domingo, agosto 02, 2015

Terá valido a pena vencer, Dilma Rousseff?

Adelson Elias Vasconcellos



Desde de sua reeleição, Dilma Rousseff parece mergulhada num inferno astral de alta voltagem. De fato, o Brasil que se seguiu, vem se desfazendo como se o castelo erguido desde 2003 tivesse alicerces de areia. 

Não foi por falta de aviso, claro.  Desde 2006, estamos alertando para o fato de o governo aumentar perigosamente as despesas muito além de suas receitas. Crescem acima da inflação, acima do próprio PIB. Não há milagres em situações assim. De um lado, você começa cortando investimentos, o que já vem sendo feito há alguns anos. Não há PAC que dê jeito. Depois, você corta em programas e serviços essenciais como saúde, segurança, educação. Mesmo aqui há, contudo, limites para a tesourada.  Como o governo teima em não ver sua própria adiposidade, seus excessos, suas extravagâncias, seu desperdício voluptuoso, acaba que ele começa a fase dos empréstimos e, quando se dá conta, lá estamos nós comprometendo boa parte do orçamento apenas para bancar o serviço da dívida. Com o orçamento cada vez mais comprimido, poupa-se pouco, cada vez menos e a dívida começa a se espichar mais e mais. 

Tudo isso vem sendo dito de forma clara, explícita, sem espaços para contestação. Porém, o governo Dilma mergulhou numa fantasia. Acha que o Brasil de sua propaganda é o Brasil real. Não é. Durante algum tempo, boa parte do eleitorado mergulhou nesta sonolência, em que sonhava viver no Brasil do marketing. 

Mesmo antes de começar a campanha eleitoral de 2014, a economia brasileira já se arrastava, cambaleando sem rumo, sem um projeto minimamente coerente com a sua realidade e necessidade. Basta ver o quanto o PIB, desde 2011, vem caindo ano a ano. Nem com as maquiagens e pedaladas promovidas por sua equipe econômica era possível esconder o fato de que, em 2015, o país precisaria apertar o cinto. Todas as nossas dificuldades atuais estavam plantadas desde 2010, quando Dilma se elegeu pela primeira vez. Para que isto acontecesse, Lula abriu as torneiras da gastança desenfreada, o que exigiria de um gestor público que o sucedesse uma freada no primeiro ano. Dilma, subiu nas tamancas e disse que ajuste fiscal era coisa do passado, coisa de tucano. E mandou ver nos quatro anos seguintes. 

As tais pedaladas fiscais já eram sintoma de que o governo buscava, na maquiagem e no improviso, esconder do país a verdadeira face de uma economia desajustada, sem base para crescer, sem oxigênio para enfrentar os desafios de um país continental. 

Nas manifestações de junho de 2013, pela primeira vez, viu-se um povo que começava a despertar de seu torpor, deparando-se com uma realidade muito diversa do discurso oficial. 

Dilma, teimosa como mula empacada, passou quatro anos justificando o baixo crescimento e a inflação fora do centro da meta,  com uma crise externa que já não existia. Nesta edição, o leitor pode confrontar: a exceção de Brasil, Argentina, Venezuela e Rússia, o restante do mundo vai bem, obrigado.   Todos estão crescendo, uns mais, outros menos, mas crescendo. Então, que diabos de crise externa é essa que atinge apenas os medíocres? 

Vendo que a paranoia da tal “crise externa” não colava mais, Dilma, nesta semana, na reunião com os governadores, mudou o discurso. Agora, é o preço das commodities e o câmbio os vilões das nossas dificuldades. E, de novo, Dilma parece desconectada do país que imagina governar. Primeiro, mesmo com os preços em queda das commodities, não fosse pela agropecuária que há anos segura o rojão, e nós já estaríamos mergulhados em profunda recessão.  Quanto ao câmbio, coitado, pode até estar acima do “ideal”, mas isso se dá pelo risco Brasil. Na verdade, os governos petistas navegaram muito bem num câmbio irreal, ou o amigo acreditava que o dólar valia mesmo R$ 1,56 como chegou a acontecer? Perguntem para os industriais de manufaturados o que lhes aconteceu com este dólar maquiado!!!

Depois de tanta mediocridade, plantada com esmero durante muitos anos de desmandos e improvisos, uma hora a conta chegaria e chegou. E, como acontece sempre, adivinha quem paga a fatura? E quem sofre mais com o aperto, senão os mais pobres?

Se formos observar  nossos indicadores econômicos, perceberemos que o país voltou  à fase pré-real. E o que é pior: sem o comando necessário para livrar-nos do mal, amém. 

Dilma mentiu o quanto pode na campanha, fez o diabo e mais um pouco para ganhar a reeleição. Não estava nos seus planos ter de enfrentar três crises simultâneas: econômica, política e de credibilidade. A saída seria aplicar um duro ajuste fiscal, a começar pela estrutura mastodôntica do próprio Palácio do Planalto e levar adiante um plano de desenvolvimento mínimo. Mas qual? Alguém se lembra dela haver apresentado algum projeto de país durante a campanha? Não apresentou.  

As dificuldades que a senhora Rousseff está enfrentando são obras exclusivamente suas. Ninguém a obrigou a mentir para o eleitorado, ninguém a obrigou a maquiar a situação fiscal,  ninguém a obrigou aplicar um estelionato eleitoral único na história do Brasil, ninguém a obrigou a jogar no lixo o esforço de quase 20 anos em busca de uma estabilidade econômica que nos assegurasse um desenvolvimento longo, sustentável e virtuoso. 

E se tudo isso não bastasse, apesar de eleita legitimamente, pode, pelas vias legais, ser apeada do poder antes de sua conclusão. Até acho que o PT compra sua continuidade, seja no Congresso, no TCU e no TSE. Mas, fica, então, a pergunta: valeu a pena empenhar a alma ao diabo para ganhar a reeleição? 

Mesmo que venha recuperar a sanidade das contas públicas, mesmo que consiga colocar a inflação no centro da meta, o tempo que dispensará  para tanto consumirá praticamente todo o seu mandato, não lhe sobrando quase nada para comemorar. Sairá do poder para a história como uma das mais medíocres presidentes que este país já teve. Talvez hoje, com tantos furos para tapar, não lhe sobre tempo para refletir. Mas, um dia, já longe da presidência, Dilma concluirá que empenhou sua alma a troco de nada.  E é bom rezar para que a Lava Jato não encontre suas digitais nos "mal feitos" do setor elétrico.  

Lobo ou cordeiro?

Fernando Henrique Cardoso
O Estado de São Paulo

Tardiamente, círculos petistas se lembraram de que talvez fosse oportuno conversar com os tucanos
Passei três semanas de julho na Europa, entre o trabalho (pouco) e o descanso (a que reluto a me entregar). Ainda agora escrevo da Sardenha. Caminhando pelos pequenos portos da ilha, assim como pelos da Córsega, sentindo a placidez que ainda hoje envolve a vida dessa gente, não pude evitar a nostalgia pelo nunca vivido por nós metropolitanos.

Nostalgia e inveja, mesmo sabendo, pela leitura apaixonante de Fernand Braudel, cujo livro sobre o Mediterrâneo carrego comigo, que a placidez atual mal esconde as agitações do passado, quando sarracenos, fenícios, normandos, gregos, romanos e toda gama de diferentes povos lutavam pela conquista do Mare Nostrum.

As marcas de tudo isso estão esculpidas nos fortes, torres e casamatas que se espalham pela região, quando não pelas correntes que fechavam literalmente a entrada do porto de Bonifácio, uma fortificação erguida pelo Papa Bonifácio II, incumbido da defesa da Córsega, no final do século IX.

Naqueles tempos não havia o furor pela informação em tempo real. É verdade que a notícia de um ataque pirata a uma localidade entre Gênova e Split chegava a Nápoles em três horas, graças aos fogos que, nessas ocasiões, encarregados acendiam nas torres ao longo da costa de Portofino. Mas nenhuma informação, por certo, cruzaria rapidamente o Mediterrâneo de Chipre a Gibraltar, muito menos dali à costa brasileira do outro lado do Oceano Atlântico.

Hoje, não passa dia ou noite sem que o celular ou o e-mail perturbe a paz do pretendente ao sossego. Não há notícia, boa ou má, relevante ou não, que as tecnologias atuais e a ansiedade por comunicar “novidades” não façam chegar de imediato a quem deseje ou não dela saber.

Assim, tive minha tranquilidade entrecortada, não pela agitação dos mares, mas pelo lento e contínuo noticiário sobre o desmoronar de muito do que se construiu a partir da Constituição de 1988 no Brasil. A desagregação vem de longe, mas parece ter ricocheteado com mais força no mês de julho. Tornou-se claro para a opinião pública que a crise atual nada tem a ver com a “lá de fora”, e que ultrapassa o ridículo insistir em que a culpa é do FHC.

Tornou-se óbvio que há um acúmulo de crises: de crescimento, de desemprego, de funcionamento institucional, moral, de condução política. Tardiamente, círculos petistas se lembraram de que talvez fosse oportuno conversar com os tucanos… Parece a história do abraço do afogado. Calma, minha gente, há tempo para tudo. Há hora de conversar, hora de agir e hora de rezar.

Na ocasião da viagem que a presidente Dilma e os ex-presidentes fizemos juntos à África do Sul, em dezembro de 2013, para assistir ao funeral de Mandela, disse a todos que a descrença da sociedade no sistema político havia atingido limites perigosos.

Ainda não era possível antecipar o tamanho da crise em gestação, mas não restava dúvida de que o país enfrentaria dificuldades econômicas e que essas seriam ainda maiores se as suas lideranças políticas não dessem resposta ao problema da legitimidade do sistema político.

Disse também que todos nós ali presentes, independentemente do grau maior ou menor de responsabilidade de cada um, deveríamos nos entender e propor ao país um conjunto de reformas para fortalecer as instituições políticas. A sugestão caiu no esquecimento.

Naquela ocasião, como em outras, a resposta do dirigente máximo do PT foi, ora de descaso, ora de reiteração do confronto, pela repetição do refrão autorreferente de que antes dele tudo era pior. Para embasar tal despautério, o mesmo senhor, no afã de iludir, usou e abusou de comparações indevidas.

Mais uma vez agora, sem dizer palavra sobre a crise moral, voltará à cantilena de que a inflação e o desemprego de hoje são menores do que em 2002, omitindo que, naquele ano, a economia sofreu com o medo do que poderia vir a ser o seu governo, um sentimento generalizado que, em benefício do país, meu governo tratou de atenuar com uma transição administrativa que permitiu ao PT assumir o poder em melhores condições para governar. Sobre a crise de hoje, nenhuma palavra...

Perguntado por uma repórter sobre se o ex-presidente Lula me havia enviado emissários para abrir um diálogo, respondi que ele não precisa de intermediários para isso, pois tem meus telefones. E condicionei o eventual encontro: desde que seja para uma discussão de agenda de interesse nacional e pública. Por que isso?

Porque não terá legitimidade qualquer conversa que cheire a conchavo ou, pior, que permita a suspeita de que se deseja evitar a continuidade nas investigações em marcha, ou que seja percebida como uma manobra para desviar a atenção do país do foco principal, a apuração de responsabilidades.

Será que chegou o tempo de rezar pela sorte de alguns setores da vida empresarial e política? Talvez. Mas a hora para agir já não é mais, de imediato, do Congresso e dos partidos, mas, sim, da Justiça. Essa constatação não implica dizer um “não” intransigente ao diálogo.

Decidam a Justiça, o TCU e o Congresso o que decidirem, continuaremos a ter uma Constituição democrática a nos reger e a premência em reinventar nosso futuro. Tomara que as aflições pelas quais passam o PT e seus aliados lhes sirvam de lição e os afastem da arrogância e do contínuo desprezo pelos adversários, até agora tratados como inimigos.

É hora de reconhecerem de público que a política democrática é incompatível com a divisão do país entre “nós” e “eles”. Para dialogar, não adianta se vestir em pele de cordeiro. Fica a impressão de que o lobo quer apenas salvar a própria pele.

Mais ainda, passou da hora de o lulopetismo reconhecer que controlar a inflação e respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal nada têm a ver com neoliberalismo, senão que são condição para que as políticas sociais, tanto as universais como as específicas, possam ter efeitos duráveis.

Em suma, cabe aos donos do poder o mea-culpa de haver suposto sempre serem a única voz legítima a defender o interesse do povo.

O dono da oca

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


Juruna com seu gravador, dando entrevista

Juruna, o selvagem cacique xavante que até os 18 anos flechava avião voando baixo em Barra do Garças,estava comovendo o país, de gravador na mão, provando que em Brasília “governo de branco mente”.

Juruna ficou indignado com o representante da Funai em Mato Grosso, que o enganou, e contou a um pastor que ia matá-lo e fugir para o Paraguai. O pastor ligou para Darcy Ribeiro, que sugeriu que levasse Juruna urgente para o Rio. E pediu a Lysaneas Maciel e a mim para recebermos o cacique no Galeão.

Fomos e o levamos para o apartamento de Brizola, em Copacabana, onde Brizola e Darcy nos esperavam. Juruna entrou e ficou em pé, com aquele tamanhão, o cabelo tosado, calado… Darcy convidou-o a sentar-se. Juruna não se sentou e ficou olhando solene para Brizola.

Darcy disse a Brizola que ele não se sentou porque esperava uma ordem do dono da casa. Brizola falou, ele sentou-se. Brizola pensou em lançá-lo para o Senado, lançou para deputado, elegeu-se e foi tragado pela visceral corrupção política do “homem branco”.

Quando saímos do apartamento de Brizola para levar Juruna a um pequeno hotel em Copacabana, perguntei ao cacique porque ele não se sentou ao chegar à casa de Brizola.

– É a lei.

E nada mais disse. Pela lei do índio quem manda é o dono da oca.

SUPREMO
No Brasil, nos países democráticos, a “oca” é o Supremo Tribunal. O STF é a lei. Até chegar a ele, a sociedade tem numerosos degraus legais: delegados, procuradores, juízes, tribunais intermediários. Mas só o Supremo manda sentar-se e levantar-se, dá a palavra final.

Aquelas 11 togas ali sentadas é que abençoam ou amaldiçoam uma lei. Elas são a voz, a garganta da Constituição. Há meses o bravo e sereno juiz Sergio Moro, o hábil procurador Janot, a Policia Federal dão ao pais o magnífico exemplo de cumprimento do dever conduzindo a Operação Lava Jato. Agora, chegará tudo ao Supremo. Ele vai comandar a lavagem final.

Com a palavra os donos da oca.

HISTÓRIA
O professor e ex-deputado Helio Duque, sempre patrioticamente atento ao que acontece no pais, relembra a historia do Supremo:

– D. João VI, em 1808, desembarcou com sua comitiva real no Rio de Janeiro e imediatamente instalou o principal órgão da Justiça Nacional: a Casa de Suplicação do Brasil. Em Portugal, a corte suprema tinha o nome de Casa da Suplicação. Essa é a origem histórica do STF (Supremo Tribunal Federal). Uma casa de Suplicações ou de Suplícios?

– No Império e na República o Supremo sempre foi o guardião da Constituição, mas nas ditaduras o perfil da Corte sofreu reveses. Em 1968, com o AI-5, foram cassados os ministros Hermes Lima, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva. Em reação à violência, os ministros Gonçalves de Oliveira, presidente do STF, e Antonio Carlos Lafayette de Andrada renunciaram em solidariedade aos ministros vítimas da violência.

– No governo Castelo Branco, o ministro Ribeiro da Costa, presidente do STF, advertia: “Pretende-se atualmente fazer com que o Supremo dê a impressão de ser composto por onze carneiros que expressam debilidade moral, fraqueza e submissão.”

SARNEY
Vozes cavernosas e de um passado triste já começam a desavergonhadamente se manifestar. O notório José Sarney, que sempre sabe do que e por que está com medo, acusa:

“O Sergio Moro sequestrou a Constituição e o país. O Supremo Tribunal Federal não pode se apequenar”.

Em artigo o juiz sugere que Sarney é mafioso: “Quem, em geral, vem criticando a colaboração premiada é aparentemente favorável à regra do silêncio, a omertà das organizações criminosas”.

NO MUNDO
A duração dos mandatos varia de pais para pais. No Brasil, agora, os ministros dos tribunais superiores têm mandato até os 75 anos, como os demais servidores públicos. Na Alemanha, no Tribunal Constitucional, os ministros têm mandato de 12 anos. Na França, 9 anos. Na Itália, também 9 anos, como na Espanha. À exceção dos EUA e outros poucos, são raros os mandatos vitalícios.

A “vanguarda do atraso” (como o saudoso Fernando Lyra chamava Sarney) vem conspirando para derrubar, nos tribunais, a “Operação Lava Jato”, acreditando que a vitaliciedade poderá ser uma aliada na impunidade geral e irrestrita dos delinquentes.

A oca vai dizer se os tempos mudaram no Brasil.

Os outros cálculos

Míriam Leitão
O Globo

A Operação Lava-Jato afetou o PIB? Talvez. Mas, antes de fazer uma afirmação numérica tão exata, a presidente Dilma Rousseff poderia calcular com a mesma métrica os eventos que precederam a Lava-Jato. Qual foi o custo para o PIB dos desvios da Petrobras? Qual foi o tamanho do peso para o contribuinte do sobrepreço nas obras e das propinas das empresas aos políticos e aos partidos da base?

Há muitas contas a fazer. Quanto custou a política de campeões nacionais do BNDES? Quanto foi retirado dos cofres públicos com os programas de subsídios a setores empresariais? Quanto custou a “Nova Matriz Macroeconômica” implantada em seu primeiro governo? Qual foi o custo exato da política energética imposta pela MP 579? Quanto a Petrobras teve de prejuízo com a intervenção no sistema de preços para subsidiar o combustível fóssil?

A presidente Dilma deveria parar e fazer estas contas porque isso a ajudaria a não repetir alguns dos muitos erros que cometeu no primeiro mandato e que estão na raiz do encolhimento do PIB este ano. Por causa da tal “Nova Matriz”, o país está em recessão, com taxa de inflação chegando perto de dois dígitos, e com dez pontos percentuais do PIB a mais de dívida interna.

Quem olha a trajetória dos indicadores fiscais, de dívida, crescimento e inflação conclui necessariamente que foi por má condução da política econômica que se chegou ao ponto em que estamos. Nem o mundo é o culpado, como a presidente repetiu durante a campanha. Nem a Operação Lava- Jato está agora tirando o crescimento em exato um ponto percentual do PIB, como afirmou a presidente em reunião com seus ministros.

Primeiro, como todo brasileiro já entendeu, a Lava- Jato é tratamento contra a doença. Não é culpada pela doença que trata. Segundo, não dá para dizer que foi a investigação das irregularidades na Petrobras que reduziu os investimentos. O que exauriu os cofres da estatal e aumentou seu endividamento foram os altos custos da corrupção e da má administração de projetos e negócios como a Refinaria Abreu e Lima, o complexo petroquímico Comperj, as refinarias abandonadas, Premium I e II, Pasadena, associados à política de preços. A Lava-Jato nos fez o enorme favor de estancar essa sangria e forçar a empresa para políticas mais transparentes.

Há um custo em paralisia de alguns projetos de infraestrutura, por causa da prisão de empreiteiros. Talvez haja, sim. Mas qual seria o preço, como perguntou o juiz Sérgio Moro, recentemente, de se tocar as obras superfaturadas, com acordo entre empreiteiras, com o pagamento de propinas aos políticos e aos partidos? Isso sem falar em custos intangíveis.

Há também a incapacidade administrativa de projetos. Na última terça-feira, 28, o “Valor Econômico” publicou dados conseguidos pela Lei de Acesso à Informação mostrando que quase nada foi executado dos bilhões de investimentos em mobilidade urbana que estavam no plano logístico lançado em 2012 ou nas promessas aos governadores feitas após as manifestações de junho de 2013. Mesmo antes da Lava-Jato, esses investimentos não estavam acontecendo.

Quanto a crise energética tirou do PIB? Essa é outra conta que deveria ser feita pela presidente. Foi ela que planejou, anunciou, comemorou e usou como propaganda eleitoral a intervenção no setor. As distribuidoras quebraram e tiveram que ser socorridas inicialmente pelo Tesouro e depois por empréstimos de emergência que foram pagos pelos consumidores. As geradoras estão encalacradas. As famílias enfrentaram um gigantesco tarifaço que reduziu a renda disponível e elevou a inflação.

Quanto custou aos bancos públicos transferir para eles o preço do pagamento de programas sociais que são obrigações orçamentárias? A Caixa acaba de informar que os atrasos chegaram a 21 meses e ao valor de R$ 34 bilhões. O país está em recessão este ano e com inflação alta. Os juros, que subiram ontem novamente, são dos maiores do mundo. Nada disso é por causa da Lava-Jato. Na raiz dos problemas está a má gestão da política econômica. As ações da Polícia Federal, do Ministério Público e da Justiça Federal no Paraná abrem a preciosa chance de um crescimento do PIB com mais qualidade no futuro. É isso que conta.

Abandono da meta de superávit é confissão de derrota

J.R. Guzzo 
Revista EXAME 

David Paul Morris/Bloomberg
Dilma Rousseff: 
os discursos sobre economia da presidente têm sido incoerentes e sem nexo

São Paulo — Lembram-se do superávit primário? Sim, ele mesmo, o bom e velho superávit primário, que o governo deveria conseguir neste ano para atenuar a de¬generação das contas públicas — resultado direto da macumba econômica tão ao gosto da presidente Dilma Rousseff, que passou todo o seu primeiro mandato acreditando nas virtudes do aumento eterno de gastos sem cobertura.

Pois é: o superávit, que provocou tanto choro e ranger de dentes no mundo oficial, dançou. Após seis meses de palavrório vazio, declarações contraditórias e trapaça pura e simples, a verdade enfim acaba de aparecer — não vai haver economia nenhuma nas despesas do governo em 2015, e também é bom não ficar contando com sobras de verdade para o futuro mais próximo.

Volta-se, assim, ao ponto onde não se começou nada. O esforço para reduzir gastos e aliviar o crescimento da dívida, anunciado com altos propósitos em janeiro, foi se desmilinguindo ao longo do ano, diante da ira que despertou nas alas “esquerdistas” do PT, nas centrais sindicais controladas pelo poder público e em parte do próprio governo Dilma.

A meta do superávit para 2015, ultimamente, andava reduzida a 1,2% do PIB, ou cerca de 65 bilhões de reais. Mas agora ficou decidido que não sobrará nem mesmo esse dinheirinho. Em seu mais recente pronunciamento à nação, as autoridades econômicas informaram que a meta foi reduzida a um décimo do que era prometido. Agora é o equivalente a 0,15% do PIB, ou pouco acima de 8,5 bilhões de reais — uma miséria que não dá para pagar nem 45 dias de juros da dívida pública.

Ficamos assim, então: o Brasil pagaria pelo “ajuste” com uma “recessão brutal”, no linguajar dos opositores; agora vamos ter a mesma recessão, calculada em 2% do PIB deste ano, e não haverá ajuste nenhum. Em vez de apenas uma coisa ruim, agora haverá duas. O argumento, se argumento houver, é que não adiantava nada falar em economia de 65 bilhões, ou sabe-se lá quanto, quando já está praticamente definido que o governo não vai conseguir chegar nem perto disso.

Mas a coisa certa, nesse caso, não seria fazer o necessário para completar a meta? Trabalhar mais, em vez de correr da raia? Nem pensar. Mais uma vez, o comando do país se entrega à sua estratégia preferida: se o objetivo ficou difícil, abandona-se o objetivo. Esse método de gestão pode até parecer esperto, pois ao fim do ano os barões de Brasília sempre terão um jeito de dizer que cumpriram o que estava previsto.

Mas na vida real é apenas uma confissão de derrota — mais uma. Quantas outras estão na fila? Os sinais são ruins. A ideia de buscar o superávit, bem ou mal, era a única demonstração de vida inteligente no atual governo; parecia, pelo menos, que havia ali alguém capaz de ter um conceito qualquer. Sem isso, apenas se reforça a impressão de que ninguém sabe o que está fazendo.

Não existe registro, nestes últimos seis meses — o tempo corrido desde o começo do segundo mandato de Dilma —, de nenhum pronunciamento da presidente da República sobre a economia que tivesse um mínimo de coerência. Suas declarações mais notáveis (as únicas, até agora, a deixar alguma lembrança) foram para “saudar a mandioca” como uma das “maiores conquistas do Brasil” e informar que a descoberta do fogo foi uma das duas maiores vitórias da “tecnologia”.

Em uma recente manifestação pública, na inauguração de uma usina de etanol (privada) no interior de São Paulo, disse o seguinte: “O etanol, por ser um combustível verde-amarelo, é também uma prova de que este combustível verde-amarelo, ele é possível de ser utilizado por todos os veículos que se movimentam no Brasil. Nós somos um dos poucos países que podem dizer isso”.

Não ocorreu à presidente que o governo, como parte de sua estratégia energética, passou quatro anos fazendo o possível para arruinar a indústria do álcool, quem sabe por considerar sua presença na área de combustíveis uma ameaça — mas isso talvez seja o de menos. Onde a coisa está feia, de verdade, é na persistente falta de nexo em tudo o que ela diz. A quem apelar?

Um rombo fora dos padrões

Editorial 
O Estado De S. Paulo

Quatro anos de incompetência e de irresponsabilidade produziram nas contas públicas um estrago muito maior do que avaliavam os analistas há pouco mais de seis meses, no início do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff. Muito ruim já no fim do ano passado, o balanço financeiro do setor público piorou em 2015 e o conserto, segundo todas as indicações, ainda vai tomar muito tempo. O buraco nas contas gerais do setor público – União, Estados, municípios e estatais – ficou em R$ 209,65 bilhões no primeiro semestre e chegou a R$ 462,7 bilhões em 12 meses, soma equivalente a 8,12% do Produto Interno Bruto (PIB) estimado para o período. Pouquíssimos países têm um desarranjo tão grande nas finanças governamentais. 

Chegou a 6,23% do PIB no ano passado o déficit geral das contas do setor público brasileiro. Esse é o resultado nominal. Inclui as despesas de custeio e de investimento da administração e também os gastos com a dívida – basicamente uma parte dos juros, no caso do Brasil. Isso foi mais que o dobro do déficit médio contabilizado para os países da zona do euro, segundo balanço da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). No caso dos 34 países-membros da organização, o resultado médio, também no vermelho, ficou em 3,7%. Neste ano a posição do Brasil ficou muito pior nessa comparação. 

O déficit nominal estimado para o setor público brasileiro, de 8,12% do PIB nos 12 meses até junho, é muito maior que os números médios previstos para este ano na zona do euro – 2,1% no vermelho – e para os membros da OCDE – um buraco de 3,1%. Outras instituições multilaterais podem apresentar estimativas diferentes, mas muito próximas desses valores. Para chegar mais perto de resultados como esses, o saldo brasileiro terá de melhorar de forma espetacular no segundo semestre, mas, neste momento, essa recuperação parece muito improvável. 

O problema fiscal brasileiro é muito mais grave no governo central que nas outras instâncias da administração. Segundo o novo relatório do Banco Central (BC) sobre as contas consolidadas do setor público, o poder central teve um superávit primário de R$ 16,22 bilhões no primeiro semestre, muito inferior ao conseguido de janeiro a junho do ano passado, de R$ 29,38 bilhões, em valores correntes. O resultado primário é o saldo das operações rotineiras da administração. O superávit, nesse caso, é destinado ao serviço da dívida publica e por isso o seu valor estratégico é considerável. No Brasil, o dinheiro mal tem servido para liquidar uma parcela dos juros devidos em cada exercício. 

A meta inicial do governo para este ano era um superávit primário de R$ 66,3 bilhões, equivalente a 1,1% do PIB projetado. Há poucos dias uma nova meta, muito menos ambiciosa, foi anunciada: um superávit de apenas R$ 8,7 bilhões ou 0,15% do PIB. O governo central – Tesouro, Previdência e BC – deverá, em princípio, contribuir com R$ 5,8 bilhões. Os governos de Estados e de municípios e as estatais deverão completar o resultado.

Para alcançar até esse modesto superávit, o Tesouro dependerá de receitas muito incertas – de um imposto sobre recursos enviados ao exterior, de acertos de tributos em atraso e de concessões de infraestrutura. Sem isso, o governo poderá, segundo projeto enviado ao Congresso, abater até R$ 26,4 bilhões da meta e fechar o ano com déficit primário. 

Com os negócios em queda – outra herança dos últimos anos – e os empresários mudando o esquema de recolhimento de tributos (deixando de pagar por estimativa e adiando o acerto), a receita líquida do primeiro semestre, de R$ 513,3 bilhões, foi 3,3% menor que a de um ano antes, descontada a inflação. O aumento real da despesa foi de 0,5%, puxado pela Previdência. 

Além de outros problemas, o governo teve de enfrentar o pagamento de obrigações em atraso – as pedaladas fiscais da gestão anterior. Dilma I deixou para Dilma II uma herança muito pior do que se imaginava até há poucos meses. 

Dois métodos: a Lava-Jato e o chinês

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

A mudança brasileira foi a delação premiada. O sujeito confessa, indica a conta, e o banco dá a sequência do dinheiro

O governo chinês informou ontem: de 2012 até aqui, recuperou US$ 6,2 bilhões que haviam sido roubados por “centenas de milhares” de funcionários e membros do Partido Comunista. Isso dá pouco mais de R$ 19 bilhões, valor desviado apenas da Petrobras, segundo estimativas dos procuradores da Lava-Jato.

A campanha anticorrupção na China é uma iniciativa do presidente Xi Jinping, aplicada pela temida Comissão Central para Inspeção Disciplinar. Trata-se de uma ditadura, de modo que eles frequentemente passam por cima do que chamam lá de formalidades judiciais — isso de não poder prender sem uma consistente acusação formal ou de precisar de processo para recuperar o dinheiro roubado.

Claro que isso permite ao governo escolher seus alvos, transformando o combate à corrupção em ação política para apanhar adversários. Por aqui, a Lava-Jato segue nos termos da lei e da democracia. Não foi politizada nem instrumentalizada por grupos ou partidos. Ainda bem.

O método chinês vai mais rápido. Sabe aquela situação na qual todo mundo sabe que fulano está roubando, mas ainda não deu para dar o flagrante? Pois é, lá na China a Comissão Disciplinar pode prender e, então, sabe-se lá com quais pressões, procura as provas.

Aqui, muita gente ainda diz que a Lava-Jato frequentemente avança o sinal. É que não sabem como se faz nas ditaduras. A Lava-Jato vai muito depressa em comparação com os velhos padrões brasileiros — quando as “formalidades judiciais” garantiam a impunidade.

Era assim: o sujeito trabalha numa estatal ou no governo ou no partido do governo e está associado a uma consultoria privada; a empresa tal ganha um contrato com a estatal e faz um pagamento à consultoria privada. Diziam os envolvidos e pegava: são contratos separados, coisas diferentes, com coincidência fortuita de pagamentos. Qual é?

Vai um advogado dizer isso hoje para o juiz Moro.

Por outro lado, há uma novidade histórica que devemos ao governo americano. Na busca do dinheiro do terrorismo e do tráfico, as autoridades dos Estados Unidos simplesmente acabaram com o sigilo fiscal e bancário lá e no mundo.

Quer dizer, não acabaram propriamente. Mas se criou uma legislação, hoje universalizada, que torna mais simples e rápido quebrar sigilos quando há fundadas suspeitas, descobertas nos termos da lei.

Era praticamente impossível achar uma conta de um banco suíço. Hoje é até fácil. Os banqueiros têm pavor de serem acusados de acobertar fortunas roubadas ou do tráfico.

A mudança brasileira foi a introdução da delação premiada. O sujeito confessa, indica a conta em que recebeu e o banco dá a sequência do dinheiro.

Tudo considerado, duas observações: primeira, o método chinês vai mais rápido, mas o método Lava-Jato é mais seguro para as pessoas e as instituições; segunda, e terrível para nós, a roubalheira aqui foi maior que na China, cuja economia é quatro vezes maior.

Reparem de novo: depois de três anos de dura campanha, os chineses recuperaram o equivalente a R$ 19 bilhões. Dado o sistema deles, é provável que já tenham apanhado a maior parte da corrupção. 

Ora, só na Petrobras, os procuradores acreditam ter havido roubo de R$ 19 bilhões, dos quais R$ 6 bi já admitidos formalmente pela estatal, em balanço. E está começando só agora a fase do setor elétrico, o segundo da lista.

Conclusão: estamos apanhando aqui os maiores escândalos corporativos do mundo. No sistema formal, demora mais para recuperar a propina distribuída, mas a coisa está andando nessa direção.

Finalmente, há outro ponto em comum. Aqui e na China, a corrupção começa no governo e suas estatais, nas tenebrosas relações com empresas privadas.

A presidente Dilma andou dizendo que a Lava-Jato subtraiu um ponto percentual do PIB. Nada disso. A corrupção estatal/privado subtraiu muitos pontos ao gerar desperdício, perdas e ineficiências. Ou seja, o combate à corrupção precisa de um complemento: uma ampla privatização e um bom ambiente de negócios para quem quer ganhar dinheiro honestamente — um sistema impessoal que privilegie a eficiência, a competitividade, a produtividade.

Enquanto conseguir uma vantagem qualquer em Brasília for mais barato e mais fácil do que investir no negócio para ganhar produtividade, o país não vai crescer. Nem será justo.

A voz rouca das ruas.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Como não diz a Bíblia, há tempo de negociar e tempo de calar e esperar a tempestade. Agora, a menos que ocorram surpresas, é hora de ouvir os trovões.

Dilma e Lula vão amanhã à TV, em programa que interrompe o Jornal Nacional. Eles falam pelo Governo, o ribombar dos panelaços fala pela oposição. É desigual: o Governo tem 7% de aprovação. A inflação medida nas feiras em um ano atingiu 25%. Há muito mais panelas vazias dispostas a se fazer ouvir. 

O Congresso volta a funcionar na primeira segunda-feira de agosto, dia 3 - ou, vá lá, na primeira quarta, dia 5. Há doze propostas de impeachment na fila, e um presidente da Câmara prontinho para colocá-las em discussão e votação. Para aprovar o impeachment é necessário o voto de 342 deputados. De acordo com os cálculos de aliados do presidente Eduardo Cunha, 255 já apoiam o impeachment.

Nem tudo se resolve no grito das ruas: há também o julgamento (se não houver alguma manobra estranha para adiá-lo), pelo Tribunal de Contas da União, das contas do Governo Federal. O TCU não tem poder de decisão, é órgão auxiliar do Congresso. Mas um parecer pela rejeição influencia o plenário (em especial os parlamentares que não se decidiram pelo impeachment ou pelo voto no Governo). E, fator decisivo, há no dia 16 de agosto as marchas Fora Dilma. Se tiverem êxito, será muito difícil evitar que a presidente seja afastada do cargo.

Movimentos ligados ao PT anunciaram suas marchas para dia 15, e ainda não as confirmaram, talvez temendo o efeito-comparação. Mas as ruas são decisivas.

Revendo o voto
A fraqueza política do Governo pode ter um efeito adicional importante: estimular os aliados a, digamos, rever sua posição. No impeachment de Collor houve um caso interessante. Um deputado da tropa de choque do Governo, dos mais fiéis, desculpou-se com o presidente por não poder comparecer à votação: tinha porque tinha de viajar para seu Estado. E viajou - num voo com escala em São Paulo. Do aeroporto, telefonou para Brasília e soube que a derrota de Collor era certa. Voltou imediatamente a Brasília e foi à Câmara para votar. Em favor do impeachment, claro. 

A propósito, os deputados estão voltando dos Estados, onde tiveram contato direto com os eleitores. Devem estar bem mais bravos.

Lula na mira
Veja deu na capa que Leo Pinheiro, ex-presidente da OAS, autorizou seus advogados a negociar com o Ministério Público uma delação premiada, com revelações sobre o relacionamento da empresa com Lula e seu filho Fábio Lula da Silva. O jornal Valor perguntou a Leo Pinheiro se a notícia era verdadeira. Ele a desmentiu: disse que jamais pensou em delação premiada. Seus advogados também a desmentiram. As redes sociais petistas acusaram Veja de inventar notícias.

Mira em Lula
Entretanto, vale a pena lembrar uma piada. Alguém precisava trocar a pilha do relógio e viu uma loja com um relógio pendurado na porta. Entrou, entregou o relógio e pediu para trocar a pilha. O lojista o interrompeu: "Não conserto relógios. Faço circuncisão". O cliente estranhou: "Mas há um relógio pendurado na porta!" O lojista perguntou: "E que é que o senhor queria que eu pendurasse?"

Alguém acha que Pinheiro iria confirmar a possibilidade de delação premiada, mesmo que verdadeira? Também pode ser que ele tenha passado um recado: está negociando, e, como ainda não negociou, há tempo para alguém tentar salvá-lo.

O grande Moles
Quer conhecer algo do rádio paulista, o humor, a música? Sábado, a partir das 14h, na Livraria Cultura da avenida Paulista, SP, Celso de Campos Jr. lança o livro Recado de uma garoa usada, de Osvaldo Moles, um astro da comunicação. Moles foi autor de rádio, redator, cronista (este é um livro de crônicas), parceiro do monumental Adoniran Barbosa. Celso de Campos Jr. ficou fascinado por ele quando fazia a biografia de Adoniran, e preparou o livro. O conjunto João Rubinato (nome real de Adoniran) toca músicas inéditas do sambista de São Paulo. 

O mundo gira
Ah, a falta de memória! José Maria Marin, ex-presidente da CBF, preso na Suíça a pedido dos EUA, é, desde 5 de março de 2008, nas palavras do procurador José de Arruda Silveira Filho, "membro honorário do Ministério Público do Estado de São Paulo". O discurso do procurador foi proferido quando Marin recebeu o Colar do Mérito Institucional do Ministério Público de São Paulo, em noite de gala, assim descrita pela Assessoria de Comunicações do MP-SP: "A cerimônia foi conduzida pelo procurador-geral de Justiça Rodrigo César Rebello Pinho. Pelo Órgão Especial do Colégio dos Procuradores, discursou o procurador de Justiça José de Arruda Silveira Filho. Representando o governador do Estado, fez uso da palavra o secretário da Justiça e Defesa da Cidadania Luiz Antonio Guimarães Marrey. 

Também fizeram uso da palavra os deputados estaduais Fernando Capez e Campos Machado, o ex-governador do Estado Luiz Antonio Fleury Filho e o homenageado José Maria Marin, que, emocionado, agradeceu a todos os companheiros de política, do esporte, amigos pessoais, familiares e integrantes do Ministério Público que lotaram o auditório." 

carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann
www.brickmann.com.br

Perdeu, príncipe

Fernando Gabeira
O Globo

Anotações de Marcelo Odebrecht revelam corrupção e também muitos enigmas

Chamou-se “O jogo da imitação” o filme sobre a vida do criptoanalista Alan Turing, que desvendou os códigos nazistas durante a Segunda Guerra. O esforço coletivo será menor para desvendar as anotações no iPhone de Marcelo Odebrecht. Elas revelam algumas indicações contundentes e inequívocas de corrupção. Mas trazem muitos enigmas que nos impelem a desvendá-los, pelo menos para saber o que, realmente, aconteceu com o Brasil. E, é claro, extrair as consequências.

Marcelo Odebrecht foi intitulado o Príncipe dos Empreiteiros. Jovem, rico e bem educado, adotou a tática petista de negar, encarou com desdém a investigação. Na cadeia, tropeçou pela primeira vez, enviando um bilhete determinando a destruição de um e-mail sobre venda de sondas. Mas agora, com as mensagens em seu telefone, eu diria: perdeu, playboy, na linguagem plebeia, mas o adequado é: perdeu, Príncipe.

São evidentes, mesmo com as barreiras de códigos, as relações íntimas entre a Odebrecht e o governo. Cúmplice na Lava-Jato, pede um contato ágil com o grupo de crise do governo. Esperar um contato ágil do grupo do governo é sonho de executivo. De todas as maneiras, isso demonstrava como estavam juntos, na tarefa de escapar da polícia.

Recados como este a Edinho Silva, tesoureiro da campanha de Dilma: avisa a ela que pode aparecer a conta da Suíça. Não é preciso grandes decifradores para supor que a campanha do PT foi feita com dinheiro que veio da Suíça. Bem que desconfiei. Uma campanha tão bem educada: a grana vinha da Suíça. Esse tópico é tão interessante que quase todos fingiram não notar, como se não olhar para a bomba impedisse que exploda.

Odebrecht usou métodos de máfia, ao mobilizar dissidentes da Polícia Federal para melar a Lava-Jato. Tudo indica que foram esses dissidentes, numa outra ação, que colocaram uma escuta clandestina na cela de Alberto Youssef, na esperança de anular o processo. Está quase tudo lá no telefone de Marcelo. Amigos poderosos, propinas, orientação para artigos. Numa dessas, ele reclama que o foco da Lava-Jato está sobre os empreiteiros e é preciso deslocá-lo para os políticos. Mas a tática está dando certo. Políticos são mais experientes e escorregadios. O grande material contra eles virá precisamente das delações, de anotações como essas do iPhone.

Marcelo Odebrecht optou pelo silêncio. Mas deixou pistas pelo caminho. Como se dissesse; se querem me pegar, trabalhem um pouco com a cabeça. Ele terá que se explicar ao juiz Sérgio Moro. Mas se usar a tática do bilhete, destruir/desconstruir, vai se dar mal. É hora de contar tudo ou então assumir as consequências. Até plano de fuga, saída Noboa, estava previsto em suas mensagens. Noboa é um dirigente equatoriano que fugiu do país para a República Dominicana.

Chega de esconde-esconde. Isso vale também para Dilma e o PT. Em Portugal, abriram-se investigações sobre o negócio entre telefônicas no Brasil. Uma equipe peruana vem investigar no país o caso Odebrecht, pois suspeita que houve corrupção. Os americanos monitoram a Odebrecht. O Brasil virou uma grande cena do crime. Qualquer dia vão nos cercar com aquelas fitas pretas e amarelas e chamar os turistas para filmarem o PT, aliados e a Odebrecht, dizendo que não roubaram nada. Foi tudo dentro da lei. Só pela cara de pau mereciam uma punição extra.

Hoje, Dilma, Renan e Eduardo Cunha constituem um triângulo das Bermudas. Nele desaparece toda a esperança. Cunha agora é contra Dilma, Renan também. Há quem ache que é preciso poupá-los porque são contra Dilma. Mas hoje quase todo mundo é. Cunha está sendo acusado de levar US$ 5 milhões da Toyo Setal. Um dos indícios era o requerimento que a deputada Solange Gomes apresentou para pressionar os empresários. O requerimento foi produzido no computador de Cunha.

Fui deputado com os dois, Cunha e Solange. Um dia, ela veio com um jabuti para acrescentar numa medida provisória: isentar a indústria nuclear de alguns impostos. Fui perguntar o que era aquilo e ela não sabia responder. Percebi que era apenas uma assinatura de aluguel. Trabalhava em sintonia com Eduardo Cunha. Quando surgiu essa pista do requerimento de Solange, mesmo antes de descobrirem que veio do computador de Cunha, na solidão do quarto hotel, soltei o grito da torcida do Atlético Mineiro:

— Eu acredito!

As próximas semanas devem ser decisivas contra essas forças que ainda dominam o Brasil mas estão em contradição com ele. Ministros, deputados, presidentes e ex-presidente, todos farão o esforço final para escapar da enrascada. Dilma contra Cunha, Renan contra Dilma, Dilma contra Renan, eles podem dançar à vontade o balé dos enforcados. Lembram-me uma canção da infância, nascida nas rodas de capoeira: “A polícia vem, que vem brava, que não tem canoa cai n’água. Pau, pau, peroba, foi o pau que matou a cobra.” Pelo menos cantávamos, naquela época.

Hora de recomeçar.

Um susto atrás do outro

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Não há nenhum exagero quando se diz que o Brasil está vivendo um filme de terror. Basta uma olhada mais profunda nas contas públicas para se assustar com os números. São característicos de um país à beira do colapso fiscal. Quando se levam em consideração os gastos com juros, o rombo nas finanças do país chega a 8,12% do Produto Interno Bruto (PIB). Nos primeiros seis meses do ano, a dívida bruta saltou de 58,9% para 63% do PIB, um aumento médio mensal de 0,5 ponto percentual, elevação que se repetiu em julho, já avisou o Banco Central.

Diante desse retrato aterrorizante, não há como o Brasil escapar da perda do grau de investimentos. Desde que o país começou a fazer ajuste fiscal, em 1997, não se viu uma deterioração tão rápida das contas públicas em tão curto espaço de tempo. Em sua defesa, a equipe econômica alega que os números atuais refletem a limpeza das manobras contábeis que prevaleceram no primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. São esqueletos retirados à força do armário. Essa, porém, é apenas uma parte da realidade. O governo continua gastando muito — e mal.

Se voltássemos ao início do governo Dilma, em 2011, nós nos depararíamos com a promessa do então ministro da Fazenda, Guido Mantega, de zerar o deficit nominal do país quatro anos depois. Naquele período, o buraco nas finanças públicas ainda não despertava tanta preocupação. Estava em 2,6% do PIB, patamar administrável para uma economia com um histórico de gastadora contumaz. Agora, sabe-se que Mantega estava mentido e que ele deixou uma herança maldita que fez o rombo nas contas do governo triplicar.

O atual ministro da Fazenda, Joaquim Levy, assumiu prometendo arrumar a casa. E rápido. Mas, como ressalta a economista Natália Cotarelli, do Banco ABC Brasil, Levy se preocupou muito mais em fazer o ajuste por meio do aumento de receitas — mais impostos — do que pelo corte de gastos, o mais recomendável. O problema é que muitas das medidas que o ministro propôs depende do aval do Congresso. E mesmo que elas venham a ser aprovadas, o que os especialistas consideram muito difícil, diante da fragilidade da base aliada de Dilma, o superavit primário (economia para o pagamento de juros) será, na melhor das hipóteses, de apenas 0,15% do PIB.

Natália chama ainda a atenção para o círculo vicioso que se criou na questão fiscal. Para combater a inflação, o Banco Central vem aumentando os juros — a taxa Selic está em14,25% ao ano. Esse movimento, porém, aumenta as despesas do Tesouro Nacional, que é obrigado a emitir mais títulos, elevando a dívida pública. O ideal seria que o governo estivesse fazendo superavits primários maiores para conter o impacto provocado pelo BC, mas o que se vê é exatamente o contrário. Por isso, o espanto provocado pelas contas.

Desastre
O filme de terror vai além das finanças do governo. Na próxima terça-feira, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrará o comportamento desastroso da indústria. Se os cálculos do economista-chefe do Banco Santander, Maurício Molan, estiverem corretos, a produção das fábricas registrou, em junho, contração de 0,9% ante maio e de 5,4% em relação ao mesmo período de 2014. Esse resultado decepcionante foi puxado pelo setor automotivo, que encolheu 15,4% na comparação de junho de 2105 com o mesmo mês do ano passado.

Diante do desempenho da indústria, que, segundo Molan, tombou 2,4% no segundo trimestre do ano frente o primeiro, o PIB de abril a junho foi ao fundo de poço. Nas contas de Luciano Rostagno, economista-chefe do Mizuho Bank, a retração do Produto pode ter chegado a 1,5%, taxa que, anualizada, atinge 6%, um tombo espetacular que vai manchar ainda mais a imagem do governo — se isso for possível.

Como epílogo da fita assustadora, o país vai se deparar, na sexta-feira, com a inflação de julho. A expectativa é de que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tenha ficado em 0,62%, taxa elevada demais para o mês, quando costuma ficar bem próxima de zero. Com isso, a carestia acumulada em 12 meses baterá em 9,56%, nível sem precedentes desde 2003. A carestia foi puxada pelos alimentos e pelos preços administrados, como os da energia elétrica e da telefonia fixa.

Não custa lembrar que tantos números ruins vão coincidir com o fim do recesso do Congresso. A presidente Dilma tentou, nos últimos dias, criar um clima mais positivo com parlamentares ao se aproximar dos governadores. Mas quem conhece a fundo a dinâmica da Câmara e do Senado avisa: a petista viverá um inferno. Com as investigações da Lava-Jato chegando mais perto dos políticos, não haverá trégua em relação ao Palácio do Planalto. A guerra está declarada.

Assistindo de camarote
» Alexandre Tombini, presidente do Banco Central, não quer saber da disputa declarada por poder entre os ministros da Fazenda, Joaquim Levy, e do Planejamento, Nelson Barbosa. Tombini comentou com amigos que já tem problemas demais para resolver.

Faca nos dentes
» As equipes de Levy e de Barbosa estão com a faca nos dentes, como se diz na linguagem popular, prontas para o confronto. No fim da tarde de quinta-feira, quando a Fazenda e o Planejamento divulgaram números divergentes sobre o corte do Orçamento, ouviram-se impropérios dos dois lados.


A Levíada

Alexandre Schwartsman
Folha de São Paulo

Canta, ó Musa, a luta inglória do severo Ministro
Que da tesoura fez sua afiada arma na demanda
Pela estabilidade da nativa economia e da dívida
Do governo, condenadas pela tibieza do Genovês
E pelo desmedido orgulho da Rainha do Poste,
Persuadida pelos áulicos da Princesa d’Oeste.

Dos mestres em Chicago sabia o feroz Tesoureiro
Que imperioso era o primário superavit
Na batalha contra a crescente dívida, sem o que
Perder-se-ia o valioso grau de investimento
Por tantos prezado (e tão poucos defendido!)
1,1% de PIB mirou e as tesouras em moção pôs.

No entanto, ó sorte aziaga, não percebe o herói
Que a Rainha, pela fortuna e prudência abandonada,
Não mais sua horda comanda, nem mais as bênçãos recebe
Daquele que a ungiu, cedendo-lhe cetro, coroa e trono
Mas, titereiro astuto, às cordas lhe prende impiedoso,
E à cabeça da ala esquerda marcha, sem rumo.

Não vê também que a maldição do ouro negro e o saque
Indiscriminado da Petrobras, à Rainha opuseram as tropas
Que lealdade haviam jurado, em troca, porém, de butim
A quem não lhes cabia. E, lançado à frente de batalha,
Logo entende a solidão em meio às hostes aliadas,
Tesouras partidas, as lâminas no pó caídas, em fuga o escudeiro.

Não se rende o Ministro e aos seus brada pelo apoio,
Mas, cercado e solitário, aos poucos retrocede, escudo à frente
E 0,15% do PIB (não riam!) aceita, em troca, acredita
De promessa de, mais adiante, aos 2% do PIB chegar.
Forma-se o tumulto. Cresce a dívida apesar da jura,
Subjugada pela implacável e inexorável aritmética.

Sobe com ela o dólar, movido pelo alarmante pavor
Da fraqueza do herói, seu isolamento, as navalhas embotadas.
O escudo, outrora invulnerável, já não afasta os golpes
Do destino cruel, nem das tropas que, rebeladas, não mais
Aceitam segui-lo na árdua peleja do ajuste fiscal; E se acerca a perda do grau de investimento.

A inflação, besta novamente desperta, rompe os grilhões. Resta apenas ao Bardo a penosa lide de novas setas contra ela lançar.
Mais 0,50 ponto, sacrifício pago no altar da irresponsabilidade,
Em troca de outro juramento de convergência, novas correntes
A atar aquilo que jamais deveria ser liberto (mas foi!),
Arrasando o que se imaginava sadio daquele tormento.

De pouco valem as novas flechas, porém, sem o apoio do primário.
Fortalecida a fera pelo gasto público, e por mais que o futuro trará,
Ela prospera, selvagem e bestial, a carcomer valores e morais.
Fortalecido pelos anos de liberdade, o veneno lento, poderoso
Mais uma vez se alastra, inebriante, corrosivo, mortal
Dominando corações e mentes de uma terra desiludida.

Exausto, o guerreiro recua, esperançoso ainda de persuadir
A fiel audiência que derrota não houve; no máximo um estorvo.
Aperta, contudo, o cerco à Rainha, abandonada pelas hostes.
Alas direita e esquerda partidas, em formação de batalha íntima,
Sob o olhar estupefato das colunas adversárias, alheias ao combate,
E prenhas de dúvidas: consciência ou oportunidade; luta ou neutralidade.

Entende, por fim, a futilidade: sem o trono não há vitória possível.
A Rainha omissa condena o reino e a bravura é inútil.
As lâminas, desprovidas de rumo, de nada servem.
Pranteia, ó Musa, a derrota inglória do severo Ministro
Que, sob o disfarce de realismo, escancarou a debilidade da pátria
E os destroços de tantos anos de descuido.

O dobro de nada

Guilherme Fiuza 
O Globo

Com essa mania de prender pessoas que fazem o dinheiro circular, Sérgio Moro só poderia mesmo provocar uma recessão

O PIB brasileiro despencou por causa da Operação Lava-Jato, explicou Dilma Rousseff. A presidente informou que a investigação do petrolão reduziu em pelo menos um ponto o crescimento nacional. Ou seja: o Brasil não deveria ter interferido no ir e vir dos pixulecos. O esquema estava funcionando bem, com mais de dez anos de crescimento sólido. É claro que a moralização ia estragar tudo. Com essa mania de prender pessoas que fazem o dinheiro circular, Sérgio Moro só poderia mesmo provocar uma recessão.

Deve ter sido sobre isso que Dilma foi conversar escondido com Lewandowski em Portugal. A presidente da República e o presidente do Supremo Tribunal Federal hão de salvar o Brasil de Sérgio Moro — mas é melhor mesmo tratar disso clandestinamente, porque esses juízes éticos são vingativos. Pouco depois da reunião republicana na cidade do Porto, Lewandowski resolveu dar sua opinião isenta sobre a conjuntura econômica: afirmou que a crise brasileira provém da bolha americana de 2008.

Os brasileiros jamais entenderiam que diabos aconteceu com seu PIB se não fossem os esclarecimentos oportunos de Dilma e Lewandowski. Agora, é só esperar a crise de 2008 passar e torcer para a Lava-Jato parar de arrochar os pixulecos.

Mas se você continua achando que o país está no buraco porque foi depenado pelos companheiros, esqueça. Num texto que está fazendo o maior sucesso por aí, os respeitáveis economistas Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa dizem que o problema não é esse. O trio recua duas décadas e meia para mostrar o histórico de hipertrofia do Estado e descontrole fiscal. Os autores são amados pelos tucanos, mas nem João Santana prestaria um serviço tão valioso ao PT.

Após 12 anos de pilhagem desenfreada dos cofres públicos pelo sistema que engendrou o mensalão, o petrolão, as pedaladas fiscais e grande elenco de manobras parasitárias, os três consagrados economistas estão preocupados com o ano de 1991. Foi ali que as despesas públicas passaram a crescer demais, apontam eles. O resto foi bola de neve. Imaginem Guido Mantega lendo esse texto... Nem 20 anos de psicanálise quebrariam tão bem o seu galho. Pode até voltar a frequentar restaurantes.

No quadro continental, o Brasil aparece sozinho com a Venezuela no buraco da recessão. Isso depois de receber sólidos alicerces de crescimento nas décadas de 1990 (estabilização monetária) e de 2000 (enxurrada de capital para os emergentes). O PT jogou fora esse ciclo virtuoso, mantendo a taxa de investimento em níveis vexaminosos — e agora, com a revelação do sequestro da Petrobras, sabe-se bem onde os companheiros estavam investindo o dinheiro público. Isto para não falar nas triangulações obscenas entre Tesouro, BNDES e estatais para maquiar déficits recordes.

Um longo e devastador estupro das contas públicas, que, na autópsia feita por Mansueto, Lisboa e Samuel, virou uma gripe. Dilma, Lula, Mantega, Dirceu, Delúbio, Vaccari e companhia podem dormir com o texto do trio na cabeceira: as obras completas do bando não são nem uma marolinha na crise fiscal brasileira.

Naturalmente, o mercado e outras criaturas do mundo real não cantam essa cantiga. Uma das principais agências de risco acaba de colocar o Brasil em perspectiva negativa — mais um sinal de desconfiança diante da rave dos aloprados no Planalto. Ou não: talvez a Standard & Poor’s também ache que a Lava-Jato faz mal ao PIB.

A alegação de que a catástrofe fiscal brasileira seria a mesma sem as peripécias do PT no poder, feita por economistas notáveis, é o melhor presente que os delinquentes da estrelinha poderiam receber. O Brasil não liga muito para corrupção, e a chapa está quente para o governo petista por causa da ruína econômica que os companheiros plantaram. Mas se os acadêmicos que encantam os tucanos aparecem dizendo que a bomba-relógio não tem dono, Dilma pode continuar pedalando à vontade — e dizendo que a bicicleta é do Fernando Henrique.

O paper de Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa sustenta que a explosão da carga tributária vem de antes do reinado petista. É fato. Só que o aumento de impostos no Plano Real, por exemplo, foi parte de um ajuste fiscal que permitiu a estabilização da moeda — e melhorou a vida dos brasileiros. Já o aumento de impostos no presente serve a um ajuste fiscal mambembe para bancar a farra companheira — que piorou a vida dos brasileiros. Um detalhe.

Outro detalhe: o PT atropelou a meta fiscal, criada pelo governo anterior, fazendo o superávit primário dançar conforme as suas malandragens contábeis. Se o jogo é calcular o tamanho do tombo no futuro próximo, como não botar na conta esse coeficiente perdulário — mais uma exclusividade petista?

Está todo mundo de cabelo em pé com a radiografia do trio de economistas, menos Dilma e seus companheiros. Tudo o que eles precisavam era ter as melhores cabeças do país dizendo que seu governo vampiresco é igual aos outros. Assim, a mulher sapiens poderá continuar por aí, numa boa, dobrando metas que não existem.

O mau pagador de promessas

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Você precisa comprar a pauta-bomba de nosso governo: cortaremos na carne, na sua carne, morô?

Devo, não nego. Pagarei quando puder. E com a ajuda de vocês. Governadores, prefeitos, deputados, senadores. Mas apelo sobretudo a você. Você pai ou mãe de família, que perdeu seu poder de consumo, perdeu o emprego, perdeu salário e crédito, perdeu conforto e esperança, perdeu economias, perdeu sua lojinha, sua microempresa, seu apartamento, seu carro. Perdeu até as estribeiras, porque se sente intimidado por gangues das ruas e dos palácios.

Você precisa vestir minha camisa, que é a camisa do Brasil, agora em tamanho menor devido à dieta argentina. Você tem de acreditar, mesmo que o PT tenha provado ser um mau pagador de promessas. Eu e o Guido no ano passado pedalamos a mesma bicicleta, aquela de dois lugares, para atropelar todas as contas que atravessavam nosso caminho glorioso. Mesmo assim você precisa se sacrificar.

Você precisa nos ajudar a manter bem altos os lucros dos bancos, porque eles sempre se dão bem, já reparou? Com a ajuda de cortes, câmbio e juros, os grandes tiveram lucros históricos. Você precisa aceitar calado a redução do salário, você precisa cuidar de seu rombo particular. Porque o meu rombo no primeiro semestre foi inédito na história, um deficit de R$ 1,6 bilhão de janeiro a junho. Um rombão, tudo é aumentativo por aqui, mensalão, petrolão, eletrolão.

Você precisa reunir a família, assim como eu reuni os meus parentes próximos e distantes, os governadores dos Estados. Para explicar que a gastança e o desperdício têm de parar. E, claro, eles entenderam que, se eu for atingida, eles vão junto. Como se não bastasse o Brasil perder selo internacional de bom pagador, ganhará o selo de mau gastador.

Você precisa sobretudo comprar nossa “pauta-bomba”, que é a seguinte: cortaremos na carne, na sua carne, entendeu? Não falo de churrasco de fim de semana, esse já era. Falo de cortes mais nobres. Cortes de gastos públicos, que eu e o Levy prometemos. Vamos cortar no sal grosso: no PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), na Saúde e na Educação. Morô? Não, esse verbo não, lembra o sobrenome daquele juiz que não larga o meu pé nem o de meus companheiros empreiteiros. Juiz posudo, metido a italiano da gema, com ternos bem cortados e essa obsessão de lavar tudo a jato, como se a água e meu governo fossem acabar amanhã.

Você sabe que tem gordura nos hospitais e nas escolas, não? Gordura no chão, nos corredores, nas salas de cirurgia e de aula. Ah, você deixa esses itens do orçamento doméstico para cortar por último? Você preserva ao máximo a saúde e a educação de sua família e prefere cortar primeiro os supérfluos? Entendi: é porque você valoriza a vida e o futuro deles e a oportunidade real de crescimento digno e sustentável.

Por isso a classe média não vai para a frente, cai no cheque especial, paga juros escorchantes no cartão de crédito. E a gente (nós e os intelectuais do PT) tem ojeriza a esse pessoal conservador, não afeito a riscos, enfim, uma classe média reacionária. Não é uma categoria politizada. Além de ser gigante, difícil de ser manobrada, a classe média cultua a ideologia do bem-estar da família. E ponto.

Você também sabe que a gente gosta de dar esmola aos pobres e de adular os ricos. É a tal governabilidade, uma receita infalível. Posar de mãe de miseráveis e se locupletar com os grandes projetos. Vimos agora que o nuclear entrou na dança premiada. Minha geladeira vive abarrotada de energéticos para aguentar o tranco de nossa House of Cards.

Graças a Deus que lá também, no Congresso, acabou a mamata. E também a proteção que dávamos ao ex-PMDB comportado de Sarney. Agora o Congresso quer me derrubar, prefere o diretor da escola, aquele que parece uma esfinge e não diz nada, você sabe quem é, só espera mais um passo meu em falso. Bota falso nisso. Agosto começou e deveria ser menor. Vou arrumar umas viagens internacionais.

Já nos livramos da Catta Preta, a advogada de delatores que se mudará para Miami por medo. Você também tem medo, não? É a lógica de gangues que impera no país. Viu as cenas no Brás, em São Paulo, com cidadãos, muitos idosos, cercados e roubados por abutres? Você se sente ameaçado por taxas e impostos, por assaltantes, golpistas e policiais, por empresas de serviço, todo mundo tascando um pedacinho seu? Tente um pacto, como eu.

Esqueçam minhas pedaladas fiscais, me ajudem a aprovar minhas contas no TCU, não deixem que a Caixa e o Banco do Brasil cobrem de mim mais de R$ 1 bilhão em taxas dos programas sociais. Reclamem menos da inflação de hoje porque ela tende a piorar amanhã. Não critiquem inaugurações de clínicas sem médicos ou fechamento de escolas sem professores. Não somos um governo-bomba.

Brasil enfrenta tempestade perfeita na economia

Giuliano Guandalini e Bianca Alvarenga
Revista VEJA 

Os indicadores da economia brasileira apontam para uma recessão prolongada. O tombo será ainda mais profundo caso o governo não recupere rapidamente a confiança dos investidores nem consiga evitar o rebaixamento da nota de crédito do país


(Alan Marques/Folhapress)
 A conta é dela, mas nós é que estamos pagando: 
os erros da política econômica do primeiro mandato
 de Dilma Rousseff expuseram o país à tormenta

As análises econômicas mais realistas e desapaixonadas indicavam, fazia algum tempo, que a crise na economia brasileira era um acidente prestes a acontecer. Por seis anos seguidos, o governo pisou fundo demais no acelerador dos gastos públicos e aliviou o pé no freio do controle da inflação. Em pouco tempo, arruinou a confiança construída em duas décadas de ajustes e reformas - sem falar nas manobras na contabilidade federal. Ao assumir o Ministério da Fazenda, Joaquim Levy apresentou um plano para evitar o desastre, como o personagem do filme Juventude Transviada que escapa da morte ao saltar do carro momentos antes da queda no desfiladeiro.

Por alguns meses, parecia que Levy seria bem-sucedido. O ministro procurou extinguir os trambiques do antecessor e propôs uma série de medidas para reforçar o caixa do governo e impedir um rombo ainda maior nas finanças públicas. A iniciativa seria um primeiro passo para arrumar a casa e retomar os projetos de longo prazo para incentivar o crescimento econômico. O clima político hostil, entretanto, atrapalhou os planos do ministro. Quanto mais frágil a situação da presidente Dilma Rous¬seff e maior o envolvimento de políticos da base aliada nas revelações da Lava-Jato, menor a disposição do Congresso para aprovar ajustes impopulares. O tempo sobre a economia brasileira já estava fechado. Agora, o país está sob a ameaça de lidar com uma verdadeira tempestade perfeita.

O Brasil não é tão vulnerável como no passado, mas entrou avariado na trovoada. O povo brasileiro já percebeu, em seu dia a dia, o aumento no custo de vida, a dificuldade para quitar dívidas, o desemprego de pessoas conhecidas. O pior, entretanto, está por vir. Principalmente se as medidas de austeridade nas contas do governo não forem aprovadas. Na semana passada, a agência americana de classificação de risco Standard & Poor's reduziu para negativa a avaliação do país. 

Existe agora uma probabilidade elevada de rebaixamento da nota do Brasil, possivelmente no próximo ano. Se assim for, o país perderá, na avaliação da S&P, o status de grau de investimento. E o que isso significa? A economia deixará de ter acesso ao crédito farto e barato dos mercados internacionais. Os maiores fundos de pensão estrangeiros restringem a aplicação em países sem o grau de investimento. Em vez de ficar mais próximo de países como os Estados Unidos, a Alemanha ou o Chile, o Brasil seria rebaixado para o grupo de caloteiros contumazes, que inclui a Grécia, a Argentina e a Venezuela.

Não é apenas o governo que é afetado. As empresas brasileiras também serão vistas como investimentos especulativos. Ao pôr a nota do país em perspectiva negativa, a agência fez o mesmo para 41 empresas locais. Entre elas figuram companhias que, a despeito do cenário econômico adverso, estão entregando bons resultados e não têm dependência direta do Estado, como Ambev e NET. Isso acontece porque a nota de crédito do país é o teto de classificação das empresas. Raramente uma empresa pode ter nota melhor do que o país no qual ela opera, porque sempre existe o risco de ser afetada por alguma restrição na transferência de pagamentos.

Brasil já perdeu — na prática — seu grau de investimento

Luís Lima e Eduardo Gonçalves
Veja online

Risco país e nível de endividamento bruto superam o de nações sem grau de investimento na escala da S&P, como Rússia e Turquia

 (Jose Manuel Ribeiro/Reuters/VEJA) 
Mercado já vem precificando há meses a perda 
de grau de investimento do Brasil 

Há alguns meses, o Brasil compartilha das mesmas mazelas macroeconômicas de países que deixaram de possuir o grau de investimento conferido pelas agências de classificação de risco, como Rússia, Turquia e Portugal. São elas: alto endividamento, incapacidade para gerar superávit primário (a economia para pagar juros da dívida), baixo nível de investimento, gastos públicos excessivos e inflação acima da meta. A isso se soma a instabilidade política, que adia a implementação do ajuste fiscal e, consequentemente, o processo de retomada econômica. Nesta terça-feira, uma das agências, a Standard and Poor's (S&P), revisou para baixo a perspectiva da nota de crédito do país e deixou o Brasil a um passo de perder o selo de confiança. O castigo deve vir no começo do ano que vem.

Na prática, contudo, o rebaixamento já chegou. Como a reação do mercado é captada antes que a das agências, o risco de rebaixamento já vem sendo precificado há meses. "O que está em jogo é quanto de juros o Brasil precisa pagar a mais para que as pessoas comprem seus ativos. O que se sabe é que esse valor não é diferente do cobrado para países sem grau de investimento", diz Alexandre Schwartsman, economista e ex-diretor do Banco Central (BC).

 (VEJA.com/VEJA)


Para João Augusto de Castro Neves, diretor para América Latina da consultoria Eurasia, alguns efeitos dessa precificação são a oscilação no câmbio e a queda nos investimentos do país. "No segundo semestre, a volatilidade deve se acentuar. No horizonte, temos a continuidade das investigações da Operação Lava Jato, dúvidas sobre o impeachment, além da aprovação de 'bombas' fiscais por parte do Congresso", diz. O dólar se valorizou 26% de janeiro a julho, enquanto os investimentos medidos pela Formação Bruta de Capital Fixo recuaram 6,9%, segundo os últimos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes ao primeiro trimestre do ano na comparação com 2014.

Não à toa, um levantamento recente do Bank of America Merrill Lynch mostra que o Brasil é o país emergente com maior risco de perder o grau de investimento. Segundo a pesquisa, realizada antes da decisão da S&P, 65% dos gestores ouvidos apostavam que o rebaixamento pode ocorrer nos próximos dois anos. Em outros emergentes, como África do Sul e Indonésia, os porcentuais são menores, de 55% e 20%, respectivamente. No caso da Turquia, que ainda tem grau de investimento nas escalas da Fitch e da Moody's, a chance de perda do selo de bom pagador é de 50%.

Consequências – 
A perda do grau de investimento pode trazer inúmeras consequências negativas nos próximos meses. Segundo analistas, deve haver impacto na volatilidade dos mercados de câmbio e ações, bem como a dificuldade para empresas públicas e, sobretudo, privadas obterem financiamento. Ou seja, o Brasil tende a estender a pecha de mercado arriscado às empresas mais expostas à dívida do governo - e, em última instância, até mesmo àquelas que não suscitam qualquer suspeita. "O custo de captação de recursos aumenta e, com ele, a possibilidade de um ajuste mais célere, o que alarga o horizonte da retomada. O impacto é significativo, ainda que não seja uma volta aos anos 1980", explica Castro Neves, da Eurasia. Sem o grau de investimento, empresas e pessoas físicas terão de pagar juros maiores, o que também pode levar a cortes de investimento e empregos.

No mercado de capitais, onde as empresas se financiam, o efeito deve ser o adiamento de emissões de títulos de renda fixa e uma maior dificuldade para venda de ações previstas para este ano. No câmbio, o efeito deve ser uma maior desvalorização do real, que pode pressionar a já elevada inflação no país, que atinge o dobro da meta no acumulado em doze meses. O presidente da Austin Ratings, Erivelto Rodrigues, atenta para o risco de uma fuga de recursos estrangeiros do país. "Grandes investidores institucionais estrangeiros - como fundos de pensão e investimento - não podem aplicar dinheiro em países em grau especulativo. Este é um dos principais motivos que levam o Brasil a tentar reverter o atual cenário", diz. Em 2015, o investimento estrangeiro direto, que mede a entrada de recursos no país para ser aplicado ao setor produtivo, recuou 32% no primeiro semestre deste ano, em relação a 2014, a 31 bilhões de dólares.

Apesar de a questão fiscal ser o principal fator de rebaixamento, é o setor privado que deverá ser mais afetado, na avaliação de Thomas Trebat, diretor do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Columbia. Ele aponta que o setor público tem fontes alternativas de financiamento, enquanto o Brasil não possui um mercado de capitais suficientemente desenvolvido para financiar empresas privadas. "O governo ainda capta recursos no mercado doméstico, há muitos investidores dispostos a correr risco, e o país tem quase 400 bilhões de dólares de reservas internacionais", explica. Indiretamente, no entanto, o governo também é afetado, já que, em tempos de ajuste, conta com o setor privado para alavancar a taxa de investimento e a capacidade produtiva do país.

Na visão dos analistas, o viés negativo por parte da S&P pegou o mercado de surpresa. Isso porque eles esperavam um movimento inicial da Moody's, que visitou o Brasil recentemente, e o mantém em um degrau acima da S&P. Na escala da Moody's, o rating do Brasil é Baa2, com perspectiva negativa, dois degraus acima do grau especulativo. Para a Fitch, o rating do Brasil é BBB, com perspectiva negativa, e também dois degraus acima do grau especulativo. Segundo os analistas, a maior probabilidade é de que essas agências sigam a S&P e reduzam a nota para o último degrau antes do ingresso para grau especulativo.

O governo - e apenas ele - se diz confiante que o país não será rebaixado. Apesar de os números dizerem o contrário, integrantes do Palácio do Planalto contam com a revisão da meta fiscal, de 1,1% para 0,15% do PIB, para injetar uma dose de credibilidade no plano de voo para reorganizar as contas. Para os analistas, no entanto, trata-se de missão quase impossível em um cenário político hostil, com tensões entre partidos da base aliada retardando o ajuste fiscal, e os desdobramentos da Lava Jato tragando o governo para o centro do turbilhão de corrupção. A falta de coesão política, aliás, foi citada pela S&P como explicação para a mudança da perspectiva da nota para o campo negativo. Ao mesmo tempo, a agência considera os esforços atuais da equipe econômica para reverter o quadro, dando-lhe um voto de confiança mesmo que os indicadores digam o contrário. Prova de que a agência não olha apenas para os números, e sim para todo o contexto, na hora de decidir a nota. Fossem apenas os números, o grau estaria perdido.

Dívida externa é de US$ 345,199 bilhões em junho, diz BC

Exame.com
Célia Froufe e Victor Martins, Estadão Conteúdo

thinkstock 
Dólares

Brasília - A estimativa do Banco Central para a dívida externa brasileira em junho é de US$ 345,199 bilhões ante US$ 350,956 de maio. Segundo a instituição, em março de 2015, último dado verificado, a dívida somava US$ 348,606 bilhões.

Em dezembro de 2014, a dívida estava em US$ 352,684 bilhões e, no fim de 2013, a dívida era de US$ 312,517 bilhões.

A dívida externa de longo prazo atingiu US$ 289,112 bilhões em junho, enquanto o estoque de curto prazo ficou em US$ 56,087 bilhões no fim do mês passado, segundo as estimativas do BC.

De acordo com a instituição, merecem destaques na dívida externa de longo prazo os empréstimos tomados pelo setor não financeiro, de US$ 2 bilhões, as amortizações do setor financeiro, de US$ 2,1 bilhões, e o aumento em função de paridades, de US$ 485 milhões.

Já no caso de curto prazo, a explicação da diferença se dá, principalmente, por conta de empréstimos de curto prazo tomados pelo setor não financeiro, de US$ 680 milhões e amortizações do setor financeiro, de US$ 3,3 bilhões.

Taxa de rolagem
O Banco Central informou também que a taxa de rolagem de empréstimos de médio e longo prazos captados no exterior ficou em 97% em junho ante 108% de maio. Esse patamar significa que os compromissos do mês passado não foram rolados totalmente.

O resultado também ficou bem abaixo do verificado em maio do ano passado, quando a taxa havia sido de 322%.

De acordo com os números apresentados hoje pelo BC, a taxa de rolagem dos títulos de longo prazo, que até a nota apresentada em abril com números de março tinham a nomenclatura de "bônus, notes e commercial papers", ficou em apenas 65% em junho.

Em igual mês de 2014 havia sido de 481%. Já os empréstimos diretos conseguiram uma cobertura de 128% no mês passado ante 264% de junho do ano passado.

No acumulado do primeiro semestre do ano, a taxa de rolagem total ficou em 97%. Os títulos de longo prazo tiveram taxa de 56% e os empréstimos diretos, de 108% no período.