domingo, agosto 09, 2015

O panelaço dos fatos e dos números

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

O maior panelaço contra o vergonhoso e grotesco programa do PT, na quinta-feira, foi comandado por um homem de confiança do governo, Aldemir Bendine, presidente da Petrobrás. Antes do vexame televisivo da presidente Dilma Rousseff, de seu inventor Luiz Inácio Lula da Silva e de outros companheiros, ele apresentou o balanço da estatal, com um lucro de R$ 531 milhões no segundo trimestre, 89% menor que o de um ano antes. Analistas esperavam um resultado na casa dos R$ 4 bilhões, segundo o Estado. Problemas de mercado, como a redução dos preços do petróleo, afetaram a receita e os ganhos da empresa, mas o balanço reflete principalmente a faxina financeira e os consertos iniciados pela nova administração. O reconhecimento do passivo tributário – impostos em atraso – acrescentou R$ 3 bilhões às despesas contabilizadas. O abandono de projetos levou a um corte de R$ 1,2 bilhão no valor dos ativos. “Estamos fazendo aquilo que deveria ter sido feito antes”, disse Bendine. O balanço foi elaborado, segundo ele, com a preocupação de proporcionar “transparência e previsibilidade”. Sua missão básica – nunca foi segredo – é promover a recuperação de uma empresa, a maior do Brasil, saqueada e devastada durante três mandatos petistas. 

O trabalho do novo presidente da Petrobrás é uma contrapartida, no mundo econômico e gerencial, da Operação Lava Jato, conduzida nos planos policial e judicial. Cada número citado na apresentação do balanço equivaleu a um golpe barulhento numa panela e ainda ressoará por muito tempo. Antes disso a empresa terá de baixar a um nível tolerável o endividamento acumulado irresponsavelmente.

O panelaço dos fatos continuou no dia seguinte, quando saíram os números de julho da inflação oficial, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Mais uma vez, dados produzidos por um órgão do governo comprovaram o fracasso e a inconsequência da administração da presidente Dilma Rousseff. Os preços pagos pelas famílias aumentaram 0,62% em julho, 6,83% no ano e 9,56% em 12 meses. São números quase inimagináveis numa economia em recessão, exceto em casos patológicos de incompetência governamental. Fora de casos desse tipo, recessão é quase sinônimo de inflação baixa ou mesmo de deflação. Mas no Brasil as projeções ainda apontam para este ano uma alta de preços acima de 9% e uma contração econômica próxima de 2% – e sem perspectiva de um desajuste muito menor nas esfrangalhadas contas públicas.

Para o próximo ano as estimativas apontam um crescimento abaixo de 1% para o produto interno bruto (PIB) e uma inflação ainda superior a 5%. Mas o menor impulso dos preços deverá resultar, segundo se calcula, principalmente de dois fatores: 1) a prolongada retração dos negócios acabará, finalmente, impondo um freio à inflação; e 2) a correção dos preços administrados, como os da eletricidade, será menos intensa do que neste ano.

O baixo nível de atividade neste ano e no próximo será em boa parte explicável, naturalmente, pelos juros muito altos. Desse ponto de vista, pelo menos a política monetária, conduzida pelo Banco Central (BC), terá produzido algum resultado positivo. Não se espera nada semelhante das demais políticas formuladas e implementadas em Brasília. Ao contrário: mais provavelmente os congressistas continuarão impondo maiores gastos ao Tesouro e atrapalhando as ações de ajuste propostas pelo Executivo.

Mas, se o governo continuar atropelado pelos congressistas e abandonado até pelos companheiros de partido, a crise econômica poderá agravar-se muito mais velozmente do que se pode hoje imaginar. O País será logo rebaixado ao grau especulativo pelas agências de classificação de risco – um evento já dado como certo por muitos analistas. O custo do financiamento subirá tanto para o governo quanto para boa parte das empresas. A arrumação das contas públicas ficará muito mais complicada.

O dólar poderá disparar e a pressão do câmbio sobre a inflação se tornará mais forte e mais difícil de conter por meio de intervenções do BC. Na melhor hipótese a depreciação cambial poderá facilitar as exportações, mas isso é incerto. Se a instabilidade do câmbio for intensa, os custos serão pressionados e as decisões empresariais, prejudicadas. Num cenário desses, até a segurança proporcionada por um bom volume de reservas cambiais – atualmente acima de US$ 360 bilhões – poderá desaparecer.

Os muito otimistas podem classificar todas essas hipóteses como um exercício de catastrofismo, mas ninguém deveria desprezar os perigos neste momento. Os fundamentos da economia continuam muito frágeis, com inflação muito alta e contas públicas em condição bem pior que as de países mais atingidos pela crise. O déficit nominal do setor público passou de 8% do PIB em 12 meses. Na Europa, a média está abaixo de 3%. Além disso, o ajuste fiscal desses países tem avançado e seu crescimento econômico tem-se firmado. Os Estados Unidos, apesar de alguns tropeços ocasionais, continuam criando cerca de 200 mil empregos por mês. Lá, o desemprego está em 5,3%. No Brasil, passa de 8% e pode aumentar.

Quem pode dizer até onde avançará a Operação Lava Jato e apontar suas consequências para um governo muito fraco? Segundo o vice-presidente Michel Temer, o País precisa de alguém para unir as forças e evitar um desastre. Os ministros o criticaram por isso, mas injustamente. A declaração teria sido mais venenosa se o unificador fosse descrito como competente e capaz de propor e conduzir políticas inteligentes e eficazes. Temer se absteve de indicar esse líder e de mostrar como poderia assumir o papel sem quebrar as instituições. Sem esperar resposta, a crise se agrava e o governo, incapaz de enfrentá-la, vai sendo acuado pelo panelaço dos fatos e dos números catastróficos.


Ilegalidade permitida

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Em países eticamente mais desenvolvidos, político denunciado de maneira consistente, mesmo que só na imprensa, renuncia

Pode parecer coisa pequena neste momento de grandes crises, mas serve para demonstrar um padrão de estímulo à ilegalidade. Seguinte: de cada dez motoristas já apanhados dirigindo bêbados, seis continuam por aí guiando seus carros e com a carteira de habilitação na mão. Tudo dentro da lei. Isso foi medido em São Paulo, mas pode apostar que o padrão se repete pelo país.

Reparem agora em ambiente, digamos, mais importante, Brasília. O senador Ivo Cassol (PP-RO) está condenado no Supremo Tribunal Federal desde 2013, por fraude em licitações, crime cometido entre 1998 e 2002, quando ele era prefeito de Rolim de Moura. Se quiserem encontrar Cassol, podem procurar no seu gabinete no Senado. Ele está dentro da lei.

Nos dois casos, os recursos garantem a permanência legal da ilegalidade.

Apanhando bêbado, o motorista recebe uma multa, da qual pode recorrer em três instâncias. Se perder em todas, tendo, portanto, a multa confirmada, e se cometer outras infrações, chegando aos 20 pontos, ainda assim não perde a carteira. Tem direito a mais três recursos. E segue por aí, barbarizando com carteira em ordem.

Cassol foi o primeiro senador condenado no STF desde a vigência da Constituição de 88. Foi recentemente condenado outra vez, na Justiça Federal, por improbidade administrativa. Tudo somado, são quatro anos e oito meses de cadeia, mais cerca de R$ 2 milhões entre multas e dinheiro que deve devolver. Deveria. Tem recurso pendente no STF. A reparar: ilícitos, na sentença do tribunal, cometidos há 13 anos, condenado há dois e, tudo bem, continua ativo no Senado.

Entre suas recentes tarefas, aliás, relata um pedido de investigação de contratos da Procuradoria-Geral da República, apresentado pelo seu colega Fernando Collor.

Diante disso, qual o problema de dirigir bêbado? Ou ainda, qual o problema se os presidentes da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, são oficialmente investigados no STF, no âmbito da Lava-Jato, e continuam no cargo?

Nos Estados Unidos, o sujeito apanhado dirigindo bêbado vai para a cadeia, de lá para o juiz, já recebe a pena e perde a carteira. Pode recorrer, mas fica sem o documento. Aqui, vai para a delegacia, assopra o bafômetro, se quiser, e vai para casa. Se bobear, dirigindo o seu carro.

(Um amigo meu, homem honesto, tomou os 20 pontos. Em vez de recorrer, deixou o carro em casa e foi se matricular em um curso de direção, condição legal para reaver a habilitação. A atendente deu o preço e informou que incluía estacionamento. Ele estranhou: mas é um curso para quem perdeu a carteira! E ela: ora doutor...).

Em países eticamente mais desenvolvidos, como no Japão, o político, quando denunciado de maneira maios ou menos consistente, mesmo que seja só na imprensa, renuncia e vai se defender. Na Alemanha, um ministro renunciou ao ser acusado de plágio numa tese acadêmica apresentada vários anos antes.

Não vale simplesmente colocar a culpa nos políticos e legisladores. Sim, é fácil mudar o sistema de punições no trânsito. Basta alterar a lei no Congresso Nacional. Mas por que não se toma essa iniciativa? Porque mesmo políticos honestos não gostam de se meter nessas pautas ditas impopulares. Já anistias de multas passam facilmente nas Assembleias Legislativas.

Também são populares as reclamações contra radares. Por isso mesmo, até 2012, a lei determinava que o radar deve ser colocado em lugar visível e com sinalização avisando que o “pardal” está logo adiante. A mensagem: caro motorista, a velocidade máxima aqui é de 100 km/hora, mas você, perdão, o senhor ou a senhora só precisam respeitá-la nos trechos imediatamente anteriores aos radares, convenientemente sinalizados. Mais: no caso de se distrair e for flagrado, fique tranquilo, tem direito a seis recursos.

O Conselho Nacional de Trânsito eliminou a exigência de aviso prévio dos radares, mas há vários projetos de lei no Congresso restabelecendo a sinalização anterior (curiosamente, um desses projetos é do ex-deputado Luís Argolo, preso na Lava-Jato). Em câmaras de vereadores, toda hora aparece um projeto proibindo radares móveis, por exemplo. A Assembleia Legislativa de Santa Catarina foi mais longe: chegou a proibir a instalação de radares de qualquer tipo nas rodovias estaduais.

São coisas pequenas e coisas grandes. O padrão de ilegalidade é o mesmo. Dos “pequenos crimes” chega-se a uma Lava-Jato. O desmonte da grande corrupção deve fazer o caminho inverso e levar o pessoal a perceber que, convenhamos, tem que respeitar a regra, do estacionamento proibido até a licitação de uma plataforma de petróleo.

A Catta Preta e os capas pretas

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


 Ortolani queria fugir para o Brasil

Em junho de 1982, foi encontrado estrangulado em Londres, embaixo da “Blackfriars Bridge” (“a Ponte dos Irmãos Negros”), o banqueiro italiano Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, que acabava de quebrar, e tinha como diretores o cardeal Marcinkus, o conde Umberto Ortolani e o chefe da P-2 italiana (maçonaria), Licio Gelli.

Nos dias seguintes, na Itália e na Inglaterra, apareceram assassinados vários outros ligados a Calvi. Não é só em Santo André que se limpa a área. No meio da confusão estava Ortolani, um dos quatro “Cavaleiros do Apocalipse”. Quando, a partir de 1990, a “Operação Mãos Limpas” chegou perto deles, o conde, olhando Roma lá de cima do Gianiccolo, me dizia :

– Isso não vai acabar bem.

O ministério Publico e a Justiça enfrentaram a aliança, que vinha desde 1945, no fim da guerra, entre a Democracia Cristã e a Máfia italiana. Houve centenas de prisões, suicídios. Nunca antes a máfia tinha sido tão encurralada. Responderam com bombas detonando carros de procuradores e juízes. Os grandes partidos aliados (Democrata Cristão, Socialista, Liberal) explodiram. O Partido Comunista, conivente, desintegrou-se. E meu amigo conde, condenado a 19 anos, morreu em 2002, aos 90 anos.

MÃOS LIMPAS
A “Operação Mãos Limpas” não teria havido se um punhado de bravos jovens valentes e alucinados, das Brigadas Vermelhas e dos Proletários Armados pelo Comunismo (PAC), não tivesse enfrentado o Estado mafioso. O governo, desmoralizado, usava a Máfia para eliminá-los. Eles reagiam,houve mortos de lado a lado e prisões dos lideres intelectuais, como o filósofo De Negri (asilado na França) e o romancista Cesare Battisti, asilado no Brasil. Eu estava lá, era Adido Cultural, vi tudo, escrevi.

Foram eles, os jovens rebeldes das décadas de 70 a 90, que começaram a salvar a Itália. Se não se levantassem de armas na mão, a aliança Democracia Cristã, Partido Socialista, Liberais e Máfia estariam lá até hoje. Berlusconi foi o feto podre que restou, mas logo foi expelido.

O juiz Falcone (assassinado) e o procurador Pietro (hoje no Senado) comandaram a “Operação Mãos Limpas”. Foram o juiz Sergio Moro de lá.

O CONDE
O carrão preto, motorista de libré, parava na porta da embaixada do Brasil em Roma, na Piazza Navona, em 90 e 91. Descia um senhor baixo, 80 anos, terno escuro, colete cinza, camisa branca e gravata. Um dos homens mais poderosos da Itália, conde do Papa, banqueiro de Deus, ia buscar-me para almoçar, a mim pobre marquês, adido cultural.

Íamos a discretos e charmosos restaurantes de Roma, com os melhores vinhos da Itália. Às vezes o almoço foi no palacete dele, na Vila Archimede, no alto do Gianicolo, ou, em um domingo de sol, em sua casa na serra, em Grottaferrata, a poucos quilômetros de Roma. Simpático, vivido, o conde Umberto Ortolani era uma figura “ambígua, misteriosa” (como dizia o jornal “La Republica”). Mal falava, só perguntava.

Dele eu sabia que era conde da Santa Sé,“gentiluomo di sua Santitá”, banqueiro do Vaticano, sócio-diretor do jornal “Corriere de la Sera”. Eu o havia conhecido num vernissage no Masp, em São Paulo, em 1984, apresentado pelo jornalista José Nêumanne, do “Estado de S. Paulo”.

A MAFIA
O que ele queria de mim? Queria que eu convencesse o Itamaraty a lhe entregar um novo passaporte, pois tinha cidadania brasileira dada pela ditadura militar a pedido dos Mesquita do “Estado de S. Paulo” e os dois passaportes que tinha, o italiano e o brasileiro, o governo italiano lhe tomara ao descer em Roma, depois de oito anos asilado no Brasil.

Levou-me a seu escritório na Via Condotti 9, em cima da “Bulgari” :

– Desta sala saíram sete primeiros-ministros : Andreotti, Craxi, etc. O conde era a historia exemplar do satânico poder dos banqueiros, mesmo quando banqueiro de Deus, vice-presidente do banco Ambrosiano, daquele cardeal Marcinkus até hoje foragido nos Estados Unidos. Há um livro imperdível : “Poteri Forti” (“Fortes Poderes, o Escândalo do Banco Ambrosiano”), do jornalista italiano Ferruccio Pinotti, abrindo as entranhas do poder de corrupção do sistema financeiro com governos, partidos. No “Globo”, o lúcido Merval Pereira denuncia a “lógica da gangue”:

– “Os advogados do empresário Julio Camargo, Figueiredo Basto e Adriano Breta, dizem que Eduardo Cunha está agindo com a lógica da gangue. Acusam Cunha de agir “astuciosamente” para desacreditar os depoimentos do delator (Camargo). Para eles está em vigor a moral da gangue, que acredita triunfar pela vingança, intimidação e corrupção”.

O “BAGUNÇA”
Em Caxias, no Estado Rio, há um restaurante chamado “Bagunça”. É do deputado do PMDB Celso Pansera, que persegue a brava advogada Beatriz Catta Preta na CPI da Petrobrás: Capas Pretas contra a Catta Preta.

A farsa petista

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Não há como negar: o PT é craque na arte da propaganda. Quem assiste aos programas exibidos pelo partido, como o de ontem à noite, chega a acreditar, nos primeiros momentos, que nada do que o país está vivendo hoje é culpa dos governos petistas. Nem a corrupção que foi construída e agigantada na era Lula nem o desastre econômico e a grave crise política que têm a digital de Dilma Rousseff.

Felizmente, a população — a grande maioria dela — já se deu conta de que tudo o que o PT faz é mera propaganda enganosa. Não cai mais nas armadilhas das mentiras usadas, sem constrangimento, durante a última campanha eleitoral. Os brasileiros estão pagando caro pelos erros cometidos pelo governo na economia e pela roubalheira que devastou a empresa que já foi símbolo do país, a Petrobras.

No programa de ontem, Dilma apareceu sorridente, vestida de branco, como se pregasse a paz. Foi enfática ao dizer que sabe “suportar pressões e até injustiças”. “Quem pensa que nos faltam energia e ideias para vencer os problemas está enganado. Eu tenho o ouvido e o coração neste novo Brasil que não se acomodam, que não se satisfazem com pouco”, disparou.

A força da presidente, no entanto, restringe-se às palavras. Dilma é hoje a chefe do Executivo mais impopular dos últimos 25 anos: 71% dos brasileiros consideram o governo dela ruim ou péssimo. Nas mesas de bar, nas salas de negócios dos bancos, no chão das fábricas, já se dá como certa a saída da petista do poder, seja por meio da renúncia, seja por meio do impeachment.

Agora, o que se discute é como e quando Dilma sairá. O governo, infelizmente, perdeu a representatividade, está sem condições de manter a governabilidade necessária para tirar o país do atoleiro. Quanto mais demorar para se achar uma solução que permita uma transição política menos traumática, mais o Brasil afundará. Os agentes econômicos não confiam mais neste governo, que, todos reconhecem, foi eleito democraticamente, mas perdeu a legitimidade.

O comportamento dos mercados financeiros ontem, em especial o de câmbio, no qual o dólar superou os R$ 3,50, foi um sinal claro de que os ativos estão sem referencial. Há uma espiral de descontrole. Quando se olha para o horizonte, não se vê nada, apenas um mar de incertezas que pode levar o Brasil a registrar uma década perdida, como nos anos de 1980 e de 1990. Os especialistas dão como certo dois anos de recessão. Será a primeira vez, desde o biênio 1930 e 1931, que isso acontecerá.

Os investidores já não acreditam mais nem mesmo no único porto de racionalidade que ainda resta no governo, a equipe econômica, cada vez mais dividida e em guerra declarada por poder. A sensação entre os formadores de preços é a de que a administração Dilma perdeu os instrumentos de gestão da política econômica. Qualquer decisão que for tomada agora será vista como um sinal de que os fundamentos pioraram geral.

Isso vale tanto para as taxas de juros, que podem voltar a subir diante da nova pressão do dólar sobre a inflação, quanto para o ajuste fiscal, que derreteu por completo. É por isso que os investidores já sacramentaram o rebaixamento do país e veem o dólar passando dos R$ 4, nível só observado no auge da crise de 2002, quando era grande a desconfiança sobre o governo comandado por Lula.

Contra Levy
A perda de credibilidade do Brasil é tão forte, que os papéis que medem o nível de risco do país, os Credit Default Swaps (CDS), seguros contra calotes, dispararam. Atingiram 330 pontos, nível só superado pelos títulos da Grécia e da Venezuela, países vistos como párias pelo mercado. Nos últimos 12 meses, o real acumula desvalorização de quase 60%. No ano, a moeda brasileira foi a que mais perdeu valor em todo o mundo ante a divisa dos Estados Unidos: caiu 33%. Desde que o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, anunciou a redução da meta de superavit primário, de 1,1% para 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB), o real tombou 11,4%. Foi o custo da derrota do chefe da equipe econômica.

Por sinal, o discurso de Levy defendendo maior austeridade foi destruído pela propaganda do PT, que exaltou os gastos feitos pelo governo entre 2012 e 2014 com a desculpa de minimizar os impactos da crise mundial. O partido listou as desonerações, que custaram, no período, R$ 38 bilhões, e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de carros e eletrodomésticos, cuja fatura chegou a R$ 32 bilhões. Desde que assumiu, o ministro deixou claro que tais medidas em nada contribuíram para o crescimento econômico. Serviram apenas para engordar os lucros das empresas beneficiadas.

Faz parte do jogo o PT querer iludir a população, ainda que esse comportamento seja deplorável. Mas a posição do partido só alimenta a desconfiança que está matando a economia. É uma pena que Dilma, que precisa tanto provar que realmente mudou e está disposta a corrigir os erros que cometeu, tenha aceitado fazer parte da farsa. No fim das contas, ela será a maior perdedora.

Brasil nada sexy
» Desde a última segunda-feira, Cristiano Noronha, vice-presidente da Arko Advice, está em Nova York, conversando com investidores. Foram 14 encontros com bancos e fundos, que não esconderam a preocupação com o futuro do país. A grande indagação é sobre o que será do Brasil se Dilma for afastada.

Impeachment sem traumas
» Noronha diz que o Brasil saiu da lista de preferência desses investidores, que foram machucados pelo desastre econômico provocado pelo governo. Para os donos do dinheiro, um impeachment não deve ser tão traumático, pois, depois da queda de Collor e da posse de Itamar Franco, surgiu o Plano Real.

Crescimento zero

Míriam Leitão
O Globo

O governo Dilma pode ter crescimento zero ao longo do segundo mandato. A recessão deste ano será seguida de uma pequena melhora no ano que vem, mas com o PIB entre o levemente negativo e o positivo. Nos dois anos seguintes, as previsões são de crescimento baixo. Na média, teremos um longo período de estagnação. Já a inflação, que se aproxima de 10%, deve cair no ano que vem, na previsão dos economistas.

Quando falam sobre os próximos meses, os economistas apontam alta de desemprego, inflação, aumento de inadimplência, baixa confiança e retração dos investimentos. Mas há um certo consenso de que a inflação cairá em 2016 e que o rigor da recessão diminui no ano que vem.

O economista Sérgio Vale, da MB Associados, é um dos que calculam que o país terá crescimento médio zero no segundo mandato. Para este ano, ele estima uma recessão de 2,1%, seguida de uma nova queda de 0,6% no ano que vem. Em 2017, alta de 1,4%, com aumento de 1,7% em 2018. Tudo calculado, uma média de 0,1% de crescimento anual entre 2015 e 2018.

— Como no ano passado já não houve crescimento, o país ficará praticamente cinco anos sem crescer. A boa notícia é que esse longo período de baixa atividade vai ajudar o Banco Central no controle da inflação — disse Sérgio Vale.

Ontem, o IBGE divulgou o dado que já era esperado, mas que, de qualquer maneira, impressiona: a inflação chegou a 9,56%. Sérgio Vale acha que ela deve fechar assim, encostada em 10%, este ano, mas cairá para perto de 6% no ano que vem. Essa descompressão nos preços também está na conta do economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, que estima o IPCA no centro da meta de 4,5%, e de Armando Castelar, do Ibre/FGV, que calcula entre 5,5% e 6%. Ou seja, os três economistas acreditam que a inflação terá um cenário mais benigno a partir do ano que vem.

— Em 2016, sai da conta o choque dos administrados, com um aumento menor da energia elétrica. Temos projeção de metade do ano com bandeira vermelha e a outra metade de bandeira amarela. Além disso, os serviços podem cair para algo na casa de 7% — disse Roberto Padovani.

A queda da inflação de serviços será consequência da piora do mercado de trabalho. A estimativa de Sérgio Vale é de que o fechamento de vagas formais medido pelo Caged vai aumentar de 590 mil, em 12 meses até junho, para próximo de 1 milhão, entre janeiro e dezembro. Pela Pnad, a taxa de desemprego pode chegar a 10%.

— Não acredito em inflação na meta no ano que vem, entre outros motivos, porque o salário mínimo terá um reajuste de 10%. A meta de 4,5% deve ficar para 2017. De qualquer forma, em dois anos, podemos ter um horizonte muito mais favorável para os preços, e isso vai ajudar na recuperação da confiança dos empresários e da economia como um todo — disse Vale.

A perda do grau de investimento é uma grande preocupação dos três economistas. Se acontecer, a recuperação será mais lenta, explica Armando Castelar. Ele diz que isso fará o dólar subir mais, pressionando a inflação, e obrigará o Banco Central a manter os juros elevados por mais tempo. Por isso, o esforço fiscal e o ajuste das contas públicas continuam sendo fundamentais.

— Pelo meu cenário, o BC começa a pensar em reduzir os juros no primeiro trimestre de 2016, quando saírem da conta em 12 meses os índices de inflação do início deste ano. Se o dólar subir mais e pressionar os preços, o BC não reduzirá os juros e isso atrasará a recuperação para 2017 — disse Castelar.

O economista também explica que parte da dívida pública interna é financiada por investidores estrangeiros. Sem o grau de investimento, eles vão vender papéis do governo brasileiro, encarecendo o custo da dívida e desordenando ainda mais as contas públicas.

Padovani acredita que a recuperação do crescimento vai começar pelo comércio internacional, antes dos investimentos. Primeiro, haverá retração nas importações, para só depois subir as exportações. Por ora, as duas coisas estão caindo, mas ele acha que, com o tempo, as vendas externas vão crescer. De qualquer forma, o país já voltou a ter superávit comercial, de US$ 4,6 bilhões de janeiro a julho deste ano. Castelar também diz que haverá ganhos com substituição de importação, e isso vai beneficiar a indústria. 

Mesmo em cenários desfavoráveis, é possível tomar medidas que levem a um novo ciclo de crescimento.

A pauta é bomba. E explode no nosso colo.

Percival Puggina
Tribuna da Internet

Plenário e galerias costumam manter, nos parlamentos, uma relação sinfônica. Raramente a voz das galerias não repercute no plenário. Aliás, a concepção do espaço é democrática: o “povo” na parte superior e os parlamentares no andar de baixo. Desde cima, o “povo” grita, aplaude, apupa e, lá embaixo, a sensibilidade política afina os ouvidos e os discursos.

Escrevo “povo” assim, entre aspas porque raras, raríssimas vezes, vi galerias ocupadas por pessoas interessadas na defesa do bem comum, do interesse público. Na maior parte dos casos, nas mais agitadas mobilizações, o “povo”, na verdade, é formado por corporações defendendo com veemência seus próprios interesses. O povo, assim, sem aspas, estava sempre longe dali, tratando de ganhar a vida, trabalhando mais de cinco meses por ano só para pagar impostos ao poder público. Esse povo, pagador das contas, está sistematicamente desinformado a respeito dos maliciosos eventos em que, às suas costas e custas, são assumidos encargos que aumentarão sua conta com o fisco. Ou desqualificarão os serviços que recebe.

Aliás, não existem três possibilidades. Elas são apenas duas. Como o governo não tem um único real que possa, legitimamente, chamar de seu, toda elevação do gasto público significa necessidade de arrecadação maior ou redução de qualidade e/ou quantidade nos serviços prestados.

VOTOS NAS URNAS
Galerias satisfeitas, com demandas atendidas, significam votos na urna para seus entusiasmados benfeitores no andar de baixo. Há alguns anos, o Congresso Nacional descobriu um filão que permite aos congressistas sair do varejo e promover essas operações eleitoreiras no atacado. Refiro-me às conhecidas emendas à Constituição que estabelecem pisos salariais ou estabelecer isonomias entre as categorias mais numerosas ou politicamente mais ativas do serviço público. Tais propostas invadem as competências dos Estados e municípios, cujos estreitos orçamentos são abalados por decisões federais que lhes impõe encargos insuportáveis. Verdadeiros atentados à Federação!

Por essas e por outras, muitas outras, o RS, por exemplo, não consegue implementar o piso nacional do magistério. Seu proponente foi Tarso Genro, quando ministro da Educação. Meses mais tarde, coube-lhe, como governador eleito, pagar a conta. Não conseguiu. Criou um contencioso multibilionário com a categoria. Ao que se sabe, Tarso governador rompeu relações com Tarso ministro a ponto de negar-lhe cumprimento.

FESTIVAL DE AUMENTOS
A mais recente versão dessa demagogia com o dinheiro do povo é a PEC que vincula os salários das carreiras da Advocacia-Geral da União e de delegados civis e federais a 90,25% do salário dos ministros do Supremo Tribunal Federal. Também estão incluídos procuradores de estado e de municípios com mais de 500 mil habitantes. O custo total chega a R$ 2,4 bilhões por ano. O “povo”, é claro, lotava, na noite de ontem, as galerias da Câmara dos Deputados que, sinfonicamente, aprovou o texto-base da PEC com votos favoráveis de 445 deputados. Apenas 16 deputados votaram contra por considerar que essa despesa é incompatível com a crise econômica e fiscal em que o governo petista afundou o país. Trata-se, realmente, de uma pauta-bomba, que vai estourar no nosso colo, agravando a situação financeira da União, dos Estados e dos municípios.

Otimismo irresponsável

Editorial 
O Estado de S. Paulo

Ninguém espera que num momento de crise um governante demonstre desesperança, mas Dilma Rousseff abusa da paciência dos brasileiros, subestimando-lhes o discernimento com demagógicas e irresponsáveis manifestações de otimismo. Na reunião com os governadores que promoveu na quinta-feira em Brasília, depois de afirmar que não nega a existência de problemas, mas garante que o governo “tem como enfrentar essas dificuldades e em um prazo bem mais curto do que alguns pensam, voltar a ter, assistir à retomada do crescimento da economia brasileira”, a presidente da República tentou explicar como se faz isso: “Estou tentando mostrar que o estímulo à exportação, o investimento em infraestrutura, a retomada do crédito e a expansão do consumo vão fazer o Brasil voltar a crescer”. 

Se tudo é tão fácil e óbvio, o que é que Dilma está esperando para operar esse milagre e acabar com a agonia dos brasileiros? Ou ela estava apenas ministrando aos governadores uma aula de princípios básicos de economia que ela própria não quer ou não consegue seguir?

A verdadeira razão pela qual a chefe do governo convocou os governadores para essa encenação em palácio foi resumida pela colunista do Estado Eliane Cantanhêde: “Dilma só queria tirar uma foto e dar um grito de socorro contra o impeachment. Seria só patético, não fosse dramático que uma presidente recém-eleita, com apenas meio ano de mandato, tenha chegado a esse ponto”.

Por ironia, a presidente comandou essa pantomima na capital federal exatamente no mesmo dia em que o governo anunciava um inédito déficit fiscal semestral de R$ 1,6 bilhão e cortes de R$ 1 bilhão no orçamento da Educação, R$ 1,18 bilhão no da Saúde e R$ 4,6 bilhões no das obras de infraestrutura previstas no PAC. É o caso de perguntar: como é que a chefe de um governo que não consegue pagar suas contas e ainda é obrigado a cortar recursos previstos para áreas essenciais da administração tem coragem de, como se ainda estivesse em cima de um palanque eleitoral, fazer promessas obviamente delirantes?

Em seu discurso de meia hora aos governadores Dilma expôs as razões das “dificuldades passageiras” que ela reconhece existirem, mas apenas como uma fase de “travessia”: crise internacional, desvalorização do real em relação ao dólar, aumento da inflação, retração do consumo, falta de chuva, etc. Mas teve o cuidado de esquecer a razão principal da crise: o malogro da “nova matriz econômica” intervencionista, estatizante, que impôs ao País, agravado por sua própria incompetência gerencial e política. 

Tratando, de modo cautelosamente velado, do verdadeiro motivo da convocação feita aos governadores – seu desejo de que todos colaborem politicamente para impedir que progrida a ideia do impeachment –, Dilma tentou ser sutil: “Essa é uma reunião que tem um papel muito importante nos destinos e na condução dos caminhos do Brasil”. E passou a desenvolver um raciocínio no qual está implícita a ameaça a cada um dos governadores – se ela rodar, eles próprios correrão também o risco de perder o mandato. 

Dilma cometeu com os governadores a injustiça de equipará-los a si mesma, simplesmente porque foram todos “eleitos num processo democrático”. A campanha eleitoral de Dilma nada teve de “democrática” no sentido de que foi baseada em promessas mentirosas quando passou a atacar seus opositores, atribuindo-lhes a intenção de adotar medidas econômicas impopulares que ela mesma já estava planejando e colocou em prática a partir do primeiro dia de seu novo mandato. Ela própria, por razões eleitorais, não cumpriu seu “dever em relação à democracia, ao voto democrático e popular”.

Dilma tem todos os motivos para se preocupar com a possibilidade do impeachment. Se isso vier a acontecer, será em função de razões constitucionalmente objetivas relacionadas a fatos consumados. Mas só acontecerá num ambiente político favorável, com indiscutível apoio popular. E a esta altura dos acontecimentos nenhuma esperteza política será capaz de mudar isso. 

Brasil pede um novo Plano Real

Paulo Rabello De Castro (*)
O Globo

Aqui, o Estado se mete em tudo e faz quase tudo muito mal. Daí o enorme desperdício de energias (portanto, menos produtividade)

A grave recessão de 2015 nos trouxe a percepção de que o Brasil perdeu — se algum dia deteve — o rumo do crescimento sustentado. E mais. Finalmente, caiu a ficha sobre o estrago do avanço do Estado na economia e sua clara ligação com o estancamento do setor privado e dos investimentos. É que, para gastar sempre mais — como tem feito nos últimos 20 anos —, o Estado precisa arrecadar cada vez mais. O que era uma carga tributária de 25% do PIB na partida do Plano Real alcançou mais de 35% no ano passado. O dinheiro que vira impostos e, portanto, deixa de ser preponderantemente reinvestido por milhões de pequenas e grandes empresas, na mão do governo vira predominantemente consumo.[

O gasto não financeiro do governo federal saltou, de 1991 a 2014, de 11% a 20% do PIB. A carga tributária crescente retornou para a sociedade sob a forma de mais empregos públicos, benefícios de toda ordem, subsídios e os mais altos juros no planeta. A constatação desse circuito econômico improdutivo, à exceção da menção à nefasta conta de juros, foi feita por três renomados economistas, num documento em que ressaltam, com razão, a inviabilidade da distorção apontada, cinco anos antes, por Raul Velloso, em colaboração com o Movimento Brasil Eficiente, ao cunhar a expressão “modelo de expansão continuada dos gastos públicos”, usada para expressar nosso modo mal definido de insistir num capitalismo estatal. O remédio para isso está proposto no recente editorial do GLOBO: “Um novo Plano Real para o gasto público”.

Este novo plano é essencial e urgente. Essencial, porque o Real de 1994, que nos devolveu certa estabilidade, liquidando a hiperinflação, não foi capaz de pactuar com a sociedade a maneira de conter o Estado brasileiro num orçamento equilibrado e dar ao setor produtivo a primazia dos investimentos para o país crescer e distribuir melhor a renda. Aqui, o Estado se mete em tudo e faz quase tudo muito mal. Daí o enorme desperdício de energias (portanto, menos produtividade). É essencial a transformação do modelo econômico brasileiro, que começa pela reforma do próprio Estado, tornando-o eficiente.

Tal decisão da sociedade, de ter o poder público transformado, bem diferente de mero “ajuste fiscal”, é tarefa inadiável. A profundidade do atual recuo recessivo nos mostra um setor privado em estado de desconfiança, desalento e inanição. Na ausência de medidas ousadas e bem coordenadas, ainda neste segundo semestre, é quase certo que a estagnação prevista para 2016 se projetará como recessão agravada e crise político-institucional, cuja repercussão será arcada pelos mesmos políticos que não terão sabido controlá-la no início do processo, que é agora. Partidos tradicionais poderão até desaparecer do mapa político em 2018 em função da indignação do povo nas eleições gerais. Até lá, a crise agravada pelo empobrecimento geral alimentará extremismos ruinosos.

Um plano para atacar a essência do desequilíbrio orçamentário deve conter, no caso brasileiro, três componentes básicos: um programa emergencial, de impacto imediato, para limitar despesas correntes por uma regra estabelecida em lei; um programa estrutural, que reformará o funcionamento da máquina pública de alto a baixo, produzindo economias de quase R$ 300 bilhões, embora de modo gradual; e um programa financeiro, de modo a rever a composição e o custo de rolagem da dívida pública, que hoje produz um gasto estéril superior a 7% do PIB, em completo desalinho com a experiência de outros países, inclusive os muito endividados. Esse programa de três vetores de ação se complementará com a realocação e eventual desmobilização de ativos estatais, cujos recursos extraordinários, daí advindos, lastrearão o futuro fundo do INSS dos trabalhadores, numa ampla reforma trabalhista e previdenciária.

Um anteprojeto do que se pode chamar de Lei Emergencial de Controle Orçamentário (Leco) foi desenvolvido pelos economistas Thiago Biscuola e Marcel Caparoz, inspirado nos bem-sucedidos programas de controle de gastos implantados na Alemanha (2011) e nos EUA (2013). A Leco será objeto de discussão por entidades civis e movimentos populares nas próximas semanas, com vistas a se formar uma onda de pressão sobre as autoridades para que saiam do presente estado de inércia.

O Congresso precisa assumir sua responsabilidade em votar prontamente uma Leco, sob pena de atrair sobre o universo dos políticos profissionais a ira incontrolável de uma população farta de desmandos e roubalheiras. Este é o último trem que parte com destino à transformação fiscal do país e à recuperação do direito coletivo a maior consumo e à prosperidade trazida por investimentos ampliados e partilha justa da riqueza do nosso país. O Brasil pode tudo isso. Resgatar o direito do país de crescer e prosperar com capital e rendas bem distribuídas está no âmago da democracia que os cidadãos e cidadãs desta grande pátria querem defender. Em nome desse bem comum, é preciso agir já, começando pelo controle efetivo do gasto público.

(*) Paulo Rabello de Castro é coordenador do Movimento Brasil Eficiente

Crise é para os fracos

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Inflação em alta, PIB em baixa, desemprego em alta, popularidade da presidente em baixa, som das panelas em alta, vozes do Governo em baixa - vozes que não se manifestaram nem para defender o companheiro de partido que sempre adularam, neste momento em que é recolhido à prisão. A coisa está tão séria que Aloízio Mercadante, em geral coerente em sua arrogância, comportou-se com modéstia no Congresso, dizendo que o PSDB age de modo elegante, e admitiu até que o Plano Real conteve a inflação - justo ele, que liderou a oposição do PT ao Real e garantiu que aquilo não ia dar certo. Tão grave que Michel Temer, sempre cauteloso, disse que alguém tem de unir de novo o país - alguém cujo nome, claro, comece com M, de Michel Miguel Elias Temer Lulia.

Mas a crise não é o maior problema de Dilma. O maior problema é que ela deixou de ter importância política. Convocou 80 parlamentares para um churrasco noturno - algo inusitado no horário - e lhes fez uma série de exortações. Dali os parlamentares saíram direto para um jantar normal, com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, para rir dos pedidos de Dilma e combinar as próximas derrotas que lhe imporiam. Combinaram e executaram: multiplicaram o salário de várias carreiras jurídicas, com 95,3% dos votos (até de petistas), arrombando o ajuste fiscal. No dia seguinte abriram caminho para examinar as contas de Dilma. Se as rejeitarem, fica a seu critério colocar o impeachment em votação.

O problema de Dilma não é a crise. É não ser mais levada a sério.

Como é o nome deles
Michel Miguel Elias Temer Lulia faz anos em 23 de setembro. É casado com Marcela Tedeschi Araújo Temer, nascida em 16 de maio. 

É bom ir decorando.

Fuscão vermelho
Numa estranha reportagem, sob o título Intelectuais ligados ao PT criticam prisão, aparecem apenas cinco personalidades em todo o país que defendem José Dirceu: os atores José de Abreu e Paulo Betti, os escritores Luiz Fernando Veríssimo e Fernando Morais e o produtor cinematográfico Luiz Carlos Barreto. O editor e escritor Luiz Fernando Emediato associou-se depois ao grupo. Nada de Chico Buarque, Marilena Chauí, Antônio Cândido, Frei Betto, Leonardo Boff e outros intelectuais sempre ligados a José Dirceu. 

Deixaram-no só.

Dez anos depois
Diziam os antigos que os poetas eram adivinhos; a palavra "vate", poeta, gerou "vaticínio", adivinhação. Pois não é que os antigos tinham razão? No Carnaval de 2004, o Bloco do Pacotão, formado por jornalistas de Brasília, cantou a marchinha Ô, Waldomiro!, sobre o vídeo em que Waldomiro Diniz, auxiliar próximo de José Dirceu, negociava propina com o bicheiro Carlinhos Cachoeira (https://youtu.be/dmHAPk8RI6Y). 

Dizia a letra: Ô Waldomiro, ô Waldomiro, me responda, por favor/ Se neste rolo, o bicho pega, nosso Lulinha Paz e Amor. /Ô Waldomiro, ô Waldomiro, me diga o bicho que deu/ Se o Zé Dirceu, se o Zé Dirceu, se o Zé Dirceu também comeu. /Ô Zé Dirceu, que bicho deu? Ô Zé Dirceu, eu quero o meu./ Ô Waldomiro, Ô Waldomiro, me diga o bicho que deu/ Se quem comeu, foi só o Magela, ou Zé Dirceu também comeu. 

Magela era político do PT de Brasília. O presidente da República na época era Lulinha Paz e Amor.

Passa, passa, Pasadena
E, por falar em passado, já acabaram as investigações sobre a compra da Refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos? Em 2005, uma empresa belga, a Astra Oil, comprou a Refinaria de Pasadena, no Texas, por US$ 42,5 milhões. Um ano depois, em 2006, a Petrobras pagou à Astra Oil US$ 360 milhões por metade da refinaria (mais uma parte do estoque de petróleo para refinar). Em 2012, a Petrobras comprou a parte da Astra Oil, os 50% restantes, gastando US$ 812 milhões. No total, pagou US$ 1,18 bilhão pela refinaria que a Astra Oil tinha comprado cerca de sete anos antes por US$ 42,5 milhões. Foi o caso Pasadena que tornou conhecido um discretíssimo diretor da Petrobras chamado Nestor Cerveró.

Mas, escândalo encobre escândalo, faz tempo que ninguém fala de Pasadena. Mas a pouco usual operação certamente ainda dará o que falar.

O Brasil paulistano
Preste atenção em uma série de episódios da administração do prefeito paulistano Fernando Haddad que lembram casos federais protagonizados por seu partido, o PT. Há problemas germinando: a parceria público-privada para a iluminação de São Paulo foi suspensa pelo Tribunal de Contas do Município, por irregularidades. As ciclovias, orgulho maior do prefeito, foram feitas sem concorrência pública (a desculpa, por incrível que pareça, é que não se tratava de "obras", mas de "readequações" - embora as placas se referissem às obras das ciclovias). A concorrência para implantação de faixas de ônibus foi suspensa, por indícios de superfaturamento, pelo Tribunal de Contas da União (que examina o caso, já que há verbas do PAC). Alguns dias antes, o Tribunal de Contas do Município também tinha mandado suspender as obras, pelo mesmo motivo. 

Marta Suplicy, prefeita pelo PT, fez inúmeras faixas de ônibus sem suspeita de superfaturamento. Ou seja, é possível. Haddad trabalhou com Marta, mas só na área de criar taxas.

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Piração interna bruta

Fernando Gabeira
O Globo

Petistas se sentem perseguidos, mas são incapazes de refletir profundamente sobre as causas

O início de agosto vai me colher numa viagem pelo interior do Tocantins. Precária conexão por telefone e internet. Em outros momentos, mergulhar no interior é mais fácil. Mas agora, surpresas acontecem com muita rapidez. Como será o Brasil quando voltar? Minha ligação emocional com o país não me abre alternativas. Plutão? Pequeno, redondinho, uma lua chamada Charon, mas um coração de planícies geladas. Kepler 452-B? Muito longe, e os endereços seriam complicados: Kepler 452-B, SQS, QI 4 casa 2.

Ouço entre os mais jovens e competentes que a alternativa é o aeroporto. Permitam-me lembrar que daqui a pouco os aeroportos podem estar tomados pela Polícia Federal. As concessões para sua exploração foram entregues às empresas do Lava-Jato. Imaginem o que aconteceu?

Agosto talvez coloque algumas coisas no eixo, com a volta das manifestações. Lula e Dilma estão pisando em brasas, e isso ferve seus neurônios. Lula afirmou que os petistas são perseguidos no Brasil como os judeus na Alemanha, os cristãos em Roma, os italianos sob o fascismo. E Dilma garantiu que a operação Lava-Jato é responsável pela queda de 1% no PIB. O restante foi derrubado pelo suspeito de sempre: a situação lá fora.

Não basta contestar Lula mostrando que Curitiba não é Dachau. Nem tentar ajudá-lo mostrando que os leões comiam cristãos na arena, mas aqui o leão é apenas um cara de bigode, anunciando que a Receita Federal já recuperou mais de R$ 200 milhões em impostos das empresas da Lava-Jato.

Compreendo que se sintam perseguidos e queiram buscar aliados confortantes na história: judeus, cristãos, democratas italianos. Ninguém diz abertamente: estamos sendo perseguidos como Al Capone ou a Máfia Siciliana. De um ponto de vista objetivo, gângsteres e a máfia são o melhor exemplo. Foram simultaneamente perseguidos pela polícia e fisco, dentro das normas democráticas que, por sinal, inexistiam no nazismo, no fascismo e na própria Roma antiga.

Dilma resolveu que a Lava-Jato provocou uma queda de 1% no PIB. Como calculou isso? Nunca se devolveu tanto dinheiro roubado, nem se arrecadou tanto com impostos sonegados. Ela queria bater de frente com a operação que desvendou os mistérios das campanhas milionárias. Não teve coragem.
Na opinião dela, o Brasil está devastado por juízes, procuradores e policiais que cumprem sua missão com eficácia. Se deixassem soltos e intocados os empreiteiros e políticos, a magia do crescimento, via corrupção, estaria garantida. Pelo menos 1% do PIB.

Não retomo argumentos de Lula e Dilma para criticá-los. O Lula, para mim, tem habeas-língua, pode dizer qualquer bobagem. E Dilma simplesmente não é do ramo, apesar da juventude na luta armada. Ou talvez por causa dela: muitos na luta armada desprezavam a política.

Retomo apenas para, modestamente, sugerir a mudança de foco. Eles reconhecem que são detestados, petistas se sentem perseguidos, mas são incapazes de refletir profundamente sobre as causas. Comparar militantes de um partido acusado de corrupção e incompetência com seis milhões de judeus mortos nas câmaras de gás só faz aumentar a raiva das pessoas que têm um mínimo de conhecimento do mundo. Atribuir a queda do PIB à mais séria das investigações sobre assaltos que, inclusive, arruinaram a Petrobras significa admitir que a corrupção é o dínamo do crescimento, e quanto mais bandido for o governo, mais chance tem de levar o Brasil ao seu destino glorioso.

Tanto Lula e Dilma estão preocupados com a tolerância e querem reduzir a tensão na política brasileira. No entanto, seus passos são provocativos. Quanta tinta não vai se gastar para mostrar que Dilma agiu de má fé ao atribuir a queda do PIB à operação Lava-Jato? No caso de Lula, sua frase é de uma ignorância tão contundente que ninguém vai se dar ao trabalho de escrever sobre ela.

De qualquer maneira, o essencial está aí: Dilma, Lula e o PT, através da negação do assalto e das críticas aos procuradores e PF, são uma das causas da rejeição ao governo e ao PT. O interessante é que se vestem de laranja, sujam as mãos de óleo, enrolam-se na bandeira para defender a Petrobras, mas quando se revela como ela foi aniquilada pelos saqueadores, colocam-se contra a polícia que investiga.

É difícil transmitir a eles a ideia de que truques do PT não colam mais. Dilma vai fritar ovo na televisão, sujar o avental, pedalar, beijar o netinho, abraçar Lula no dia do amigo e estranhar a rejeição a uma presidente “tão humana”. A mulher do empreiteiro talismã do PT, Marcelo Odebrecht, diz num bilhete ao marido, sobre o jantar com sindicalistas: “Espero que não suje minhas toalhas de linho. Vou pirar”.

Não se preocupe cara Odebrecht. Caiu um PIB mas aumentou um outro: Piração Interna Bruta. Vocês já piraram lá atrás, no começo de tudo.

O dobro de nada

Guilherme Fiuza
O Globo

Com essa mania de prender pessoas que fazem o dinheiro circular, Sérgio Moro só poderia mesmo provocar uma recessão

O PIB brasileiro despencou por causa da Operação Lava-Jato, explicou Dilma Rousseff. A presidente informou que a investigação do petrolão reduziu em pelo menos um ponto o crescimento nacional. Ou seja: o Brasil não deveria ter interferido no ir e vir dos pixulecos. O esquema estava funcionando bem, com mais de dez anos de crescimento sólido. É claro que a moralização ia estragar tudo. Com essa mania de prender pessoas que fazem o dinheiro circular, Sérgio Moro só poderia mesmo provocar uma recessão.

Deve ter sido sobre isso que Dilma foi conversar escondido com Lewandowski em Portugal. A presidente da República e o presidente do Supremo Tribunal Federal hão de salvar o Brasil de Sérgio Moro — mas é melhor mesmo tratar disso clandestinamente, porque esses juízes éticos são vingativos. Pouco depois da reunião republicana na cidade do Porto, Lewandowski resolveu dar sua opinião isenta sobre a conjuntura econômica: afirmou que a crise brasileira provém da bolha americana de 2008.

Os brasileiros jamais entenderiam que diabos aconteceu com seu PIB se não fossem os esclarecimentos oportunos de Dilma e Lewandowski. Agora, é só esperar a crise de 2008 passar e torcer para a Lava-Jato parar de arrochar os pixulecos.

Mas se você continua achando que o país está no buraco porque foi depenado pelos companheiros, esqueça. Num texto que está fazendo o maior sucesso por aí, os respeitáveis economistas Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa dizem que o problema não é esse. O trio recua duas décadas e meia para mostrar o histórico de hipertrofia do Estado e descontrole fiscal. Os autores são amados pelos tucanos, mas nem João Santana prestaria um serviço tão valioso ao PT.

Após 12 anos de pilhagem desenfreada dos cofres públicos pelo sistema que engendrou o mensalão, o petrolão, as pedaladas fiscais e grande elenco de manobras parasitárias, os três consagrados economistas estão preocupados com o ano de 1991. Foi ali que as despesas públicas passaram a crescer demais, apontam eles. O resto foi bola de neve. Imaginem Guido Mantega lendo esse texto... Nem 20 anos de psicanálise quebrariam tão bem o seu galho. Pode até voltar a frequentar restaurantes.

No quadro continental, o Brasil aparece sozinho com a Venezuela no buraco da recessão. Isso depois de receber sólidos alicerces de crescimento nas décadas de 1990 (estabilização monetária) e de 2000 (enxurrada de capital para os emergentes). O PT jogou fora esse ciclo virtuoso, mantendo a taxa de investimento em níveis vexaminosos — e agora, com a revelação do sequestro da Petrobras, sabe-se bem onde os companheiros estavam investindo o dinheiro público. Isto para não falar nas triangulações obscenas entre Tesouro, BNDES e estatais para maquiar déficits recordes.

Um longo e devastador estupro das contas públicas, que, na autópsia feita por Mansueto, Lisboa e Samuel, virou uma gripe. Dilma, Lula, Mantega, Dirceu, Delúbio, Vaccari e companhia podem dormir com o texto do trio na cabeceira: as obras completas do bando não são nem uma marolinha na crise fiscal brasileira.

Naturalmente, o mercado e outras criaturas do mundo real não cantam essa cantiga. Uma das principais agências de risco acaba de colocar o Brasil em perspectiva negativa — mais um sinal de desconfiança diante da rave dos aloprados no Planalto. Ou não: talvez a Standard & Poor’s também ache que a Lava-Jato faz mal ao PIB.

A alegação de que a catástrofe fiscal brasileira seria a mesma sem as peripécias do PT no poder, feita por economistas notáveis, é o melhor presente que os delinquentes da estrelinha poderiam receber. O Brasil não liga muito para corrupção, e a chapa está quente para o governo petista por causa da ruína econômica que os companheiros plantaram. Mas se os acadêmicos que encantam os tucanos aparecem dizendo que a bomba-relógio não tem dono, Dilma pode continuar pedalando à vontade — e dizendo que a bicicleta é do Fernando Henrique.

O paper de Mansueto Almeida, Marcos Lisboa e Samuel Pessoa sustenta que a explosão da carga tributária vem de antes do reinado petista. É fato. Só que o aumento de impostos no Plano Real, por exemplo, foi parte de um ajuste fiscal que permitiu a estabilização da moeda — e melhorou a vida dos brasileiros. Já o aumento de impostos no presente serve a um ajuste fiscal mambembe para bancar a farra companheira — que piorou a vida dos brasileiros. Um detalhe.

Outro detalhe: o PT atropelou a meta fiscal, criada pelo governo anterior, fazendo o superávit primário dançar conforme as suas malandragens contábeis. Se o jogo é calcular o tamanho do tombo no futuro próximo, como não botar na conta esse coeficiente perdulário — mais uma exclusividade petista?

Está todo mundo de cabelo em pé com a radiografia do trio de economistas, menos Dilma e seus companheiros. Tudo o que eles precisavam era ter as melhores cabeças do país dizendo que seu governo vampiresco é igual aos outros. Assim, a mulher sapiens poderá continuar por aí, numa boa, dobrando metas que não existem.

O ajuste sobre os ricos

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Não há outro caminho para relançar as bases para o crescimento da economia: é o ajuste mais as reformas

A economia brasileira vai afundando no rombo das contas públicas, na disparada da inflação e na quebra dos investimentos que bloqueiam o crescimento, a renda e o emprego.

A política em vigor, o ajuste colocado em prática pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é insuficiente para obter o reequilíbrio das contas públicas e para relançar as bases para o crescimento. Não há outro caminho: é o ajuste mais as reformas.



Não se pode dizer que não foi tentada outra rota. Desde 2010, o governo do PT colocou em marcha a Nova Matriz Macroeconômica. Foi o que levou a economia ao atoleiro porque se baseou no consumo cevado a subsídios, no crédito fácil e nos juros artificialmente baixos.

Ainda há gente, principalmente entre as chamadas esquerdas brasileiras, que repudia a atual política econômica da presidente Dilma que, embora tardiamente, passou a distribuir a conta da má gestão anterior para a população.

Um desses exemplos de ataque à atual política econômica é do ex-governador do Rio Grande do Sul o petista Tarso Genro. Mas ele não sabe o que propor em troca, como se vê há meses por suas intervenções e que foi corroborado pela entrevista publicada domingo no Estadão.

O ex-governador, que quebrou o Rio Grande a ponto de obrigar seu sucessor a deixar de pagar o funcionalismo público, quer um ajuste que onere só os ricos. A proposta dele é passar a cobrar uma taxa sobre patrimônio; aumentar substancialmente o imposto sobre herança; taxar os ganhos financeiros e impor as reformas. Ele não diz o que pretende das reformas, mas o resultado do que imagina não deve ser diferente das propostas que vem fazendo.

É pobre o ajuste que dependa só dos ricos. Se for concentrado em mais impostos sobre patrimônio, que nenhum país sabe como cobrar; se depender da arrecadação do imposto sobre herança, que precisa esperar que o proprietário morra; e se avançar sobre a renda financeira - que, portanto, alcance fundos de investimento, fundos de pensão e a poupança da classe média -, o ajuste será miserável e, como tal, ineficaz.

Nem os Estados Unidos, nem a área do euro, nem o Japão propuseram receitas parecidas com essas e, no entanto, vêm conduzindo a recuperação que pode ser lenta, mas é segura e sustentável.

Agora que a opção socialista ficou inviável, ex-marxistas, quando assumem funções de governo, têm dificuldades para eleger políticas que garantam fundamentos sólidos para o crescimento e para o emprego. Agarram-se a opções que supõem ser keynesianas, que se baseiam na expansão do consumo obtida por aumentos de despesa pública, sem antes examinar a real situação do Tesouro e sem garantir a expansão da oferta de mercadorias, de serviços e de empregos.

Não existe a opção em que insistiu o partido Syriza à frente da Grécia neste primeiro semestre. A rejeição de um programa construído sobre princípios de responsabilidade fiscal implicou a aceitação de pacote ainda mais duro do que o que foi recusado.

Não dá nem para perdoá-los por não saberem o que fazem, porque já sabem o que fizeram e já viram que deu errado.

CONFIRA:


 Aí está o desempenho da balança comercial (exportações menos importações) nos últimos 12 meses.

Subindo
O saldo comercial é positivo e está subindo. O superávit nos sete primeiros meses do ano alcançou US$ 4,6 bilhões. Mas está sendo construído em consequência da forte queda do consumo. As exportações nesse período recuaram 15,5%, mas as importações caíram ainda mais: 19,5%. A derrubada dos preços das commodities mostra impacto nas vendas de produtos básicos: queda de 21,7%. A de industrializados foi de 8,5%.

PT comprometeu a economia por, no mínimo, dez anos

Wagner Pires
Tribuna da Internet

O economista João Sayad, ex-ministro do Planejamento, está sendo otimista demais, esperando que haja crescimento a partir de 2018. É só lembrar que a cada ano que Dilma deixa de executar o corte de gastos correntes, sem promover, de fato, o ajuste fiscal, na prática, ela empurra para frente – o correspondente a três exercícios, ou três anos – a possibilidade de recuperação econômica.

Portanto, como em 2015 a tentativa de obtenção de Superávit Primário já é um fiasco, temos mais três exercícios – 2016, 2017 e 2018, no mínimo – comprometidos com o ajuste, que deve ser perseguido em escala crescente nesse período. Até que se obtenha o montante suficiente para cobrir os juros da dívida.

E enquanto a inflação não der trégua a taxa básica de juros brasileira não vai cair, induzindo o padrão recessivo por falta de investimento e ampliação do consumo.

RETOMADA DO CONSUMO
Além disso, depois da inflação dominada, demandará um bom tempo até que a política de rendas dê ao brasileiro condições de retomada no crescimento do consumo, podemos dizer que esperar crescimento para 2018 é sim uma posição muito otimista do Sr. Sayad.

Na verdade, o PT já comprometeu a economia por, no mínimo, dez anos, desconsiderando, isso, os primeiros quatro anos de Dilma. Todos os fundamentos do equilíbrio econômico deterioraram, e só não estamos pior, porque ainda temos alguma reserva cambial.

ESGOTAMENTO DAS RESERVAS
Outra coisa em relação à declaração do Sr. Sayad, a perda do grau de investimento num primeiro momento é de fato a desvalorização cambial (aumento da cotação do dólar) que já está acontecendo mesmo antes da queda da gradação pelas agências de risco.

Mas, num segundo momento o perigo que está se avizinhando é o esgotamento das nossas reservas e a provável futura necessidade de termos de recorrer ao FMI e nos submeter a um arrocho fiscal e monetário muito maior, a beira do insuportável, como já vivemos no segundo período do governo de FHC, quanto tivemos que suportar um ajuste imposto pelo Fundo Monetário Internacional para preservar o real.

Só que agora o sacrifício não será por uma causa justa, como a manutenção do equilíbrio monetário, mas, pela irresponsabilidade, pelo amadorismo e mesmo pela maldade de um grupo político que está nos empurrando para o abismo econômico-social.

As agruras do PT ao som de panelaços

Editorial
O Globo

Um programa sem referência à corrupção, tema central do partido, fraco na argumentação e irônico, artifício da arrogância, evidencia a falta de rumo do partido

Nem o militar mais furioso da ditadura de 64 fez tanto mal à esquerda quanto o PT, na sua vertente lulopetista. Por um desses paradoxos, o mesmo partido que se mantém no poder por 13 anos consecutivos, índice para o Guiness da República brasileira, é que, por sólidos motivos, desmonta o ideário de um projeto de poder estatista, para o “bem do povo", e na democracia. Um sonho da esquerda mais civilizada, na Era pós-soviética.

Ainda é cedo para se conhecer toda a crônica dessa trajetória do apogeu à crise, mas é possível mapear pontos cardeais da debacle. Como acontece na História, a inflexão da curva para baixo é acompanhada de arrogância e incapacidade de entender a realidade. No caso, devido a cacoetes ideológicos. Lula e PT foram hábeis e sensíveis ao adotar a terapia econômica indicada, “neoliberal”, para combater o surto de inflação deflagrado em 2002, na campanha presidencial, e provocado pelo temor dos mercados diante da própria ascensão de Lula e PT.

Tiveram, ainda, sorte de surfar a mais vigorosa onda de crescimento mundial sincronizado do pós-Guerra, puxada pela expansão americana com inflação baixa e conversão da China a leis de mercado (mas não à democracia). Porém, foi mais forte a ideologia, e Lula, a partir do segundo mandato, pendeu para o capitalismo de Estado, velho projeto da esquerda verde e amarela e dos militares nacionalistas desde o tenentismo, tendo ao lado a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, que, eleita, radicalizaria o modelo batizando-o de “novo marco macroeconômico". Os resultados estão aí, e não adianta culpar o mundo, pois os Estados Unidos se recuperam e até mesmo países europeus como Irlanda, Espanha e Portugal voltam a dar sinal de vida.

Na vertente política da crise do PT, destacam-se o mensalão e o petrolão, um mesmo esquema de desvio de dinheiro público via estatais, a Lava-Jato começa a deixar claro, para financiar o projeto de poder do lulopetismo e satélites à direita e à esquerda. Por si só uma excrescência. Mas evidências de que o dinheiro do projeto lulopetismo, a “causa”, também financiou o alto padrão de vida de pelo menos um líder importante, José Dirceu, têm sido um golpe bastante forte no partido.

Sobre o assunto, nenhuma palavra no programa do PT de quinta-feira. O silêncio foi retumbante. Em vez disso, argumentos fracos, como propor medir quem erra menos, PT ou a oposição, e ironias com os panelaços — isso no momento em que vários ecoavam em muitas cidades importantes. Não é aconselhável partir para a ironia, irmã da arrogância, quando o principal nome do partido no poder, Dilma Rousseff, ostenta os mais baixos índices de popularidade de um presidente brasileiro.

É difícil o dever de casa do PT, mas o partido precisa fazê-lo. E ele começa pela necessidade de apoiar o próprio governo, pois a sua ruína jogará o partido de volta a seus grotões: sindicatos e movimentos sociais. Sem perspectiva de volta.

O fim da governabilidade

Sérgio Pardellas 
Revista ISTOÉ

Procura-se um governo. Vice-presidente clama por diálogo nacional e admite, pela primeira vez, a gravidade da crise. O governo perde apoios no Congresso e líderes aliados procuram a oposição para discutir o pós-Dilma

Líderes governistas procuraram integrantes da oposição, na semana passada, para discutir o futuro sem Dilma Rousseff na Presidência. Pareciam guiados pela célebre frase de Goethe – o poeta, escritor e dramaturgo alemão Johann Wolfgang Von Goethe (1749-1832) – segundo a qual “é melhor um fim com horror do que um horror sem fim”. O encontro ocorreu na noite de terça-feira na casa do ex-senador Tasso Jereissatti. Na conversa, concluíram que o afastamento Dilma, seja por renúncia ou por meio de um processo de impeachment, é inevitável diante das circunstâncias políticas. Daí em diante, dedicaram-se a esquadrinhar os cenários mais apropriados para pôr fim à crise político-econômica que assola o País. Um grupo, composto pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, e pelos senadores do PMDB Romero Jucá e Eunício Oliveira, defende a solução Michel Temer, pela qual o vice-presidente comandaria a transição até as eleições de 2018, a exemplo do que ocorreu em 1993 com Itamar Franco, depois do impeachment de Fernando Collor. Outra ala, liderada pelo presidente do PSDB, Aécio Neves, presente no encontro, assim como os senadores José Serra e Cássio Cunha Lima, acredita que o substituto de Dilma só terá legitimidade se chancelado nas urnas a partir da convocação de novas eleições – o que só ocorreria, porém, na hipótese de condenação da chapa pelo TSE. “O PSDB está defendendo novas eleições por acreditar que esse é o único caminho que legitima um novo governo. Não haverá outra saída a não ser pelo voto popular. Não será com um acordo político, um conchavo, um entendimento entre partidos que chegaremos a uma solução para o fim da crise”, disse Cunha Lima, partidário da tese de Aécio.

A discussão sobre o pós-Dilma com a participação de expoentes do PMDB, maior partido da base de apoio, foi o sinal mais visível, exibido na última semana, de que a governabilidade da presidente foi para os ares, mas não o único. Na noite seguinte, em outra reunião no restaurante de um hotel em Brasília, desta vez envolvendo apenas integrantes da bancada do PMDB, obteve-se o mesmo consenso: o de que Dilma não termina o mandato. Dessa forma, o partido deveria acelerar o rompimento com o governo, inicialmente marcado para 2018, defendeu o deputado Geddel Vieira Lima, ex-vice-presidente da Caixa Econômica. 

O encontro do PMDB foi embalado pelas mais eloquentes declarações dadas até então pelo vice-presidente Michel Temer. Horas antes da reunião dos peemedebistas, Temer fez um apelo ao diálogo e disse que o País necessitava de alguém com capacidade de reunificar todos. “Caso contrário, podemos entrar em uma crise desagradável”. Para integrantes do Congresso, o vice sinalizou estar convencido de que o fim da crise passaria necessariamente pela saída de Dilma. Temer nega, mas, utilizando uma linguagem típica de mercado, no meio político é como se a queda de Dilma já estivesse precificada, o que só piora a situação para ela.



O clima de fim de feira leva aliados a precipitarem a saída da nau governista. Foi o que aconteceu com o PDT e o PTB. Cada legenda arrumou uma motivação para anunciar a deserção do governo na noite de quarta-feira 5.“Fomos frontalmente contra as medidas provisórias 665 e 664, que reduziam direitos ao seguro-desemprego e à pensão por morte. Temos tomado uma postura claramente a favor dos servidores públicos”, justificou o líder do PDT, deputado André Figueiredo. Já o líder do PTB, Jovair Arantes, disse que a bancada decidiu oficializar a independência em relação ao governo por sentir que não é “tratado como base aliada”. “O tratamento com o governo é de dificuldade, de ministro que não recebe deputado. E isso vai aborrecendo. Entendemos que o governo tem que ouvir e chamar para conversar”. 

Com as duas defecções, o que restou da bancada governista sofreu sua mais fragorosa derrota do ano na noite de quarta-feira 5. Na chamada “noite dos horrores”, os parlamentares colocaram em votação uma proposta da pauta-bomba do Congresso que vincula o salário de três corporações — advogados da União, delegados da Polícia Federal e delegados de Polícia Civil — a 90,25% dos contracheques dos ministros do STF. Foi um massacre: 445 a 16. Até mesmo o PT contribuiu para a aprovação da proposta. Como se não bastasse a escalada de más notícias, no fim da semana o Datafolha revelou uma desaprovação a Dilma de 71%, superando a de Collor no auge do impeachment em 1992.



O que se vislumbra no horizonte é um cenário ainda mais sombrio para o governo. Sedento de vingança desde que virou alvo da Lava Jato, o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), limpa o terreno para votação das contas de 2014 de Dilma, caso sejam reprovadas no TCU no dia 19. O parlamentar do PMDB também abre espaço para eventuais pedidos de impeachment, em acordo tácito com a oposição. Senhor da pauta da Câmara, Cunha é quem ditará o ritmo de todo o processo. A tensão política deve aumentar ainda mais a partir da manifestação marcada para o dia 16 de agosto (leia mais à pág. 40) quando, pela primeira vez, os protestos ganharão a adesão formal de partidos da oposição. Para completar, ainda existe o temor de que novas delações premiadas no âmbito da Lava Jato possam implicar ainda mais o PT e o governo. Como vacina, ministros tentam convencer a presidente a fazer uma declaração pública reconhecendo erros cometidos durante sua gestão. É, realmente, um horror sem fim.




Fotos: Wilson Dias/Agência Brasil; Romerio Cunha/VPR; Wilton Junior/Estadão Conteúdo, Alex Ferreira/Câmara dos Deputados; Marcos Oliveira/Agência Senado 

Mercadante (agora) quer 'Brasil competitivo'

Ana Clara Costa, Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

(Ueslei Marcelino/Reuters)
 O ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, 
durante entrevista coletiva em Brasília 

O ministro-chefe da Casa Civil, Aloizio Mercadante, disse nesta quarta-feira que o mercado financeiro pune quem não tem eficiência. O petista pediu, mais uma vez, a ajuda do Congresso para aprovar medidas do ajuste fiscal e rejeitar projetos que aumentem os gastos do governo. "O Brasil tem de ser mais competitivo, e o Congresso tem que ajudar", afirmou em audiência pública na Câmara, na Comissão de Minas e Energia. Quem compara a fala do ministro hoje com seu discurso durante o período eleitoral, há de pensar que Mercadante perdeu a cabeça (ou, quem sabe, recuperou o juízo). Para que se tenha uma indústria competitiva, é preciso seguir uma cartilha ortodoxa de reformas e uma política industrial que não beneficie alguns setores em detrimento de outros, sem medidas protecionistas que tornem o Brasil o único consumidor de sua própria produção. Ao longo de todo o governo da presidente Dilma, Mercadante amparou todas as empreitadas anticompetitivas, usando como argumento a retórica da proteção ao emprego. Agora, período em que o país é acionado na OMC por práticas anticoncorrenciais, o ministro dá mostras de que pode aderir à ortodoxia.

A constatação de Mercadante, que é economista graduado e pós-graduado, indica uma mudança brutal de postura em menos de um ano. Ele já havia dado mostras de seu pensamento, digamos, liberal em março deste ano, quando defendeu que o Congresso votasse rapidamente as medidas de ajuste para que o país não perdesse o grau de investimento. "Ajuste fiscal é mais ou menos como ir ao dentista. Ninguém quer, mas tem que ir. Quanto mais rápido, melhor para o país", disse.

Logo após a reeleição de Dilma, o discurso do ministro era bem diferente. Em entrevista concedida ao jornal Valor Econômico, Mercadante não só criticou as medidas de ajuste, como disparou contra a oposição que, segundo ele, não hesitaria em aplicar políticas impopulares - e rápido. "A oposição não consegue ter uma visão que não seja economicista de manual. PIB para o povo é emprego e renda. Dizer, como está dizendo, que é preciso tomar medidas impopulares e que quanto mais rápido isso for feito, menor será o custo… menor para quem?", questionava o ministro. Enfático, chegou a prometer: "Nós não faremos uma política ortodoxa e recessiva. Essa é a diferença de fundo". Hoje, a previsão do governo é de que a economia recue, pelo menos, 1,5% este ano.

A entrevista de novembro de 2014 continua com trechos primorosos sobre inflação, recessão e reajuste de preços da energia e da gasolina:

- Inflação: 
"Quanto à inflação, eu acho que temos todas as condições de cumprir a meta deste ano".

- Recessão: 
"Tivemos uma desaceleração importante no primeiro semestre, mas indicadores antecedentes estão mostrando uma recuperação moderada mas importante da economia nos últimos meses. Há um problema de expectativas que só resolveremos depois da eleição. Com um novo governo eleito e uma nova equipe, você restabelece condições de negociação e diálogo e de mais confiança ao investimento".

- Aumento da conta de luz: 
"O que nós dizemos é que não existe um represamento de preços que exija um choque imediato. É isso que estamos dizendo o tempo inteiro". E mais: "O aumento da energia teve um custo, mas é muito menor do que o racionamento imposto pela falta de planejamento e pelo modelo regulatório que o PSDB teve no passado".

- Preço da gasolina: 
"Você tem que ter critérios um pouco mais consistentes de reajuste de preços porque a energia é um elemento estratégico em termos de competitividade para a indústria. Os reajustes da gasolina têm sido feitos anualmente. Houve aumento em dezembro de 2012, em janeiro de 2013. Os critérios [de reajuste] têm que ser de política energética para o desenvolvimento do país".

Nem milagre econômico salva o PT, avalia Lula

Exame.com
Ricardo Galhardo e Ana Fernandes, Estadão Conteúdo

Paulo Fridman/Bloomberg News
Em reunião com deputados e dirigentes petistas, Lula falou sobre a situação econômica
 do país durante o Mensalão e afirmou que nem um milagre nas finanças
 do governo pode salvar a gestão de Dilma dos efeitos da Lava Jato

São Paulo - O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliou na quarta-feira, 5, em reunião com deputados estaduais e dirigentes petistas, em São Paulo, que, ao contrário do escândalo do mensalão, em 2005, quando o bom desempenho da economia ajudou o PT a superar a tempestade e vencer a eleição do ano seguinte, os efeitos da Operação Lava Jato não poderiam ser suplantados nem por uma repentina e milagrosa melhora das finanças sob a gestão Dilma Rousseff.

Conforme o cenário projetado pelo ex-presidente, a diferença é que, desta vez, existem indícios de enriquecimento pessoal dos envolvidos nos desvios da Petrobras, ao contrário do que ocorreu no mensalão, cujo objetivo, segundo Lula, era financiar o "projeto político" do PT.

Lula se reuniu na quarta-feira com os 14 deputados estaduais do PT de São Paulo e os presidentes nacional e estadual do partido, Rui Falcão e Emídio de Souza, na sede do Instituto Lula, no Ipiranga, zona sul de São Paulo.

Lula não citou nominalmente em momento algum o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, preso na segunda-feira pela Lava Jato sob suspeita de receber dinheiro desviado da Petrobras para pagar despesas pessoais como viagens de avião e reformas de imóveis.

Os dois não se encontram pessoalmente desde antes da primeira prisão de Dirceu, pela condenação no processo do mensalão, em novembro de 2013.

A fala de Lula, no entanto, foi interpretada como uma referência à prisão do ex-ministro. Participantes notaram diferenças em relação ao discurso de Lula antes da prisão do ex-ministro, quando o ex-presidente dizia que, se Dilma e a economia saíssem da crise, levantariam o PT.

Agora, ao contrário de 2005, Lula avalia que a economia pode reerguer o governo, mas não é suficiente para salvar o PT. O enriquecimento pessoal de envolvidos na Lava Jato diferencia o partido das demais legendas e o PT precisa de uma nova "narrativa" para explicar os desvios.

Ainda segundo relatos, Lula chegou a dizer que confia nos companheiros presos, fez a ressalva de que é preciso provar as suspeitas de enriquecimento pessoal e reclamou várias vezes dos "vazamentos seletivos" contra o PT.

Para o ex-presidente, diferentemente do mensalão, quando o até então insuspeito PT foi jogado na vala comum dos partidos que praticam caixa 2 eleitoral, a Lava Jato diferencia a sigla das demais legendas, o que dificulta a elaboração do discurso de defesa.

"Não entendo como pode o dinheiro da mesma empresa ser sujo para o PT e limpo para outros partidos. É como se tivessem dois caixas. Um para o PT e outro para o PSDB", disse Lula.

Segundo participantes, Lula ouviu atentamente avaliações e sugestões de cada um dos convidados durante mais de uma hora e só então falou, por aproximadamente 20 minutos. "Ele está claramente em processo de consulta, procurando o discurso", afirmou um deputado.

Apesar do tom "duro e cru" adotado em sua avaliação, nas palavras de um dos convidados, o ex-presidente também apontou sinais otimistas.

Economia
Para o ex-presidente, a recuperação da economia é uma "certeza absoluta" e pode ocorrer antes do que foi previsto inicialmente pelo próprio governo, a depender das condições internacionais.

A recuperação da economia seria suficiente para afastar as ameaças imediatas contra Dilma - Lula também não usou a palavra impeachment - e garantir o término do mandato.

O petista também fez uma análise positiva sobre o comportamento da presidente Dilma Rousseff diante da crise. Segundo ele, a presidente passou a dar mais atenção aos políticos, se abrindo ao diálogo e rompendo o isolamento que marcou o primeiro mandato dela.