segunda-feira, outubro 19, 2015

Em nome do pai, dos filhos, da nora e do amigão

Marcelo Rocha
Revista ISTOÉ

Dois filhos e uma nora de Lula são citados como beneficiários de propina. Esquema envolve a intermediação do empresário José Carlos Bumlai, amigo íntimo do ex-presidente, denunciado por ISTOÉ em fevereiro

Na campanha eleitoral de 2002, o ex-presidente Lula e o pecuarista José Carlos Bumlai estreitaram laços. Com a ascensão do petista ao poder, Bumlai virou um dos principais conselheiros de Lula e passou a ter acesso privilegiado ao Planalto. Conquistou até o direito de ter um crachá que lhe garantia trânsito livre ao gabinete presidencial sem precisar ser importunado por seguranças. Descobriu-se depois que a amizade não era uma mera questão de afinidades. Bumlai passou a fazer negócios com Lula - muitos dos quais bem suspeitos. O alcance das reuniões dos dois ficou mais claro agora. Em fevereiro, ISTOÉ divulgou um documento do Banco Central comprovando que o banco da empreiteira Schahin havia concedido um financiamento irregular ao empresário no total de R$ 12 milhões. Em troca, a empreiteira ganhou contratos polpudos com a Petrobras de arrendamento de navios-sonda. Em 2012, Marcos Valério, o operador do mensalão, disse que parte do montante teria sido usada para comprar o silêncio do empresário Ronan Pinto, que ameaçou envolver Lula, José Dirceu e Gilberto Carvalho no assassinato de Celso Daniel. Hoje se sabe que esse dinheiro também pode ter sido usado para pagar propina ao ex-diretor Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, e bancar despesas pessoais do filho do ex-presidente petista, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, e de sua mulher.

A GRANDE FAMÍLIA
Lula, os dois filhos e a nora estão na mira da PF e do Ministério Público

As revelações fazem parte do arsenal de histórias contadas aos integrantes da Lava Jato pelo delator Fernando Baiano, que na próxima semana será liberado para ir para casa – ele tem endereço na Barra da Tijuca, no Rio –, depois de ficar um ano atrás das grades. O conteúdo de seu depoimento começou a ser conhecido na última semana. Segundo Baiano, R$ 2 milhões da propina desviada da Petrobras foram repassados para custear gastos de Lulinha e da nora de Lula. Baiano disse que o pagamento que beneficiou a mulher de Fábio Luís Lula da Silva foi feito ao pecuarista José Carlos Bumlai e se referia a uma negociação envolvendo a OSX, empresa de construção naval de Eike Batista, hoje em recuperação judicial. O delator contou que trabalhava para que a OSX participasse de contratos da Sete Brasil, firma formada por sócios privados e pela Petrobras e que administra o aluguel de sondas para o pré-sal. Baiano disse ainda que pediu ajuda a Bumlai e que, adiante, o próprio Lula “participou de reuniões com o presidente da Sete Brasil para que a OSX fosse chamada para o negócio”. Mas há suspeitas que a propina que beneficiou a família de Lula também possa ter tido origem no dinheiro emprestado pela Schahin. 



Afinal, como se constata nas investigações, Bumlai virou uma espécie de elo entre intermediários do esquema do Petrolão e destinatários finais do dinheiro desviado. Ao que tudo indica, o amigão de Lula passou a deter a chave do cofre, para onde eram irrigadas as verbas que sangravam a estatal. Em sua delação, o lobista confirma que US$ 5 milhões em propina foram pagos pelo grupo Schahin, como contrapartida a um contrato de operações de navios-sonda. O Instituto Lula afirmou em nota divulgada na última semana que o petista nunca autorizou Bumlai a pedir dinheiro. Um segundo delator, Luiz Carlos Martins, ex-diretor da empreiteira Camargo Corrêa, também relatou episódios o envolvendo com propinas.


Não é a primeira vez que o filho de Lula aparece envolvido em um escândalo. De monitor de jardim zoológico, Lulinha tornou-se empresário de sucesso no ramo das telecomunicações durante a permanência do pai na Presidência. A ascensão no mundo dos négocios chamou a atenção da CPMI dos Correios, que investigou o mensalão. Lulinha abriu a Gamecorp no final de 2004, com capital de R$ 10 mil, para atuar como produtora e provedora de material de informática voltado para celulares. A Gamecorp recebeu investimentos de R$ 5 milhões da Telemar, empresa com participação do fundo de pensão Petros, ligado à Petrobras, o que justificou a entrada da CPMI na apuração. Na ocasião, o relator da comissão, o deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) relatou pressões de governistas para livrar a cara de Lulinha.



Em menos de um mês, Lulinha é o segundo filho de Lula a ser citado num escândalo de corrupção. A Operação Zelotes, da Polícia Federal, identificou rastros do preparador físico e empresário Luís Cláudio Lula da Silva numa negociata envolvendo medida provisória editada durante o governo Lula. A norma beneficiou montadoras de veículos com a prorrogação de desoneração fiscal, em valores que atingiram R$ 1,3 bilhão ao ano. Um dos escritórios contratados para fazer o lobby em Brasília fez repasses de R$ 2,4 milhões para a LFT, empresa de marketing esportivo de Luís Cláudio. O filho do ex-presidente afirmou que o dinheiro foi pago a ele por prestação de serviços relacionadas a marketing esportivo. Os investigadores não se convenceram dessa versão e tentam avançar no assunto.

FIGURÃO
José Carlos Bumlai se aproximou de Lula na campanha de 2002.
A amizade rendeu frutos a ambos

Tal como os filhos e a nora, o ex-presidente petista também é cobrado a dar explicações a autoridades. Lula prestou depoimento ao procurador da República Ivan Cláudio Marx em Brasília na investigação sobre tráfico de influência na liberação de recursos do BNDES para obras no exterior com participação de empreiteiras brasileiras. Foram duas horas depoimento. O escritório Teixeira Martins, do amigo e advogado Roberto Teixeira, cuida do caso. Não houve intimação. A procuradoria aproveitou a presença do petista na capital do País para ouvi-lo. Em nota, o Instituto Lula afirmou que o ex-presidente afirmou que os presidentes e ex-presidentes do mundo inteiro defendem empresas de seus países no exterior. Disse que os valores recebidos por suas palestras foram declarados e contabilizados. “Quem desconfia do BNDES não tem noção da seriedade da instituição”, afirmou o petista, quando questionado sobre as suspeitas de interferências na relação entre o banco de fomento, países financiados e empreiteiras brasileiras. Não será a última palavra do ex-presidente sobre recentes escândalos. Lula ainda precisa falar à PF, na condição de informante, sobre a Operação Lava Jato.  

Na cueca, no colchão... como políticos brasileiros ‘guardam’ o dinheiro

Hugo Marques e Kalleo Coura
Revista VEJA

Os hábitos exóticos — e muito estranhos — dos políticos e funcionários públicos que insistem em manter suas reservas de dinheiro longe do sistema bancário

 (Charles Sholl/FuturaPress//Folhapress) 
CORRUPÇÃO - André Vargas: 
o dinheiro era reserva técnica para “uma eventualidade”

O ex-deputado petista André Vargas era uma estrela em ascensão na política e na vida pessoal até que veio a Operação Lava-Jato. Policiais e procuradores descobriram que o parlamentar paranaense, ao mesmo tempo em que galgava degraus em sua escalada no poder em Brasília, mantinha negócios escusos com o doleiro Alberto Youssef, um dos operadores do petrolão. Vargas voava nas asas de um jatinho de Youssef e, em contrapartida, usava sua influência para cavar contratos públicos que rendiam dinheiro à quadrilha. Mas isso ainda era só a ponta das atividades extras do parlamentar. Ele também faturava comissões em troca de contratos que arrumava no governo para uma agência de publicidade amiga. Vargas foi preso, teve o mandato cassado e já recebeu do juiz Sergio Moro sua primeira condenação: catorze anos de prisão. O que ele fazia com as propinas que recebia? Isso ainda está sob investigação, mas ele mesmo forneceu uma pista.

O ex-deputado prestou na semana passada um depoimento ao juiz Sergio Moro. Vargas é acusado de comprar uma casa em Londrina, cidade onde construiu sua carreira, com dinheiro de propina, um negócio de 1 milhão de reais. Indagado sobre a origem de 480 000 reais usados para completar a transação, o ex-deputado foi rápido na resposta: disse, sem maiores explicações, que era um dinheiro que ele vinha guardando havia anos, fruto de economias pessoais. "Eu guardava para uma eventualidade", afirmou ao juiz. A explicação provavelmente é verdadeira. O motivo do cuidado é que é absolutamente falso.

Estudos já demonstraram que a quantidade de dinheiro vivo que circula em uma economia está diretamente ligada aos níveis de corrupção do país. No Brasil, onde quase 40% das transações são feitas em dinheiro, a percepção de corrupção entre a população, medida pela Transparência Internacional, fica em 43 pontos - em uma escala em que zero é o maior grau de corrupção e 100 é a honestidade absoluta. Já em países nos quais há menos "cash" na praça - nos Estados Unidos, as cédulas respondem por cerca de 20% das transações, e em lugares como Reino Unido e Áustria, menos de 10% -, a percepção de corrupção é muito mais fraca: fica acima dos 70 pontos. "Há uma correlação direta entre corrupção e dinheiro vivo. Por que outra razão uma pessoa faria transações altas com cédulas num país com sérios problemas de segurança?", questiona o economista Gil Castello Branco, da ONG Contas Abertas.

Ministério Público denuncia Marcelo Odebrecht pela segunda vez

Daniel Haidar
Revista ÉPOCA

Presidente da empreiteira e executivos são acusados de corrupção por pagar R$ 137 milhões de propina por contratos na Petrobras

O Ministério Público Federal ofereceu na noite desta sexta-feira (16), à Justiça Federal, no Paraná, denúncia contra o empresário Marcelo Odebrecht, o ex-diretor de Serviços da Petrobras Renato Duque, o ex-gerente de Serviços da estatal Pedro Barusco e outros três executivos do grupo Odebrecht, como antecipou a coluna EXPRESSO. Pela Odebrecht, também foram denunciados os executivos Márcio Faria, Rogério Araújo e Cesar Rocha. É a segunda ação penal contra eles. Desta vez, os executivos da Odebrecht são acusados de pagar R$ 137 milhões de propina por oito projetos em três diretorias da Petrobras.

(Foto: Geraldo Bubniak / Freelancer / Ag. O Globo) 
Marcelo Odebrecht é ouvido por deputados na CPI da Petrobras em Curitiba 

Na Diretoria de Abastecimento, procuradores da República apontaram que houve suborno para ganhar o contrato de terraplanagem da refinaria Abreu e Lima, emPernambuco, e da terraplanagem do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, oComperj. Na Diretoria de Gás e Energia, ficou caracterizada a distribuição de comissões por três contratos do Terminal de Cabiúnas e em um contrato do gasoduto GASDUC III, que liga o distrito de Cabiúnas à refinaria de Duque de Caxias (Reduc). Na Diretoria de Exploração e Produção, a denúncia aponta que houve pagamento de propina em contratos das plataformas P-59 e P-60.
Na denúncia, os procuradores citam e-mails e anotações no celular de Marcelo Odebrecht como provas de que o sócio e presidente de empreiteira tinha controle total sobre os negócios ilícitos praticados. No aparelho, a Polícia Federal identificou uma anotação em que o empresário faz alusão a uma conta bancária mantida pela Odebrecht no banco Pictet, na Suíça, onde estavam recursos utilizados para distribuir propina por obras da Petrobras.
Em um e-mail, Marcelo escreve a Luiz Antônio Mameri, presidente da Odebrecht para América Latina e Angola, para tratar do pagamento de propina. O empresário diz que estaria com o "italiano" e que "com os 700 que estão sinalizando dificilmente terão algo, e que se nos autorizassem EB poderia tentar conseguir 50 de rebate para o objetivo de 1200". De acordo com os procuradores da república, rebate significa propina e, em linguagem cifrada, Marcelo ofereceu US$ 50 milhões "para que o preço da contratação fosse majorado" de US$ 700 milhões para US$ 1,2 bilhão.
Se aceita a denúncia, Marcelo Odebrecht, Márcio Faria, Rogério Araújo e César Rocha foram acusados 64 vezes pelo crime de corrupção ativa. Pedro Barusco e Renato Duque podem responder pelo crime de corrupção passiva. O Ministério Público Federal pediu ao juiz Sérgio Moro que Marcelo Odebrecht, Rogério Araújo, Márcio Faria, Cesar Ramos e Renato Duque sejam mantidos presos.

R$ 4 milhões pelo lobby: os contratos milionários de Lula com a Odebrecht

Thiago Bronzatto, com Ana Clara Costa e Alana Rizzo
Revista ÉPOCA

ÉPOCA obteve contratos assinados entre o ex-presidente e a empresa. No papel, dinheiro para “palestras”. Na prática, dinheiro para alavancar os negócios da empreiteira no exterior

No final da manhã de quinta-feira, 15 de outubro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estava bem-humorado. Por iniciativa própria, prestava um depoimento reservado ao Ministério Público Federal, em Brasília, para explicar sua atuação ao lado da empreiteira Odebrecht. Em vez de ir ao prédio da instituição, Lula foi ouvido em uma casa no Lago Sul, de forma discreta. Foi seu único pedido ao procurador, para escapar ao assédio de jornalistas. Ao seu estilo sedutor, Lula fez piadas com o procurador da República Ivan Cláudio Marx, ao dizer que o Corinthians, seu time, será campeão brasileiro. Na hora de falar sério, disse que não fez lobby, mas sim palestras no exterior com a missão de explicar a receita brasileira de sucesso em países da África e da América Latina. Procurou defender-se na investigação, revelada por ÉPOCA em maio, que apura se ele praticou tráfico de influência internacional em favor da empreiteira Odebrecht. Lula disse que não é lobista, que recebeu “convites de muitas empresas e países para ser consultor”, mas não aceitou porque “não nasceu para isso”. Num termo de declaração de quatro páginas obtido por ÉPOCA, ele sustenta que todos os eventos para os quais foi contratado estão contabilizados em sua empresa L.I.L.S. – um acrônimo de seu nome. Foi por meio dela que Lula ficou milionário desde que deixou o Palácio do Planalto, em 2011. 

 (Foto: reprodução)
AMIGOS
Lula com Alexandrino Alencar, da Odebrecht (de barba, atrás), 
no Peru. Alexandrino era o responsável pelas palestras de 
Lula no exterior e viajava com ele 

ÉPOCA obteve cópia dos contratos privados, notas fiscais edescrições das relações entre o ex-presidente e sua principal contratante. Nomeado projeto “Rumo ao Caribe”, as viagens de Lula bancadas pela Odebrecht inauguraram um padrão de relacionamento do ex-presidente, poucos meses após deixar o Planalto, com a empreiteira-chave da Lava Jato.  Ao longo dos últimos quatro anos, a L.I.L.S. foi acionada para que Lula desse 47 palestras no exterior, muitas a convite de instituições. Sua maior cliente é, de longe, a Odebrecht.



A construtora que lidera a lista das patrocinadoras de Lula pagou quase R$ 4 milhões para o ex-presidente fazer dez palestras. Além disso, bancou os custos das viagens para países em que possui obras financiadas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), como Angola e Venezuela. Esses gastos de R$ 3 milhões, ao câmbio da época, incluem transporte e hospedagem em hotéis “5 estrelas ou superior”, com dormitório com cama king size, sofás, frutas, pães, queijos, frios, castanhas, água, refrigerantes normais e do tipo “zero” e, em alguns casos, fora do contrato, bebidas alcoólicas. As contratantes eram responsáveis por fretar aeronaves particulares. Ter Lula como palestrante custava caro. Mas, na maioria das vezes, valia muito a pena. 

O “Palestrante” Lula (grafado desse jeito pela própria empresa em seus papéis internos) passou a ser mobilizado para atuar em locais onde a Odebrecht enfrentava pepinos em seus contratos. Em 1º de maio de 2011, Lula se comprometeu, por R$ 330 mil, a desembarcar na Venezuela no início de junho para falar sobre os “Avanços alcançados até agora pelo Brasil”. A descrição das atividades que constam da cláusula 1.1 do contrato dizia que o “Palestrante” não participaria de qualquer outro evento além daqueles descritos “exaustivamente” no anexo 1. O tal anexo, no entanto, possui duas linhas que mencionam apenas que o ex-presidente ficaria hospedado no Hotel Marriott de Caracas. Quando superposto aos documentos do Instituto Lula sobre o mesmo evento, vê-se que Lula se encontrou com o empresário Emílio Odebrecht, pai de Marcelo Odebrecht, hoje preso em Curitiba, e com o então presidente venezuelano, Hugo Chávez, morto em 2013. Era um momento de tensão entre o governo venezuelano e a empreiteira, que cobrava uma dívida de US$ 1,2 bilhão.

Telegramas sigilosos do Itamaraty sugerem que Lula e Chávez trataram sobre a dívida. A Odebrecht construía, desde 2009, a linha II do Metrô de Los Teques e a linha 5 do Metrô de Caracas. Fruto de uma negociação entre Lula e Chávez, o projeto foi irrigado com US$ 747 milhões (R$ 1,2 bilhão, em valores da época) em empréstimos do BNDES. A pressão de Lula surtiu efeito. Quatro dias após a visita do ex-presidente a Caracas, Chávez se encontrou com a presidente Dilma em Brasília. Naquele momento, a dívida com a Odebrecht já estava acertada. As duas obras são investigadas pelo Ministério Público Federal e pelo Tribunal de Contas da União. A principal suspeita, conforme revelou ÉPOCA em maio, é que os recursos tenham sido utilizados de forma irregular e de maneira antecipada sem o avanço do projeto – o dinheiro chegou, mas a obra não andou.

Em seu depoimento ao Ministério Público, Lula disse que não é lobista
 e “não nasceu” para ser consultor


Em alguns casos, as viagens de Lula eram sucedidas por concessões de empréstimos do BNDES para obras de infraestrutura no país.Angola é um exemplo disso. Desde 2011, a Odebrecht foi a que mais recebeu financiamentos do BNDES no país africano, que está no topo da lista de recursos destinados pelo banco para exportação. Entre abril de 2011 e abril de 2014, foram liberados US$ 3,1 bilhões dos cofres do BNDES para a Odebrecht. Nos dias 30 de junho e 1o de julho de 2011, Lula foi contratado pela Odebrecht para dar uma palestra na Assembleia Nacional em Luanda, capital da Angola, sobre “O desenvolvimento do Brasil – modelo possível para a África”. Em seguida, Lula se reuniu por 40 minutos com o presidente do país, José Eduardo dos Santos. Após a conversa, Lula se encontrou com Emílio Odebrecht e com diretores das empreiteiras Queiroz Galvão, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. Lula aterrissou em São Paulo no dia 2 de julho, à 0h30. No dia 28 de julho de 2011, o BNDES liberou um empréstimo de US$ 281 milhões (R$ 455 milhões, em valores da época), tão aguardado pela Odebrecht, para a construção de 3 mil unidades habitacionais e desenvolvimento de infraestrutura para 20 mil residências em Angola.

No dia 6 de maio de 2014, Lula e Emílio Odebrecht voltaram a se encontrar em Angola. O ex-presidente viajou, numa aeronave cedida pelo governo angolano, de Luanda para a província de Malanje, onde visitou a usina de açúcar e etanol Biocom, sociedade entre a Odebrecht Angola e a Sonangol. Em depoimento de sua delação premiada, o lobista Fernando Soares, o Baiano, disse que se associou ao empresário José Carlos Bumlai, amigo de Lula, para viabilizar a palestra do ex-presidente em Angola. Baiano atendia a um pedido de um general angolano, interessado no negócio. Lula estava a todo momento acompanhado por Emílio Odebrecht, pela ex-ministra do Desenvolvimento Social Márcia Lopes e pelo ex-deputado federal Sigmaringa Seixas, além de autoridades angolanas. Na manhã do dia seguinte, o ex-presidente teve uma reunião de cerca de uma hora com o presidente de Angola, José Eduardo dos Santos. Nesse encontro, discutiram, entre outros assuntos, a linha de crédito do BNDES para a construção da hidrelétrica de Laúca, segundo telegramas do Itamaraty. Em dezembro do ano passado, sete meses após a visita de Lula, o ministro de finanças de Angola, Armando Manuel, assinou o acordo de financiamento com o BNDES. Em maio deste ano, o presidente do banco, Luciano Coutinho, deu o último aval para a liberação de um empréstimo que pode chegar a US$ 500 milhões (R$ 1,5 bilhão). Questionado pelo Ministério Público, Lula disse que “nada foi referido sobre o financiamento do BNDES para a construção da hidrelétrica de Laúca e que o presidente José Eduardo nunca tratou desses temas”, embora documentos oficiais do Itamaraty mostrem uma versão diferente. “Não passa de uma ilação, porque o comunicante (do Itamaraty) não teria participado da reunião”, disse Lula.

(Foto: Jorge Silva/Reuters)

EFICIENTE
Lula com Hugo Chávez em Caracas, em 2011, e trechos de seus contratos 
com a Odebrecht (abaixo). Após uma palestra de Lula, o governo 
venezuelano pagou uma dívida com a Odebrecht  




Em suas viagens pela América Latina e pela África, Lula era acompanhado de perto pelo diretor de relações institucionais da Odebrecht, Alexandrino Alencar, apontado como o lobista da construtora na Operação Lava Jato. Após quatro meses preso, o executivo foi libertado na sexta-feira por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Teori Zavascki, após quatro meses preso em Curitiba, no Paraná. O contrato original, que selou a parceria da Odebrecht com Lula, leva a assinatura de Alexandrino e de Paulo Okamotto, braço direito do ex-presidente. Lula e Alexandrino se conhecem desde os tempos de Lula no Planalto. A proximidade entre eles era tão grande que se cumprimentavam com um beijo no rosto. Essa intimidade se intensificou após 2011, quando Lula passou a defender, ao lado de Alexandrino, os interesses da Odebrecht no exterior. Um relatório de perícia do MPF sobre os movimentos migratórios de Lula e o ex-funcionário da Odebrecht aponta que os dois companheiros compartilharam ao menos cinco voos juntos nos últimos quatro anos, de acordo com dados extraídos do sistema de tráfego internacional da Polícia Federal. Nesta semana passada, no depoimento ao Ministério Público, Lula manteve uma distância olímpica do amigo ao dizer que “Alexandrino era representante da Odebrecht, não sabendo precisar o cargo; que só tinha relação profissional com Alexandrino”.





Um dos destinos da dupla foi uma caravana para Cuba e República Dominicana entre 28 de janeiro e 3 de fevereiro de 2013. Lula recebeu R$ 373 mil pelas palestras. Naquela ocasião, Lula visitou o Porto de Mariel, parceria entre a Odebrecht e o governo cubano. Ao todo, a obra recebeu US$ 832 milhões do BNDES com um prazo para pagamento de 25 anos – e com uma parte das garantias atreladas à produção de fumo na ilha. Quatro meses após a passagem de Lula por Cuba, o banco estatal brasileiro liberou a quinta parcela do financiamento do projeto, de US$ 229,9 milhões (R$ 482,7 milhões), que estava represada devido ao atraso nos pagamentos e à falta de garantias para a operação. Em 31 de janeiro, Lula desembarcou na República Dominicana, onde se encontrou com o presidente Danilo Medina. E lá foi o líder petista visitar, novamente, outro canteiro de obras da Odebrecht. Seis meses depois, a Odebrecht conseguiu mais US$ 114 milhões (R$ 228 milhões) do BNDES para desenvolver o corredor Viário Norte-Sul no país.

Procurada, a Odebrecht afirma por meio de nota que mantém “uma relação institucional e transparente com o ex-presidente Lula. O ex-presidente foi convidado pela empresa para fazer palestras para empresários, investidores e líderes políticos sobre as potencialidades do Brasil e de suas empresas, exatamente o que têm feito presidentes e ex-presidentes de outros países, como Estados Unidos, França e Espanha”. A Odebrecht nega que Lula tenha feito lobby em seu favor junto a governos estrangeiros. O depoimento de Lula pode ter sido agradável, mas o Ministério Público Federal no Distrito Federal estuda formar uma força-tarefa de procuradores para investigar as suspeitas de tráfico de influência. Pediu até o compartilhamento de provas da Operação Lava Jato que mencionem o ex-presidente, a Odebrecht e o BNDES.

(Foto: Sergio Moraes/Reuters)
O ex-presidente Lula

O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, o “Paulinho”, omitiu aos investigadores informações nada triviais, como encontros com o ex-presidente Lula, para tratar de assuntos da Petrobras. Os investigadores sabem que Paulinho tem condições de ajudá-los a ir
além do ex-ministro José Dirceu na investigação.

Baiano relata em detalhes sua atuação a serviço do PT e aliados no assalto à Petrobras

Daniel Pereira e Robson Bonin
Revista VEJA

Em um documento de dezesseis páginas obtido por VEJA, lobista Fernando Soares, o Fernando “Baiano”, revela ter pago propina ao presidente do Congresso, ao líder do governo Dilma no Senado, a um ministro do governo Lula e a um senador do PMDB

 (Cristiano Mariz/VEJA) 
Em sua delação premiada, Fernando Baiano contou que o esquema de 
corrupção na área internacional da Petrobras começou em 2006, no 
governo Lula, envolveu os senadores Renan Calheiros (PMDB), Delcídio 
Amaral (PT), Jader Barbalho (PMDB) e o ex-ministro Silas Rondeau, 
que, após o mensalão, substituiu a então ministra Dilma Rousseff no cargo

O ex-presidente Lula se reuniu no fim de junho com os líderes do PT e do PMDB, em Brasília. O encontro ocorreu na casa de Renan Calheiros, presidente do Senado. Acossado pelo petrolão, o maior escândalo de corrupção da história do Brasil, Lula saiu-se com a tática que sempre adotou, com sucesso, nesses casos: arrastar mais gente para o seu lado, na tentativa de tornar o grupo maior do que a boca do abismo que o ameaça. Lula disse aos presentes que toda a primorosa investigação da Polícia Federal secundada pelo trabalho implacável dos procuradores federais e de juízes de diversas instâncias não passa de uma "campanha para desmoralizar a classe política". 

Lula chamou de arbitrários o juiz Sergio Moro e os demais responsáveis pela Operação Lava-¬Jato. "O país foi sequestrado pelo Moro. Temos de reagir no Supremo Tribunal Federal", concordou José Sarney, o ex-¬presidente cuja filha, Roseana, é investigada no caso. Obviamente o objetivo da reunião na casa de Renan não foi arrancar o país das garras do arbítrio e devolvê-lo à normalidade democrática. O objetivo foi encontrar um jeito de restaurar a velha ordem da impunidade para os poderosos da República que a Lava-Jato ameaça contrariar pela primeira vez em nossa história.

Em comum, muitos dos participantes da reunião tinham, além do fervor republicano, o fato de estarem na boca dos delatores da Lava-Jato como beneficiários do dinheiro desviado da Petrobras. Até mesmo Delcídio Amaral, líder do governo no Senado, que participou da reunião, acabou enlaçado no escândalo. Lula, Renan e Delcídio foram listados como beneficiários do petrolão pelo lobista Fernando Soares, o Fernando "Baiano". 

Em sua delação premiada ao Ministério Público, Baiano declarou ter pago a José Carlos Bumlai, compadre de Lula, 2 milhões de reais em propina, cujo destinatário final seria uma nora do ex-presidente. Comparsa de petistas e peemedebistas, Baiano narrou minuciosamente como intermediou propina para as lideranças dos dois partidos. Tudo custeado pelos cofres da Petrobras. Tudo registrado em um documento de dezesseis páginas obtido por VEJA, no qual o delator, condenado a dezesseis anos e um mês de prisão por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, relata em detalhes sua atuação a serviço do PT e aliados no assalto à Petrobras.

Tudo sobre as contas suspeitas de Eduardo Cunha na Suíça

Talita Abrantes
EXAME.com 

José Cruz/Agência Brasil


São Paulo – O Supremo Tribunal Federal (STF) abriu, na noite de ontem, uma nova frente de investigações de atividades suspeitas do presidente da Câmara,Eduardo Cunha. Na mira do novo inquérito estão as contas secretas atribuídas ao peemedebista na Suíça.

A suspeita é de que um contrato de 34,5 milhões de dólares fechado em 2011 pela Petrobras, em Benin, na África, serviu para irrigar as contas na Suíça cujos beneficiários são Cunha e a esposa, Cláudia Cruz.

O presidente da Câmara nega que seja detentor de contas no país. Nesta sexta, a TV Globo teve acesso a imagens de passaporte e assinatura do peemedebista que comprovam a titularidade das contas. 

A PGR afirma que há indícios de corrupção e lavagem de dinheiro por parte de Eduardo Cunha e a mulher, Cláudia Cruz. A filha do primeiro casamento do peemedebista, Danielle Dytz da Cunha Doctorovich, também será investigada por deter cartão de crédito vinculado à  principal conta do presidente da Câmara na Suíça.

Veja os principais fatos sobre as contas da família na Suíça:

Mais de R$ 10 milhões bloqueados
Segundo as investigações do Ministério Público da Suíça, Cunha é beneficiário final de uma conta aberta em nome da empresa Netherton Investments PTE LTD em setembro 2008 – que, de acordo com o jornal Folha de S. Paulo, foi criada pelo mesmo homem que ajudou o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró a abrir uma conta na Suíça. 

A esposa do peemedebista, Cláudia Cordeiro Cruz, por sua vez, responde pela conta Kopek, aberta em janeiro de 2008. Em abril deste ano, o equivalente a 10,3 milhões de reais foi bloqueado em ambas contas.

Duas contas fechadas dias após o início da Lava Jato
Ainda de acordo como o dossiê suíço, Cunha é o beneficiário final de outras duas contas – que foram fechadas em 9 de abril do ano passado, menos de um mês depois do início das investigações da Operação Lava Jato.

6 depósitos de R$ 5,3 milhões suspeitos 
Entre maio e junho de 2011, uma dessas contas – com sede em Edimburgo, na Grã Bretanha – recebeu o equivalente a 5,3 milhões de reais em depósitos feitos pela empresa ACONA International Investments Ltd.

Os pagamentos foram realizados por meio de uma conta na Suíça cuja beneficiário é o lobista João Augusto Henriques, ex-funcionário da Petrobras preso na Operação Lava Jato. Ele é apontado como lobista do PMDB desde 1999, quando deixou a estatal.

Um negócio de US$ 34,5 milhões na mira das investigações
De acordo com o relatório da PGR, Henriques combinou que receberia a comissão de 10 milhões de dólares de um contrato de 34,5 milhões de dólares fechado entre a Compagnie Béninoise de Hydrocarbures (CBH) e a Petrobras em Benin, na África.

Dois dias depois da celebração do contrato em maio de 2011, Jorge Henriques recebeu o montante combinado e, em seguida, transferiu em 6 depósitos o equivalente a 5,3 milhões de reais para a conta controlada por Eduardo Cunha.




A cota de Renan no petrolão

Daniel Haidar E Talita Fernandes
Revista ÉPOCA

O lobista Fernando Baiano afirma que propina de US$ 6 milhões por uma sonda da Petrobras foi paga ao PMDB – parte foi para o presidente do Senado


(Foto: Ueslei Marcelino/Reuters) 

ASSOCIADOS
O presidente do Senado, Renan Calheiros (acima), e trecho do depoimento
do lobista Fernando Baiano (abaixo). Mais de US$ 50 milhões
escoaram pelo duto da corrupção 

(Foto: Geraldo Bubniak/AGB/Estadão Conteúdo)



Desde seu início, a Operação Lava Jato gera conversas tensas no gabinete do presidente do Senado, Renan Calheiros, do PMDB. Com seus aliados, Renan já temeu o que poderia surgir da Transpetro, subsidiária da Petrobras comandada durante 11 anos por seu afilhado Sérgio Machado. Recentemente, o foco de suas preocupações se transferiu para os depoimentos prestados pelo lobista Fernando Soares, o Baiano, no acordo de delação premiada. Há quase nove meses preso em Curitiba, Fernando Baiano revelou nas últimas semanas a extensão da influência de líderes do PMDB na Petrobras. Mais especificamente, Baiano contou que parte da propina obtida em contratos da estatal com empresas privadas era direcionada a Renan Calheiros.

A área de atuação de Baiano era a diretoria de Internacional da Petrobras, em que Nestor Cerveró e, em seguida, Jorge Zelada reinaram graças ao apoio do PMDB. Baiano contou aos investigadores que, no segundo mandato de Lula, foi avisado por Silas Rondeau, então ministro das Minas e Energia, que Cerveró passaria a ser copatrocinado pelo PMDB do Senado, do qual Silas era soldado e Renan general. A partilha da propina pelos contratos na área Internacional deveria, portanto, contemplar também o PMDB do Senado, como determina o fisiologismo brasileiro. Um dos negócios desse novo acordo, que beneficiou Renan, foi a partilha na contratação da empresa Samsung Heavy Industries, em 2006, para a construção de um navio-sonda para a Petrobras: o Petrobras 10000, adquirido pela estatal por US$ 586 milhões, para ser utilizado na exploração de petróleo em águas profundas, em campos adquiridos pela empresa em Angola, na África. A Petrobras se deu mal. Os poços explorados se mostraram secos. A propina, no entanto, não tinha nada a ver com esses percalços. Foi paga.

Quando Zelada assumiu a Diretoria Internacional, em 2008, por indicação da bancada do PMDB na Câmara, Baiano passou a manter contato com o deputado Eduardo Cunha, conforme narrou em sua delação. E diz ter pagado propina a Cunha. O Ministério Público Federal já rastreou mais de US$ 50 milhões em pagamentos de comissão por esses contratos. É tanto dinheiro, durante tantos anos, que até o insaciável PMDB ficou satisfeito. No acordo de delação, Fernando Baiano detalha que foi avisado que o PMDB do Senado tinha direito a seu quinhão. Os senadores Renan Calheiros e Jader Barbalho deveriam receber US$ 6 milhões pelo negócio da sonda. Fernando Baiano deu detalhou os pagamentos. Contou que não pagou diretamente a Renan. De suas mãos, o dinheiro desviado da Petrobras trilhou dois caminhos. Parte foi direcionada a outro lobista, Jorge Luz. Paraense, Luz é um veterano da arte de unir Petrobras, empresas privadas e políticos bem posicionados. Consolidou sua carreira, no governo Lula, pela influência de outro chefe do PMDB, o senador Jader Barbalho, atual aliado de Renan em batalhas no Congresso. Jorge e seu filho, Bruno Luz, cuidaram de pagar Renan em contas no exterior. A parte operacional ficava por conta de um gerente de contas na Suíça, em especial dos bancos PKB e Pictet.

A outra parte da comissão foi paga por meio do deputado federal Aníbal Gomes, do PMDB cearense. Parlamentar de pequena expressão, Gomes é um notório auxiliar de Renan. No caso dos negócios com a Petrobras, era seu emissário à sede da Petrobras, onde esteve 45 vezes desde 2007, e ao gabinete de Silas Rondeau no ministério, onde ia pelo menos duas vezes por semana. Aníbal Gomes e Renan são investigados em inquérito no Supremo Tribunal Federal desde março, quando o ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa mencionou a dupla como beneficiária de negócios na estatal. O Ministério Público Federal notou uma curiosa prática de Gomes, típica de quem “esquenta” dinheiro de origem ilícita. Nas declarações de Imposto de Renda, Gomes dizia ter R$ 1,3 milhão em espécie no ano de 2010 e R$ 1,8 milhão em 2014.

Como ÉPOCA revelou em março de 2014, Baiano era um dos lobistas mais poderosos em atuação na estatal, com bom trânsito entre as multinacionais do setor, tanto no Brasil quanto no exterior. No mundo dos interesses que gravita ao redor da Petrobras, Fernando Baiano nunca foi um mero operador de partidos políticos, muito menos exclusivo do PMDB, como confirmaram a ÉPOCA quatro fontes diferentes. Em dado momento da atuação do petrolão, no entanto, os interesses partidários bateram a sua porta. Baiano já conhecia políticos, é óbvio, de trabalhos anteriores na esfera carioca. Na partilha da propina do petrolão, esquadrinhada pela Operação Lava Jato, ele passou a cuidar da distribuição do suborno para a bancada do PMDB e, em um segundo momento, atendeu também a parlamentares do PT. Chegou a representar o estaleiro OSX, do empresário Eike Batista. Baiano disse ter pagado R$ 2 milhões ao empresário José Carlos Bumlai, amigo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pela obtenção de contratos do pré-sal para o OSX. O negócio deu errado, mas Baiano pagou porque Bumlai disse que precisava honrar compromissos de Fábio Luiz da Silva, um dos filhos de Lula.

Baiano resistiu por muito tempo a contar o que sabe. Ficou mais propenso a delatar políticos depois de ser condenado a 16 anos de prisão e pagamento de R$ 2 milhões de multa, em agosto. Pelo acordo de delação premiada, Baiano se comprometeu a devolver R$ 13 milhões, um valor que surpreendeu pelos milhões que movimentou no esquema. O advogado de Fernando Baiano disse que não pode comentar os termos da delação. Por meio de sua assessoria, Renan afirmou que não conhece Fernando Baiano e que não autorizou o deputado Anibal Gomes a falar “em meu nome em qualquer circunstância. Quanto a Jorge Luz, conheço, mas não o vejo há mais de dez anos”.  O deputado Anibal Gomes (PMDB) afirma que conheceu Baiano “há uns quatro anos, em um restaurante”, mas nunca o encontrou. “Eu conheço melhor o doutor Jorge Luz. Mas jamais tratei de valores, de negócios ou de nenhuma relação comercial com nenhum dos dois. Nem direta nem indiretamente”, disse. “Minha relação com o senador Renan Calheiros é a mesma que tenho com outros senadores do partido. Nunca recebi valores em nome do senador.” Advogados de Jorge Luz não conseguiram “respostas” do cliente sobre o assunto.

As desventuras do Mercosul

Carlos José Marques
Revista ISTOÉ

Reunidos em Montevidéu para o 20º Meeting, políticos e empresários do Brasil e Uruguai começam a falar no risco de fim do bloco comercial latino após o surgimento do Acordo de Parceria Transpacífica

O Mercosul está embarcando numa aventura perigosa. Tenta reinventar a roda intramuros de seus próprios domínios. Quer se desenvolver única e exclusivamente incrementando o comércio interno. Nos últimos tempos ele produziu quase nada de acordos bilaterais com economias de outros continentes. Esqueceu-se que Europa, Ásia e EUA continuam a ditar os fluxos globais de negócios. O Mercosul poderia ter sido hábil em entendimentos com potenciais compradores de suas mercadorias. Não foi. Deveria mirar contratos de exportação que privilegiassem sua confortável produção de insumos básicos – dos alimentos ao petróleo. Não o fez. Agora paga o preço. O Mercosul acaba de ser literalmente atropelado, quase exterminado do mapa, pelo Acordo de Parceria Transpacífica (na sigla em inglês TPP). O mega acordo que reuniu 12 países, entre eles EUA e Japão, além dos vizinhos Chile e Peru, vai controlar praticamente 40% do PIB mundial. Deve ditar a competição do comércio planetário e estabelecer regras vantajosas para seus signatários. Quem estiver de fora vai perder, não há dúvida! No time dos excluídos, a corriola de aliados endividados da região. O Brasil que adentrou a década de 90 com a perspectiva de explodir como potência mundial, regride a passos largos para cair fora do clube das dez maiores economias. Desenho estatístico de uma nação cujos governantes enxergaram pequeno. Foram atrás da lorota de tachar megaparceiros de “imperialistas” espoliadores. Erraram feio!


Essa posição nada confortável dos latinos galvanizou as discussões e as duras críticas emitidas pelos participantes do 20º Meeting Internacional do LIDE, montado na capital uruguaia, Montevidéu. O mesmo Uruguai já havia sido palco do primeiro dos encontros entre CEOs e empresários que anualmente se reúnem sob a batuta de João Doria Jr. Voltou a abrigar essa turma na condição de país-sede da Secretaria do Mercosul. Luiz Fernando Furlan, o ex-ministro do desenvolvimento que assumiu a posição de chairman of the board do LIDE, lembra uma curiosa história que ajuda a explicar o tamanho do descrédito e da desorganização ainda em voga nas paragens do Mercosul. Diz ele que em determinado momento, durante uma reunião no âmbito da OMC, o então diretor-geral da Organização, Pascal Lamy, fez uma pergunta capciosa para os seus interlocutores sulamericanos. Queria saber Lamy: “se tenho que falar com alguém do bloco para quem eu ligo? Qual o email?”. Ninguém sabia responder. Desconcertados na ocasião, ainda hoje não deram solução definitiva para o impasse.


Os ex-presidentes Jorge Quiroga, da Bolívia, e Luis Lacalle, do Uruguai
concordam: 'ou o Mercosul muda, ou encerra. Como está, chega!'

“Nossa sede é só de direito, mas não de fato. É figurativa! Nossa interlocução para colocar adiante iniciativas e propostas continua precária”, critica Furlan. Na prática, com quase 25 anos de existência, a serem completados em março de 2016, o Mercosul segue como uma caricatura dele mesmo. Era para fincar suas bases numa magnífica associação comercial. Relegou os entendimentos ao plano político, meramente, no qual prevalecem interesses partidários e conchavos para a perpetuação de um poder bolivariano entre os países-membros. É quase unânime no meio empresarial a avaliação de que a Venezuela, por exemplo, ao se incorporar a zona de livre comércio não agregou qualquer vantagem. Provocou - isso sim! - ainda mais conflitos com potenciais interessados em acordos. Tal qual Argentina, a Venezuela adota um discurso externo belicoso, de confronto e a favor do protecionismo , para garantir mercado na região. “Estamos sempre olhando para dentro de um bloco que não nos completa e nos deixa de fora da competitividade internacional”, reclama Luis Alberto Lacalle, ex-presidente do Uruguai, que foi um dos mais inflamados participantes do Meeting. É possível prever que num dado momento, em alguma das inúmeras rodadas de conversas das quais participa, Lacalle estará fadado a desagradar alguém, tamanha a ênfase com que levanta suas ideias. “Ou o Mercosul muda, ou encerra. Como está, chega!”, decretou. A franqueza e objetividade usadas por ele para alertar sobre os perigos que rondam o Mercosul foram elogiadas na plateia. “Não há barreiras geográficas entre os países do bloco. Mas, sim, mentais e políticas! Precisamos revisar o que é e qual é o real significado dessa associação”. Empresários, presentes no Meeting, que mexem rotineiramente com mercados internacionais, tinham na ponta da língua a solução. Na visão deles, as nações mais desenvolvidas falam em termos comerciais, de compra e venda, e se a América Latina não se atualizar vai perder a corrida do crescimento. Na prática, os sinais do atraso já são notados. Amplamente! Nos últimos tempos, os bônus do Brasil despencaram. As ações de Argentina, Venezuela, Bolívia e quetais não valem um tostão furado. São trocadas por quase nada. O retumbante fracasso na região evidenciou-se com o aumento das taxas de desemprego, inflação e desvalorização da moeda. Enquanto isso, as autoridades teimam em não aceitar o óbvio.

O EX-PRESIDENTE DO BID, ENRIQUE IGLESIAS:
'Dessa forma, não apenas o Brasil, mas todos do Mercosul ficarão completamente isolados'

Elas falharam e os empreendedores suspeitam que a conta sairá cara. Diz Furlan, na condição de ex-ministro do desenvolvimento, vocalizando os anseios da maioria: “temos que ter um ‘wake up call’ no comércio exterior, quantos países no mundo têm um acordo de livre comércio com a Palestina?”. O Brasil tem e esse é um dos três míseros acordos que o País conseguiu firmar sem a ingerência direta de seus sócios latinos. “É impressionante que o Pacífico já tenha mais de 70, 80 acordos e o Brasil se limite a três!”, surpreendeu-se Enrique Iglesias, ex-presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e atual presidente da Fundação Astur, que promove mesas redondas entre personalidades internacionais. “Se assim continuar, não apenas o Brasil, mas todos do Mercosul ficarão completamente isolados”. Iglesias têm tido muita dificuldade em convencer autoridades locais sobre esse risco. Elas estão, no seu entender, mais atentas a índices pessoais de popularidade e seus esforços concentram-se na autopromoção, nada mais. Jorge Quiroga, ex-presidente da Bolívia, que se converteu numa espécie de arauto das liberdades democráticas e corre o mundo denunciando os abusos cometidos principalmente na Venezuela, diz que a América Latina enfrenta vários projetos populistas e autoritários, retardando assim o seu desenvolvimento. Mas destaca exemplos positivos. “Há mais de 40 tratados e acordos de livre comércio no Chile. Por que os outros não seguem?”. O Uruguai tem se empenhado nesse sentido. Com uma economia crescendo fora da curva, ao ritmo de 5% ao ano (inclusive neste), já alcançou uma renda per capita da ordem de US$ 20 mil. E segue assinando tratados bilaterais como o TLC com o México e o TIFA com os EUA. “A estabilidade política e econômica, o baixo nível de corrupção e a boa qualidade de vida fazem do Uruguai um destino mais que atrativo para qualquer empreendimento de negócios”, alega João Doria. Com Chile, Peru e Uruguai correndo por fora, é de se lamentar a persistência brasileira em manter-se num abraço de afogados, principalmente com Argentina e Venezuela. Deixou de lado a razão. 





Toffoli reage a manobra e desiste de enviar observadores à eleição na Venezuela

Redação
Diário do Poder

Toffoli não confia na independência do grupo de observadores

(FOTO: NELSON JR)
 Toffoli foi convidado para observar as eleições no Canadá, 
mas pagou do próprio bolso as despesas da viagem. 

O ministro Dias Toffoli, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), decidiu que o Brasil não mais enviará técnicos para acompanhar, inclusive na condição de observadores, a eleição legislativa na Venezuela, prevista para 6 de dezembro.

Ele pretendia que o jurista Nelson Jobim, ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, respeitado e ex-ministro da Justiça, chefiasse a missão de observadores internacionais, até para garantir a independência do grupo diante das habituais pressões do regime venezuelano chefiado por Nicolás Maduro.

O ministro Toffoli ficou muito desapontado ao ser informado de que o secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, simpático ao regime chavista, indicou Jorge Taiana, ex-terrorista do grupo Montoneros e ex-chanceler da Argentina, para chefiar essa missão internacional. Como Samper, Taiana é francamente comprometido com o governo autoritário da Venezuela.

Como não tem razões para confiar na independência da missão chefiada por Taiana, Dias Toffoli decidiu que o TSE não vai enviar representante, até para não coonestar eventuais irregularidades na eleição. Em nota oficial, a ser divulgada ainda neste sábado (17), o ministro oficializará e explicará sua decisão.


O chavista Samper e sua amiga Dilma.

Interferência inadequada
Em Brasília, nesta sexta-feira, o senador Aloysio Nunes (PSDB-SP), presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado, cancelou reunião com Samper após o estrangeiro dar palpites sobre assuntos internos do Brasil, criticando as propostas de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Samper repetiu interferências igualmente inadequadas dos presidentes Cristina Kirchner (Argentina), Ariel Ortega (Nicarágua), Evo Morales (Bolívia) e Maduro (Venezuela). Aloysio Nunes protestou contra a interferência estrangeira: "Vêm nos dar lição de democracia quando não abrem a boca pra falar sobre a tirania venezuelana".

A não-interferência em assuntos internos dos países é um dos dogmas da diplomacia em todo o mundo, sempre ignorado pelos regimes autoritários simpáticos ao chavismo ou dependentes dos favores do petróleo venezuelano.

Viagem por conta própria
Toffoli resolveu não mais enviar observadores às eleições na Venezuela ao desembarcar nesta sexta-feira (16) em Otawa, no Canadá, para uma visita oficial.

O presidente do TSE foi convidado pelo organismo eleitoral canadense para atuar como observador qualificado das próximas eleições gerais do País, que se realizarão nesta terça-feira (19).

O ministro viajou ao Canadá às próprias custas, pagando passagens e hospedagem, recusando-se inclusive a receber diárias.

Na terça, deverão ser eleitos 338 deputados, correspondentes a 338 distritos.

A eleição está apertadíssima. Segundo todas as pesquisas de opinião, provavelmente nenhum dos três grandes partidos – Conservador, Liberal e NDP (Novo Partido Democrático) – conseguirá a maioria absoluta de 170 deputados.

O DEA chega ao Rio

Eliane Lobato 
Revista ISTOÉ

Agentes da polícia americana abrem escritório na cidade para entrar na guerra contra o tráfico de armas

A agência Drug Enforcement Administration (DEA), de combate ao narcotráfico dos Estados Unidos, vai abrir um escritório no Rio de Janeiro, atendendo a um pedido do Secretário de Segurança estadual, José Mariano Beltrame, que esteve na sede do departamento americano há dois meses. “Dois agentes da DEA já estão na cidade providenciando isso”, disse ele à ISTOÉ. O objetivo é fazer um levantamento das rotas pelas quais as armas estrangeiras entram no Brasil e chegam às mãos do tráfico. “O nome DEA abre portas no mundo inteiro, teremos as informações com mais rapidez e, conhecendo os itinerários, vamos poder agir”, afirmou o secretário. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP), da Secretaria de Segurança, mostram que foi apreendido, em média, um fuzil por dia de janeiro a agosto deste ano (leia quadro). Os agentes dos EUA também colaborarão no esquema de segurança dos Jogos Olímpicos 2016, que contará com 85 mil homens. “Os americanos têm expertise com o terror, além de capilaridade mundial. Vão nos ajudar”, disse Beltrame. O DEA ficou mais conhecido no Brasil a partir de agosto, com a estréia da série Narcos, sobre a vida do traficante colombiano Pablo Escobar, narrada por um agente do grupo. 


CONFRONTO
Acima, bando de criminosos com fuzis circula na favela de
Manguinhos, no Rio. Abaixo, os americanos do DEA


Muitas das armas já apreendidas têm origem nos Estados Unidos, como o fuzil Barret .50 que é capaz de destruir carros blindados, encontrado pelo Bope há dois meses com traficantes do Comando Vermelho em uma favela carioca . “Esta é uma arma criada para guerra. Como estava aqui?”, questiona Beltrame. Sabe-se, agora, que foi comprada legalmente por um cidadão americano em uma loja no Arizona, em 2006. Mas a trajetória desta arma até o bandido carioca é totalmente desconhecida. “Os agentes da DEA terão assento no nosso centro de comando, tudo terá mão dupla.” A agência atua no Brasil há muitos anos, mas sempre com o governo federal e por meio das embaixadas. Beltrame furou a fila -- essa será a primeira vez que os americanos irão trabalhar diretamente com uma polícia estadual.



O jurista e professor Walter Maierovitch lembra que uma alternativa para controle de armas foi dada pela ONU em 2013, quando a entidade determinou que todo país fabricante precisaria emitir um certificado de destinação final em suas vendas. “Porém, não existe órgão para verificar se a arma chega mesmo ao destino registrado. Então, isso não funciona.” Segundo o especialista, “o Paraguai é entreposto de venda de armamentos” para o crime organizado brasileiro. Maierovitch lembra que a DEA já enfrenta um problema similar ao nosso. “O país deles faz fronteira com o México, cujos cartéis compram armas nos Estados Unidos e, assim, ‘enfiam’ a droga no território americano.” No Brasil, igualmente, as armas abrem caminho para as drogas.


E quem sofre é o cidadão comum. Estima-se que, nos primeiros quatro meses deste ano, morreu uma pessoa a cada dois dias vítima de bala perdida no Rio, a maioria atingida por estilhaços do fuzil. O secretário Beltrame explica que os fuzis têm alcance de até três quilômetros e seu estilhaço pode atingir alguém a até 10 metros de distância. “Agora, estamos apreendendo muito fuzil AK 47, de origem russa, na versão mais moderna, sem cabo de madeira e, sim, de polímero (produto sintético formado de macromoléculas muito fortes e resistentes), e pistolas com adaptadores que aumentam o cabo, prolongam o cano e permitem usar um pente de 90 balas, praticamente transformando-as em um fuzil.” A PM não tem autorização para comprar esses instrumentos, porque são de uso restrito do exército. O secretário pede que não se afrouxe o Estatuto do Desarmamento (leia quadro) e, ao contrário, que se aumente a pena para quem portar armas restritas a militares. “Dez anos de cadeia serviriam para desencorajar os comparsas.” O rastreamento desse arsenal, com a rapidez para obtenção de informações internacionais via DEA, completa, segundo ele, as ações que podem vir a salvar muitas vidas.




Fotos: Pablo Jacob/Agência O globo