domingo, outubro 11, 2015

A danação de Dilma e uma cadeira vazia!

Adelson Elias Vasconcellos



Confesso que até agora procurei ter o máximo de paciência com as ações da senhora Rousseff. Não poderia olhar para o seu presente sem deixar de buscar em seu passado algumas razões para ao menos tentar justificá-lo. Um exemplo claro: Dilma foi ferrenha terrorista nos tempos da ditadura militar. Sua utopia era substituir aquele regime de exceção, por outro regime de ... de exceção. A senhora Dilma jamais pertenceu a qualquer movimento que clamasse pela redemocratização do país. Assim, muito embora hoje ela bata no peito para se declarar democrata desde criancinha, isto é apenas uma grossa mentira que ela própria – e os esquerdistas em geral – tentam colar em sua biografia.  As novas gerações que não viveram aqueles anos de chumbo, talvez até acreditem na lorota, mas para os que tem a memória histórica vivida e revirada, não engolem a patuscada.

Porém, já começa a cansar, e até a preocupar, o programa de governo deste segundo mandato da senhora Rousseff. Trata-se de um programa de uma única via, com só uma direção e um único objetivo a ser alcançado. Dentre milhares de assessores de zorra nenhuma, inúteis, totalmente dispensáveis sem nenhum prejuízo para o país, ela bem que poderia contratar um  analista, um psicólogo, um conselheiro  mental, ou qualquer especialista do gênero. Se for governar o país com o estado mental de que se achava tomada,  o Brasil viverá dias ainda piores do que os que têm sido neste ano. 

Publicamos há questão de uns dois meses, uma reportagem em que se denunciava que, por ocasião do impedimento do ex-presidente paraguaio Fernando Lugo, amiguinho muito chegado dos petistas, Dilma Rousseff se valeu de espiões cubanos para ela própria dar um golpe contra aquele país e abrir caminho para a entrada da Venezuela no Mercosul. Hoje, esquecendo toda a pantomima que aprontou, e até de certa forma agredindo a democracia do país vizinho, Dilma obcecada pela ideia de “impeachment”, soltou uma daquelas pérolas próprias de quem jamais  soube  o que significa um regime democrático. Nem Dilma nem o PT jamais conseguiram entender o que vem a ser respeito aos valores e princípios de uma democracia, razão porque o Brasil vive esta confusão política sem definir que caminho seguir. 

Nos regimes democráticos bastante amadurecidos, criou-se no regime de leis, um dispositivo para proteger a sociedade de maus governantes. O impedimento de um presidente, apesar dos efeitos colaterais que pode provocar – que serão sempre temporários -, estão regulados e disciplinados em regras bem específicas que orientam as razões e o caminho a ser seguido. Na história recente do Brasil, Fernando Collor foi “impinchado” segundo   critérios plenamente legais. Não se ouviu – como de resto não se ouve – ninguém de dedo em riste acusando que aquela ação foi um “golpe contra a democracia”. Tanto não é que ela seguiu os ritos previstos na Constituição  brasileira. 

O mesmo se deu no Paraguai em relação a Fernando Lugo. Sua deposição seguiu os ritos legais, previstos na Constituição daquele país. Aliás, a intervenção brasileira atentou até contra a própria constituição brasileira que veda a intromissão em assuntos internos de outras nações. Numa canetada totalitária, o Paraguai foi suspenso do Mercosul, e para dentro do bloco foi empurrada a Venezuela que, naquela época, democracia já não era, ferindo assim o próprio regimento do bloco. 

Agora, Dilma tenta traçar um paralelo com aquele fato à sua própria situação. Seja pela deterioração fiscal absurda que seu primeiro mandato jogou o país, seja pelo estelionato eleitoral que praticou, seja pelo uso de dinheiro produto da corrupção na Petrobrás em sua campanha,  seja pelo descumprimento de normas previstas na Constituição, na Lei de Responsabilidade Fiscal e na Lei Orçamentária, hoje já se tem ampla base legal que justifica a abertura de um processo de impedimento da senhora Rousseff.    Nem se venha alegar que o parecer do TCU, sobre a rejeição das contas de 2014, precisa ser aprovado pelo Congresso. O relatório é técnico,  mas sua aprovação ou desaprovação pelo Congresso é apenas político. O parecer do TCU elenca, ao menos, 13 infrações legais graves cometidas pela senhora presidente. E, para quem jurou cumprir e fazer cumprir a constituição ao ser empossada, o descumprimento em série de dispositivos constitucionais, feitos de modo premeditado e reincidente,  são motivos mais do que suficientes para se promover um impedimento presidencial. E nada há neste ato de golpe ou atentado à democracia. Até pelo contrário: trata-se da defesa dos mesmos princípios e valores descritos em nossa constituição. No caso específico da senhora Rousseff, golpista é ela ao atentar contra a lei e avocar para si um direito que não tem, que é o de não responder pelas infrações para manter-se impune. 

Desde 2013, o blog vem editando matérias dando conta da deterioração de todos os indicadores econômico do Brasil. Chegou-se a dado momento em que apenas o índice de emprego-desemprego restava ao governo para ser comemorado. E assim mesmo, ressalvado o fato de que, nas estatísticas do IBGE, tínhamos apenas cerca de 25 milhões de empregados e desempregados, para uma população economicamente ativa superior a 100 milhões. E hoje, até a estatística do emprego/desemprego foi para o espaço. Só em 2015, são quase 1 milhão de desempregados a mais.

A crise econômica brasileira é gravíssima. Dilma fechará 2015 colecionando mais um recorde histórico negativo. Fecharemos 2015 com dois anos seguidos de queda do PIB, fato que não acontecia desde 1930!!!! E olha que neste longo período tivemos muito presidente ruim, duas ditaduras – uma civil, Getúlio Vargas e uma militar, com cinco generais-presidentes -   mas o país soube sobreviver e superar-se. 

Dada as dificuldades que atravessamos, era para a senhora Rousseff simplesmente ignorar as movimentações de impeachment que sempre cercaram todos os presidentes pós 1985, e tratar de dar rumo ao país, buscar remover os entraves do crescimento, procurar caminhos para devolver o indispensável equilíbrio fiscal – sem o que não sairemos do lugar, correndo o risco até de retrocessos -,  cortar as muitas gorduras que provocam gastos desnecessários, combater com mão de ferro todos os atalhos – e são muitos – que impedem  que o Estado dê melhor eficiência ao gasto público, recuperar a qualidade perdida no tempo dos serviços básicos e até modernizando-os e ampliando-os, desobstruir os caminhos do ambiente de negócios do Brasil que é reconhecidamente ruim, enfim, o que não falta é campo de atuação para que a presidente possa justificar o próprio mandato. 

E o que vemos? Infelizmente, o país assiste atônito uma presidente andando em círculos, cuidando unicamente de proteger seu mandato, abrindo luta selvagem contra críticos, contra oposições, tentando cooptar políticos de todas as cores, atacando instituições, mas com um único propósito: não ser retirada do trono.

Ora, durante os anos de governo de Fernando Henrique, muitos foram os pedidos de abertura de impeachment encaminhados pelo próprio PT. E o que se viu? Ao invés do ex-presidente adotar a tática do cachorro, de correr atrás do rabo, conscientizou-se de que havia um país com graves problemas para ser governado, e viu neste caminho a única forma de calar seus críticos e não dar motivos legais para ser deposto. Ou não foi o mesmo que aconteceu com Lula?

O fato das oposições, sejam elas quais forem, criticarem os governos de ocasião, ou até armarem estratégias para atrapalharem os planos destes mesmos governos, nada mais é do que a própria obrigação de existirem. Aliás, oposição só existe nas democracias e,  neste sentido, não se pode entender ou pretender uma “oposição a favor”. 

Portanto, o que se espera da senhora Rousseff é que ela justifique o próprio mandato, governando o país, adotando medidas para resolução dos problemas presentes, e abrindo caminhos para a construção de um futuro melhor.  Enquanto for tomada por este estado obsessivo, de ver golpes em todos os cantos do seu gabinete,  distribuindo cartilhas para seus ministros  justificarem seus crimes fiscais e de responsabilidade, só dará motivos para que mais ações de impeachment sejam criados. E, se a voz do povo é a voz de Deus e a soberana vontade de um povo é o que conta, creio que o próprio povo brasileiro tem dado mostras em relação à senhora Rousseff de que a rejeita como presidente. Está na hora, mais do que na hora, da presidente tornar-se, de fato, presidente e começar a governar o país. 

Assim,  melhor que a presidente mude sua atitude mental, trace um projeto de país e dê a ele consequência. Porque se continuar governando unicamente seu próprio interesse,  não pode contrariar-se se o povo brasileiro desejar  alguém em seu lugar, dedicado a governar  os interesses do  Brasil. Neste caso, melhor seria  renunciar o cargo e ir cuidar de si em outro lugar que não o gabinete presidencial, porque até aqui a cadeira está vazia. Terá Dilma tamanha grandeza d’alma? 

Lula e a Odebrecht
Reportagem da Revista Época, reproduzida nesta edição, relata a movimentação do ex-presidente Lula em favor da Odebrecht, na tentativa de melar a operação Lava Jato. Mas não pensem que esta movimentação se dá por pura amizade. Lula está é tentando salvar o próprio pescoço. Ele sabe bem o que andou aprontando nos anos passados, ações que, tornadas públicas, não apenas comprometem  o sonho obsessivo de voltar à presidência depois de Dilma, como podem custar-lhe alguns anos fazendo companhia a José Dirceu e João Vaccari...   

Reeleger Dilma é que foi tiro no pé (ou burrice)

Adelson Elias Vasconcellos



Há no Estadão desta quinta feira que mais parece aqueles casos bizarros que circulam na internet de tão absurda e inacreditável. A manchete da matéria já resume tudo: Planalto admite tiro no pé ao enfrentar TCU.

Meu Deus, quem aconselha a senhora presidente sobre estratégias de governabilidade? Não é possível que alguém, em sã consciência e com juízo perfeito, tivesse imaginado ser possível atacar uma instituição do Estado, da forma como o governo fez, ao reunir para uma coletiva de imprensa três ministros e anunciar abertura de guerra ao TCU e, especificamente, a um de seus pares, e ainda apostar que o STF daria ganho de causa  à bizarrice presidencial! 

Não se leu em lugar algum, logo após o cometimento de tamanha insanidade,  alguma linha em apoio ao esquema de guerra planejado e executado de forma tão afoita! Foi quase uma unanimidade  a crítica sobre o estratagema. Mais patético ainda foi ouvir de viva voz, o ministro chefe da Advocacia Geral da União confundir os deveres de um membro do judiciário com os de um ministro do TCU. Em que página da constituição ele encontrou tal confusão?  

Era tão certa a derrota, tanto nas iniciativas junto ao TCU, pedindo o afastamento do relator, ministro Augusto Nardes, quanto ao pedido de suspensão da sessão feito ao STF.    

Aí, logo após a derrota previamente anunciada, vem o governo dar uma de bonzinho, reconhecer que a declaração de guerra se tratou de um tiro no pé!!! Ora, façam o favor...

O mesmo se pode dizer da tal reforminha administrativa. Praticamente, todas as lideranças do governo, logo após o anúncio das mudanças feitas pela senhora presidente,  apostavam na certeza de que agora a coisa vai... Foi sim, mas prô  brejo, junto com a vaca que está tossindo até agora... Até o outrora ex-operário, hoje fanfarrão milionário,  caixeiro viajante das elites, chegou a afirmar que, com a reforma, assegurava-se a governabilidade. As escolhas foram as piores possíveis, ou alguém imagina que o ministério da Ciência e Tecnologia, por exemplo, vai produzir alguma coisa de útil para o país sendo comandado por um dono de restaurante carioca!!!  Segundo o jornalista Carlos Chagas, Dilma já bateu todos os recordes: seu ministério já sofreu 157 mudanças em apenas 4 anos e 10 meses de governo. E, como se viu nesta semana, sua base de sustentação continua mais frágil ainda. Seu programa de ajuste fiscal padece na espera para ser aprovado, e ainda existem pautas-bomba que pode jogar a economia no abismo. 

Dilma vai colecionando, em todas as suas iniciativas, derrotas sobre derrotas. Claro que parte se deve ao gênio tempestuoso da presidente, a arrogância sem limites,  a teimosia destemperada. Mas muitas destas ações malsucedidas foram provocadas por escolher maus conselheiros que, invariavelmente, apostam no erro.

Assim, a derrota no TCU, tão visível desde o início em que se anunciou o tal esquema de guerra, é mais uma das dezenas de patetices conduzidas, arquitetadas e levadas a efeito por um governo que ainda não se convenceu que “diálogo”, não é apenas ouvir e esquecer, é também ouvir e refletir antes de agir. Significa também delegar, coisa que Dilma não consegue fazer. Ora, se ela não consegue confiar em seus auxiliares mais próximos, e mesmo assim  acaba agindo a moda diabo, como quer que o país consiga entendê-la e lhe dê crédito?

A conclusão é mais do que óbvia: Dilma se mostrou extremamente competente para criar as crises em que seu governo mergulhou, levando de roldão para um beco sem saída a economia do país.

Ou seja, Dilma soube destruir tudo que havia de virtuoso no Brasil antes dela. E tem demonstrado total inapetência para construir repor outras virtudes no lugar.

Verdadeiro tiro no pé mesmo quem deu foi eleitorado que se deixou seduzir pela publicidade enganosa e não se deu conta de que a realidade, já no tempo da campanha, era completamente diferente.  E para pior.  

Se não aparecer fato concreto que empurre Dilma para um processo de impeachment, ter de aturá-la pelos próximos três anos, não vai ser fácil. Porque razão tem Hélio Bicudo e Fernando Henrique quando afirmam que Dilma já não governa mais, está sendo governada. Por sinal, mal governada, muito mal governada e, com  isso, vai afundando o país cada vez mais.

Rumo ao século 19
Vária vezes afirmamos que, com o PT no governo, o Brasil caminharia de volta ao século 19. Listamos as ações que nos conduziria para tamanho atraso.

Na quarta feira, com o parecer do TCU reprovando as contas de Dilma relativas a 2014, já chegamos à década de 30 do século passado. Somente em 1937, com Getúlio Vargas, um presidente teve suas contas rejeitadas. 

Se 2015 fechar, como se prevê, com queda do PIB, seria o segundo ano consecutivo de crescimento  no vermelho. E isto só se repetiu uma vez na história: foi em 1930 com o crash da Bolsa de Nova York. Falta pouco, basta recuar mais um pouquinho, e Dilma tem competência suficiente para isto, regrediremos até lá. 

Sem dúvida,  a era petista será um marco histórico. Em matéria de retrocesso nada se compara!

TCU: seriedade deve ser regra
Parece que a rejeição das contas da senhora Dilma pelo TCU começa a produzir seus efeitos positivos. Governadores e prefeitos reuniram-se para discutir, entre outras questões, a decisão histórica. E,  ao invés de buscarem soluções para aprimorar  a gestão fiscal de prefeituras e governos estaduais, saíram em defesa de uma flexibilidade na Lei de Responsabilidade. Temem serem surpreendidos com a rejeição de suas contas e, por conseguinte, terem de responder por crime de responsabilidade, consequência natural da má gestão dos recursos públicos colocados à sua disposição.

Tal desejo de flexibilidade é uma aberração. Hoje o que a sociedade está exigindo de seus governantes e representantes políticos é justamente o contrário do que os prefeitos e governadores estão propondo, isto é, maior rigor e eficiência no gasto público, total transparência destes gastos no sentido de se evitar desvios, desperdício e corrupção.  Portanto, o momento é oportuno para que o país dê um passo à frente para, ao invés de reduzir ou flexibilizaar, aumentar ainda mais a fiscalização sobre o que prefeitos, governadores e presidente estão fazendo com o dinheiro que arrancam da sociedade. Chega de compadrio, má gestão, ineficiência, desperdício e distribuição de privilégios  para grupos escolhidos a dedo.

Assim, que a decisão do TCU ao recomendar a rejeição das contas presidenciais com o rigor que se verificou, se torne uma rotina em toda a administração pública. Dinheiro de impostos não pode ser tratado mais com tamanha irresponsabilidade e descompromisso para com o interesse maior da sociedade. 

Dilma e a economia fechada
Em visita  nesta semana à Colômbia, a senhora Rousseff fez uma afirmação que soaria como piada (de mau gosto), se não fosse trágica. Disse que “Economia brasileira ainda é muito fechada", em evento com empresários  quando defendeu a abertura do mercado interno,

Ora, ora, presidente... Quem foi o gênio que criou a tal política do “conteúdo nacional”, hein? Quem fechou o mercado interno para a modernização e avanço tecnológico? Experimente dizer tal coisa aqui dentro do país, e logo alguém vai lembrar-lhe suas escolhas. Como já passou a eleição, por favor, nos poupe de sua hipocrisia! .

No país dos coitadinhos, chegamos perto de 60 mil homicídios/ano.  
Reportagem do jornal O Globo, texto de Tiago Dantas, apesar de trazer uma informação impressionante, parece que não mereceu nem da imprensa nem do governo o merecido debate.  Não é possível sabermos que 58.559 pessoas foram assassinadas no Brasil em 2014, e todos achem esta estatística a coisa mais natural do mundo.  Infelizmente, não é. Ela ilustra a que ponto de degradação moral chegamos, fruto da omissão dos governantes e da classe política em relação ao retorno que o Estado não  dá à sociedade .

Somem todas as guerras em andamento pelo mundo, computem a quantidade de mortos e chegaremos à triste constatação de que no Brasil se mata mais, num ano, do que todas as guerras juntas. Isto é triste e vergonhoso e revela a falência do Estado.

Em consequência, é até compreensível que 50% da população digam que bandido bom é bandido morto. O Brasil precisa se convencer de uma coisa: viver em sociedade requer valores que, as políticas estúpidas implementadas pelo PT e defendidas pelas esquerdas repelem com veemência, mas que estão transformando o país uma praça de guerra, sem lei, sem ordem e onde a vida não vale nada. Tanto é assim que matar um papagaio tem punição maior do que o assassinato de um ser humano.  Ou nos convencemos que sem segurança, sem punição rigorosa para quem mata,  não sendo em legítima defesa, merece ser retirado do convívio social por décadas ou esta estatística vergonhosa tende piorar.

Perguntinha: qual é a política de segurança  do atual governo? Se vocês tiverem dificuldade para lembrar de alguma, não se estressem, porque não há nenhuma. Além disso, nosso judiciário precisa fazer cumprir a lei, e deixar de sentir pena de bandido. Quem sofre são os milhões de inocentes, vítimas da incompetência, do descaso e da desídia do Poder Público.  E graças a isso tudo, o Brasil está cada mais selvagem e bárbaro. 

Soberba, autoritarismo, incompetência

Editorial 
O Estado de São Paulo

Dilma Rousseff reclama e cobra dos novos ministros o apoio parlamentar que imaginou que estava comprando com a última “reforma” do Ministério, mas parece não se dar conta da armadilha em que se meteu no desespero para salvar seu mandato: o gigantesco aparelho estatal jamais será suficientemente grande para saciar o apetite dos políticos espertos que se sentem fortes para obter vantagens de um governo politicamente fraco. E a ironia dessa situação é que ela é produto exatamente da soberba e do autoritarismo com que o lulopetismo pretendeu eternizar-se no poder, estimulando o fisiologismo para obter uma base de apoio parlamentar ampla “como nunca antes na história deste país”. Funcionou enquanto Lula e o PT, num período de prosperidade, contaram com respaldo popular. Mas aí veio à luz, graças à incompetência de Dilma Rousseff, a insustentabilidade do modelo populista. E, hoje, o governo que prometia o paraíso está reduzido à humilhante condição de refém do que existe de pior na política brasileira.

Soberba e autoritarismo. Esse o binômio que caracterizou a ascensão e decretou a decadência do modelo lulopetista de governar. É curioso notar que, em suas origens, aquilo que se pode chamar de núcleo gerador do Partido dos Trabalhadores (PT) era um movimento sindical restrito à elite do operariado industrial, os empregados da emergente e próspera indústria automotiva, concentrada no ABC paulista. Luiz Inácio da Silva projetou-se no panorama político nacional porque seu carisma e sua capacidade de liderança tinham um foco muito bem definido: os interesses da categoria especial de trabalhadores que representava. Nessa época Lula não escondia que tinha ojeriza pela política.

O grande sucesso de sua liderança, porém, acabou atraindo a atenção de quem tentava resistir à ditadura, em especial a intelectualidade de esquerda e os movimentos sociais ligados à Igreja Católica. Daí ao surgimento, em 1980, do Partido dos Trabalhadores foi um passo. Entrava em cena, sob o comando de Lula, uma legenda partidária ungida com a missão heroica de ser contra “tudo isso que está aí”, o que incluía todos os políticos não petistas. Por mais de 20 anos Lula encarnou o papel do ferrabrás da política, sempre investindo contra tudo e contra todos. Afinal, ninguém era melhor do que ele, ninguém tinha a mesma legitimidade para representar os pobres e os oprimidos.

Mas como só representa quem se elege, logo ficou claro que, para chegar ao poder, era preciso fazer política, ou seja, fazer tudo aquilo que faziam os adversários, só que melhor. A famosa Carta aos Brasileiros produziu seus efeitos e o PT chegou ao poder. Para garantir o necessário apoio dos “pelo menos 300 picaretas” do Congresso, bastava fazê-los comer na mão dos novos donos do Palácio do Planalto. Afinal, quem é que, satisfeita a necessidade de um mínimo de “atenção” do governo, ousaria contrariar o grande líder popular ali instalado aparentemente para sempre? E foi assim, tratando os aliados como um mal necessário, olhando-os de cima para baixo, que a soberba petista passou a controlar o poder com mão de ferro.

Lula escolheu para suceder-lhe um poste. Só que Dilma Rousseff se viu não como uma marionete, mas como a nova mandachuva do sistema. Logo nos primeiros meses de mandato sofreu um embaraçoso revertério ao ter que recuar, por ordem do verdadeiro mandachuva, na “faxina” que tivera a ousadia de promover num Ministério composto por gente pouco séria. Mas não aprendeu nada com a experiência.

Ao ser reeleita, Dilma sentiu-se capaz de voo próprio. Livrou-se de todos os lulistas tipo Gilberto Carvalho e montou um governo para chamar de verdadeiramente seu. Achou que o título de “presidenta” lhe conferia poder suficiente para exercer autoridade e impor sua vontade. Conseguiu apenas mostrar sua incompetência e acabou entregando o governo em comodato a Lula e aos capas pretas do PMDB. Pior: não resolve a crise em que meteu o País nem dá lugar para quem de fato pode e tem competência para tirar a Nação do buraco.

Dilma faz de tudo para não largar o osso

J.R. Guzzo
 Revista EXAME 

Wilson Dias/ Agência Brasil 
Nulidade: a reforma que colocou Marcelo Castro 
no Ministério da Saúde vai resolver alguma dificuldade do país?

São Paulo — O grande problema da presidente Dilma Rousseff neste seu segundo mandato, para ficar numa explicação simples, é que a quantidade de problemas em circulação é tão extensa, variada e intratável que já não dá mais para dizer com segurança qual poderia ser o maior.

Economia em estado de liquidação? Contas a prestar na Justiça? Campanha eleitoral feita com dinheiro vindo diretamente do crime? Ameaça constante de impeachment? Recordes sucessivos e explícitos de inépcia em estágio terminal? Índices de popularidade abaixo dos 10%? Rixa permanente com os aliados no Congresso?

Hostilidade aberta em seu próprio partido? Ausência integral de ideias, propostas e noções básicas sobre o que fazer? Paralisia mental? Orçamento para 2016 com déficit de 30 bilhões de reais, ou números ainda desconhecidos? Declarações públicas com sintomas de demência? Incapacidade da presidente de entender o que está fazendo? Incapacidade em tudo?

A lista apresentada acima pode continuar até o fim deste artigo; já dá perfeitamente para ficar por aqui. Conclusão: o grande problema do segundo governo Dilma é que ele só tem problemas.

Por causa disso, não executa há nove meses a tarefa mais elementar de qualquer governo — não governa, pura e simplesmente. Sua única atividade real é fazer tudo o que surge no tumultuado circuito de neurônios da presidente e de seus conselheiros, dia após dia, para não cair. Fora isso não existe nada.

A “reforma ministerial” anunciada nestes últimos dias é a mais recente tentativa de não largar o osso; não tem o mais remoto propósito de resolver qualquer das dificuldades concretas, dolorosas e imediatas que o Brasil vive hoje, todas elas criadas diretamente pelo próprio governo Dilma — ao longo não apenas destes primeiros meses de 2015 mas desde que se instalou em Brasília, quase cinco anos atrás.

Não tem, portanto, a menor possibilidade de fazer com que a presidente da República comece a governar a República; seu grande problema (ou melhor, nosso grande problema) continua precisamente do mesmo tamanho. Só para entender logo: passa pela cabeça de alguém, por mais distraído que seja, que a troca do ministro da Saúde, por exemplo, tenha sido feita para resolver um único problema real da saúde brasileira?

Não passa. Saiu uma nulidade — tão nula, aliás, que uma de suas últimas declarações antes de ser posto na rua foi dizer que a situação da área comandada por ele estava a caminho do “colapso”. Em seu lugar entra outra nulidade, sem projeto, sem ideias, sem currículo, sem a mínima orientação quanto ao que tem de fazer como ministro.

O que pode sair de bom de uma coisa dessas? Exatamente o mesmo aconteceu com as outras trocas de cadeira: vai um para cá, outro para lá, e ninguém diz nem uma sílaba sequer sobre o que eles precisam fazer para melhorar a situação em seu ministério.

O único, exclusivo e neurótico interesse é saber se as mudanças vão acalmar o apetite do PMDB por empregos, verbas e oportunidades de negócio na máquina federal — e por quanto tempo. E o interesse público, que está na necessidade desesperada de melhorar algum aspecto, um apenas que seja, no desempenho do governo? Quem lembra isso é tido como um débil mental.

A presidente Dilma montou provavelmente o pior ministério que este país já viu ao começar seu segundo mandato; não é impossível que consiga piorar com as trocas que acaba de anunciar. Na verdade, Dilma vem nessa toada desde seu primeiro governo — por acaso alguém se lembra de ter havido nele alguma coisa que prestasse?

O que o Brasil vive na prática, hoje em dia, é o acumulado de 13 anos de governo do PT e do ex-presidente Lula, com a inevitável conta a pagar pela soma das escolhas erradas, do assalto sem limites ao Erário público e da obsessão em manter-se no poder para sempre que marcaram a gestão do país de 2003 para cá. Não há mudança de ministro, “engenharia política” ou acertos de bazar com o PMDB, ou quem quer que seja, capazes de resolver isso.

Essa conta é do PT –

Raul Velloso
O Estado de S. Paulo 

Não faz muito tempo, após o impeachment de Collor, o País vivia o day after em busca do que fazer com a hiperinflação que ainda campeava. Depois de várias tentativas fracassadas, as forças políticas batiam cabeça em busca de um novo arranjo de poder, sob o qual se alvejasse de verdade o problema da hiperinflação, trazendo novo alento à população.

Foi nesse contexto que a equipe econômica da época, temerosa de novo fracasso, teria cobrado do então ministro da Fazenda a definição de um programa fiscal de forte impacto, que faltara nas tentativas anteriores e que seria crucial para a sustentação de qualquer novo plano. Tendo saído há pouco tempo do governo, mas muito ligado ao dia a dia de Brasília, dediquei-me a imaginar qual deveria ser esse plano fiscal, nas difíceis condições daquele momento.

Formulei o diagnóstico básico do problema fiscal brasileiro que ainda hoje permanece válido. Só que, consciente das gigantescas dificuldades políticas da época, sugeri a criação de um mecanismo temporário que servisse de ponte para uma reforma fiscal definitiva, o Fundo Social de Emergência (FSE). Criado, como foi, por emenda constitucional, esse mecanismo simplesmente desamarrava, de qualquer "vinculação" específica, parcela de 20% de todas as receitas federais, permitindo o uso desses recursos para qualquer finalidade que se mostrasse imperiosa a cada momento, incluindo o pagamento de parte relevante do serviço da dívida, ou seja, o superávit primário. Dados a rigidez do gasto e o excesso de vinculações de receitas a várias finalidades, abria-se caminho para a reorientação do Orçamento na direção de um formato compatível com estabilidade econômica, enquanto se ganhava tempo para aprovar uma reforma ampla do gasto federal.

A discussão da longa história entre o sucesso inicial do Plano Real, viabilizado pelo FSE - cuja validade, a propósito, terá de ser prorrogada no fim deste ano -, e os difíceis momentos atuais, criados especialmente pelo governo atual, exigiria o espaço que esta coluna não tem. Só que nos colocaria, ao final, no dramático ponto a que chegamos, em que a hiperinflação estaria de novo à espreita.

E, para reforçar o risco de a hiperinflação voltar, há projeções de piora da situação fiscal, como as que fiz em estudo recente, com colegas, e que mostraram a perspectiva de os gastos com Previdência, assistência social e pessoal dobrarem em porcentagem do PIB até 2040.

Diante disso, começam a surgir novas ideias heterodoxas para a gestão macroeconômica, tipo nova "banda cambial". Ou, então, como ocorre com grupos que têm assessorado os últimos governos, aparecem as propostas de mais dos mesmos erros dos governos do PT, atribuindo a responsabilidade pela falta de solução à gestão da atual equipe da Fazenda, que surgiu na tentativa do segundo governo Dilma de finalmente começar a pôr ordem na casa fiscal.

Voltar a ter hiperinflação é sempre possível, mas é um absurdo que se considere essa possibilidade depois de tanto caminho percorrido na direção correta em matéria de gestão macroeconômica, como uma discussão mais detalhada da evolução recente mostraria. Em condições de partida muito melhores que as de 1993/1994, é preciso atacar de vez a rigidez do gasto, enviando ao Congresso as medidas de reforma que são hoje amplamente conhecidas. Como sua tramitação leva tempo e a economia não pode esperar, proponho ampliar o porcentual de desvinculação de receitas do FSE (hoje com o nome de DRU) de 20% para 50% e aprovar as medidas de ajuste recentemente enviadas pelo governo, a fim de restaurar a credibilidade e eliminar o risco de nova situação em que o problema fiscal "domina" tudo o mais.

Só que, em vez de fugir para a oposição, como parece ser o objetivo de muitos ligados ao principal partido no poder, é ele e seu governo que terão de pagar a conta de explicar os erros à sociedade e tentar reorganizar a base de sustentação política para aprovar as medidas requeridas para nos tirar do buraco atual.

Nem acordinho, nem acordão

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Havia um equívoco de base: achar que juntando um país pobre, dois pobres, três pobres etc... daria um rico. Não funcionou

No começo do primeiro governo Lula, quando começavam a decolar os acordos de comércio entre grupos de países, negociados por fora da Organização Mundial de Comércio, o então chanceler brasileiro, Celso Amorim, saiu-se com esta: o Brasil não está interessado nesses acordinhos.

Na diplomacia lulista, só o acordão interessava — um tratado global negociado há décadas no âmbito da OMC. Por isso, aliás, havia paralelamente o empenho brasileiro em conseguir o posto de diretor-geral da organização, uma vitória alcançada em 2013, com o diplomata Roberto Azevêdo.

Mas o posto já não tinha importância. A maior parte dos países — todos os mais importantes — havia simplesmente abandonado a OMC e concentrado todos os esforços nos tais acordinhos, que, bem vista a situação, davam não em um, mas em vários acordões.

Claro, ninguém diz que a OMC já era, nenhum governo retirou seu embaixador da sede da entidade em Genebra. Mas a organização não teve nada a ver com o Acordo de Parceria Transpacífica (TPP, em inglês), fechado nesta semana por 12 países que representam 40% do PIB mundial e movimentam quase US$ 10 trilhões/ano em exportações e importações.

Trata-se do maior e mais avançado acordo de liberalização comercial dos últimos 20 anos. EUA e Japão lideram, a América Latina entra com México, Peru e Chile. O Brasil tem negócios com todos eles, negócios que podem ser desviados entre os parceiros TPP.

A OMC também não tem nada a ver com o outro baita acordinho em gestação, o Transatlântico, que reúne simplesmente os EUA e a União Europeia. Está meio atrasado, porque os EUA estavam mais concentrados no TPP — cuja realização, aliás, está levando pressa aos europeus. Temem perder espaço em dois dos quatro maiores mercados do mundo, Estados Unidos e Japão.

União Europeia e China completam os quatro grandes. A UE tem vários acordos bilaterais, inclusive com países agora integrantes do TPP. A China, que vinha preferindo os voos solo, possíveis pelo seu tamanho, também está negociando um acordinho — com Japão e Coreia do Sul.

Eis onde nos trouxe a diplomacia inaugurada por Lula: todos os nossos principais parceiros comerciais fecharam ou estão fechando acordos que mudam a cara e o conteúdo do comércio mundial, enquanto o Brasil declara colocar fé no acordão da OMC e no... Mercosul! É verdade que, de uns meses para cá, membros do governo Dilma voltaram a se ocupar de um acordinho que seria importante, o acerto Mercosul/União Europeia. Mas esta negociação já tem um recorde: é a mais antiga do mundo, a que tem mais anos de conversa sem nenhuma conclusão.

Em Brasília, costuma-se colocar a culpa do atraso eterno nos europeus, que não teriam a necessária flexibilização para uma abertura comercial. Bobagem, claro. Afinal, nesse tempo, a UE fechou diversos acordos, inclusive com latino-americanos.

A verdade é que o Mercosul fez a opção bolivariana, definida por Lula como a diplomacia Sul-Sul. Tratava-se de unir os países mais pobres contra os ricos do Norte, de modo que a Turma do Sul, fortalecida política e economicamente, pudesse encarar os de cima no mano a mano. Olhar na cara, como Lula gostava de dizer.

Do ponto de vista econômico, havia, digamos, um equívoco de base: achar que juntando um país pobre, dois pobres, três pobres etc... daria um rico. Não funcionou. Se funcionasse, teria dado apenas um pobre maior. Além disso, tirante os bolivarianos, os países em desenvolvimento estavam mais interessados em entrar no mercado dos ricos, os maiores consumidores mundiais.

Os governos petistas também acreditaram que o Brics era mais que uma sigla — ou seja, que Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul formariam um sólido e unido bloco no xadrez global. Até constituíram um banco de desenvolvimento, mas do qual os outros quatro esperam apenas obter acesso aos enormes fundos chineses.

Mas a China já não é o maior parceiro comercial do Brasil? Ora, a China, com sua voracidade por comprar commodities e alimentos e vender industrializados, é a maior parceira de um monte de países.

Na verdade, assim como ficou ao largo dos grandes movimentos comerciais, o Brasil também se isolou politicamente. Até na América do Sul perdeu influência.

Fala-se pouco disso por aqui, mas a diplomacia Sul-Sul foi um dos maiores desastres da era Lula-PT. Um sintoma é o estado lastimável em que se encontra o Itamaraty, formado por quadros tão competentes como Roberto Azevêdo, e que estão por aí quase sem serviço e, de uns tempos para cá, até sem dinheiro para pagar as contas das embaixadas.

Aliás, uma marca da estratégia Sul-Sul foi abrir embaixadas pelos países da África, especialmente, e da Ásia mais pobre. Embaixadas que, do ponto vista nacional, não servem para nada. Mas podem servir para ajudar algum lobby a favor de uma ou outra empreiteira. E assim se cai de novo na corrupção, a outra marca.

As fontes da ira

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo

Por toda parte, queixas e lamúrias: arrasaram o Brasil, estamos quebrados, tudo fechando, alugando. É uma fase pela qual temos de passar. Quanta energia, troca de insultos, amizades desfeitas. Às vezes penso que a melhor forma de abordar o novo momento é apenas deixar que os fatos se imponham.

Muitas vezes afirmei que o dinheiro roubado da Petrobrás foi para os cofres do PT e usado na campanha de Dilma Rousseff. Caríssima campanha, R$ 50 mil por mês só para o blogueiro torná-la um pouco engraçada.

O primeiro fato importante foi a delação premiada do empresário Ricardo Pessoa. Ele afirmou que deu quase R$ 10 milhões à campanha para não perder seus negócios na Petrobrás. Logo depois surgiram suas anotações, estabelecendo um vínculo entre o dinheiro que destinou ao PT e os pagamentos que recebia da Petrobrás. Verdade que a empresa estava nomeada apenas como PB. Claro que ainda podem dizer que esse PB quer dizer Paraíba, ou pequena burguesia. É um jogo cansativo.

Nem é tão necessário que a investigação defina novos vínculos entre o escândalo, o PT e a campanha de Dilma. Basta assumir as consequências do que já se descobriu. Se o tema vai ser neutralizado no Supremo, se o governo compra um punhado suficiente de deputados, tudo isso não altera minha convicção de que o escândalo desnudou um projeto político criminoso.

Ainda na semana passada o Estadão publicou reportagem sobre a Medida Provisória (MP) 471. Ao que tudo indica, foi comprada. Ela garante a isenção de R$ 1,3 bilhão em impostos. E rendeu R$ 36 milhões em propina.

Não estranho que tenha sido aprovada pela maioria. Eram estímulos para três regiões do País e as respectivas bancadas estavam satisfeitas com isso.

Também não havia, da parte das outras regiões, questionamentos sobre estímulos localizados. O único nó nesse campo, se me lembro bem, era a divisão dos royalties do petróleo.

Muito possivelmente, a emenda foi vendida com o preço da aprovação parlamentar embutido. De qualquer forma, a maioria no Congresso foi enganada e, com ela, todos os seus eleitores.

A empresa que negociou a medida provisória destinou R$ 2,4 milhões ao filho de Lula. Segundo a notícia, ele diz que o dinheiro foi pago por assessoria de marketing esportivo. O pai assina a MP, o filho recebe R$ 2,4 milhões da empresa de lobby. Se você não estabelece uma conexão entre as duas coisas, vão chamá-lo de ingênuo; se estabelece, é acusado de lançar suspeita sobre a reputação alheia.

A maioria das pessoas consegue processar fatos e documentos já divulgados e talvez nem se escandalize mais com a venda de uma MP: é o modo de governar de um projeto. É todo um sistema de dominação. É preciso ser um Jack estripador ou um ministro do Supremo para dizer: vamos por partes.

As conexões estão feitas na cabeça da maioria e nada de novo acontece. Neste momento pós-moderno, em que as narrativas contam, mas não as evidências, o conceito de batom na cueca também se tornou mais elástico. Não é bem uma marca de batom, mas algo vermelho que esbarrou pelo caminho, uma tinta, um morango maduro.

Enquanto se vive este faz de conta nacional, a situação vai se agravar. É muito grande o número de brasileiros que se sentem governados por uma quadrilha. Apesar de não estarem organizados, ou talvez por isso, alguns vão se desesperar, ultrapassando os limites democráticos. O tom do protesto individual está subindo. Dirigentes do PT são vaiados, figuras identificadas até a medula com o partido, como o ministro Lewandowski, também não escapam mais da rejeição popular.

O PT e os intelectuais que o apoiam falam de ódio. De fato, o amor é lindo, mas como ser simpático a um partido que arrasa o País, devasta a Petrobrás e afirma que está sendo vítima de uma injustiça?

Não são apenas alguns intelectuais do PT que se recusam a ver a realidade. No passado, as denúncias de violência stalinista eram guardadas numa gaveta escura do cérebro. Era impossível aceitar que o modelo dos sonhos se apoiava numa carnificina. Agora também parece impossível admitir que o líder que os conduz tem como principal projeto tornar-se milionário. É como se admitissem ser humildes fiéis de uma religião cujo pastor acumula, secretamente, uma fortuna, enquanto teoriza sobre a futilidade dos bens materiais.

A sucessão de escândalos, demonstrando a delinquência do governo, não basta para convencer os mais letrados. E certamente não bastará para convencer os que ignoram a História e são pagos para torpedear o adversário nas redes.

Mas os fatos ainda têm grande força. Lutar contra eles, em certas circunstâncias, não é só um problema de estupidez, mas também de estreita margem de manobra.

Se o governo não pode aceitar que suas contas sejam recusadas por unanimidade no TCU, não resta outro caminho senão tentar melar o julgamento. Sabem que todos estão vendo sua jogada e talvez experimentem uma ligeira sensação de ridículo. Mas o que fazer?

A única saída decente seria renunciar. Mas, ao contrário, decidiram ficar e convencer os críticos de que estão cegos por causa de sua ideologia de direita, conservadora e elitista.

Isso radicaliza a tática de Paulo Maluf, que insiste em dizer que não tem conta na Suíça, que o dinheiro e a assinatura não são dele. Maluf apenas nega o que estamos vendo. O PT nos garante que há algo de errado com nossos olhos.

Pessoalmente, na cadeia e no Congresso, fui treinado a discordar, mas conviver com as pessoas, apesar de seus crimes. Nem todos os brasileiros pensam assim, na rua. Não é possível irritar as pessoas ao extremo e, quando reagem, classificá-las de intolerantes.

O momento é uma encruzilhada entre a ira popular e a enrolação institucional. Com todos os seus condenáveis excessos, a raiva nas ruas é que tem mais potencial transformador.

A esquerda sempre soube disso. Agora, com o traseiro na reta, o PT descobre o amor.

Fidelidade se compra?

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

As manobras de Dilma para angariar apoio não estão dando certo. A reforma ministerial dá frutos podres

Não, presidente Dilma Rousseff. Talvez seja tarde para descobrir o óbvio. Fidelidade se constrói, respeito se conquista, amor se cultiva. Mesmo num país em que os partidos políticos se desmoralizam a tal ponto que tudo parece estar à venda no Congresso – do voto à consciência –, Dilma percebe que é hoje uma mulher traída e uma líder mal-amada.

Não importa quantos cargos ela tenha distribuído, quantas concessões tenha feito. Não importa quantos mimos tenha oferecido a seus concubinos. Eles traem. Conspiram. Querem mais. A insatisfação costuma conduzir à infidelidade. Se até os partidos comprados traem Dilma, a rebeldia não se explica apenas pelo vício da prostituição do poder. Nem os pares de Dilma se afeiçoaram a ela – muitos, se não falam mal pela frente, o fazem pelas costas.

Toma lá. E não dá cá. De todas as derrotas sofridas por Dilma nos últimos dias – e não foram poucas –, a falta de quórum na Câmara para votar seus vetos às pautas-bomba pode ter sido a que mais a magoou. Um sinal do que vem por aí. Sua maior luta, hoje, é travada nas duas Casas, e não com juízes, procuradores, jornalistas ou eleitores. “Juntos, somos imbatíveis”, disse Dilma em Barreiras, na Bahia. Juntos... com quem, exatamente? Com senadores e deputados.

As manobras de Dilma para angariar apoio não estão dando certo. A “reforma ministerial”, de custo moral e ético muito alto, dá frutos podres. Delcídio do Amaral (PT-MS), líder do governo no Senado, diz: “Acho que alguma coisa não está funcionando”. Acha mesmo ou tem certeza? O líder do PR na Câmara, Maurício Lessa, afirma: “O governo não pode achar que resolve a vida só com o PMDB”. Não mesmo. Há um novo bloco de partidos revoltados. O “baixo clero” pode ser muito baixo. O que é pior: os dois maridos oficiais – o PT e o PMDB – não estão unidos em torno da matriarca.

O elemento peemedebista Eduardo Cunha, presidente da Câmara, cada vez mais afundado em suas contas movediças, familiares e milionárias em dólares na Suíça, exerce poder avassalador contra Dilma – mas pode cair antes de qualquer um em Brasília. Comprovadas as contas secretas e a origem de corrupção, Cunha não poderá continuar a presidir a Câmara. Simples assim. Não tem moral para falar de moral. Dilma e Lula sonham em lavar Cunha a jato.

Não sinto pena de Dilma. Ela fez por merecer o pesadelo atual. Muito pior foi o pesadelo em que ela jogou o Brasil, ao usar no ano passado R$ 106 bilhões em barbeiragens fiscais para enganar o eleitor mais crédulo. Criou uma Ilha da Fantasia em que o estudante, a dona de casa, o trabalhador, o pequeno empresário, o jovem idealista, a classe média e os mais carentes se inspiraram para reelegê-la.

Dos R$ 106 bilhões, R$ 40 bilhões de bancos públicos foram usados nas pedaladas – o termo usado para adiar pagamentos e maquiar as contas públicas. Estamos, todos nós, pagando agora por isso. Nos primeiros oito meses de 2015, como foi publicado no jornal O Globo na sexta-feira, o Tesouro Nacional já repassou a BNDES, Banco do Brasil e FGTS R$ 14,4 bilhões. Objetivo? Cobrir os gastos com juros subsidiados de programas federais no ano passado. Esse é o preço, até agora, da operação-bomba para reeleger Dilma.

Nunca antes na história um presidente pedalou com um doping dessa magnitude. Nunca antes se usou tamanho artifício para mascarar uma gestão incompetente e temerária e alimentar o marketing piegas da mãe do PAC. É uma constatação financeira, técnica, nada ideológica ou política. Basta examinar os gráficos, ano a ano. São números, não palavras. Não há subjetividade nem torcida contra.

Quando Dilma vê “luz no fim do túnel”, é natural. Não tem saída a não ser parecer otimista. Jaques Wagner, o novo escudeiro imposto por Lula na Casa Civil, é só elogios: “A presidente é uma guerreira, ela opera muito bem diante da dificuldade... ela entende que (a reprovação das contas pelo Tribunal de Contas da União) é uma página virada e que a batalha definitiva será no Congresso”. Leia-se batalha para continuar a governar. Batalha para não sofrer impeachment. Para não desmilinguir.

A reprovação das contas de Dilma pelo TCU já era esperada. Mas não por essa goleada de 8 a zero. Unânime, inédita, histórica. Dilma se preocupa com o uso que o Congresso fará dessa derrota. O país tenta olhar o lado bom. O da prestação de contas. Contas fiscais e morais. Afinal, quem quer fidelidade precisa ser fiel, em primeiro lugar. Precisa ser responsável. A moeda que conta para nós é esta, a da responsabilidade com a nação e com os eleitores. Tanto a presidente quanto o Congresso deveriam saber que não é possível cobrar sacrifício ou fidelidade de quem se sente espoliado ou traído.

Dilma só sai do governo após concluir a destruição do país

Carlos Newton
Tribuna da Internet


Todos já sabiam que a presidente Dilma Rousseff nada entende de Economia Política,embora alardeasse na internet ter mestrado e doutorado, que depois se constatou serem apenas uma das invencionices dela. E como realmente ficou comprovado que nunca fez mestrado nem doutorado, também pode-se até duvidar que tenha cursado alguma faculdade de Economia, tal o seu despreparo.

Agora, constata-se que os brasileiros elegeram (e reelegeram) para a Presidência da República uma autoproclamada mulher sapiens que nada entende também de administração pública ou de política. É uma estranha no ninho do Planalto/Alvorada.

Ao contrário do lendário Rei Midas, que transformava em ouro as coisas nas quais tocava, a presidente Dilma consegue destruir o que aparece à sua frente. Podem reparar: tudo o que é feito pelo primeiro escalão do governo sempre dá errado. Há quase um ano tenta fazer um ajuste fiscal que não existe nem tem Plano B, enquanto a economia vai derretendo.

TRAPALHADAS NO TCU
Vejam bem: em junho de 2014 a presidente foi advertida pelo então presidente do TCU, Augusto Nardes, sobre as irregularidades em sua prestação de contas. E o que fez ela? Ao invés de se adaptar e obedecer às normais legais, fez exatamente o contrário e extrapolou as pedaladas e a maquiagem das contas, baixando dez decretos inconstitucionais, para fazer despesas não-autorizadas pelo Congresso. Um festival de crimes de responsabilidade em série, puníveis com impeachment.

Depois veio a público alegar que não sabia de nada e a culpa era no secretário do Tesouro, Arno Augustin.

O TCU então deu à presidente todas as oportunidades de se defender, até adiou duas vezes o julgamento das contas. E como dona Dilma respondeu a essas gentilezas? Simplesmente mandou alegar a suspeição do relator Augusto Nardes, e simultaneamente foi logo recorrendo duas vezes seguidas ao Supremo, numa confusão total.

O RESULTADO
Como tudo o que o governo faz dá errado, o resultado foi a decisão do TCU por unanimidade, propondo a rejeição das contas e abrindo fundamentação jurídica para o impeachment.

Sinceramente, o comportamento da presidente Dilma Rousseff não parece normal. Será que as anfetaminas que toma para manter a dieta não estão lhe fazendo mal? Não seria caso de terapia? O que ela enfim pretende? Vai se agarrar ao governo como uma preguiça pendurada na árvore, incansavelmente imóvel? Até onde vai levar esta farsa? Não governou durante quatro anos e dez meses, quer continuar assim até o final de 2018? Ou seja, só pretende sair do governo depois de concluir a destruição do país?

Como dizia o humorista Agildo Ribeiro, perguntar não ofende. Especialmente quando todos sabem a resposta.

Autossuficienta, ela se basta

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Imprensa e políticos estão mais uma vez discutindo a questão errada: o tempo necessário, depois da rejeição unânime das contas de Dilma pelo Tribunal de Contas da União, para que o Congresso se manifeste e toque o impeachment.

Besteira: Dilma não precisa de ninguém que a derrube. A presidente que distribui cargos à vontade e nem assim consegue o apoio do PMDB, que convoca três ministros para uma entrevista coletiva de emergência num domingo para dizer que não há problema nenhum, que tenta intimidar quem irá julgar suas contas, que cria problemas com os militares num momento em que as Forças Armadas queriam apenas ficar fora da crise, não precisa de oposição: cai sozinha.

Bons políticos procuram prever problemas e evitá-los. Dilma gosta de prever problemas para ser abatida por eles. Brigou com Eduardo Cunha, que controla o PMDB na Câmara, desautorizou Michel Temer, a quem tinha pedido que cuidasse da articulação política, e tomou para si as negociações com políticos - justo ela, a habilidosa. Acabou negociando com Leonardo Picciani, cuja maior ligação com o primeiro time, até hoje, era girar a maçaneta para Eduardo Cunha não ter esse trabalho. Quem paga mal paga duas vezes, diz o axioma do Direito. Dilma pagou, entregou tudo, aceitou escolher ministros piores que os que tinha - o que, convenhamos, era difícil - e não recebeu a mercadoria. Continuou apanhando no Congresso. 

Confiem em Dilma: quando tudo está calmo, ela dá uma entrevista, faz um discurso, articula uma manobra. A surpresa é que ainda esteja de pé.

Oposição? De que se trata? 
Mark Twain, grande escritor americano, disse que os EUA tinham o melhor Congresso que o dinheiro podia comprar. Millôr Fernandes, grande escritor brasileiro, disse que o Brasil tinha um Congresso eficiente. "Ele mesmo rouba, ele mesmo investiga, ele mesmo absolve". O tempo passa, pouco muda. Um banco suíço informa que o deputado Eduardo Cunha tem contas lá - o que ele sempre negou -, mostra que seu passaporte diplomático foi usado para abri-las, e o Congresso finge que não é com ele. 

Tem bons motivos: muita gente, digamos, conhece bem a questão; outros querem que Cunha comande o impeachment, então se calam. Mas qual a vantagem de derrubar a corrupção usando a corrupção?

Petezando os petizes
O alerta é do professor Renato Janine Ribeiro, ligado ao PT, ex-ministro da Educação de Dilma: o currículo brasileiro de História não atende à necessidade de "conter ensinamento crítico, mas sem descambar para a ideologia". Segundo Janine, o currículo ignora o que não é Brasil e África. "Não havia na proposta uma história do mundo (...) É direito do jovem saber o trajeto histórico do mundo. Precisa aprender sobre a Renascença, as revoluções. Mas não há uma interpretação única de nenhum desses fenômenos. E é esta diversidade que a educação democrática e de qualidade deve garantir". 

Mas quem fará a correção?

O "eu não sabia" tucano
Lembra da decisão do Governo tucano paulista de tornar secretos os documentos sobre o Metrô e os trens urbanos - sim, aqueles que aparecem em denúncia sobre formação de cartel? Pois bem: o Governo paulista reclamou desta coluna por divulgar a notícia. Segue a carta, na íntegra, assinada por Cleber Mata: 

"Lamento que você não tenha nos procurado para esclarecer um assunto tão sério como o reproduzido na sua coluna. Aqui alguns esclarecimentos. 

"A Folha de S.Paulo errou ao atribuir ao governador Geraldo Alckmin uma decisão que foi adotada por um membro da gestão passada e que não integra mais a equipe. Geraldo Alckmin não impôs nenhuma restrição. É justamente o contrário: Geraldo Alckmin, após tomar conhecimento de uma resolução pela Folha de S.Paulo, determinou imediatamente que a medida fosse revista. São Paulo é o Estado mais transparente do Brasil, segundo ranking da Controladoria Geral da União. O Estado também está entre os mais transparentes, de acordo com a ONG Contas Abertas. Geraldo Alckmin foi o responsável por colocar o salário de todos os servidores na internet. Também por decisão do governador Alckmin, os números com os indicadores criminais são publicados mensalmente no site da Secretaria da Segurança Pública. Por favor, antes de propagar informações sem consulta prévia, nos procure. Terei o maior prazer em atendê-lo".

No dia 8, a propósito, Alckmin determinou a suspensão da medida.

Não sabia, mas sabia, sim
A carta é curiosa: por que buscar "o outro lado" se a informação está publicada no Diário Oficial? Mais: quem é o responsável pelo "membro da gestão passada"? Quem o nomeou e é o responsável é o governador. E quem era o tal governador "da gestão passada"? Bingo! O mesmo Geraldo Alckmin da atual gestão. O próprio Alckmin que só mandou suspender o tal segredo depois que a imprensa o divulgou. A propósito, quem é o "membro da gestão passada e que não integra mais a equipe?" 

Seria ótimo ouvir o anônimo! Ou não seria? 

Quem comanda o Governo?
Se o governador não sabe que seu Governo anda tornando sigilosos fatos que podem ser incômodos, quem é que sabe? Quem comanda a administração?

Aguarde! Prepare-se. Chumbo Gordo vem aí.

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O Grilo Falante de Lula

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O palestrante Luiz Inácio da Silva é um sujeito de sorte. Antes de se consagrar com suas palestras internacionais, ele passou pela Presidência da República, onde não ganhava tão bem. Mas tinha bons amigos, especialmente na empreiteira Odebrecht, que lhe sopravam o que dizer nas reuniões com outros chefes de Estado. Os recados eram passados ao futuro palestrante, então presidente, sob o título "ajuda memória" - ou seja, os empreiteiros estavam ajudando o presidente a se lembrar de coisas úteis, uma espécie de transplante de consciência. A Odebrecht era o Grilo Falante de Lula.

Nem Pinóquio teve uma ajuda-memória tão-generosa. A de Lula se transformou em negócios de bilhões de reais - mas é bem verdade que Pinóquio não tinha um BNDES, só um Gepeto. É uma desvantagem considerável, especialmente porque Gepeto não fazia operações secretas, ao que se saiba. "O PR fez o lobby", escreveu o então ministro da Indústria e do Comércio aos amigos da Odebrecht, respondendo à cobrança da empreiteira sobre a defesa de seus interesses pelo PR Lula junto ao PR da Namíbia. Essa e outras ajudas memórias valiosas, reveladas pelo jornal O Globo, não tiveram nada de mais. Segundo todos os envolvidos, isso é normal.

A normalidade é tanta que a parceria foi profissionalizada. Quando Luiz Inácio terminou seu estágio como PR, foi contratado pela Odebrecht como palestrante. Nada mais justo. Com a quantidade de ajuda memória que ele recebera da empresa durante oito anos, haveria de ter muita coisa para contar pelo mundo. Foi uma história bonita. Lula soltinho, sem a agenda operária de PR, viajando pelos países nas asas do lobista da Odebrecht, fazendo brotar obras monumentais por aí e mandando Dilma e o BNDES bancá-las, enquanto botava para dentro cachês astronômicos como palestrante contratado da empresa ganhadora das obras. Normal.

A parceria também funcionou no Brasil, claro, com belos projetos como o estádio do Corinthians - que uniu seu time do coração com a sua empreiteira idem. Num drible desconcertante dos titãs, o Morumbi foi desclassificado para a Copa de 2014 e brotou em seu lugar o Itaquerão, por R$ 1 bilhão. Como não dava para Gepeto fazer a mágica, o Pinóquio PR chamou o bom e velho BNDES para operar mais esse milagre. Após alguns anos fazendo os bilhões escorrerem dos cofres públicos para parcerias interessantes como essas - incluindo as obras completas da Petrobras -, o palestrante e seu partido levaram o Brasil à breca. Ainda hoje, em meio à mais terrível crise das últimas décadas, que derrubou o aval para investimento no Brasil e fará dele um país mais pobre, a opinião pública se pergunta: como foi que isso aconteceu?

Graças a essa pergunta abilolada, o esquema parasitário que tomou de assalto o Estado brasileiro ainda permanece, incrivelmente, sediado no Palácio do Planalto. O tráfico de influência como meio de privatização de recursos públicos - através de parcerias, consultorias, convênios, mensalões e pixulecos mais ou menos desavergonhados - foi institucionalizado, de cabo a rabo, no governo petista. Lula, o palestrante, é investigado pelo Ministério Público por tráfico de influência internacional. O Brasil se surpreende porque quer: esse é omodus operandi de todos os companheiros que já caíram em desgraça - Vaccari, Delúbio, Erenice, Palocci, Dirceu, Valério, Youssef, Duque, Vargas, João Paulo, Rosemary .Faltou alguém? Ou melhor: sobrou alguém? 

Marcelo Odebrecht recomendou que Lula ressaltasse o papel de "pacificador e líder regional" do presidente de Angola. E assim foi feito. Deu para entender? O dono da empresa e cliente do governo era quase um adido cultural do presidente. Se o Brasil não consegue ver promiscuidade (ou seria obscenidade?) nesse enredo, melhor botar o Sergio Moro em cana e liberar o pixuleco.

Acaba de ser arquivado o inquérito contra Lula no mensalão. No auge do escândalo com a Odebrecht e demais envolvidas no petrolão, o PT bate seu próprio recorde de cinismo advogando a proibição das doações eleitorais de empresas. Pixuleco nunca mais. Ajuda-memória ao gigante: ou abre os olhos agora ou não verá as pegadas companheiras sendo mais uma vez apagadas. Aí os inocentes profissionais estarão prontos para o próximo golpe.

O que temos de pior, do surreal ao deprimente

Fernando Canzian
Folha de São Paulo

O baile da política em Brasília já transitou do trágico ao cômico e agora atravessa a fase do surreal ao deprimente. O país afunda em uma de suas maiores crises da história, moral e econômica, e vai revelando do que realmente somos feitos. O impasse já dura quase um ano. Em jogo, um empobrecimento a jato de um país que já é pobre e a perda de anos para voltarmos a um ponto que ainda estava longe de ser muito promissor.

Dilma Rousseff é o bode sujo e mal cheiroso no meio desta sala. Venceu a eleição enganando o país e agora paga o preço como a Geni nacional.

A presidente se manteve o quanto pôde em uma espécie de universo paralelo ao lado de seu Rasputin palaciano. Como prêmio de consolação por sair à revelia, agora o apegado Aloizio Mercadante ganha de volta o Ministério da Educação, rebotalho da Pátria Educadora de Dilma.

Lula volta como uma espécie de Sir Lancelot para tentar salvar o que vai restando do PT. Diz ao partido para aceitar a perda de cargos para “aliados” com o objetivo maior, do seu ponto de vista, de preservar o Palácio.

O grande “aliado”, o PMDB, é o PMDB. Nenhuma novidade aí. A não ser o fato de mostrar uma resistência acima de qualquer suspeita. Eduardo Cunha foi delatado cinco vezes e agora se materializam contas na Suíça atribuídas a ele, fruto de corrupção.

Mas o presidente da Câmara continua no comando do processo de desintegração da esperança de um ajuste nas contas. Em breve perderemos os dois selos de confiança que faltam para o país acentuar a vertiginosa queda da economia.

Na oposição irresponsável, o PSDB acelera a desintegração. Na última votação dos vetos de Dilma à “pauta bomba”, de gastos impagáveis que jogariam de uma vez tudo para os ares, os tucanos votaram a favor do caos. Sem rumo, o partido de FHC assume o pior papel que já foi do PT. O do quanto pior melhor.

Há quem acredite que matar o bode indesejável possa dar um novo rumo às coisas. Que isso aliviaria o ambiente. E que imprimiria urgência a uma dinâmica capaz de reorientar o país e a política rumo a uma racionalidade que nos resgate desse afogamento.

Nem isso parece mais certo. Talvez já tenhamos ido longe demais. Dólar, inflação e recessão fora de controle são sintomas evidentes disso.

Retratos de um desastre

Sandro Vaia
Blog do Noblat

A política brasileira pode ser de uma pobreza franciscana em termos de gestos, atitudes e ideias. Mas é um presente para os olhos quando se trata de fornecer imagens arquetípicas de situações dramáticas ou simplesmente patéticas.

A famosa foto de Jânio Quadros com um pé virado para a esquerda e outro para a direita, ou o rostinho insolente da menininha que recusa um aperto de mão ao general Figueiredo entraram para a galeria de imagens da história política brasileira.

A foto desta semana tem muito pouco de solene. Ela mostra uma imagem banal, quase ridícula. O autor é Pedro Ladeira, e está na capa da Folha de Saulo de quinta feira. Mostra uma imagem do deputado Leonardo Picciani, líder do PMDB na Câmara, com uma mão escondendo a boca (tentando evitar leitura labial, como fazem os jogadores de futebol?) falando ao telefone, com um plenário vazio atrás.

Presume-se que Picciani esteja convocando gente da sua bancada para comparecer ao plenário e dar quórum para tentar manter os vetos da presidente Dilma a alguns itens da pauta-bomba.

Entre terça e quarta feira, logo depois de uma “reforma ministerial” do arco da velha, inspirada pelo condestável da República Luiz Inácio I (o Luiz Inácio II acabou sendo o sofrível advogado geral da União), o governo acumulou um colar de derrotas de fazer corar um Felipão de pedra.

Na terça-feira, a Câmara, com a base aliada supostamente “vitaminada” pela reforma ministerial, que colocou até o dono do restaurante Barganha à frente do Ministério de Ciência e Tecnologia, negou-se a dar quórum e consequentemente a manter os vetos da presidente a alguns projetos da pauta-bomba.

No mesmo dia, o Tribunal Superior Eleitoral resolveu levar adiante as investigações sobre o uso de propinas do petróleo no financiamento da campanha de Dilma.

A quarta feira começou trágica para o governo: a Câmara continuou não dando quórum.

O governo recorreu ao STF tentando evitar a reunião do TCU que daria, mais tarde, a sua opinião sobre as pedaladas fiscais de Dilma. Nada feito. O STF negou o pedido.

No fim da tarde, a fatal reunião do TCU: o pedido de afastamento do relator Augusto Nardes foi negado por unanimidade. As contas foram reprovadas também por unanimidade.

Na falta de uma seleção de futebol para chamar de sua, alguns brasileiros foram à rua para soltar fogos e cantar o hino nacional em homenagem, imaginem vocês, ao Tribunal de Contas da União. A que ponto chegamos: às vésperas do início de um torneio eliminatório para a Copa do Mundo, o brasileiro sabe mais sobre Augusto Nardes do que sobre Douglas Costa.

Depois de sua quarta feira negra, o governo reagiu com a estupefação de sempre. Uma parte acha que foi uma imprudência bater de frente com o Tribunal de Contas; outra parte acha que vale a pena bater de novo à porta do STF para tentar melar tudo.

O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, do alto da sua conta no banco suíço, provavelmente recebeu o parecer do TCU como um presente digno de ser guardado a sete chaves. Como o homem que tem o poder de apertar o gatilho do impeachment, declarou que neste ano não fará nada para acionar a máquina, e deu a entender que sentará sobre a bomba relógio até quando se sentir incomodado com o tic-tac.

Como a reforma ministerial foi insuficiente para cooptar o baixo clero do PMDB, e como o PT já entregou os anéis e também os dedos, não se sabe o que mais virá agora.

Troca-se um impeachment por contas na Suíça? Façam suas apostas na roleta do balcão de negócios, senhores.

 (Foto: O Globo)

 Plenário da Câmara dos Deputados

Dilma cai caprichosamente nas suas armadilhas

Josias de Souza

Dilma Rousseff envelheceu os métodos clássicos de fazer política. Criou um modelo próprio, baseado num tipo revolucionário de irresponsabilidade. Sua prioridade é a autodesconstrução. A estratégia é revelar as armadilhas que montou no primeiro mandato caindo em todas elas nesta segunda gestão.

Dilma deixa os governistas indignados e os oposicionistas perplexos. Por um lado, tornou-se uma caricatura que fugiu do controle do Lula. Por outro, faz questão de produzir as crises que podem asfixiá-la, dispensando seus antagonistas do trabalho. A história fará justiça a Dilma. Ela se tornou um fator de progresso. Revitaliza as instituições nacionais.

Na noite desta quarta-feira, Dilma refundou o Tribunal de Contas da União. FHC dera suas pedaladas. Lula também acionara os pedais. Mas foi Dilma quem desvendou o crime cometendo-o em proporções amazônicas. Preparou o terreno para que os auditores a flagrassem. Graças ao desejo inconsciente de Dilma de ser desmascarada, o TCU, antes um tribunal de faz de conta, teve sua noite de glória.

Em sessão apinhada, transmitida ao vivo, os ministros do TCU reprovaram por unanimidade as contas do governo Dilma referentes a 2014. Coisa semelhante não sucedia havia 78 anos. O último presidente a ter as contas rejeitadas fora Getúlio Vargas, em 1937. Orçado pelos auditores em R$ 106 bilhões, o desprezo de Dilma pelo rigor orçamentário fez renascer a Lei de Responsabilidade Fiscal.

Na véspera, a inviabilidade de Dilma já havia prestado outro inestimável serviço à democracia brasileira ao arrancar da letargia o Tribunal Superior Eleitoral. Pela primeira vez na história, o TSE abriu um processo que tem como objetivo a cassação de uma chapa presidencial —a titular e o vice. Antes, os comitês fingiam prestar contas e a Justiça Eleitoral fazia de conta que auditava.

Com o auxílio luxuoso da dicotomia de Dilma, produziram-se em volume jamais visto as pistas que podem derrubá-la. A roubalheira político-empresarial nunca mais será a mesma. No seu esforço secreto para ser descoberta, Dilma percorreu distraída os dois lados do balcão. Na presidência do conselho da Petrobras, conviveu com as más companhias. No comitê eleitoral, beneficiou-se da verba suja.

Na economia, Dilma já havia se rendido ao programa do adversário. Joaquim Levy percorre Brasília como uma espécie de denúncia ambulante do desmantelo fiscal e monetário que madame legou a si mesma.

Na política, a recente conversão de Leonardo Picciani em herói da resistência escancara o desejo de Dilma de se autoflagelar, expondo sob a luz do sol transações que exigiriam luzes apagadas. Personagem complexa, Dilma luta para barrar o impeachment ao mesmo tempo que empurra seu governo para o beco-sem-saída. O grande acerto de Dilma é a revelação dos seus erros.

Gasto público – o exorbitante e o supérfluo

Percival Puggina
Tribuna da Internet

Enxugar gastos não é tarefa agradável nem simpática. Dela não se colhe sorrisos, embora o bom líder, o líder respeitado, colha solidariedade.

Mas esse não é mais o caso do governo petista. O país já reconhece o partido que pretendeu ser hegemônico como uma organização tomada por criminosos. As pessoas bem informadas têm plena consciência, também, de que a nação, por motivos eleitoreiros, foi irresponsavelmente levada a uma crise pela qual não precisava estar passando.

O PT e seu governo estão desqualificados para a tarefa que o país tem pela frente. Não há mais, na alma brasileira, ao alcance desse partido, apoios que não precisem ser comprados com sanduíche de mortadela nas ruas e cargos nos gabinetes. Portanto, as sugestões deste artigo vão para a reflexão dos leitores e não para o governo.

SUPÉRFLUOS
No ambiente familiar, quando se torna imperioso cortar gastos, circunstancial ou permanentemente, a tesoura vai atrás dos considerados exorbitantes ou supérfluos. Dependendo de cada realidade, saem as viagens, as roupas novas, os restaurantes, as pizzas delivery, as novidades tecnológicas, os jogos de futebol. Os espetos vão para a churrasqueira com cortes mais baratos. Enfim, cada família busca a seu modo o próprio superávit primário.

Agora, olhemos o Estado. Sob esse guarda-chuva, se abrigam o Estado propriamente dito, o governo, a administração, o Legislativo e o Judiciário. Todos competem pelas fatias do orçamento, todos se consideram irredutíveis, insuficientemente agraciados e remunerados, e só conhecem a solidariedade interna – aquela que une os iguais em torno deste interesse comum: o “nosso” é sagrado.

A despeito do preceito constitucional que impõe harmonia aos poderes, na hora do dinheiro prevalece o outro, o da independência.

ATO SIMBÓLICO
A presidente Dilma reduziu de 39 para 31 o número de seus ministros e cortou 10% dos vencimentos do topo da cadeia alimentar do gasto governamental. Um ato simbólico. Uma merreca. Economizaríamos muito mais se ela reduzisse as despesas, inclusive as próprias, com cartões corporativos, com as numerosas comitivas ao exterior e com o luxo dos hotéis que frequenta. Ganharíamos muito mais ainda se parasse de usar nosso dinheiro para fazer publicidade de seu desditoso governo. E estou falando dos cortes supérfluos.

Para atingir o exorbitante teríamos que impor limites à licenciosidade com que o Legislativo e o Judiciário e a grande cascata das carreiras jurídicas definem seus ganhos e, muito especialmente seus privilégios. Sim, são privilégios, leizinhas privadas (que sequer leis são porque fixadas por atos administrativos validados por decisões liminares). São benefícios que ninguém mais tem, que geram direitos retroativamente e periódicos pagamentos de “atrasados”.

A república, além de conviver com enorme desnível entre os maiores e os menores salários, disponibiliza a uma parcela da elite funcional, na União e nos Estados, contracheques que, ocasionalmente, se elevam a centenas de milhares de reais. Não há pagador de impostos que não se escandalize ao saber que isso é feito com o fruto de seu trabalho.

CORRUPÇÃO
Na mesma linha do exorbitante temos a corrupção endêmica; as aposentadorias precoces, incompatíveis com o mais desatento cálculo atuarial; os incontáveis benefícios fiscais que orientam bilhões para usos que nada têm a ver com as funções essenciais do Estado; a legião dos cargos de confiança, que deveriam ser restringidos a um número mínimo, na ordem das centenas e não das dezenas de milhares; a atribuição ao setor público de atividades que poderiam, perfeitamente, ser desenvolvidas pela iniciativa privada; a sinecura de tantas ONGs que funcionam apenas como custeio público para o empreguismo de apadrinhados políticos; a centralização que derroga o pacto federativo e leva o dinheiro de quem produz para longe de suas vistas e para fins inconcebíveis; a gratuidade do ensino superior público para quem pode pagar, exemplo de injustiça que clama aos céus.

Se quiserem mais sugestões tenho inúmeras outras a fornecer.

Espalhada demais

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Embora o impacto dos preços administrados tenha sido relevante e o câmbio também venha contribuindo pesadamente, a inflação continua muito espalhada

Não é a inflação bem mais alta de setembro em relação a agosto (0,54% ante 0,22%) o aspecto mais relevante a apontar nos números divulgados nesta quarta-feira pelo IBGE. É o quanto ela permanece espalhada.

Os itens campeões de alta em setembro foram as passagens aéreas (23,13%) e o botijão de gás (12,98%). Mas não foram esses disparos que mais vêm puxando a inflação. As passagens aéreas, por exemplo, apenas se ajustaram à baixa de 24,9o% em agosto. A inflação brota por toda a economia, na contramão do que acontece nos países mais avançados do mundo, onde o risco maior é de deflação.




Muita gente ainda repete, quase automaticamente, que a inflação chegou aos 9,5% no período de 12 meses terminado em setembro apenas porque enfrenta a puxada dos preços administrados (aqueles que dependem de decisão do governo) e a forte alta das cotações do dólar no câmbio interno, de 46% só em 2015.

Embora o impacto dos preços administrados tenha sido relevante (alta de 16,34%, no acumulado em 12 meses) e o câmbio também venha contribuindo pesadamente, a inflação continua muito espalhada. O índice de difusão, que mede o número de itens da cesta de consumo atingidos pelo avanço de preços, continua muito elevado, de 65,0%. E a inflação dos serviços, bem menos atingidos pela variação do câmbio, mantém-se forte: foi de 0,66% em setembro e de 8,13% em 12 meses.

Essa avaliação não é destituída de consequências práticas. Quem se apega ao impacto dos preços administrados e do câmbio argumenta que a inflação deriva preponderantemente do aumento de custos e, por isso, está menos sujeita à ação da política monetária. Daí porque o Banco Central teria de derrubar os juros.

Esse alto nível de difusão mostra que, apesar da recessão e da quebra de renda do consumidor, ainda há uma inflação provocada mais por aumento da demanda do que pelo aumento de custos. A explicação para isso está nas ainda excessivas despesas do governo, as mesmas que vêm tendo como causa a desorganização das contas públicas.

A inflação alta, que tende a se elevar ainda mais nos próximos meses, traz novo desafio ao Banco Central. Obriga-o a examinar a existência da síndrome de dominância fiscal, tal como vêm denunciando alguns analistas de grande calibre. É a situação em que a desordem fiscal assume proporções tais que tiram a eficácia da política de juros. Até agora, o Banco Central tem dito o contrário: que as condições das contas públicas tendem a ser indiferentes (neutras) para a trajetória da inflação. Mais ainda, insiste em que a política de juros trabalha para produzir a convergência para níveis próximos do centro da meta de inflação (4,5%) ao fim de 2016, afirmação cuja credibilidade está em franca deterioração.

Se o Banco Central aceitar o diagnóstico de que a economia envereda para a dominância fiscal, ou de que já está nela, então será também preciso dizer o que colocar no lugar da política monetária que terá, então, perdido eficácia.

CONFIRA:

Fracasso
O jogo do contente manifestado pela diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, não mudou a natureza do fracasso da 13ª Rodada de Licitações desta quarta-feira. Apenas 37 dos 266 blocos (14%) foram arrematados; apenas R$ 121,1 milhões em bônus de assinatura foram arrecadados, o que corresponde a cerca de 12% do bônus mínimo total em oferta. Das grandes, só a Petrobrás, a Total e a Shell compareceram, mas não arremataram áreas. 

Irrealismo
O desinteresse não poderia ter sido mais contundente. Se a principal causa do malogro foram as condições adversas do mercado, então as regras do jogo, fixadas no pressuposto de que o apelo do Brasil continua irresistível, foram irrealistas.

Não é tão nosso
A hora é de rever as coisas. O petróleo é nosso, mas não é tão cobiçado pelos grandes capitais quanto proclamavam os ufanistas. E, se ainda for em alguma proporção, talvez não se restabeleçam tão cedo as condições para tirá-lo do chão.