sexta-feira, julho 31, 2015

Governo Dilma inaugura a fase do tudo-ou-nada

Josias de Souza


Sitiada por cinco adversários incômodos —a impopularidade, o isolamento, o TCU, a Lava Jato e Eduardo Cunha—, Dilma Rousseff conduz o seu governo para o pantanoso território do tudo-ou-nada. A presidente continua rendida à máxima segundo a qual não se faz uma omelete sem quebrar os ovos. A diferença é que Dilma já não se preocupa em abafar o barulhinho das cascas se quebrando. Tomou gosto pelo crec-crec.

Adepta da moral utilitária, Dilma migrou da condição de apolítica para a de política tradicional. Nesta segunda-feira (27), reuniu 12 de seus ministros partidários para recordar-lhes, com outras palavras, que não integram um gabinete de notáveis. Estão na Esplanada graças à suposição de que são politicamente rentáveis.

Dilma lembrou aos ministros que eles precisam garantir que seus partidos votem alinhados com o governo no Congresso. Todo mundo sabe que as relações do Executivo com o Legislativo baseiam-se na chantagem. Mas na época em que as cascas se rompiam em silêncio, fingia-se que o fisiologismo ainda não havia se tornado um princípio de Estado. O “efeito Cunha” trouxe para defronte dos refletores o banquete em que são servidos pedaços do Estado.

Mais cedo, após participar de reunião da coordenação política do governo com Dilma, o ministro Eliseu Padilha (Aviação Civil), que encosta a barriga no balcão em nome do vice-presidente e articulador político Michel Temer, quebrara outros ovos diante das câmeras. Ele anunciara aos quatro ventos que o governo deseja concluir até meados de agosto o rateio dos cargos entre seus aliados.

“A nossa pretensão é liquidar esse assunto, na pior das hipóteses, até o meio do mês de agosto”, disse Padilha. Crec-crec. “A nossa capacidade de diálogo aumenta na medida em que a gente consiga atender aos interesses, que são republicanos.” Crec-crec. O ministro queixou-se da incompreensão da imprensa, incapaz de entender que a distribuição de cadeiras é normal. Ocorre em “qualquer país republicano democrático.” Os aliados não querem senão “ajudar a governar”.

Tanto patriotismo costuma resultar em escândalos como esse que sugou pelo menos R$ 19 bilhões da Petrobras. Na reunião vespertina, com seus ministros-reféns, Dilma queixou-se da Lava Jato. Disse que a operação já roeu um ponto percentual do PIB de 2015. Não explicou como foi feita a conta. E se absteve de recordar que a PF e a Procuradoria esquadrinham os roubos na Petrobras porque sua administração e a de Lula permitiram que os ladrões entrassem nos cofres da estatal.

O ERRADO: Governo deve cortar mais R$ 2 bilhões no orçamento da Educação este ano

Veja online
Com informações Agência Reuters

Segundo fontes ouvidas pela agência Reuters, corte adicionar amplia para R$ 11 bilhões o bloqueio sobre os repasses aos programas educacionais

(Eraldo Peres/AP)
 A presidente Dilma Rousseff já autorizou
 cortes de 9,5 bilhões de reais em Educação

O governo vai fazer corte adicional de até 2 bilhões de reais no orçamento do Ministério da Educação deste ano que, se concretizado integralmente, amplia para mais de 11 bilhões de reais o bloqueio sobre os programas educacionais, informaram à agência de notícias Reuters nesta quinta-feira duas fontes do governo com conhecimento sobre o assunto.

Com isso, a área de Educação poderá responder sozinha por quase um quarto do corte adicional de 8,6 bilhões de reais nas despesas de 2015 anunciado na semana passada e que faz parte do novo ajuste fiscal. "O Ministério da Educação será uma das pastas mais atingidas pelo novo corte", disse uma fonte do governo. Uma segunda fonte do governo disse que a tesoura será maior no MEC porque possui um dos maiores orçamentos em comparação aos demais ministérios.

Procurado, o Ministério da Educação não tinha alguém imediatamente disponível para comentar o assunto. Já o Ministério do Planejamento, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que somente se manifestará após a publicação do decreto de Programação Orçamentária e Financeira, que deve ocorrer ainda nesta quinta-feira por meio de edição extra do Diário Oficial da União.

Com o slogan "Brasil Pátria Educadora", o governo da presidente Dilma Roussef já havia feito um corte de quase 9,5 bilhões de reais na Educação neste ano, como parte do contingenciamento de 70 bilhões de reais em maio e que já havia imposto à pasta a desaceleração em vários programas educacionais.

As ações de empresas de educação caíram nesta quinta, na Bolsa de Valores. Às 15 horas, Kroton Educacional caía mais de 4% por cento e Estácio Participações desabava mais de 5%. O Ibovespa tinha perdas de 0,68%. Fora do principal índice da bolsa, Ser Educacional perdia quase 5% e Anima Educação abandonou os ganhos e declinava cerca de 2,5%.

Com a economia cada vez pior, com previsões de analistas de recessão para este e o próximo ano e que afetam diretamente a arrecadação, a equipe econômica teve de reduzir as metas fiscais para este e os próximos anos na semana passada, quando também divulgou corte adicional total de 8,6 bilhões de reais, mas sem especificar quais áreas e de que maneira seriam atingidas.

O CERTO: Para ensino de qualidade é preciso investir até 3 vezes mais

Exame.com
Com informações Agência Brasil 

Alexandre Severo/EXAME.com 
Creche em Mogi das Cruzes: a etapa educacional que mais necessita 
de investimentos é a creche, que atende a crianças de até 3 anos de idade

Brasil terá que aumentar em até três vezes o valor investido por aluno na rede pública para garantir uma educação com padrões mínimos de qualidade, informou a Campanha Nacional pelo Direito à Educação, rede que reúne mais de 200 organizações.

Esse cálculo significa R$ 37 bilhões a mais no sistema educacional público, que engloba 40,7 milhões de matrículas.

A etapa educacional que mais necessita de investimentos é a creche, que atende a crianças de até 3 anos de idade. O valor ideal seria R$ 10 mil por aluno para o atendimento em tempo integral.

Atualmente, segundo os dados divulgados pela Campanha, são gastos R$ 3,3 mil, com base nos valores do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais de Educação (Fundeb).

O investimento calculado pela Campanha corresponde ao Custo Aluno-Qualidade inicial (CAQi), instrumento criado pela própria organização e incorporado ao Plano Nacional de Educação (PNE).

O CAQi define quanto cada aluno precisa para ter acesso a uma educação com um padrão mínimo de qualidade. Entram no cálculo recursos para infraestrutura, materiais e equipamentos, além do salário dos professores.

A implantação do Custo Aluno Qualidade (CAQ), para o período posterior à fase inicial, faz parte das estratégias para alcançar o investimento de pelo menos 10% do Produto Interno Bruto (PIB) em educação até 2024. Pela lei, o CAQi deve ser implementado em até dois anos de vigência da lei, no final de junho de 2016.

A tabela divulgada pela Campanha atualiza os valores para todas as etapas de ensino. Entre as matrículas em tempo integral, na pré-escola, o valor por aluno deveria ser R$ 5 mil, contra os atuais R$ 3,3 mil; no ensino fundamental e no médio, R$ 4,8 mil, contra R$ 3,3 mil atuais. A educação indígena e quilombola deveria subir dos atuais R$ 3,1 mil para R$ 6,1 mil por estudante.

“Os dados mostram que as matrículas que o Brasil menos investiu ao longo da história, como creche, educação quilombola e indígena, demandam mais recursos”, diz o coordenador geral da Campanha, Daniel Cara. 

Ele acrescenta que, além das matrículas existentes, o Brasil ainda tem de incluir 2,8 milhões de crianças e jovens na escola e isso custará mais R$ 13 bilhões iniciais para garantir a infraestrutura e R$ 13 bilhões a mais por ano para manter esses alunos.

“Os dados trazem a clareza de que praticamente todas as matrículas do Brasil, salvo os estados mais ricos, precisam de complementação da União para atingir um padrão mínimo de qualidade. Essa é uma agenda que vai ter que ser discutida”, diz.

Dados do Inep de 2014, obtidos por requerimento de informação pelo senador Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), mostram que a União contribui com 18%, os estados, com 40%, e os municípios, com 42% do investimento direto aplicado em educação.

Para o cálculo do CAQi, a Campanha utilizou os insumos previstos em parecer do CNE de 2010, que não foi homologado pelo MEC. O documento final da Conferência Nacional de Educação (Conae), que reuniu especialistas, organizações e Poder Público, estabelece que o CAQi seja regulamentado nos moldes do parecer do CNE.

O MEC, no entanto,  discute o CAQi e o CAQ em grupo formado por secretarias do pasta, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Em junho, à Agência Brasil, o secretário de Articulação com os Sistemas de Ensino do MEC, Binho Marques, disse que o grupo levanta dados sobre insumos e custos da educação básica e que o CAQ poderá não seguir exatamente o que está no parecer do CNE. Até setembro o trabalho do grupo deverá ser colocado para discussão.

Dobrar a meta que não existe: a nova fórmula de Dilma

Veja online

(Evaristo Sá/AFP)
 A presidente Dilma Rousseff:
 a difícil tarefa de dobrar a meta que não existe

No encerramento de seu discurso durante o lançamento do programa Pronatec Jovem Aprendiz na Micro e Pequena Empresa, nesta terça-feira, a presidente Dilma Rousseff afirmou: "Não vamos colocar uma meta, deixaremos em aberto e, quando atingirmos ela, nós dobraremos a meta". 

Não entendeu? Pois bem, o raciocínio tortuoso da presidente confundiu também os seguidores do Blog do Planalto no Twitter - diante das reclamações, a página ainda se lançou ao difícil trabalho de tentar explicar a frase da presidente, afirmando que o post foi tirado de um contexto. O problema: a íntegra do discurso é tão confusa quanto o trecho tuitado.

Reprodução / Twitter/VEJA



A pergunta de US$ 1 milhão (sobre economia)

Tribuna da Internet
Fernando Canzian, Folha de São Paulo

O quadro abaixo resume como os ciclos econômicos costumam funcionar. Já os gráficos organizados em formatos de letras, os tipos de recessão que as economias tendem a enfrentar.



O encaixe nesse triste alfabeto depende de vários fatores. Infelizmente, a atual recessão brasileira pode ficar distante do V e do W. Está cada vez mais com cara de U. O pior seria o L.

Ou seja, queda acentuada da atividade e um período relativamente longo de crescimento nulo ou negativo até a recuperação (U). Ou pior, sem grande perspectiva de recuperação à frente (L).

Muito conspira para isso: o país não fará tão cedo o ajuste fiscal necessário para neutralizar a péssima dinâmica de sua dívida e conter gastos. Nesse ponto, a meta de economizar 1,1% do PIB já foi abandonada e pode ficar perto de zero ou negativa

A inflação continua elevadíssima (9,31% em 12 meses) e espraiada por toda a economia. Não somente restrita a tarifas corrigidas fortemente há seis meses (energia, combustíveis etc.)

O desemprego acelera mais rápido do que o previsto e a renda cai. Com impactos diretos nas vendas das empresas, comércio e, principalmente, na arrecadação de impostos para viabilizar o ajuste fiscal

SEM INVESTIMENTOS?
Os investimentos empresariais, que poderiam suprir a falta de demanda dos consumidores, também pararam. Investir para quê, sem perspectiva de vendas e mercado futuro?

Os investimentos públicos caíram e sofrem novos cortes. Seus realizadores, as maiores empreiteiras do país, estão afogados em escândalos

Na política, o Executivo está atônito, mal avaliado e sem comando. Refém da cúpula de um Legislativo investigado por corrupção e capaz de qualquer chantagem para tentar salvar a própria pele

Um dos pontos brilhantes em outras crises como a atual costumava vir da área externa. Como o real se desvalorizou frente o dólar, produtos “made in Brazil” ficam mais baratos lá fora e a indústria poderia dar impulso a segmentos da economia exportando mais.

INDÚSTRIA EM QUEDA
Ocorre que nos últimos dez anos a participação da indústria de transformação como proporção do PIB caiu de 20% para cerca de 10%. Ou seja, sua recuperação terá um efeito bem mais limitado desta vez do que em outras crises.

Mas é de esperar que o ciclo recessivo no qual ingressamos agora (com seus efeitos sobre o emprego e a renda) acabe derrubando a inflação de forma consistente. Permitindo ao Banco Central diminuir a taxa de juros (Selic; 13,75% a.a.), aliviando a pressão de crescimento da dívida pública e o garrote sobre a demanda.

O cenário externo também parece estar se firmando na Europa e nos EUA. Apesar da crise grega, que acabou obliterando uma série de boas notícias recentes nos dois lados do Atlântico Norte (em termos de emprego e crescimento).

CENÁRIO POLÍTICO
Aos poucos, também é de esperar uma mudança no cenário político. Com “expurgos” e políticos inviabilizados pela Lava Jato, com as eleições municipais de 2016 e a presidencial se aproximando em 2018.

O esgotamento do modelo baseado no consumo, na rápida expansão do crédito e de incentivos às expensas das contas públicas também deixou marcas indeléveis. É de esperar, portanto, que a nova configuração política que venha por aí, qualquer que seja, tenha aprendido com os erros recentes e se fie mais na ortodoxia.

Mas isso levanta a pergunta de US$ 1 milhão: com o país e seus consumidores já endividados, a indústria minguada, o setor público sem capacidade de investir e os empresários desanimados e demitindo, de onde virá nossa recuperação no médio prazo?

Governo precisa provar que ajuste fiscal é para valer

Editorial
O Globo

Agência internacional de avaliação de risco coloca viés de baixa em nota da economia brasileira. Ou seja, condicionada à evolução das finanças públicas

Uma das principais agências internacionais de classificação de risco, a Standard & Poor’s, manteve o conceito de crédito da economia brasileira em sua mais recente avaliação, porém com viés de baixa, alertando que o país poderá ser rebaixado nos próximos meses, se não houver avanços nas finanças públicas. No linguajar técnico dessas agências, o Brasil saiu de estável (quando há pouca possibilidade de rebaixamento) para uma perspectiva negativa (com mais probabilidade).

As notas da economia brasileira situaram-se na faixa do “grau especulativo” durante anos. Com a melhora progressiva das contas públicas a partir do lançamento do real, o país foi sendo promovido na escala de classificação de risco até alcançar o almejado “grau de investimento”. Em termos práticos, isso significa que as agências que avaliam o risco consideram que credores e investidores estrangeiros têm, pelos fundamentos macroeconômicos, condições de receber seu capital na mesma moeda em que originalmente fecharam as operações no Brasil. As agências classificam o risco tanto da economia como um todo, como o de empresas em particular (ou até mesmo de estados e municípios).

A avaliação serve, portanto, de orientação para investidores que, direta ou indiretamente, se interessam pela economia brasileira, comparando-a com as demais. Conforme essa avaliação, o mercado acaba definindo preços para os títulos relacionados ao Brasil, assim como as taxas de juros e os prazos para eventuais empréstimos. Investidores mais conservadores geralmente optam por economias que representem menos risco. É sempre menor o número de investidores que se dispõem a correr riscos em mercados mais especulativos.

Razões muito objetivas levaram a equipe econômica a redefinir recentemente a meta de superávit primário para as finanças públicas este ano. Em face da rigidez dos orçamentos governamentais no país, com despesas obrigatórias representando a maior parte dos gastos, não havia mesmo alternativa de imediato. Foi melhor encarar a realidade do que tentar escondê-la. No entanto, diante de todas essas dificuldades, o governo não deve simplesmente cruzar os braços. Para convencer o Congresso e o Judiciário a colaborarem mais nesse esforço de ajuste, o governo deveria dar passos concretos que servissem de exemplo. Enquanto mantiver uma máquina administrativa com 39 diferentes ministérios e 22 mil cargos comissionados, quem acreditará que o ajuste é mesmo para valer?

Se a redução do gastos se restringe a cortes de investimentos — e busca por receitas adicionais —, temos o pior do mundo, pois também se diminui a capacidade de recuperação posterior da economia. Politicamente, espera-se que o governo se movimente junto ao Congresso para eliminar o engessamento das despesas obrigatórias. Mas, no curto prazo, pode também agir dentro da sua própria esfera de atuação.

‘Brasil vai ter de fazer mais para ficar onde está’

Instituto Millenium 
O Estado de São Paulo

O coordenador de Economia Aplicada do Ibre/FGV, Armando Castelar, diz que o risco de a economia brasileira perder o grau de investimento aumentou com a decisão da Standard & Poor’s (S&P) de alterar a perspectiva da nota brasileira. “Quando as agências colocam a perspectiva negativa, é sinal de que, se não mudar, cai”, diz. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida a “O Estado de S. Paulo”.

O Estado de S. Paulo: Qual é a avaliação do sr. sobre a decisão da S&P?
Armando Castelar: Eu não tinha uma perspectiva positiva para 2015, mas o primeiro semestre acabou se revelando pior do que as pessoas que estavam mais preocupadas – como eu – esperavam. Em parte, porque não havia uma noção completa da parte fiscal. A situação externa também se mostrou mais difícil. Além disso, quando você está tentando atacar muitos problemas ao mesmo tempo, as políticas em cada direção acabam interagindo negativamente. O país não está apenas resolvendo a parte fiscal, mas também a questão da inflação. Isso forçou o Banco Central a subir muito os juros e aí a política monetária, por sua vez, está prejudicando o emprego. As políticas individualmente estão absolutamente corretas, mas é complicado perseguir todas ao mesmo tempo.

O Estado de S. Paulo: E a questão política, que tem dificultado parte do ajuste?
Armando Castelar: Acho que existia uma visão de que haveria um ano de queda no PIB, o que reduziria a popularidade e criaria um ambiente menos favorável do que em anos anteriores, mas ninguém imaginava que seria na magnitude que estamos vendo. Isso também reduziu muito a capacidade da equipe em dar respostas com mais força aos problemas. Se olharmos o que ocorreu em 1999 e 2003, a capacidade de resposta do governo foi muito maior. Todo esse cenário também levou à queda grande, muito grande, da confiança, que não é só reflexo conjuntural desse ciclo.

O Estado de S. Paulo: Como assim?
Armando Castelar: Acredito que as pessoas estão com um pouco de falta de horizonte com o que vai ocorrer ao fim do ajuste.

O Estado de S. Paulo: Qual é o risco de o Brasil perder o grau de investimento?
Armando Castelar: A chance aumentou. Quando as agências colocam a perspectiva negativa, é sinal de que, se não mudar, cai. Então, o país vai ter de fazer mais para ficar onde está. O governo está nadando contra a maré. É uma situação complicada, mas a resposta continua sendo a mesma de antes: aumentar o superávit primário e trazer a inflação para baixo o mais rápido possível.

O Estado de S. Paulo: O governo alterou as metas fiscais para os próximos anos. Qual o impacto dessa decisão?
Armando Castelar: É menos favorável para a evolução da dívida. Acredito que entra também a questão do crescimento. Essa mudança de postura reflete o fato de que a perspectiva de crescimento está piorando. Já existe uma visão de que, se a economia ficar parada em 2016, será para comemorar.

Para endividados, governo tem uma saída: mais crédito (ou, mais dívida).

Exame.com
Francisco Marcelino, Bloomberg

Arquivo/Agência Brasil 
Cartões: medida foi aprovada depois de um decreto, em setembro,
 ter ampliado o vencimento máximo dos empréstimos de 60 para 72 meses

A dívida das famílias brasileiras subiu para um nível recorde. O governo tem uma ideia para ajudar: crédito consignado.

A presidente Dilma Rousseff assinou um decreto neste mês que torna mais fácil o uso de crédito consignado para refinanciamento de cartões de crédito.

Nos EUA, essas linhas de crédito ganharam má fama devido às tarifas altas e ao marketing duvidoso, mas no Brasil elas permitem que os tomadores de empréstimos consigam taxas de juros mais baixas em dois terços.

Isso não significa que o custo do dinheiro seja baixo -- pelo menos segundo os padrões internacionais.

Embora a dívida de famílias como porcentagem da renda ainda represente a metade da observada nos EUA, são as taxas de juros que estão preocupando analistas bancários e os órgãos de defesa do consumidor.

Nos EUA, os cartões de crédito cobram em média cerca de 15 por cento ao ano de juros. No Brasil -- onde o crédito formal ainda é um conceito relativamente novo para boa parte da população --, os consumidores pagam 85 por cento pelos cartões e 27 por cento pelos empréstimos consignados, diz o Banco Central.

“É muito crédito para pessoas que não possuem educação financeira e precisam pagar taxas de juros tão altas”, disse Diógenes Donizete, coordenador do núcleo de tratamento do superendividamento do Procon, o órgão de proteção e defesa do consumidor, em São Paulo.

Os empréstimos consignados são apenas mais um “excelente ingrediente para conseguir ainda mais pessoas superendividadas”.

A presidente Dilma, em um decreto de 13 de julho, ratificou que as instituições que oferecem crédito consignado permitam que os tomadores utilizem linhas de crédito equivalentes a 35 por cento da renda mensal, contra 30 por cento anteriormente.

A medida foi aprovada depois de um decreto, em setembro, ter ampliado o vencimento máximo dos empréstimos de 60 para 72 meses.

Dívida pesada
O aumento daquilo que para muitos é um último recurso em termos de linha de crédito ressalta como as dívidas ficaram pesadas para muitos brasileiros.

Com o aumento do desemprego e a escalada das taxas de juros, a dívida crescente das famílias ameaça piorar a crise de uma economia que já caminha para a pior recessão em 25 anos.

“Os salários dos trabalhadores estão caindo e a inflação está subindo e, ao mesmo tempo, menos pessoas têm emprego”, disse Rodrigo Melo, economista-chefe da Icatu Vanguarda Administração de Recursos.

“O estoque de crédito vai crescer só pelo efeito da alta dos juros, que continuam subindo.”

Crédito consignado
Entre os bancos brasileiros, geralmente o consignado é visto uma das linhas de crédito de menor risco, pois os pagamentos são descontados diretamente da folha de pagamento do tomador do empréstimo, disse Gilberto Tonello, analista do Grupo Bursátil Mexicano.

O Banco Bradesco SA, segundo maior banco da América Latina em valor de mercado, disse nesta quinta-feira que as provisões para empréstimos inadimplentes subiram 13 por cento no segundo trimestre em relação a um ano antes e que as dívidas atrasadas em 90 dias ou mais subiram 0,2 ponto porcentual, para 3,7 por cento.

O lucro ajustado ultrapassou as estimativas de margens mais amplas para empréstimos. O Bradesco é o primeiro banco brasileiro a informar seus resultados.

A dívida de famílias no Brasil como porcentagem da renda disponível inchou para 46,3 por cento em abril, nível mais alto ao menos desde 2005, ano em que o BC começou a monitorar os dados.

A dívida dos tomadores nos EUA caiu para 102,1 por cento, a mais baixa em 13 anos, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Além das altas taxas de juros, existe outra diferença fundamental que torna a dívida do Brasil mais preocupante: a qualidade dos empréstimos.

Enquanto 70 por cento dos empréstimos familiares americanos são hipotecas, no Brasil esse porcentual é de 32 por cento. E pedir recuperação judicial para sair de uma dívida esmagadora não é uma opção -- essa alternativa não existe para pessoa física no Brasil.

Dilma libera R$ 1 bilhão em emendas parlamentares (mas corta recursos da educação e saúde!)

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Presidente tenta acalmar deputados e senadores diante das crises política e econômica

(Evaristo Sá/AFP)
 Presidente Dilma Rousseff liberou verba para acalmar deputados
 e senadores que estão tendo dificuldade em obter verbas orçamentárias

Às vésperas do fim do recesso parlamentar, o governo autorizou a liberação de cerca de 1 bilhão de reais referente a restos a pagar de emendas parlamentares de 2014 e anos anteriores. A primeira liberação de recursos a parlamentares neste ano é uma tentativa do governo de acalmar deputados e senadores em meio às crises política e econômica, que devem ser acentuadas neste segundo semestre.

Haverá prioridade aos pagamentos de emendas parlamentares para compra de máquinas e equipamentos, mas as verbas para gastos com obras também serão contempladas. "Não tem nenhum milagre. O que tem, pura e simplesmente, é que o governo está cumprindo a Lei Orçamentária. A nossa esperança é que a base do governo se solidifique mais", disse o ministro Eliseu Padilha (Aviação Civil), que atua diretamente na articulação política do governo. "Queremos mostrar que, no embate político, temos que unir forças", afirmou.

Um líder partidário disse ao jornal O Estado de S. Paulo ter recebido telefonema do ministro das Cidades, Gilberto Kassab (PSD), para comunicar a liberação de emendas.

Durante o recesso parlamentar, deputados demonstraram indignação com a dificuldade em obter as verbas do orçamento. Eles dizem estar sendo pressionados por prefeitos em suas bases eleitorais que, às vésperas das eleições, não têm recursos para executar as obras.

Em outra frente para atender à demanda nos Estados, a presidente Dilma Rousseff reúne nesta quinta-feira, em Brasília, os 27 governadores em busca de ajuda para evitar a aprovação de gastos extras previstos em projetos do Congresso, a chamada "pauta-bomba" de despesas para a União, Estados e municípios.

Dilma também tentará dar um tom menos pessimista sobre o futuro da economia, mesmo em meio à crise aguda. Os ministros da área econômica devem apresentar dados mostrando que a economia pode começar a reagir já no fim deste ano e, apesar das dificuldades, há uma luz no fim do túnel.

Recuperação - 
Na reunião de coordenação política, na segunda-feira, o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa, apresentou a seus colegas da área política dados mostrando que há indícios de uma reação e uma recuperação real já no ano que vem. Na quarta-feira, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou, ao sair de uma reunião com empresários, que há sinais de boas notícias, como uma leve recuperação das exportações.

Dilma quer que os dois ministros façam a mesma apresentação aos governadores. A intenção é angariar apoio à medidas que estão sendo tomadas para tentar recuperar a economia e, indiretamente, à própria presidente, em uma tentativa de mostrar que há um projeto de governo e que Dilma é a garantia da solução para a crise econômica.

A presidente quer mostrar os caminhos que o governo está traçando para sair da crise, que há viabilidade política nas suas propostas e que todos podem se beneficiar deles, desde que mobilizem suas bancadas para aprovar projetos importantes na recuperação da economia e na repatriação de recursos.

O Planalto afirma que todos os governadores confirmaram presença na reunião desta quinta-feira, inclusive os de oposição - apenas no caso de Mato Grosso do Sul deve vir a vice, Rose Modesto (PSDB). Há, também um movimento, mesmo entre os tucanos, de ajudar o governo na tentativa de barrar novos gastos no Congresso para evitar um efeito cascata nos Estados - entre elas, a possibilidade de derrubada do veto ao reajuste do Poder Judiciário, que podia chegar a 78%.

Dilma deve pedir a cooperação dos governadores, por exemplo, para barrar o projeto que altera a correção do FGTS e o equipara à correção da poupança - uma das propostas do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) -, que está rompido com o governo.

Prestadoras de serviço de telecom já demitiram 450 mil

Karin Salomão 
EXAME.com 

Gregg Newton/Bloomberg
 Presidente do sindicato do setor calcula que cerca de 90% dos serviços
 das operadoras são prestados por empresas terceiras

As prestadoras de serviço para empresas de telecomunicações demitiram 450 mil pessoas desde o começo do ano, segundo sindicato do setor.

As demissões se acentuaram nos últimos quatro meses, afirmou Vivien Suruagy, presidente do Sinstal, Sindicato Nacional das Empresas Prestadoras de Serviços e Instaladoras de Sistemas e Redes de TV por Assinatura.

Essas empresas são terceirizadas para a prestação de serviços como call center, instalação de antenas, manutenção e instalação de fibra ótica e de banda larga, entre outros serviços na área de telecomunicações.

Vivien calcula que cerca de 90% dos serviços das operadoras são prestados por empresas terceiras. Então, tudo o que acontece com as operadoras de telefonia impacta diretamente na situação das terceirizadas.

Um dos maiores impactos que as operadoras sofreram foi o aumento da inadimplência do consumidor, avalia a presidente do sindicato. Além disso, por conta da crise, a venda de linhas celulares caiu e muitos cancelaram suas linhas fixas, afirma.

Por fim, outro obstáculo foram mudanças de métricas feitas pela Anatel entre 2013 e 2014. Vivien avalia que essas mudanças aumentaram os custos das operadoras, que demitiram milhares de funcionários das terceirizadas.

“Temos um quadro de demissões muito sério, precisamos estancar de alguma forma essa situação”, disse ela. “No fim, quem se prejudica é o consumidor, que recebe um serviço de pior qualidade”. 

Crise faz 1.280 lojas fecharem as portas no Rio

Thais Lobo e Clarice Spitz 
O Globo

Caso mais emblemático, segundo levantamento do Clube de Diretores Lojistas do Rio, é a Rua da Carioca, onde 33 dos 60 estabelecimentos comerciais encerraram atividades

Fernando Lemos / Agência O globo
 Loja fechada na Avenida Nossa Senhora de Copacabana 

RIO - Aluga-se, passo o ponto, liquidação para entrega de chaves, as placas são um indicativo da temperatura baixa pela qual passa o comércio varejista. De acordo com pesquisa do Centro de Estudos do Clube de Diretores Lojistas do Rio (CDLRio), baseado em dados da Junta Comercial do Estado, entre janeiro e maio deste ano mais de 1.280 estabelecimentos comerciais do município fecharam as suas portas. O número é 33% superior ao mesmo período do ano passado. Em todo o estado, foram extintas mais de 3.290 empresas, um aumento de 31% em relação ao mesmo período de 2014.

O aumento do preço dos alugueis aliado à queda das vendas e da atividade econômica, com inflação alta e desemprego, são, segundo o CDLRio, os principais fatores ligados ao fechamento dos pontos comerciais. Para Aldo Gonçalves, presidente da instituição, o quadro econômico tem afetado o comportamento do consumidor:

— A causa imediata do fechamento são os aluguéis muito altos. Mas, dentro de um cenário econômico, a situação não está nada favorável para as empresas, em especial o comércio. A inflação alta e o desemprego aumentando impacto o trabalhador, que não pode comprar. O crédito escasso é ruim para o comerciante na hora de comprar mercadoria e para o consumidor. No caso do Rio, há ainda as obras na cidade que têm afetado o público flutuante das lojas — apontou.

Do total de estabelecimentos fechados, 449 foram na Zona Norte, 363 na Zona Oeste, 239 na Zona Sul e 233 no Centro. O caso mais emblemático, de acordo com o levantamento, é a Rua da Carioca, onde 33 dos 60 estabelecimentos comerciais cerraram suas portas em menos de um ano devido a preços do aluguel, obras, mudanças de trânsito e falta de estacionamento.

— Estamos sentindo um pouco menos porque o Saara tem uma característica diferente de comércio de bairro. Mas algumas lojas sentiram mudanças nas vendas e fecharam. Desde 2009, os reajustes de imóveis tem sido leoninos. Muita gente não aguentou — afirma Denys Darzi, presidente do Polo Centro Rio, formado por 11 ruas onde se situam mais de 1,2 mil lojas e 600 escritórios em torno da Rua da Alfândega.

LOJAS DO CENTRO TIVERAM PREJUÍZO DE 35% NO CARNAVAL
Pesquisa do Polo Novo Rio Antigo, cuja abrangência inclui Lapa, Passeio Público, Cinelândia, Rua da Carioca, Largo de São Francisco, Largo Albino Pinheiro, Praça Tiradentes e Rua do Lavradio, mostra que nem mesmo o carnaval deste ano trouxe alívio ao comércio. O levantamento em parceria com a Uerj realizou consulta a 150 estabelecimentos e concluiu que 51% das casas apresentaram redução de faturamento em relação aos anos anteriores, com um prejuízo de 35%, em média.

— A Lapa não oferece a qualidade de negócios da Zona Sul, onde tudo é mais limpo e a segurança é maior. Aqui o empresário tem que gastar para suprir com a ausência do poder público. E ainda temos que lidar com a sazonalidade. Quam vende almoço no Centro, qualquer feriado mata — afirma Carlos Thiago Cesário Alvim, dono do Carioca da Gema e presidente do Polo. — Os vilões desde carnaval foram o comércio informal, a falta de mobilidade e a falta de informação sobre o roteiro do que ia acontecer nas ruas.

Fernando Lemos 
Galeria comercial no Leblon sofre com lojas fechadas 

Proprietária da loja de utensílios e objetos para casa “Toque”, Odete Carvalho fechou a unidade instalada há 41 anos no Leblon em janeiro passado depois que o movimento caiu de 80 clientes por dia para 20.

— Tentamos que a loja ficasse adimplente durante dois anos, mas não deu. Não foi só o metrô, mas também a alta do aluguel e a questão da segurança. O público passou a ter medo de andar na rua e com o surgimento do Shopping Leblon, migrou. Outra questão foi o mercado de noivas, que passou a optar mais por cotas de viagem em vez de lista de presentes — explica. — Foi difícil passar o ponto, inclusive. Lojista precisa de gente na rua para vender e o Leblon sofre com isso. Quem consegue sobreviver assim é farmácia e banco.

O economista e ex-presidente do IBGE Sergio Besserman Vianna avalia que o passo lento da economia tem mais peso na crise do varejo carioca. Ele lembra que a maior parte da economia do estado do Rio está centrada em serviços que agora se ressentem da crise no comércio varejista.

— Aqui tem uma concentração de funcionalismo público e aposentados que, em outros tempos, conseguiram pegar crédito consignado, mais fácil, e agora as famílias estão mais endividadas — afirma Besserman Vianna.

Besserman Vianna acha que no Rio o comércio varejista pode ter sido pego no contrapé com as expectativas excessivas em torno dos Jogos Olímpicos:

— Alguns lojistas podem ter aberto negócios, aberto uma franquia, achando que o Rio estava na moda, que vinham os Jogos Olímpicos e acabou sendo pego no contrapé, enquanto que no Brasil o contexto era mais volátil. Foi uma perspectiva não realista da economia.

O Barzinho, bar na Lapa do chef Fábio Battistella e do dj Rodrigo Penna, idealizador da festa Bailinho, foi fechado em 2013, no meio da Copa do Mundo, um “ato simbólico”, segundo Penna.

— Tive gás lacrimogêneo no bar, turista esfaqueado no quarteirão, enchentes constantes na Rua do Lavradio. Por dois anos deu certo, mas depois não teve como sustentar. Fechamos antes de aumentar o rombo e cair de qualidade. A falência do bar não foi empresarial, foi como cidadão — lamenta.

NO BRASIL, 3,2% DAS LOJAS FECHARAM ATÉ MAIO
Para o ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas, chefe da divisão econômica da Confederação Nacional do Comércio (CNC), o comércio varejista passa por um processo contínuo de piora nos indicadores que deve continuar até o fim do ano. O ano pode fechar com queda perto de 3%, pior resultado desde 2003.

Um número chama particular atenção da entidade. Houve o fechamento ou entrada para informalidade de 3,2% de lojas em todo o país nos 12 meses terminados em maio, a primeira queda desde 2005, segundo levantamento a partir de dados do Ministério do Trabalho. Os segmentos mais atingidos não por acaso são aqueles que mais têm apanhado com as vendas: em primeiro lugar concessionárias de carro, seguidas por lojas de móveis e eletrodomésticos.

Os estabelecimentos fechados acompanham a desaceleração das vendas. No mesmo período, as vendas no varejo ampliado, que inclui empresas de vestuário, material de construção, móveis e eletrodomésticos, caíram 5%.

No caso do Rio, cerca de 1,5% das lojas pararam de funcionar no mesmo período. É um movimento ainda mais intenso que o fechamento de 2014, quando 0,5% já tinham fechado as portas.

— As datas-âncoras têm sido um fracasso. As pessoas estão pagando juros mais altos, mais pela conta de luz, a inadimplência da Serasa está subindo muito. Só a conta de luz, quando é aumentada é como se tivesse subido o imposto. O comércio era um dos últimos bastiões e está jogando a toalha — afirma Freitas.

Brasil é campeão mundial absoluto em juros reais

João Pedro Caleiro 
EXAME.com 

Rodrigo_Amorim/Creative Commons

São Paulo - O Copom anunciou hoje uma alta de meio ponto percentual na taxa de juros básica da economia, a Selic, que foi de 13,75% para 14,25%.

Foi o sétimo aumento seguido, o sexto de meio ponto, o que levou a taxa para seu maior patamar desde 2006. Para os economistas, foi a última alta do ano.

A taxa de juros reais, que desconta dos juros nominais a inflação dos últimos 12 meses, está agora em 4,92%. É a maior do mundo, de acordo com um ranking com 40 países formulado pela Infinity Asset Manegement e o site MoneYou. 

Em seguida vem China (3,40%), Filipinas (2,77%) e Tailândia (2,60%). Em último estão Rússia (-3,30%), Argentina (-11,15%) e Venezuela (-28,97%).

A Selic vai demorar para cair, o que deve manter o Brasil em primeiro por um bom tempo: "somente um corte de 1 ponto percentual retira o país da atual posição", diz o relatório.

A média geral dentre 40 países é de -0,6% e em termos nominais, continuamos na terceira posição. Veja os 20 países do ranking e os juros reais em cada um (juros nominais menos a inflação dos últimos 12 meses):


País
Taxa
1
Brasil
4,92%
2
China
3,40%
3
Filipinas
2,77%
4
Tailândia
2,60%
5
Taiwan
2,45%
6
Polônia
2,32%
7
Grécia
2,30%
8
Índia
1,76%
9
Singapura
1,31%
10
África do Sul
1,24%
11
Coreia do Sul
0,79%
12
Hungria
0,75%
13
Malásia
0,73%
14
Israel
0,50%
15
Reino Unido
0,50%
16
Austrália
0,49%
17
Turquia
0,28%
18
Suíça
0,25%
19
Indonésia
0,22%
20
Estados Unidos
0,15%

Média
-0,60%

Juro do cheque especial atinge 241% ao ano, maior patamar desde 1995

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Depois do cartão de crédito rotativo, juros do cheque especial são os mais caros do mercado, segundo dados do Banco Central

(Beatriz Albuquerque/VEJA)
 Estoque de operações de crédito do sistema financeiro 
subiu 0,6% em junho ante maio e chegou a R$ 3,102 trilhões

Os juros do cheque especial subiram de 232% ao ano em maio para 241,3% ao ano no mês passado, o maior patamar desde dezembro de 1995, quando atingiu 242% ao ano, segundo dados do Banco Central (BC), divulgados nesta quinta-feira. Depois do cartão de crédito rotativo, os juros do cheque especial são os mais caros do mercado e registraram uma alta de 93,2 pontos percentuais nos últimos 18 meses.

No caso do cartão de crédito rotativo, os juros subiram para 372,0% ao ano em junho ante 360,5% de maio, uma elevação de 11,5 pontos porcentuais. No parcelado, ainda dentro de cartão de crédito, o juro aumentou 2,3 pontos de maio para junho, passando de 115,9% ao ano para 118,2% ao ano.

No geral, a taxa média de juros no crédito livre - que excluem financiamento de imóveis e rural - subiu de 42,5% ao ano em maio para 43,5% ao ano em junho. Com essa alta, a taxa volta a ser a maior taxa da série iniciada em março de 2011. Desde o início do ano, em todos os meses a taxa de juros tem sido recorde e batido a do mês anterior.

A alta dos juros bancários acompanha a elevação da taxa básica da economia. Nesta quarta-feira, o BC elevou a Selic de 13,75% para 14,25%. Desde outubro do ano passado, quando a Selic estava em 11%, o BC vem subindo os juros ininterruptamente.

Spread – 
O spread bancário médio no crédito livre subiu de 29,8 pontos porcentuais em maio para 30,7 pp em junho. O spread é a diferença entre os juros que os bancos pagam para captar dinheiro e o que cobram para emprestá-lo.

Estoque – 
Já o estoque de operações de crédito do sistema financeiro subiu 0,6% em junho ante maio e chegou a 3,102 trilhões de reais. No primeiro semestre do ano, houve alta de 2,8% e, em 12 meses até junho, de 9,8%.

Houve aumento de 0,6% para pessoas jurídicas e alta de 0,7% para o consumidor no mês. De janeiro a junho, a alta está em 2,0% para as empresas e em 3,7% para a pessoa física. No caso do período de 12 meses encerrados no mês passado, as taxas são de crescimento de, respectivamente, 8,9% e 9,8%.

O BC informou ainda que o total de operações de crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) passou de 54,4% em maio para 54,5% no mês passado.

Catta Preta diz que se sentiu ameaçada por CPI

Veja online

Advogada que negociou a maioria das delações dos réus da Lava Jato afirma que se sentiu intimidada pelo Congresso e que decidiu abandonar a carreira

(Reprodução/TV Globo)
 A advogada Beatriz Catta Preta durante entrevista ao 'Jornal Nacional'

Uma semana depois de renunciar misteriosamente à defesa de réus do petrolão, a advogada Beatriz Catta Preta quebrou o silêncio. Em entrevista ao Jornal Nacional, da Rede Globo, ela afirmou que decidiu deixar a advocacia e atribuiu sua saída do caso à intimidação feita por integrantes da CPI da Petrobras que tentaram convocá-la para prestar depoimento. Ela não citou nomes de políticos, mas admitiu que a pressão aumentou consideravelmente depois que o lobista Julio Camargo arrastou o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), para o centro do escândalo.

"Depois de tudo o que está acontecendo e por zelar pela minha segurança e dos meus filhos, decidi encerrar minha carreira. Eu fechei o escritório", afirmou.

Representante da empresa Toyo Setal, Julio Camargo deu uma nova versão às autoridades na qual apontou Eduardo Cunha como destinatário de 5 milhões de dólares do propinoduto que sangrou a Petrobras. Camargo era um dos nove clientes de Catta Preta que negociaram acordos de delação premiada em troca de eventual redução da pena. O deputado nega.

A advogada negou ter recebido ameaças diretas, mas afirmou que "elas vêm de forma velada, cifrada". O autor do requerimento para convocá-la na CPI foi o deputado Celso Pansera (PMDB-RJ), classificado pelo doleiro Alberto Youssef como um "pau mandado" do presidente da Câmara.

Mas por que só agora Julio Camargo resolveu mudar seu depoimento e complicar Eduardo Cunha? "Ele tinha medo de chegar ao presidente da Câmara", respondeu a advogada. "A fidelidade da colaboração, um colaborador não pode mentir. Isso o levou a assumir o risco e levar todos os fatos aos procuradores."

Catta Preta negou ter "fugido" do país ou estar de mudança para os Estados Unidos. "Eu estava em férias, costumo viajar. Nunca cogitei fugir do país", disse.

O significado do avanço da Lava-Jato

Editorial
O Globo

A ampliação das investigações de casos de corrupção para o setor elétrico comprova que, em governos lulopetistas, desvios em estatais passaram a ser sistêmicos

Irônico e arrogante, o tesoureiro do PT Delúbio Soares profetizou que o mensalão viraria uma “piada de salão”. Não virou, e ele continua a cumprir pena de mensaleiro condenado. Há outro tesoureiro do partido, detido como já esteve Delúbio: João Vaccari Neto, preso devido ao petrolão, o assalto à Petrobras em dimensões muito maiores ao do que foi praticado no Banco do Brasil pelo mensaleiro Henrique Pizzolato, trancafiado na Itália, à espera da definição sobre sua extradição para o Brasil.

Não é coincidência que os dois golpes tenham nascido no PT, e até transcorrido de forma paralela. No petrolão, um dos beneficiários do regime de delação premiada, o gerente da estatal Pedro Barusco, corrupto confesso, disse, na CPI da Petrobras, que a diferença entre roubos na estatal no governo tucano e na Era PT é que a corrupção na empresa, depois da posse de Lula, em 2003, ganhou método, passou a ser sistêmica.

Os desdobramentos da Lava-Jato no setor elétrico confirmam o depoimento de Barusco, um especialista, pois ele roubou na Petrobras quando os tucanos estavam no Planalto e com o PT no poder. Constatou, digamos, por dentro, as diferenças.

A extensão da Lava-Jato começa a confirmar a suspeita de que, além de sistemática, a prática de desvio de dinheiro para partidos (PT, PMDB, PP e outros) e bolsos privados se generalizou em canteiros de obras de estatais. Pode-se dizer, houve um PAC da corrupção, um subterrâneo paralelo ao Programa de Aceleração do Crescimento.

Em recente entrevista à “Folha de S.Paulo”, o deputado Miro Teixeira (PROS-RJ) lembrou que, na condição de ministro das Comunicações de Lula, em 2003, no início do governo, esteve numa reunião, em companhia do também ministro Antonio Palocci, para discutir formas de se obter apoio parlamentar ao Planalto. Segundo Miro, venceu a posição “orçamentária”, ou seja, a defesa de que literalmente se comprasse o apoio. Não revelou os outros participantes da conversa.

E assim foi feito, comprovam o mensalão e o petrolão. Numa escala tal que, tudo indica, a intenção deixou de ser o azeitamento de votos no Congresso, mas a sustentação indefinida do projeto de poder do lulopetismo. Isso custa caro, constata-se hoje nas estimativas de quanto foi surrupiado da Petrobras.

Da operação policial feita na Eletronuclear resultou a prisão do presidente licenciado da estatal, vice-almirante Othon Luiz Pacheco da Silva, engenheiro responsável pelo chamado programa nuclear paralelo. Ele teria recebido propinas de empreiteiros em função das obras da usina nuclear de Angra 3.

As investigações começaram com a delação premiada do ex-presidente da Camargo Corrêa, Dalton Avancini, sobre corrupção na estatal. Esta vertente da Lava-Jato parece promissora, porque o grupo Eletrobras — também sob investigação nos EUA — é formado por 15 empresas, donas de ativos e obras bilionárias. São precondições para novas histórias escandalosas.

Novo delator, Mário Goes disse que fez pagamentos na Suíça a ex-gerente da Petrobras

Germano Oliveira, Tiago Dantas e  Cleide Carvalho
O Globo

Comissões seriam divididas entre Pedro Barusco, Renato Duque e ao PT

Givaldo Barbosa / Arquivo O Globo
 O ex-gerente de Serviços da Petrobras Pedro Barusco  

SÃO PAULO — Em seu primeiro depoimento como resultado do acordo de delação premiada firmado com o Ministério Público Federal, realizado nesta terça-feira, na sede da Polícia Federal do Paraná, o lobista Mário Frederico de Mendonça Goes, dono da Rio Marine, disse que fez pagamentos de propinas ao ex-gerente da Petrobras, Pedro Barusco. O pagamento foi realizado por meio de suas contas Maranelle e a Phad, no Banco Safra, da Suíça. O dinheiro era obtido de contratos entre a Petrobras e grandes empreiteiras brasileiras, como a Andrade Gutierrez. As comissões pagas a Barusco por Mário Goes eram divididas com o ex-diretor da área de Serviços da Petrobras, Renato Duque, e com o PT, segundo revelou Goes aos investigadores da Força Tarefa da Operação Lava-Jato.

O novo delator disse que foi procurado pela primeira vez por Barusco para propor a divisão de propinas, no início dos anos 2000, mas a parceria começou a se efetivar em 2003 e 2004, quando o funcionário da Petrobras passou a atuar como gerente executivo da diretoria de Serviços, dirigida por Duque.

— Barusco me disse que Duque gostava mais de jantares, cabendo a ele resolver as coisas (divisão de propinas). Ele disse isso na presença do Ricardo Pessoa, da UTC. E me tranquilizou dizendo que haveria outras pessoas envolvidas no esquema e que o Partido dos Trabalhadores estaria dando algum tipo de suporte a essa atividade — disse Mário Goes.

A primeira operação feita por Goes com Barusco foi a ligada ao Consórcio PRA-1, integrado pela Odebrecht e UTC. Esse consórcio repassou, em 2004, R$ 1,533 milhão para a Jamp Engenheiros Associados, de Milton Pascowitch. Da parte da Jamp, R$ 1,4 milhão foi transferida para a empresa de consultoria do ex-ministro José Dirceu. O mesmo valor foi repassado para a Rio Marine, de Mário Goes, que transferiu o dinheiro para a conta Maranelle na Suíça.

O dinheiro que entrava na conta Maranelle, segundo Goes, era dividido por seis ou sete partes: duas partes eram para Renato Duque, duas para Barusco, uma para o próprio Mário Goes, e a sexta parte era dividida no percentual de 60% para Barusco e 40% para Goes. “Quanto à sétima parte, não sei a quem se destinava”. Mário Goes disse que a parte do PT ele “preferia não saber” como era paga.

A conta Maranelle foi aberta no Banco Safra da Suíça por Denise Kos, uma brasileira que morava naquele país europeu. Denise controlava os depósitos na conta e destruía os extratos. A conta, de acordo com Goes, recebeu recursos da construtora Andrade Gutierrez, por meio da Zagope, uma das empresas do grupo em Portugal.

DOCUMENTOS DESTRUÍDOS
No depoimento, Mário Goes disse que o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco possuía um controle das obras e dos pagamentos que deveria receber. Os documentos foram destruídos ano passado, quando começaram as investigações de contratos da SBM com a Petrobras. Segundo o delator, Barusco “estava preocupado com o fato da investigação sobre a SBM ampliar-se para o Brasil e vir a atingir outras operações realizadas por ele”.

Goes afirmou aos investigadores que teve seu primeiro contato com executivos da Andrade Gutierrez em 2006, quando Barusco pediu para ele cobrar uma propina que estava atrasada. Seu primeiro contato na empresa foi com o executivo Antonio Pedro Campello, que chegou a efetuar pagamentos em dinheiro vivo para Goes. O operador diz que recebeu três visitas de Campello em sua residência para levar de R$ 100 mil a R$ 200 mil. Ele afirmou que pegou dinheiro no prédio da Andrade, em São Paulo, e que Campello já o acompanhou até Bragança Paulista e o Rio de Janeiro para levar pacote de dinheiro.

O novo delator diz que a decisão de pagar propina não era uma iniciativa de Campello e, em suas palavras, “se tratava de uma decisão empresarial”. Ele diz que nunca perguntou isso ao seu contato porque “era um tema que lhe causava um certo desconforto”.

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Família Góes vende cavalos para quitar dívidas com tratadores e haras