sexta-feira, agosto 28, 2015

A verdade sobre a dívida do Brasil – 1ª Parte

Adelson Elias Vasconcellos

Dada a extensão o texto, resolvi dividi-lo em duas partes. Creio ser mais absorver a importância do tema. E faço porque, no fundo, senhoras e senhores, esta dívida nos afeta, porque  é no nosso bolso que ela vai arder.

Além disto, se o montante da dívida atual se justificasse por ter sido aplicada em infraestrutura, qualificação dos serviços públicos, saneamento básico, dentre outras melhorias que elevasse o padrão de vida dos brasileiros, vá lá: a gente até entenderia. 

Contudo, sabemos muito bem que não foi isso que aconteceu. Não pensem que são os investimentos que tornam tão elevados os impostos, ou a melhoria da saúde, educação, segurança, etc.  Hoje, a dívida consome cerca de 50% da arrecadação, e assim mesmo apenas para pagar sua rolagem. Portanto, se você pensa e sonha em um dia ter a carga de impostos reduzida, pare de sonhar. Pela situação que chegamos, isto não vai acontecer tão cedo. 

Faz tempo que o blog prometeu tratar deste tema espinhoso que é a divida do Brasil, seja interna ou externa. Como o governo brasileiro não é dos mais transparentes em termos de informações, foi preciso percorrer uma longa jornada para chegarmos à verdade. 

De certa forma, já desmascaramos a mentira contada por Lula, quando ainda presidente, sobre o tal pagamento da dívida externa e a quitação dos empréstimos junto ao FMI. Só eu sei o quanto apanhei na ocasião. Porém,  de posse de dados concretos, podemos afirmar que estávamos certos. 

No fundo, o Lula presidente nunca pagou dívida nenhuma como vociferou aos quatro cantos do planeta. O truque foi trocar uma dívida relativamente pequena, mas barata, por outra mais cara, bem mais onerosa para o país. Ou, em outras palavras, deixamos de pagar uma dívida a juros baixos, 4% ao ano, para assumir outra, a 18% ao ano. Se isto for sinal de inteligência, me desculpem, mas vou passar a chamar jumento de doutor!!!! 

Se o leitor tiver paciência e pesquisar no arquivo do blog encontrará alguns textos nossos sobre o assunto. Eles são bem antigos.

Na segunda feira, logo após o anúncio pelo Banco Central de que a dívida do país atingira R$ 2,6 trilhões, fizemos nova tentativa de ir em busca dos fatos reais sobre a dívida. Porém, fomos atropelados pela entrevista a jornais dada pela “presidenta”,  sobre a qual comentamos em texto  próprio. Porém, um número informado pela presidente não foi possível engolir que é o montante do orçamento da União gasto com Previdência.  Assim, é necessário um parênteses. 

Dilma, dentre tantos disparates, passou ao público uma informação totalmente equivocada. Disse que a Previdência Social consome, sozinha, 55% do orçamento da União. Já nem quero saber quem transmitiu este número para a presidente. Considerando-se a desinformação do Ministro do Trabalho sobre de emprego/desemprego, não me surpreenderia que o dado sobre previdência fosse transmitido pelo ministro da própria pasta. Doloroso reconhecer que o Brasil elegeu uma presidente que além de medíocre, é desinformada sobre a realidade do país que governa e usa a mentira como arma preferencial para tentar defender o indefensável, a de que seu partido e seu governo estão fazendo o país andar para trás. 

Segundo o site  da ONG , AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA, abaixo segue quadro com a repartição do Orçamento da União, versão 2014.

Orçamento Geral da União (Executado em 2014) – Total = R$ 2,168 trilhão



Reparem lá: em juros e amortizações da dívida consumiram, em 2014,  45,11% da arrecadação federal, enquanto a coitadinha da Previdência  não chegou nem a 22%, portanto menos da metade do número informado pela senhora presidente. Assim, fosse real o número informado pela soberana, 55,0%, teríamos a condição grotesca de consumir, com o serviço da dívida mais os encargos da previdência,  a extravagância  de 100,11% (???) da arrecadação federal, o que seria uma monstruosidade, não é mesmo?. 

Considerando-se tudo o que teria ainda que ser pago, inclusive os gastos e transferências obrigatórias, além do próprio funcionalismo, seria o caso de se dizer que “fecha esta birosca que o país faliu”. Como não é o caso, e para melhor informar e tranquilizar  o grande público, estamos fazendo aqui o devido reparo.  

Mas retomo o tema sobre a dívida brasileira. O blog entrou em contato com a ONG, AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA, através de e-mail, pedindo esclarecimentos sobre qual a dívida real do país. E o fizemos  considerando que o Banco Central, no início da semana, informara que a dívida seria de R$ 2,6 trilhões, enquanto o próprio site da ONG  informava a seguinte composição da dívida brasileira:

Estoque da dívida - jun/2015

Interna: R$ 3.585.829.906.868,44
3 TRILHÕES, 585 BILHÕES, 829 MILHÕES, 906 MIL, 868 REAIS E 44 CENTAVOS

Externa: US$ 554.963.473.388,75
554 BILHÕES, 963 MILHÕES, 473 MIL, 388 DÓLARES E 75 CENTAVOS 

Ora, entre 2,6 trilhões que é a informação oficial, e aquela que a ONG considera, de 3,5 trilhões,  há uma diferença brutal entre os dois dados. Foi por essa razão que solicitamos que a Auditoria Cidadã da Dívida nos esclarecesse seu número, para verificarmos qual dado está correto.

Na segunda parte deste texto, vamos às devidas explicações. Adianto que os números estão certos tanto de um lado quanto de outro. A diferença está entre o governo desconsidera do cálculo final que,  a nosso ver, como que maquia a dívida total. Porque, afinal de contas, dívida é divida, não importando quem deve para quem. Assim, parece-nos que os números fornecidos pela ONG, AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA,  é que são os corretos e isto significa que o Brasil já ultrapassou os 100% do PIB em endividamento.

Aliás, quero aqui agradecer ao Rodrigo Avila, da AUDITORIA CIDADÃ DA ATIVA, por ter atendido o nosso pedido e ter nos enviado as devidas explicações que serão expostas na continuação deste texto, que apresentaremos ao final da edição de domingo.AGUARDEM..

A mentira grotesca do Ministro do Trabalho e uma sugestão final

Adelson Elias Vasconcellos


Manoel Dias, ministro do Trabalho, 
enrolado nos números de sua pasta.

No blog do Noblat, há um texto de Edjalma Borges, no qual ele dirige quatro perguntas bem simples ao, por enquanto,  ministro do Trabalho, senhor Manoel Dias, sobre emprego e mercado de trabalho brasileiro.

Um ministério deveria ser formado por pessoas sérias, competentes e com grande capacidade e formação técnica de reconhecida reputação nas áreas de sua atuação. Contudo, quando se tem um ministro como o senhor Manoel Dias não se pode esperar grande coisa. Este cidadão de fala mansa e fácil, sequer é capaz de reconhecer o mundo ao seu redor, quanto mais encontrar soluções para os problemas existentes que lhe digam. Tanto é assim que, se na reforma administrativa anunciada, mas sem nenhuma definição por ainda estar em “estudos”, a senhora Rousseff resolver extinguir o Ministério do Trabalho, dada não só a inutilidade do ministro como ainda o esvaziamento que a pasta sofreu nos últimos anos, ninguém sentirá falta e,  muito menos, saudades. Hoje, toda a política trabalhista desenvolvida pelo governo petista é ditada pela CUT, para o bem e para o mal, cuja ascendência  e maior poder de decisão superam a quase nenhuma autoridade do ministro.

Uma das questões apresentadas ao senhor Manoel foi esta:  Como fica a questão da sua permanência no ministério com a saída do PDT do governo?

E eis a pérola solta como resposta:  A decisão de eu permanecer não está em discussão. É algo, porém, que cabe primeiro ao partido e depois a presidente

Para tudo, parem as máquinas. Quer dizer que o ministério da presidente não é escolhido por ela, e sim, pelos partidos? Isto nos leva a crer que os partidos é quem tem maior poder do que a  própria presidente, certo? Não é à toa que o país está virado de cabeça para baixo, e chegamos a tal ponto de irrelevância!!! Santo Deus...

Mas a maior batatada ainda estava por vir. Para a questão  “Como o senhor avalia o crescente desemprego no país?”, eis a resposta do ministro:

É um momento de preocupação, mas também não podemos ignorar que o Brasil nesses últimos 12 anos gerou 23 milhões de novos postos de trabalho e ainda mais importante que a geração foi o aumento real do salário, 76,5% acima da inflação. Nós hoje temos 50 milhões de trabalhadores formais no Brasil e destes no primeiro semestre, 400 mil deixaram de existir. Estamos empreendendo políticas ativas, construindo programas que visam recuperar a capacidade de investimento e por via de consequência a geração de novos postos de trabalho.

Em tão poucas linhas, uma coleção enorme de disparates!

Primeiro, onde ele foi buscar esta fantástica geração de 23 milhões de empregos nos 12 últimos anos, é difícil de imaginar. Se foi nas estatísticas do ministério que comanda (ou faz de conta), sem dúvida que eliminar a pasta do Trabalho se torna uma necessidade imediata. Não presta nem para fazer conta. Se a tentativa foi vangloriar-se, creio que o ministro escolheu a munição errada. 

Em maio de 2014, o jornal O Estado de São Paulo, publicou um texto primoroso sobre o tema “Salário mínimo”.  A quem interessar, eis aqui o link para acesso. 




Na matéria, é exibido o quadro acima quadro bem explicativo, sobre o aumento do salário mínimo quando comparado com a inflação, considerando-se o período de 20 anos. De fácil leitura e conclusão, se percebe que, enquanto o salário mínimo cresceu no período 1.019,2%, quando descontada a inflação do período, a alta se reduz a 146%, segundo pesquisa do Instituto Assaf. De acordo com o estudo, houve aumento real do poder de compra dos salários, mesmo com a inflação corroendo boa parte dos reajustes.

No período, o salário mínimo passou de R$ 64,79 em 1994 para R$ 724 nos dias atuais. 

Mas não podemos ficar apenas nisso. Até o final do governo FHC, a tabela de imposto de renda na fonte ficava isenta até 5 salários mínimos,. A partir de 2003, com a chegada do PT, a tabela foi sendo progressivamente  defasada, ao ponto de que hoje a isenção chegar a menos da metade, isto é, menos de 2,5 salários. Assim, pergunto: de que vale aumentar de um lado, e expropriar de outro? Informação à parte: segundo auditores fiscais, a defasagem da tabela do imposto de renda é atualmente superior a 60%, ou seja, o que os  governos Lula/Dilma deram com uma das mãos, arrancaram com a que sobrou e mais os dois pés.

Mais: fazendo de conta que o cálculo de valorização real do salário mínimo seja aqueles  76,5% acima da inflação,  dito pelo ministro, pergunta que se impõe: como a valorização real no período dos últimos 20 anos foi de 146%, a quem competiu conceder a diferença? Reparem: se em 12 anos de PT, o aumento real de foi de 76,5%,  concluiu-se que com FHC,  em oito anos,  o aumento real foi de 69,5%, certo? Como FHC não corroeu os ganhos com aumento de carga tributária via imposto na fonte, fica claro que oito anos de FHC fizeram pelo trabalhador muito mais que os 12 do PT.  E um detalhe a acrescentar: enquanto os oito anos de FHC foi de arrumação da casa e com a economia mundial crescendo na média anual entre 2,5 a 3,0%,  Lula já recebeu o país com a economia estabilizada e o PIB mundial crescendo acima de 5% entre 2003 a 2008. Portanto, Lula fez menos podendo ter feito mais,  isto é um fato conclusivo.,  

Mas o que revela a completa desinformação (ou seria má fé?) do ministro está na afirmação de que “... Nós hoje temos 50 milhões de trabalhadores formais no Brasil e destes no primeiro semestre, 400 mil deixaram de existir...”.

Segundo o próprio IBGE, temos no Brasil pouco mais de 25,0 milhões de trabalhadores formais em plena atividade e cerca de 2 a 3 milhões de desempregados que ainda procuram emprego.  Creio que o ministro somou na sua aritmética torta trabalhadores formais e informais.  E acrescento: fossem 50 milhões de trabalhadores formais, com carteira assinada e direitos garantidos, acreditem, o déficit da Previdência teria se transformado num monumental superávit  o que justificaria reposições maiores nos valores das aposentadorias da iniciativa privada.

E, não, senhor Manoel Dias, não foram apenas 400 mil empregos que foram fechados, foram mais de 700 mil.

Se o ministro ou o seu ministério quiser contestar os números acima, fica o espaço disponível o quanto desejarem para os devidos esclarecimentos. E até que haja contestações aos dados aqui lançados, deixamos uma sugestão ao ministro Manoel Dias: ou peça para sair por desconhecer completamente os temas a que  sua pasta está imbuída, ou, da próxima vez que conceder entrevistas, não passe atestado de mentiroso: informe-se melhor. 

É bom o governo não se descuidar do campo

Adelson Elias Vasconcellos

Para quem tem olhos de ver e ouvidos de ouvir, não ignora que a recessão brasileira só não começou antes do segundo semestre de 2014 por conta da atividade agropecuária que, aliás, vem levando a economia brasileira nas costas faz tempo. 

Durante o tempo em que a nossa moeda esteve sobrevalorizada em relação ao dólar, fizemos muitos comentários e postamos inúmeros textos  criticando a postura do governo do ex-presidente Lula, dado que não seria com importações baratinhas que a inflação seria contida. Também com o represamento de tarifas como foi a postura adotada por Dilma no seu primeiro mandato.

Tanto não deu certo a tal política de “controle da inflação”, num e noutro caso, que ela ao beirando os dois dígitos e sem pressa de ir embora. 

Contudo, as manobras para conter o câmbio artificialmente, produziram dois desastres internos: um, pelo lado da indústria nacional que passou a perder espaço tanto interna quanto externamente. Inúmeros institutos apontaram que as importações passaram a ocupar cerca de 25% dos produtos oferecidos no comércio nacional. E as exportações, tanto de manufaturados quanto de semimanufaturados,  simplesmente sumiram de nossa pauta de exportações. Nossos excedentes de comércio exterior passaram a depender de modo único das commodities agrícolas e minerais. E, assim, mesmo, muito pelo seu alto preço internacional e alto consumo dos países emergentes, principalmente, China e Índia. 

Já de uns dois anos para cá, a economia chinesa vem dando mostras de arrefecimento. Basta compararmos os números do crescimento de seu PIB entre 2002 a 2008 com os de 2012 para cá. Isto, é claro, impactou o comércio externo brasileiro de produtos agrícolas, soja  e minerais, minério de ferro. 

Contudo, nossas dificuldades econômicas não se deve a redução de crescimento da China e, sim, pela falta de visão estratégica de médio e longo prazos,  o abandono completo das reformas estruturais, a brusca queda da produtividade da indústria e, claro, as medidas desastrosas do governo Dilma. 

Mas nada que está ruim pode ficar pior ainda. O Brasil já deveria ter se precavido para a redução do ritmo chinês.  Tal redução resultaria num volume menor de vendas e num volume menor ainda de receitas. Menos consumo, preço menor. As commodities, viu-se nesta segunda feira, simplesmente, desabaram. 

Ora, faz mais de um ano que o Brasil tenta negociar um acordo de comércio com a União Europeia. Ora são os Argentinos, ora são as próprias autoridades brasileiras que colocam empecilhos de toda ordem para que o acordo seja fechado. Tivesse o governo brasileiro melhor determinação em defesa dos interesses do país, e já teria mandado a Argentina para o espaço e fechado este acordo indispensável para o nosso desenvolvimento. E aí teríamos uma alternativa poderosa para não sermos tão dependentes da economia chinesa. 

Os soluços que os chineses vem dando de  uns dois meses para cá, e que tem despertado imensas preocupações ao redor do mundo, dado o impacto que pode causar para a recuperação da economia mundial como um todo, devem, ou deveriam ao menos, despertar imensas inquietações no governo brasileiro. Estes solavancos surgem num momento em que estamos fragilizados e imensamente vulneráveis, tentando a qualquer custo corrigir a rota de desgoverno imprimido por Dilma desde 2011. 

Claro que é imperioso criar incentivos para a recuperação, mesmo que lenta e gradual, da nossa indústria. Mas de toda a cadeia e não apenas de uma pequena parte como o governo fez recentemente. 

Mas não pode é deixar de olhar para o campo. Dada a escassez de crédito interno, a divisão de recursos deve bem contrabalanceada para não se desvestir um santo para tapar meia perna de outro. A atividade agropecuária é a nossa mais importante atividade de excelência em nível mundial. Não se pode fechar a torneira para este setor. E é precisamente isto que está acontecendo, conforme matéria da Veja online reproduzida nesta edição. Não basta “anunciar” que haverá dinheiro, é preciso disponibilizá-lo e parar, principalmente,  os bancos públicos, de criar dificuldades “extras” para os nossos produtores rurais terem acesso a financiamentos, dificuldades que até então nunca foram criadas.  

E mais: é preciso reconhecer que, foi graças a competência do campo, que o Brasil pode formar seu colchão de segurança chamado de “reservas internacionais”, hoje na casa de mais de R$ 350 bilhões.  E é graças a esta “poupança”, que as agências de risco internacionais ainda mantém nossa dívida em grau soberano. 

Portanto, que o ministro Levy reúna-se com a presidente Dilma para, juntos, encontrarem caminhos que atenuem as dificuldades que estão sendo impostas aos produtores rurais, que não podem, de maneira alguma, ser penalizados pela crise econômica do país. Pelo contrário, graças a eles é que a crise não chegou mais cedo.  Que  ambos não fiquem, agora,  na janela esperando a banda passar  ou admirando os lírios do campo. Atuem com competência para defender uma atividade econômica que nos orgulha dado o seu grau de excelência reconhecido mundialmente. 

A ignorância é uma dádiva

Editorial
O Estado de São Paulo

A presidente Dilma Rousseff escolheu mais uma vez recolher-se ao conforto que a supina ignorância dos fatos proporciona a quem a alega para justificar por que não tomou as medidas necessárias para evitar que o País se esboroasse. Em entrevista a três jornais na última segunda-feira, convocada às pressas para tentar explicar uma reforma administrativa confusa e oportunista, Dilma quis convencer os leitores de que “não dava para saber” no ano passado o tamanho da crise econômica. Ao dizer isso, ela torna a apostar que todos os brasileiros são mais alienados da realidade do que ela.

De tão recorrente, a estratégia de Dilma de dizer que “não sabia” se tornou o bordão de seu governo. O caso da Petrobrás é exemplar. Embora na última década ela tenha ocupado cargos que lhe davam poder suficiente para saber o que se passava em cada sala dos escritórios da principal estatal brasileira – foi ministra de Minas e Energia, presidiu o Conselho de Administração da Petrobrás e chefiou a Casa Civil, além de ter se tornado presidente da República com fama de especialista em energia, durona e centralizadora –, Dilma alegou, candidamente, que desconhecia o processo de destruição da empresa, que envolvia a corrupção de vários de seus principais executivos e bilhões de reais desviados. “Eu não tinha a menor ideia de que isso acontecia na Petrobrás”, declarou ela ao Estado em setembro de 2014.

Agora, mantendo esse padrão, Dilma declara que não sabia do envolvimento de petistas no escândalo do petrolão. “Eu não imaginava. Fui surpreendida. Lamento profundamente”, disse a presidente na mais recente entrevista, emulando seu criador, o ex-presidente Lula, que, na eclosão do escândalo do mensalão, deu essa inesquecível declaração aos brasileiros: “Quero dizer a vocês, com toda a franqueza, eu me sinto traído. Traído por práticas inaceitáveis das quais nunca tive conhecimento. Estou indignado pelas revelações que aparecem a cada dia, e que chocam o País”.

Mas Dilma admite ser ignorante não apenas em relação à corrupção que carcome seu governo à vista de todos. Para espanto geral, a “gerentona” petista disse, a respeito da crise econômica, que errou ao ter “demorado tanto para perceber que a situação poderia ser mais grave do que imaginávamos”. E ainda tentou dividir com seus governados o fardo de sua ignorância, ao dizer que “ninguém imaginava isso”.

Ora, os dados a respeito da degradação da economia, fruto das políticas irresponsáveis de uma presidente que atropelou, uma a uma, todas as regras da boa administração, estavam disponíveis para quem estivesse disposto a vê-los. Já em meados do ano passado, a arrecadação federal apresentava queda, e as contas do governo sobreviviam com Refis e pedaladas. A crise que Dilma só agora admite ver não começou ontem.

Mas Dilma tinha uma eleição a ganhar e, conforme suas próprias palavras, ela se sentiu autorizada a fazer “o diabo” contra seus adversários, atribuindo-lhes a intenção de tomar medidas de austeridade que ela mesma agora é obrigada a adotar. Não se pense, contudo, que a petista se emendou.

Todas as decisões que tomou para contornar a crise são meros truques para tentar engambelar a plateia. O ajuste fiscal, que já era tímido, foi escalpelado no Congresso graças à desastrada condução política de Dilma. E agora a presidente diz que aceita cortar Ministérios – medida que, durante a campanha eleitoral, ela classificou de “lorota”.

Como de hábito, Dilma não sabe quais pastas serão suprimidas, mas calcula que serão fechados cerca de mil dos 22,5 mil cargos comissionados. Isso dá apenas 5% do total – uma taxa de desemprego de apaniguados bem menor do que a enfrentada pelos brasileiros em geral, que caminha para os dois dígitos.

Diante de tudo isso, não há razão para crer que, embora finalmente tenha se dado conta dos imensos problemas do País, Dilma tenha decidido fazer o básico para resolvê-los. Ao contrário: com suas decisões erráticas, motivadas pela desesperada necessidade de se manter no poder, a presidente tende a perenizá-los.

O senhor dos mares e das marolas

Percival Puggina
Tribuna da Internet


No ano de 2007, o sucesso subira à cabeça de Lula. O hoje rejeitado filho de Garanhuns era aclamado nacional e internacionalmente como “o cara”. Era o cara que teria acabado com a miséria no Brasil, o cara que projetara o país como o primeiro da fila de espera para ingressar no Primeiro Mundo, o cara que ansiava por uma cadeira no Conselho de Segurança da ONU, o cara que se julgava capaz de resolver qualquer encrenca internacional, o cara que tornava o Brasil autossuficiente em petróleo, o cara de quem Obama disse, textualmente: “I love this guy! The most popular politician on earth”.

Te mete! Lula podia tudo. Embora muitos ao seu redor tivessem tombado, saíra incólume do mensalão. Frustrando as expectativas dos que esperavam enfrentá-lo exangue em 2006, colocara no peito a segunda faixa presidencial.

Nesse jogo, porém, Lula tinha muito a agradecer e pouco a oferecer. A prosperidade da economia brasileira, que permitiu saltos na arrecadação, no mercado de trabalho, nas exportações, tinha tudo a ver com o espetacular crescimento do mercado chinês, que elevou o preço das nossas commodities. E nada a ver com competência administrativa. O governo, sabe-se agora, era uma versão institucional do Gran Bazaar, lugar de muitos e rentáveis negócios, cuja alma, como sempre em tais arranjos, era a publicidade.

POPULISTA E OPORTUNISTA
O presidente não tinha qualquer das virtudes necessárias a um bom gestor. Sempre foi, isto sim, um político conversador, populista e oportunista. Deveria agradecer aos que, antes dele, assumiram o sacrifício político de colocar o país nos trilhos da responsabilidade fiscal. Mas não.

Ah, se Lula tivesse sido um bom gestor! Com os recursos de que dispôs, com o apoio popular que soube conquistar, com o carisma que Deus lhe deu, teria preparado as bases necessárias a um desenvolvimento sustentável. Nenhum outro presidente, em mais de um século de república, navegou em águas tão favoráveis.

Contudo, do alto de sua vaidade, embora fosse apenas um mero e pouco esclarecido barqueiro, ele acreditou ser o senhor dos mares e das marolas.

“Vaidade! Definitivamente meu pecado favorito”, confessa o personagem representado por Al Pacino em O Advogado do Diabo. E a vaidade de Lula jogou o Brasil no inferno em que hoje ardemos sob o governo de Dilma.

COPA E OLIMPÍADA
É bom lembrar. Em 2007, tamanha era a euforia de Lula que ele importou, assim como Collor faz com carros esportivos, esse luxo extravagante que foi a Copa de 2014. Consumidor insaciável de manchetes, nesse mesmo ano começou a negociar a aquisição, para o Rio de Janeiro, da sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A Copa, na hora da bola rolar, se tornara algo tão fora do contexto, despesa tão despropositada, que ele sequer teve coragem de comparecer a qualquer dos jogos! E sua herdeira foi hostilizada de modo constrangedor na solenidade inaugural.

O jornal O Estado de São Paulo de ontem, 23 de agosto, divulgou um relatório de custos dos Jogos Olímpicos. O mais recente levantamento disponibilizado pela prefeitura do Rio informa que, faltando contabilizar algumas despesas de menor monta, os Jogos (que beneficiarão quase exclusivamente a capital carioca) custarão ao povo brasileiro R$ 38,67 bilhões.

ELEFANTES BRANCOS
Se somarmos essas duas extravagâncias lulopetistas, chegaremos a R$ 66 bilhões e a um conjunto de elefantes brancos. Quantas aplicações mais úteis ao país seriam possíveis com tais recursos! Num ano em que o governo corta quase R$ 12 bilhões da área de Saúde e se agrava o caos do setor, corta R$ 9,42 bilhões da Educação e universidades fecham as portas por não disporem de recursos para dar continuidade ao ano letivo, a gestão temerária do lulopetismo continua jogando dinheiro fora para apresentar outro show ao mundo. Gestão temerária se caracteriza por conduta impetuosa, imponderada, irresponsável ou afoita.

Não é uma descrição perfeita dos acontecimentos aqui mencionados? O prefeito de um pequeno município já foi condenado por isso.

Um novo loteamento

O Globo

Dilma negocia cargos para a ‘travessia’ no Congresso. O loteamento será encoberto na folha pela contratação de 40 novos servidores a cada dia útil, nos últimos 13 anos

Dilma Rousseff trabalha em silêncio com o vice Michel Temer, à margem do ronco das ruas.

Combinaram começar a primavera com quase todos os grupos parlamentares governistas instalados em cargos-chave na administração direta federal, autarquias, fundações e empresas estatais.

O mapa do novo loteamento está com o ministro Eliseu Padilha (Aviação), assessor do vice-presidente nas negociações conduzidas dentro do Palácio do Planalto. Fundador do PMDB, ele se dedica a estudar a geografia do poder no Legislativo desde a era Fernando Henrique, duas décadas atrás.

Se realizada, talvez venha a ser uma das maiores obras do clientelismo nos últimos tempos. O objetivo é cooptar mais de duas centenas de deputados, assegurando votos suficientes no plenário da Câmara para, no mínimo, dificultar eventuais pedidos de impeachment.

Dilma, Temer e Padilha, com a bênção de Lula, acreditam que a redivisão em lotes dos núcleos de poder deve aplainar a “travessia” da presidente na crise política até meados do ano eleitoral de 2016, quando, imaginam, acabaria o inverno da desesperança na economia.

Nesse jardim primaveril, prepara-se um desbaste do PT em algumas áreas para dar espaço ao florescimento do PMDB como “fiador da governabilidade”. Aglutinado em torno de Temer, porque o futuro dos presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros, agora depende do imponderável: o rumo dos inquéritos sobre corrupção na Petrobras conduzidos pelo Supremo Tribunal Federal.

Os negócios avançam na rotina de quietude do Planalto, com episódicas intervenções da Casa Civil, para informar líderes sobre vetos, por “falta de consenso partidário” ou simplesmente por causa da “folha corrida” do indicado.

O resultado desse novo loteamento governamental tende a ser praticamente invisível para os contribuintes. Vai ficar encoberto pelos cargos e funções multiplicadas na última década.

Foram 130 mil contratações entre a posse de Lula, no 1º de janeiro de 2003, e os primeiros 90 dias deste segundo governo Dilma.

Significa que o governo federal contratou 40 novos servidores a cada dia útil, na média dos últimos 13 anos — segundo o banco de dados do Ministério do Planejamento.

Entre Lula e Dilma, a folha de pagamentos da administração federal (excluídas as estatais) inchou na proporção de cinco contratações por hora — uma a cada 12 minutos — em cada jornada de trabalho, durante 3.117 dias úteis.

Ao mesmo tempo, proliferaram as remunerações por “confiança” e “gratificação”, sem contar adicionais por “incorporação”, “periculosidade” etc. São cerca de cem mil as funções comissionadas na estrutura governamental.

Em março contavam-se 615,6 mil funcionários civis ativos. Dilma dispõe de uma força de trabalho 26% maior que Lula em 2003. No entanto, os serviços públicos estão em colapso, especialmente na saúde e educação. O peso e a intensidade do “ajuste” necessário para financiar o setor público demonstram quanto o Estado ficou maior que a economia — e não apenas por causa do funcionalismo.

Visto do palácio, está tudo dominado. Só falta combinar com a rua, renitente em protestos ressonantes e cada vez mais ásperos, como os do último domingo.

Não faltaram alertas sobre a crise econômica

Editorial 
O Globo

Presidente Dilma afirma que demorou a perceber a gravidade dos problemas, mas sempre que tomou medidas equivocadas recebeu críticas públicas

Não fosse pela confissão de que, mesmo no ano passado, quando a economia já desacelerava (teve um crescimento pífio de 0,7%), ela não percebeu a crise, a entrevista de Dilma ao GLOBO, ao “Estado de S.Paulo” e à “Folha” não teria qualquer surpresa.

Dizer que não sabia do esquema de corrupção na Petrobras, cujo Conselho de Administração presidiu, já faz parte do script. Mas admitir que não detectou problemas na economia sobre os quais há muito tempo analistas e a imprensa profissional alertavam diz muito da incapacidade da presidente de ouvir críticas e duvidar de si mesma, características imprescindíveis para o administrador, na esfera pública ou privada.

Ora, a campanha eleitoral da oposição foi bastante calcada em alertas para os problemas que se avolumavam na economia. Como os subsídios de cunho eleitoreiro ao preço de combustíveis e à conta de luz, manobras insustentáveis que desestabilizavam o caixa da Petrobras — não bastassem os desfalques do petrolão — e o Tesouro, onde foram bater os desencontros entre os custos de geração de energia e as tarifas cobradas ao consumidor.

A resposta-padrão da candidata à reeleição era que se tratava de catastrofismo de uma oposição que não sabia administrar a economia sem elevar juros, aumentar tarifas públicas, entre outras malignidades “neoliberais.”

Pois na primeira reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central, dias após confirmada a vitória de Dilma nas urnas, os juros foram remarcados para cima, de 11% para 11,25%. E as taxas não pararam mais de subir (a Selic está 14,25%), para se contrapor a uma forte pressão inflacionária, em parte alimentada pelo choque tarifário que a candidata também dizia do palaque ser uma impossibilidade. Algo que a oposição faria, mas não ela.

A rigor, desde o final do primeiro governo Lula, em 2005, em que a recém-empossada ministra da Casa Civil rejeitou, por "rudimentar", um sensato programa de ajuste das contas públicas que lhe foi encaminhado pelos ministros da Fazenda e do Planejamento, Antonio Palocci e Paulo Bernardo, foram colocados pontos de interrogação sobre as ideias macroeconômicas de Dilma.

O viés intervencionista da presidente já ficara exposto na gestão dela no Ministério de Minas e Energia. E desarrumaria bastante o setor no seu primeiro governo. Neste, com Guido Mantega na Fazenda, a presidente pôde testar na prática o modelo dos sonhos, o “novo marco macroeconômico”. Sempre sob críticas e alertas públicos.

Não surpreendeu que acelerasse a inflação, tivesse de elevar os juros, naufragasse a economia numa recessão e fosse forçada a praticar um ajuste fiscal, contra dogmas ideológicos. E tudo agora ficou ainda mais complicado devido às turbulências chinesas. A presidente disse que demorou a perceber a gravidade da crise brasileira. Mas não foi por falta de aviso.

'Erros', Dilma, 2014 e 2016

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Quando o governo vai mal das pernas e muito mal da cabeça, qualquer escorregão em casca de bananinha ouro dá em tombo feio. Pior ainda quando o pessoal do Planalto despeja bananas no caminho dos colegas, digamos, de governo. Estão embanando Joaquim Levy, ministro da Fazenda, por esporte político, "demarcação de território"; até divergências normais de governo se tornam muito maiores que as de costume.

O rolo agora se deve à discussão sobre a origem do dinheiro para fechar as contas de 2016 no azul, pois as deste ano já foram para o vinagre. Sem um Orçamento decente para o ano que vem, a credibilidade dos economistas de Dilma 2 vai se esfarelar. Levy quer um plano duradouro e maior de corte de gastos, bidu, caçando receitas via impostos maiores para completar o pacote, se inevitável.

No Palácio do Planalto dos assessores "políticos" de Dilma, o plano é o inverso. Pior que isso, gente do palácio vaza suas "visões alternativas", o que logo se torna boato que escorre pelas mesas dos rapazes do mercado e por corredores do Congresso.

Parte dos conflitos é real e evidente, mas há gente que faz questão de enfatizar o quão Levy é "intransigente", "sem tato político", o que redunda em derrotas ou imputações de reveses, tais como ter de pagar a antecipação do "13º" de aposentados e pensionistas. Ou, como ficou evidente ontem, com a promessa de pagamento de meio bilhão de reais em emendas parlamentares, anunciado pelo articulador micropolítico do governo, Eliseu Padilha (PMDB).

Dadas a intriga e as derrotas reais do ministro, um sumiço devido a uma gripe ou uma visita à filha, reais ou fictícias, dão em boatos, "especulações de mercado" e, mais importante, em descrédito ainda maior que do governo Dilma 2 vá sair uma política econômica capaz de no mínimo evitar desastre ainda maior no curto prazo.

Levy pretende reduzir despesas obrigatórias, até porque não há alternativa a não ser acabar com o resto do escasso investimento federal (que deve cair de 30% a 40% neste ano) ou aumentar impostos, coisa que o ministro quer evitar ao máximo.

Aparentemente, não há disputa maior com Nelson Barbosa, ministro do Planejamento. Há oposição no Planalto, no Ministério das Cidades e dos Transportes. Educação deve levar um talho grande também. Embora não esteja claro como tal coisa vá ser feita, a ideia é controlar as despesas da Previdência (pensões?).

Tais gastos no grosso crescem vegetativamente (mais aposentados etc) e, no caso das aposentadorias, são em dois terços reajustadas pelo aumento do salário mínimo. A não ser em novo caso de revertério radical da presidente, em 2016 o reajuste deve ser de quase 10%, em ano em que a inflação deve cair abaixo de 6% e a receita do governo deve ficar, em termos reais, na mesma, uma encrenca.

O "ERRO" DE DILMA
Diga-se o que se quiser dos economistas de Dilma 1. Mas até eles, ou a maioria deles menos um, apresentaram à presidente, antes da metade de 2014, um plano de evitar a derrocada final das finanças federais. Se por mais não fosse (alheamento radical?), Dilma Rousseff sabia, sim, do desastre que provocava.

Na sala ao lado

José Casado
O Globo

O suborno de US$ 30 milhões que o agente da Mitsui e Samsung diz que pagou ao deputado Cunha revela a submissão da Petrobras a múltiplas perversões na era Gabrielli-Lula

Uns poucos passos sobre o piso de isopor em argamassa de concreto armado separavam os escritórios do presidente e dos diretores no 23º andar da sede da empresa estatal. Era, literalmente, impossível a um estranho manter-se invisível numa rotina de visitas àquele ambiente. No entanto, isso parece ter acontecido na Petrobras na gestão de José Sérgio Gabrielli.

Fernando Soares Falcão, o Baiano, por cinco anos frequentou uma sala ao lado, da Diretoria Internacional, para tratar de contratos nos quais, oficialmente, nunca representou as empresas envolvidas — apenas cultivava interesses obscuros de líderes do PMDB.

Ninguém o viu, soube quem era ou o que fazia por ali, segundo depoimentos em juízo de Gabrielli e outros graduados da estatal.

Registros da portaria, no térreo, indicam que Baiano fez 72 visitas ao diretor Nestor Cerveró, entre fevereiro de 2004 e janeiro de 2008, antes, durante e depois de a Petrobras gastar US$ 1,2 bilhão na contratação de dois navios-sonda.

Na quinta-feira 14 de setembro de 2006, por exemplo, ele chegou à diretoria antes do meio-dia e saiu à noite, oito horas depois.

Baiano, Cerveró e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), receberam US$ 30 milhões em suborno para garantir que a Petrobras contratasse os navios sonda Petrobras 10000 e Vitória 10000 com a Samsung (Coreia do Sul) e a Mitsui (Japão), conforme documentou em juízo o representante desses grupos no Brasil, Julio Camargo.

Semana passada o deputado Cunha foi denunciado ao Supremo por corrupção e lavagem de dinheiro, junto com a deputada Solange Almeida (PMDB-RJ), sua auxiliar na cobrança de propinas em atraso.

É um caso simbólico da submissão da Petrobras durante a era Gabrielli, no governo Lula, a múltiplas formas de perversão política e administrativa. A documentação informa que o diretor Cerveró passou 14 meses ao lado do presidente da companhia negociando a encomenda do primeiro navio-sonda (Petrobras 10000) no valor de US$ 586 milhões. E, só depois desse tempo, é que a diretoria executiva soube do negócio, autorizou tratativas e assinou o contrato.

As duas sondas foram encomendadas por US$ 1,2 bilhão sem licitação ou simples cotação de preços, procedimento rudimentar.

A proposta dos fornecedores foi aceita, sem questionamentos. As sondas saíram do mesmo projeto, mas o segundo navio custou 12,7% mais caro (US$ 661 milhões) que o primeiro.

Os contratos foram feitos sem locais de operação definidos. Também não havia estudo geológico adequado. Os poços em Angola, por exemplo, resultaram “secos”. Um navio (Vitória 10000) precisou ficar estacionado em porto na África do Sul durante um semestre, depois de pronto, simplesmente porque não se sabia o que fazer com ele.

Estão presos 60% dos diretores da Petrobras da era Gabrielli, no governo Lula. Três foram condenados. A empresa tem o Estado como acionista principal e, sabe-se, seu caixa era usado para pagar subornos a políticos e partidos aliados do governo. Como ninguém sabe, ninguém viu nada durante uma década no 23º andar do “Edise”, o edifício-sede no jargão dos funcionários, a conclusão possível é a de que havia uma grande rede de cumplicidade no topo da estrutura projetada no final dos anos 60 por uma equipe de jovens arquitetos do Paraná.

Bateu o desespero

Vicente Nunes
Correio Braziliense

A crise detonada pela China, que arrasou os mercados ontem, mostrou que o que está ruim no Brasil pode ficar pior. Técnicos confiáveis do governo já admitem que a esperada desaceleração da economia mundial agravará a recessão do país, com a queda do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano se aproximando dos 3% e o desemprego caminhando mais rapidamente para os 10%. O quadro desastroso se completará com a alta da inadimplência, movimento que tenderá a ficar mais forte a partir de setembro.

Tanto no Banco Central quanto no Ministério da Fazenda, o clima ontem foi de apreensão. Auxiliares de Alexandre Tombini e de Joaquim Levy lamentavam o fato de o Brasil estar tão frágil num momento em que o mundo caminha para tempos turbulentos. Para eles, mesmo que o consenso não seja de um tombo espetacular da China, o fato de a segunda economia do planeta estar rateando já será suficiente para ampliar a onda de desconfiança que provoca estragos nas economias emergentes.

Como bem definiu um dos técnicos do governo, além de não fazer o dever de casa na economia, o Brasil irradia para os investidores a imagem de um país sem rumo. A cada dia, a presidente Dilma Rousseff destrói o pouco que lhe resta. Agora, acabou de abrir mão de Michel Temer da articulação política. O vice-presidente, de alguma forma, vinha dando sobrevida à petista ao manter o PMDB minimamente unido para garantir a governabilidade.

Na avaliação dos investidores, se, com Temer segurando as rédeas dos peemedebistas, já estava difícil para o governo aprovar, no Congresso, medidas que pudessem garantir o cumprimento das metas fiscais deste ano e de 2016, tornou-se quase impossível isso acontecer sem o compromisso de apoio de uma parcela importante do partido. É por isso que os analistas atribuem a maior parte do desastre brasileiro aos problemas internos — todos, ressalte-se, oriundos do Palácio do Planalto.

A capacidade do governo de criar ruídos é tamanha, que, não bastasse abrir mão da articulação política de Temer, o Palácio estimulou ruídos sobre uma possível saída de Levy do Ministério da Fazenda. A boataria foi tão forte que implodiu os sinais de recuperação que a Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) esboçou no meio do dia. O ministro teve que passar pelo vexame de dizer que está firme no cargo, quando todos sabem que ele está cada vez mais isolado e colecionando uma série de derrotas em projetos considerados vitais para a arrumação das contas públicas.

“Não há dúvidas de que os problemas enfrentados pela China provocam turbulências e podem ter consequências para a economia. Mas a fragilidade do Brasil se deve a problemas criados no país. A economia está mal e a crise política aumenta a vulnerabilidade”, afirma Evandro Buccini, economista-chefe da Rio Bravo Investimentos. “Infelizmente, o Brasil não fez o dever de casa para sair do grupo dos piores. E isso se torna um problema maior quando o mundo não vai bem”, acrescenta.

Dívida das famílias
A perspectiva é de que, daqui por diante, o mau humor em relação ao governo só aumente. Os números que serão divulgados nos próximos dias mostrarão que a situação da economia é muito pior do que o imaginado. Na vida real, as famílias sabem bem disso. Segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC), muitos lares estão sendo obrigados a recorrer a empréstimos para cobrir despesas do dia a dia, uma vez que o orçamento foi destroçado pela inflação alta. O agravante é que o endividamento está se dando a juros extorsivos, que vão levar ao calote.

Em pesquisa que será divulgada hoje, a CNC mostrará que o número de famílias endividadas atingiu, em agosto, o nível mais elevado do ano: 62,7%. O total de lares com débitos em atraso também aumentou, para 22,4%, assim como o número de famílias sem condições de honrar os compromissos — em agosto de 2014, eram 6,5%; agora, são 8,4%. Pelo levantamento da entidade, a disseminação do endividamento se dá entre os que ganham menos de 10 salários mínimos por mês e os que recebem mais do que isso.

Na opinião de Buccini, da Rio Bravo, esse quadro só não é pior porque os bancos estão mais seletivos na concessão de crédito. “Vamos ver a inadimplência crescer, mas não na velocidade do passado, devido à prudência das instituições financeiras”, ressalta. Ele lembra que, nos próximos meses, veremos muitas pessoas que foram demitidas, mas continuaram pagando as dívidas com recursos do seguro-desemprego, avisando que, com o fim do benefício, honrar débitos com bancos já não estará mais na lista de suas prioridades.

Rumo ao quarto quantitative easing 
» Analistas internacionais começaram a cogitar a possibilidade de, com o agravamento da crise mundial, os Estados Unidos fazerem uma quarta etapa do quantitative easing, mecanismo pelo qual o Federal Reserve (Fed), o Banco Central norte-americano, injeta recursos na economia.

Onda de deflação 
» O Banco Central brasileiro acredita que a turbulência chinesa poderá espalhar uma onda de deflação pelo mundo. Os analistas do país, no entanto, ainda não contabilizam tal hipótese em suas projeções. Tanto que, novamente, elevaram as estimativas de inflação para 2016.

Encanto está acabando 
» O ministro Joaquim Levy se disse ontem firme no cargo. Mas ele já demonstrou, por mais de uma vez, que está perdendo o encanto com a missão que lhe foi dada por Dilma.

Brasil terá nova década perdida, diz José Márcio Camargo

Tribuna da Internet
Antonio Temóteo, Correio Braziliense

Na opinião do economista-chefe da Opus Investimentos, José Márcio Camargo, Dilma entregará o país para o próximo presidente em uma situação econômica pior do que quando recebeu o cargo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Nas contas dele, entre 2015 e 2018, o PIB terá vai encolher a uma taxa média de 0,2% a cada ano. Com isso, o país vai lamentar mais uma década perdida, assim como nos anos 1980.

Para Camargo, os desequilíbrios que resultaram na disparada da inflação e na deterioração fiscal começaram no segundo mandato de Lula, quando o Executivo passou a interferir no mercado e deixou de fazer superavits primários adequado para evitar o crescimento da dívida pública. Dilma continuou com a mesma política e ainda tentou diminuir os juros na marra, o que fez a inflação subir.

Além disso, o governo tentou limitar taxas de retorno de concessões de infraestrutura e represou preços de energia elétrica e de combustíveis, desorganizando esses dois setores da economia. “Houve um conjunto de erros micro e macroeconômicos e as consequências apareceram agora”, disse.

PROCESSO LONGO E DOLOROSO
Camargo explicou que o país só voltará a crescer com a execução do ajuste fiscal, mas esse processo será longo, doloroso e requer um compromisso forte da equipe econômica. Ele tem dúvida, porém, se a correção de rumos sairá do papel.

“O fato de Banco do Brasil e Caixa anunciarem linhas especiais de crédito para o setor automotivo e sinalizarem que estenderão esses financiamentos para outros segmentos são uma clara sinalização de que a política econômica do primeiro mandato está de volta. O cenário se torna cada vez mais preocupante e a situação pode piorar ainda mais”, afirmou.

PREVISÃO: PIB ZERO
Para o economista-chefe da TOV Corretora, Pedro Paulo Silveira, na melhor das hipóteses, a média de desempenho do PIB entre 2015 e 2018 será zero. Ele ponderou que a retomada do crescimento passa pela disposição do setor privado em investir, o que não existe neste momento. De acordo com ele, os sucessivos erros dos últimos anos minaram a confiança do setor privado. “A percepção de risco em relação ao Brasil cresceu bastante nos últimos dois anos, e o processo eleitoral agravou esse cenário. Muitas decisões equivocadas foram tomadas no passado e isso se reflete em menor geração de riquezas”, comentou.

À falta do que fazer, Dilma inventa de reformar o seu governo. Não dará certo

Ricardo Noblat

Quem pedia a Dilma uma reforma ministerial? Lula, não. Ele é contra uma reforma ministerial nas atuais circunstâncias. Acha que ela só trará desarranjos. Disputas entre partidos. E ao fim e ao cabo, insatisfação generalizada.

Michel Temer, o vice-presidente da República e presidente do PMDB, pensa como Lula. Seu partido deixou de acossar Dilma atrás de mais vagas no ministério. Parece conformado com o que tem. Por que despertar o apetite do PMDB?

O PT sempre quer mais vagas no ministério. Mas não pode reclamar das que tem – 11 vagas. É o partido com maior número de ministros. Seria até capaz de se sentir atraído por uma reforma se for para ocupar mais espaço. Para perder? Não tem graça.

Se perguntarem a Gilberto Kassab, ministro de Cidades, se o seu PSD daria conta de mais ministérios, logicamente ele responderá que sim. Mas não espera ganhar novos ministérios. É novo em Brasília. Prefere ir com calma. Jamais.

Carlos Lupi, presidente do PDT, não reivindica mais ministérios. Quer ter somente o prazer de trocar Manoel Dias, ministro do Trabalho e seu correligionário, por outro nome mais sensível aos pedidos dele, Lupi. E está de bom tamanho.

Dilma anunciou que extinguirá 10 dos 38 ministérios. O que conseguiu? Que seus aliados entrassem em pânico com medo de perder os que têm. Em pânico também deixou os 22 mil ocupantes de cargos de livre nomeação ao dizer que dispensará mil deles.

Procedeu assim para quê? Para ser louvada por uma mixaria de economia? Não será. Para recuperar alguns pontinhos de popularidade? Esqueça. Para ser apontada como incoerente já que há pouco tempo chamou reforma ministerial de “panaceia”?

Durante a campanha do ano passado, toda vez que Aécio Neves ou Marina Silva falava em enxugar o governo, Dilma provocava: “Vão cortar o quê? O ministério da Igualdade Racial? O da Mulher? O dos Direitos Humanos”?

É razoável supor que nenhum desses será cortado por ela. E então? Cortará o das Relações Institucionais responsável pela coordenação política do governo? Tudo bem. Está vago. Não fará falta. E mais o quê? Acabará com o da Micro e Pequenas Empresas?

Desempregará Guilherme Afif Domingues, ministro a quem tanto considera e disso faz alarde? Sei. Adiante. Juntará os ministérios do Desenvolvimento Agrário com o da Agricultura? Faz sentido. Seria de fato recomendável.

Só que o da Agricultura representa o agronegócio. No outro está o Incra, um latifúndio do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Quero ver no que daria tal mistura. E o Ministério da Pesca? Desempregará o ministro que é filho do senador Jáder Barbalho?

Turismo? Pode ser incorporado por algum ministério mais encorpado da área econômica. E o que será do ministro Henrique Eduardo Alves, ex-presidente da Câmara dos Deputados pelo PMDB, indicado para o cargo por Eduardo Cunha?

Quanto ao ministério do Gabinete de Segurança Institucional: Dilma detesta o general que o ocupa. Não despacha com ele por birra. Portanto... Portanto, nada. Os militares não gostarão de perder o ministério. O da Defesa já é comandado por um civil.

Estão tendo uma ideia da encrenca que Dilma arranjou para si? Como se ela não tivesse tantas outras encrencas para administrar.

Só chegamos a uma pequena parte do dinheiro desviado na Lava Jato, diz procurador

Laryssa Borges
Veja online

Vladimir Aras, secretário de Cooperação Internacional da Procuradoria-geral da República, afirma que acordo de delação premiada é o principal mecanismo para conseguir trazer de volta os bilhões de reais desviados

(VEJA.com/Agência Brasil) 
Vladimir Aras: "A traição não ocorre quando ele diz: ‘Acabou nossa sociedade
 criminosa e agora eu vou colaborar com os caras’. A traição foi quando o 
criminoso violou o vínculo jurídico de lealdade que ele deve ter com o Estado"

Desde a primeira delação premiada da Operação Lava Jato, celebrada em 27 de agosto de 2014 pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, o juiz Sergio Moro passou a receber dezenas de recursos assinados por renomados advogados de empreiteiros, políticos, lobistas e operadores contra o uso desse recurso. Nas teses para tentar desmontar as investigações, a estratégia é sempre a mesma: comparar o delator a um traidor. Para o procurador da República Vladimir Aras, secretário de Cooperação Internacional da Procuradoria Geral da República e professor de Processo Penal da Universidade Federal da Bahia, acordo de delação premiada é o principal mecanismo para conseguir repatriar os bilhões de reais desviados pela quadrilha instalada na Petrobras. "Apenas resvalamos nos valores [desviados]. E só conseguimos por causa da tão criticada delação premiada", diz. Leia a seguir trechos da entrevista ao site de VEJA.

Depois da Lava Jato, ainda existe um lugar onde cidadãos e empresas possam se considerar imunes e impunes? 
É cada vez mais difícil porque as coisas vão mudando. Concretamente sobre a Lava Jato, por que conseguimos repatriar 485 milhões de reais da Suíça? Isso se deve a uma estrutura global porque a própria Suíça, que há dez anos era o lugar perfeito para se esconder dinheiro, passou a sofrer pressão europeia e passou a ser pressionada também pelos vínculos jurídicos que firmou em tratados. A Suíça hoje é um outro país. Na Lava Jato, está colaborando, já devolveu dinheiro e se comprometeu a devolver mais. Quando se esperaria que o Ministério Público de um país tão cioso de seu sigilo bancário viesse a ajudar o Brasil? Temos também o Gafi (O Grupo de Ação Financeira contra a Lavagem de Dinheiro e o Financiamento do Terrorismo) como mecanismo de pressão, a consciência dos cidadãos, que não aceitam mais que seus países sejam vistos como refúgios, a necessidade de combater o terrorismo. O mundo percebeu que essas vias para transmissão de valores para financiamento do terrorismo eram as mesmas que viabilizavam a ocultação de dinheiro sujo de narcotráfico e de corrupção. Então juntou a consciência global contra a corrupção com a consciência global contra o terrorismo. Criou-se uma força irresistível.Existem alguns países que não são cooperativos, como Somália, Coreia do Norte, estados falidos ou ditaduras absolutas. Mas fora isso não existe mais um lugar em que o criminoso possa dizer 'estou seguro'. O Uruguai está mudando, o Panamá está mudando. O fortalecimento das instituições nesses países, a democracia nesses países, a imprensa livre, a consciência pública ampliada pelo acesso à informação.

Qual proporção as autoridades já conseguiram recuperar? 
Apenas resvalamos nos valores. Só conseguimos por causa da tão criticada delação premiada, que prefiro chamar de colaboração premiada. Quando se fala de delator, já existe uma ideologia embutida no discurso, que é rotular o indivíduo como traidor. A traição veio antes. A traição não ocorre quando ele diz: 'Acabou nossa sociedade criminosa e agora eu vou colaborar com os caras'. A traição foi quando o criminoso violou o vínculo jurídico de lealdade que ele deve ter com o Estado ou o vínculo ético que ele deve ter com a sociedade como cidadão. Viver em sociedade implica um compromisso ético de solidariedade de respeitar as regras do jogo. A traição é quando o criminoso se volta para seu interesse específico egoístico e começa a matar, roubar, corromper ou ser corrompido, estuprar, fazer o que você tem vontade de fazer, independentemente do interesse alheio. Repare que o nome da colaboração premiada em italiano é "pentito", que significa arrependido. O conteúdo ético da delação não é a traição, é o do arrependimento, exatamente o contrário do discurso de advogados brasileiros famosos mais tradicionais e que não acompanharam a evolução da normatividade internacional.

O ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, um dos delatores da Lava Jato, depôs contra autoridades e hoje está livre. Até foi fotografado na praia. As delações não levam a uma sensação de impunidade? 
É uma crítica razoável. O instituto da delação premiada só se constrói com a prática. Os tribunais haverão de estabelecer parâmetros. O primeiro acordo escrito e homologado na Justiça tem quase 12 anos e foi firmado com Alberto Youssef no caso Banestado. Podemos ter acordos de imunidade em que o indivíduo não perde um dia sequer de liberdade. O problema é acharmos um equilíbrio para que não haja injustiça. Mas qual a opção que o Estado tem senão o de recorrer a esse tipo de prova testemunhal? Não é uma testemunha tradicional, mas é uma testemunha. Dizem que o delator pode mentir, mas qual a pessoa que não pode mentir?

Youssef foi o grande delator da Lava Jato e voltou a cometer crimes. Qual a credibilidade dos depoimentos de um criminoso conhecido e que o Ministério Público já sabia que tinha violado a primeira delação? 
Quantas pessoas no Brasil não fizeram nenhum acordo, foram condenadas, cumpriram pena e voltaram a cometer crimes? Não é a delação premiada que é o problema, e sim a reincidência, que é algo que diz respeito ao livre arbítrio do indivíduo, que escolhe se quer continuar cometendo crime, tendo sido condenado ou não.

A questão é a dependência do Estado do mesmo personagem. O que devemos nos perguntar é: aonde nos levou a colaboração premiada do Alberto Youssef? 
Basta ver que um dos citados na Lava Jato devolveu 100 milhões de dólares [Pedro Barusco devolveu 97 milhões de dólares depois de ter feito delação na Lava Jato]. A lógica da colaboração premiada é trocar um suspeito por mil em uma progressão que temos como estimar que vale a pena. No caso do Hildebrando Pascoal, por exemplo, tínhamos um homicida que não pegou a pena que deveria pegar. Obedeceu-se a lei, reduziu-se a pena. Se ele estivesse cometido esse crime nos Estados Unidos, ele não teria pleiteando ir para a casa depois de cumprir 16 anos. Ele estaria em uma cadeira elétrica ou condenado a uma injeção letal. Voltando à delação, compensa porque a perspectiva que o investigador faz é de ampliar o cabedal probatório, ampliar o número de réus, proteger a sociedade, desmontar um esquema de corrupção.

Advogados da Lava Jato dizem que a delação premiada virou rotina no processo. 
Não existe limite legal. Posso ter quantos réus forem identificados na prova. As delações atendem ao princípio da bilateralidade: só há acordo se a defesa topa e um juiz homologa. A delação é um compromisso universal que tem mais de dez anos. A Convenção de Palermo, que entrou em vigor no Brasil em 2004, recomenda o uso da delação premiada. A Convenção de Mérida, de 2003 e que entrou em vigor no Brasil em 2006, recomenda o uso da colaboração premiada. Há uma força de fora para dentro e a consciência social de que é inevitável que dependamos de pessoas que colaborem com a persecução criminal. A não ser quando tem uma escuta em andamento, qual informação podemos ter de um grande esquema de corrupção como este da Lava Jato senão de quem estava dentro? Podemos comparar com o caso do Hildebrando Pascoal. Uma das principais testemunhas era um dos membros do grupo de extermínio. Quem mais sabia? Quem sabia morreu. Na chacina de Unaí houve colaboradores. Alguém se recorda disso? Aí entra aquela lógica de quem é atingido pelas delações. Dizem: 'Agora é conosco e precisamos nos proteger'. Se é um pé de chinelo, o discurso é um, se é um criminoso de colarinho branco, outro. Isso vem da lógica da sociologia do crime. O sociólogo Edwin Sutherland disse uma vez que é muito mais fácil perdoarmos e justificarmos a criminalidade econômica, porque é algo que nós poderíamos cometer, do que uma barbárie, um homicídio ou estupro.

Qual é o efeito de investigações do MP para a governabilidade e para a saúde financeira das empresas suspeitas? 
Sobre governabilidade eu não posso falar, mas sobre a saúde financeira de empresas, digo que qualquer investigação tem um impacto para além do direito. Tem impacto na vida das famílias dos presos, tem impacto na sociedade, assim como a inação da Justiça também tem. Qualquer grande investigação tem impacto sobre uma série de elementos da sociedade e da economia. O Ministério Público americano tem ferramentas correlatas ao que chamamos de acordo de colaboração premiada: o NPA (non-prosecution agreement) e DPA (deferred prosecution agreement). Essas duas ferramentas são, em geral, usadas para empresas. Não são acordos de leniência, mas acordos penais também. No Brasil existe como fazer um arranjo jurídico e pegar um pouco da leniência, da Lei Anticorrupção e da lei do sistema brasileiro de defesa da concorrência e colaboração e se cria um 'frankensteinzinho' jurídico. Mas em países como os Estados Unidos temos persecução penal contra a pessoa jurídica para crimes econômicos, de colarinho branco e lavagem de dinheiro, enquanto no Brasil isso só vale para crime ambiental. Lá se pode preservar a empresa, colocá-la em stand-by e determinar que em tal prazo ela se ajuste, faça compliance, contrate auditoria, mude a diretoria e faça uma reestruturação total. É como se fosse uma recuperação judicial acertada em uma perspectiva criminal.

Enquanto isso, os acordos de leniência seriam o caminho natural para empresas investigadas na Lava Jato? 
Não quero particularizar na Lava Jato, mas, em caso de provas impactantes, acachapantes, é melhor um acordo do que uma briga judicial porque preserva empregos e o mercado. Leniência é fundamental, mas é preciso que a legislação de leniência tenha também maior clareza quanto à participação do Ministério Público. Hoje qual é a segurança jurídica que uma empresa tem de fazer acordo com o Executivo e o Cade ou o Ministério Público lhe quebrarem a outra perna? Qual a segurança que se tem de fazer um acordo com os Executivos de estados e municípios sem combinar com o Ministério Público Federal ou com o Ministério Público dos estados? É preciso que haja uma regra para que todas essas entidades sentem à mesa e se comprometam com o resultado. Esse erro vem sendo repetido na lei brasileira desde a primeira lei antitruste, de 1994, que previa o acordo de leniência para práticas anticoncorrenciais, mas não vinculava o Ministério Público. O erro voltou a ser repetido 20 anos depois em 2013 na Lei Anticorrupção.

Na Lava Jato, o Brasil conseguiu trazer 485 milhões de reais que estavam depositados no exterior. Mas em outros escândalos, a impressão é a de que nunca mais veremos o dinheiro desviado. O que impede que o dinheiro volte é o sistema recursal. 
Como nosso sistema recursal é baseado em uma premissa equivocada de que temos que esperar o último recurso do último tribunal. Ainda temos casos aqui do Banestado que eu denunciei em Curitiba perante Moro, casos de 11 anos atrás de bloqueio de ativos e que o dinheiro ainda não voltou. O dinheiro foi bloqueado, o réu já foi condenado em primeiro e em segundo grau e o dinheiro não volta porque não transitou em julgado ainda. Se prescrever, o dinheiro não vai voltar.

TCU deu prazo extra ao governo após pressão de Adams

Veja online
Com informações Agência Reuters

Ministro Augusto Nardes disse que o advogado-geral da União ameaçou entrar com pedido de agravo, o que poderia prolongar ainda mais o prazo para o governo justificar irregularidades nas contas de 2014

(José Cruz/Agência Senado/VEJA)
 "Com um agravo poderíamos perder mais 15, 20, 30 dias", 
pontuou o relator, Augusto Nardes

O fator pressão pesou sobre a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de dar um prazo adicional de 15 dias para o governo explicar dois pontos adicionais relativos ao processo das contas da presidente Dilma Rousseff de 2014. Nesta tarde, o ministro relator do processo, Augusto Nardes, disse que o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, indicou que poderia entrar com um agravo caso o alongamento do prazo, solicitado pelo Executivo na segunda-feira, não fosse atendido.

"Com um agravo poderíamos perder mais 15, 20, 30 dias", pontuou o relator, acrescentando que a decisão do tribunal de estender o prazo seria, dentro desse contexto, uma forma de apressar o processo. Chamados a votar, todos os ministros acompanharam o relator.

Também presente na sessão, Adams disse que o pedido de mais 15 dias não era "meramente postergatório". "Estamos tratando aqui de apresentação de esclarecimentos e de defesa em cima de argumentos e acusações que foram feitos pelo procurador (do Ministério Público junto ao TCU) Júlio Marcelo, que procura explicitamente criar responsabilidade presidencial que extrapola a discussão de contas", disse.

Com o novo prazo, o caso deverá ser votado pelo TCU a partir de meados de setembro, já que quando o governo entregar suas últimas explicações, a área técnica do TCU ainda terá de produzir um relatório a respeito. A partir deste material, o ministro Nardes elaborará seu voto, que só então será levado a plenário para análise dos demais ministros.

No dia 12 deste mês, o TCU já havia concedido outros 15 dias para o governo explicar dois fatos apontados pelo procurador Júlio Marcelo de Oliveira, envolvendo a edição de decretos presidenciais para abertura de crédito suplementar com o objetivo de custear despesas primárias. A iniciativa foi tomada após o Senado aprovar requerimento pedindo explicações nesse sentido. Para o procurador, os decretos contrariam a Lei de Responsabilidade Fiscal e são de responsabilidade direta da presidente Dilma.

País necessita de uma reforma do Estado

Editorial
O Globo

Não é ruim o corte de dez ministérios e de mil cargos comissionados, mas as deficiências da máquina pública requerem medidas bem mais amplas

A considerar que se trata de uma administração do PT, o governo Dilma resolver reduzir de 39 para 29 o número de ministérios e ainda cortar mil cargos comissionados é um avanço nunca visto nestes quase 13 anos de poder do partido em Brasília.

Mas, diante do que é necessário para dar eficiência à maquina burocrática federal, trata-se de um quase imperceptível arranhão no problema. No conjunto de 23 mil altos cargos de assessoria, nomeados sem qualquer exigência funcional, o corte de mil postos representa menos que exíguos 5%. Se Dilma desejasse equiparar-se ao governo Obama, teria de encolher esse grupo de comissionados para 8 mil.

O governo tem falado em reforma administrativa quando trata dessas reduções. Um exagero. E mesmo que fosse, o que o Brasil precisa de fato é de uma reforma do Estado, algo para além do simples número de ministérios e servidores — embora esta não seja uma questão desprezível.

Os defensores de se manter tudo como está costumam argumentar que, em proporção à população, o Brasil não chega a ter um excessivo quadro de funcionários públicos federais, com seus cerca de 2 milhões de servidores. O país conta com um funcionalismo proporcionalmente menor que a média das nações ricas, reunidas na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Porém, o Estado brasileiro é muito caro para a sociedade: a carga tributária, cerca de 35% do PIB, é a mais elevada entre os emergentes, até mesmo superior à de algumas economias desenvolvidas, enquanto a qualidade da infraestrutura de serviços públicos é deplorável. A frase resume bem do que se trata: tributos de Primeiro Mundo, serviços africanos.

Existem distorções clássicas na máquina pública, como o inchaço de servidores nas atividades-meio e escassez na ponta do atendimento à população. Há muita gente nos escritórios dos ministérios e autarquias em Brasília, enquanto faltam médicos e enfermeiros em hospitais públicos federais.

A chegada do PT ao Planalto engavetou todas as iniciativas de modernização dessa máquina. Afinal, com o partido também chegaram ao poder as corporações sindicais, principalmente cutistas, que representam o funcionalismo (em boa medida, a CUT passou a ser uma central de servidores públicos).

Na gestão FH, houve tentativas de reforma do funcionamento do Estado. Tudo foi parar no fundo das gavetas. Como a ideia modernizadora de programas de avaliação do servidor, com vistas à remuneração por mérito — conceito rejeitado no mundo da burocracia estatal, em prejuízo da população.É em momentos de grave crise econômica, de grande impacto social, como agora, que as deficiências desta paquidérmica estrutura aparecem ainda mais.

Os antecedentes

Míriam Leitão
O Globo

(Foto: Gabriel Souto / Globo) 
Willian Bonner, Patrícia Poeta e Dilma Rousseff, 
entrevista ao Jornal Nacional, 2014 

Quem comparar o que a presidente Dilma falava há um ano e o que ela disse esta semana concluirá que são duas pessoas. O que dizia é o oposto do que diz. Os casos de divórcio entre a então candidata e os fatos foram muitos na campanha. No “Jornal Nacional” do dia 19 de agosto de 2014, Dilma afirmou que a inflação era zero e que pelos “indicadores antecedentes” o país estava retomando o crescimento.

Em entrevista aos três maiores jornais na segunda-feira, Dilma disse: “Fico pensando o que é que podia ser que eu errei”. Ela mesma respondeu que o erro foi ter demorado tanto a perceber a crise. Em seguida, justifica o erro. “Não dava para saber em agosto. Não tinha indício de uma coisa dessa envergadura.”

Exatamente naquele agosto, em que a presidente acha que não dava para saber, o jornalista William Bonner fez a seguinte pergunta para ela, com riqueza de dados e indícios de crise de grande envergadura:

“A inflação anual, neste momento, está no teto daquela meta estabelecida pelo governo, está em 6,5%. A economia encolheu 1,2% no segundo trimestre deste ano e tem uma projeção de crescimento baixo para o ano que vem. O superávit deste primeiro semestre foi o pior dos últimos 14 anos. Quando confrontada com esses números a senhora diz que é a crise internacional. Aí, quando os analistas dizem que 2015 vai ser um ano difícil, um ano de acertos de casa, que é preciso arrumar a economia brasileira e, portanto, isso vai impor sacrifício, vai ser um ano duro, a senhora diz que isso é pessimismo. E aí eu lhe pergunto: a senhora considera justo, olhando para os números da economia, ora culpar o pessimismo, ora culpar a crise internacional pelos problemas? O seu governo não tem nenhum papel, nenhuma responsabilidade nos resultados que estão aí?”

Dilma respondeu:

“Bonner, primeiro, nós enfrentamos a crise, pela primeira vez no Brasil, não desempregando, não arrochando os salários, não aumentando os tributos, pelo contrário, diminuímos, reduzimos e desoneramos a folha. Reduzimos a incidência de tributos sobre a cesta básica. Nós enfrentamos a crise, também, sem demitir. Qual era o padrão anterior...”

Bonner: “Mas o resultado, no momento, é muito ruim, candidata.”

Dilma: “Não, o resultado no momento, veja bem...”

Bonner: “Inflação alta, indústrias com estoques elevados, ameaça de desemprego ali na frente.”

Dilma: “Veja bem, Bonner. Eu não sei, eu não sei da onde que estão seus dados, mas nós estamos...”

Bonner: “Da indústria, candidata.”

Dilma: “Nós temos duas coisas acontecendo. Nós temos uma melhoria prevista no segundo semestre. Vou te dizer por quê.”

Bonner: “Isso não é ser otimista em contrapartida ao pessimismo que a senhora critica?”

Dilma: “Não. Não. Você sabe, Bonner, tem uma coisa em economia que chama os índices antecedentes. O que que são os índices antecedentes? A quantidade de papelão que é comprada, a quantidade de energia elétrica consumida, a quantidade de carros que são vendidos. Todos esses índices indicam uma recuperação no segundo semestre, vis-à-vis ao primeiro. Além disso, a inflação, Bonner, cai desde abril, e, agora, ela atinge, hoje, se você não olhar pelo retrovisor e olhar pelo que está acontecendo hoje, ela atinge 0%. Zero.”

Este é um exemplo. Em todas as entrevistas, Dilma foi confrontada com os dados, em todas ela os negou e atacou adversários que apontavam a necessidade de ajuste, que defendiam o corte de ministérios e a redução dos gastos do governo. Era possível saber. Difícil era ignorar os abundantes indicadores antecedentes de que o Brasil estava entrando numa crise pelos erros cometidos pelo governo.

A distância da realidade continua, ainda agora. Na entrevista de segunda-feira, ela defendeu o ex-presidente Lula e disse que a oposição incentiva contra ele uma “intolerância inadmissível”. E acrescentou: “A intolerância é a pior coisa que pode acontecer numa sociedade, porque cria o “nós” e o “eles”. Isso é fascismo.” Quem mais incentiva essa divisão é o grupo político da presidente. Aliás, houve um comício em 2014 em que o ex-presidente Lula gritou do palanque: “agora é nós contra eles”. Isso depois de citar como sendo “eles” dois nomes de jornalistas: o de William Bonner e o meu.

A opinião de quem entende

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Um excelente jornalista, Ricardo Sérgio Mendes, jamais se deu ao trabalho de ler projetos de mudança da legislação trabalhista. Ia direto à opinião da Fiesp, a Federação das Indústrias, e demais entidades patronais, e explicava: "Se eles forem a favor, é porque eu vou me ferrar. Se forem contra, então é boa para mim".

Não é preciso fazer qualquer análise sofisticada para saber como vai o Governo: se o maior banqueiro privado do país, Roberto Setúbal, apoia Dilma, é porque o Governo Dilma é bom para ele e os demais banqueiros. Quem não for banqueiro que arque com as consequências e pague a conta. E sem reclamar. 

Aliás, nem precisaríamos recorrer à sabedoria do velho jornalista: a própria propaganda de Dilma nos informou que, quando os banqueiros se articulam, a comida some da mesa dos cidadãos. E, agora como nunca, os banqueiros se articularam e ganharam prestígio: em vez de simplesmente assistir à nomeação de um dos seus para o comando da Economia, foram consultados oficialmente para saber quem a presidente reeleita escolheria para a Fazenda. Mandaram que fosse Joaquim Levy. Para obedecer aos banqueiros, Dilma rejeitou até Henrique Meirelles, o candidato de Lula: era banqueiro, mas não era o indicado pelos bancos. 

E ninguém estranhe que Setúbal, cuja competência como banqueiro é reconhecida por todos, apoie um Governo que se diz de esquerda e que condena a elite endinheirada de São Paulo. Este colunista, se fosse Setúbal, também seria Dilma desde criancinha. Quando é que os bancos ganharam tanto dinheiro?

Complementando
O banco dirigido por Roberto Setúbal anunciou que, para ampliar os lucros, vai fechar 15% de suas agências. O Sindicato dos Bancários é tradicionalmente petista (de lá saíram o ministro Ricardo Berzoini, o tesoureiro do PT João Vaccari Neto, o ministro Luiz Gushiken e Sérgio Rosa, da Previ). 

Irá protestar contra um aliado tão bom só para defender os empregos de seus associados? 

Poeta quando calada
Dilma Rousseff nunca falha: na entrevista que concedeu à Folha, Estadão e O Globo, disse que para enfrentar o baixo crescimento fez uma "política pró-cíclica". Ou seja, em português correto, sua política buscava sustentar o ciclo de baixo crescimento. Mas Dilma pretendia dizer o contrário, que fez uma "política anticíclica", ou seja, buscando reverter a estagnação. Foi traída pelo dilmês. Disse ainda que não tinha percebido que a economia estava tão deteriorada.

Conclusão do jornalista Cláudio Humberto: "Ao admitir, um ano e meio depois, que não percebeu a gravidade da crise, agora é oficial: Dilma não precisa de oposição para chamá-la de incompetente". Conclusão do jornalista Gabriel Meissner: "Se até Dilma percebeu que a crise é grave, a coisa está bem feia".

Erro repetido
Equivocam-se os que denominam de Tico e Teco os dois famosos neurônios. Os nomes não vêm dos desenhos de Disney, mas de outro filme: Débi e Lóide. 

Ainda pode piorar
Dilma e seus aliados estão mais otimistas, achando que a declaração de Roberto Setúbal e a incapacidade do PSDB de se unir para escolher seu caminho dão um bom fôlego ao Governo. Como diria um personagem conhecido, menas, menas: há muitos focos de crise ainda intocados. O PMDB, por exemplo: hoje à noite, reúnem-se parlamentares do partido para discutir como afastar Dilma sem precisar do apoio de Aécio e Alckmin. O grupo de Renan não vai; mas, se achar que os opositores de Dilma são mais fortes, adere na hora. E Michel Temer, embora não vá mexer uma palha, ao menos em público, para derrubar a presidente, não reclamará se o poder cair em seu colo. Há também o depoimento do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, na CPI da Câmara. Em princípio, Coutinho, que é do ramo, tem tudo para sair-se bem; mas, se algum deputado tiver estudado o assunto, talvez possa criar-lhe (e ao Governo) alguns problemas.

A ponte para o futuro
Uma das condições básicas para qualquer retomada do desenvolvimento e superação da crise econômica, a segurança jurídica, é o tema de um simpósio dos mais importantes, que a Sociedade de Estudos Jurídicos Brasil-Alemanha, Sejubra, promove no próximo dia 20 em Joinville. 

Dois ministros do STJ, Ricardo Villas Bôas Cueva e Marco Aurélio Gastaldi Buzzi, falam sobre o tema para investidores alemães. Segurança jurídica é, para o investidor, um assunto essencial.

O pó da História
Muita gente indignada com o presidente boliviano Evo Morales, que disse que, "se houver golpe", ele e os bolivianos "vão defender a democracia no Brasil". A interpretação é de que Morales ameaçou agir militarmente (o que não chegou a dizer). Mas não há motivo para preocupação. No final do século 19, vitorioso na guerra franco-prussiana, o primeiro-ministro alemão Otto von Bismarck foi informado por um jornalista de que a Grã-Bretanha, enfraquecida pela Guerra da Crimeia e há longos anos enfrentando apenas lutas coloniais, ameaçava intervir na Europa. 

O jornalista quis saber qual seria sua reação se os ingleses desembarcassem. Bismarck não hesitou: "Ora, chamaria a Polícia!"

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