domingo, julho 26, 2015

A política de ajuste entrou no volume morto

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

Para baixo da linha do volume morto, novo endereço político da presidente Dilma Rousseff e de seu criador Luiz Inácio Lula da Silva, foi arrastada a mais importante promessa do atual governo – arrumar as contas públicas e recompor as bases do crescimento econômico. Foram mais que perdidos os primeiros sete meses do segundo mandato da presidente. Depois de anunciar a nova meta fiscal, um superávit primário pouco acima de zero e facilmente conversível em resultado negativo, a equipe econômica tem como primeiro desafio recompor sua credibilidade. A imagem mais atingida foi a do ministro da Fazenda, Joaquim Levy, derrotado no debate sobre a revisão do ajuste. Ele continua como avalista da política econômica, disse na quinta-feira à Agência Estado um auxiliar da presidente. Mas o avalista, nesse caso, só pode cumprir sua função se for avalizado como conselheiro pela presidente da República. Ocorreu o contrário. Na hora de uma decisão de enorme importância, ela deu maior peso à opinião dos defensores da política mais frouxa, praticamente sem meta para este ano e com metas reduzidas para os dois anos seguintes. A de 2016 caiu de 2% para 0,7% do produto interno bruto (PIB). A de 2017, para 1,3%.

O ministro da Fazenda tentou no dia seguinte consertar o estrago político. O esforço de ajuste, prometeu, será mantido “com muito vigor”. O objetivo do governo, acrescentou, é diminuir a incerteza em relação à economia e abrir caminho para o retorno ao crescimento. Mas o efeito imediato foi o oposto. A reação dos mercados foi muito ruim, o dólar voltou aos níveis mais altos do ano, perto de R$ 3,30, e todas as dúvidas foram reforçadas.

Os analistas, segundo o ministro, já esperavam uma revisão da meta e o governo foi realista ao anunciar os novos números. Essa descrição é correta só em parte. Analistas de fato esperavam e até defendiam a escolha de um objetivo menos ambicioso. O senador Romero Jucá (PMDB-RR), depois de conversas com a equipe econômica, anunciou um projeto de redução do alvo para 0,4% do PIB, algo próximo de R$ 22 bilhões. Mas o governo foi muito além disso e praticamente anulou qualquer promessa de separar neste ano algum dinheiro – o superávit primário – para o pagamento de juros. A nova meta, R$ 8,6 bilhões, poderá ser substituída por um déficit de até R$ 17,8 bilhões, se falharem receitas de até R$ 26,4 bilhões – dependentes do pagamento de impostos atrasados, da taxação de recursos mantidos irregularmente no exterior e de ingressos obtidos com leilões de infraestrutura.

Para tocar esse plano o governo terá de conseguir a aprovação do Congresso. Mas a votação favorável em nada mudará um detalhe muito importante. Para alcançar o novo objetivo, ou qualquer resultado maior que zero, o Executivo dependerá de receitas extraordinárias. São receitas muito duvidosas, mas também esse detalhe é irrelevante para a avaliação da política. Há uma enorme diferença entre um programa de ajuste digno desse nome e uma caça a recursos de emergência, de qualquer tipo, só para fechar as contas.

Esse expediente foi muito usado no Ministério da Fazenda, no mandato anterior. Enquanto buscava dinheiro extra, o governo mantinha a gastança, aumentando seguidamente a despesa com pessoal, queimando dinheiro com incentivos mal planejados e transferindo centenas de bilhões ao BNDES, para repasse a empresários eleitos como favoritos da corte.

Por algumas diferenças o novo governo fica bem na comparação. Não se pode acusá-lo, pelo menos até agora, das pedaladas financeiras e maquiagens contábeis amplamente usadas na administração anterior. Em segundo lugar, há o compromisso de evitar a relação incestuosa entre o Tesouro e os bancos federais, uma das marcas da política anterior. Em terceiro, já se iniciou, embora com sucesso limitado, a remoção de incentivos setoriais tão custosos quanto ineficazes. Se houver alguma dúvida sobre essa ineficácia, basta ver as indigentes taxas de expansão econômica a partir de 2011. Além disso, uma nova política de crescimento – ainda inexistente – poderá ser menos dependente do protecionismo.

Mas essa política permanece no território das vagas intenções. Depois, a presidente promete manter a exigência de conteúdo nacional para as compras da Petrobrás – um convite à elevação de custos, à ineficiência e à corrupção. As falas do ministro Levy sobre produtividade e competitividade colidem obviamente com essa orientação. Mas também sobre esse tema a presidente parece pouco disposta a ouvi-lo.

“Estamos no meio de um ajuste”, disse o ministro da Fazenda na quinta-feira. É obviamente um exagero. O ajuste mal começou. O programa para 2015 foi praticamente abandonado e até a hipótese de um déficit foi admitida pelos ministros da Fazenda e do Planejamento. A aceitação do fracasso em 2015 e a redução da meta para 2016 devem dificultar a administração da dívida pública.

Com ou sem rebaixamento da nota de crédito do Brasil, o financiamento do Tesouro poderá ficar mais complicado, especialmente se os juros americanos, como preveem muitos analistas, subirem antes do fim do ano. Além disso, a inflação continua disparada e o Banco Central (BC) dificilmente poderá afrouxar a política de juros em 2015. Também isso complicará o controle da dívida, objetivo básico do prometido e ainda emperrado ajuste fiscal.

Além de crescer muito menos que outros emergentes, e com inflação mais alta, o Brasil carrega uma dívida pública bem maior que a de países com grau comparável de desenvolvimento. Em maio deste ano a dívida bruta do governo geral equivalia a 62,5% do PIB, segundo o BC. No fim de 2014, pelos critérios do FMI, a dívida média nos emergentes era 40,5% do PIB (65,8% no caso do Brasil). Na América Latina estava em 51,3%. A tendência na maior parte do mundo é de melhora. No Brasil, de piora.

Depois de Dilma

J.R. Guzzo
Revista VEJA

Por que este título – “Depois de Dilma”? Levando-se em conta que a presidente da República só vai terminar seu atual contrato de trabalho no dia 31 de dezembro de 2018, parece muito cedo para ficar falando em “depois”. Antes disso será preciso viver o “durante”, período de tempo que pelo calendário eleitoral ainda vai levar três anos e meio até acabar – coisa bem demorada, sem dúvida, e que em condições mais ou menos normais já deveria ser preocupação suficiente para todos. Mas as condições, hoje, não são mais ou menos normais.

O governo Dilma, após esforçar-se durante anos a fio para errar em praticamente tudo, derreteu ─ e tanto o mundo político como a maioria dos brasileiros que têm algum interesse em acompanhar a vida pública passaram a pensar no que virá depois dela, convencidos de que o prazo de validade de Dilma Rousseff venceu. Até algum tempo atrás, apesar de todos os sinais de autodesmanche fabricados por um governo que vem se dedicando a criar uma calamidade por dia, para si mesmo e para a população em geral, parecia um exagero perguntar se Dilma iria chegar ao fim do seu segundo mandato. Não é mais; ao contrário, é a grande atração do dia. Se o presente já não existe, parecem pensar quase todos, só resta brigar pelo futuro.

Este texto, como regularmente se registra aqui quando são tratados fatos que ainda não aconteceram, é apenas um artigo de revista; não é um mapa astral. Mas o que deveria ser um assunto para o fim de 2017 ou o começo de 2018 virou a conversa do dia em julho de 2015 – e as questões do curto prazo, como se sabe, sempre acabam sendo as mais interessantes para nove entre dez homens e mulheres sapiens, como diria a presidente da República. É possível, dentro da teoria geral de que nada é impossível, que o pós-Dilma comece quando deveria começar, em janeiro de 2019. O problema é que bem pouca gente, e cada vez menos gente, está acreditando nisso no momento.

Nada demonstra tão bem a situação precária do Palácio do Planalto quanto o atual vai e vem dos chefes reais das máquinas políticas, que podem não ser formadores de opinião, mas certamente são formadores de fatos. Eles se reúnem praticamente todos os dias para discutir como Dilma deve ser processada, embalada e descartada; parecem ter perdido a fé nas possibilidades de recuperação da presidente.  O PT, os outros partidos de “esquerda” e os “movimentos sociais”, que hoje dependem da engrenagem oficial para tudo, já deixaram há tempo de se empenhar de corpo e alma em sua defesa. Pregam sem parar contra o impeachment, mas é só isso que fazem.

Estão de pleno desacordo quanto a todo o resto, a começar pelo mais importante: como, no fim das contas, o governo deve governar. O programa econômico do ministro da Fazenda, para ficar só no exemplo principal, deve ser mantido ou seria melhor trocar ambos, programa e ministro, por alguma coisa diferente e oposta? Não há até agora nenhuma resposta coerente. O ex-presidente Lula, o líder que mais poderia socorrer Dilma no momento, também não tem sido de grande valia ─ quer ficar a favor e contra o governo ao mesmo tempo. Sua última contribuição foi sugerir que a sucessora encoste a cabeça no “ombro do povo”. Pode ser bonito, mas não é muito útil – como, na prática, alguém consegue encostar a cabeça no ombro do povo, ainda mais numa hora destas?

É preciso considerar, além disso, que existe uma oposição; por mais gentil que ela seja, não é dali que Dilma deve esperar ajuda, mesmo porque é mais fácil o camelo da Bíblia passar pelo buraco de uma agulha do que o governo estender a mão aos adversários em busca de um entendimento. Resta o PMDB, que normalmente é amansado com empregos na máquina pública. Mas Dilma, até agora, não conseguiu fazer nem isso ─ e, mesmo que venha a fazer, o antigo aliado, a esta altura, pode imaginar que terá muito mais empregos depois de Dilma, caso acabe se dando bem com um novo governo, como costuma acontecer. Dilma parece envolvida numa dessas lutas de boxe amador em que um lado não sabe nada de boxe e o outro não tem nada de amador; sabe-se como costumam acabar.

Em Gita, a mais potente de todas as suas canções, Raul Seixas descreve a si próprio, e a cada um de nós, como “a vela que acende” e, ao mesmo tempo, “a luz que se apaga”. A vela de Dilma, ao longo dos seus anos de vida pública, nunca pareceu acesa. Hoje, a três anos e meio do momento em que deve deixar o Palácio do Planalto para concluir sua passagem pela história atual do Brasil, ela tornou-se apenas uma luz apagada.

Ideologia ou economia política?

Samuel Pessoa
Folha de São Paulo

O regime de política econômica que Palocci herdou de Malan estava funcionando bem. Por que inventaram moda?

No mais recente relatório de conjuntura do Ibre, revisamos o desempenho do PIB em 2015 de retração de 1,8% para queda de 2,2%; e o de 2016, de crescimento de 0,5% para recuo de 0,1%.

Ajuste tão custoso deve-se ao fato de os governos não terem atacado desequilíbrios estruturais de nosso "contrato social" —o conjunto de regras de elegibilidade e valor de benefícios que requerem que o gasto público cresça anualmente 0,3 ponto percentual do PIB há 23 anos— bem como os erros da nova matriz econômica, vigente de 2009 a 2014.

A nova matriz econômica foi um regime de política econômica que elevou o intervencionismo estatal na macroeconomia e na microeconomia para acelerar o crescimento.

Na macroeconomia, as medidas foram: atuar pesadamente no câmbio para impedir valorização excessiva da moeda; flexibilizar a meta de superavit primário até o ponto de colocar em risco a solvência do Tesouro Nacional, situação em que nos encontramos agora; reduzir pesadamente a transparência da política fiscal com contabilidade criativa e, mais recentemente, pedaladas; aceitar que a inflação se estabilizasse por muitos anos no limite superior da banda de tolerância do regime de metas de inflação.

No campo microeconômico, as medidas foram: já a partir de 2003, enfraquecer o papel das agências reguladoras e alterar completamente o Plano de Negócios da Petrobras, elevando pesadamente seus investimentos no refino; tentar, pela terceira vez em 60 anos, refazer a indústria naval, cometendo quase todos os erros do passado; alterar o marco regulatório do pré-sal; política de desoneração da folha de salários para estimular a indústria; política de controle de preços para tentar impedir a aceleração da inflação; fechar ainda mais o setor automobilístico ao comércio internacional; hipertrofia dos bancos públicos com empréstimos do Tesouro à CEF, ao BB e ao BNDES de mais de R$ 350 bilhões; políticas generalizadas de conteúdo nacional, sem análise dos custos e implicações para os demais elos da cadeia produtiva; desastrada intervenção no setor elétrico etc.

O elenco de medidas evidencia o absurdo da nova matriz econômica. O próprio grupo político que a implantou paga elevado custo. Nesse sentido, é corretíssima a expressão da revista "The Economist" de que nossos problemas foram autoinfligidos. Boa parte da queda de popularidade do PT foi autoinfligida.

A questão intrigante é saber: por que motivo o governo foi procurar sarna para se coçar? O regime de política econômica que Palocci herdou de Malan estava funcionando bem. Por que inventaram moda?
Grupos de pressão não foram decisivos para a alteração do curso de política econômica em 2009. Também o eleitor mediano, por meio do Congresso, não pressionou pela alteração. A chamada "economia política" não explica a mudança.

Tudo indica que alteração tão profunda do regime de política econômica tenha sido obra dos intelectuais e economistas petistas. Ou seja, com a melhor das boas intenções, essas pessoas promoveram a alteração do regime de política econômica que cavou o buraco no qual nos encontramos. Em mais um exemplo de que de boas intenções o inferno está cheio, o que pesou na ruinosa escolha foi a ideologia.

Ao longo do semestre voltarei ao tema, para investigar as motivações e as bases teóricas dessa alteração da política econômica de tão graves consequências. 

Mal comparando

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Pelo pior caminho, estamos vendo que quanto mais o Estado se mete na vida das pessoas, da economia e do país, menos eficiente o capitalismo e mais fácil a roubalheira

O que os japoneses já consideram como um dos maiores escândalos corporativos de sua história foi um tipo de pedalada contábil da Toshiba. Manipulando receitas e despesas de um ano para outro, a diretoria gerou lucros, digamos, falsos no valor de US$ 1,2 bilhão, ao longo de sete anos.

Só perde, lá no Japão, para o escândalo da Olympus, que escondeu um prejuízo de US$ 1,7 bilhão por vários anos.

A Petrobras, no seu último balanço, estimou perdas de R$ 6,2 bilhões, ou US$ 2 bilhões, só com a corrupção apanhada pela Lava-Jato até o final do ano passado. E olha que foi um cálculo “conservador”, na expressão do presidente da estatal, Aldemir Bendine.

Eis a comparação: contando o que se sabe até agora, de maneira conservadora, a corrupção na Petrobras já supera os dois maiores escândalos corporativos da economia japonesa — que é, por sinal, duas vezes e meia maior que a brasileira.

Mas tem mais: no mesmo balanço, a Petrobras fez uma baixa contábil de R$ 44 bilhões (14,2 bilhões de dólares). Ativos estavam excessivamente valorizados, especialmente a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Complexo Petroquímico do Rio, dois principais alvos dos ataques do pessoal da Lava-Jato.

Tudo somado, baixas admitidas de US$ 16,2 bilhões, oito vezes maior que o maior escândalo japonês.

Quando a operação começou, ninguém podia imaginar o seu tamanho. Ninguém exceto os envolvidos. Pois um deles, um alto executivo, no dia das primeiras prisões, respondeu assim quando lhe perguntaram se aquilo era mesmo coisa séria: “É o maior escândalo corporativo da economia mundial".

Brasil!

Tem mais: os diretores da Toshiba não estão sendo acusados de corrupção. Talvez tenham recebido uns trocados a mais por conta de bônus pelos bons resultados forjados. Mas não meteram a mão no dinheiro da companhia nem do governo.

O agora ex-presidente da Toshiba Hisao Tanaka negou que tenha instruído seu pessoal a fraudar a contabilidade. Mas aceitou os resultados da auditoria, pela qual ele pelo menos sabia que os lucros estavam superestimados. Renunciou e, diante das câmeras, fez uma reverência de 15 segundos.

Tem muita delação premiada por aqui. Mas o presidente da estatal no período em que os roubos ocorreram, José Sérgio Gabrielli, nega qualquer responsabilidade e afirma que tudo não passou de mal feito de alguns funcionários.

Lula, em cuja gestão ocorreram os roubos e os, digamos, desvios de gestão, com os ativos superestimados, vai pelo mesmo caminho. Foi Lula quem mandou a Petrobras multiplicar de maneira perigosa os seus investimentos.

E a presidente Dilma Rousseff, que foi presidente do Conselho da Petrobras quando ocorria o escândalo, também não sabia de nada.

Tudo bem?

Gabrielli, Lula e Dilma não são investigados. Mesmo que nunca venham a ser, não seria apropriado ao menos um pedido de desculpas? Afinal, deixaram uma Petrobras roubada e quase destruída.

Tudo isso para dizer que esse escândalo tem um lado positivo: escancarou práticas de governo e empresariais que constituem o pior do capitalismo. Roubam o contribuinte e os acionistas das empresas estatais e privadas, tornam ineficientes os investimentos públicos e privados, concentram renda e atrasam a economia.

Vejam o estado em que se encontra toda a cadeia da indústria do petróleo. Montada sobre uma ficção — a de que já estávamos ricos — e construída na base de protecionismo do Estado e corrupção, está hoje em pedaços. Desperdiçou um precioso capital e não tem a menor competitividade na economia global.

Pelo pior caminho, estamos vendo que quanto mais o Estado se mete na vida das pessoas, da economia e do país, menos eficiente o capitalismo e mais fácil a roubalheira.

Está na hora de se tirar outra coisa boa dessa história, à japonesa: os executivos, do governo e das empresas privadas, são sempre responsáveis pelos roubos e equívocos. Ou porque sabiam ou porque não sabiam. No primeiro caso, o peso da lei. No segundo, a força da ética. Não digo harakiri, mas pelo menos 15 segundos curvados.

Dinheiro sobrando
Lembram-se da Irlanda? Isso, aquele pequeno país da Zona do Euro que sofreu com o estouro de uma bolha imobiliária e financeira, recebeu um pacote de ajuda da Europa e aplicou um severo programa de ajuste fiscal.

Então, nesta semana, o governo irlandês chamou uma consulta pública para saber como gastar cerca de 1,5 bilhão de euros (pouco mais de 5 bilhões de reais), dinheiro que está sobrando no orçamento para o ano que vem.

Estão discutindo se vão reduzir impostos ou aumentar o gasto público. Que tal?

O sorriso do ex-mãos de tesoura.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Lembrando uma ótima piada, o especialista explicava que a hiena comia mal, dormia mal, mantinha relações sexuais uma vez por ano. Um espectador perguntou: "De que ri o animalzinho?" Joaquim Levy achava essencial cortar quase R$ 70 bilhões de despesas (mas o Governo não cortou nenhum dos 113.540 funcionários sem concurso, nem dos 200 mil terceirizados; o Congresso criou despesas novas para a Previdência; o Judiciário tenta um aumentão); e acreditava que o Tesouro deveria gerar superávit primário de 1,1% do PIB, para evitar que a dívida pública subisse mais (obteve 0,15%, e olhe lá, se tudo der certo). Mas Joaquim Levy continua no cargo, sempre sorridente. Estar ministro deve ser ótimo.

Joaquim Levy, o implacável Mãos de Tesoura, não era tão implacável assim. A meta de superávit, que ele fixara em R$ 66,7 bilhões (com precisão de algarismos depois da vírgula), ficou em R$ 8,5 bilhões. Pode virar déficit. Merreca. Nada comparável a ter Excelência antes do nome e carro com chapa de bronze. 

Na verdade, a farra de gastos começou antes de Dilma, de Lula, antes até de Fernando Henrique. Como demonstraram os professores Samuel Pessoa, Marcos Lisboa e Mansueto Almeida, a despesa pública no Brasil sobe mais do que a receita desde 1991. Não foi Joaquim Levy que elevou as despesas. Mas, com o risco de perda do grau de investimento (que joga o dólar para cima e faz com que os juros pagos pelo Brasil no Exterior se multipliquem), caberia a ele a tarefa de começar a botar ordem na casa. E não é que parecia o homem certo para isso?

Nova pergunta
Talvez a questão inicial seja errada. Talvez se deva perguntar de quem ele ri.

O poço sem fundo
O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, certamente tem muitos defeitos. Mas burro não é; e tem fama de estudar os assuntos antes de falar sobre eles. Cunha faz oposição ao Governo, mas não se arriscaria a uma bobagem que em pouco tempo se tornaria óbvia. Diz que não vai haver superávit, não: haverá déficit.

Déficit leva o país a perder o grau de investimento - a fama de bom pagador.

O fundo do poço
Mas o caro leitor deve tranquilizar-se: segundo o ministro Joaquim Levy, a situação "parou de piorar". Na opinião de Sua Excelência, portanto, já chegamos ao fundo do poço. 

Agora é torcer para que o Governo não jogue terra em cima.

Mas a festa continua
Todos concordam: é preciso conter despesas oficiais, certo? 

1 - O Senado aprovou a criação de 200 novos municípios. Mais prefeitos, vereadores, assessores. No total, calcula-se algo como 15 mil gulosas boquinhas.

2 - A Câmara Federal reservou R$ 789.800,00 para alugar carros que servirão aos deputados neste segundo semestre. Motoristas e combustível à parte.

3 - A Assembleia Legislativa de São Paulo abriu licitação para comprar 56 carros, que servirão a Suas Excelências. Os carros serão obrigatoriamente sedãs, com transmissão automática e ar condicionado, quatro portas, motor de no mínimo l.800 cm³ e 140 cavalos. E custarão pouco menos de R$ 5 milhões de dinheiro público. A abertura dos envelopes da licitação está prevista para amanhã. 

4 - Twitter do senador Roberto Requião, do PMDB paranaense: "Departamento jurídico de Itaipu contratou filho de Cedraz para defender a usina na questão de ser ou não fiscalizada pelo TCU. PQP!" Refere-se ao advogado Tiago Cedraz, filho do presidente do TCU, Aroldo Cedraz. 

5 - Mas, em 2 de junho, o psicólogo e ex-deputado Maurício Requião, irmão do senador Requião, foi nomeado por Dilma para o Conselho de Itaipu. São R$ 20.800,00 por mês para participar de seis reuniões por ano.

6 - Ao lado de Maurício Requião, está no Conselho de Itaipu o tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto. Foi nomeado em 2003 pelo presidente Lula, e de lá para cá recebeu sucessivos mandatos. O atual termina em maio de 2016. Desde 2010 Vaccari enfrenta processo por acusações de desvio de recursos da Bancoop, cooperativa habitacional dos bancários, que presidiu. De acordo com o Ministério Público, responde por estelionato, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha. Mesmo assim, foi reconduzido em 2012. 

Neste momento, por motivos de força maior, não pode comparecer às reuniões.

Tudo tem motivo
É por essas e por outras que a popularidade de Dilma, que já está abaixo da inflação, caminha rapidamente na direção de ficar menor que o pibinho de 2015.

Onde há crescimento
Um grande jornal impresso noticiou discretamente o crescimento do número de meses contido em cada ano (deve ser algum viés contra o Governo, este de não dar destaque à expansão em algum setor). Diz a reportagem, sobre a compra do jornal britânico Financial Times para o grupo japonês Nikkei, que a transação ainda tem de passar pelo cumprimento das formalidades legais. O negócio será concluído, segundo a notícia, apenas "no quarto quadrimestre de 2015". 

Como nunca dantes neste país, já em 2015 haverá pelo menos quatro quadrimestres, ou 16 meses. Os funcionários do jornal deveriam receber 16 salários.

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O nº 10 de Downing St. e o Palácio do Planalto

Percival Puggina

 Diariamente, centenas de milhares de turistas em visita a Londres percorrem a pé a pequena distância que separa Westminster do mais famoso beco do mundo, a Downing Street, em cujo nº 10 trabalha e mora o First Lord of Treasury, cargo tradicionalmente comissionado ao Primeiro Ministro britânico. Através das grades de uma cerca metálica pintada de preto, elegante mas sem floreios, pode-se espichar os olhos na direção do famoso endereço. A impressão que se recolhe, como brasileiro, é a total desproporção entre a importância do cargo e a sobriedade do edifício. Alvenaria de tijolos à vista, uma porta estreita abrindo para a rua sobre uma soleirinha de dez centímetros não é exatamente o que se imagina para quem ocupa posto de tal relevo.

 Embora doada a Sir Robert Walpole em 1732 pelo rei George II, este a recusou como presente e propôs que fosse destinada ao uso dos ocupantes do cargo que ele então exercia. Muitos dos sucessores de Walpole, contudo, preferiram outros endereços por considerar aquele destituído da necessária dignidade. O nº 10, já então, estava longe de ser incluído entre os domicílios ou escritórios elegantes de Londres.

Ao retornar dali para o hotel onde estava hospedado, dias atrás, busquei informações sobre o número de pessoas naquele local. Chamara-me a atenção a tranquilidade reinante na Downing Street. Havia muito mais gente espiando através das grades do que em circulação nas áreas externas da sede do governo. E lá dentro? Pesquisando, descobri que o primeiro-ministro britânico tem a sua disposição 85 postos da burocracia estatal e que no nº 10 trabalham, ao todo, cerca de 170 pessoas. Em Brasília, no Palácio do Planalto, sede do governo brasileiro, segundo informou o jornalista Claudio Humberto, em sua coluna do dia 27 de novembro de 2013, estão lotados 4,6 mil funcionários. À época, o jornalista observou que esse número era 10 vezes maior do que o staff total da Casa Branca. E, pelo que constatei em minha pesquisa, 27 vezes maior do que o staff operando na sede do governo do Reino Unido.

Quanto poderíamos aproveitar dos bons exemplos! Em vez disso, parece que aprendemos dos gregos. É evidente que com tais esbanjamentos, vivendo à forra, não pode sobrar dinheiro, por exemplo, para construir os presídios de cuja existência tanto dependem a credibilidade e efetividade da legislação penal e nossa segurança pessoal. Esse modelo pródigo de gestão só será rompido, com imensa economia de recursos se e quando adotarmos um sistema racional, que separe o Estado do governo e ambos da administração pública. Vejam que ao referir o Palácio do Planalto, mencionei apenas um local, um edifício. Há muito mais luxo, requinte e esbanjamento ao redor da mesma praça onde se situa o endereço profissional da senhora presidente.

Só a Grécia salva Dilma

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Austeridade é o palavrão da moda. A Grécia deve € 26 milhões à Espanha, e a culpa é dos espanhóis

Do alto de seus 9% de aprovação, Dilma Rousseff abriu as janelas do palácio e bradou ao povo: “Eu não vou cair”. A presidente afirmou que a Operação Lava Jato nunca vai provar que ela roubou. E que “todo mundo neste país sabe” que ela não roubou. É um pouco constrangedor quando a argumentação chega a esse ponto. Lembra aquele político de Brasília que, apanhado fraudando o painel de votação do Senado, reagiu: “Eu não matei! Eu não roubei!”. Acabou preso.

Se Dilma chega ao ponto de declarar que não é ladra, o brejo está mesmo se aproximando da vaca. Até aqui, a presidente tem contado com a formidável blindagem do STF, coalhado de companheiros que chegaram lá graças a décadas de bajulação ao PT. A dobradinha com o procurador-geral da República, de fazer inveja à dupla Messi-Neymar, impediu até agora que Dilma fosse sequer investigada. E, se não for investigada, realmente jamais será provado que ela roubou.

Vamos economizar trabalho aos investigadores: Dilma não roubou. É apenas a representante legal de um grupo político que depenou o país. Que, entre outras façanhas, estuprou a maior empresa nacional – naquele que foi possivelmente o maior roubo da história, chegando pelas últimas estimativas à casa dos R$ 20 bilhões. Com um currículo desses, que inclui o assalto cinematográfico do mensalão, muitos petistas não se sentem ladrões. E estão sendo sinceros. Eles acham que expropriar recursos do Estado em benefício do partido governante é uma espécie de mal necessário – um meio não muito nobre que justifica o mais nobre dos fins: manter a esquerda no poder, em nome do povo.

Ninguém jamais localizará essa procuração dada pelo povo aos iluminados do PT, autorizando-os a sugar a economia popular para montar uma casta governante com estrelinha no peito e figurino revolucionário. Há quem diga que o falsário mais perigoso é o que acredita na própria falsidade. A impostura involuntária é contagiosa. Basta ver quantas personalidades respeitáveis mantêm o apoio ao governo delinquente, de peito estufado e latejante orgulho cidadão. Um país está em maus lençóis quando perde a capacidade de distinguir os inocentes úteis dos parasitas convictos.

A crise na Grécia veio mostrar que a demagogia do oprimido está longe de ser desmascarada. Na apoteose da mistificação populista, boa parte do mundo culto resolveu se convencer de que os gregos são vítimas da austeridade – o palavrão da moda. Como disse Mario Vargas Llosa: a Grécia deve € 26 milhões à Espanha, e a culpa é dos espanhóis. A receita é genial: você gasta mais do que tem, pede emprestado para cobrir o rombo, faz um plebiscito para oficializar o calote e, quando lhe cobram a dívida, você alega desrespeito à soberania.

E eis a bancada do PT querendo enquadrar a Polícia Federal. A Lava Jato é realmente um flagrante desrespeito da soberania petista, ferindo seu direito de ir e vir entre os cofres públicos e o caixa do partido. A PF tem de se submeter a quem tem voto, argumentou um deputado do PT. É uma espécie de tráfico de democracia – o criminoso com voto vira vítima.

E aí, embebido da inocência aguda que o eleitor lhe concedeu, o Partido dos Trabalhadores decide atacar a política de juros altos praticada pelo governo do Partido dos Trabalhadores. Basta de austeridade, vociferam os mandatários oprimidos. Tudo sob as bênçãos de Caloteus, o deus grego do almoço grátis. A sobremesa de demagogia caramelada é por fora – tratar com o tesoureiro.

O problema é que o tesoureiro está preso. Entre outras acusações, responde pela suspeita de roubar a Petrobras para financiar a eleição da presidente – que jura não ter roubado um tostão. Mandato roubado não tem problema. O PT montou uma casta de nababos, nadando em verbas piratas, propinas oficiais, altos cargos e altíssimos subsídios partidários, mas ninguém roubou um tostão. É tudo dinheiro da revolução – a tal procuração popular para essa gente sofrida desfalcar o contribuinte e padecer no paraíso.

O site Sensacionalista revelou por que Dilma disse que não vai cair: “As pedaladas foram dadas com rodinhas”. E acrescentou que ela não sabia quem estava pedalando sua bicicleta. É isso aí. O jeito é continuar falando grego, língua oficial dos caloteiros do bem. 

Dilma e o fiador honorário

Editorial 
O Estado de São Paulo

Derrotado na discussão sobre a nova meta fiscal, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, ainda pagou o mico de ter de explicar e defender a mudança de rumo anunciada por ele e por seu colega do Planejamento, Nelson Barbosa. Para cumprir essa missão, teve de renegar posições mantidas publicamente e de se apresentar como coautor de uma decisão digna dos piores momentos do mandato anterior da presidente Dilma Rousseff. Tendo rejeitado a opinião do ministro Levy e optado pela política mais frouxa e menos convincente, a presidente se lembrou de um detalhe: o perdedor havia sido considerado, pelo menos até quarta-feira, data do anúncio da nova orientação, o fiador da política econômica.

A solução imediata foi mandar seus subordinados elogiar o ministro da Fazenda e reafirmar sua condição de avalista. A ordem foi cumprida. Com isso, o avalista, confirmado em sua posição honorífica, virou fiador de uma política de baixa credibilidade. Já não há blindagem possível, porque o déficit de credibilidade, nesse caso, é da chefe de governo, e ela se expôs inteiramente, no episódio, de forma irremediável.

A presidente deixou clara, mais uma vez, sua pouca disposição de bancar medidas sérias de correção das finanças públicas e de reparação dos erros cometidos durante quatro anos. Alguns desses erros, como o prolongamento, depois da pior fase da crise, da chamada política “anticíclica”, foram herdados de seu antecessor, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e agravados.

Um dos condutores da política nesse período foi o secretário executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa. Tinha acesso fácil à presidente Dilma Rousseff, mas deixou o governo em 2013. Está de volta, como ministro do Planejamento, e são notórias as divergências entre ele e seu colega da Fazenda, ainda classificado, por determinação presidencial, como avalista do governo. Mas têm prevalecido as opiniões de Barbosa, como noticiou muitas vezes a imprensa.

O ministro da Fazenda tem mencionado, para explicar as dificuldades da política fiscal, a retração dos negócios e as táticas defensivas adotadas pelos empresários nas relações com o Fisco. Este detalhe já havia sido apontado em recente estudo da Receita Federal. São argumentos verdadeiros. A recessão tem sido, sem dúvida, mais severa do que previram analistas brasileiros e estrangeiros. Os danos causados à economia pelos erros cometidos nos quatro anos anteriores são enormes. A política do primeiro mandato da presidente Dilma é, sem dúvida, a causa principal dos males hoje vividos pelos brasileiros, como recessão, desemprego e inflação disparada. Tudo isso explica a perda de receita de impostos e contribuições neste ano, mas os problemas da política fiscal estão associados também a outros fatores.

O mais importante é a fraqueza política da presidente. Essa fraqueza decorre em parte de suas características pessoais e em parte da estratégia de seu partido, subordinada inteiramente às ambições políticas de seu líder principal, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Sem apoio do PT, a presidente pouco pode fazer – e nada tem feito, pessoalmente – para garantir a fidelidade dos partidos aliados.

Nenhum governante fraco – e nesse caso as deficiências pessoais da presidente são determinantes – conduz uma política de ajustes dolorosos e de reformas complexas. Depois de quatro anos chefiando um governo marcado pela incompetência, pela maquiagem das contas, por um voluntarismo quase infantil e por lambanças variadas, a presidente causaria enorme surpresa se iniciasse o segundo mandato com um programa audacioso de correções e de reformas. A menor surpresa, nesse caso, seria o apoio dos companheiros e aliados.

Desde o início o ministro Levy esteve comprometido com um programa tímido de ajuste e de reformas. Nem isso deu certo. A receita falhou, a despesa continuou crescendo e a meta de ajuste em 2015 foi virtualmente zerada. Ninguém explicou, até agora, por que se deve esperar um empenho mais firme nos próximos anos.

Dilma e Lula esnobaram tentativas de aproximação de FHC, hoje o cercam

Josias de Souza


O alto tucanato recebeu com um pé atrás o flerte de Lula e Dilma Rousseff com Fernando Henrique Cardoso. Há cinco meses, a dupla esnobou FHC. No final de fevereiro, o ex-presidente tucano sinalizou para Dilma seu interesse em conversar. Fez isso por meio de um amigo comum, o advogado e ex-deputado petista Sigmaringa Seixas.

Numa conversa testemunhada pelo deputado Raul Jungmann (PPS-PE), ex-ministro do seu governo, FHC queixou-se da tática do “nós contra eles”, adotada por Lula para estigmatizar a oposição. Antevendo uma deterioração dos cenários político e econômico, mostrou-se aberto ao diálogo com a presidente.

Nos primeiros dias de março, Sigmaringa transmitiu a Dilma o teor da conversa que tivera com FHC. Ela reagiu com indiferença. Não esboçou interesse em dialogar. Embora os recados de FHC fossem endereçados apenas a Dilma, Sigmaringa relatou o encontro também para Lula. Que refugou a tentativa de aproximação.

Os meses se passaram. Confirmaram-se os vaticínios de FHC. Com a economia em frangalhos, a lama da Petrobras a invadir-lhe a caixa de campanha e sitiada pelos aliados no Congresso, Dilma manifesta o desejo de estreitar a inimizade. Lula já não vê a aproximação como um despropósito.

Agora é FHC quem torce o nariz. Já havia estendido a mão para o petismo noutras oportunidades. Numa delas, dirigiu-se ao próprio Lula. Sem intermediários. Encontraram-se a bordo do jato presidencial, a caminho da África do Sul. Integravam a comitiva de ex-presidentes que Dilma levou aos funerais de Nelson Mandela.

No voo de volta, observado pelos ex-presidentes José Sarney e Fernando Collor, FHC disse a Lula que era hora de unirem forças para reformar a política. Ainda latejavam na conjuntura os protestos que encheram as ruas na jornada de junho de 2013. E FHC disse para Lula que, sem uma reação adequada, a crise tragaria todos os políticos, sem muita distinção partidária. O morubixaba petista respondeu que estava mais preocupado com a eleição presidencial do ano seguinte.

Rumo ao rebaixamento

Merval Pereira
O Globo 

O que mais se temia deve acontecer: o rebaixamento da nota de risco do Brasil, possivelmente perdendo o grau de investimento em pelo menos uma das agências internacionais mais importantes, a Standard & Poor's.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que usava seu prestígio nos meios financeiros internacionais como um escudo contra essa possibilidade, e em contrapartida a usava como uma ameaça aos que iam contra o programa de ajuste fiscal, está gastando rapidamente sua credibilidade diante dos investidores estrangeiros ao tentar tapar o sol com a peneira.

Um dia depois de ter tido que admitir a impossibilidade de realizar o superávit fiscal com que se comprometera ao assumir o cargo, Levy tentava convencer investidores estrangeiros de que a economia brasileira tem espaço para crescer, quando as previsões do mercado financeiro são de que o PIB negativo, que já é dado como certo este ano, deverá permanecer nesse patamar também em 2016, apenas um pouco melhor: entre -1,5% e 2% este ano contra - 0,5% ano que vem.

As agências de risco, como era de se esperar, receberam mal a mudança do superávit primário, vista como uma capitulação do governo, que não conseguiu viabilizar a meta proposta inicialmente. Um rebaixamento por parte da Moodys e da Fitch já é dado como certo, mas o país ainda se manteria acima do nível especulativo.

No caso da Standard & Poor's, a nota brasileira pode voltar ao nível especulativo. O economista Paulo Rabello de Castro considera "impossível" as agências de risco americanas não admitirem o rebaixamento da nota de crédito do Brasil: "Ao anunciar a revisão da meta fiscal de 2015 para o chamado 'superávit primário," que é a economia feita para pagar juros, reduzindo o alvo de R$ 66 bilhões (1,1% do PIB) para R$ 8,7 bilhões (0,15% do PIB), o governo não apenas reconheceu que planejou mal suas contas deste ano, por não estimar bem a profundidade da crise no setor produtivo afetando a receita esperada de impostos, como, sobretudo, passou a aceitar que a dívida pública bruta (hoje 62% do PIB) deverá crescer muito nos dois anos seguintes" analisa ele em nota divulgada à noite.

Rabello estranha a criação do que chamou "descontingenciamento antecipado de receitas futuras, figura esdrúxula e inédita na gestão fiscal brasileira, ao enviar ao Congresso pedido de perdão de R$ 26 bi, caso receitas de resultado especulativo (como a de regularização de capitais no exterior) não renderem a arrecadação esperada"

Essa novidade tem ainda uma especificidade perversa: é a utilização de uma "contabilidade criativa" que está sendo contestada, com possíveis consequências políticas graves, pelo Tribunal de Contas da União (TCU), nas contas sub judice do ano passado.

Como bem ressalta Rabello, "despesas precisariam ser contingenciadas pela presidente, e agora a equipe econômica pede licença para não contingenciar despesas de igual magnitude, legalizando a má prática"

Paulo Rabello discorda do diagnóstico de que o "problema" nasce na frustração das receitas, cuja arrecadação vem crescendo 2,2% (em 12 meses, até maio) e assim "obrigando" o governo a aprofundar o corte nos investimentos já ceifados.

"O governo omite que a despesa total não financeira até maio vem inchando 11,5%, com as de custeio indo a 16% de expansão. Ao somar-se a isso a explosão dos encargos financeiros em 7% do PIB (R$ 408 bilhões até maio!) se conclui pela total impossibilidade de qualquer solução na linha convencional de mais aumento da carga tributária, que, aliás, já não responde a tal apelo"

A solução, para o economista, "está na cara: adotar regra de contingenciamento de toda despesa pública baseada na variação do PIB nominal" Além disso, seria preciso uma reforma financeira "a fim de moderar, no tempo, uma política de juros públicos que leva o Brasil a ser, de longe e há muito tempo, o país que mais encargos paga para rolar sua própria dívida interna"

Se isso não ocorrer, Rabello acredita que os mercados adotarão caminho de correção pelo câmbio, "que facilmente encostará nos R$ 3,50 nas próximas semanas".

Bancos e consultorias já projetam dois anos de recessão

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Retração da economia será mais forte do que o previsto para 2015

(Ueslei Marcelino/Reuters)
 O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, fala sobre a redução da meta
 de superávit primário deste ano, durante coletiva no ministério da Fazenda 

A recuperação da economia brasileira deverá ser realmente lenta. As projeções feitas por bancos e consultorias já têm apontado uma retração mais forte do que o previsto para 2015 e uma recessão para o ano que vem.

Nest sexta, a equipe de economistas do Credit Suisse, chefiada pelo economista Nilson Teixeira, revisou sua projeção de queda para o Produto Interno Bruto (PIB) neste ano de 1,8% para 2,4%. Também foi revista a projeção para 2016. Antes, a previsão era de um crescimento de 0,6%. No relatório, a projeção para o PIB de 2016 virou uma recessão de 0,5%.

"Essa seria a primeira vez desde 1930-1931 que o país teria uma recessão por dois anos consecutivos", destacaram no documento os economistas do Credit Suisse. Naquela época, a economia mundial sofria os efeitos da Grande Depressão de 1929. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o PIB, naquele período, recuou 2,1% em 1930 e 3,3% no ano seguinte.

No cenário traçado pelos outros bancos do país, o Itaú também prevê recessão para 2016 - a economia deverá encolher 0,2%. O Bradesco prevê estagnação para o ano que vem, e o Santander, um pequeno crescimento de 0,1% .

Contração - 
Para a equipe do Credit Suisse, a dinâmica dos principais indicadores de atividade, como o IBC-Br, por exemplo, indica que o PIB deve sofrer uma significativa contração no 2.º trimestre: "Não descartamos também uma contração no terceiro trimestre de 2015 devido à dinâmica desfavorável nos setores de agropecuária, indústria e serviços. Com isso, esperamos que o crescimento do PIB ante o trimestre anterior recue 1,9% no segundo trimestre de 2015, 0,4% no terceiro e 0,1% no quarto trimestre."

Na avaliação do Departamento Econômico do Credit Suisse, a maior queda do PIB em 2015 reduz o carrego para 2016. "A estabilidade do PIB no patamar do quarto trimestre durante todos os trimestres de 2016 implicaria em um crescimento negativo do PIB de 0,6% em 2016. Com isso, nossa previsão de uma contração de 0,5% em 2016 é compatível com uma expansão do PIB de 0,1% ao trimestre na comparação com o trimestre anterior, muito abaixo da média de 0,4% entre o primeiro trimestre de 2011 e o primeiro de 2015", afirmam os economistas.

Portas de saída

Míriam Leitão
O Globo 

Os economistas têm dito que existem três requisitos para o país sair da crise: recuperar a confiança, aumentar os investimentos, elevar as exportações. Os números mostram que isso não começou a acontecer. As exportações e os investimentos despencaram no primeiro semestre, a confiança está nos níveis mais baixos em várias sondagens, a bolsa de valores voltou ao vermelho.

O saldo comercial foi positivo em US$ 2,2 bilhões no primeiro semestre, revertendo o déficit de US$ 2,5 bilhões do mesmo período do ano passado. Mas esse número dá uma falsa sensação de que as nossas exportações estão se recuperando. O fato é que as vendas externas caíram 14% de janeiro a junho, e o saldo só ficou positivo porque as importações despencaram mais: 18%. Nem a desvalorização do real ajudou a dar um impulso externo, pelo menos até agora. De janeiro a junho, a receita com exportação foi US$ 16 bilhões menor do que no mesmo período de 2014.

A indústria brasileira continua encolhendo sua participação no mundo. A exportação de bens de capital caiu 3,8% no semestre. A de bens de consumo teve queda de 8,8%. A venda de combustíveis e lubrificantes caiu 20%, mostrando mais uma vez que a Petrobras tem gargalos insuperáveis na área de refino, que foram agravados pelas denúncias de corrupção e superfaturamento em projetos investigados pela Operação Lava-Jato. Com a queda dos preços das commodities, as exportações de produtos alimentícios caíram 16%, e as de produtos minerais recuaram 26%.

A confiança continua baixa, e há vários indicadores mostrando isso. No mercado financeiro, o índice Ibovespa voltou a operar abaixo dos 50 mil pontos e acumula queda este ano. O dólar é negociado no valor mais alto desde 2003. Os juros cobrados dos títulos do governo brasileiro no exterior também subiram, e o mercado já começa a precificar o risco da perda do grau de investimento.

O Índice de Confiança dos Consumidores medido pelo Ibre/FGV caiu à mínima histórica em julho. Foi a quarta vez no ano que atingiu recordes negativos na série que começou a ser pesquisada em setembro de 2005. Desde as eleições de outubro, a redução chega a 19%. Os indicadores de confiança do comércio, da indústria e da construção civil seguem a mesma tendência e se mantêm nos piores níveis das séries.

Nos investimentos, é cada vez menos provável que o governo consiga ser bem sucedido com as concessões de infraestrutura. Com a necessidade de arrecadar mais para manter o ajuste fiscal, o modelo adotado será o de outorga onerosa, contemplando como vencedores os consórcios que desembolsarem uma quantia maior por cada projeto leiloado. Em tempos de crise e incerteza, a reação das empresas é justamente a contrária: preservar o dinheiro em caixa. A alta dos juros também encarece o financiamento.

A produção de bens de capital registra queda de 20% nos cinco primeiros meses do ano, segundo dados do IBGE. Na comparação de maio com o mesmo mês do ano passado, a retração é de 26%. A Abimaq, entidade que representa o setor de máquinas e equipamentos, estima em 25 mil as demissões nos últimos 12 meses e diz que há empresas tendo dificuldade até para pagar impostos. O ajuste fiscal atingiu as linhas subsidiadas do PSI/Finame, que barateava o crédito das encomendas, e a alta da alíquota que desonerava a folha de pagamento foi encarada como aumento de custos. A entidade criou um grupo de gestão de crise e chegou a cogitar o pagamento de impostos em juízo, como forma de protesto, e o fechamento de fábricas por um dia. Abandonou a ideia, felizmente, por recomendação do departamento jurídico.

O país caminha para o oitavo mês do ano sem conseguir vislumbrar de onde virá a recuperação. Tudo é agravado pela crise política e pela baixa popularidade da presidente Dilma Rousseff. Muitos alertaram sobre os erros da política econômica dos governos Lula e Dilma. Foram esses equívocos que nos trouxeram até aqui. O período de bonança, com os altos preços das matérias-primas e o estímulo ao consumo, chegou ao fim sem que o país tenha se preparado para uma nova realidade.

O custo do afrouxamento

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Na política, as coisas só estão piorando e ameaçam arrastar a economia

O ponto positivo no afrouxamento da meta fiscal é o de que, desta vez, o governo Dilma não está garantindo o inviável para entregar depois o supostamente prometido com os disfarces conhecidos: contabilidade criativa, pedaladas e operações parafiscais. O resto é muita incerteza. 

Os ministros Joaquim Levy e Nelson Barbosa não conseguem explicar como é que contribuirão para aumentar a credibilidade da política econômica com decisões cujo cumprimento depende de variáveis econômicas incertas, como a do comportamento da arrecadação, e de desdobramentos políticos imponderáveis. A arrecadação não caiu apenas porque há forte recessão. Caiu também porque as grandes empresas não estão pagando e, aparentemente, não há o que as faça pagar. Além disso, o desdobramento da política depende do desfecho de 10 ou 12 pedidos de impeachment. 

Não há garantia de que a nova meta fiscal (a tal de 0,15% do PIB) seja cumprida, nem com os escapes previstos. Não há garantia de que a dívida pública, que crescerá com o aumento do déficit e dos juros, ficará sob controle. E não há garantia de que novas capitulações fiscais não acontecerão. 

A presidente Dilma não aguentou as pressões e, aparentemente, já não se importa se o rombo aumentar. Quem argumenta que não fez nada de errado quando infringiu a Lei de Responsabilidade Fiscal, como consta nas respostas às questões encaminhadas pelo Tribunal de Contas da União, não pode mesmo achar errado descumprir novamente a lei. Não é o ministro Nelson Barbosa quem está dizendo que as pedaladas são permitidas enquanto não for estabelecido um limite a partir do qual possam ser consideradas infração? Se o governo Dilma pensa assim é porque outras infrações são possíveis - até que saia a regulamentação que defina esses e outros parâmetros.

A opção feita não contém a recessão. Ao contrário, tende a aumentá-la porque cria incertezas. Depois da revisão da meta, os analistas rebaixaram ainda mais as projeções sobre o desempenho do PIB deste ano e do seguinte.

Mais recessão aumenta mais o desemprego, reduz a arrecadação e o rombo fica maior. Além disso, esse quadro não deve fortalecer o governo, como pretendeu a presidente Dilma. No ano que vem, tem eleições. Quantos vereadores o PT será capaz de fazer?

A presidente Dilma avisou que não quer a dureza do ajuste para não asfixiar o trabalhador. Mas a decisão tomada tende a sufocar ainda mais politicamente o governo.

Há outras maneiras de enfrentar a derrubada de arrecadação. A primeira delas seria cortar despesas. Parecia a opção do ministro Joaquim Levy. A outra seria fazer um esforço de investimento, o que implicaria apressar os leilões de concessão, exigir mais empenho dos organismos encarregados de expedir licenciamentos ambientais e desfazer-se de ativos públicos, como a Petrobrás já anunciou. “Deixamos claro o que não podemos fazer”, defende-se o ministro Levy. Mas ele já não mostra se consegue fazer o que pode fazer.

Não dá para apostar em que o Brasil “parou de piorar” e que, “daqui para frente, só vai melhorar”. Na política, as coisas só estão piorando e ameaçam arrastar a economia.


CONFIRA:





Aí está a evolução das cotações do dólar no câmbio interno nesta semana. Dá uma noção da alta provocada pela revisão da meta fiscal.

Mais juros
A nova alta do dólar tende a aumentar ainda mais os preços dos importados. Portanto, produzirá inflação. É mais um fator que obrigará o Banco Central a reforçar a política monetária (política de juros). Nesta quarta-feira, o Copom provavelmente aumentará os juros básicos (Selic) em mais meio ponto porcentual, para 14,25% ao ano. Falta saber até onde vai esse arrocho monetário.

Um tiro no BC

Vicente Nunes
Correio Braziliense

A decisão do governo de reduzir a meta fiscal deste ano, de 1,1% para algo entre 0,6% e 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB), medida que deverá ser anunciada hoje, vai bater fundo no Banco Central. Nos últimos meses, a instituição vem ressaltando, em todos os seus documentos, a importância de o setor público trabalhar com um superavit primário consistente para levar a inflação ao centro da meta, de 4,5%, até o fim de 2016. Por superavit consistente, leia-se 1,1% do PIB neste ano e de 2% no próximo.

Há uma grande torcida dentro do governo para que o BC encerre, na próxima semana, o processo de alta da taxa básica de juros (Selic), com mais um aumento de 0,25 ponto percentual, para 14% ao ano. Mas a pergunta que muitos estão se fazendo é como o Comitê de Política Monetária (Copom) poderá dar por encerrado o arrocho nos juros, se um dos pressupostos básicos para a queda da inflação é o cumprimento da meta fiscal que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, prometeu assim que foi nomeado para o cargo.

Mesmo com todo o tecnicismo a que recorre para se expressar, o BC é claro quando trata do assunto: “O Copom reitera que o seu cenário central para a inflação leva em conta a materialização das trajetórias com as quais trabalha para as variáveis fiscais. Considera-se como indicador fiscal o superavit estrutural que deriva das trajetórias de superavit primário de R$ 66,3 bilhões (1,1% do PIB) em 2015 e de 2% do PIB em 2016”. E mais: “O Comitê nota que a geração de superavits primários compatíveis com as hipóteses de trabalho contempladas nas projeções de inflação contribuirá para criar uma percepção positiva sobre o ambiente macroeconômico a médio e a longo prazos”.

Técnicos da equipe econômica que defendem a redução da meta de superavit primário reconhecem que, num primeiro momento, conclui-se que o BC será prejudicado se o setor público economizar menos para pagar juros da dívida. “Mas é preciso ter uma visão mais ampla”, diz um deles. A projeção do BC para a inflação leva em conta superavit de 1,1% do PIB neste ano e de 2% em 2016, mas considera um nível de atividade melhor do que o que está sendo projetado. Enquanto o banco prevê retração do PIB de 1,1% em 2015, o mercado fala em queda de até 2,5%. Há, também, perspectiva de contração da atividade no próximo ano.

Isso quer dizer que, num quadro de recessão mais profunda, um superavit primário menor pode ser tão ou mais contracionista para a atividade do que o previsto inicialmente. Nesse contexto, o BC não seria obrigado a pesar tanto a mão dos juros para compensar o impacto de um ajuste fiscal mais frouxo sobre a inflação. O lado perverso da redução da meta deste ano é que, em 2016 e em 2017, o governo terá que fazer um arrocho nas contas públicas muito maior do que o previsto para evitar a deterioração mais forte dos indicadores fiscais.

Não se pode esquecer de que a dívida bruta já está em 62,5% do PIB e o deficit nominal (que inclui os gastos com juros), em 8%. Quanto menor for o superavit primário, piores serão esses números que vão ser levados em consideração pelas agências de classificação de riscos na hora de decidir se o país merece ou não continuar ostentando o selo de bom pagador (investment grade).

Frustrações
Não é de hoje que a meta fiscal vem pegando o BC de jeito. Nos últimos quatro anos, a autoridade monetária acreditou, piamente, na promessa do então ministro da Fazenda, Guido Mantega, de que faria superavits primários consistentes para ajudar no combate à inflação. O que se viu, porém, foi uma gastança desenfreada, com o governo maquiando as contas públicas e recorrendo, sem constrangimento, a pedaladas fiscais que podem custar o mandato da presidente Dilma Rousseff caso o Tribunal de Contas da União (TCU) recomende ao Congresso Nacional a rejeição das contas do governo de 2014.

A confiança do BC em Mantega foi tanta que, mesmo com a inflação encostando no 7%, o Copom reduziu a taxa de juros para 7,25% ao ano, o nível mais baixo da história, decisão que teve de ser revista seis meses depois por ser totalmente insustentável. Teme-se que, agora, a autoridade monetária comandada por Alexandre Tombini venha a colher novas frustrações.

É verdade que não dá para comparar Mantega com Levy, cujo comprometimento com o ajuste fiscal é evidente. Mas o ministro da Fazenda vem perdendo batalhas importantes dentro do governo. Ele defendeu, até o último instante, que não houvesse a redução da meta de superavit primário agora, como forma de reforçar aos investidores e às agências de classificação de risco o comprometimento com a meta de 1,1% do PIB. Mas foi derrotado pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, e pela ala política do governo.

Antes mesmo que a derrota fosse sacramentada, Levy tratou de dar justificativas para não ser classificado como perdedor. Para compensar o superavit menor, indicou que o governo fará novos cortes no Orçamento. Foi a forma que encontrou para mostrar que se mantém firme no cargo e que detém amplo apoio da presidente Dilma. Mesmo com a popularidade encostando no chão, ela aprovou redução de despesas.

Levy sabe que está queimando seu capital. Daqui por diante, terá que mostrar mais resultados do que promessas, até porque, num governo Dilma, quase nada do que se fala pode-se levar a sério.

Governo acertou, as pessoas é que destoaram

Josias de Souza


No alvorecer do segundo mandato de Dilma Rousseff, o governo tratou o imponderável com enorme precisão. Ao anunciar a meta anual de superávit de caixa, evitou os arredondamentos. Informou que economizaria 1,13% do PIB para pagar os juros de sua dívida. Coisa de R$ 63,3 bilhões.

Nesta quarta-feira (22), sob atmosfera de constrangimento, os ministros Joaquim Levy (Fazenda) e Nelson Barbosa (Planejamento) anunciaram uma redução da meta. Caiu para irrisórios 0,15% do PIB —ou R$ 8,6 bilhões. São grandes, muito grandes, enormes as chances de o superávit chegar a zero. Pior: o superávit pode virar um déficit de até R$ 17,7 bilhões.

O que houve? Simples: o governo tomou suas decisões, apertou os botões que tinha de apertar no seu painel de controles e esperou que as pessoas, sempre tão imprevisíveis, se comportassem como o planejado.

Deu-se o seguinte: apavorados com os juros, a inflação e o desemprego, os consumidores consumiram menos do que o governo gostaria. Com o caixa minguado, os empresários se trancaram no cofre e recolheram menos impostos do que a Receita Federal gostaria de receber.

Como se fosse pouco, os aliados de Dilma no Congresso comportaram-se como adversários. Injetaram despesas novas em propostas que visavam cortar gastos. No Senado, um Renan Calheiros fora de controle, tramou o adiamento do projeto que elevaria a tributação sobre a folha salarial de 56 setores da economia.

Ou seja: o governo estava certo. As pessoas é que não cooperaram. A previsibilidade da economia só vai até onde começa o mistério do comportamento humano. Quem poderia imaginar, por exemplo, que Dilma Rousseff deixaria como legado para si mesma uma economia tão estraçalhada e difícil de consertar?

'Fomos otimistas demais', diz sócio da Empiricus, sobre 'O Fim do Brasil'

Luís Lima
Veja online

Um ano após a divulgação do relatório que foi censurado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a pedido do PT, Felipe Miranda diz que cenário econômico é mais grave do que se imaginava antes das eleições

(Lailson Santos/VEJA)
 Felipe Miranda da empresa Empiricus

Um ano após a publicação do relatório 'O Fim do Brasil', o autor e sócio da consultoria Empiricus, Felipe Miranda, diz que as previsões negativas sobre os rumos da economia que irritaram o PT na época das eleições falharam por não terem captado toda a gravidade da situação econômica do país. "Se considerarmos o tamanho da atual recessão, a fragilidade da situação fiscal ou o nível de taxa de juros, erramos tudo. Nossa visão pessimista mostrou-se otimista diante dos fatos", diz. No entanto, Miranda pondera que a direção não estava completamente errada. "No fim, entre todos, fomos aqueles que chegaram mais perto de acertar", diz.

À época da divulgação do relatório, uma liminar do ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Admar Gonzaga determinou a retirada de propagandas do relatório na internet por "não dar tratamento isonômico" aos então candidatos, já que relacionava conteúdos negativos à Dilma e fazia elogios ao tucano Aécio Neves. Num segundo momento, o tribunal cassou, por maioria, a liminar, ao temer a intervenção da Justiça Eleitoral.

Miranda relembra os debates acirrados do período e reclama das críticas recebidas pelo pessimismo exacerbado de suas análises. O economista formado pela Fundação Getulio Vargas conta que, quando o dólar ainda sustentava o patamar dos dois reais, a Empiricus foi duramente alvejada por já apostar que a moeda americana ultrapassaria a casa dos 3 reais. Nesta sexta-feira, o dólar fechou a 3,34, maior nível desde março de 2003. Em relação ao Produto Interno Bruto (PIB), a previsão da Empiricus era de queda de 1% este ano e estabilidade em 2016 - números mais otimistas, inclusive, do que previsões atuais do próprio governo. "Quando cravamos um recuo de 1%, nos acusaram de alarmismo", diz. Para este ano, grandes bancos como o Credit Suisse e Itaú já falam em retração de 2,5%.

Já para a inflação, a Empiricus chegou mais perto de acertar: projetaram que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) alcançaria dois dígitos este ano. "Se não chegar a 10%, chegará muito perto", diz Miranda. No acumulado em 12 meses até junho, a inflação já atinge 8,89%. Já para a Selic, atualmente em 13,75%, a Empiricus chegou a falar em uma taxa de juros a 15% em 2015 - mas agora aposta em um nível de 14,75%.

Segundo o analista, o problema mais grave, no entanto, é na área fiscal. "Já apontávamos um quadro de deterioração fiscal, tanto na frustração da receita, quanto na dificuldade em cortar gastos correntes, além do tamanho e extensão da recessão", diz. Tal deterioração, segundo Miranda, se deve ao fato de que a herança do primeiro mandato de Dilma pode ser "mais maldita" do que se supunha. "Em paralelo, tivemos um Congresso mais belicoso e menos susceptível a aprovar mudanças originais propostas no ajuste, além dos desdobramentos do petrolão.".

Após a redução das metas de superávit primário, na última quarta-feira, o governo só deve conseguir retomar uma trajetória de crescimento econômico e redução da dívida bruta em 2018. Miranda, no entanto, discorda que a presidente será capaz de entregar a 'casa organizada' para o próximo presidente. "Parte de nossos problemas são estruturais e não conjunturais. Ainda temos gastos públicos que não cabem no PIB e isso não se muda de uma hora para outra", justifica, citando a queda da arrecadação, do preço de commodities e a falta para mudanças no mercado de trabalho.

Para este ano, a Empiricus projeta uma queda de 2,5% para o PIB. Em 2016, o recuo deve ser de 0,5% e em 2017, deve ser zero. Já para a inflação, é esperado 9,5% este ano e 5,5% em 2016. No caso da evolução da dívida bruta sobre o PIB, a Empiricus aposta em 72% em 2018, contra 66% na perspectiva do governo.

Lula e a lenda do Golem

Célio Pezza (*)
Diário do Poder

A rejeição ao governo da presidenta Dilma alcançou, em junho deste ano, a marca de 65% de ruim e péssimo. No ABC paulista, o berço do PT, chegou a 75%. No dia 18 de junho, durante uma reunião no Instituto Lula, com várias lideranças religiosas, o ex-presidente Lula analisou esses resultados e disparou contra sua pupila, chegando a dizer que ela está no “volume morto”, numa alusão ao volume de água nos reservatórios de São Paulo.

Reclamou de Dilma pela falta de notícias positivas e disse ter perguntado a ela quando tinha sido a última notícia boa para o país. Não teve uma resposta, o que mostrou a situação dramática atual do governo petista e do próprio Partido dos Trabalhadores. Evidente que Lula está tentando de todas as formas sair mais uma vez como uma vítima ao invés do grande articulador e responsável pela situação atual.

Essa sua posição lembra a história do Golem na cabala judaica. O Golem era um ser artificial e sem vontade própria, criado para satisfazer as vontades de quem o criou. Embora sem inteligência, ele podia executar tarefas simples. O problema era que, repentinamente, ele ficava sem controle, se tornava muito perigoso e desativá-lo, era tarefa muito difícil, mesmo para os maiores rabinos e cabalistas.

Na tradição esotérica, o Golem tinha a palavra Emeth, que significa Verdade em hebraico, na sua fronte ou debaixo de sua língua e para desativá-lo, seu criador precisava apagar a primeira letra e transformar a palavra em Meth, que significa morte. Na lenda original, para desativá-lo, o preço custou muitas vidas, inclusive a de seu criador.

Lula criou um Golem e agora está tentando desativá-lo. Não vai ser fácil e, se a lenda estiver correta, isso irá custar muitas vidas. No meio desse caos político, Lula foi citado, na 14ª fase da Operação Lava Jato, como facilitador de negócios de empreiteiras fora do país. Mensagens interceptadas pela Policia Federal revelaram que o ex-presidente tinha o apelido carinhoso de “Brahma”, junto aos empreiteiros investigados.

Em um trecho da conversa gravada pela Polícia Federal, os executivos das construtoras falam sobre as diferenças do governo Brahma e da senhora atual que, segundo eles, tem um discurso fraco, confuso e falta carisma. O criador agora tenta se salvar da tormenta que bate à sua porta. Para isso, como sempre, vale tudo, até sacrificar sua criatura.

(*) Célio Pezza é colunista, escritor e autor de diversos livros, entre eles: As Sete Portas, Ariane, A Palavra Perdida e o seu mais recente A Tumba do Apóstolo. Saiba mais em www.facebook.com/celio.pezza


Famílias brasileiras perdem R$ 16 bi de seu poder de compra mensal

Bruno Villas Bôas
Folha de São Paulo

Eduardo Knapp - 24.mar.2015/Folhapress
Supermercado em São Paulo

A capacidade das famílias brasileiras de consumir bens e serviços ao longo de um mês encolheu em R$ 16 bilhões neste ano.

Com a inflação em alta, o desemprego crescente e o crédito restrito, o poder de compra das famílias, propulsor da economia nos últimos anos, está em queda pela primeira vez desde 2003 e deve se manter em baixa nos próximos meses.

Estudo da consultoria Tendências, obtido pela Folha, mostra que o poder de compra das famílias foi de R$ 240 bilhões na média mensal de janeiro a maio —6,2% menor do que em igual período de 2014 (R$ 256 bilhões).

"Depois de anos de aumento da capacidade de consumo, fica até difícil falar em empobrecimento do brasileiro, mas é exatamente o que está acontecendo", afirmou Rodrigo Baggi, economista da consultoria Tendências.

Isoladamente em maio, o poder de compra estava em R$ 229 bilhões, o que representava um retrocesso ao patamar de janeiro de 2012 (R$ 228,5 bilhões).

Para chegar aos números, a consultoria considera a massa de renda (inclusive da previdência) descontando a inflação, a oferta de crédito (com imobiliário) e os gastos das famílias com pagamento de dívidas.

O poder de compra das famílias encolheu porque a inflação corroeu a renda dos brasileiros e o ritmo das novas concessões de crédito –componente básico do consumo¬ desacelerou.

SUPÉRFLUOS
O empresário Bruno Gorodicht, 34 anos, é um dos que sentem na pele esses efeitos. Com custo de vida 10% maior em 2015, ele precisou readequar seus gastos, cortando supérfluos como restaurantes e viagens.

"Só o colégio da minha filha aumentou 20%. Mas minha renda não acompanhou", diz o empresário, dono da rede Espetto Carioca.

As famílias de baixa renda são as que mais sofrem. Elas têm menos supérfluos para cortar do orçamento e acesso restrito a investimentos que superam a inflação.

Outro problema é que, com um mercado de trabalho em deterioração, o ambiente para as negociações salariais está desfavorável.

"O trabalhador não consegue cobrar aumento acima da inflação. A prioridade é manter o emprego", afirma Hélio Zylberstajn, coordenador do site Salários.org.br e professor da USP.

Nas projeções da Tendências, o poder de compra deve recuar, ao fim do ano, 6,1% na comparação com 2014. No ano que vem, com a expectativa de desaceleração da inflação, o poder de compra pode ter pequeno aumento, de 0,6%. 

Sem alívio e com mais arrocho

Revista ISTOÉ

Redução da meta fiscal vem acompanhada por mais cortes no orçamento e tem tudo para agravar a crise econômica na qual o Brasil está atolado

Pressionado pela oposição, pelo PT e pela opinião pública, o governo federal jogou a toalha na luta pelo superávit primário. De uma só tacada reduziu a quase zero a meta de fiscal prometida no início do ano. Ou seja, a partir de agora o governo está sinalizando que não se compromete a economizar a mesma quantidade de recursos para pagar a dívida pública que havia prometido antes. Na teoria, era de se esperar com isso que se afrouxasse o aperto econômico dos últimos meses e fossem abertos os cofres para irrigar a economia, absolutamente travada e tentar reverter a recessão que ameaça fazer o PIB cair quase 2% neste ano. Na prática, no entanto, a redução da meta fiscal veio acompanhada de mais arrocho.

OPOSTOS
Nelson Barbosa, do Planejamento, ganhou a batalha contra Levy,
que defendia a manutenção da meta e cortes maiores

Até esta semana o governo prometia pagar todas as suas despesas, com exceção das dívidas e, economizar R$ 66,3 bilhões, o que representava 1,1% do Produto Interno Bruto brasileiro. Estes recursos seriam usados exatamente para abater os juros da dívida pública, que hoje já é o equivalente a quase 65% do PIB. Com o anúncio de redução da meta fiscal, o compromisso do governo agora é pagar tudo e terminar o ano com apenas R$ 8,7 bilhões, ou 0,15% do PIB. Isso não significa, no entanto, que o governo vai gastar mais. A redução da meta foi influenciada principalmente por uma queda da arrecadação, que já se contraiu 2,5% no primeiro semestre deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. Mas isso não é exatamente o pior.

O governo ainda tratou de enfiar umas dessas jabuticabas econômicas tão comuns na Esplanada dos Ministérios que abre espaço para uma déficit de até R$ 17,7 bilhões. De acordo com o texto atual, que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso, o governo está autorizado a abater R$ 26,4 bilhões se três receitas extraordinárias não se concretizarem. São coisas difíceis de acontecer, como a recuperação de débitos fiscais em atraso, repatriação de recursos não declarados no exterior e concessões ligadas à área de infraestrutura. Funciona assim: o governo diz que vai fazer de tudo para levantar esses recursos extras mas, se não conseguir, tem o direito de fazer de conta que eles entraram em caixa e abater o montante no resultado final.



Resultado direto de uma economia em recessão, como a brasileira nesse momento, a diminuição na arrecadação dos impostos fez com que o governo decidisse, também, cortar ainda mais custos para fechar no azul. Para conseguir chegar ao final do ano sem precisar contrair mais dívidas para pagar os compromissos, o governo anunciou também que irá cortar R$ 8,6 bilhões no orçamento. “O crescimento da arrecadação tem sido menos dinâmico que as despesas”, afirmou, em economês, o ministro da Fazenda Joaquim Levy. Em português claro significa que está saindo mais dinheiro do que entrando nos cofres do Tesouro.

O reflexo dessa decisão, que já vinha sendo aguardada pelo mercado e pela qual Joaquim Levy vinha lutando para não se concretizar, foi imediato. Nas 48 horas seguintes o dólar disparou e fechou em sua maior cotação desde março, sendo vendido para o consumidor final a até R$ 3,70. A Bolsa, como sempre acontece em momentos de incerteza econômica, seguiu caminho contrário e prometia fechar a semana com a menor cotação dos últimos quatro meses. A agência de avaliação de risco brasileira Austin Rating cortou a nota de crédito do Brasil e o tirou do chamado Grau de Investimento. Agências internacionais, como a Fitch, indicam que podem fazer o mesmo nos próximos dias. Para completar, existe a possibilidade de o Banco Central aumentar ainda mais a taxa de juros para controlar a crescente inflação, que tende a aumentar sem o ajuste das contas públicas.


PESADO
Com as contas desequilibradas, inflação tende a aumentar
e Tombini, do BC, deve ampliar juros ainda mais

As desconfianças não se resumem à economia brasileira. Crescem também as dúvidas sobre a capacidade de Joaquim Levy em realizar o ajuste prometido e ter sucesso no reaquecimento da economia. O ministro da Fazenda já vinha enfrentando dura resistência tanto de setores internos do governo quanto do PT, que vê sua política econômica como uma réplica do programa do PSDB. Além disso, com o ambiente político extremamente fragilizado, o ministro da Fazenda tem encontrado dificuldades para aprovar as medidas do ajuste fiscal no Congresso. A decisão da presidente Dilma Rousseff em reduzir a meta fiscal foi mais uma derrota. A medida era defendida pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa e criticada pelo ministro da Fazenda.




Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil 

Para economistas, governo subestima crescimento da dívida pública

Isabel Versiani
Folha de São Paulo

Na contramão do estimado pelo governo, economistas do mercado não veem perspectiva de a dívida pública interromper sua trajetória de crescimento ao longo do mandato da presidente Dilma Rousseff.
A avaliação é que o fraco desempenho da atividade econômica e o engessamento dos gastos públicos vão manter a relação dívida/PIB em alta, chegando a um patamar próximo a 70% até o final de 2018.

Ao anunciar nesta semana a redução das metas de superavit primário a serem perseguidas pelos próximos quatro anos, a equipe econômica disse que dívida se estabilizaria a partir de 2017 e começaria a recuar no ano seguinte, quando chegaria a 65,6% do PIB. O endividamento fechou 2014 em 58,9% do PIB.




"Me parece um pouco otimista, a impressão que eu tenho é que [a relação dívida/PIB] pode terminar 2018 acima de 70%", afirmou o economista Marcos Mollica, sócio da Rosenberg Investimentos.

Diante desse cenário, ele prevê que o país perderá o selo de bom pagador (grau de investimento) dado pelas agências de classificação de risco no primeiro semestre do ano que vem.

O economista afirma que a equipe econômica vive um "impasse" diante da impossibilidade de promover cortes significativos nos gastos e da retração econômica, que derrubou as receitas.

Para Mollica, as medidas de ajuste promovidas este ano foram "paliativas" e reformas mais profundas só serão viáveis com um novo governo e um projeto "mais sólido".

Em relatório, os bancos Itaú Unibanco e BNP Paribas também estimaram que a dívida pública vai superar os 70% nos próximos anos.

"Na ausência de medidas adicionais, a tendência é de baixa no superavit primário, em função principalmente do aumento nos gastos da previdência", afirmou o economista Luka Barbosa, do Itaú.

Para José Francisco Gonçalves, economista-chefe do banco Fator, a economia entra em um círculo vicioso, em que o governo é obrigado a buscar novas fontes de arrecadação, aprofundando a recessão.
"Você só vai sair disso se a inflação cair e você conseguir reduzir juro", afirmou.

Levando em conta as projeções do próprio governo para o superavit primário até 2018, que considera otimistas, Gonçalves calcula que a dívida fechará 2018 em 68,7% do PIB.

Ele disse ver "com crescente preocupação" a perspectiva de o país perder o grau de investimento. "Acho difícil que não aconteça."