do caso também desmonta a tese: fossem abusivas as prisões decretadas pelo juiz federal Sérgio Moro, os tribunais superiores já teriam expedido centenas de decisões favoráveis aos réus. Mas, até agora, dos 315 pedidos de habeas corpus registrados (incluindo pedidos de soltura de presos e questionamentos sobre a legalidade de provas e até sobre a quem cabe julgar o processo), apenas três foram acatados pelo ministro do STF Teori Zavascki. Ele expediu três ordens de soltura, dos ex-diretores da Petrobras Paulo Roberto Costa e Renato Duque, que voltaram a ser presos em seguida, e de Ricardo Pessoa, no mês passado, quando outros oito réus foram liberados como efeito dessa mesma decisão. Das centenas de outros habeas corpus impetrados com teores variados nenhum foi aceito até o momento.

RÉUS SOLTOS
“As prisões têm sido decretadas motivadamente com base em outros argumentos, passíveis ou não de críticas, mas não como instrumento de pressão para forçar delações”, diz o jurista Miguel Reale Junior. E completa: “É preciso lembrar que a maioria das delações foram feitas com réus soltos, a começar a de Ricardo Pessoa, libertado pelo STF e só depois tendo firmado acordo de colaboração”. Visão semelhante é compartilhada pelo ex-presidente do STF Carlos Velloso. Diz ele: “A prisão cautelar tem base na lei e sempre cabem recursos, que devem ser utilizados a tempo e modo. Esses recursos têm sido utilizados e as prisões têm sido mantidas pelos tribunais, inclusive pelo STF.”

Para o advogado Fabio Medina Osório, presidente do Instituto Internacional de Estudos de Direito de Estado, a prisão preventiva é uma forma eficiente de evitar que os acusados venham a atrapalhar a investigação, dado seu poder e escopo de influência. Em liberdade, eles poderiam atuar para destruir mapas, planilhas, registros e toda variedade de material que pode ser usado para comprovar o esquema. É preciso lembrar que apenas os relatos feitos nas delações não bastam: os réus colaboradores devem apresentar documentos capazes de sustentar o que dizem. Por fim, a prisão preventiva impede que os envolvidos continuem a praticar os delitos pelos quais estão sendo investigados. “Não interpreto arbitrariedade alguma nas decisões e muito menos pressão ou suposta coação para que alguém celebre acordos de colaboração premiada”, afirma.

LINHA DE DEFESA
Segundo Medina Osório, o acordo de delação se tornou uma linha de defesa dos envolvidos na Lava Jato. “A colaboração premiada é uma estratégia dos próprios advogados, que chancelam essa postura e cooperam com as autoridades, buscando obter legítimos benefícios aos seus clientes”, diz.

A delação premiada está prevista em lei desde os anos 1990, apenas em 2013 foi detalhada, obrigando, por exemplo, o delator a falar somente a verdade, sob pena de ter o acordo anulado, e criando a necessidade de que cada acordo seja homologado na Justiça. Embora seja novidade no Brasil, é um instrumento bastante usado em países de boa prática democrática, como Espanha, Portugal, Chile, Argentina e Colômbia. É a delação que tem permitido à Justiça criar instabilidade nas organizações criminosas do mundo todo, uma vez que os criminosos não sabem em quem confiar. Tal dificuldade faz com que o risco de ser pego é maior, o que faz com que a prática da corrupção se torne cada vez mais cara.

“Estamos falando de corrupção, lavagem de capitais, fraudes licitatórias, evasão de divisas e outros crimes em larga escala, com tentáculos institucionais, incluindo o financiamento ilícito de campanhas eleitorais. A resposta do Judiciário tem de ser contundente”, afirma Medina Osório.

Os inimigos da rainha

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Quem não sabe o que busca não identifica o que acha, dizia Immanuel Kant. Dilma decidiu bater duro, mas identificou o inimigo errado: o ódio pelo PSDB é tamanho que continua atacando Aécio, enquanto elogia o PMDB.

Dilma enfim percebeu que está em risco, mas ainda não sabe que Aécio e o PSDB são café com leite. Seus inimigos são mais hábeis, mais poderosos e mais bem situados: estão dentro do Governo e comandam Senado e Câmara. Basta seguir a linha do tempo: o esfacelamento da base de Dilma coincide com a vitória, para a presidência da Câmara, do deputado Eduardo Cunha - que a presidente, embora se tratasse de um aliado, tentou trocar por um petista. Cunha, um dos parlamentares mais competentes do Congresso (pena que não esteja exatamente do lado do bem), reagiu duro, mostrando que o PT não tem aliados e quer todos os cargos; e derrotando várias vezes a presidente. Oficialmente, ele e Renan comandam alas opostas do PMDB; na prática, só existe uma ala no PMDB, a que gosta de cargos. Ele e Renan formam uma dupla unida: ele é o durão, Renan é o flexível. Os dois propõem que o PMDB se afaste do Governo, enquanto Temer diz defender a aliança. O fato é que os três, juntos, ocupam todos os espaços.

Os três querem a saída de Dilma. Se só ela sair, por impeachment ou crime de responsabilidade, Temer assume (se ela ficar, Temer continua na coordenação política). Se saírem ela e Temer, por irregularidades na campanha, Cunha assume e comanda novas eleições. E, tenha certeza, seu candidato de coração não é Lula.

Sim, não, talvez
Mas ninguém imagine que Renan, Cunha e Temer sejam Os Três Mosqueteiros, um por todos, todos por um. Renan e Eduardo Cunha, se puderem, salvarão o mandato de Temer, para que ocupe a Presidência no lugar de Dilma. Se não puderem, não correrá uma lágrima: Cunha assume e convoca eleições. Cumpre a lei. De acordo com as regras não escritas da política, Temer será homenageado e transformado em conselheiro do partido. 

Vai virar uma gloriosa memória. 

O manto diáfano
A articulação já se faz à luz do dia. O PMDB está negociando com adversários do PT uma maneira legal de convencer Dilma a sair, mantendo Temer no poder. O PSDB gostou da conversa de que o país não aguenta três anos e meio de uma presidente que esbraveja, grita e pensa que manda, mas sem poder real; e de que é preciso vencer a crise de governabilidade. 

PMDB e PSDB, juntos - e com o inevitável apoio do PTB, PPS, DEM e adesistas de última hora - têm ampla maioria no Congresso. O PT de Dilma pensa em atrair de volta o PMDB; o PT de Lula quer o "exército de Stedile" nas ruas. 

Mas, tirando a própria Dilma e uns poucos ministros, ninguém aposta um picolé de limão em sua permanência.

Dias de fúria
Hoje - por coincidência, aniversário dos 7x1 da Copa que abalaram o Brasil - há uma acareação de Pedro Barusco com seu antigo chefe Renato Duque, ex-diretor de Serviços da Petrobras, na CPI. Se Barusco tinha quase US$ 100 milhões que na delação premiada aceitou devolver, quanto teria cabido a seu chefe?

Amanhã é pior: a acareação é de Barusco com João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT. A oposição espera que Barusco possa comprovar que a campanha de Dilma recebeu recursos desviados da Petrobras (nesse caso, o Tribunal Superior Eleitoral pode cassar o registro da candidatura de Dilma e Temer, retirando-lhes o mandato). Mais: se Vaccari mentiu à CPI em seu primeiro depoimento, em abril, está sujeito a processo criminal - o que poderia estimulá-lo a aderir à delação premiada, na qual contaria sua vida de tesoureiro do PT.

A propósito de delação premiada, Ricardo Pessoa, da UTC, é um nome-chave na questão de doações de campanha. Ele sabe se e quando houve dinheiro sujo.

As chances de Dilma
Por incrível que pareça, as melhores oportunidades da presidente estão no Congresso. Mesmo que o Tribunal de Contas recomende a rejeição das contas de Dilma, isso não passará de recomendação. O TCU é órgão auxiliar do Congresso. E o Congresso, mesmo contra a recomendação do tribunal, pode aprovar as contas. Mas pode ser mais sutil - o que faz parte do estilo do PMDB: para julgar as contas de Dilma, seria preciso analisar primeiro as contas pendentes. Há 15 relatórios que não foram examinados, e que têm precedência. A questão pode ir longe e só ser examinada depois de terminado o mandato da presidente.

No lugar certo
A presidente Dilma Rousseff viajou na terça para a Rússia, para participar da 7ª Reunião de Cúpula do Brics - grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. 

Dificilmente a cidade-sede teria um nome mais adequado: Ufa.

Atenas é aqui
Grécia é para os fracos. O Ministério do Planejamento foi obrigado, por um requerimento do senador Reguffe, do PDT de Brasília, a revelar informações até agora secretíssimas. O Governo Federal tem 23.941 cargos de confiança, para os quais pode nomear quem quiser, sem concurso (os Estados Unidos, com população 50% maior, com economia sete vezes maior, têm 8 mil cargos de confiança). 

carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann
www.brickmann.com.br

Às escondidas, em Portugal, Dilma e Lewandowski discutem Operação Lava Jato e impeachment

Ricardo Noblat

A acreditar-se em José Eduardo Cardoso, ministro da Justiça, ele, a presidente Dilma Rousseff e o ministro Ricardo Lewandowski, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), tiveram “um encontro casual” no início desta semana na cidade do Porto, em Portugal. Sim, "casual".

Foi o que Cardoso garantiu ao jornalista da Globo News Gerson Camaroti, que soube do encontro e publicou a notícia em seu blog. Segundo Cardoso, Lewandowski pediu para ver Dilma. Ele participava  de um evento jurídico na cidade portuguesa de Coimbra.

Ao saber que o avião que transportava Dilma e comitiva para a cidade russa de Ufá faria uma escala técnica no Porto, cidade próxima de Coimbra, Lewandowski manifestou seu desejo de se reunir ali com a presidente da República para discutirem o aumento do Judiciário.

Recentemente, o Congresso aprovou um aumento para o Judiciário que o governo diz não ter como pagar. Cardoso jura que a reunião a três não serviu para que conversassem sobre  a Operação Lava Jato, conduzida pelo juiz Sérgio Moro, e que investiga a roubalheira na Petrobras.

Dilma, Lewandowski e Cardoso discutiram, sim, a Operação Lava Jato. O empresário Ricardo Pessoa, dono da empreiteira UTC, confessou ter dado dinheiro sujo para a campanha de Dilma à reeleição. Dilma nega, mas está preocupada com o que possa acontecer se isso acabar provado.

Da Operação Lava Jato, os três passaram a avaliar as chances de um pedido de impeachment de Dilma. Por falhas, o Tribunal de Contas da União poderá rejeitar as contas do governo de 2014. E o Tribunal Superior Eleitoral concluir que houve abuso de poder econômico na campanha de Dilma.

Os jornalistas brasileiros destacados para cobrir a viagem de Dilma à Rússia não foram informados sobre o encontro dela no Porto com Lewandowski. Muito menos os que ficaram aqui.  O encontro não constou da agenda oficial de Dilma.

Na verdade, o governo transparente de Dilma nada tem de transparente. É um abuso que dois chefes de poderes se encontrem às escondidas no exterior. E para examinar a delicada situação política de um deles. Os dois pisaram feio na bola. Apostaram que ninguém ficaria sabendo do encontro.

Lewandowski preside a mais alta corte de Justiça que poderá ser provocada, em breve, a decidir se procede ou não um eventual pedido de impeachment da presidente da República. Deveria ter se julgado impedido de se reunir para discutir o assunto com uma das partes interessadas. E logo no exterior. E às escondidas.

Basta lembrar que Lewandowski deve parte de sua indicação para o STF à família de dona Marisa, mulher de Lula, a quem sempre foi muito ligado. De resto, Lewandowski tudo fez para melhorar a sorte dos mensaleiros que acabaram condenados pelo STF.

É compreensível que Dilma tema por seu futuro. Mas não que contribua para emporcalhar a imagem do cargo que ocupa.

 (Foto: Divulgação)
Dilma Rousseff, presidente da república,
 e Ricardo Lewandowski, presidente do STF 

Ela termina o mandato?

Elio Gaspari
O Globo

Desde que Ricardo Pessoa começou a colaborar com as autoridades, essa pergunta tornou-se um complemento rotineiro aos comentários para quaisquer fatos. Milton Pascowitch fechou seu acordo de colaboração, e José Dirceu pediu um habeas corpus preventivo. Será que ela termina o mandato? Jorge Luiz Zelada, ex-diretor da Petrobras, está preso. Será que ela termina o mandato? O deputado Eduardo Cunha sugere que seu aliado Michel Temer abandone a coordenação política do governo porque, enquanto ele costura alianças de dia, o PT descostura-as à noite. Se o PMDB se afastar ainda mais do Planalto, será que ela termina o mandato?

O regime democrático brasileiro elegeu quatro presidentes, Fernando Collor, FHC, Lula e Dilma. Um foi para casa antes de concluir o mandato. Se isso acontecer a outro, chega-se a uma taxa de mortalidade de 50% (a do vírus Ebola esteve em 70%).

Indo aos mecanismos práticos existentes, Dilma Rousseff pode ser impedida pelo Congresso. Neste caso, assume Michel Temer para concluir o mandato. Trocar Dilma por Temer vem a ser o quê?

Dilma também pode ter o seu mandato anulado pelo Tribunal Superior Eleitoral, e há processos que, algum dia, podem acabar dando nisso. Neste caso, a vice de Temer vai junto, e assume Aécio Neves. No país do futebol, entregar a taça a quem perdeu a final é uma coisa meio girafa.

Noutra hipótese, o TCU pode rejeitar as contas da doutora, enviar sua decisão ao Congresso e vê-la referendada, o que provoca um impedimento com padrinho. É uma fórmula engenhosa, mas o Tribunal de Contas não chega a ser um tribunal, e sua relação com as contas dos poderosos jamais encantou a plateia.

Nenhum desses três mecanismos fica de pé sem o ronco da rua. Não se pode dizer se ele virá, nem como virá. Quando se tratava de mandar Collor para casa, empossar Itamar Franco pareceu uma boa ideia. E foi.

Presidente com dígito de aprovação antes de completar um ano é coisa nunca vista. Quem levou a doutora Dilma à situação em que está não foi a oposição, muito menos os moinhos de vento que o PT vê a cada esquina. Foi ela mesma. Como sairá dessa, só ela poderá saber. As razões pela qual entrou nessa enrascada foram muitas. Talvez a maior delas, por desnecessária e megalomaníaca, tenha ocorrido dias depois de sua vitória no ano passado, quando o PT tentou atropelar o PMDB.

O FASCÍNIO PETISTA PELO CAMINHO DO BREJO
Em oito meses aconteceram tantas coisas em torno do governo da doutora que algumas delas parecem esquecidas. Às vésperas do segundo turno da eleição de 2014, Dilma Rousseff, horas antes de uma reunião com o companheiro João Pedro Stédile e outros chefes de movimentos sociais, anunciou que “a reforma política é a condição para o efetivo combate à corrupção”. O comissariado propunha uma reforma plebiscitária com um receituário que poderia incluir o famoso voto de lista.

Nesses dias os companheiros já sabiam que o Congresso não comprava sua reforma. Mais: sabiam que Eduardo Cunha era candidato a presidente da Câmara. Inebriados pela vitória, resolveram atropelar. Enfrentariam Cunha e tocariam a agenda do rolo compressor (já tinham escolhido um banqueiro para sequestrar o programa econômico de Aécio Neves, mas, como podiam tudo, isso era um detalhe).

A reforma plebiscitária e o lançamento do petista Arlindo Chinaglia para disputar com Eduardo Cunha indicavam que o PMDB seria atropelado. Foram ao embate, tomaram uma sova, pulverizaram a liderança parlamentar do governo e acabaram entregando a coordenação ao príncipe do PMDB, Michel Temer. Era isso ou rolar escada abaixo. Queriam tudo, entregaram os anéis e alguns dedos.

MAL DO BEM
Há males que vêm para o bem. As últimas maluquices aprovadas pela Câmara podem se transformar num fator de fortalecimento do Planalto junto aos mercados internacionais.

Quanto mais clara for a percepção de que podem aprovar o que quiserem, mais a doutora Dilma canetará as doideiras com vetos, melhor para a batalha do ministro Joaquim Levy tentando evitar um rebaixamento do crédito do país.

PAPÉIS AMERICANOS
Durante a visita da doutora Dilma a Washington, o governo americano anunciou que pesquisou 2,5 milhões de páginas de documentos relacionados com o Brasil, produzidos entre 1964 e 1985. Desse garimpo, extraíram 4.500 páginas que podem ser úteis para jogar luz sobre a História da ditadura e das suas transações com Washington.

O material foi entregue ao governo brasileiro e, digitalizado, ficará acessível na base do Arquivo Nacional americano.

Tomara que não se repita o vexame da entrega de 43 papéis velhos e inúteis pelo vice-presidente Joe Biden no ano passado. Alguns deles estavam na internet há anos.

LULA EM CAMPO
Nosso Guia tornou-se o principal articulador de uma reaproximação com o PMDB. Em 2003, ele implodiu uma costura de José Dirceu nessa direção e cevou os pequenos partidos. Deu no mensalão.

Aos poucos Lula percebe que seu trabalho será vão se não costurar o PT.

CARDOZO
Repentinamente, o pedaço do comissariado que vinha atirando no ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, deu-se conta de que há uma hora em que é preferível sair a ficar.

NABUCO E EUFRÁSIA
Até o fim do ano sairá um livro que tem tudo para cativar. É “Um mapa todo seu”, o décimo romance da escritora Ana Maria Machado. Conta história de amor de dois grandes personagens. Ele é Joaquim Nabuco, o charmeur dos salões como “Quincas, o Belo”, e das ruas como um campeão do abolicionismo na segunda metade do século XIX. Nabuco tinha tudo, menos dinheiro. Ela é Eufrásia Teixeira Leite, rica herdeira de uma fortuna do café. Quando morreram-lhe os pais, foi morar num palacete em Paris, onde multiplicou sua riqueza.

Os dois foram e vieram durante 14 anos, quase casaram. Ela morreu solteira. Ele casou-se e detonou a fortuna da mulher investindo em papéis de um banco inglês que quebrou na Argentina.

Há um enigma nesse romance. Por que não casaram? Ela não queria sair de Paris? O abolicionismo dele ofendia a origem da fortuna dela? Incompatibilidade patrimonial?

Ana Maria Machado construiu sua hipótese, mas para se chegar a ela será preciso esperar o livro. Uma coisa é certa: vai-se aprender mais sobre essa fantástica senhora que soube viver e acumular riqueza investindo o que tinha. Só não conseguiu dar-lhe um destino, pois deixou quase tudo para os pobres de Vassouras, e o pecúlio esfarelou-se em “Lava-Jatos” desta vida.

ENGANO
A doutora Dima disse que não demite ministro pela imprensa. Enganou-se. Demitiu Guido Mantega do Ministério da Fazenda pelos jornais e fez mais, mantendo-o no cargo, insepulto, por vários meses.

Um governo à espera do fim

Ricardo Noblat


 Dilma Rousseff (Foto: Divulgação)

Falta combinar com as ruas, é claro. Mas os que apostam no impeachment de Dilma já se ocupam em avaliar humores, fazerem cálculos e trocarem ideias a respeito daquele que seria o maior evento a marcar o início do século XXI no Brasil.

Não é todo dia que se derruba um presidente da República com base na lei. Aqui, apenas um foi derrubado assim – Fernando Collor. A força bruta derrubou os outros.

Os mais açodados dão por provável que setembro não chegue ao fim sem que antes Dilma se despeça do poder pelo bem ou pelo mal. Pelo bem, por meio da renúncia.

Com um único dígito de aprovação, largada pelo PT que a detesta e por Lula que passou a rejeitá-la, Dilma pediria as contas.

Não vale supor que uma ex-guerrilheira, tendo provado as dores da tortura, seria incapaz de bater em retirada. Por que não?

Ao concordar em suceder Lula, Dilma se dispôs a servir a um projeto compartilhado por um conjunto de forças de esquerdas que jamais haviam chegado ao poder.

Provado dele, sim, quando o presidente João Goulart substituiu Jânio Quadros. Desde então estavam na maior fissura para desfrutar do poder novamente. Por isso cavalgaram Lula. E por ele foram cavalgadas.

A saída de Dilma por mal se daria mediante iniciativa jurídica em algum dos fronts onde ela encara sérios problemas.

O Tribunal de Contas da União, por exemplo, ameaça rejeitar a prestação de contas dela relativas ao ano passado.

O Tribunal Superior Eleitoral dirá se ela abusou do poder econômico para se reeleger.

Caberá ao Supremo Tribunal Federal julgar qualquer coisa que possa envolvê-la na Operação Lava Jato.

Quem disser que sabe o que irá acontecer está mal informado, mas ninguém quer ser pego de surpresa. No Congresso, ruiu a base de apoio ao governo.

Cresce no entorno de Dilma o clima hostil ao ministro Joaquim Levy, da Fazenda, o cérebro do ajuste fiscal.

Por sabotado, Michel Temer, o vice-presidente da República, flerta com o eventual abandono da função de coordenador político do governo.

Os partidos que contam analisam suas chances de se dar bem no dia seguinte à queda de Dilma.

No PSDB, o melhor para Aécio seria o impeachment da chapa Dilma-Michel Temer, com a convocação de novas eleições dentro de 90 dias.

Nesse período, Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, presidiria o país. Aécio e Eduardo têm conversado muito sobre o assunto.

O senador José Serra (PSDB-SP) e o governador Geraldo Alckmin (PSDB-SP) preferem o impeachment de Dilma e a ascensão de Temer. Que governaria até 2018, quando um deles poderia sucedê-lo.

Com a discrição que o caso requer, ministros de tribunais superiores medem a temperatura entre seus colegas e avaliam as pressões que sofrem.

Uma pedra importante no tabuleiro do poder parece confusa. Lula é o nome dela.

Há cerca de 20 dias, ele atirou forte em Dilma, no governo e no PT, acusando-os de estarem abaixo do volume morto. Recuou quando soube que Dilma poderia deixá-lo aos cuidados do juiz Sérgio Moro.

Lula admite que Dilma não tem mais salvação. A ser assim, melhor para ele e o PT que ela vá embora logo.

Se fosse, Lula e o PT se pintariam para a guerra e voltariam a ser oposição. Até 2018 teriam tempo para montar uma frente de partidos de esquerda que bancaria a candidatura de Lula a presidente. Ou outra candidatura.

Pois Lula carece de coragem para entrar em bola dividida.