domingo, agosto 30, 2015

Os três roubos

Adelson Elias Vasconcellos

Há certas obviedades que a gente, às vezes,  até sente certa preguiça em descrevê-las. Mas,  num país em que a intolerância do governo atual e seu partido não admite o contraditório e, no entanto,  enche o peito para falar de “democracia”,  em que a existência da oposição é que justifica a própria democracia, repetir obviedades acaba sendo uma necessidade que se impõem. Quanto mais não seja, num país de pouca leitura, de informação inacessível para grande parte de seus 204 milhões de pessoas, seja pela geografia, ou pela educação deficiente, repetir obviedades acaba se tornando um serviço privado para benefício público.

Quando o PT assumiu a presidência em 2003, se comprometeu, para atingir seu objetivo, em manter contratos,  respeitar as regras e, principalmente, em manter inalterado o tripé macroeconômico que assegurava ao Brasil a tão batalhada, sonhada e sofrida estabilidade econômica, após ter comido o pão que o diabo amassou e purgado as portas do inferno em 25 anos de estagnação, atraso, concentração de renda e aumento indiscriminado da miséria, herança amarga recebida do período da ditadura militar e que se estendeu até a chegada do Plano Real.

De fato, na primeira metade do primeiro mandato de Lula cumpriu-se o contrato que o ex-operário e seu partido havia firmado com o povo brasileiro.  Com isso, Lula conquistou o que até então parecia impossível: a confiança da elite empresarial do país e,  nela, para a desgraça de todos nós, sabemos agora pela Lava Jato, montou seus esquemas sórdidos encaixados no projeto de poder político hegemônico do seu partido. Pelo lado institucional, logo se descobriu,  foi criado o mensalão com o objetivo de manter o Legislativo, ou sua maioria, genuflexa e submissa, de onde partiriam os projetos que consagrariam aquele projeto de poder. Tanto é assim que, por três vezes, Lula enviou projeto de  lei ao Congresso que, encapados sob rótulos aparentemente dóceis, iriam reprimir a livre expressão recriando a censura à imprensa e engessar o Judiciário.

Dada a reação da sociedade, teve de recuar de seu intento, mas sem nunca perder o desejo de concretizar tais “conquistas”. 

Porém, como a economia mundial já experimentava um período virtuoso, o maior dos últimos cem anos, Lula resolveu aparelhar o Estado com sua gente, a exemplo do que já fizera com sindicatos, centrais sindicais além de algumas organizações da sociedade civil. É dessa época que o governo abriu a porteira do Tesouro para ONG’s picaretas, com farta distribuição de doações, a grande maioria sem exigir nenhuma contrapartida. 

Através de uma massiva campanha publicitária, primeiro capturou a agenda do seu antecessor e, em seguida, demonizou-o a tal ponto que próprios tucanos evitaram, por algum tempo, ou exibi-lo ou referirem-se a obra tanto econômica quanto social de FHC.

Neste momento acontece, então, o primeiro roubo: Lula roubou um passado de  construção virtuosa que não lhe pertencia. E começa a tentativa criminosa de tentar reescrever a história do país ao seu modo. Neste ponto, o Bolsa Família espalhou-se de norte a sul, e sua existência passa a ser associada a Lula, o Pai dos Pobres,  com poucos lembrando que o embrião do Bolsa Família havia sido plantado e  se desenvolvido no Comunidade Solidária, comandado por Ruth Cardoso, esposa de FHC, já falecida.  

Enquanto isso, no plano econômico, o país ia  se beneficiando do vertiginoso crescimento do consumo mundial, principalmente pela  Índia e China, de commodities nas quais o Brasil tinha excelência, como soja e minério de ferro. 

As exportações cresceram em volume e valor faturado, dado que o maior consumo elevou  os preços das commodities no mercado internacional. Foi por este fator que o Brasil formou seu colchão de segurança em divisas internacionais elevadas.  Porém, por preguiça, covardia ou incompetência, Lula perdeu, neste ponto, a grande oportunidade de provocar um salto no desenvolvimento do país para garantir-lhe sustentabilidade. Para começar, abandonou toda e qualquer intenção de dar seguimento às reformas estruturais, que abriram caminho, no governo FHC, para a estabilidade. Depois, para manter a inflação sob controle manipulou de tal forma o câmbio, que o dólar chegou a valer R$ 1,57. Segundo analistas, à época, o dólar de equilíbrio deveria pelo menos de 30 a 40% mais. O efeito desta manipulação foi dar início ao débâcle da indústria brasileira.  

A primeira consequência deste desastre foi desaparecer os manufaturados e semimanufaturados da nossa pauta de exportações. Depois, com o dólar baratinho, as prateleiras do comércio interno se entupiram de importados, roubando espaço da nossa indústria. Ato contínuo, Lula criou o clubinho chamado “Campeões Nacionais”, para os quais o BNDES abriu seus cofres, com juros subsidiados. A intenção era internacionalizar as empresas privilegiadas, como símbolo de megalomania de, no improviso e no berro, alinhariam o Brasil como um país “rico”. Na época, reivindicava-se, em todos os fóruns internacionais, uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.  Quanto aos todos os demais setores da economia esquecidos por Lula, padeciam com o chamado “Custo Brasil”.

Ainda em seu primeiro mandato, já projetando sua estratégia de roubar o passado, Lula decidiu interromper todas as obras de infraestrutura em andamento no país e, sob a desculpa de mandar rever os estudos, manteve-as paralisadas. Nesta época, Lula não pensava nem no custo da obra parada tampouco no atraso que provocaria sua decisão para o desenvolvimento do país, tendo que conviver com uma infraestrutura deteriorada. 

Reeleito, Lula saca da algibeira todas aquelas obras que interrompera e cria o tal PAC, incluindo no rol de obras todas aquelas que, no primeiro mandato, ele interrompera e posa como o grande gênio do desenvolvimento. Em seguida, nomeia Dilma Rousseff, então na Casa Civil desde a queda de José Dirceu, como a “Mãe do PAC”, o que ensejaria escolhê-la para sua sucessão. Neste ponto, Lula rouba do Brasil o seu presente. 

Para eleger Dilma, abriu as torneiras da gastança desenfreada, loteando o quanto pode o Estado, concedendo aumentos aos servidores de determinadas categoria acima de 100%. Lula gastou o que podia e não podia. E o fez porque, à luz do pré-sal, Lula determinara, por sua conta e risco, que o Brasil já era rico, e passou a gastar por conta de uma riqueza que só se tornaria como tal dali a 10 anos. 

Ao conseguir eleger Dilma Rousseff, Lula cometeu o terceiro pecado, isto é, roubou o futuro. Sua sucessora não tinha o temperamento tampouco a qualificação necessária para o posto mais alto da república. Sempre fora uma burocrata, sem nenhum trato político (que, aliás, detesta), além de uma formação nacionalista que lembrava os generais presidentes de má memória.  

Ao assumir, sem qualificação, sem temperamento para o ambiente político, sendo vista com desconfiança até pelos companheiros de partido, não demorou muito para demonstrar que se tratava da pessoa errada, no lugar e hora errados. 

Se,  pela reprovação das contas via TCU e consequentemente abertura, pelo Congresso,  de processo por crime de responsabilidade, ou pela constatação de haver cometido crime eleitoral, via TSE, esta senhora não for retirada da presidência, seguramente o Brasil retroagirá ao início dos anos de 1990, naquela bagunça que foi o governo de Fernando Collor. Dilma está, simplesmente, detonando todas as bases sobre as quais o país construiu sua estabilidade.  E não vá se esperar que lhe sobrevenha um surto de humildade sincera para, a partir dela, reconhecer seus próprios erros e escolhas. Orgulho, prepotência, arrogância, e uma imensa compulsão à mentira, emolduram um caráter difícil de mudar. 

Na tal entrevista aos três maiores jornais em circulação no país, tendo ali uma preciosa oportunidade de se reconciliar com a sociedade, ela apenas reconheceu como seu erro (assim mesmo, com um “talvez”), ter demorado a reconhecer a gravidade da crise. E as razões para o aparecimento da crise? Nada, a não ser a crise na China como uma desculpa indecente. Soluções para debelar a crise? Nada. E a corrupção dos parceiros políticos mancomunados com as grandes empreiteiras? Nem um pio. Não apresentou uma única solução, repetindo o mantra de que ela será passageira, quando todos sabem que a crise dura pelo menos dois a três anos..

Talvez, quando já estiver longe do poder, Dilma reflita e, num rasgo de sincera humildade, reconheça que, graças ao seu reconhecido destempero, seu incurável preconceito contra o capital privado, sua teimosia incurável e sua arrogância imbecilizada e medíocre, reconheça os males que seu governo produziu para o futuro do país. Retornamos no tempo, perdemos vitalidade e virtudes conquistadas com muito esforço e sacrifício por toda a sociedade. 

Além do Brasil, quem mais perdeu   força econômica? Rússia e Ucrânia, dois países em guerra. O resto do mundo cresceu, até a complicada e encrencada Grécia apresentou resultado positivo. 

Quanto a “dificuldades passageiras”, isto Dilma pode contar para si mesma. Afinal, ela pode enganar-se o quanto quiser. O que não pode, e já nem mais tem credibilidade para tanto, é achar que o resto do país lhe dará ouvidos. Dilma mentiu antes, durante e após as eleições. E mesmo diante do desastre que seu primeiro mandato provocou na economia e vida diária do país,  teima em mentir, em ludibriar, em insistir num discursos de palanque num tempo em que já mão há mais eleições para disputar. 

Claro que houve outros momentos tão ou mais relevantes dos que os que aqui narrados, mas a resenha acima representa um rol de acontecimentos representativos dos três roubos, passado, presente e futuro, praticados contra o Brasil e seu povo. O conserto deste total desarranjo praticado em 12 anos, vai cobrar das futuras gerações  muito sacrifício. Mas certamente, elas não nos perdoarão por termos permitido que o PT,  Lula e Dilma, roubasse toda a esperança de um país melhor que poderíamos ter deixado como herança.  

A verdade sobre a dívida do Brasil – 2ª Parte

Adelson Elias Vasconcellos

Vamos a continuidade do texto sobre a dívida brasileira.  Na primeira parte, apresentamos dois números totalmente diferentes, um, o oficial divulgado pelo Banco Central e, outro, bastante superior ao do BC. Pedimos a AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA, por e-mail,  que nos esclarecesse  a razão ou razões para tão grande diferença. Vejam e se surpreendam com o texto que a AUDITORIA CIDADÃ DA DÍVIDA nos enviou. Chamo a atenção dos leitores para a resposta dada na questão n° 4: 

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1 - A dívida pública está caindo? 
MENTIRA. Frequentemente, analistas ligados ao governo dizem que a chamada “Dívida Líquida/PIB” está caindo, tendo passado de 60% do PIB ao final de 2002 para 35% do PIB atualmente. Porém, para calcular a “dívida líquida”, o governo pega a dívida bruta (sobre a qual o país paga juros altíssimos) e subtrai dela diversos ativos possuídos pelo país, mas que rendem juros irrisórios, tais como as reservas internacionais, empréstimos ao BNDES, e até mesmo recursos do FAT. Caso consideremos a dívida bruta, ela se encontra em mais de 80% do PIB. Frequentemente, a imprensa e o governo também divulgam o dado de que a dívida federal estaria em cerca de R$ 2 trilhões, porém, este dado não considera os títulos do Tesouro em poder do Banco Central (ou seja, a dívida do Tesouro com o Banco Central), alegando que seria uma dívida entre dois entes do próprio governo. O problema é que grande parte destes títulos em poder do BC são entregues aos bancos, ou seja, isso representa sim dívida do governo com os bancos, que recebem juros altíssimos às custas do povo. Caso consideremos a dívida interna federal total, ela já se encontra em mais de R$ 3 trilhões.

2 - Os gastos com juros da dívida estão caindo? 
MENTIRA. Frequentemente, membros do governo dizem que as taxas de juros estariam caindo, e que com isso os gastos com juros da dívida estariam caindo também. Porém, conforme mostra o Banco Central, os juros devidos pela União, Estados e Municípios em 2013 foram de R$ 248 bilhões, valor bem maior que em 2012 (R$ 213 bilhões). 

(Fonte: https://www3.bcb.gov.br/sgspub/consultarvalores/telaCvsSelecionarSeries.paint - Série código 4759) 

Além do mais, estes dados do BC não consideram parcelas importantes da dívida, e também não consideram o pagamento de amortizações (principal) da dívida. Segundo o Tesouro Nacional, em 2013 o governo federal gastou R$ 718 bilhões com juros e amortizações da dívida interna e externa, o que representou 40,3% do orçamento federal, o que é absurdo. 

Fonte: http://www8a.senado.gov.br/dwweb/abreDoc.html?docId=2619486 3

3-)  Boa parte destes 40,3% não deveriam ser considerados, pois representam “rolagem” ou “refinanciamento” da dívida. 
MENTIRA. Frequentemente, pessoas ligadas ao governo afirmam que parte destes 40,3% seria apenas “rolagem” ou “refinanciamento” da dívida, ou seja, o pagamento de amortizações (principal) da dívida por meio da emissão de novos títulos (nova dívida). Portanto, isto seria apenas uma troca de títulos velhos por novos, não representando custo para o país. Porém, a recente CPI da Dívida realizada na Câmara dos Deputados revelou que grande parte desta “rolagem” ou “refinanciamento” contabilizada pelo governo não representa pagamento de principal, mas sim, o pagamento de juros. Portanto, a capacidade de endividamento do país está sendo utilizada para pagar juros e encher o bolso dos bancos, ao invés de, por exemplo, financiar a melhoria da saúde, educação, transportes, etc. 

4 -) A dívida deixou de ser um problema após o pagamento ao FMI? 
MENTIRA. Em 2005, durante o Governo Lula, foi amplamente propagandeado o resgate antecipado ao FMI, no valor de US$ 15,5 bilhões. Ao contrário do que se ensejou fazer crer, tal pagamento não significou a extinção do endividamento externo, que alcançou US$ 485 bilhões em dezembro/2013. O pagamento de US$ 15,5 bilhões ao FMI em 2005 foi feito mediante a emissão de novas dívidas interna e externa com juros muito superiores aos juros que vinham sendo pagos ao FMI, ou seja, NÃO PAGAMOS A DÍVIDA, ela simplesmente mudou de mãos e em condições mais onerosas. O pagamento antecipado ao FMI significou, na prática, a troca de dívida sobre a qual incidia uma taxa de juros anual de 4% por nova dívida interna, que na época remunerava à taxa de juros de 19,3% ao ano, bem como de emissão acelerada de dívida externa, cuja taxa de juros estava, à época, no patamar de 8%. Além do mais, o Brasil continua praticando as políticas recomendadas pelo FMI, tais como o “superávit primário” (ou seja, o corte de gastos sociais para o pagamento da dívida), as reformas da Previdência, as privatizações, dentre outras. 

5 -) A principal beneficiária da “dívida interna” é a classe média? 
MENTIRA. Muitos dizem que o principal beneficiário da dívida interna é todo o povo brasileiro, quando investe no chamado “Tesouro Direto”, ou quando investe em “Fundos de Investimento” de bancos, ou quando participa de algum “Fundo de Pensão”, que por sua vez investe em títulos da dívida interna. 

Na realidade, os principais beneficiários da dívida interna são os grandes bancos e investidores nacionais e estrangeiros, pelos seguintes motivos:

 a - O chamado “Tesouro Direto” responde por apenas 0,36% do estoque da Dívida Interna (dado de julho/2013)

 b – Conforme o gráfico abaixo, os principais beneficiários da dívida interna são os bancos (nacionais e estrangeiros) e investidores estrangeiros, que junto com as seguradoras (que também pertencem principalmente aos grandes bancos) detêm 62% do estoque da dívida. 

Apesar de muitos alegarem que os recursos dos bancos seriam, na realidade, dos correntistas, cabe ressalvarmos que grande parte dos valores investidos pelos bancos em títulos da dívida pública são o capital do próprio banco. Além do mais, os correntistas recebem ZERO de remuneração, enquanto os bancos recebem TODO o rendimento de seus títulos públicos 

c - Os Fundos de Investimento detêm 18% da dívida, e também beneficiam grandes investidores. A recente CPI da Dívida na Câmara dos Deputados requereu ao governo dados sobre a distribuição dos grandes e pequenos aplicadores de Fundos de Investimento, sendo que o Banco Central respondeu que não possui tais informações. Recentemente, a Auditoria Cidadã da Dívida solicitou ao Tesouro Nacional o nome dos detentores de títulos da dívida interna, com o valor detido por cada um. O Tesouro Nacional se negou a responder, alegando que tais informações estariam protegidas por “Sigilo Bancário” !!!

 Portanto, considerando que, de forma oficial, o governo afirma que não possui – ou não pode fornecer – tais informações, é inadmissível que qualquer pessoa venha a afirmar que a dívida pública beneficie principalmente o povo brasileiro como um todo, por meio dos “Fundos de Investimento”. Aliás, quando alguém da classe média faz um investimento nestes fundos, paga elevadíssimas taxas de administração para os bancos. 

d – Os Fundos de Pensão detêm apenas 13% da dívida interna, razão pela qual não são os principais beneficiários da dívida.

Quando se defende a auditoria, estamos exatamente querendo saber quem são os credores, pois nem mesmo o governo sabe quem são. E a partir daí, poderíamos saber quem seriam realmente os pequenos aplicadores, para que estes possam ser preservados. Mas isto somente poderíamos saber após fazermos a auditoria.

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****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Eis aí, em perguntas e respostas bem explícitas e esclarecedoras, a verdade dos fatos. Apenas discordo de parte da resposta da questão n° 4. Primeiro, que com o aumento da expectativa de vida, é necessário fazermos uma reforma previdenciária, coisa realizada já em outros países do Primeiro Mundo. Caso se mantenha as regras atuais, a Previdência tende a se exaurir e, deste modo, quem pagará pela nossa omissão serão as gerações futuras. Isto, contudo, não implica em suprimir direitos, e sim acabar com privilégios e nos adaptarmos à mudança dos ventos. Tanto é assim, que o governo já anunciou sua intenção de promover, em 2016, uma reforma da Previdência que, esperamos,  corrija as principais distorções atuais.

Outro ponto do qual discordo é no tocante às privatizações que, basta consultar o arquivo do blog, já comprovamos o grande acerto de se entregar à iniciativa privada, empresas e atividades para as quais o Estado não tinha mais recursos para investir em seu aprimoramento, expansão e modernização.  E, quanto ao superávit primário, nada há de errado em o país poupar recursos para pagar o que deve. E isto se faz eliminando a adiposidade da estrutura do governo, sem que se mexa um centavo no que deve ser investido em educação, saúde, segurança, saneamento e infraestrutura.  Onde está a irregularidade neste caso, ou será que ser caloteiro dará respeitabilidade e credibilidade no exterior? Ora, ...   

Assim, eis os reais números da divida brasileira:

• Interna: R$ 3.585.829.906.868,44
• Externa: US$ 554.963.473.388,75

Encaminhando para o final, recuperemos aquela composição, lá no início, da atual dívida brasileira, interna e externa: ela é real. E sendo assim, atualmente a dívida já representa mais de 100% do PIB, apesar de que o seu serviço capture  50% da arrecadação federal, o que nos faz entender a razão da queda em investimentos nos últimos 8 trimestres.

E é por isso que o superávit se faz necessário. Quanto mais rápido reduzirmos  a dívida, menos recursos serão deslocados para serem consumidos pelo serviço com juros e rolagem.  O problema é que o governo atual não se dispões a racionalizar seus gastos correntes, os quais há 12 anos crescem acima do PIB e da própria inflação. 

E que se registre: a dívida só atingiu o mostrengo acima demonstrado, em razão de governos irresponsáveis que gastaram mais do que arrecadaram, e em coisas inúteis, de pura ostentação, com aparelhamento e gigantismo do Estado. Enquanto isto, no lado dos investimentos, eles só despencaram. Culpa de quem, do FMI é que não foi. Tivessem os governos Lula e Dilma sido mais precavidos, ao invés de torrar dinheiro em bugigangas, teriam investidos na melhoria dos serviços básicos. O que precisamos, se o desejo for nos tornarmos um país sério, moderno, desenvolvido e com uma qualidade de vida de bom nível para a maioria dos brasileiros,  é acabar de vez com a eterna mania de transferirmos a terceiros as culpas de nossas próprias escolhas. 

Não saberia dizer qual o crime maior do governo petista para com o Brasil: se os esquemas fraudulentos e corruptos incrustados no Estado brasileiro, que corroeram nossa riqueza ao longo dos últimos doze anos, ou se o comprometimento do futuro do país com um endividamento criminoso, irresponsável e que será jogado nos ombros  desta e das futuras gerações a responsabilidade para pagar, tirando de milhões o sonho de conhecer um Brasil rico e desenvolvido. 

Conclusão: em matéria de golpe contra o povo, contra as instituições democráticas, contra o estado de direito e contra o bem estar social, sem dúvida nenhuma, o PT excedeu  qualquer limite.

Entenda o governo Dilma se for capaz

J.R. Guzzo
 Revista EXAME 

Alexandre Severo / EXAME 
Mais caro e mais pobre: a gastança oficial a descoberto 
está gerando inflação e recessão ao mesmo tempo

São Paulo — Vamos ver se dá para entender. O governo da presidente Dilma Rousseff, que, em sua autoavaliação, faz uma das melhores gestões jamais registradas na história da economia mundial, foi injustamente atacado por uma súbita e misteriosa crise econômica fabricada no exterior — tão misteriosa que até agora não foi possível descobrir onde ela está, quem a criou e por que tem prejudicado só o Brasil, junto com umas poucas economias bem-sucedidas, como a da Venezuela, a da Grécia e a de lugares parecidos.

Por causa disso, e só disso, o governo ficou sem dinheiro e não tem como cumprir suas obrigações, sendo forçado a fazer um ajuste — quer dizer, pisar no freio das despesas que até outro dia vinha fazendo com tanto orgulho e que apresentava como prova de sua competência para governar o país.

Esse ajuste tem uma característica inédita: destina-se a diminuir gastos, mas prevê que a economia a ser feita no orçamento deste ano será de 0% sobre a arrecadação estimada até o fim de dezembro. Outro aspecto interessante, e ainda não acessível ao entendimento comum, é a decisão de reduzir a despesa pública e, ao mesmo tempo, aumentar os juros — incluindo, naturalmente, os que o governo paga sobre a própria dívida.

Imaginava-se, até outro dia, que juro é custo; serve para diversos propósitos de política econômica, sem dúvida, mas também é certo que, quando sobe, aumenta os gastos de quem precisa pagar o dinheiro que tomou emprestado. Além de encarecer os desembolsos da dívida pública, reduz os ganhos de toda a economia privada e faz com que ela pague menos impostos — justo na hora em que o Tesouro Nacional está precisando arrecadar mais. Complicado até aqui? Calma, porque ainda vai complicar mais.

Um programa de ajuste, pelo que se imagina, destina-se a ajustar o que está desajustado — no caso, despesas que estão acima das receitas, o que leva o poder público a se endividar mais e a gastar mais com sua dívida.

Mas tudo o que o governo está fazendo no momento é segurar pagamentos, anular investimentos e tentar escapes de emergência, como a retenção do adiantamento da metade do 13º salário — coisa que, por sinal, o ministro da Fazenda anunciou, mas não conseguiu fazer porque o PT não gostou e a presidente mandou que voltasse atrás.

Não há até agora, após oito meses de ajuste, a eliminação real de nenhuma fonte geradora de despesa, e isso garante que a despesa de sempre continuará sendo feita como sempre. As coisas ficam ainda mais difíceis para os ajustadores quando se leva em conta que 90% das receitas do orçamento, por lei, têm de ser obrigatoriamente usadas em pagamentos já determinados.

É proibido mexer nesses gastos — se a arrecadação aumentar, a despesa tem de aumentar junto, o que torna impossível a intenção de economizar. Para piorar, a arrecadação está caindo. As empresas estão pagando menos imposto de renda, porque estão tendo menos renda; na verdade, o conjunto da economia está gerando menos imposto, porque todos estão consumindo menos e todos estão faturando menos.

Não poderia ser diferente. O Brasil, por ação direta do governo, está em recessão desde o ano passado — teve crescimento vizinho a zero em 2014 e vai andar para trás em 2015. Apesar dos fatos, porém, a gerência geral de Brasília decidiu que a receita deste ano aumentaria. Já estava difícil pagar a fatura com o dinheiro que efetivamente recebia. Fica mais difícil pagá-la com dinheiro que não recebeu.

O mais confuso, nisso tudo, é a posição da presidente da República, que não admite erro algum: segundo ela, o governo só “gastou mais” até agora porque “tinha mais”. Daqui para diante terá de gastar menos porque tem menos.

Mas não tinha nada, nem ontem nem hoje: só tinha uma eleição a ganhar, trocou o baralho da contabilidade oficial para continuar gastando a descoberto durante a campanha e conseguiu produzir despesa e recessão ao mesmo tempo. Fez do Brasil um país mais caro e mais pobre. Isso, pelo menos, dá para entender perfeitamente.

Carta de um médico para a presidente da República

Blog Noblat

“Não temos que agradecer nada que a senhora fez, pois não fez mais do que a obrigação. O dinheiro é nosso, a cidade é movida pelo nosso empenho. O povo é seu patrão!”

(Foto: Divulgação) 
Roberto Cacciari, médico 

Sra. Dilma Rousseff, tudo bem? Pelo que a senhora tem dito, está tudo bem, sim! Pude observar por fotos sua boa aparência enquanto visitava hoje pela manhã a cidade em que eu moro: Catanduva, aqui no interior de São Paulo. Porém, nós brasileiros não estamos tão bem quanto a senhora!

Desculpe-me não poder aplaudi-la hoje. Eu estava trabalhando, como sempre. A propósito, é isso que os brasileiros mais fazem para tentar consertar o seu desgoverno. Confesso, adoro trabalhar. Isso não é problema para mim. Porém, trabalhar sem perspectivas de mudança e melhoria, isso me incomoda. Cansamos de improvisar para resolver os desatinos do seu governo. Quem gosta de dar um jeitinho em tudo, são vocês aí de cima; nós, médicos, cansamos!

A senhora veio até a nossa cidade e “exigiu” um leito de UTI reservado apenas para atender um eventual problema. Senhora presidente, nossos pacientes que vivem à espera de um leito, às vezes até morrem aguardando, como ficam? A senhora deveria dar o exemplo: primeiro, como cidadã que se preocupa com seus pares, cedendo sua vaga para aqueles que realmente precisam; segundo, como autoridade, indicando a postura a ser seguida. Agindo como fez, reiterou o caos que se encontra a saúde pública desse país. Até a senhora precisa reservar leito, tamanha dificuldade de vagas!

Mas fique tranquila, caso sofresse algum mal súbito ou algum atentado  contra sua saúde, atenderíamos a senhora com muito prazer. Porém, se precisasse de vaga de UTI, deveria aguardar na emergência até surgir um leito. Poderia demorar dias, até semanas. Aliás, é assim que funciona. A senhora não sabia? Passe uns dias aqui conosco para averiguar. Venha sentir o ambiente da emergência e das enfermarias. Quem sabe isso desperte compaixão perante o povo sofrido que cuidamos incessantemente.

Como se não bastasse, exigiu reserva de um leito na enfermaria. Precisamos muito do espaço que a senhora solicitou. No hospital de nossa cidade atendemos outras 19 cidades circunvizinhas que encaminham seus pacientes para cá. Nossa emergência vive lotada, os corredores contêm macas por todos os lados. Alguns pacientes aguardam dias até surgir uma vaga na enfermaria. Por que a senhora quer um leito reservado?

Convém recordar que a senhora é representante do povo, todos pagam impostos expressivos sobre o salário e todos os bens e serviços. Vale destacar que a senhora é o funcionário que mais dá prejuízo nesse país. Basta olhar os noticiários do Brasil e do mundo.

Notei barulho de vários helicópteros. Desculpe, não tive tempo de olhar pela janela para ver como eram. Cabe informar que seu transporte muito confortável poderia estar sendo utilizado para salvar vidas. Aqui em nossa região temos inúmeras estradas vicinais. Os acidentes são constantes e inúmeros óbitos são registrados. Já que melhorar as estradas não é possível, pelo menos nos dê condições de atender as vítimas com agilidade.

A cidade referência de nossa região, São José do Rio Preto, precisa ainda mais de um helicóptero como o seu. Faça um favor, ande de carro. Seja humilde, assim como seu povo é. Bem como o papa Francisco foi, quando visitou o Brasil. Assim conhecerá melhor as estradas do Brasil sob o seu desgoverno e dará exemplo de dignidade.

Como se não fosse suficiente toda a reserva no hospital tirando leito de quem precisa, ainda solicitou que três viaturas do SAMU estivessem ao seu dispor. Senhora presidente, trabalho no SAMU há seis anos. Conheço muito bem as necessidades e prioridades desse serviço. Cobrimos, 24 horas por dia, 19 cidades. Muitas vezes precisamos de suporte de mais viaturas para atender ocorrências com inúmeras vítimas, porém não temos disponível, nem profissionais.

Observe, atendemos cerca de 500 mil habitantes em nossa região, com apenas um médico disponível do SAMU para socorrer! Agora, a senhora vem aqui nos visitar e exige um médico apenas para a senhora? Faça-me o favor, senhora presidente! Estamos sobrecarregados e ainda a senhora vem tumultuar nosso ambiente?

Além de tudo, veio acompanhada de três médicos, exaustivamente acompanhando a senhora, inclusive com desfibrilador a postos. Saiba que Catanduva, SP, tem médicos competentes o suficiente para atendê-la em caso de necessidade. Tenha certeza que será muito bem atendida, enfrentamos bem situações adversas.

Aliás, a senhora solicitou que uma sala cirúrgica estivesse livre e desocupada, ao seu dispor. Não sei se a senhora não sabe, mas precisamos de mais salas cirúrgicas para atender toda a demanda de pacientes. Não raramente, precisamos priorizar quem operamos. Alguns precisam aguardar a sala cirúrgica ser desocupada para ser operados. Às vezes, não dá tempo… Ora, a senhora quer uma disponível exclusivamente para uma eventual cirurgia? Pergunto: e o José, a Maria e o João? A vida deles é menos importante que a sua?

E a segurança? Além dos seus inúmeros seguranças particulares, a senhora mobilizou nosso contingente para resguardar sua integridade. Cerca de 50 policiais à sua disposição, além de viaturas. Ora, e a segurança da nossa população? Somos 115 mil habitantes e precisamos de mais segurança. Atendemos baleados, esfaqueados e agredidos com frequência em nosso serviço. Muitos deles precisam do espaço que a senhora reservou para seu “eventual” atentado.

Enfim, senhora Dilma, desculpe-me alongar. São tantas as dores que guardamos no coração… Vê-la dissimuladamente festejar entrega de casas populares dá-nos náuseas. Não estamos de brincadeira, senhora, queremos respeito com nosso suor. Exigimos que nos represente com honestidade e cuide de nossa população, ainda mais dos que precisam de condições mínimas de saúde.

Não me venha dizer que não sabia de nada dos desvios do seu governo e que não tinha conhecimento do comportamento delituoso das pessoas com quem estava se envolvendo. Agora responda por suas ações (e pela ausência delas!), cumpra com seus deveres e ao menos conserte o estrago feito.

Não temos que agradecer nada que a senhora fez, pois não fez mais do que a obrigação. O dinheiro é nosso, a cidade é movida pelo nosso empenho. O povo é seu patrão! Portanto, da próxima vez, nem venha. Trabalhe! Busque soluções concretas para o poço sem fundo que o país está. Rápido, antes que nosso Brasil vire pó.

Agora, pergunto: Sra. Dilma, a que veio? Da próxima vez, peça licença. Chega, estamos cansados!

Dr. Roberto Cacciari 

Dilma 2, a recaída

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Todo mundo dizia que a desaceleração chinesa terminaria por derrubar o preço dos principais produtos de exportação

O governo Dilma 2 está cada vez mais parecido com o Dilma 1. Começou propondo uma guinada de política econômica, até deu início prático ao novo modelo comandado pelo ministro Joaquim Levy, mas tem tido sucessivas recaídas no modo Guido Mantega.

As últimas semanas mostraram três tipos de recaída: o recurso ao marketing; o improviso na gestão; e colocar a culpa de tudo em alguém lá fora, no momento, os chineses.

Uma quarta característica do Dilma 1, o otimismo, não pode ser praticada neste momento por razões óbvias. A situação econômica é muito pior e vem piorando. Não há cegueira que esconda isso. Mesmo assim, a presidente saiu para um tipo de otimismo invertido.

Ok, a crise é maior do que ela dizia ser. Também mais longa, de modo que não poderia prometer para o próximo ano “uma situação maravilhosa”.

O que estaria abaixo de “maravilhosa”? Se for, digamos, “muito bonita”, também não dá para prometer. Sequer uma “bonitinha”. Simplesmente boa? Também não cabe.

Não tem como escapar de um ano difícil, mas, mesmo admitindo a qualificação, a presidente ressalva, de novo: não teremos “dificuldades imensas, como muitos pintam”.

Se não são imensas, seriam apenas grandes?

E por aí vai. A técnica é fugir das palavras que descrevem a realidade: recessão e desemprego, com inflação e juros altos.

Esqueçam as maravilhosas e as imensas. O Brasil está em recessão, ficando mais pobre neste ano e um pouco mais em 2016. O desemprego é de 8,5%, com tendência de alta. A inflação, hoje na casa dos 9% ao ano, subtrai renda das famílias, que estão mais endividadas.

Fazer o quê? Aqui entra uma legítima argumentação Dilma/Mantega: é a economia internacional, no caso, a crise da China.

A China, nossa principal parceira comercial, entrou em desaceleração, oficialmente, digamos, em 2012. O país, que crescia a 9,5% ao ano, caiu para a faixa dos 7% — e o novo governo anunciou que esse era o “novo normal”, em um momento de mudança no modelo econômico.

Todo mundo sabia e dizia que a desaceleração chinesa terminaria por derrubar o preço dos principais produtos brasileiros de exportação, minério de ferro e soja. Em resumo, todo mundo sabia que a era CCC — China, commodities e crédito/consumo — chegara ao fim não apenas para o Brasil, mas todos os emergentes.

Só agora, pelo menos três anos depois, a presidente Dilma percebeu isso? Duas questões: ela de fato não sabia ou sabia e tratou de esconder isso dos brasileiros? O que seria pior?

A política de ajuste e reformas ortodoxas introduzida com a colocação de Levy no Ministério da Fazenda era uma confissão tácita de erro. Isso não foi admitido — ao contrário, era uma “continuidade” — mas, de umas semanas para cá, parece que a presidente começa a se arrepender.

Chamou os marqueteiros, o pessoal que não resolve nada, mas cria a tal agenda positiva. Por exemplo: cortar dez ministérios.

Quais? Ainda não se sabe, a estudar.

Economia de gasto? Alguns milhões.

Medida imediata? Colocar à venda uns prédios que estavam fechados há tempos, incluindo uma cobertura na Barra. Se vender tudo, dá uns 90 milhões de reais. Para se ter uma ideia: na preparação do Orçamento de 2016 parece que estão faltando R$ 90 bilhões para fechar as contas.

Outra dos marqueteiros: inundar a mídia de propaganda oficial, mostrando um país, aqui sim, maravilhoso.

No recurso ao improviso (ou trapalhadas), o governo conseguiu arrumar R$ 15 bilhões para pagar a primeira parcela do 13º dos aposentados do INSS. Não faz duas semanas, o ministro Levy havia dito que não tinha o dinheiro, que só pagaria em novembro. Pegou mal, Lula reclamou, a presidente mandou pagar tudo agora.

Se tem o dinheiro para isso, então o ministro Levy mentiu. Como ele é de uma franqueza até rude, pode-se entender o seguinte: não há dinheiro se a meta de fazer economia for a sério. Nesse caso, o aparecimento súbito dos R$ 15 bilhões indica que se caminha na direção contrária, de déficit.

Reparem: o governo arrumou um gasto imediato de R$ 15 bilhões e colocou um anúncio de venda de imóveis que podem dar uns R$ 90 milhões. Isso é um típico ajuste fiscal à Mantega.

DESTRUIÇÃO DAS FEDERAIS
A coluna da semana passada, sobre a longa greve das universidades federais, trouxe manifestações de professores inconformados com a situação. Como Rodrigo Paiva, da UFF, que contou: dos 70 professores do Departamento de Física, apenas três aderiram à greve. Os demais 67 não conseguem dar aulas porque a direção da universidade não faz as matrículas.

Outra: a UFF tem 3.100 professores. A greve foi decidida em assembleia com pouco mais de cem docentes.

Na Federal do Rio Grande do Sul, foi feita uma votação eletrônica, da qual participaram 1.247 professores. Greve rejeitada por uma maioria de 54,5%.

Getúlio e Dilma em 24 de agosto

Sebastião Nery
Tribuna da Internet



Aquela foi uma noite de cão, o 23 de agosto de 1954. Fez 61 anos domingo. Ninguém me contou. Eu vi, vivi e sofri.

Getúlio encurralado no Catete. Juscelino, generoso, corajoso e solidário, o havia levado a Belo Horizonte no dia 12 para inaugurar a siderúrgica Mannesman. Eu queria ver e ouvir Getúlio. Nunca o tinha visto de perto. Mais baixo do que pensava, mais gordo do que parecia, uma infinita tristeza no rosto, como se fosse logo chorar. Leu seu discurso com a voz forte, decidida mas tensa. Deixou claro : só morto sairia do Catete.

Juscelino fez um discurso como ele era : valente, desafiador, falando em desenvolvimento, futuro e democracia, Nada poderia fazer mais bem a Vargas naquela hora desastrada.

Getúlio resolveu dormir em Minas. De manhã, depois do café, Vargas todo arrumado para viajar, com um charuto na mão esquerda, Juscelino chamou um pequeno grupo de jornalistas, um de cada jornal, para nos apresentar. A mão miúda, gordinha, fria, parecia um filé mignon. Olhava-nos com simpatia, sorriso contido mas olhar distante, de quem não estava mais ali, perguntava o jornal onde trabalhávamos, de onde éramos.

Em nenhum instante sorriu aberto. Entrou no carro sem olhar para trás, foi para o aeroporto com Juscelino, despediu-se emocionado.

SUICÍDIO
E o golpe galopava nas rádios, jornais e tribunas do Congresso. Na noite de 23 de agosto, as rádios “Nacional”, “Tupi”, “Globo” ficaram de plantão. A “Nacional” era do governo. A “Tupi” de Chateaubriand e a “Globo” de Roberto Marinho tinham sido entregues a Carlos Lacerda, que não saia do microfone. Meia noite Vargas reuniu o ministério.

Recebeu o manifesto dos generais, levado por seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa. Assinou uma licença, deu a caneta a Tancredo , foi deitar-se ao amanhecer. Lacerda e Eduardo Gomes gritavam nas rádios:

– “ Licença coisa nenhuma. Ele não voltará ”.

Não voltou. Ficou para sempre. Suicidou-se às 8:30 da manhã.

A CARTA
Passei a madrugada ouvindo as rádios e um pianista cego, no “ Columbia ”, bar restaurante de jornalistas noturnos,na avenida Paraná.

A Carta Testamento começou a ser lida nas rádios. Corri para o palácio da Liberdade, cheio de jornalistas, políticos. Juscelino literalmente arrasado. Nas mãos, enrolada, a Carta Testamento. Pedi uma copia para mim, sai às pressas. A cidade já toda na rua. Armaram um palanque bem ao lado da escadaria da Faculdade de Direito. Roberto Costa e Dimas Perrin, dirigentes do Partido Comunista, comandavam :

– Na hora em que terminar de ler a Carta, não esqueça de apontar para o Consulado Americano e dizer :

– Quem matou Getúlio está ali! Foi o imperialismo americano!

O Consulado ficava exatamente ao lado da Faculdade, com uma Biblioteca Thomas Jefferson logo na entrada:

E fui lendo pausadamente, comovidamente. Não sei que ator baixou em mim. Não parecia que era eu. Até a voz ficou mais alta, poderosa. A multidão chorava e eu também. As ultimas frases li como se estivesse sobre o túmulo de Vargas. Antes de descer, o fogo já subia. Haviam posto gasolina nas revistas e jornais pendurados nos cavaletes, nos livros dentro das estantes e nas grandes fotografias de Lincoln e Jefferson.

Queimava tudo. Fogo sabe bem inglês.O incêndio do Consulado em Belo Horizonte foi uma das fotos mais impressionantes que correram o mundo no 24 de agosto. As Policias Federal, Militar e Civil avançaram batendo. Houve muita pancadaria. Estudantes e povo apanhamos muito.

MONTANHA
Montanha, um investigador enorme, grandalhão, negro, me agarrou pelo pescoço com a mão esquerda, a palma da mão bem vermelha, me sacudiu no ar e jogou no chão, como um embrulho inútil.

Na outra mão, um revolver grande, preto. Pensei que ele ia atirar:

– Ai, meu Deus! Vou morrer aos 22 anos, como Álvares de Azevedo!

Não atirou. Bateu com o revolver no meu rosto, o sangue esguichou e saiu me arrastando para o carro da policia.Roberto e Dimas pegaram um ano de cadeia. Estudantes que derramaram a gasolina seis meses cada. A Policia acusou minhas frases de serem uma senha. Sem prova me soltaram.

 DILMA
Dom Pedro I, acuado, mandou seu recado : – “ Como é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, digam ao povo que fico ”. Ficou pouco.

Getúlio, isolado, deu um tiro no peito. Dilma, ainda bem, não dará.

Também, e é uma pena, não sairá. Só agarrada, tirada. Falta arranjar um José Bonifácio para cuidar de Michel Temer até ele crescer.

Hora da xepa.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Não importa o que os políticos, empresários e gente importante em geral nos digam: o que importa é a atitude que tomam. Podem dizer que a administração é excelenta, que a presidente é competenta, valenta, resistenta. Mas como agem?

1 - Por enquanto, 20% dos prefeitos do PT no Estado de São Paulo mudaram de partido. É a lei da vida: para sobreviver, acharam melhor sair do partido dela.

2 - Tente lembrar-se de algum Governo, nos últimos 50 anos, que não tenha tido o apoio de Delfim Netto. Nesta era petista, ele esteve bem próximo de Lula, tanto que muitos o consideravam seu conselheiro. Delfim disse agora que Dilma, em 2014, destruiu deliberadamente a economia para conseguir a reeleição. É injusto: Dilma nem sabe o que faz na economia. Mas Delfim se afastou dela - e bem quando Dilma busca o apoio empresarial, área em que Delfim é influente.

3 - O Banco Central divulgou nesta semana a taxa de juros do cartão de crédito: 395,3% ao ano. A taxa alta indica falta de confiança na economia. E os banqueiros são o único grupo de empresários que manifesta seu apoio a Dilma.

4- Dilma iria presidir no seu palácio um evento de atletas para-olímpicos. O chefe do cerimonial simplesmente barrou, com os braços estendidos, a entrada da presidente, para que ela desse passagem a atletas cadeirantes. Dilma esbravejou, mas não adiantou. Quando um chefe de Governo bate boca em público com um subordinado, quando um subordinado não hesita em barrar a presidente, o poder acabou. 

O próximo passo é servir-lhe cafezinho frio com biscoitos murchos.

Batendo o pé
Quando Dilma soube que o vice Michel Temer teria um encontro com empresários, antecipou-se e, na véspera, reuniu alguns dos empresários que iriam conversar com ele. 

Quando a presidente de um país precisa disputar prestígio com o vice, vai ter de tomar cafezinho velho e frio guardado há dias na garrafa térmica.

A volta do que não saiu
Para tentar salvar o PT, Lula disse que pode ser candidato em 2018. Ele queria, claro; mas jamais tinha dito isso. Aliás, queria ter sido candidato em 2014, mas Dilma fez questão de segurar a bomba. 

O fato é que, ao recorrer a seu maior símbolo, o PT mostra que, no pós-Dilma, não tem mais ninguém para competir.

Pior do que está, fica
Que Tiririca, que nada! Com ele, pior do que está não fica. Com Dilma, pode ficar: é de seu Governo a ideia de jerica de recriar a CPMF, com o nome-fantasia de CIS, Contribuição Interfederativa da Saúde, e a mesma alíquota de quando foi extinta sob aplausos gerais: 0,38%.

A tal CIS é tão ruim que conseguiu o apoio do governador paulista Geraldo "Chuchu" Alckmin, tucano de bico fininho e comprido que só desce do muro para ficar do lado errado. Alckmin acha que parte da arrecadação será repassada aos Estados. O ministro Adib Jatene achava que o imposto iria para a Saúde. Mas Jatene não sabia como as coisas funcionavam.

O humor, enfim! 
O Governo explica que, sem a CPMF (desculpe, CIS), não será possível fechar as contas do Governo. O site O Sensacionalista, especializado em notícias falsas mas verossímeis, daquelas que só não são verdadeiras porque ainda não aconteceram, diz que o Governo, se não conseguir atochar a CPMF, aplicará seu Plano B: vai contratar batedores de carteira cubanos. E pagar-lhe só comissão.

No olho do furacão
Dilma está presa por três fenômenos que convergem para enfraquecê-la: a crise econômica, a Operação Lava-Jato e o esfarelamento de sua base no Congresso. Dilma tem grande participação nos três fenômenos: ampliou as despesas do Governo Federal como se a arrecadação fosse inesgotável, não viu o que ocorria debaixo de seus olhos na Petrobras - cujo Conselho de Administração presidiu -, hostilizou o maior partido aliado, o PMDB, estimulando o ministro Gilberto Kassab a esvaziá-lo com uma nova legenda, o PL (e espalhou o segredo, impedindo a articulação). Jamais honrou compromissos com os parlamentares e jogou-se numa batalha perdida pela Presidência da Câmara. Tem Aloízio Mercadante e José Eduardo Cardozo como núcleo duro político. 

É de espantar que Tiririca não esteja no time. E que a aprovação do Governo ainda seja superior a 5%.

Virou piada
Quando se envolveu na disputa pela Prefeitura de Curitiba, em 2012, a então ministra Gleisi Hoffmann, do PT, debochou de Ratinho Jr., o principal adversário de seu aliado. Dizia que seu candidato "tinha nome e sobrenome".

Agora, com assessor preso por pedofilia, envolvida nas investigações da Operação Pixuleco 2 (o que se apura é o desvio de recursos do Ministério do Planejamento para uma empresa que os repassaria a ela - sendo que o ministro do Planejamento era seu marido, Paulo Bernardo), Ratinho Jr. devolve o deboche:

"Corrupção agora tem nome e sobrenome. Tem até marido."

Um tuiteiro cruel completou: tem nome, sobrenome e vai ganhar um número.

O repórter certeiro
O blogueiro Ucho Haddad (ucho.info) foi o primeiro a apontar os problemas de Gleisi. Houve quem achasse que estava maluco. 

Mas acertou na mosca.

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Pixuleco 171, o herói inflável

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

Lula ficou revoltado com Pixuleco, um boneco inflável de 12 metros de altura que apareceu em Brasília nas manifestações do dia 16. Pixuleco é uma caricatura de Lula com roupa de presidiário e a inscrição "13-171" (leia mais em Personagem da Semana). A sátira motivou uma nota oficial do Instituto Lula, afirmando que o ex-presidente nunca fez nada de errado e só foi preso na ditadura militar por defender as liberdades. Nunca antes um ex-presidente da República polemizou com um boneco inflável - que veio desinflar o mito de Lula. E, quando isso se consumar, acabará a bateria da marionete que governa o Brasil.

Lula está indignado, porque a indignação é seu disfarce perfeito. Um dia ele já se indignou de verdade, mas, quando notou que o figurino do injustiçado chorão lhe dava poderes mágicos, não vestiu mais outra roupa. Lula manda no Brasil há 12 anos e continua se queixando da opressão - fórmula perfeita para eleger uma oprimida profissional, que luta dia e noite contra uma ditadura encerrada 30 anos atrás.

Hoje, há quem diga que essa ditadura foi profética ao prender Lula: atirou no que via e acertou no que ainda não existia. É evidentemente uma piada. O autoritarismo militar não tem graça, e Lula não estava destinado a ser o Pixuleco 171.

Quem lhe reservou esse destino, quase sem querer, foi ele mesmo.

Lula não se enrolou por banditismo. Se enrolou por mediocridade. Foi muito pobre e, ao se aproximar do poder, mais forte do que o impulso de combater a pobreza foi o instinto de se vingar dela. Vingança pessoal, bem entendido. Não resistiu aos convites do poder como status, como ascensão social. Quem conviveu com ele nos primeiros anos de palácio se impressionou com os charutos, os vinhos caros e demais símbolos de riqueza. Um ex-operário fascinado pela opulência dos magnatas. Isso não costuma dar certo. Não para um político.

Luiz Inácio da Silva é um cara simpático, engraçado. Não tem o olhar demoníaco de um Collor, que exala prepotência e crueldade. Mas, assim como a imensa maioria dos companheiros petistas, tem uma noção visceral de sua mediocridade. Os companheiros morrem de medo de sua própria covardia. Daí o desespero com que se agarram às tetas do Estado, com a forte desconfiança de que não serão capazes de mamar em outra freguesia. Talvez até alguns fossem capazes - Lula muito mais do que Dilma, por exemplo mas eles mesmos não acreditam. E não pagam para ver. Ou melhor: pagam para não ver.

E pagam bem. A República do Pixuleco é possivelmente um dos mais formidáveis sistemas de corrupção da civilização moderna - se é que se pode chamar isso de civilização. Um sistema montado sobre um trunfo infalível em sociedades infantilizadas e sentimentaloides: a chantagem emocional. Lula da Silva chora, e os corações derretidos ficam cegos para tudo - inclusive para o saque a seus próprios bolsos. O Brasil está sendo roubado de forma obscena há 12 anos pelos coitados, e não se sabe mais quantos exemplares de Joaquim Barbosa e Sergio Moro serão necessários para o país enxotar o governo criminoso.

A Lava Jato já evidenciou: as campanhas presidenciais de Lula e Dilma foram abastecidas com dinheiro roubado da Petrobras. Enquanto Lula batia boca com o boneco inflável, explodia a confissão de Nestor Cerveró sobre o uso de propina do navio-sonda Vitória 10 000 para a campanha de Lula em 2006. O próprio Instituto Lula que foi visto polemizando com o Pixuleco é uma central de arrecadação de cachês milionários do ex-presidente, oficialmente para palestras pagas por grandes empreiteiras - as mesmas que ganham obras no exterior graças ao lobby do palestrante.

Não é que o impeachment de Dilma seja uma saída legítima - ele é a única saída legítima, se os brasileiros ainda quiserem salvar suas instituições da pilhagem desenfreada. A legalidade no país leva todo dia um tapa na cara das trampolinagens companheiras sucessivamente reveladas e expostas, escatologicamente, à luz do sol. Dilma é a representante oficial da pilhagem - e só os covardes duvidam disso.

Se o Brasil tiver vergonha na cara, cercará o Congresso Nacional e o "encorajará" a fazer o que tem de ser feito. Se ficar em casa chupando o dedo, talvez o país tenha de ser libertado por um boneco inflável. 

A passageira do medo

Demétrio Magnoli 
Folha de S. Paulo

No fim das contas, perguntaram-se os próceres tucanos e peemedebistas, quem se atreveria a sustentar um governo carente de legitimidade eleitoral que, na moldura de uma crise econômica aprofundada pelo fracasso do ajuste fiscal, só teria a opção de fazer o mal?

Na democracia, o poder de governo repousa sobre a legitimidade, um conceito eminentemente político, e a legalidade, um conceito político-jurídico. Dilma Rousseff perdeu a primeira, mas ainda se equilibra sobre a segunda, que só pode ser anulada pelo Congresso ou pelo Judiciário. Razões legais para o impedimento estão quase disponíveis, pela invocação oportunista das “pedaladas fiscais” ou pelo poderoso argumento da contaminação de sua campanha com recursos desviados da Petrobras. Amanhã, será testado o grau em que a aplastante rejeição à presidente se traduz na forma de mobilização popular. Contudo, mesmo se as ruas forem tão numerosas quanto no 15 de março, hipótese permeada de incerteza, ela tem uma chance nada desprezível de sobreviver. É que a elite política teme as alternativas.

“Ninguém vai tirar a legitimidade que o voto me deu”, disse Dilma, imaginando a legitimidade como um atributo perene, não uma relação instável. Sua legitimidade evaporou em semanas, sob a dupla fervura do estelionato eleitoral e do escândalo do petrolão. Junto com sua popularidade, a catástrofe destroçou a base parlamentar do governo, gerando uma crise política que agrava a crise econômica herdada do mandato original. Desse caldo, não de uma conspiração malévola, nasceu a iniciativa de Michel Temer, que deu um passo à frente e se apresentou como “alguém” com a “capacidade de reunificar a todos”.

Abrir a “porta Temer” seria simples e rápido, exigindo apenas uma condenação do TCU e a confirmação do Congresso (ou o atalho anestésico da renúncia). Entretanto, a solução esbarrou na ausência de um consenso político mínimo. Na interpretação corrente, e vulgar, que não deixa de captar a superfície do fenômeno, o impasse refletiu as mesquinhas disputas de poder no interior do PSDB e do PMDB. Mais embaixo, porém, encontra-se a raiz do problema: a elite política teme um governo Temer (ops!).

O paralelo entre Temer e Itamar Franco é impertinente, pois Collor já tinha trilhado a estrada inteira da maldade, enquanto Dilma cumpre apenas a etapa inicial de uma longa jornada. No fim das contas, perguntaram-se os próceres tucanos e peemedebistas, quem se atreveria a sustentar um governo carente de legitimidade eleitoral que, na moldura de uma crise econômica aprofundada pelo fracasso do ajuste fiscal, só teria a opção de fazer o mal?

Teme-se a outra alternativa, antes de tudo, porque ela é complexa. A impugnação da chapa Dilma/Temer pelo TSE não é provável, pois exigiria prova irrefutável de que a campanha foi abastecida pelos dutos da corrupção. Além disso, não seria seguida imediatamente por novas eleições, como sonha o grupo de Aécio Neves, já que os condenados teriam o direito de recorrer ao STF, num processo tão dramático quanto prolongado. Nos altos círculos da política, e também na esfera empresarial, não há muito entusiasmo por uma solução que implicaria a virtual ausência de governo durante mais de um ano.

Por motivos distintos, a “porta Aécio” provoca calafrios singulares em Eduardo Cunha e Renan Calheiros. Um governo eleito sobre as ruínas do atual seria compelido, pela lógica das urnas, a comprometer-se com a nossa Operação Mãos Limpas. Às voltas com as denúncias colhidas pelos procuradores da Lava Jato, os dois imaculados patriotas depositam suas esperanças no jogo da chantagem com o espectral governo lulopetista.

“Tudo que estamos fazendo tem o objetivo claro de dar condições de entrarmos no novo ciclo de crescimento”, declarou Dilma no Maranhão. De fato, pelo contrário, o Planalto já não se ocupa do país, mas apenas de si mesmo: tudo que lá se faz tem o objetivo exclusivo de evitar o impeachment. Mas isso é irrelevante, pois a sobrevivência da presidente deixou de depender da sua ação ou inação. Dilma não conduz mais nada: é a passageira do medo.

O Brasil e a onda chinesa

Editorial 
O Estado de São Paulo

Ruim para a China, ruim para o Brasil, uma economia dependente em excesso da prosperidade chinesa. Mais uma vez a bolsa brasileira foi abalada pela turbulência no mercado chinês. O choque espalhou-se por todos os continentes, em mais uma segunda-feira negra. Esta expressão foi usada pelo Diário do Povo, de Pequim, ao noticiar a queda de 8,49%, a maior desde 2007, do Índice Xangai Composto. Uma queda de 8,48% havia ocorrido em 27 de julho, também uma segunda-feira. Enquanto especialistas, em todo o mundo, discutem a situação da China e especulam sobre a gravidade real da crise, pelo menos uma certeza já é possível: países emergentes e em desenvolvimento, exportadores principalmente de commodities – produtos básicos e semimanufaturados –, são os principais perdedores.

Ninguém pode dizer com segurança, hoje, se a economia da China se acomodará num crescimento próximo de 6%, num patamar um pouco inferior ou mesmo se afundará numa crise mais grave, hipótese por enquanto muito improvável. Mas o Brasil e outros fornecedores de commodities para o mercado chinês já foram afetados pela baixa das cotações internacionais.

Esse movimento acompanhou a desaceleração do crescimento da China, com efeitos mais sensíveis na receita cambial desses países de um ano para cá. Para ficar só no desempenho do agronegócio: nos 12 meses até julho, a receita de exportação do setor, US$ 99,81 bilhões, foi 9,4% menor que a do período imediatamente anterior principalmente por causa da redução dos preços. Nesse intervalo, a cotação da soja em grãos caiu 21,2%; a de farelo de soja, 18,6%; a de óleo de soja, 16,3%; a de açúcar, 10,5%; a de papel e celulose, 8,7%; e as de carnes, 5,2% Os preços do minério também caíram. A queda dos preços médios foi a causa principal da redução de 21,7% da receita proporcionada pelas vendas de básicos e de 5,9% da obtida com a exportação de semimanufaturados, na comparação dos números de janeiro a julho deste ano com os de igual período do ano passado. Outros fatores também contribuíram para a baixa das cotações, mas a desaceleração chinesa foi com certeza um dos mais importantes, talvez mesmo o mais importante.

Todos os países muito dependentes da venda de minérios e de produtos agrícolas foram prejudicados pela mudança das condições do mercado e, de modo especial, pelo menor dinamismo da economia chinesa. As vendas do Brasil para a China ficaram em US$ 22,68 bilhões de janeiro a junho deste ano. Esse valor foi 19,4% menor que o dos mesmos meses de 2014.

A composição das vendas para o mercado chinês é esclarecedora. No ano passado, o Brasil faturou US$ 40,62 bilhões no comércio com a China e os produtos básicos proporcionaram 84,42% desse valor. Somando-se a isso a receita dos semimanufaturados, as vendas de commodities garantiram 95,92% do valor exportado. Sobraram, portanto, apenas 4,08% da conta de manufaturados: apenas US$ 1,62 bilhão.

Neste ano, o padrão se repete, mas com um volume de comércio menor. De janeiro a julho, as vendas de básicos corresponderam a 85,11% da receita e a de commodities (incluídos os semimanufaturados), a 96,69% do total faturado.

Pelo menos um analista estrangeiro, o economista Oleg Melentyev, do Deutsche Bank, chamou a atenção, na segunda-feira, para o problema dos emergentes afetados pela desaceleração chinesa e pela depreciação das commodities.

Governantes mais atentos perceberam a urgência de mudanças na composição das exportações e, de modo especial, na relação de dependência com a China. O governo brasileiro, no entanto, continua dando prioridade, oficialmente, ao chamado comércio Sul-Sul e dando pouca importância, na prática, aos problemas de produtividade e de competitividade da indústria.

A presidente Dilma Rousseff, tudo indica, permanece fiel às escolhas da diplomacia petista, incluída a relação semicolonial com a China.

A rainha pasmada e a economia nua

Alexandre Schwartsman  
Folha de S. Paulo

Ou a presidente não faz a menor ideia dos (muitos) erros que cometeu ou está tentando nos enrolar

Ainda em minha encarnação corporativa tive de entrevistar vários candidatos a uma posição nas diversas instituições em que trabalhei. Uma pergunta se mostrou particularmente reveladora: qual o seu maior defeito? Não era incomum que o entrevistado respondesse “perfeccionismo”, senha para que fosse, claro, rejeitado: ou não fazia a menor ideia de seus verdadeiros defeitos ou estava simplesmente tentando enrolar o entrevistador.

Tive a mesma sensação ao ler trechos da entrevista da presidente em que, instada a reconhecer seus erros, respondeu ter sido a “demora em perceber que a situação era mais grave do que imaginávamos”.

E segue: “Ninguém imaginaria que o preço do petróleo cairia de US$ 105 (…) para US$ 43”. Sobre o aumento do gasto público, argumenta que só no fim do ano passado é que teria percebido que a arrecadação caiu. Ou a presidente não faz a menor ideia dos (muitos) erros que cometeu ou está tentando nos enrolar. Talvez ambas as alternativas.

Ela insiste na fantasia da origem internacional da crise que vivemos, capturada na semana passada pelas notícias de uma possível queda de 2% do PIB no segundo trimestre, do desemprego a 7,5%, o mais alto registrado em julho desde 2009, e pela destruição de quase 900 mil empregos formais nos últimos 12 meses.

Parece se esquecer do que ocorreu no seu primeiro mandato, mas nada custa refrescar sua memória: o PIB cresceu ao estonteante ritmo de 2% ao ano, levando à alucinante expansão de 1% anual da renda per capita; a inflação, mesmo com controles de preços, superou 6% ao ano; a dívida pública aumentou de 51% para 59% do PIB; por fim, o déficit externo alcançou mais de US$ 100 bilhões (4,5% do PIB) no ano passado. Não há dúvida de que se trata de desempenho medíocre; em compensação, foi acompanhado de desequilíbrios macroeconômicos severos…

Não se ponha a culpa no resto do mundo. Entre 2011 e 2014, o PIB mundial cresceu 3,6% anuais, marginalmente mais que os 3,5% ao ano registrados nos quatro anos anteriores. No mesmo período os termos de troca, a relação entre os preços das coisas que o Brasil exporta e as que importa, foram 12% melhores do que o observado no segundo mandato do presidente Lula, quando o país cresceu a 4,5% ao ano.

As causas foram domésticas. O erro da presidente não foi a demora em perceber que a situação internacional mudou, mas sim ter sido incapaz de entender que a desaceleração da economia brasileira depois de 2010 se deveu a restrições do lado da capacidade de produção, da falta de mão de obra às carências de infraestrutura.

Por causa disso tomou medidas para estimular a demanda, que não apenas falharam em acelerar o crescimento como levaram aos desequilíbrios macroeconômicos acima listados.

É por esse motivo, não pela pressão de “ideólogos de inspiração neoliberal, com forte apoio no empresariado”, que foi forçada a adotar a atual política econômica. A verdade é que não restou opção ao governo que não fosse abjurar das práticas do período 2011-2014 e correr para evitar o ainda pior.

Não é por outra razão que a presidente, outrora orgulhosa condutora da política econômica heterodoxa, é hoje forçada a se contentar com o papel de rainha da Inglaterra, tutelada em seu labirinto, contando os dias para se livrar do fardo que a persegue.

Tristeza dos números

Míriam Leitão
O Globo

É uma recessão. Ontem, acabaram todas as dúvidas que alguém pudesse ter. Não são apenas dois trimestres negativos, nos três trimestres anteriores os resultados foram também negativo ou zero. Vários economistas acham que vai continuar assim. Será um longo tempo de encolhimento. O desafio do país será reconstruir lentamente a confiança na recuperação.

Desde ontem os economistas dos departamentos econômicos dos bancos e consultorias voltaram para seus modelos de cálculo do PIB. Alguns já projetam uma queda de 3% para este ano. Os indicadores antecedentes do terceiro trimestre mostram nova redução, segundo a análise do economista-chefe do Banco BNP Paribas, Marcelo Carvalho. O banco francês é um dos que preveem uma retração de 3% em 2015 e um novo recuo de 1% no ano que vem. O economista-chefe do Banco Modal, Alexandre de Ázara, tem projeções de números negativos para os próximos dois trimestres.

Em palavras, o que os números dos economistas mostram é que está ruim e permanecerá ruim. Nada disso aconteceu por acaso ou pelas turbulências que sempre acontecem no mundo. Não é o mundo o nosso problema. A crise foi feita aqui, como efeito de decisões erradas. Os alertas foram dados, mas foram ignorados. As medidas econômicas equivocadas, e que foram aprofundadas no ano passado, deixaram uma herança amarga. O gráfico abaixo é a melhor síntese do que foi feito com a economia no governo Dilma Rousseff, com seus experimentos da tal “nova matriz”: PIB no chão, e inflação nas alturas. Enquanto o IPCA acumulado em 12 meses chega a 9,56% até julho, o PIB encolheu 1,2% em 12 meses até junho.

Mas não é tudo, porque ontem também foram divulgados os dados fiscais mostrando que o país teve um novo déficit primário, de R$ 10 bilhões, em julho. Nos últimos 12 meses, o rombo primário chegou a R$ 51 bilhões, ou 0,89% do PIB. O déficit nominal foi a 8,81%, e a dívida bruta saltou para a 64,6% do PIB. As contas públicas estão em um processo acelerado de deterioração. Os gastos crescem, enquanto a arrecadação cai por causa da recessão, colocando o país em um círculo vicioso.

A grande preocupação dos economistas é o de rebaixamento da nota de crédito do governo, que aprofundaria a recessão. Alexandre de Ázara explica o que acontece se o Brasil voltar para o grupo de países de nível especulativo: haverá uma “liquidação” de ativos, os investidores estrangeiros venderão, rapidamente, títulos do governo, de empresas, reais, e ações na bolsa. Será um movimento financeiro brusco, que colocará pressão, ao mesmo tempo, sobre o dólar, as contas públicas, inflação e taxa de juros.

Para evitar isso será preciso tentar melhorar as contas. Este é o contexto em que o governo decidiu ressuscitar a CPMF. Só que o fez da forma mais atabalhoada possível. Em vez de explicar para o país, tentar convencer o contribuinte, preparar a opinião pública, o governo simplesmente incluiu o imposto no Orçamento do ano que vem e deixou a notícia circular como fato consumado. Ontem, tentava reduzir o estrago.

Ao mesmo tempo, o país se viu às voltas com a notícia de que entrara oficialmente em recessão, que as contas públicas pioraram ainda mais e que a CPMF seria recriada. Para ficar na frieza dos números, o PIB do primeiro trimestre foi revisto de -0,2% para -0,7%, e o segundo trimestre ficou em -1,9%. Os últimos três trimestres de 2014 foram: -1,1%, 0,1% e zero respectivamente. É um tombo forte. É hora de parar de improvisar e de as autoridades terem um plano para tirar o país do buraco em que o governo Dilma nos colocou.

PIB | Editoria de arte



A Geni do governo

Vicente Nunes
Correio Braziliense

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, se tornou a pessoa mais odiada da Esplanada dos Ministérios. Não poderia ser diferente em se tratando do homem que detém as chaves dos cofres de um governo gastador contumaz. Mas o sentimento que Levy tem despertado vai muito além dos nãos que ele diz a quem lhe pede dinheiro. Boa parte do governo e do empresariado está culpando o ministro pelo agravamento da situação econômica. Alega que a intransigência dele e a falta de jogo político minaram de vez qualquer perspectiva de recuperação da economia, mesmo que em 2016.

A sensação, quando se ouve os relatos sobre Levy, sobretudo de integrantes do Palácio do Planalto, é que ele se tornou a Geni do governo. Todos querem apedrejá-lo. É exatamente o contrário do que se percebia no início do segundo mandato de Dilma Rousseff, quando o ex-funcionário do Bradesco era visto como o salvador da Pátria, aquele que faria o serviço rápido de arrumação da casa e ajudaria o país a sair do atoleiro rapidamente. O ataque a Levy dentro do governo só não é mais explícito porque Dilma pediu calma aos críticos. Para ela, não é hora criar mais ruídos.

Aqueles que convivem diariamente com o ministro sabem que ele já sentiu o baque. Tanto que, de um mês para cá, mudou completamente o humor. Irrita-se com frequência. A paciência para ouvir se esvaiu. A vontade de trabalhar não é a mesma. O clima anda tão pesado na Fazenda, que vários cargos estão vagos, sobretudo no Tesouro Nacional. Levy afastou pessoas que eram ligadas ao antecessor, Guido Mantega. Achou que preencheria os postos com facilidade. Mas as recusas têm sido frequentes. Muitos consideram o governo ruim e acreditam que o ministro terá vida curta na chefia da equipe econômica.

A decepção de Levy é tamanha, que ele não se furtou de, no fim de semana passado, pegar um avião para Washington a fim de usufruir do conforto da família — a mulher e as duas filhas moram na capital dos Estados Unidos. A viagem, por sinal, suscitou uma onda de boatos de que ele estaria prestes a deixar o governo. Os rumores foram tão fortes, que o ministro foi obrigado a convocar uma entrevista para dizer que continua firme e forte no cargo. Mas, apesar da forma enfática com que se manifestou, a dúvida sobre a permanência dele na Fazenda ficou maior.

Divisão da equipe

O que se vê no governo é uma clara divisão, com Levy cada vez mais isolado. Um empresário que, meses atrás, esteve com o ministro da Secretaria de Aviação Civil (SAC), Eliseu Padilha, conta que ouviu dele muitos elogios ao comandante da Fazenda. Mais recentemente, o mesmo Padilha já se mostrava contrariado com Levy, a quem acusava de estar mais atrapalhando do que ajudando o governo, principalmente na relação com o Congresso.

No Ministério do Planejamento, também se nota um incômodo com Levy. O discurso é sempre o de que falta sensibilidade ao ministro, o que o tem levado a colecionar uma série de derrotas dentro do governo, a mais flagrante delas, a redução da meta de superavit primário deste ano, de 1,1% para 0,15% do Produto Interno Bruto (PIB). As equipes de Nelson Barbosa e de Levy, por sinal, nunca tiveram uma boa relação. Uma acusa a outra de sabotagem. A desconfiança chega ao ponto de se tentar descobrir no noticiário quem foi a fonte de determinados assuntos para entender o que está por trás deles.

A divisão se estende até entre os subordinados diretos de Levy. Há uma guerra declarada entre o secretário executivo da Fazenda, Tarcísio Godoy, e o sub dele, Fabrício Dantas, que se tornou uma espécie de eminência parda. Godoy e Levy trabalharam juntos no Tesouro Nacional durante o primeiro mandato de Lula e no Bradesco. São superamigos. Mas a insubordinação de Dantas vem causando um mal-estar na relação, que já está se irradiando por todo o ministério.

Pessoas próximas a Dilma garantem que ela manterá, até quando for possível, Levy na Fazenda. A presidente reconhece que, hoje, com ela ameaçada pelo impeachment e o governo sem apoio popular, nenhum nome de peso, que teria o respaldo de empresários e investidores, aceitaria assumir o comando da equipe econômica. Alguns palacianos falam em Nelson Barbosa como potencial sucessor, pois conta com o aval de Lula. Mas o histórico do atual ministro do Planejamento não é dos melhores. Ele participou de boa parte das medidas adotadas no primeiro mandato da petista, que levaram o Brasil para o atoleiro.

“Vamos ver até quando Levy conseguirá levar essa pedreira. É visível que ele está desgastado. Sua voz, que já não é forte, enfraqueceu mais. A postura está curvada”, diz um integrante da base aliada do governo. No entender dele, para o país, é importante que Levy resista, pois uma saída repentina do ministro propagará o caos.

Divergências entre Dilma e Temer crescem – e eles mal se falam

Robson Bonin 
Revista VEJA

A presidente e o vice alimentam desconfianças mútuas: um acha que está sendo sabotado pelo outro

(Ueslei Marcelino/Reuters)
 As divergências entre a presidente Dilma e o vice-presidente Temer 
são mais profundas do que parecem. Eles alimentam desconfianças
 mútuas. Um acha que está sendo sabotado pelo outro. Mal se falam

Dilma Rousseff e Michel Temer nunca foram muito próximos. Durante boa parte do primeiro mandato, o grau de consideração da presidente por seu vice podia ser medido pela importância das tarefas que lhe eram delegadas no dia a dia do governo. O vice sempre pairou em Brasília como figura decorativa, encarregado basicamente das agendas internacionais que a presidente não se dispunha a cumprir. Com a popularidade alta, a economia cambaleante mas ainda de pé e sem as revelações demolidoras da Operação Lava-Jato, manter Temer à margem das decisões importantes, mesmo ele carregando a faixa de representante do maior partido do Congresso, o PMDB, nunca chegou a gerar maiores abalos para Dilma. 

As dificuldades econômicas, as revelações da roubalheira no petrolão e a meteórica queda de popularidade construíram um cenário ideal para uma crise sem precedentes. Em momentos assim, dizem os especialistas, se não houver o mínimo de tranquilidade no Parlamento, o risco de um tsunami atingir o Palácio do Planalto não pode ser minimizado. Há quatro meses, Temer recebeu da presidente autorização para atuar e evitar que isso acontecesse. Obteve sinal verde para negociar cargos, emendas e até projetos em nome da estabilidade. Na semana passada, ele renunciou à tarefa. O motivo: Dilma, de novo, tirou-lhe os poderes.

Diferentemente do primeiro mandato, as relações da presidente e seu vice não podem mais ser definidas nem como apenas protocolares. Dilma acredita que Temer conspira contra ela. Temer acredita que Dilma conspira contra ele. Os dois mal se falavam desde que o vice-presidente concedeu uma surpreendente entrevista em que reconheceu a gravidade da crise instalada no governo e, ao que parecia, desincumbia a presidente da tarefa de conciliadora. "É preciso que alguém tenha a capacidade de reunificar a todos", disse Temer. Dilma não gostou. 

Os assessores mais próximos da presidente interpretaram o movimento do vice como um aceno pessoal aos setores mais insatisfeitos da sociedade. Ele seria a solução da crise, não ela. A teoria da conspiração ganhou mais um ingrediente quando Dilma tomou conhecimento pela imprensa de encontros de Temer com empresários para discutir a agenda política do país. Na versão de um auxiliar do vice, até uma reunião com o ex-presidente Lula com a bancada do PMDB foi classificada como ação conspiratória. "Era como se existisse um governo Temer e outro governo Dilma", diz um auxiliar palaciano. Aconselhada pelos ministros mais próximos, a presidente mudou de estratégia.

Enquanto Temer se desgastava para reconstruir pontes com a base aliada do Congresso, Dilma tentou cooptar aliados do vice dentro de seu próprio partido, o PMDB. Sem que ele soubesse, ela chamou ao Palácio o líder da bancada do PMDB na Câmara, deputado Leonardo Picciani, e o presidente do diretório do partido no Rio de Janeiro, Jorge Picciani, pai do líder do PMDB, ambos ligados ao presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Em troca de cargos, Dilma queria que os dois peemedebistas atuassem para tentar frear as hostilidades de Cunha. 

O problema é que essa era uma das missões de Michel Temer. Também sem avisar, Dilma autorizou Giles Azevedo, seu antigo chefe de gabinete, a negociar diretamente com parlamentares da base a defesa do governo diante de CPIs criadas no Congresso. Para agradar aos parlamentares, Temer prometera liberar 500 milhões de reais em emendas e se comprometera a viabilizar centenas de nomeações para cargos do segundo e terceiro escalão da máquina federal. Dilma não só ignorou solenemente as tratativas que o vice já havia chancelado como passou a refazer pessoalmente os acordos.

Amadorismo e incompetência

Carlos Chagas
Tribuna da Internet



Madame continua conquistando os troféus de amadorismo e de incompetência política, agora ao mandar anunciar que extinguirá dez ministérios, mas sem dizer quais, aumentando a temperatura entre os partidos incrustados no poder sem querer perdê-lo. A briga vai ser de foice entre PT e PMDB para segurar seus lugares. Acresce que a presidente deixou passar um tempo precioso desde as primeiras pressões recebidas para enxugar o governo, de início negando-se e agora voltando atrás.

O maior erro de Dilma Rousseff, porém, ainda não foi cometido, situando-se na ante sala de seu gabinete, caso não aproveite para mudar quase todos os 29 ministros que não terão extintos seus ministérios. Porque para recuperar a credibilidade e retirar o país do buraco em que se encontra, só mandando passear os fisiológicos e os parvos de sua equipe, compondo um grupo caracterizado pela eficiência. Será fatal manter o condomínio atual dos partidos no governo, sem cuidar de selecionar os melhores para cada função, de preferência escolhidos bem longe do Congresso.

Fácil não será, tendo em vista a necessidade de impedir o esfacelamento de sua base parlamentar, mas em tempos bicudos como os atuais, sempre será possível obter dos partidos um compromisso de colaboração desinteressada, capaz de evitar o pior.

PT NÃO QUER CONVERSA
A principal dificuldade para Dilma enfrentar é o PT, hoje detendo o maior número de ministérios e, em consequência, mais exposto a perder espaço. A presidente deveria ter costurado a cirurgia e promovido as substituições antes de mandar anunciá-las genericamente, muito menos estendendo até final de setembro o prazo para tomar as decisões. Parece óbvio que sofrerá pressões inusitadas, até ameaças de abandono da base governista. Com o governo enfraquecido, aumentam as possibilidades de chantagem.

Em suma, o risco é de amadorismo e incompetência continuarem frequentando os corredores do palácio do Planalto, ainda mais na ausência do vice-presidente Michel Temer, engolido pelo festival de mesquinharias encenado pelo comando petista.

TEMPOS IDOS E VIVIDOS
Houve tempo em que dava gosto viver no planeta, apesar de suas contradições e dificuldades. Pelo menos, as nações tinham em quem confiar. Nos Estados Unidos, John Kennedy empolgava. Na União Soviética, entre o Sputnik e Yuri Gagárin, quem pontificava era Nikita Kruschev. O general De Gaulle recuperava a França, Winston Churchill voltara a ser primeiro-ministro da Inglaterra e Konrad Adenauer consolidava a nova Alemanha. Na China, Mao Tse-tung assustava o mundo, menos Pandit Nehru, na India, e até no Vaticano permanecia a sombra do velhinho mais reformador da Igreja, João XXIII. Para não esquecer o Brasil, onde Jânio Quadros assumia o poder como a grande esperança, depois da confiança deixada por Juscelino Kubitschek.

Pois é. Acabou tudo. A mediocridade ocupou todos os quadrantes e nunca mais foi embora…