domingo, setembro 13, 2015

O governo Dilma está colhendo o que plantou

J.R. Guzzo 
Revista EXAME 

Rodrigo Lôbo/ Fotos Públicas 
Marcha à ré: a destruição de bens e de empregos levou 
a fatia da indústria na economia de volta aos níveis de 1940

São Paulo - As desgraças dos governos sempre vêm de longe. Não existe, para os que estão por cima, o infortúnio do “mal súbito”. Não há possibilidade, no mundo dos fatos concretos, de ocorrer alguma coisa que “ninguém poderia prever”.

Não há “sustos” causados por um raio que caiu de repente lá de cima — nem desastres devidos a uma desatenção de autoridades supremas que talvez, quem sabe, tenham “demorado um pouco” para perceber os desastres que criaram a seu redor. Tudo o que existe debaixo do céu, como já se sabe desde a redação de Eclesiastes, é um tempo de semear e um tempo de colher o que foi plantado.

O Brasil de hoje está, muito simplesmente, no tempo da colheita daquilo que seus três últimos governos, com o apoio decisivo do atual, semearam de forma sistemática, arrogante e obsessiva desde o dia 1º de janeiro do ano de 2003. Plantaram joio; estão colhendo joio.

Desprezaram, com igual soberba, outras realidades expostas no velho livro. Ensina-se ali que existe um tempo de armazenar e um tempo de distribuir; quiseram só distribuir, e ainda assim distribuíram mal, porcamente e sobretudo para si próprios. Há um tempo para destruir e um tempo para reconstruir; ficaram apenas na destruição. Queriam o quê?

O país assiste no momento à tristonha agonia diária do ministro Joaquim Levy — o homem que deveria ser o funcionário mais importante do governo começa o expediente de cada dia, de manhã, sem saber se estará no cargo na hora do almoço, e muito menos no momento de voltar para casa ao fim de sua jornada de trabalho.

Vê o amontoado de ruínas a que se reduziu o segundo governo da presidente Dilma Rousseff, cada vez mais empenhada em exercer o que parece ser sua vocação de capataz em obras de demolição. Raramente passam 24 horas seguidas sem alguma nova infâmia na economia.

O governo, pela primeira vez desde a instituição da Lei de Responsabilidade Fiscal, apresenta um orçamento, o de 2016, com despesas superiores às receitas; estão faltando uns 30 bilhões de reais para pagar as contas públicas do ano que vem, mas talvez acabem sendo 80 bi ou sabe-se lá quanto.

A produção industrial acaba de cair pelo 17º mês seguido, numa destruição frenética de bens e de empregos que leva a participação da indústria na economia brasileira a voltar aos níveis de 1940. O Brasil entrou oficialmente em recessão: cresceu zero em 2014, andará para trás em 2015 e possivelmente cairá de novo em 2016, uma se-quên¬cia lógica do desempenho miserável dos quatro primeiros anos de Dilma e de sua devoção religiosa às decisões erradas. O que mais? Já chega assim.

Não há nada, nisso tudo, que venha da “situação atual”. Estava decidido lá atrás, com a chegada ao governo de forças que acreditam, entre tantas outras insânias, na quimera do efeito sem causa; querem isso, ou não querem aquilo, sem pensar que é indispensável praticar atos racionais para obter uma coisa e evitar a outra. Todo mundo é livre para opinar quando, onde e por que começaram os horrores de hoje.

Uma boa escolha está no vírus fatal inseminado pelo ex-presidente Lula quando tomou a mais funesta decisão de sua vida política ao escolher Dilma como sucessora, num momento em que tinha a excepcional vantagem de poder colocar na Presidência, realmente, o nome que quisesse.

Lula achou que não haveria nenhum problema sério em dar o cargo a uma pessoa que jamais tinha sido eleita nem sequer para vereador, não tinha uma única realização de verdade em seu currículo e era portadora natural de uma inépcia devastadora para a tarefa de governar.

Achava que Dilma ia apenas esquentar comportadamente sua cadeira durante quatro anos e entregá-la de volta na eleição de 2014. Mas a primeira coisa que ela fez foi decidir que não ia devolver coisa nenhuma — uma calamidade anunciada, diante de sua compulsão em escolher sempre o pior. Ao contrário, como disse, faria “o diabo” para ficar lá os oito anos que a lei permite. “O diabo” é isso tudo que vem fazendo desde sempre. É onde estamos, precisamente.

O amargo preço das mentiras de Dilma

Débora Bergamasco e Sérgio Pardellas
Revista ISTOÉ
Rebaixamento do País intensifica pressão pelo afastamento da presidente da República. Diante da catástrofe econômica e da falta de perspectiva, o que a maioria dos brasileiros se pergunta hoje é: o que Dilma ainda faz no poder?

Ao retirar do Brasil o selo de bom pagador na quarta-feira 9, a Standard & Poor’s, principal agência de classificação de risco, escancarou o que já era um sentimento nos meios políticos, jurídico e empresarial: a crise político-econômica tem nome e sobrenome. Atende por Dilma Rousseff. O rebaixamento para grau especulativo, o que significa maior risco de calote, foi atribuído pela S&P à incapacidade da gestão Dilma de equilibrar as contas públicas, às constantes revisões das metas de superávit fiscal e às divergências profundas de integrantes do governo em torno do tema. No final da última semana, a pergunta que se impunha no País era como Dilma ainda poderia seguir na cadeira de presidente da República. Entre os próprios petistas, a avaliação é de que a falência completa da gestão, agravada com a perda do grau de investimento, implodiu as derradeiras pontes construídas - a muito custo - pelo governo com setores do empresariado no início de agosto. E arrebentou o último fiapo que ainda unia o governo às classes C e D – agora desesperadas com a certeza do aumento do desemprego e da recessão.



HORROR SEM FIM
Mentiras de Dilma e má gestão agravam a crise. Nos meios político
e empresarial, já há quem defenda a "solução Michel Temer"



Produziu-se um consenso de que o País possui fôlego curto para suportar a crise atual. E a saída do atoleiro passa pelo afastamento da presidente – seja por renúncia ou impeachment, processo que voltou a ganhar força nos últimos dias. Poucas vezes, empresários verbalizaram essa posição com tanta eloquência. Até ministros próximos de Dilma vislumbram um cenário provável de impeachment até o final do ano. “Já há um distanciamento da classe política. Agora, a pressão dos empresários vai ser insuportável. Acho que Dilma vai ter de ir embora, vai ter que renunciar. É o capítulo final”, prevê o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, que até semana passada adotava um discurso mais moderado.

A preocupação é geral e genuína e já não se pode mais atribuir a postura crítica ao governo ao já surrado discurso do Fla-Flu político. Os temores sobre o futuro do País são reais. Hoje, o Brasil encontra-se à beira de um precipício e sem perspectivas de reversão de rumo. (leia mais sobre as conseqüências do downgrade às págs 36 e 37). Em abril de 2008, em um evento em Teresina, Piauí, o então presidente Lula, o mesmo que agora diz sem corar a face que o rebaixamento do País não significa nada, comemorou efusivamente, quando a mesma S&P concedeu o grau de investimento ao Brasil. “Se fossemos traduzir para uma linguagem que todos os brasileiros entendam, pode-se dizer que o Brasil foi declarado um País sério, que tem políticas sérias, que cuida de suas finanças com seriedade”, afirmou Lula em 2008. Sete anos depois, Lula adota uma nova retórica política. Diz o que precisa ser dito, não o que realmente pensa. Se o governo fosse outro e ele se encontrasse na trincheira da oposição, Lula diria que hoje o País - e sua governante - perderam totalmente a credibilidade.


Dilma rompeu definitivamente com os compromissos assumidos durante a
campanha eleitoral, ao prever aumento de imposto e corte no social

A julgar pelas pesquisas de popularidade, poucos discordam que o quadro de terra arrasada foi produzido pela própria presidente Dilma. O rosário de mentiras desfiadas durante a campanha eleitoral fizeram com que a população a caracterizasse no 7 de setembro como um boneco inflável – nos moldes do confeccionado para fustigar Lula, com trajes de presidiário – em uma declarada alusão ao personagem Pinóquio, pelo nariz comprido. Não à toa. Não bastassem as sucessivas contradições com o País das maravilhas exibido no horário eleitoral, na última semana Dilma conseguiu romper definitivamente com os mais caros compromissos assumidos na campanha. Para tentar sair da crise e salvar a própria pele, agora ela ministra o mais amargo dos remédios: o corte de programas sociais e o aumento de impostos. Em jantar com jornalistas, em maio de 2014, a presidente rechaçou qualquer possibilidade de lançar mão da elevação de tributos como solução para disciplinar as contas públicas. “Não vai ter aumento de imposto. Não tem nada em perspectiva”, afirmou. 

No evento, a então candidata à reeleição, que também descartou a intenção de passar a tesoura nos programas sociais, foi além. Vaticinou que a saúde econômica do Brasil assemelhava-se a de um jovem, com coração forte e pulmão de atleta. “O Brasil é um país sólido, com estabilidade econômica, uma indústria sofisticada, altamente atraente para o capital internacional. O Brasil vai bombar”. Como todos já sabem, hoje a bomba é outra e precisa ser desarmada com urgência sob pena de o País ser condenado a conviver com a recessão por quase uma década, o que exigiria sacrifícios mais pesados do que aqueles que já estão sendo feitos atualmente pela população. Agora, sem planejamento e demonstrando desespero, o governo se perde nas duas agendas que sempre renegou: o aumento de imposto e o corte de gastos – inclusive no social.



Sobre os integrantes da equipe presidencial que discutem aumento de tributos existe uma forte pressão para que a Cide, o imposto sobre a comercialização da gasolina e do óleo diesel, volte a ser cobrada do consumidor. O principal obstáculo para esta solução é o impacto exercido sobre a medição da alta dos preços, podendo gerar um aumento de 0,8% na inflação. Outra possibilidade para gerar receita seria a criação de uma nova taxa sobre as operações de crédito, que não entrasse na conta da inflação, mas que tivesse uma abrangência nacional e de arrecadação imediata. Algo como a CPMF, mas batizado com um outro nome mais palatável à população, como se isso fosse possível na atual conjuntura.

Uma iniciativa como esta só poderia ser pior se combinada com cortes nos programas sociais. É o que o Planalto já está fazendo, a despeito de contrariar outra promessa de campanha. Na última semana, Dilma abortou o lançamento da terceira etapa do Minha Casa, Minha Vida. O governo classifica a decisão como “adiamento”, para que se possa primeiro honrar as dívidas contraídas para executar estágios anteriores do programa. Mas, na prática, trata-se de uma puxada no freio de mão. Os empenhos dos valores do Minha Casa Minha Vida 1 e 2, conforme apurou ISTOÉ, já caíram pela metade: de R$ 10,3 bilhões para R$ 5 bilhões. 


NO REINO DOS PIXULECOS
No Sete de Setembro, manifestantes exibiram uma Dilma inflável,
com nariz avantajado, em alusão ao personagem Pinóquio, de Gepeto, um
notório mentiroso. Ao lado, o já famoso boneco de Lula, com trajes de presidiário

As decisões administrativas equivocadas, que aprofundam a crise econômica, somadas à fragilidade política da presidente, conferiram velocidade, força e materialidade a um novo pedido de impeachment preparado por setores da oposição e até da situação. O grupo pró-impeachment composto por integrantes do PSDB, DEM, PPS, SD, PSC, PTB, PSD e PMDB oficializou na quinta-feira 10 o lançamento de um site com petição pública para recolher assinaturas e incentivar no Congresso a abertura de um processo de afastamento de Dilma. O movimento já contabiliza 280 votos, o suficiente para aprovar a admissibilidade para o início de um processo em plenário. A página na internet traz a íntegra do pedido de impeachment apresentado pelo jurista Hélio Bicudo, fundador do PT. “Acho Dilma incapaz de ser presidente. Ela não tem nenhuma capacidade mental para dirigir o País. Não falta acontecer mais nada para que ela sofra o impeachment. Os crimes já se consumaram. Existem crimes praticados contra a administração pública”, disse Bicudo à ISTOÉ. Na quarta-feira 9, o presidente do PSDB, senador Aécio Neves, decretou o fim do governo. “Infelizmente, a perda do grau de investimento do Brasil e a perspectiva de revisão negativa nos próximos doze meses mostram que o governo da presidente Dilma acabou”. O coro pela saída de Dilma é engrossado no meio empresarial. “Com o impeachment, a agonia seria curta”, prega Flávio Rocha, dono da Riachuelo. Rocha sintetiza o discurso de pesos pesados do PIB para os quais Dilma se perdeu nas próprias mentiras e arrastou o País para o caos econômico.

A crise da semana, que culminou com a perda do selo de bom pagador do Brasil, começou com uma sucessão de trapalhadas presidenciais. Primeiro foi a ideia natimorta de ressuscitar a CPMF. O imposto do cheque foi discutido no Palácio do Planalto, provocando um racha no núcleo duro do governo, com direito a gritaria e dedo em riste. De um lado, o time que defendia a volta de um imposto rejeitado até no governo Lula, quando ele ostentava um alto índice de aprovação. Do outro, o grupo que antevia a catástrofe anunciada que representaria essa proposta. Assim que a notícia foi vazada para a imprensa, a fim de testar a reação do público, Dilma assistiu a respostas tão violentas quanto inesperadas e, três dias depois, recuou da decisão. E assim, a chance de recriar a CPMF voltou para a gaveta, de onde, ainda acreditam interlocutores do governo, pode ser sacada a qualquer momento.



O segundo refugo do governo foi sobre o envio da peça orçamentária de 2016 ao Congresso Nacional com a previsão de déficit de R$ 30,5 bilhões. Assim como o imposto, essa discussão também acirrou os ânimos no Planalto. A tese capaz de convencer a presidente a ser a primeira governante na história a enviar uma previsão de Orçamento com mais gastos do que arrecadação foi a de que esta seria uma maneira de dar um susto nos parlamentares. Pela lógica do governo, diante da transparência dada à gravidade do problema nas contas governamentais, os parlamentares seriam praticamente forçados a se reunir com a equipe econômica para viabilizar os cortes e a criação de novos impostos. Com isso, acreditou, ela conseguiria minar as resistências para aprovação das propostas na Câmara e no Senado. Ainda dividiria com o Legislativo o desgaste diante da população na hora de ministrar o remédio amargo. O movimento vendido à presidente como sendo de grande esperteza foi imediatamente rechaçado pelos congressistas. Coube ao vice-presidente Michel Temer a tarefa de matar a proposta no nascedouro. Durante jantar com membros de seu partido, o PMDB, disse que qualquer projeto de aumento de receitas deveria partir do Executivo .

Tamanha foi a irritação de Joaquim Levy com o episódio da previsão de déficit no orçamento que ele desabafou com um parlamentar: “Estou de mãos atadas”. Mesmo sendo voto vencido, alertou sobre o impacto que um sinal como esses poderia provocar no mercado e, principalmente, às agências de risco. Dito e feito. O rebaixamento do País elevou a tensão política e aumentou as desconfianças no meio empresarial. Para tentar jogar água na fervura, o governo convocou uma reunião de emergência na manhã de quinta-feira 10 com os ministros Joaquim Levy, Nelson Barbosa (Planejamento) e Aloizio Mercadante (Casa Civil). No encontro, Dilma mostrou um distanciamento total da realidade ao negar que o cenário econômico seja “catastrófico”. Pressionada, agora ela tenta encontrar uma maneira de alcançar o superávit de 0,7% do PIB – meta quase que imperativa diante do atual cenário econômico. As discussões sobre como levantar este dinheiro consomem o governo. Ainda não foi encontrada uma fórmula capaz de cobrir o buraco no Orçamento. O certo é que mais uma vez quem vai pagar a conta é a população. 

Governo à deriva

Míriam Leitão
O Globo

O governo dá todas as demonstrações de estar completamente confuso sobre como enfrentar a perda do grau de investimento. Esta não é hora de meias palavras, ambiguidades ou "confucionismos". É preciso um plano que mostre que o país pode reverter esse resultado, evitar que outras agências sigam o caminho da Standard & Poor"s. As reações até agora foram patéticas.

As hesitações, os sinais mistos, a falta de clareza levaram o país a perder um patrimônio pelo qual ele fez um longo esforço. As agências de risco erraram muitas vezes, e a lista desses erros encheria esta coluna, mas o fato é que, quando um país sai do grau de investimento para o grupo dos países de risco especulativo, ele está deixando de disputar capital em um mercado de US$ 15 trilhões para outro onde circulam apenas US$ 1,5 trilhão.

Haverá menos capital para os títulos brasileiros e para as empresas brasileiras. Os juros cobrados serão mais altos. Haverá mais investidores interessados em vender papéis e títulos do Brasil do que em comprar. As empresas perdem possibilidade de captação e por isso vão investir menos a um custo maior. Isso reduz a capacidade de retomar o crescimento.

Diante desse cenário, os ministros dão entrevistas descosidas em que não respondem às perguntas diretas sobre cortes de gastos, apostam na miragem de um dinheiro no exterior que viria de volta ao país para resgatar a economia e avisam que alguns impostos vão subir, sem dizer quais.

Esta é a hora de apresentar um plano organizado e crível de recuperação do equilíbrio fiscal. Já devia ter sido feito antes da casa arrombada, mas já que houve o rebaixamento, a resposta não podia ser tão improvisada quanto está sendo. Até porque era previsível depois da trapalhada do Orçamento deficitário.

A Standard & Poor"s apresentou uma linha de eventos da qual é difícil discordar.

— O governo tinha um plano e estávamos avaliando a execução. Depois o plano mudou, de superávit para déficit, e com isso nosso cenário teve que mudar também. Antes havia uma meta definida por vários anos, e o governo ia atrás da meta, agora houve duas mudanças de metas em um curto espaço de tempo, o que nos leva a um cenário de três anos seguidos de déficit primário — disse Lisa Schineller, diretora da agência.

Como sempre acontece depois do rebaixamento da nota de crédito soberana, as empresas estão sendo rebaixadas. Isso significa que os horizontes de financiamento se encurtam. Ainda que o rebaixamento fosse esperado, aconteceu mais cedo do que o mercado avaliava e veio ainda com uma perspectiva negativa, o que pode ser uma indicação de novo rebaixamento. O dólar subiu ainda mais. Chegou a R$ 3,91 e fechou um pouco mais baixo. O Ibovespa caiu pouco porque já caiu demais. A Petrobras recuou 4,65%.

O economista Marcelo Carvalho, do BNP Paribas, acha que o câmbio a este nível aumenta muito o risco de o ano fechar com uma inflação de dois dígitos. O número de agosto veio baixo, mas isso já se esperava. O acumulado em 12 meses ficou praticamente no mesmo ponto, na casa de 9,5%.

— A projeção agora fica mais no intervalo entre 9,5% e 10% do que entre 9% e 9,5%. A estimativa para o PIB pode ser revista para pior. Já estamos com -3% este ano. O importante é o governo evitar a ambiguidade na política econômica, tem que ter clareza, transparência, um plano definido —, disse.
O Itaú Unibanco revisou seu cenário para 1% de déficit primário e 2,8% de recessão este ano. Outras instituições estão revendo seus números e cenários.

Na entrevista concedida ao "Valor", a presidente foi perguntada sobre a divisão entre seus ministros da Fazenda e Planejamento. Ela respondeu que está numa fase "Confúcio" e que prefere o caminho do meio.

Não há esse caminho. Na campanha da reeleição, a presidente dizia que o ajuste fiscal não era necessário e atacou quem o propôs. Ao assumir, anunciou uma meta que depois foi reduzida e avisou no Orçamento que nem isso cumpriria. A presidente escolheu o caminho de não fazer o ajuste. Está na hora de a chefe do governo entender que os truques de marketing não funcionam na vida real. É a hora do sim ou do não.

Não é o fim do mundo, o Brasil pode reverter esse resultado, mas o governo tem que demonstrar que o comando é firme e tem uma direção.

As barbas de molho.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Rebaixamento de crédito só assusta os fracos. A crise mesmo começa agora.

A Polícia Federal pediu ao Supremo que autorize a tomada de depoimento de Lula, por suspeita de ter sido beneficiado no Petrolão. O pedido foi feito pelo delegado Josélio Sousa. "(...) a presente investigação não pode se furtar de trazer à luz da apuração dos fatos a pessoa do então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, que, na condição de mandatário máximo do país, pode ter sido beneficiado pelo esquema em curso na Petrobras, obtendo vantagens para si, para seu partido, o PT, ou mesmo para seu Governo, com a manutenção de uma base de apoio partidário sustentada à custa de negócios ilícitos na referida estatal". 

Por que o pedido ao Supremo, se Lula não tem cargo público e o habitual seria ouvi-lo na primeira instância? Talvez porque o delegado saiba que está tocando no supremo ídolo petista: investigá-lo será visto pelo PT como crime de lesa-majestade, muito mais grave do que investigar a própria presidente Dilma. De todos os alvos da investigação, este é o mais sensível: Lula é o PT, o PT é Lula.

Só Lula? Não: o lobista Fernando Falcão Soares, Fernando Baiano, acaba de negociar sua delação premiada, na qual promete dar detalhes e provas da participação de Dilma na compra da refinaria de Pasadena, no Texas - aquela cujo preço se multiplicou. Na época, Dilma presidia o Conselho de Administração da Petrobras. Baiano deve alvejar também os presidentes da Câmara, Eduardo Cunha, e do Senado, Renan Calheiros. 

Na linha de sucessão, só se livra Michel Temer.

E tem mais
O Tribunal de Contas da União está pronto para enviar ao Congresso seu parecer sobre as "pedaladas fiscais" da presidente. O jornal virtual Brasil 247 (www.brasil247.com/pt), próximo ao PT e ao Governo, acredita que o TCU recomendará a rejeição. Com isso, abre caminho jurídico para o impeachment. 

Mais: um forte grupo de deputados ameaça obstruir qualquer projeto de interesse do Governo até que o impeachment entre na pauta. O caminho está combinado: o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, rejeita a proposta de impeachment, e será surpreendentemente derrotado pelo plenário, que a porá em votação. Ainda não há votos suficientes para aprová-la, mas a pressão contra Dilma é fortíssima.

O balanço do barco
Publicitários, jornalistas e políticos que amavam o PT estão se afastando em silêncio. Um governador, de partido que integra a base governista, acredita que a presidente deixe o cargo ainda em setembro. Há outras avaliações. 

Mas é quase consensual a ideia de que o peru de Natal de Dilma não será servido no palácio. 

O tamanho do buraco
O ex-presidente Lula disse que o rebaixamento do Brasil por uma agência de risco não tem nenhuma importância. Mas, tão logo foi anunciada a queda do Brasil para a categoria de investimento especulativo, os papéis da Petrobras na Bolsa americana caíram 5,1% - só no primeiro dia. 

Mas isso é apenas a cereja do bolo da gestão, digamos, heterodoxa da empresa. A Petrobras vale hoje no mercado (a avaliação é feita pelo preço de suas ações em Bolsa) cerca de US$ 31 bilhões.

Há cinco anos, seu valor de mercado era de cerca de US$ 300 bilhões. 

O fundo do buraco
E não está computado, na queda de valor da principal empresa brasileira, o custo das ações movidas por acionistas que a acusam de desvio de lucros para atos pouco convencionais. Estão em jogo algumas dezenas de bilhões de dólares.

Banana no chão
Não é verdade que a presidente Dilma atravesse a rua só para escorregar numa casca de banana que está na outra calçada. Dilma vai muito mais longe em busca de um tombo. O decreto que retira atribuições dos comandantes militares e as repassa ao ministro da Defesa, tão bobo que estava há três anos na gaveta sem que ninguém dele se lembrasse, tão inútil que o ministro Jaques Wagner promete nem usá-lo, devolvendo aos comandantes os poderes de remanejamento de pessoal, foi assinado de surpresa, às vésperas do feriado, sem que os comandantes fossem avisados.

Pior: o ministro da Defesa diz que não sabia de nada, a presidente diz que não sabia de nada, o ministro da Defesa interino (o comandante da Marinha, já que Wagner estava fora) diz que não assinou nada. Se ninguém sabia do caso, como é que o papel foi parar no Diário Oficial? Foi posto lá pela secretária executiva do Ministério da Defesa, Eva Maria Chiavon, da estrita confiança do ministro Jaques Wagner (com quem já trabalhara no Governo da Bahia). E esposa de Francisco Chicão Chiavon, segundo de João Pedro Stedile no comando do MST. 

Lembrando Lula, é o subcomandante do exército de Stedile.

Escorregando! 
O tal decreto pegou mal e deixou o pessoal da Defesa desnorteado. A Assessoria de Comunicação Social do Ministério, no dia 8 de setembro, enviou à imprensa uma Nota de Esclarecimento sem texto e sem data (Brasília, x/x/2015), mas com assinatura. 

Depois, enviaram outro texto, com um discurso do ministro Jaques Wagner em que reafirma seu compromisso com as Forças Armadas. Só que o discurso foi pronunciado em 2 de janeiro de 2015.
Eta, ministro lerdo!

Aguarde! Prepare-se. Chumbo Gordo vem aí.

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À espera de um milagre

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo 

Não deu outra: a proporção dos investimentos no PIB e a produção industrial passaram a cair e finalmente se instalou uma gigantesca crise fiscal

O gasto público corrente tomou conta do Produto Interno Bruto (PIB). Enquanto se discutem novas medidas para aumentar a arrecadação, perde-se a noção de que a característica mais marcante da evolução recente da economia brasileira é o brutal crescimento do gasto público.

Se coubesse a inserção de um gráfico contendo dados mensais para os últimos 12 meses da taxa de crescimento real do gasto federal e do PIB calculado pelo Banco Central, veríamos que, de janeiro de 2005 a junho último, ou seja, nos últimos dez anos e meio, a linha do gasto se situa acima da linha do PIB praticamente o tempo todo.

Como costuma dizer um amigo, o crescimento da carga tributária é mera consequência da evolução do gasto. De janeiro de 2005 a dezembro de 2008, a Receita Federal cresceu praticamente à mesma taxa média real da despesa. Nessa fase, ambas cresciam o dobro do PIB (9%, ante 4,5% ao ano). Por conta disso, os saldos fiscais herdados da fase precedente se mantiveram ao redor de 3% do PIB em todo esse período, e a solvência pública nunca esteve tão bem.

De agosto de 2012 a junho último, contudo, no quadro de desaceleração sistemática da economia que se instalou, receita e PIB cresceram à mesma e inexpressiva taxa média de 1,2% ao ano. Enquanto isso, a taxa média da despesa, mesmo caindo, se situava em fortes 5,8%, implicando aumento igual a 4,7 vezes o crescimento do PIB. Daí os elevados superávits fiscais terem despencado e virado os primeiros déficits primários (sem incluir os juros) em muitos anos.

Sem espaço para detalhar, cabe enfatizar que o gasto público no Brasil é basicamente corrente. Investimentos não passam de míseros 6% do total. E são basicamente transferências para pessoas (previdência e assistência social) e pessoal, respondendo por 75% do total.

Assim, se o setor público não consegue gastar menos que 4,7 vezes a evolução do PIB, a economia não pode se dar ao luxo de crescer abaixo de taxas entre 4% e 5% ao ano. Sem isso, acumulam-se déficits primários elevados e se enfrenta uma crise fiscal. Só que, para crescer, é preciso algo mais do que uma simples vontade de fazê-lo.

O desastre do governo atual foi não ter essa visão em mente, contribuindo para agravar um quadro que, na partida, era difícil de sustentar. Insistiu num esgotado modelo pró-consumo, adotou políticas populistas, como o controle de pedágios e tarifas públicas em geral, subsidiou sem futuro a indústria e perseguiu o investidor privado. Não deu outra: a proporção dos investimentos no PIB e a produção industrial passaram a cair e finalmente se instalou uma gigantesca crise fiscal. E nada disso foi trazido de fora, ou seja, foi tudo invenção interna. Hoje, depois de marchas e contramarchas na questão fiscal, estamos à beira de perder a classificação de “bom pagador” das agências internacionais de risco.

O desafio assumido pelo novo ministro da Fazenda foi produzir uma virada brusca na trajetória dos resultados fiscais. Primeiro, ele prometeu que o déficit primário do ano passado (0,6% do PIB) viraria um superávit de 1,1% do PIB neste ano. Mais do que isso, os superávits aumentariam para 2% em 2016 e 2017. Para isso, e falando só de 2015, o crescimento real do gasto da União seria de -1,2%, enquanto o da receita se situaria em 5,5%. Percebendo a inviabilidade desses objetivos, reviu há pouco mais de um mês a meta de superávit deste ano para 0,15% do PIB, e as taxas de crescimento do gasto e da receita para -1,6% e 0,6%. Ou seja, ousou um pouco mais na despesa, enquanto aceitava que seria muito difícil ter um grande crescimento da receita num ano recessivo.

Para ver como andam essas taxas até o último mês disponível, o crescimento real da receita nos últimos 12 meses terminados em julho foi de -4,9% e o da despesa, de 4,6%. Ou seja, falta muito para chegar nas metas de 0,6 e -1,6%, respectivamente. Em cima de tudo isso, Levy foi atropelado pelo anúncio oficial de um projeto de orçamento para 2016 contendo, pela primeira vez na história recente, um déficit primário embutido no orçamento. Haja milagre…

Destruição de riqueza

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Muita gente do governo comemorou, ainda que discretamente, o resultado dos mercados financeiros no dia seguinte ao rebaixamento do Brasil pela Standard & Poor’s (S&P). “Não foi o pânico que esperávamos e temíamos”, disse um ministro, certo de que os investidores entenderam que a presidente Dilma Rousseff está disposta a agir para evitar o pior. “Passamos bem pelo dia mais difícil”, emendou.

Tal visão só reforça o quanto esse governo não tem noção da realidade — ou finge não ter. A reação do mercado financeiro é a parte mais imediata, e menos importante, do estrago provocado pela perda do grau de investimento. O que realmente importa é a economia real, e esta pagará caro pelas mazelas que Dilma impôs ao país. Sem o selo de bom pagador, as incertezas se acentuaram. Todas as projeções de indicadores que interferem no dia a dia das pessoas pioraram – e muito.

Os especialistas estão certos de que a recessão vai se agravar. O Itaú Unibanco aumentou a previsão de queda do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano de 2,3% para 2,8%. Em 2016, em vez de 1%, o tombo será de 1,2%. No caso da inflação, o banco projeta taxa de 9,5% (era de 9,3%) em 2015 e de 6,5% (ante 5,8%) no ano que vem. A combinação perversa de retração econômica com inflação em alta levará o desemprego às alturas, assim como a dificuldade dos trabalhadores de honrarem dívidas.

“Não há dúvidas de que as coisas vão piorar muito”, ressalta João Pedro Ribeiro, analista da Nomura Securities. Com os dois anos seguidos de contração do PIB, o tamanho da economia brasileira retornará aos níveis de 2012. A renda dos trabalhadores recuará ainda mais, devido à arrancada da inflação e ao aumento do desemprego, e deverá se situar nos patamares de 2010, último ano da era Lula — ou seja, serão cinco anos perdidos.

Essas projeções explicitam como Dilma se especializou em destruir riquezas e sonhos. Quando ela foi reeleita, sobretudo pelos mais pobres, acreditou-se que preservaria conquistas importantes: planos de saúde, escola particular para os filhos, cursos de língua e viagens de férias, inclusive para o exterior. Numa economia deprimida, contudo, são esses ganhos os primeiros a serem limados pela população.

“O quadro é tão complicado, que o movimento nas emergências dos hospitais caiu 30%, em média, desde o início do ano”, diz um diretor de uma das principais redes de hospitais do Distrito Federal. “E não foi porque as pessoas estão com saúde melhor. Elas perderam o plano de saúde, seja porque ficaram desempregadas, seja porque não conseguiram mais pagar as mensalidades”, acrescenta.

Fim de linha
As perdas contabilizadas pela população tendem a ampliar a insatisfação em relação ao governo. É por isso que muitos analistas não acreditam na permanência de Dilma no Palácio do Planalto por muito mais tempo. Não há, no entender deles, como um presidente se sustentar no cargo com a economia à beira de um colapso e uma crise política que inviabiliza qualquer ação do Executivo para aprovar um ajuste fiscal consistente que possa reverter o estrago provocado pelo rebaixamento do país.

A falta de confiança em Dilma é tamanha, que as estimativas para as contas públicas pioram dia após dia. O governo enviou ao Congresso o projeto de Orçamento de 2016 com previsão de rombo de R$ 30,5 bilhões, o equivalente a 0,34% do PIB. Os especialistas garantem, contudo, que o buraco será maior, de ao menos 1% do PIB, o que reforça a tese de que a presidente não terá forças políticas nem para cortar gastos nem para aprovar aumento de impostos.

“Não vemos coordenação no governo para levar um ajuste fiscal adiante”, afirma Ribeiro, da Nomura Securities. Por enquanto, ele não acredita em impeachment nem em renúncia de Dilma, mas o encurtamento de mandato da petista está em todos os cenários traçados pelos investidores e começa a ganhar relevância, ante a inação do Palácio do Planalto, que se apegou a discursos e promessas em vez de agir com convicção para mostrar que o país não está à deriva.

“Não vejo um acerto aparente entre o PMDB e o PSDB para levar adiante o processo de afastamento da presidente”, diz Ribeiro. “Trata-se de um processo arriscado. Temos que ver se o PMDB quer ser vidraça num quadro político conturbado, com uma Operação Lava-Jato a pleno vapor. Não é só: como reagirá o governo diante de um movimento para derrubá-lo? Certamente, correrá mais à esquerda, jogando o ajuste fiscal para o alto”, complementa.

Diante de tudo o que se está vendo, é melhor a população se ajoelhar e rezar. Se uma coisa está certa no Brasil das incertezas é que a fatura vai ser pesada para todos. De uma forma ou de outra, todos terão de dar sua cota de sacrifício: perdendo o emprego, dando calote em lojas e bancos, tirando produtos básicos do carrinho do supermercado, adiando sonhos e, claro, pagando mais impostos, pois, como diz o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, estará se fazendo um investimento, dando uma mãozinha a um governo perdulário e irresponsável, que jogou o país no atoleiro.

Fio de esperança
» Joaquim Levy sabe que se tornou o único fio de esperança do governo para evitar a derrocada geral da administração Dilma Rousseff. Acredita que, enfim, vão fazer o que sempre defendeu: um ajuste fiscal consistente. O risco de se decepcionar novamente é enorme.

Os pactos deles – e o nosso

Demétrio Magnoli
 O Globo

Lulopetismo impede a formulação de consensos básicos como os que sustentaram a Agenda 2010, na Alemanha, e o Pacto de Moncloa, na Espanha

Primeiro, foi Michel Temer, com seu “alguém precisa unificar este país”. Depois, o empresário Abilio Diniz sugeriu preencher o sujeito oculto com três nomes, os de FH, Lula e o próprio Temer, que seriam “trancados numa sala para encontrar a solução”. Na sequência, o sociólogo André Singer, porta-voz de Lula no primeiro mandato, propôs uma correção no esquema de Diniz, opinando que o chamado à reunião salvadora deve partir de Dilma Rousseff — e que a presidente precisa estar na sala lacrada. Finalmente, segundo informa a jornalista Dora Kramer, o ministro da Comunicação Social, Edinho Silva, um conselheiro do círculo direto de Dilma, peregrinou até o Instituto Fernando Henrique Cardoso para solicitar, sem sucesso, uma audiência não agendada com o ex-presidente. Paira no ar a palavra “pacto”.

A Alemanha tem algo a ensinar, quando se trata de pacto. Perante o Bundestag (Parlamento), em março de 2003, o chanceler social-democrata Gerhard Schröder expôs sua Agenda 2010, um plano de reformas nas relações de trabalho e no sistema previdenciário. O país concluíra o penoso processo de incorporação da antiga Alemanha Oriental, liderava a União Europeia no lançamento do euro e enfrentava as novas condições de concorrência global geradas pela ascensão chinesa. As reformas destinavam-se a alavancar a produtividade, que estagnara, de modo a reativar a capacidade exportadora da indústria alemã.

Schröder obteve apoio da Democracia-Cristã, o principal partido oposicionista, do empresariado e de líderes cívicos e religiosos. Enfrentou batalhas com os sindicatos mas, em 2004, conseguiu o suporte decisivo dos dirigentes da maior central sindical. O pacto alemão implicou cortes significativos nos salários reais e no welfare state. Em compensação, propiciou a retomada do crescimento e, mais adiante, conferiu à Alemanha a musculatura indispensável para resistir à crise geral da zona do euro.

Bem antes, a Espanha fizera uma experiência de sucesso no terreno perigoso do pacto nacional. O Pacto de Moncloa, de agosto de 1977, funcionou como ponte pela qual o país transitou do franquismo à democracia e, no fim do arco-íris, ingressou na Comunidade Europeia. Menos de dois anos após a morte do ditador Francisco Franco, a Espanha ingressava no quinto ano de uma recessão marcada por fortes desequilíbrios nas contas externas, inflação crescente e altas taxas de desemprego. Por iniciativa do presidente de governo de centro-direita Adolfo Suárez, uma comissão pluripartidária redigiu os textos dos acordos, que foram aprovados no Parlamento.

Nos acordos econômicos, definiu-se uma política de austeridade fiscal e de contenção salarial. Nos políticos, garantiu-se o direito de associação, a reforma do Código Penal e a reorganização da polícia. O Palácio da Moncloa, sede do governo, serviu de palco para a conclusão do pacto, assinado pelos líderes de todos os grandes partidos: o social-democrata Felipe González, o eurocomunista Santiago Carrillo, e o ex-franquista Manuel Fraga, do Partido Popular, que apenas não subscreveu o capítulo de reforma politica.

O Brasil carece da condição prévia que permitiu os pactos alemão e espanhol: a crença compartilhada na legitimidade dos partidos políticos. Os dois grandes partidos alemães aprenderam a lição da parceria no jogo democrático durante a Guerra Fria, quando conviveram na trincheira de resistência à URSS e à Alemanha Oriental. Na Espanha, apesar da memória indelével da Guerra Civil, os principais partidos tinham um objetivo comum, que era a democratização e o acesso à Comunidade Europeia. Por aqui, em contraste, o PT não enxerga os outros grandes partidos como rivais políticos e competidores eleitorais, mas como “inimigos do povo”.

A linguagem lulopetista liga-se à tradição da esquerda nacionalista latino-americana, que usa o conceito de imperialismo para exibir os demais partidos como representações internas de um “inimigo externo”. Do ponto de vista do PT, o PSDB está devotado a vender o “patrimônio nacional” às empresas estrangeiras. Os clássicos discursos petistas sobre a Petrobras e, meses atrás, as acusações eleitorais de Dilma contra Aécio Neves e Marina Silva evidenciam a impossibilidade de um pacto legítimo.

Um pacto distingue-se de um conchavo porque se articula em torno de uma nítida, detalhada plataforma política e econômica. No Brasil, o lulopetismo impede a formulação de consensos básicos como os que sustentaram a Agenda 2010 e o Pacto de Moncloa. Nosso pacto nacional teria que associar a consolidação fiscal a reformas estruturais destinadas a incrementar a produtividade. O pensamento econômico do PT, porém, continua hipnotizado pela combinação fracassada de estatismo e expansão fiscal do primeiro mandato de Dilma — e qualifica qualquer alternativa como uma maléfica conspiração “neoliberal”. Além disso, um pacto só teria sentido se atendesse à exigência cidadã de libertar a administração pública da colonização político-partidária, algo impensável tanto para o PT quanto para um relevante setor do PMDB.

As vozes petistas que, de repente, descobriram as virtudes do “pacto” buscam apenas uma saída tática para o desastre histórico do lulopetismo. O Brasil precisa, realmente, de um pacto nacional, cujos contornos esboçam-se em meio à crise atual. Mas, infelizmente, ao contrário dos precedentes alemão e espanhol, ele não será conduzido pelo governo e excluirá a participação de um dos grandes partidos, que é o PT. Nosso pacto é para o pós-Dilma, seja isso daqui a poucos meses ou apenas em 2018.

Há pouco, FH escreveu sobre a necessidade da formação de “um novo bloco de poder que tenha força suficiente para reconstruir o Estado brasileiro”. Nessa fórmula, encontra-se o reconhecimento de que a chave do futuro não é propriedade do PSDB e nem mesmo de uma coalizão partidária. Pacto, dito de outro modo.

Hominídeos na caverna do Planalto

Ruth De Aquino
Revista ÉPOCA

Como nos livrar dos fósseis que rebaixam nosso presente e ameaçam o futuro de nossos filhos e netos?

Hominídeos com um cérebro diminuto, do tamanho de uma laranja, foram descobertos nas cavernas luxuosas e atapetadas do Planalto. Para ser mais precisa, e não discriminar os homens, também foram encontradas mulherinídeas. Trata-se de uma espécie “prima” do ser humano normal, com mãos, pernas e pés idênticos aos de todos nós, mas com um cérebro atrofiado, dado a decisões incoerentes, mirabolantes, contraditórias, primitivas e suicidas. Uma espécie vivinha da silva em Brasília.

Pesquisadores e eleitores no Brasil acreditavam que essa espécie, batizada de Homo naledi, estaria extinta há milhões de anos. Muito antes, portanto, do Homo sapiens. Ou da “Mulher sapiens”, como bem lembrou recentemente a presidente Dilma Rousseff.

Mas o desastre descomunal que afundou a economia do Brasil e expôs as vísceras de uma política corrupta mostrou que os hominídeos se multiplicaram entre nós. O maior desafio para a população honesta e sofrida deste país é saber como se livrar dos fósseis que rebaixam nosso presente e ameaçam o futuro de nossos filhos e netos.

Precisamos de grandes homens e grandes mulheres que assumam sua responsabilidade e tomem decisões sábias para nos tirar do atoleiro. Nós, os contribuintes, estamos cheios de ser atingidos por balas perdidas no tiroteio insano entre os Poderes.

Essa história de morar num país tropical abençoado por Deus já era. O lado B do Brasil é o lado da bandalha, da bagunça, da balbúrdia. Poderia ser B de bonança. E ainda pode ser, mas não à custa de quem é inocente. Mais impostos? Mais contribuições? Mais aumentos nas contas? Em ambiente de inflação e desemprego?

O que fazem as castas sapiens no Executivo, no Legislativo e no Judiciário? Continuam com sua remuneração intocada pela crise. Ganham reajustes acima da inflação. Mantêm seus benefícios imorais, injustificáveis, e seu exército de assessores apadrinhados. Discutem sobre os “remédios amargos” que eles só receitam, nunca tomam. Conspiram nas sombras e em público, numa dança de alianças oportunistas.

A cada semana, Dilma elege um como bucha de canhão. Uma hora é o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, outra é o chefe da Casa Civil,Aloizio Mercadante, e daqui a pouco será o ministro do Planejamento, Nelson Barbosa. Só não dá para Dilma ir contra seu criador, Lula, porque esse está mais descontrolado do que a inflação, atira no que viu e no que não viu. Afetado pela perda da memória recente, Lula diz hoje o contrário do que disse em 2008. O selo de bom pagador era ótimo, uma prova de que o Brasil tinha se tornado “um país sério”. Agora, o selo de mau pagador “não significa nada”.

Com o Brasil rebaixado para a Série B, os “remédios amargos” anunciados por Dilma e pelos hominídeos do Planalto para equilibrar o orçamento nacional não passam pela goela dos seres humanos normais. Temos o cérebro maior que uma laranja, não vivemos em cima de árvores olhando a paisagem e nossos dedos não são curvados para pegar maços de milhões de dólares. Tampouco temos a quem delatar porque não participamos de nenhuma negociata entre hominídeos e mulherinídeas.

Hoje, Dilma contamina seus ministros com a arrogância e com o total descolamento da realidade. A declaração é de um senador da oposição e faz todo sentido. Só a contaminação presidencial explica que Levy diga, com a maior cara de pau, que os brasileiros não se negariam a pagar mais impostos para ajudar o país. E que todos nós devemos encarar esse aumento de impostos como “investimento”. Investir em que, Levy? Estamos comprando papéis do governo do PT?

No dia 24 de setembro, irá ao ar em rede nacional o programa do PMDB com o slogan “O Brasil está pronto a acertar as contas com a verdade”. Tenho dúvidas.

A verdade dói. Uma notícia discreta na sexta-feira me chamou a atenção: a atriz Myrian Rios, ex-mulher de Roberto Carlos e ex-deputada estadual, não reeleita no ano passado, acaba de ganhar um cargo de R$ 20 mil na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj. Foi nomeada subdiretora-geral de Cultura. O presidente da Alerj, Jorge Picciani, disse que Myrian Rios ajudará a Casa a ser um polo irradiador de cultura no Rio!!! Três exclamações.

Myrian é a mulherinídea que, além de ser contra o direito ao aborto até em casos de estupro, comparou o homossexualismo à pedofilia. Myrian defende, em tese, o direito de demitir uma babá lésbica pois ela pode “cometer pedofilia” contra suas filhas. Também defende o direito de demitir um motorista homossexual porque ele poderia “bolinar meu filho”.  Essa senhora rebaixa a nota da Cultura no Rio. É um símbolo contemporâneo de nosso lado B.

O Quinto dos Infernos

Ruy Fabiano
Blog do Noblat


Entre os desserviços proporcionados pela Era PT, um tem efeito devastador e exigirá muito tempo para ser recomposto: a perda do grau de investimento moral da sociedade civil organizada.

Em certo sentido, esse dano é ainda maior que o da perda do grau de investimento, recuperável pela adoção de medidas econômicas adequadas, em ambiente político mais confiável.

Mas o dano moral de privar a sociedade de tribunas qualificadas, espaços não estatais de interlocução pública, não tem preço. Entidades como OAB, ABI, CNBB e UNE levaram décadas para construir sua reputação, com participação ativa em todos os movimentos cívicos de envergadura do século XX.
São, porém, os grandes omissos em uma das maiores crises da história republicana brasileira – e, em certos aspectos, a maior.

Não se ouviu delas uma única palavra condenatória a respeito da roubalheira na Petrobras, que o jornal mais importante dos EUA, o The New York Times, considerou, em volume e abrangência, o maior caso de corrupção da história humana. Muito ao contrário, houve quem relativizasse o escândalo.


Aparelhadas pelo PT, hoje vocalizam os interesses desse partido, cuja própria sobrevivência está em risco, tal a diversidade de delitos já capitulados. Os ditos movimentos sociais – CUT, MST, MTST, entre outros – já nasceram sob a égide partidária, com a missão de cumprir uma agenda ideológica que está longe de exprimir um ideário comum à sociedade brasileira.

Têm, pois, coerência e representatividade a soldo. Seu declínio acompanha o do governo petista e das legendas que os patrocinam. Vivem de dinheiro público, à revelia do público.

Já as entidades da sociedade civil não pertencem a ninguém em especial. Foram forjadas nas lutas políticas hoje inscritas na história. A OAB, por exemplo, surge na sequência da Revolução de 1930 e tem participação ativa na luta contra a ditadura do Estado Novo, a partir de 1937.

Apoiou a queda do governo Goulart, em 1964, mas, uma vez configurada a determinação militar de não devolver o governo aos civis, tornou-se voz destacada na luta pela redemocratização.

Exerceu, por meio de seu então presidente, Raymundo Faoro, interlocução junto ao governo Geisel para construir a agenda da transição para a democracia, de que constavam, entre outras coisas, o restabelecimento do habeas corpus e das eleições diretas para presidente da República, que só retornariam de fato com a Constituinte, em 1988.

A CNBB, por sua vez, num país que já foi bem mais católico, perdeu musculatura moral ao se tornar força militante atrelada aos chamados movimentos sociais – que, por sua vez, obedecem a comando partidário. Deixou de ter qualquer importância, ao ponto de escassos católicos saberem o nome de quem a preside.

A sociedade foi às ruas, somente este ano, por três vezes, em manifestações que lotaram as ruas e avenidas das principais capitais. Disseram, por conta própria, tudo o que esperavam ouvir das entidades que sempre se ocuparam em vocalizá-la.

E o que elas disseram, quando ousaram romper o silêncio? Exatamente o que o PT e seus aliados à esquerda repetiam: que se tratava de gente rica, coxinhas, que nada tinham a ver com o verdadeiro povo (entidade abstrata que só ganha concretude se se filiar aos movimentos sociais).

O aparelhamento supôs ser possível promover uma revolução em silêncio, a revolução bolivariana, privada de qualquer debate público, a partir de uma engenharia política restrita a essas entidades, às quais se somou o que se pode classificar como uma síntese delas: o Foro de São Paulo.

O logro foi percebido a tempo de sustá-lo.

Alguns dos principais cabeças, na órbita partidária, como José Dirceu, estão na cadeia. Outros, como o próprio Lula, têm tudo para lá chegar. A revolução, sob o patrocínio de Simon Bolívar, personagem estranho à nossa história, abusou do princípio de que os fins justificam os meios e concentrou-se nos meios, de que a rapina à Petrobras dá um pálido exemplo – e que não é único.

A Era PT chegou ao fim, ainda que a remoção do governo possa levar algum tempo. A classe média, sem a qual não haveria PT, nem muito menos as revoluções – tudo começa e termina nela e com ela -, rompeu com o establishment petista.

E é sob seus escombros que se buscará algum remédio para o recomeço, para a sofrida tentativa de recolocar o Brasil de volta não a um paraíso, cada vez mais distante, mas ao singelo Terceiro Mundo. No momento, estamos no quinto – o quinto dos infernos.

Corda em casa de enforcado

Fernando Gabeira. 
O Estado de São Paulo

Essa pressão social sobre um governo incapaz funciona como algumas sacudidas para o País acordar. Mas como um homem que dormiu tarde e precisa acordar cedo, será preciso ainda mais. Já está ficando ridícula essa história de Dilma se desculpar pela metade...


Temer falou que Dilma não se mantém no governo com o baixo índice de popularidade. Foi um deus-nos-acuda. Não se fala em corda em casa de enforcado.

O governo só pensa em sobreviver, e paradoxalmente, cava seu próprio abismo. Não me refiro apenas às notícias ruins que os dados econômicos nos transmitem. Refiro-me à performance autodestrutiva do governo. Dilma viveu um 7 de Setembro isolada por placas de ferro, não teve condições de se dirigir ao País, com hora marcada na televisão.

No entanto, na véspera, acordou com uma ideia genial: vou sacanear os militares. Eles estão muito quietos. E assinou um decreto reduzindo os poderes dos comandos das Forças Armadas. Às vezes fico pensando se não é uma tática. Mas não consigo entender sua lógica. Como Dilma não é uma articuladora diabólica, prefiro pensar que é só incapacidade. 

Levy, em Paris, disse que a elevação do Imposto de Renda pode ser um caminho para cobrir o rombo fiscal. É ou não é um caminho?

Ele vai apanhar muito por sua ideia. E talvez nem chegue a apresentá-la. Qualquer Maquiavel de botequim o aconselharia ou a fazer de uma vez ou, então, silenciar.

O erro de Levy ainda se pode explicar pelo desespero de buscar recursos para um Orçamento estourado. Mas é um erro que encobre outro maior: a ideia de aumentar impostos depois de o governo ter perdido a credibilidade.

O raciocínio de Temer, que deu inúmeras explicações sobre a frase, completava-se com a expectativa de que a crise seria superada e Dilma iria recuperar um nível de popularidade "razoável". Mas é a própria expectativa de Temer que não é razoável. Como Dilma vai recuperar a popularidade? Como vai conduzir a recuperação econômica? Como uma presidente sem experiência política vai fazer a travessia, uma vez que a maioria a considera mentirosa e responsável pelo buraco em que nos metemos?

As raposas do PMDB diriam: para bom entendedor meia palavra basta. Não é bem assim. Carlos Lacerda, no livro República das Abelhas, dizia que o Brasil parecia um homem que foi bêbado para a cama, dormiu pouco e mal, mas precisa acordar bem cedo pela manhã. Você tem de sacudi-lo, estapeá-lo. Se ficar fazendo festinha, ele não se levanta.

Lacerda apoiou alguns socos abaixo da linha da cintura, como o golpe militar de 64. Mas sua frase me fez refletir um pouco sobre esse possível despertar do Brasil.

Os fatos negativos se sucedem. Essa incrível quantidade levará a um salto de qualidade por si própria? Ou vai surgir da esfera da política, no sentido mais amplo, o impulso para que o salto se dê?

As manifestações de 16 de agosto indicaram uma grande confiança na Operação Lava Jato. Uma confiança merecida. No entanto, será que ela basta?

Estamos entrando numa crise de longa duração. Quanto mais tempo perdermos, mais vamos impor ao País, inclusive às novas gerações, grandes dificuldades futuras.

Será preciso uma intervenção maior da sociedade. De todas as maneiras. Em Nova York o cantor Fábio Junior denunciou a quadrilha que domina o Brasil. Alguns discutiram os termos do protesto, o público do cantor, seus recursos estéticos. Mas o cantor e os brasileiros que estavam lá, não importa sua opção estética, são morenos como nós, pagam impostos, têm sonhos e gostam do Brasil. Eles se manifestaram como inúmeros outros o fazem aqui, dentro do País.

Essa pressão social sobre um governo incapaz funciona como algumas sacudidas para o País acordar. Mas como um homem que dormiu tarde e precisa acordar cedo, será preciso ainda mais.

Já está ficando ridícula essa história de Dilma se desculpar pela metade. O governo não tem de responder apenas pelos seus erros, que ela nem admite completamente, usando o condicional: se cometi erros, é possível... Ora, os governos de Dilma e Lula estão na iminência de responder por crimes, no petrolão e nas campanhas presidenciais.
Nesse emaranhado de problemas, há os que, como Temer, têm uma expectativa de que Dilma faça a travessia. Ninguém, no entanto, é capaz de analisar desafio por desafio e nos convencer de como ela vai superá-los.

Da crença num suposto respeito à legalidade eleitoral, desloca-se rapidamente para a crença num milagre. Esperam que Dilma acorde renovada e conduza a grande travessia. Aí, ela acorda invocada e vai mexer com os militares - que, por sinal, foram bastante discretos na reação.

A cada semana inventam um novo imposto. A cada semana fracassam. O governo é um Sísifo ao contrário. Sísifo pelo menos, segundo a lenda, levava a pedra até o alto da montanha e a recolocava incessantemente. O governo está no alto da montanha jogando pedra para baixo. Quebrou o País, dirigi-lo tornou-se uma responsabilidade tão áspera que a própria oposição hesita em assumi-la.
Então, como vamos sair dessa? As pessoas na rua pedem impeachment, de uma forma que às vezes me preocupa. Acham que o impeachment vai resolver todos os problemas. Na verdade, é só um passo. Se as forças políticas não conseguem discutir nem o impeachment, abertamente, o que dirá de um programa nacional para se sair da crise?

Muitos analistas concordam que a crise pode levar-nos a um retrocesso, dependendo da maneira como a enfrentamos. O problema é que nem sequer a estamos enfrentando de forma coordenada. Essa lentidão pode nos custar alguns anos a mais de sufoco.

Dilma naufragou no oceano de suas mentiras, nas correntes geladas da crise, na trajetória de delinquência institucional do PT. No momento, somos como um barco de refugiados à deriva no Mediterrâneo. 

Não podemos naufragar, nem esperar resgate. Somos grandes demais para a Europa, ou qualquer outro continente. Ou nadamos ou afundamos.

Nota baixa

Sandro Vaia
Blog do Noblat

Algaravia é uma tremenda duma palavra feia. Mas existe. E se existe podemos, então, usá-la.

Segundo os dicionários, algaravia é uma confusão de vozes, linguagem confusa, embrulhada. Algo assim como um discurso de Cantinflas, aquele cômico mexicano que recitava longas algaravias, recheadas de muitas palavras e nenhum sentido.

O rebaixamento do grau de investimento do Brasil pela agência de risco Standard & Poors provocou uma tremenda algaravia nas hostes de governistas e assemelhados próximos ou distantes.

A primeira voz, claro, é do condestável da República, o Grande Timoneiro Lula, que é ao mesmo tempo inventor e sustentáculo do governo Dilma e mentor da “oposição por dentro” aos apertos orçamentários que ela precisa mas não consegue fazer.

Lula disse que o rebaixamento da nota do Brasil pela S&P “não significa nada”. Quando a S&P deu o grau de investimento ao Brasil em 2008, ele mesmo disse que estavam dando ao Brasil um “atestado de país sério’. Quando foi que ele falou bobagem: ontem ou em 2008? Não éramos sérios antes ou não somos agora?

Mas o diz-e-depois-desdiz de Lula não significa nada, diante do histórico de contradições que compõem sua trajetória de metamorfose ambulante.

Significativo é que a declaração de Lula tenha sido feita num momento em que ele estava em Buenos Aires ao lado de Cristina Kirchner, a presidente da Argentina, simbolizando que o caminho para a “argentinização” da nossa economia talvez esteja mais perto do que possa imaginar a nossa vã filosofia.

Nelson Barbosa, o ministro do Planejamento, disse que a decisão da agência de risco foi “uma surpresa”. Parece que todos sabiam, menos o ministro que planeja.

A algaravia ganhou a participação especial do heroico ministro da Fazenda, Joaquim Levy, chamado a dar explicações sobre o rebaixamento da nota do Brasil ao Jornal da Globo, ancorado por William Waack, que o bombardeou com perguntas incomodamente pertinentes.

Levy, com aquele olhar levemente vagotônico de quem não entende bem como é que foi parar no meio de um governo sem eira nem beira, onde é visto como uma borboleta num formigueiro, se pôs a recitar algumas banalidades, tipo:

“A baixa popularidade é uma possibilidade de aumentar ela”. Ou: “O rebaixamento (da nota) do Brasil é apenas uma avaliação". Ou ainda: (A Operação Lava Jato) é uma coisa bacana do Brasil”.

Mas essas não foram as frases mais chocantes de Levy. Para o dia seguinte ao do programa da Globo, ele guardou a iguaria mais fina:

“Os brasileiros devem encarar o aumento de impostos como um investimento”.

Essa frase foi demasiada até para um extraterrestre como Joaquim Levy, tanto que ele nem tentou dar-lhe um sentido. Limitou-se a dizer que “o país agora precisa trocar a fiação" e que o governo vai tomar algumas medidas até o fim do mês. Quais medidas? Um mistério.

O governo está estudando aumentos de impostos que não tenham que passar pelo Congresso, simplesmente porque pelo Congresso não passariam. Nem Renan Calheiros nem Eduardo Cunha, presidentes das duas casas do Legislativo, querem ter algo a ver com as desgraças econômicas do País, embora parte da responsabilidade pela aprovação de projetos arrasa-quarteirão dos cofres públicos tenha que ser dividida com eles.

Também do Congresso, que ultimamente tem produzido mais escuridão do que luz, veio o protesto do deputado petista José Guimarães, líder do governo na Câmara, que não levou a sério o rebaixamento da nota do Brasil “por aquela agenciazinha lá do fim do mundo”. (Nota: Jose Guimarães nasceu em Quixeramobim).

Mas do meio da tremenda algaravia produzida pela nota da Standard & Poors (que no dia seguinte, por sinal, rebaixou também a classificação da Petrobras), o silêncio que se tornou mais eloquente foi o da presidente Dilma. Um silêncio ensurdecedor.

No, we can’t!

Alexandre Schwartsman 
Folha de S. Paulo

Agora, com inflação na casa de 9,5% não há espaço para reduzir a taxa de juros sem criar um problema mais sério à frente

Na semana passada, procurei mostrar que a recessão iniciada em meados do ano passado resulta da política econômica que vigorou com maior intensidade de 2011 a 2014.

As consequências de expansão desmesurada do gasto, descaso com a inflação, controles de preços e intervenções no domínio econômico foram aceleração inflacionária, deficit externos crescentes, desarranjo de setores importantes e aumento considerável da dívida pública, sem, é bom deixar claro, conseguir acelerar o crescimento. Além disso, há razões para crer que, entre as heranças da experiência desastrada do período, se encontra também a impossibilidade de políticas anticíclicas.

O nome, algo pomposo, representa medidas que poderiam atenuar, ou abreviar, a recessão. Em particular, uma queda de atividade, como a observada neste ano, poderia ser combatida com aumento do gasto e redução da taxa de juros, conforme defendido por alguns.

Não se trata de nada incomum. Outros países o fizeram, por exemplo, em resposta à crise de 2008, e mesmo o Brasil optou por esse caminho naquele momento.

Resta, porém, saber por que foi possível fazê-lo à época, mas não agora.

A resposta é óbvia, mas, como parece haver quem ainda não tenha entendido a natureza do problema, o melhor é explicitá-la.

Tome-se o caso do Brasil em 2008-2009. O país vinha de alguns anos de superávit primários superiores a 3% do PIB, que trouxeram a dívida pública de patamares próximos a 70% do PIB entre 2003-2005 para 55% do PIB às vésperas da crise.

A inflação, que havia superado em média por 1,4 ponto percentual a meta no período 2003-2005, ficou ao redor daquela entre 2006 e 2008. Em resposta a esse desempenho, as expectativas de inflação quando o BC começou o processo de redução de juros em 2009 estavam apenas levemente acima de 4,5%, revelando uma credibilidade até então inédita quanto ao compromisso da instituição com o regime.

Por fim, o balanço de pagamentos registrara superávit de US$ 45 bilhões entre 2003 e 2007 (média equivalente a 1,1% do PIB por ano), enquanto o BC acumulara perto de US$ 190 bilhões em reservas adicionais.

Posto de outra forma, a sabedoria não foi reagir à recessão com o afrouxamento das políticas fiscal e monetária (assim como o uso de parte das reservas), mas sim ter preparado o terreno para isso, reduzindo a dívida, controlando a inflação, acumulando superávit externos e reservas.

Agora, com inflação na casa de 9,5% (7,7% caso desconsideremos as tarifas públicas), não há espaço para reduzir a taxa de juros sem criar um problema mais sério à frente.

Já o crescimento da dívida pública atingiu mais de 9% do PIB nos últimos 12 meses, sugerindo que sua dinâmica consegue ser pior do que a observada mesmo em economias com dívidas maiores.

Isso fica transparente na evolução do prêmio de risco associado ao Brasil, que foi a 3,7% ao ano, contribuindo para aprofundar a recessão.

Nesse contexto, só alguém sem a menor noção de funcionamento da economia e da história recente do país poderia sugerir aumento do endividamento como a solução para nossos males. Se isso bastasse, não estaríamos na situação complicada em que nos encontramos. Há risco que até o governo tenha sentido o tamanho da encrenca, mas certamente não os keynesianos de quermesse.

Fala sério, eles não são engraçados?

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa 
Blog do Noblat

“O que dá pra rir, dá pra chorar, questão só de peso e medida, problema de hora e lugar, mas tudo são coisas da vida... O que dá pra rir, dá pra chorar...”

O presidente do Senado Federal foi enfático em sua declaração contra aumento de impostos. Seu tom era o mesmo que nós, simples mortais, usamos ao reclamar do governo: “onde já se viu aumentar impostos? De modo algum, o governo que não venha com mais essa barbaridade para cima de nós!”.

Renan saía de um jantar com governadores e outras doutas figuras de seu partido quando afirmou que para o PMDB, em primeiro lugar, vem o "dever de casa que é cortar despesas e dar eficiência ao gasto público".

Meninos, fiquei boquiaberta! Mas, como boa brasileira, aceitei o milagre e vibrei com a entrada do bom senso na cabeça do senador. Confesso que ainda pensei: “mais uma que devemos ao extraordinário médico do Recife que fez nascer cabelos na careca do senador. Vai ver aproveitou e deu uma sacudidela nos neurônios do alagoano que, livres da poeira de anos, passaram a pensar melhor”.

Passou rápido minha fé no tratamento pois logo em seguida li duas coisas estarrecedoras: a troca da frota de veículos usados pelos senadores, assim como a colocação de um novo carpete azul pavão no Plenário e no Salão Azul onde os membros do Senado Federal nos favorecem com seus discursos inflamados e... inflamados.

Não é pouca coisa a troca dos carpetes. São quase quatro mil metros quadrados de tapetes, com muita mão de obra. A um precinho simpático: R$550 mil. Mas era imprescindível pois – copio do portal do Senado – havia “necessidade de uma apresentação compatível com a importância da Instituição Senado Federal”.

Já os carros oficiais serão trocados porque os atuais Renault Fluence têm dois anos de uso!   Sou péssima em contas portanto peço a um leitor de alma generosa que faça as contas para mim: quantos dias por ano um senador usa seu carro oficial em Brasília (não se esqueça, leitor amigo, das férias)?

Quantos carros são ao todo? Sei que temos 81 senadores, mas Renan tem direito a dois carros por motivos “nunca dantes navegados”, como diria Camões. Fora os carros da segurança dos senhores senadores, sempre tão ameaçados.

Será que os carros novos, Nissan Sentra, durarão mais do que os Renault Fluence? Eu ia dizer os velhos Renault, mas o grilo falante que habita minha cabeça me impediu de chamar de velhos um carro com dois anos de uso.

Mas não é só o Legislativo que é engraçado. No Executivo temos Joaquim Levy, que chegou ao governo Dilma precedido por um mantra ecoado de Norte a Sul, “Agora Vai!”. Só que não deu uma dentro. E nunca foi tão curioso como nos últimos dias em Paris.

É verdade que Paris mexe com nossa cabeça. Uma caminhada ao longo do Sena é um perigo! Um sorvete no Bertillon pode mudar nosso destino. Isso é sabido. Mas a ponto do ministro da Fazenda deste Brasil tão estropiado dizer, diante da nota vermelha do S&P, que seu ministério não falhou: “A gente tem dado diagnóstico transparente, verdadeiro e agora as pessoas têm de tomar a sua responsabilidade. O governo deve cortar mais do que já cortou, mas (a população) tem de ter a disposição de fazer um sacrifício maior para todo mundo poder voltar a ver a economia crescendo”, isso foi um pouco demais.

Lá ele declarou que nós pagamos menos IR que muitos países e que isso não pode continuar. Onde já se viu uma coisa dessas? A sociedade brasileira quer continuar com essa vida farta: boas estradas, boas escolas, serviços de saúde de primeiríssimo mundo, moradias populares e esgoto sanitário em todos os municípios, transportes que cruzam o país?  Que façam um sacrifício, ora vejam!

Quando dona Dilma o nomeou ministro, achei que não ia dar certo: eram de mundos opostos. Que nada! Foram feitos um para o outro!

Só mesmo cantando com Billy Blanco: 


Dilma e o lobo: como a desconfiança envenena os negócios e destrói riqueza

Daniel Jelin
Veja online

Por fazer sistematicamente o contrário do que diz, Dilma Rousseff minou um ingrediente delicado, mas central para a prosperidade: confiança. Retomá-la é fundamental para recolocar o país na trilha do crescimento econômico duradouro. Nunca é fácil, como o pastor desacreditado da fábula de Esopo poderia atestar à petista. E é ainda mais desafiador para um país de baixo 'capital social', marcado por alta desconfiança e frágeis laços de cooperação

(Ueslei Marcelino/Reuters) 
A presidente Dilma Rousseff, no Palácio do Planalto: o fim da confiança

A presidente Dilma Rousseff pode cortar dez, vinte ministérios. Pode reconhecer a gravidade da crise, ajoelhar no altar da responsabilidade fiscal e jurar compromisso com a meta de inflação. Pode e deve desarmar as bobajadas 'desenvolvimentistas' de seu primeiro mandato, e é bem possível que os indicadores de saúde financeira reajam à sensatez. É incerto, contudo, que consiga dissipar a espessa névoa de desconfiança que cobriu o ambiente econômico e político. Em primeiro lugar: por fazer sistematicamente o que contrário do que diz, a petista tornou-se ela própria uma fonte irradiadora de descrédito - até quando ensaia um mea-culpa, a presidente consegue soar oportunista e dissimulada, como ao dizer que errou por demorar a perceber a gravidade da crise. Em segundo lugar, quebras de confiança deixam marcas profundas e duradouras. 'Leva-se vinte anos para construir uma reputação e cinco minutos para arruiná-la', já disse o investidor Warren Buffett. Por mais doloroso que pareça, há boas razões para isso.

Confiança é um ingrediente delicado, mas decisivo e incontornável da prosperidade econômica. A literatura reconhece sua importância há séculos - nos escritos de Adam Smith e Alexis de Tocqueville, por exemplo -, mas foi só no final do século XX que a variável entrou de vez na equação do progresso, com a popularização do que se convencionou chamar de capital social. Para além da acumulação de bens (capital financeiro) e da formação profissional (capital humano), o capital social expressa a 'riqueza' das relações interpessoais de uma dada sociedade. Simplificadamente, onde há boa fé, onde é forte o sentimento de reciprocidade, onde as relações de confiança vão além do parentesco, tanto maior será o incentivo para as transações comerciais e a troca de conhecimento. Inversamente, o descrédito complica, encarece e acaba inibindo as negociações, exigindo das partes todo tipo de precaução.

Embora não tenha sido o primeiro a defini-lo, atribui-se ao americano Robert Putnam a difusão do conceito de capital social. Em estudo seminal de 1993, ele relacionou as diferenças entre as regiões mais e menos desenvolvidas da Itália - o Norte e o Sul, respectivamente - à variação da confiança, cooperação e sociabilidade espontânea. Dois anos depois, Francis Fukuyama buscou nestas 'virtudes sociais' a explicação para a pujança econômica de alguns países, em particular Estados Unidos, Alemanha e Japão. 'Uma das lições mais importantes que se aprende com um exame da vida econômica é que o bem-estar de uma nação, bem como sua capacidade de competir, é condicionado a uma única e abrangente característica cultural: o nível de confiança inerente', ensina Fukuyama, em Confiança(Rocco, 455 páginas), seu primeiro livro depois de O Fim da História e o Último Homem, que lhe granjeou fama mundial - e o ódio dedicado da esquerda.

Fukuyama defende que fortes laços de cooperação explicam a proliferação de entidades e associações eficientes, desde clubes esportivos e grêmios literários até as maiores corporações do mundo. Não é coincidência, diz, que as maiores marcas do mundo sejam predominantemente alemãs, americanas e japonesas, em proporção muito maior à de seu PIB. Já nos países em que as relações de confiança são limitadas aos laços de sangue, as empresas tendem a ser menores e familiares, e só a intervenção direta do estado pode forjar negócios de grande escala. É o caso marcante dos países latino-americanos, moldados por um Estado centralizador e autoritário que, na tentativa de mediar a associação entre seus cidadãos, acaba por esterilizá-la - basta ver como sindicatos, empresas, ONGs, agremiações estudantis, entidades religiosas, partidos e até ligas de futebol e escolas de samba são facilmente cooptados pela administração pública.

Seguindo a trilha aberta pelas ciências sociais, coube aos economistas Stephen Knack e Philip Keefer demonstrar empiricamente, para dezenas de países, a correlação entre níveis de confiança, produtividade e performance econômica. Christian Bjørnskov, também economista, testou então diversas hipóteses para tentar explicar como exatamente a confiança transmite incentivos econômicos e encontraram relações de causalidade entre boa fé, educação e governança. Bjørnskov, da Universidade de Aarhus, Dinamarca, exemplifica em entrevista ao site de VEJA: "Se os professores não são contratados e promovidos com base em seus méritos, mas em função de conexões pessoais e alinhamento política, cria-se um sistema de ensino de baixa qualidade, mesmo que se invista bastante dinheiro."

O brasileiro cismado – 
Ainda não há consenso sobre a melhor maneira de medir 'capital social', mas é comum que se quantifique o nível da 'confiança social' de uma determinada população a partir de uma simples pergunta: você confia nas outras pessoas? Esse critério põe o brasileiro entre os povos mais cismados em todo mundo. Só 7,1% da população acha que dá para confiar na maioria das pessoas, segundo a última rodada da World Values Survey, atualizada em abril deste ano. De um universo de 60 países, da África subsaariana à Escandinávia, só quatro nações têm uma população tão cabreira: Gana, Colômbia, Filipinas e Trinidad e Tobago. Quase um em cada quatro brasileiros acredita que as outras pessoas querem tirar vantagem dele. Um em cada cinco brasileiros não tem a menor confiança no vizinho. "O Brasil é um triste exemplo do que pode dar errado com uma sociedade de baixa confiança. Elas são tipicamente caracterizadas por corrupção generalizada, em que o suborno se torna uma maneira de fazer negócios, um dado da vida política, algo que pode ser extremamente difícil de combater", diz Bjørnskov. "E como as pessoas sabem disso, acabam 'confiando' que outras também vão recorrer ao suborno e ameaças para abrir caminho no serviço público."

Os países não estão condenados a ter o mesmo nível de confiança para sempre. "É tentador supor que, como conforme a renda cresça e a democracia finque raízes, aumente a confiança", diz Knack, do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento Econômico do Banco Mundial, em entrevista ao site de VEJA. Segundo ele, Índia, China e Indonésia estão fazendo algum progresso em convencer os cidadãos de que estão combatendo seriamente a corrupção e elevando a transparência. Mas ainda é cedo para dizer que tenham logrado elevar seu capital social. Há outros fatores na equação. "Desigualdade e violência minam a confiança, e baixa confiança, por sua vez, pode dificultar a implantação de políticas e instituições para reduzir a desigualdade e combater a violência", exemplifica. "Temos que admitir: Sabemos mais sobre como destruir a confiança do que como construí-la", diz Bjørnskov. "A reunificação da Alemanha já tem 25 anos, e a diferença entre os níveis de confiança na parte oriental e ocidental persiste (a confiança da antiga República Democrática Alemã, comunista, é menor). Da mesma forma, pode-se observar como grupos da sociedade americana reproduzem os níveis de confiança da terra natal de seus ancestrais, sejam descendentes de escandinavos em Minnesota e Dakota, sejam descendentes de italianos - em particular do Sul da Itália."

Dá para acreditar? – 
As razões para a reserva que os brasileiros nutrem uns pelos outros são difíceis de sondar, mas pode-se afirmar com certa segurança que ela reflete a baixa credibilidade dos marcos e instituições que deveriam garantir a boa fé: governo, Justiça, polícia, Fisco, moeda, sistema financeiro, direito de propriedade etc. Seja como for, é um obstáculo adicional à retomada da confiança no ambiente de negócios, que voltou a bater recordes negativos. Em seu dirigismo teimoso, Dilma parece acreditar que, tal qual a taxa Selic, seja possível encomendar ao empresariado uma onda de otimismo e decretar uma injeção de boa vontade. Na semana passada, em jantar no Palácio da Alvorada, ela recebeu sete pesos-pesados do PIB nacional. Colheu as queixas do setor privado, admitiu 'dificuldades reais' e disse que todos têm de ajudar o país a superar a crise. Da parte dos principais executivos do Bradesco, CSN, Fiat, JBS, Dasa, Coteminas e Cosan, 'ninguém manifestou falta de confiança', segundo a hesitante dupla negação do ministro Armando Monteiro (Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior). Na manhã seguinte, pesquisa da FGV - não com 7 , mas com 1.132 empresas - mostrou o verdadeiro humor da indústria: a confiança do setor voltou a cair e atingiu o nível mais baixo em 20 anos de série histórica.

O indicador da confiança da indústria (ICI) apurado pela FGV, o primeiro do gênero na América Latina, tem contornos muito mais tangíveis que 'confiança social' - embora este dê fundamentos e limites àquele. É um dos melhores termômetros da atividade industrial. Ao contrário do PIB e outros indicadores de divulgação defasada, a confiança da indústria permite vislumbrar tendências futuras, em particular as inflexões da atividade econômica: de uma fase de aceleração à desaceleração e vice-versa, explica o economista Aloisio Campelo Jr., da FGV. O indicador capta dados objetivos da situação presente da empresa - o nível dos estoques e demanda, por exemplo - e sonda a disposição do empresariado para empregar e produzir nos meses seguintes. Que o ICI continue caindo - embora mais suavemente que no início do ano - é especialmente desalentador, porque corrobora previsões sombrias: a crise ainda está longe de passar.

Campelo explica que a curva da confiança empresarial inverteu-se em 2012, na ressaca do boom dos bens duráveis, e sua queda resistiu às chamadas medidas contracíclicas do primeiro mandato de Dilma, como as rodadas de redução do IPI e os cortes da taxa básica de juros. A confiança do consumidor, outro indicador medido pela FGV que também atingiu recorde negativo, resistiu um pouco mais, amparada na boa fase do mercado de trabalho, mas também virou e passou a cair. Na segunda metade do governo Dilma, o cenário de desaceleração econômica já estava traçado para além de qualquer dúvida razoável. No segundo trimestre de 2014, bem antes das eleições, o país entrou definitivamente em recessão, segundo os critérios do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos, da FGV.

Embora a desconfiança seja recorde, este não é o primeiro tombo dos indicadores empresariais na história recente do país. Em 2008, a confiança também foi ao chão, na esteira da crise financeira mundial e consequente aperto no crédito. 'Mas o Brasil vinha de uma fase boa, com inflação e contas públicas sob controle', diz Campelo. 'O governo lançou medidas de estímulo e houve um aspecto psicológico, bem transmitido à população, de que o país estava se saindo melhor do que outros países, o que era fato.' O cenário de 2015 é mais sombrio, e por isso a recuperação será mais lenta. No campo econômico, Campelo destaca os impactos negativos do tarifaço na energia, o choque da inflação, a alta dos juros, a restrição de crédito e o nível elevado dos estoques. Agravado pela turbulência política, o clima de incerteza não permite que as empresas tracem cenários confiáveis para investir e contratar. 'A insatisfação é muito grande com o momento atual, e as empresas não veem perspectivas lá na frente', resume Campelo.

Confiança e credulidade – 
A desconfiança é um estado de forte tendência inercial: tudo o mais constante, resistirá notavelmente à passagem do tempo. Como aprendeu o pastor mentiroso de Esopo, os aldeões não acreditarão tão cedo que, agora sim, 'É o lobo!'. Dilma, que pareceu encenar uma versão às avessas da fábula - os aldeões é que alertam o pastor, que primeiro se recusa a enxergar o predador e depois atribui o sumiço das ovelhas a tucanos, chineses etc. -, terá que romper com a inércia de seus discursos fora de lugar. Os petistas se irritaram quando Fernando Henrique Cardoso sugeriu à presidente que tivesse a 'grandeza' de renunciar e talvez não tenham dado suficiente atenção à recomendação alternativa contida no final da declaração: 'ou a voz franca de que errou'. A franqueza é de fato o fio com que se remenda a confiança perdida. Examinando os casos de grandes empresas atingidas por crises de confiança, como Toyoya, Mattel, Siemens e BBC, Graham Dietz e Nicole Gillespie propuseram uma estratégia em quatro fases para reparar os estragos: 1) resposta rápida, com reconhecimento público do incidente e de sua investigação; 2) diagnóstico acurado e transparente do caso; 3) reparações, pedidos de desculpas e implementação de reformas para sanar as falhas; 4) contínuo monitoramento dos desdobramentos do caso.

Para além de seus efeitos dramáticos, crises de confiança são também uma oportunidade para buscar 'aplicações' mais sólidas para o capital social. Nesse sentido, a desconfiança não é - apenas - a negação de confiança, mas também uma afirmação: o resgate de um 'investimento' mal feito. É necessário que seja assim, ou confiança acabará se confundindo com credulidade. Em O Gene Egoísta, célebre livro do biólogo Richard Dawkins, há uma passagem ilustrativa sobre a seleção de traços comportamentais que a tese da programação egoísta, a princípio, não parece capaz de explicar, como os laços de reciprocidade e altruísmo. É o caso de um bando de pássaros infestados por piolhos. A ave não consegue remover o parasita da própria cabeça com seu bico, mas pode fazê-lo em favor de outro membro do grupo. Melhor então que todos se ajudem, certo? Bom, um espertinho pode valer-se da boa vontade do bando e negar-se a retribuir o favor - e estaria levando vantagem sobre os demais pássaros. Ponto para o gene espertinho?

Na simulação feita por Dawkins, o bando de aves é formado por dois tipos de indivíduos: 'tolos', sempre dispostos a coçar a cabeça dos outros, e 'trapaceiros', que nunca o fazem. Numa situação assim, por menor que seja o prejuízo causado pelos piolhos, os 'tolos' tendem a ser subjugados: gastam tempo e energia para ajudar o resto do bando, mas têm as mesmas chances que os 'trapaceiros' de se livrar da praga. Em algumas gerações, os 'tolos' terão sucumbidos, e o bando de trapaceiros, infestado de piolhos, não se sairá muito melhor. Dawkins então simula a sorte de uma população formada não apenas por 'tolos' e 'trapaceiros', mas também por 'rancorosos' - indivíduos que lembram se já foram trapaceados e, neste caso, se negam a prestar novos favores ao espertinho. Para um bando com muitos 'trapaceiros', o pássaro 'rancoroso' não terá muito mais sucesso que o 'tolo', pois será enganado muitas vezes até que conheça todos os trapaceiros. Mas se houver uma proporção minimamente significativa de rancorosos, são os trapaceiros que passarão dificuldade: aqui e ali, ainda obterão os favores de algum tolo, mas sua desvantagem será cada vez maior. Em algumas gerações, o bando se verá praticamente livre dos genes trapaceiros.

O valor da integridade – 
Uma sociedade que sabe punir a trapaça pode conviver bem com algumas aparentes 'tolices'. Na Alemanha, para espanto dos turistas, são os próprios passageiros que cuidam de pagar corretamente pela passagem de ônibus e metrô. Sem catraca, nem cobrador, nada mais simples do que burlar o sistema - cunhou-se até uma expressão para isso, 'schwarzfahren'. A única coisa que impede o sistema de sucumbir à proliferação de trapaceiros é - além da decência - o risco de multa em caso de fiscalização, que recentemente subiu de 40 euros para 60 euros (221 reais) e pode dobrar em caso de reincidência. Na vizinha Dinamarca, pequenos agricultores deixam frutas e verduras à venda em barraquinhas à beira de estrada, chamadas 'vejboder', sem qualquer supervisão: o cliente escolhe o produto, leva o quer, calcula o preço da compra e se precisar ainda retira o troco do caixa.

'A maioria das pessoas acredita que cultivar a integridade é algo como comer verdura, ou seja, algo que você deve fazer, gostando ou não', diz ao site de VEJA a colunista de economia Anna Bernasek, autora de A Integridade na Economia. 'Mas, na verdade, integridade é uma oportunidade, não uma obrigação. Por meio dela, você constrói confiança e, assim, gera riqueza. E o interessante é que se trata de um recurso compartilhado. Todo sistema lucra quando se investe em confiança. Pode ser tentador tirar vantagem dos outros, mas esta não é uma estratégia de longo prazo e, no fim, destrói riqueza.' Bernasek observa que escândalos em série noticiados na imprensa podem transmitir, particularmente em países de baixa confiança, a percepção equivocada de que as pessoas são todas desonestas. 'Mas, para cada escândalo, existem literalmente milhões de transações - compras, vendas, empréstimos - em que as pessoas envolvidas seguem altos padrões de integridade e confiança mútua', diz. 'A economia global depende disso. Então, se você acha que deve trapacear para chegar à frente, você está perdendo de vista o quadro maior. A verdadeira riqueza, a riqueza duradoura, é construído por aumentos constantes na confiança e integridade.'