terça-feira, novembro 03, 2015

Falta um rei ao Brasil

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


MADRID – A história tem fila. O marechal Franco morreu em 20 de novembro de 1975, depois de longa agonia. (“Francisco Franco Caudilho de Espanha Por la Gracia de Dios” e la desgracia de los hombres…).  Logo no dia 22, o príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938, neto de Afonso XIII) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática. O Rei surpreende a Espanha, e o mundo, convoca uma Constituinte, e chama o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para Presidente.

Começava a grande lição da Espanha. E eu aqui na sala de aula.

O GOLPE
Aquela Constituinte era uma lição para o mundo. Depois de 41 anos de ditadura, a Espanha entregava o pais à competência determinação e sabedoria de três jovens : o rei Juan Carlos, 39 anos; o chefe do governo Adolfo Suarez, 45 anos; e Felipe Gonzalez o líder da oposição, 35 anos. Os três construíram a nova Espanha. Mas não foi fácil.

Em 1981, o tenente coronel Tejero, à frente de um pelotão do Exército, invadiu o Parlamento, todos de metralhadora na mão. Os deputados esconderam-se atrás de suas bancadas. Um só, desafiador, ficou de pé e mandou o tenente-coronel respeitar o Parlamento. Era Adolfo Suarez, já então apenas um deputado.

O rei, general e brigadeiro, chefe das Forças Armadas, pôs a farda de gala, foi ao ministério do Exercito e exigiu que Tejero e seu grupo fossem imediatamente presos. Foram e o golpe acabou.

FELIPE
No dia 6 de setembro de 1988, como fazia toda terça-feira, o carro do chefe do governo, Felipe Gonzalez, parou às 10 da manhã na porta do Palácio Zarzuela. Sobe ao 1º andar e entra no gabinete do rei:

– Senhor, quero aproveitar este primeiro encontro depois do verão para comentar uma coisa em que tenho pensado muito. Não é nenhuma comunicação oficial. Simplesmente o resultado de uma reflexão.

O rei tomou um susto: – O que é que há?

– Senhor, há quase 6 anos sou presidente do governo e me faltam dois de legislatura. Creio que 8 anos são um período suficiente e estou pensando na conveniência de não me apresentar para as eleições de 1990.

– Não continue. Peço-te que pense mais sobre isso e voltaremos a falar mais adiante.

– Desculpe que insista. Quero dizer-lhe que não desejo falar sobre o assunto. Nem agora nem nunca. Só queria que soubesse que há esta possibilidade e, em minha maneira de ser e de entender o jogo político, não quero que algum dia o senhor se surpreenda quando vier ao palácio entregar minha carta de demissão.

– Quero dizer-te não. É impossível. O país neste momento não pode prescindir de tua pessoa. A democracia e o senso de responsabilidade histórica estão acima do teu desejo de ir embora. Tens que continuar conduzindo o país.

Continuou, disputou e ganhou ainda as eleições de 90 e só saiu em 94 quando não disputou mais e o Partido Popular de José Maria Aznar venceu o partido Socialista, já liderado por outro.

Durante muito tempo se disse em Madri que a Espanha tinha um rei e um vice-rei. O vice-rei era Felipe, o ex Isidoro cabeludo.

Com comícios, eleições, o povo na rua, governo eleito, o jornal “El Pais” nascendo, a revista “Cambio 16” circulando livre, a Espanha de 1977 já era bem outra, muito diferente da Espanha fascista, que eu tinha conhecido antes, com Franco e o franquismo ainda vivos, em 1963 e 73.

A BRUXA
No Brasil é terrível constatar nossa desvalida República. Estamos precisando de um rei que como Juan Carlos da Espanha tivesse autoridade, respeitabilidade e assumisse o comando político na hora em que o país entrasse em perigo com sua unidade nacional abalada.

O espetáculo dantesco que o Congresso Nacional está dando todos os dias, abrindo as entranhas com divisões de interesses baratos e cada um buscando um naco de poder pode levar o pais a um impasse. É assim que as nações se esfarelam, se dissolvem.

Se tivéssemos uma presidente da República que não pensasse só em comprar a sua permanência no poder tudo seria mais fácil. Como estamos, em determinado instante alguma esfera legal do poder, (o Legislativo, o Judiciário) vão ter que interferir. Quem não tem rei caça com gato.

É inacreditável como uma Nação leva uma rasteira de uma Presidente. Imaginávamos que Dona Dilma, eleita, aplicaria seus talentos públicos para construir um país sólido e sereno. Como em uma história de carochinha, ela abriu a panela e passou a fazer maldades. Para quê? Ate agora para nada.

Estamos assim sem Rei, sem Rainha, nas mãos de uma bruxa.

Má partilha

J. R. Guzzo
Revista VEJA

À medida que o tempo passa, muita gente boa começa a fazer o inventário da trajetória do PT pelo governo, primeiro com o ex-presidente Lula e depois com a atual presidente Dilma Rousseff. Que herança vão deixar, no fim das contas, para a vida real do Brasil quando forem embora? Fora os próprios Lula, Dilma e seus admiradores, que pelas pesquisas de opinião somam hoje menos de 10% do público em geral, vai ficando cada vez mais difícil encontrar herdeiros satisfeitos, ou conformados, com a porção que lhes caberá na partilha. Não poderia ser diferente, com anos seguidos de governos dedicados a selecionar, o tempo todo, as piores opções disponíveis para lidar com qualquer problema — e, chegando aí, escolher sempre a pior de todas. Resultado: a menos que aconteça de repente algum fenômeno sobrenatural, a parte que cada um terá a receber nesse testamento vai ser uma perfeita miséria — salvo, é claro, para aqueles que de 2003 para cá souberam ficar no lado certo do guichê de pagamento do Tesouro Nacional e já receberam antecipadamente a sua parte. Mas nem tudo é prejuízo. Tirando casos puramente patológicos de lugares como a Venezuela, por exemplo, ficou claro a esta altura que Lula, Dilma, o PT e a "esquerda" brasileira têm hoje o que é possivelmente o melhor programa do mundo para governar mal qualquer coisa que tenha de ser governada. Junto com a herança, deixam um roteiro valioso para o futuro: se for feito o contrário do que fizeram, nada poderá dar realmente errado neste país.

Onde o governo petista foi à falência? A primeira resposta possível a essa pergunta é fácil: o PT tomou a decisão de governar o Brasil através do uso intensivo da corrupção. Não foi um acidente. Foi uma estratégia: os comandantes do partido e das forças a seu serviço se convenceram de que a maneira mais eficaz de ocupar a máquina do governo e não sair mais dali era encher de dinheiro público a si próprios, os amigos e os amigos dos amigos. A melhor prova de que agiram de caso pensado foi sua reação quando a ladroagem começou a ser descoberta — em vez de se corrigirem, procurando uma clínica de desintoxicação, partiram para a mais agressiva campanha pública em defesa da corrupção já registrada na história da República. É bem simples entender isso quando se considera que o maior feito do PT neste ano, em seu congresso nacional, em junho, foi aplaudir de pé o ex-tesoureiro João Vaccari Neto, a mais graduada estrela petista nos processos de corrupção em massa na Petrobras, recém-condenado a quinze anos de cadeia pela 13- Vara da Justiça Federal de Curitiba.

A entrega da alma à roubalheira é o fruto inevitável do pecado original que envenenou os governos de Lula e Dilma — sua opção de viver em incesto com o Brasil velho, velhíssimo, cujo mandamento número 1 é transformar o patrimônio público em propriedade privada de quem está mandando nas engrenagens do Estado e do Erário. O PT é hoje um grande especialista em virar páginas da história para trás — ficou mais parecido do que nunca com a "direita", que tanto ataca nos palanques e tanto copia nos atos da vida real. Investiu tudo para deixar as questões essenciais do país exatamente onde sempre estiveram e, obviamente, só poderia obter os mesmos resultados. A prova desse casamento com o atraso está nos fatos. O Brasil de 2015 continua sendo, como era em 2003, um dos países campeões do mundo em desigualdade social. Os sindicatos de trabalhadores jamais foram tão fracos; são apenas repartições públicas que obedecem ao governo, vivem de dinheiro tirado dos impostos e têm como principal função fornecer sustento e prosperidade a seus próprios dirigentes. A maior despesa do poder público está no pagamento de juros.

A matriz dos erros do PT e de seus governos pode ser encontrada, basicamente, numa prodigiosa preguiça mental que os faz viver em pleno século passado. Suas lideranças são proibidas de pensar. Continuam dependentes de ideias mortas, repetindo o palavrório usado pela esquerda nos anos 80, ou 50, ou até 30; recusam-se a entender que o "socialismo" é uma fé extinta, como o esperanto ou a crença na Terra plana, e recusam-se a fazer o mínimo esforço para conviver com as realidades de um mundo regido pela liberdade econômica, pelo império do conhecimento e pela democracia. A consequência é que o PT não consegue funcionar como fonte geradora de nenhuma proposta coerente para o Brasil; tem um método, mas é incapaz de ter um programa. Não reage mais a estímulo algum. É como se estivesse em estado de morte cerebral, respirando artificialmente por aparelhos — no caso, os cargos que ocupa na máquina pública, e apenas isso. Os "movimentos sociais" que apresenta como sua grande base de apoio não podem mais sobreviver sem dinheiro público. Mais que tudo, talvez, o PT e a esquerda nacional não existem sem Lula. A recusa em pensar os condenou a viver como um bando de passarinhos pendurados no fio elétrico — pousam e levantam voo sem nunca saber por quê, preocupados unicamente em ir para onde Lula está indo. Pagam, agora, um preço alto por sua opção: quando não houver mais Lula, não haverá mais PT.

Após treze anos no poder, o PT e a esquerda se tornaram a mais agressiva de todas as forças que hoje atuam contra as mudanças indispensáveis para o avanço social do Brasil. São defensores intransigentes de aberrações como o "ensino superior gratuito" — um prodígio de injustiça pelo qual a empregada doméstica paga a universidade pública dos filhos da patroa. Não admitem a mínima reforma no mais selvagem sistema de concentração de renda hoje em vigor no mundo — a Previdência Social brasileira, que gasta mais dinheiro com 950 000 aposentados do funcionalismo público do que com 27 milhões de cidadãos que passaram a vida trabalhando fora do governo. Chamam de "conquista social" o que é privilégio. Confundem pleno emprego com emprego a qualquer custo — e se tornam, com isso, os grandes incentivadores do barateamento do trabalho neste país. Vivem em guerra contra o lucro das empresas, incapazes de entender que empresas sem lucro não contratam nem aumentam salários. Ignoram que a única hora em que o trabalhador fica em posição de vantagem é quando as empresas estão indo bem, pois só aí investem; só quando investem, aumentam a oferta de emprego — e só aí precisam pagar mais pela mão de obra. Lula, Dilma e o PT acham que "o governo" tem dinheiro para "distribuir", quando a sua única fonte de recursos é o dinheiro dos outros — é inevitável que um dia falte, pois não pode ser reproduzido por vontade divina, e nessas horas os que menos receberam são os primeiros chamados a devolver o pouco que lhes foi dado, como se vê na recessão de hoje. Não admitem que só o bom funcionamento da economia de mercado é capaz de criar e aumentar renda. São os inimigos número 1 do mérito individual como gerador de progresso. Não aceitam a ideia de que a desigualdade tem de ser combatida com a garantia de oportunidades iguais para todos, e não com a distribuição automática dos mesmos resultados — que têm, obrigatoriamente, de variar segundo o talento e o esforço de cada um.

O Brasil que o PT quer é esse. Não pode dar certo.

Um governo perdido

Editorial 
O Estado de São Paulo

Mais um recorde foi batido pela presidente Dilma Rousseff, além da recessão mais longa do pós-guerra e do maior desajuste acumulado nas contas públicas na vigência da Lei de Responsabilidade Fiscal. Ao desastre econômico do primeiro mandato ela conseguiu adicionar o fiasco de 2015, ano inicial de seu segundo período. Para ganhar alguma popularidade, ela poderia, talvez, instituir um prêmio para quem adivinhar o tamanho do buraco nas contas federais neste ano. Para premiar o vencedor, no entanto, o governo teria de saber a resposta. Por enquanto, esse número parece uma incógnita para a equipe econômica. Pode ser qualquer valor entre R$ 51,8 bilhões e R$ 103 bilhões, se for considerado apenas o déficit primário, isto é, o resultado sem a conta de juros. Como Estados e municípios podem fechar o ano com um superávit de R$ 2,9 bilhões, o déficit primário do setor público, na melhor hipótese, poderá ficar em R$ 48,9 bilhões.

Esses números foram indicados em mensagem sobre a nova meta fiscal enviada ao Congresso na quarta-feira. A palavra meta, sinônimo de objetivo ou alvo, parece um tanto imprópria nesse contexto. Os autores desse documento deveriam abster-se, em benefício da segurança pública, de participar de qualquer competição de pontaria com arma de fogo ou com arco e flecha. Mas a pontaria parece até uma questão menor, quando se examinam as causas da incerteza.

Para alcançar o melhor resultado – o déficit de R$ 51,8 bilhões nas contas federais –, o governo terá de obter, em primeiro lugar, R$ 11 bilhões com a licitação de 29 hidrelétricas. A outorga poderá render outros R$ 6 bilhões em 2016. Mas esse leilão já foi adiado de 30 de outubro para 6 de novembro e em seguida para o dia 25. O novo adiamento foi publicado na quarta-feira no Diário Oficial da União. É no mínimo imprudente incluir essa receita na estimativa do resultado fiscal.

Em segundo lugar, o déficit só ficará na casa dos R$ 50 bilhões ou R$ 60 bilhões se o Tesouro for dispensado de liquidar neste ano qualquer parcela das pedaladas de 2014 – o dinheiro devido a bancos estatais por atraso em repasses. Na pior hipótese, a de liquidação total neste ano, será preciso somar R$ 40 bilhões ao déficit.

Mais que um problema de contas públicas, essa enorme insegurança mostra – mais precisamente, confirma – um governo sem rumo e sem liderança, incapaz de oferecer qualquer informação razoavelmente segura sobre sua política nos próximos 12 meses.

O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, continua falando sobre o ajuste das contas públicas como condição indispensável para a estabilização da economia e, em seguida, para a retomada do crescimento. Continua, também, falando sobre a necessidade de amplas mudanças, como a simplificação de regras para os investimentos e maior integração do País no mercado global. Para isso seria preciso renegar o intervencionismo petista (obviamente vinculado à apropriação do Estado) e a diplomacia terceiro-mundista.

Não se sabe sequer se a presidente Dilma Rousseff percebe o alcance e a importância dessas mudanças. Suas decisões, até agora, apenas confirmaram a fidelidade à orientação implantada pelo antecessor, incluída a subordinação aos interesses bolivarianos.

Mas a desorientação do governo preocupa também por outros motivos. A equipe econômica tomou ou tentou tomar poucas medidas para a correção efetiva das contas, como a redução das transferências para os bancos estatais. Mas a maior parte do chamado programa de ajuste é simplesmente um esforço para fechar as contas. Receitas obtidas com leilões de infraestrutura são apenas um remédio temporário. Nada corrigem. A pretendida reativação da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF) também servirá só para alimentar o Tesouro, sem mudar a gestão orçamentária. Pior que isso: aumentará as distorções, pela baixa qualidade do tributo. Não se resolvem grandes problemas com meros expedientes. Mas o governo se mostrou, até agora, incapaz até de concretizar esses quebra-galhos.

Em xadrez, move-se o bispo.

Carlos Brickmann
Chumbo Gordo.com

A Rede Record de Televisão preparou uma série de reportagens sobre a Operação Zelotes, essa em que um dos filhos do ex-presidente Lula foi intimado a depor e teve os escritórios de suas empresas vasculhados pela Polícia Federal. Na reportagem, são citados também outro filho de Lula – com o detalhe de que, antes de o pai ser eleito, ganhava R$ 600,00 mensais como monitor de zoológico, e hoje é dono de várias e lucrativas empresas; e um sobrinho de Lula, Taiguara, dono de bons negócios em países africanos que o tio visitou para palestrar. E não vai parar por aí: há repórteres da rede pesquisando os negócios da família. No atual xadrez político brasileiro, o movimento do bispo pode levar ao xeque-mate (sem trocadilhos, por favor: xadrez é um jogo e xeque é com “x”).

Mas isso não é o mais importante: o importante é saber o que leva a Rede Record, que obedece à orientação do bispo Edir Macedo, da Igreja Universal, a bater num presidente que apoiou; e o que leva a presidente Dilma a manter no Ministério dos Esportes um indicado do PRB, partido ligado à Universal. Se George Hilton continua ministro dos Esportes, e o PRB continua fazendo parte da base governista, Dilma concorda com os ataques a Lula. Mais: se outros ministros petistas não se manifestam, e ficam no Governo, concordam também.

Há muita gente afirmando que Lula e Dilma já não se entendem; mas indícios tão fortes de divisão ainda não haviam aparecido. E a ocasião é propícia para desentendimentos. Navios que naufragam perdem boa parte de sua população fixa.

Desmentido
Mas atribuir a Lula a frase de que não sabia de nada, não sabe que tem filhos empresários nem conhece seu sobrinho é maldade de Internet.

Ô, gente ruim!

O risco…
Luís Cláudio Lula da Silva, filho de Lula, foi intimado pela Polícia Federal a depor no caso da suspeita de compra de Medidas Provisórias. OK: Lula e sua família são cidadãos como todos. Mas há algo esquisito (embora não ilegal): Luís Cláudio foi intimado às 23h, um horário incomum. Antes de procurá-lo onde mora, a Polícia Federal procurou-o onde não mora mais, em São Bernardo. Se não sabem nem onde vive, de que valem suas suspeitas?

Pior: ao inovar no horário, permitiu que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, quisesse saber o motivo disso. Qualquer falha no procedimento pode levar à tese da perseguição. Ou terá sido proposital, para manchar a ação e abrir campo para anular o caso? Por que não intimá-lo na manhã seguinte? Qual seria o prejuízo?

…de passar do ponto
As reportagens sobre o apartamento do filho de Lula também foram além do normal. Se alguém, pessoa física ou empresa, tem um imóvel, e quer emprestá-lo gratuitamente a um amigo, ninguém tem nada com isso. Qual é o crime? O empréstimo gratuito de um imóvel por muitos anos pode ter relação com algum negócio em que os donos obtiveram vantagem. Mas os proprietários são amigos de Lula desde quando era dirigente sindical, e o alojaram numa casa em São Bernardo, de graça, por quase dez anos, quando ele não poderia oferecer-lhes vantagem nenhuma.

Pode haver maracutaia? Pode; mas é preciso primeiro reunir os indícios para depois apontar o dedo. Denúncia vazia, não.

Ação correta
Ao afastar o general Antônio Mourão do Comando Militar do Sul, o mais poderoso do país, o Governo agiu certo: não cabe a um militar da ativa manifestar-se sobre assuntos políticos, concordemos ou não com ele. As Forças Armadas têm a hierarquia como valor essencial, e seu comandante-chefe é a presidente da República. Mourão criticou o Governo e os políticos. Mesmo que tenha razão, não poderia fazê-lo.

O Exército é, e tem de continuar sendo, o Grande Mudo.

Gasta aqui…
Economia? Então, tá. Até agora não há nenhum movimento no Congresso para impedir a construção do ParlaShopping, mais um grande edifício com escritórios suntuosos para o conforto de Suas Excelências, com milhares de garagens e um shopping onde o parlamentar possa fazer as comprinhas sem se misturar com essa gente rude que o elege. A verba inicial a ser gasta é de R$ 400 milhões; o orçamento total é de R$ 1 bilhão.

Qual a utilidade do novo prédio? Para o trabalho, nenhuma: o Congresso funciona mal, mas não por falta de boas instalações.

…gasta acolá
O Executivo não regula micharia. Em dez anos, as despesas da Presidência da República, em moeda constante, triplicaram. Os serviços terceirizados do Palácio da Alvorada – secretárias, telefonistas, vigilantes, garçons, faxineiros – custam R$ 220 milhões por ano (fora os funcionários da Presidência, que não são poucos). Há 88 garçons e 58 copeiras, que servem R$ 16 milhões de comida por ano. No avião presidencial a alimentação custa R$ 2 milhões por ano.

Numa viagem de Dilma aos EUA, havia para servi-la 19 limusines, dois ônibus e um caminhão para as bagagens (cerca de US$ 100 mil). Em 2011, Dilma fez uma escala, que custou R$ 244 mil, em Atenas.

O modesto uruguaio Pepe Mujica é bom para ser elogiado, mas não é imitado.

Vítimas da incompetência

Vicente Nunes
Correio Braziliense

A crise política e a incapacidade do governo de dar um rumo ao país estão devastando o orçamento das famílias. Pesquisa que a Confederação Nacional do Comércio (CNC) divulga hoje mostra um forte aumento no número de lares que se dizem sem condições de pagar as contas em dia. As dificuldades estão generalizadas tanto entre as famílias que ganham até 10 salários mínimos por mês quanto entre as que têm renda superior a 10 mínimos.

Em outubro de 2014, segundo a CNC, 17,4% afirmavam estar com dívidas em atraso e 5,4% se declaravam incapacitadas para honrar os compromissos assumidos, pois tinham chegado ao limite. Agora, 23,1% estão com contas vencidas e não pagas e 8,5% jogaram a toalha simplesmente porque não têm dinheiro para quase nada. Esse quadro preocupante, diz a economista Marianne Hanson, ainda vai piorar muito, sobretudo no primeiro semestre de 2016.

Até o meio deste ano, o maior vilão do orçamento das famílias era a inflação. Mas, com o aprofundamento da recessão, muitas empresas passaram a demitir. E o desemprego disparou. “A inflação come uma parte da renda dos trabalhadores e eles vão acomodando os gastos. Sem emprego, porém, não há dinheiro para nada”, explica Marianne. Por isso, a situação atual é muito mais complicada e duradoura.

Há outro agravante. No ano passado, quando a inflação ainda estava contida, porque o governo represava as tarifas públicas, muitas famílias optaram por usar o décimo-terceiro salário para pagar dívidas. Por isso, o total de lares endividados caiu naquele período. Neste momento, nem o rendimento extra será suficiente para dar o alívio esperado. As dívidas aumentaram muito, ficaram mais caras, muitos perderam o emprego e a carestia, que está em 10%, continuou castigando.

Desordem 
Como era de se esperar, são as famílias com renda de até 10 salários mínimos as que mais sofrem com a desordem econômica do país. Em outubro do ano passado, 19,7% delas informavam estar com dívidas em atraso. Neste mês, são 26%. “Trata-se do grupo mais vulnerável, pois não tem capacidade de poupança para enfrentar adversidades e o orçamento é mais apertado para cortar gastos”, frisa Marianne. Não é só. A maior parte do dinheiro dessas famílias vai para a compra de alimentos e o aluguel. E é entra elas que o desemprego mais cresce.

Na avaliação da economista da CNC, ainda que o total de famílias que dizem estar com dívidas em atraso, de 23,1%, seja menor do que o pico verificado em 2010, de 29,1%, a realidade hoje é mais complicada. A inflação naquele momento era mais baixa, o país crescia a um ritmo forte, com aumento do emprego e da renda, e havia espaço para se livrar do excesso de endividamento estimulado pelo governo.

Desde o início deste ano, o desemprego na seis principais regiões metropolitanas do país saltou de 4,3% para 7,6%. A cada hora, diz o Ministério do Trabalho, 100 pessoas estão perdendo o emprego no país, incluindo sábados, domingos e feriados. A tendência, com o agravamento da recessão, é de que as demissões se acelerem. “Toda a conjuntura macroeconômica está jogando contra os trabalhadores. Não há melhora à vista”, assinala Marianne.

Ela ressalta que, na comparação de outubro deste ano com o mesmo mês de 2014, o total de famílias com dívidas aumentou de 60,2% para 62,1%. Quando comparado a setembro último (63,5%), houve uma melhora, mas nem isso serve de alento, dadas às perspectivas para o país. “O recuo foi conjuntural. Não se pode esquecer que as dívidas contraídas nos últimos meses são muitos mais caras, o que dificulta o pagamento. A tendência é de a inadimplência aumentar”, frisa.

Surreal 
Para técnicos do governo, as famílias vão pagar caro pelo desastre que foi o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. Ela não só permitiu que a inflação voltasse, como destruiu as contas públicas, a ponto de a equipe econômica não saber hoje qual o tamanho do rombo deste ano. No papel, estima um buraco de R$ 51,8 bilhões, mas há tantas pendências que podem levar o deficit para mais de R$ 100 bilhões e, pior, comprometer todo o ajuste de 2016.

“Nem parece que, nos últimos anos, vivemos em uma economia estabilizada”, afirma um técnico graduado da Esplanada dos Ministérios. “De um lado, o Banco Central diz que não sabe quando poderá levar a inflação para o centro da meta, de 4,5%. De outro, nem o Planejamento nem a Fazenda conseguem dizer como está a situação das contas públicas. É surreal”, acrescenta.

Em meio a tantas dúvidas, o país vai afundando. “As empresas adiam os investimentos e as famílias, o consumo”, diz Marianne Hanson. O resultado é mais recessão, mais desemprego e mais calote nas dívidas. Portanto, seria muito bom se Dilma caísse na real e assumisse o governo para o qual foi eleita a fim de dar um ar de esperança ao país. Mas nada indica que ela o fará. A presidente simplesmente não sabe o que fazer para tirar o Brasil da enrascada que ela o meteu.

Custo Lula, custo Dilma

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Foi uma obra-prima de política econômica a tal nova matriz. Pelo avesso. Gerou recessão, inflação alta e juros na lua

Tudo somado e subtraído, a presidente Dilma conseguiu abrir um buraco de R$ 230 bilhões em apenas cinco anos. Seu governo saiu de um superávit de R$ 128 bilhões em 2011 para um déficit efetivo em torno de R$ 100 bilhões neste ano. Gastou todo o saldo e mais quase o dobro. E para quê?
Para driblar a crise internacional e turbinar o crescimento — dizem a presidente e seu ex-ministro Guido Mantega.

Crescimento?

Em 2011, quando se fez o superávit primário de 128 bi, o Produto Interno Bruto brasileiro cresceu razoáveis 3,9%. Nos três anos seguintes, quando supostamente estaria sendo turbinada pelo gasto e crédito públicos, a economia minguou: expansão média de 1,5%, a menor entre os países emergentes mais importantes. E desabou neste ano para uma recessão em torno de 3%, no momento em que se realiza o maior déficit público da história.

Apesar do baixo crescimento, a inflação rodou sempre acima dos 6% ao ano, contra uma meta de 4,5%, e isso com preços importantes, como gasolina e energia elétrica, controlados e mantidos lá em baixo, na marra. Reajustados esses preços, porque estavam quebrando a Petrobras e o setor elétrico, a inflação disparou para os 10% deste ano, um número que reflete melhor a realidade.

Finalmente, a taxa básica de juros, reduzida artificialmente para 7,25% em 2012, também para turbinar o crescimento, serviu apenas para liberar mais inflação. Aí, o Banco Central saiu atrás e puxou os juros para os atuais 14,25% que, embora muito elevados, não conseguem mais conter uma inflação perigosamente indexada.

A gente tem de reconhecer: foi uma obra-prima de política econômica a tal nova matriz. Pelo avesso. Gerou ao mesmo tempo recessão, inflação alta e juros na lua. E o déficit público de R$ 100 bi.

O governo está confessando um rombo de R$ 52 bi. Mas, para isso, conta com uma receita de R$ 11 bi com a venda de concessões de hidrelétricas — um negócio que depende de uma MP ainda a ser votada pelo Congresso, que não está nem um pouco animado. Sem isso, o déficit já passa dos R$ 60 bi — e ainda é preciso somar as pedaladas, os R$ 40 bi que o governo federal deve ao BNDES, Banco do Brasil e à Caixa. Assim, o buraco efetivo passa fácil dos R$ 100 bi.

Claro que a recessão derruba as receitas do governo e ajuda no déficit. Mas houve também muita incompetência.

O governo prometeu vender ativos, de imóveis a pedaços de estatais, e não conseguiu. Disse que faria dinheiro com a privatização de um elenco de rodovias, portos e aeroportos. Não saiu uma sequer até agora. (Sabe como é, tem que preparar a papelada, montar projetos, muita trabalheira...).

O governo contou com dinheiro que depende de aprovação do Congresso (CPMF e repatriação), mas não mostrou a menor capacidade em operar as votações, mesmo tendo distribuído ministérios e cargos em estatais.

É o mesmo tipo de incompetência que derrubou a Petrobras. Quando Lula era presidente da República e Dilma presidente do Conselho de Administração da estatal, a empresa se meteu em projetos megalomaníacos, da exploração de poços do pré-sal, a refinarias, navios, sondas e plataformas de exploração.

O caso das refinarias Abreu e Lima e Comperj já é um exemplo mundial de má gestão, sem contar a corrupção. Menos conhecida é a história das sondas. O governo estimulou a criação de uma empresa, a Sete Brasil, para construir 28 sondas no Brasil. A empresa, com dinheiro da Petrobras, já gastou mais de R$ 28 bilhões e não entregou uma sonda sequer. E pior: sabe-se agora que a Petrobras, dada sua capacidade de produção, não precisava desses equipamentos.

Lula e Dilma empurraram a Petrobras para essa loucura. E para quê?

A produção de óleo da estatal é hoje praticamente a mesma de 2009. Foi de 2,1 milhões de barris/dia para 2,2 milhões. Nisso e nas refinarias, inacabadas e precisando de sócios para concluir a metade das obras, a Petrobras gastou cerca de US$ 260 bi! E gerou uma dívida bruta que chega hoje a US$ 134 bilhões.

Isso é custo Lula mais custo Dilma, consequência de erros de avaliação, má gestão e projetos mal feitos. No balanço do ano passado, a estatal aplicou uma baixa contábil de R$ 31 bilhões nos orçamentos das refinarias Abreu e Lima e Comperj, por “problemas no planejamento dos projetos”. E anunciou o cancelamento das refinarias do Maranhão e Ceará, que não saíram do chão, mas cujos projetos custaram R$ 2,7 bilhões. Eram inviáveis, disse a empresa.

Só isso de explicação?

É, só isso.

A corrupção é avassaladora, mas capaz de perder para a ineficiência.

O cerco se fecha

Editorial 
Folha de São Paulo

Repete-se, sobretudo no contexto da Operação Lava Jato, a tese de que nenhum cidadão, no Brasil contemporâneo, está acima da lei. Uma figura, no entanto, parece ter-se mantido ainda preservada sob um manto de intangibilidade.

Não tanto por sua conduta, mas pelo significado político de que seu nome se cerca, o ex-presidente Lula (PT) permanecia, desde o mensalão, ao largo das diversas investigações, processos e condenações que atingiram personagens fundamentais de seu círculo de poder.

As últimas ações do Ministério Público e da Polícia Federal indicam, todavia, que nem mesmo o líder máximo do petismo está acima das atenções da Justiça. Casos muito suspeitos, aos quais não cabe reagir com sectarismo nem precipitação, vão corroendo a aura de intocabilidade que o protegia.

Seguindo ordens da Justiça Federal, a polícia realizou na última segunda-feira (26) uma operação de busca e apreensão na empresa de marketing esportivo LFT, de propriedade de um filho de Lula.

Não o fez por motivos descabidos. Investigava as ações de uma empresa, a Marconi e Mautoni, suspeita de ter dado propina a políticos para que se estendessem os benefícios fiscais concedidos a duas montadoras de automóveis.

A mesma empresa pagou R$ 1,5 milhão à firma de Luis Cláudio Lula da Silva, sem que fique claro que serviços de marketing esportivo seriam úteis às suas atividades.

Igualmente inexplicado é o empréstimo de R$ 1,5 milhão concedido por um lobista, Fernando Baiano, a um empresário do agronegócio, José Carlos Bumlai.

Segundo a delação premiada de Fernando Baiano, o dinheiro depois teria sido repassado a uma nora de Lula, em troca de um favor feito pelo ex-presidente a uma empresa envolvida na Lava Jato.

O estágio das investigações é ainda incipiente, mas não há dúvida de que o cerco em torno do líder petista começa a se estreitar.

Acuado, o lulismo reage nos bastidores num aparente inconformismo contra a atitude do Ministério da Justiça, que teria "perdido o controle" sobre a Polícia Federal.

Não fosse pela enormidade por trás desse inconformismo –a ideia de que a PF deveria agir a serviço do partido no poder, e não com autonomia–, cumpriria lembrar que a operação se deu em obediência à determinação de uma juíza cujo histórico mais a aproxima do que a afasta das tendências de esquerda.

Ao ex-presidente Lula e seus familiares, como a qualquer cidadão, está assegurado o direito de defesa e o de não ser perseguido arbitrariamente pela polícia. Seria omissão da parte desta, entretanto, recusar-se a investigar os indícios que se acumulam em torno dele.

A menos que admita tal desejo, só cabe ao lulismo defender-se às claras sobre todos os episódios que projetam suspeitas sobre seu líder.

A metamorfose da Operação Zelotes

Elio Gaspari
O Globo

Se a juíza Célia Bernardes estiver no mesmo caminho de seu colega Sérgio Moro, a Zelotes se transformará numa Serra Pelada da corrupção

Em março do ano passado, quando começou, a Operação Lava-Jato investigava uma rede de doleiros e sua lavanderia de dinheiro. As prisões do operador Alberto Youssef e de Paulo Roberto Costa, ex-diretor da Petrobras, resultaram na descoberta do maior escândalo de corrupção já visto no país. A Operação Zelotes, deflagrada em março deste ano, investigava a venda de sentenças e manobras no Conselho de Administração de Recursos Fiscais do Ministério da Fazenda. Um braço das investigações levou a Polícia Federal e o Ministério Público à salsicharia onde se embalam Medidas Provisórias.

Se a juíza Célia Bernardes, da 10ª Vara Federal de Brasília, estiver no mesmo caminho de seu colega Sérgio Moro, a Zelotes se transformará numa Serra Pelada da corrupção. Ela foi o maior garimpo de ouro a céu aberto do mundo.

A expansão das investigações da Zelotes é uma novidade, e nos poucos passos que a juíza deu percebe-se que sabe de onde vem o cheiro do feijão. Ela associou um pleito que estava no Carf a gatos colocados em Medidas Provisórias. Bingo.

À primeira vista, os pixulecos do Carf nada teriam a ver com os embutidos das Medidas Provisórias. Na realidade, são uma modalidade refinada. O recurso ao Carf paralisa a cobrança da autuação da Receita até sabe-se lá quando. Se alguém conseguir mexer na lei que ampara a autuação, o caso acaba, sem que o sonegador tenha que pagar um só centavo. Uma Medida Provisória que está sendo investigada, relacionada com matéria tributária, teve 400 emendas, e seu relator foi o deputado Eduardo Cunha.

Está na cadeia o ex-conselheiro José Ricardo da Silva, irmão de uma conselheira e filho de um ex-secretário-adjunto da Receita. Na advocacia auricular que beneficiou montadoras de veículos, estava no lance Alexandre Paes dos Santos, o APS, um dos mais notórios lobistas de Brasília. Ele também está preso.

Desde abril conhece-se a frase do conselheiro Paulo Roberto Cortez apiedando-se dos “coitadinhos” que pagam impostos e não recorrem ao Carf: “Quem não pode fazer acordo, não é acordo, é negociata, se fode”. À época, o juiz que estava no caso recusou-se a prender quatro suspeitos.

OS PIXULECOS PODEM PRODUZIR UM BEN CARSON
Na semana passada, apareceram duas pesquisas. Nos Estados Unidos, o neurocirurgião Ben Carson, um conservador que nunca disputou eleição e simboliza a repulsa ao andar de cima do seu partido, ultrapassou o milionário Donald Trump na preferência dos republicanos. Tinha 23% em agosto e está com 28%. Nessa mesma pesquisa, Jeb Bush, ex-governador da Flórida, neto de senador, filho e irmão de ex-presidentes, tinha 8% e caiu para 5%. Como a eleição será no ano que vem, Carson pode capotar.

Noutra pesquisa, no Brasil, o Ibope mostrou que todos os candidatos das últimas quatro eleições presidenciais têm um índice de rejeição na faixa dos 50%, do tipo “não votaria nele de jeito nenhum”. Lula era rejeitado por 33% em maio de 2014 e está com 55%, Geraldo Alckmin, com 52%, e Marina Silva tem 50%. Aécio Neves ficou na margem de erro, com 47%.

No Brasil, a situação dos políticos está pior do que nos Estados Unidos. A presidente reelegeu-se com patranhas e pedaladas, produziu um rombo de R$ 110 bilhões, atirando o país numa crise econômica na qual corre o risco de ter taxas de inflação e desemprego acima de 10%.

Diante de tamanho desastre, pode-se perguntar a causa da rejeição dos oposicionistas. Simples: eles elegeram Eduardo Cunha para a presidência da Câmara, apoiam discretamente sua permanência no cargo, e muitas Medidas Provisórias com seus jabutis escandalosos são aprovadas por acordos de lideranças do tipo me dá o meu que te dou o teu.

Carimbado
Alexandre Paes dos Santos, o APS, preso em Brasília por causa das traficâncias ocorridas na gestação da Medida Provisória da indústria automotiva, é figurinha carimbada.

Em 2001, durante o tucanato, teve sua prisão pedida pelo Ministério Público; porém, ela foi negada pela Justiça. Nessa época, ainda não se popularizara a expressão pixuleco, mas no plantel dos mimados por APS estavam parlamentares, secretárias e até o motorista de um assessor do ministro da Fazenda.

Mudaram os ventos, e em 2006 APS aproximou-se de Fábio Luís da Silva, o Lulinha. Quando ia a Brasília, ele usava uma sala da empresa do doutor. É dessa época o investimento da Telemar na empresa de jogos de Lulinha.

Se APS colaborar com as investigações, sua memória poderá causar um estrago em Brasília maior que o de qualquer similar da Lava-Jato.

Geopolítica
O futuro da Operação Zelotes, com sede em Brasília, permitirá uma avaliação da influência do clima da capital sobre esse tipo de trabalho.

A Lava-Jato funciona em Curitiba, os parentes do juiz Moro e dos procuradores do Ministério Público não convivem com os amigos, advogados e parentes dos encarcerados.

A parentela e a rede de amizades de APS no Congresso, no Judiciário e na imprensa fariam inveja a qualquer empreiteiro.

Madame Natasha
Madame Natasha ofereceu uma de suas bolsas de estudo ao ministro Eduardo Braga. Num bate-boca em que o senador Ronaldo Caiado o chamava de “safado” e “bandido”, ele respondia:

— Safado é Vossa Excelência!

— Bandido é Vossa Excelência!

Natasha crê que, se Braga acha Caiado uma pessoa excelente, não pode dizer esse tipo de coisas. Se não acha, pode chamá-lo de “senhor”.

Pezão
É muito provável que o governador Pezão, do Rio de Janeiro, saia intacto do maremoto da Lava-Jato.

Ben Bernanke
Para quem mexe com papelório ou tem curiosidade para entender crises financeiras, saíram as memórias de Ben Bernanke, o presidente do Federal Reserve Bank durante a crise de 2007 e 2008. Para esse tipo de curioso, é coisa fina. Chama-se “The Courage to Act” (“A Coragem de Agir”).

Bernanke é um professor frio como cobra, honesto como um santo e tem o senso de humor de uma maçaneta. Chega a ser chato, mas não deixa um só assunto sem explicação.

Sem nunca ter recebido um tostão da banca, é capaz de dizer que falar mal de banqueiros não faz o seu gênero, “porque eu sei quantas coisas erradas há por aí, inclusive no Fed e nas agências reguladoras”.

Depois da crise, Bernanke justificou sua decisão de jogar dinheiro público em empresas atrapalhadas com uma observação memorável: “Não existe ateu em trincheira nem ideólogo em crise financeira”. (A primeira parte é de um capelão, seu mérito foi criar a analogia.)

Eremildo, o idiota
Eremildo é um idiota e acha que o deputado Eduardo Cunha cometeu um lapso ao dizer que os relatores de Medidas Provisórias ficam com “o ônus da conciliação”.

De fato, sempre que se enfia um contrabando numa dessas medidas ocorre uma conciliação entre os interesses de quem leva o gato para a tuba e os de quem o aceita.

O cretino entende que, se um dia lhe dessem uma dessas relatorias, não veria na conciliação um ônus, mas um bônus.

Sonhos frustrados

Suely Caldas
O Estado de S. Paulo

Quando o ex-presidente Lula repetia à exaustão aquele discurso do "nunca antes na história deste país", seguido de bravatas e autoelogios à sua gestão, ele tinha um propósito bem arquitetado: marcar a diferença entre tudo o que se passou no Brasil, desde que Pedro Álvares Cabral por aqui aportou, e um novo tempo, uma nova era, do PT no governo, que viraria o País pelo avesso, uma espécie de revolução social sem armas, em que miseráveis virariam pobres, pobres seriam promovidos à classe média, ricos perderiam privilégios e a estrutura social e econômica do País mudaria gradativa e radicalmente. Sempre para melhor. Muitos brasileiros acreditaram nisso e expressaram sua confiança no voto, elegendo o PT por quatro mandatos e 16 anos de poder.

Mas Lula e sua seguidora Dilma Rousseff se esqueceram de um imprescindível detalhe: para dar certo, seria necessário recriar o Estado, tirá-lo das garras de privilegiados que avançam sobre seus cofres sem nenhuma cerimônia, de empresários que bajulam e corrompem o poder para obter vantagens, de grupos corporativos que ganham verbas e favores no grito, de uma classe política que está no governo mais para enriquecer e fazer caixa para a próxima eleição do que melhorar a vida da população. Enfim, preparar o Estado (e 36% da renda do País que vai parar nos seus cofres) para ampliar e qualificar serviços públicos, prover saúde e educação para quem não pode pagar, reforçar programas sociais eficazes do tipo Bolsa Família,investir e estimular investimentos privados em infraestrutura. Enfim, construir um Estado moderno e prepará-lo para servir ao cidadão, sem distinção de classe ou cor, em vez de usar a receita de impostos pagos por 200 milhões para distribuir privilégios para poucos.

Lula e Dilma até poderiam ter a intenção, no início, mas erraram muito nestes 13 anos, não souberam promover igualdade social nem distribuir a renda simplesmente porque usaram tal intenção não como um fim a ser perseguido, mas um meio, um instrumento para conseguir outro objetivo muito diferente: alongar a permanência do PT no poder (para que, nem eles mesmos sabem responder). Para isso tudo valeu: deixaram a corrupção se espalhar pelo aparelho do Estado (até a estimularam ao distribuir cargos a políticos), quase destruíram a Petrobras,a Eletrobrás e outras estatais, desmoralizaram a gestão pública e incharam o governo de companheiros apadrinhados.

Deu tudo errado. A estrutura do Estado continua intacta, os privilégios e mordomias permaneceram e alguns foram até ampliados. Sobrou incompetência e faltou planejamento na gestão do dinheiro público. E aí veio o previsível, que só os petistas, na ambição de vencer eleição, não enxergavam: o cofre do governo foi se esvaziando, a dívida pública cresceu, vieram as pedaladas fiscais e como ganhar eleição virou um fim em si mesmo. A mentira predominou na campanha de 2014, a população flagrou e sentiu-se manipulada, traída. Hoje, a popularidade de Dilma e de Lula desaba, refletindo a degradação econômica e social do País.

Ainda assim, Lula, Dilma e a propaganda televisiva do PT seguem estufando o peito e bradando que "nunca antes na história deste país" um governo fez tanto pelos pobres. É uma meia verdade. Antes, com o Plano Real, FHC acabou com a inflação, um imposto tirano para os pobres, e abriu caminhos para fomentar investimentos e crescimento econômico, além de plantar as raízes para o Bolsa Família. Depois, Lula e Dilma ampliaram os programas sociais, reduziram a pobreza e geraram uma nova classe média voltada para consumir o que a vida antes lhe negou.

Só que o custo financeiro da ambição de sempre ganhar eleição foi alto demais, acabou por devorar os ganhos sociais, que vêm desaparecendo e ameaçando até a Previdência e o Bolsa Família. A mais recente pá de cal, que não é a última, foi divulgada na quinta-feira pelo IBGE: a taxa de desemprego saltou para 8,7%, mais de 1 milhão de empregos com carteira assinada foram perdidos em apenas um ano e a recessão vai continuar piorando o desemprego e a vida do trabalhador.

Mil faces de Lula

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Acuado, ex-presidente se faz de vítima e joga em Dilma a pecha de 'desleal' O ex-presidente Luiz Inácio da Silva é um bom ator. Bem melhor que político, conforme demonstrado pelo erro de avaliação na escolha de Dilma Rousseff para o papel de criatura que seria capaz de suceder-lhe e garantir, mediante o espetáculo da competência, permanência longa para o PT no poder.

No ofício da atuação é um personagem de mil caras. Uma para cada ocasião. Pode ser o fortão que a todos enfrenta porque com ele ninguém pode, como pode ser o fraquinho a quem a elite tenta permanentemente derrubar por sua origem e identificação com os oprimidos.

Entre os papéis que costuma desempenhar, o preferido para os momentos de dificuldade é o de vítima. Não por acaso nem de modo surpreendente faz agora essa performance, nesta hora em que as circunstâncias nunca lhe foram tão desfavoráveis: alvo de investigação do Ministério Público por tráfico de influência, pai do dono de empresas revistadas pela Polícia Federal, amigo de um empresário apontado por um "delator premiado" como receptor de propina destinada a cobrir despesas de uma de suas quatro noras.

Afora isso, as más notícias alcançam também o patrimônio político eleitoral de Lula, até pouco tempo atrás sua principal e mais forte cidadela. A última pesquisa da Confederação Nacional de Transportes (CNT) aponta e atesta a decadência. Confirma números anteriores segundo os quais Lula já não é um ativo eleitoral.

Hoje, numa eleição, perderia de lavada para o tucano Aécio Neves (32% a 21%) e em eventual disputa de segundo turno seria derrotado também por Geraldo Alckmin e José Serra, políticos do PSDB que em outros tempos derrotou. Para quem já foi considerado pelo adversário (Serra) em plena campanha como uma pessoa "acima do bem e do mal" a situação é periclitante, convenhamos.

Lula não tem capital para si nem para emprestar ao PT ou à presidente Dilma Rousseff. Nesta condição quase que extrema (ou próxima disso), o ex-presidente faz o que sabe: tenta jogar a culpa no alheio. E a eleita, desta vez, é a presidente Dilma Rousseff em quem seu criador tenta imprimir a pecha de "desleal" ao deixar que prosperem versões de que atribui a ela a responsabilidade sobre o avanço das investigações em direção a ele, família e amigos.

Oficialmente o Instituto Lula desmente. Muito cômodo. Extraoficialmente todos os jornais publicam a conveniente versão disseminada por "amigos" e "interlocutores" de que o ex-presidente se sente "traído" pela sucessora que, segundo ele, não foi capaz de interromper investigações que o atingissem e à sua família.

Transferir a culpa para Dilma é uma tentativa. De difícil execução, dada a dificuldade de se obter resultado, diante da posição extremamente difícil em que se encontra a presidente. Mas o problema maior para Lula é a credibilidade. Ele já não tem aquela da qual desfrutou. E esta, no presente, não conseguiu conquistar quem no futuro poderia ter junto de si.

Em suma, Lula procura se desvincular de Dilma, acusando a presidente de ser desleal pelo fato de não atuar para impedir investigações. Isso quer dizer que, por experiência própria, ele considera não apenas possível como factível a indevida interferência nos processos legais.

Com isso, confirma que em seu governo interferiu indevidamente. E, por linhas tortas, confessa que prevaricou. Indignado está pelo fato de outrem não prevaricar em seu nome para salvá-lo de evidências que o aproximam do confronto com a verdade.

Cenário opaco

Míriam Leitão
O Globo

Faltam nove semanas para 2015 acabar. É nesta época que as empresas fazem seus orçamentos para 2016. A maioria já está vivendo o ano que vem. Mas o que elas estão vendo é um mar de incertezas. As previsões de recessão e inflação vêm piorando, e novos impostos estão sendo criados. A falta de clareza atrapalha o desempenho da economia. O ano que vem ainda é um ilustre desconhecido.

O ano está acabando e não é possível saber, por exemplo, qual será o buraco fiscal de 2015. Nesta semana, a equipe econômica apresentou uma nova meta, que ainda precisa ser aprovada. O rombo pode superar R$ 100 bi se as “pedaladas” do primeiro mandato forem pagas agora. O que se sabe na última semana de outubro, é que o déficit primário do ano pode ser de 0,85% do PIB ou o dobro. Para as contas de 2016, a indefinição faz muita diferença.

Sem capacidade de previsão, os empresários ficam mais cautelosos e aí investem menos. Na projeção da Go Associados, o investimento, que deve recuar 13% em 2015, vai cair mais 6% em 2016 e ficar estagnado em 2017. Nesses cálculos, o consultor Gesner Oliveira leva em conta a implantação de parte do Programa de Investimento em Logística, que depende da agilidade do governo. Se o projeto não vingar, o problema pode ser maior. Nesse cenário, as empresas se retraem.

— A incerteza aumentou. Até 2013, as projeções para o ano seguinte eram mais estáveis. Agora, é diferente. As probabilidades mudam de forma mais frequente. O conjunto de cenários possíveis também sofre variações. Surgem alguns que nem sequer eram considerados meses atrás, como uma volta à política econômica do primeiro mandato —, conta o consultor.

A incerteza tem efeito generalizado na economia. As medidas do ajuste fiscal não avançam. Os empresários estão planejando o ano que vem, mas o governo não. A OKI Brasil, empresa de serviços de automação, está montando o orçamento de 2016. Wilton Ruas, diretor-geral da companhia, classifica a tarefa como “extremamente complicada”.

— Um ponto que atrapalha muito é a inflação. Ela reajusta várias despesas. Muitos contratos são atualizados com base nela, que também corrige os salários. O país precisa de uma meta inflacionária de fato. Quando o governo fala que vai buscar a meta e não consegue, tem consequências no orçamento das empresas —, conta Ruas.

A projeção para o IPCA de 2016 sobe há 12 semanas no relatório Focus. A OKI se reporta à matriz, no Japão. Com as variáveis mudando tão rapidamente, cresceu a demanda por relatórios da filial.

— É complicado explicar para quem não está aqui. As variáveis mudam rápido no Brasil, e as regras são trocadas no meio do jogo. São várias frentes. Na estrutura tributária, há novidades que vão desde o custo da folha de pagamento até a elevação do PIS/Cofins para produtos de tecnologia. A volta da CPMF talvez seja aprovada. A falta de previsibilidade dos impostos é o que mais atrapalha o planejamento —, conta Ruas.

O dólar reflete as incertezas, mas a volatilidade piora tudo. A alta da moeda tem afetado importadoras como a OKI, que traz de fora cerca de 60% de seus insumos. O risco de errar e perder competitividade é grande. Os contratos, conta Ruas, são longos. Um preço mal calibrado pode trazer sequelas. Com a receita já definida, ele se equilibra mexendo nas variáveis que controla. A revisão de despesas tem sido crítica.

Os contratos estão sendo renegociados. Os maiores clientes da OKI são bancos e redes de varejo, dois setores muito impactados pela alta do desemprego. Nesta semana, o IBGE divulgou que a taxa subiu para 8,7% no trimestre encerrado em agosto.

A Toledo, fabricante de balanças, demitiu em 2015. Mas a companhia continua investindo em pesquisa e desenvolvimento cerca de 4% do que fatura. Produtos mais modernos reduzem as perdas dos clientes. Ela quer aproveitar o movimento de corte de gastos.

— Os clientes querem reduzir seus custos. Ainda que não estejam crescendo, trocam equipamentos mais antigos por novos para ter menos paradas, menos manutenção e mais segurança —, conta Paulo Haegler, presidente da Toledo.

Mesmo com as dificuldades, os empresários percebem as chances do país no longo prazo. No curto prazo, no entanto, a incerteza está paralisando os planos. Este é o risco Brasil da economia real.

BC está à espera da política fiscal de 2016

Claudia Safatle
Valor Econômico

Só quando tiver clareza da trajetória fiscal e da composição do ajuste para 2016 é que o Comitê de Política Monetária (Copom) vai fixar com maior precisão o ponto de chegada da inflação na meta de 4,5% em 2017. No momento, a inflação convergirá para a meta em dezembro daquele ano, mas pretende que seja antes.

Para 2016, a inflação terá que ficar na meta de 4,5% mais a margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Ou seja, não poderá superar 6,5%, na avaliação de fontes oficiais.

Para a política monetária será pior o governo elevar a Cide sobre a gasolina do que se conseguir aprovar a CPMF. O impacto sobre a inflação seria menor com o imposto sobre o cheque. A expectativa é que o reajuste dos preços administrados fique no limite de 5,8%, conforme a ata divulgada ontem. Se for maior, o melhor é que seja um processo suavizado de preços, e não o choque que ocorreu este ano, quando só a tarifa de energia subiu 50%.

Ontem o Copom divulgou a ata da última reunião, que manteve a taxa Selic em 14,25%, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, teve um encontro com parlamentares da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara.

O país passa por três processos de ajustes, disse ele aos deputados: o externo, já mais avançado, o monetário para levar a inflação para a meta de 4,5% e o fiscal, para recuperar o abalo nas finanças públicas em 2014. Esse último tem se mostrado o mais difícil e, sem ele, fica mais complicado para o BC definir como vai administrar a taxa básica (Selic).

Os juros de 14,25% ao ano devem permanecer nesse patamar por um bom tempo, mas ninguém é capaz de garantir que o Copom não elevará a Selic daqui para o próximo ano.

O que é dito e repetido pela autoridade monetária é que o comitê não abdicará da prerrogativa de combater a inflação. Teve, porém, que desistir de cumprir a meta de 4,5% para o IPCA em 2016 depois das decisões de julho, quando o governo reviu o superávit primário de 1,1% do PIB para 0,5% do PIB, enviou um orçamento deficitário para o Congresso Nacional e a agência de rating Standard & Poor´s tirou o grau de investimento da dívida soberana do país.

Apesar disso, nem tudo está perdido na questão fiscal, avaliam economistas do governo. Embora a dívida bruta este ano esteja 6,4 pontos percentuais acima de 2014 e atinja 65,3% do PIB, segundo dados de agosto, a dívida líquida restrita (a bruta abatida apenas das reservas cambiais) teve crescimento mais moderado, de 0,8 ponto percentual, para 41,7% do PIB.

Isso explicaria por que os investidores estrangeiros não estão buscando a porta de saída do país. Apesar de não acreditarem no indicador da dívida líquida mais amplo, eles confiam no conceito restrito, alegam fontes.

O fato, porém, é que o impacto das dissonâncias fiscais do governo resultou em um alto preço em taxa de juros. Um dia após a reunião do Copom que elevou a Selic para 14,25%, em julho, a curva de juros de médio e longo prazo era de 13%. No dia 23 de setembro, assimiladas as frustrações com o empenho no ajuste fiscal, a curva mostrava 17% de juros no médio e longo prazos (de dois a sete anos). "Isso só por conta do fiscal", lamentou uma fonte do governo. É certo que houve um pequeno recuo, mas ainda assim foi uma pancada.

Começou lá, também, a desancoragem das expectativas de inflação. Dados da pesquisa Focus mostram que em janeiro o mercado projetava 6,56% para o IPCA deste ano. Hoje estima 9,85%. A expectativa para 2016, que já estava em 5,4% na segunda quinzena de julho, é de 6,22%. E para 2017, que se encontrava praticamente na meta, com 4,6%, já subiu para 5%. Todo um esforço de aperto monetário foi jogado no lixo por decisões que representaram um afrouxamento fiscal.

O ajuste das contas externas é o que mais avançou. De meados de 2011 para cá, a desvalorização da taxa de cambio real efetiva é de 80,4%. O fim do ciclo das commodities em meados daquele ano produziu uma queda de 24,8% nos termos de troca. A desvalorização cambial reduziu em 34% o custo unitário do trabalho. Se por um lado isso significa o empobrecimento do país, por outro torna a economia mais competitiva frente os demais concorrentes no mercado externo, especialmente os chineses.

O ajuste externo se manifesta nas contas do balanço de pagamentos, cujo déficit em transações correntes caiu de US$ 104 bilhões em 2014 para US$ 65 bilhões este ano e há projeções que indicam que o país terá superávit na conta corrente em dois anos. É pela demanda externa que o governo espera reanimar a economia.

Aos parlamentares com quem esteve ontem, Tombini explicou que, a despeito de toda a frustração com a economia brasileira, não há fuga de capitais porque o regime é de câmbio flutuante e o BC vem, nas operações de "swap", fornecendo proteção cambial. Expôs, também, o balanço das operações cambiais, indicando que, se perde em "swaps", o país ganha na valorização das reservas cambiais.

Segundo fontes oficiais, o Banco Central poderá fazer leilão de linhas em dólares no fim do ano, tal como fez nos últimos anos. Tem havido um comportamento padrão dos investidores que retiram recursos do país no último trimestre e retornam no primeiro trimestre do ano seguinte, provavelmente para fechar seus balanços menos expostos a mercados emergentes.

Pelo menos metade dos R$ 25 bilhões de depósitos compulsórios liberados em maio para os bancos expandirem o crédito está nos próprios bancos. Se o sistema financeiro não está com disposição de emprestar, os seus clientes também não estão com vontade de tomar crédito para consumir ou investir. Por essa razão, a proposta de Lula, de expandir o crédito de consumo para dinamizar a economia, não se sustenta.

Sua fatia do bolo encolheu

Celso Ming
O Estado de São Paulo

É um equívoco dizer que o rombo fiscal de 2015 aumentou. Ele já estava aí.

O papo anterior nem era de rombo; era de sobra, ou de um superávit primário de R$ 66,3 bilhões ou 1,1% do PIB. Agora até mesmo o governo admite que o déficit primário (e não mais o superávit primário) do setor público vai para R$ 118 bilhões, ou para mais de 2,0% do PIB.

O que aumentou foi a medida admitida do rombo, não o rombo. Antes o governo mostrava uma canequinha e dizia: “Está aqui o rombo”. O resto era pedalado. Agora é medido com um garrafão, sem esconder mais nada, porque o governo precisa pressionar por uma solução e, para isso, é melhor mostrar tudo.

Mas, do ponto de vista das condições reais, o rombo dos últimos cinco anos de fato aumentou. Em 2011, o superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) era de R$ 128,7 bilhões, ou de 2,94% do PIB. Esse resultado foi nanicando até chegar a esse buracão aí dos R$ 118 bilhões (veja o gráfico). Por que isso aconteceu?

O discurso oficial até há pouco foi de culpar a crise internacional. Não dá para descartar esse fator, posto que a crise externa mudou o jogo anterior, favorável ao Brasil. Os países avançados enfrentaram queda ou desaceleração econômica e a China, que crescia a dois dígitos, agora não mostra mais do que 7%. Em 2016, talvez fique abaixo dos 6%.

Um pouco por isso, mas também pelo movimento normal dos ciclos econômicos, os bons tempos das commodities ficaram para trás. A tonelada de minério de ferro, por exemplo, chegou perto dos US$ 200; agora está em torno dos R$ 50. Há pouco mais de um ano, o barril de petróleo valia US$ 115; agora está nos R$ 50. Como o Brasil é grande exportador de matérias-primas (pouco menos de 50% do total), o faturamento caiu, a renda diminuiu e a arrecadação baqueou.

Mas isso não explica tudo. O problema aconteceu e se aprofundou porque a política econômica não se ajustou aos novos tempos. Em vez de reduzir a fatia do bolo distribuído, o governo a aumentou e, com isso, avançou sobre o bolo futuro, ou seja, aumentou a dívida. A Constituição de 1988 optou pelo modelo de Estado do Bem-Estar Social, ou seja, optou pela distribuição de benefícios. Enquanto a economia deu conta, foi dando certo. Dava até para roubar à vontade, como se viu agora pela Lava Jato. Quando passou a não dar certo, o distributivismo, que deveria encolher, aumentou.

Esse distributivismo foi acirrado pela atuação das corporações. Todos querem bolsa do governo, cada vez mais generosa: bolsa família, bolsa trabalhador, bolsa funcionário público, bolsa dos sem-terra, bolsa empresário, bolsa banqueiro, bolsa ruralista, bolsa político, bolsa aposentado... e por aí vai. Ninguém quer abrir mão de seus “direitos adquiridos”, como se adquiridos fossem, sem ligar para a imposição das leis matemáticas.

A grande crise política do momento nada mais é do que o acirramento do conflito distributivo, num cenário de progressiva escassez do cestão a distribuir. As reclamações se concentram sobre Brasília. O governo mete as mãos no cestão a ser repartido e de lá as retira com punhados cada vez menores.

Governo pedala, pedala e não vai a lugar algum

Ricardo Noblat

(Foto: Divulgação)
Dilma Rousseff

O que prova que temos governo, e um governo que funciona – não importa se bem ou mal? As notícias que a mídia divulga diariamente a respeito dele.

O ministro tal disse isso. O outro ministro disse aquilo.

O ministro Joaquim Levy, da Fazenda, participou de um seminário em Londres. Ou em Nova Iorque. Ou em Genebra.

A presidente Dilma voou a algum Estado para entregar novas unidades do programa Minha Casa Minha Vida. Na volta, se reunirá com Lula em Brasília para receber novas orientações.

Coisas assim indicam que o governo não está paralisado. Mas é quase como se estivesse. Porque o que de fato importa não anda.

A aprovação do ajuste fiscal não anda. Está parado no Congresso, mais exatamente na Câmara dos Deputados. E o motivo é simples: o governo não reúne votos suficientes para aprová-lo.

Segue a distribuição de cargos para os políticos que prometerem votar como quer o governo. Aboliu-se qualquer critério para o preenchimento dos cargos. Vale tudo, de preferência gente sem atributos técnicos.

Mesmo assim, o governo não se sente seguro para enfrentar a votação de assuntos delicados.

Aumentou o grau de independência dos deputados federais em relação ao governo. E a explicação é só uma: por que identificar-se com um governo rejeitado pela maioria esmagadora da população?

O que ganho se fizer as vontades de uma presidente condenada por oito em cada dez brasileiros?

Aqui mora a explicação para a inércia do governo. Poucos têm coragem para defendê-lo. Mesmo se contemplados com sinecuras.

Outra razão para a inércia: Dilma não sabe para aonde ir e o que fazer. Espera que a crise econômica se resolva mediante o arrocho que levou. Só tem hoje uma ideia fixa: escapar do impeachment.

A crise política não sumirá do mapa porque a econômica começará a esfriar a partir do segundo semestre de 2016, se tudo der certo.

Há sinais no horizonte de que a crise política escalará mais alguns degraus por causa da Lava-Jato e do que possa acontecer com Lula e seus parentes.

Oposição e governo estão cada vez mais distantes e sem canais de diálogo. A oposição ganha com isso, o país não necessariamente.

As próximas eleições municipais farão o PT sangrar mais do que ele pode admitir.

Sem que o governo Dilma se recupere, nada salvará o PT do desastre desenhado para 2018. 

Lula: o mito e as verdades

Daniel Pereira e Rodrigo Rangel
Revista VEJA

As investigações da Polícia Federal e do Ministério Público sobre casos de corrupção atingem filhos, parentes, amigos, amigos íntimos, amigas íntimas e ex-assessores do ex-presidente

(André Duzek/Estadão Conteúdo)
PARANOIA - Lula (de camiseta) e Dilma no Palácio da Alvorada: 
o ex-presidente acredita que é vítima de uma perseguição 
que contaria com o aval da presidente 

Oito anos na Presidência da República fizeram de Lula um mito. Ele escapou ileso do escândalo do mensalão, bateu recorde de popularidade, consolidou o Brasil como um país de classe média e elegeu uma quase desconhecida como sua sucessora. Os opositores reconheciam e temiam seu poder de arregimentação das massas. 

O líder messiânico, o novo pai dos pobres, o protagonista do primeiro governo popular da história do Brasil encontra-se atualmente soterrado por uma montanha de fatos pesados o bastante para fazer vergar qualquer biografia - até mesmo a de Lula. Investigações sobre corrupção feitas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público vão consistentemente chegando mais perto de Lula. Ele próprio é foco direto de uma dessas apurações. Do seu círculo familiar mais íntimo ao time vasto de correligionários, doadores de campanha e amigos, o sistema Lula é formado predominantemente por suspeitos, presos e sentenciados. Todos acusados de receber vantagens indevidas de esquemas bilionários de corrupção oficial.

O mito está emparedado em verdades. Lula teme ser preso, vê perigo e conspiradores em toda parte, até no Palácio do Planalto. Chegou recentemente ao ex¬-presidente um raciocínio político dividido em duas partes. A primeira dá conta de que sua derrocada pessoal aplacaria a opinião pública, esse monstro obstinado, movido por excitação, fraqueza, preconceito, intuição, notícias e redes sociais. A segunda parte é consequência da primeira. Com a opinião pública satisfeita depois da punição a Lula, haveria espaço para a criação de um ambiente mais propício para Dilma Rousseff cumprir seu mandato até o fim. Nada de novo. A política é feita desse material dúctil inadequado para moldar alianças inquebrantáveis e fidelidades eternas.

Os sinais negativos para Lula estão por toda parte. Uma pesquisa do Ibope a ser divulgada nesta semana mostrará que a maioria da população brasileira condena a influência de Lula sobre Dilma. Some-se a isso o contingente dos brasileiros que até comemorariam a prisão dele, e o quadro fica francamente hostil ao ex-presidente. O nome de Lula e os de mais de uma dezena de pessoas próximas a ele são cada vez mais frequentes em enredos de tráfico de influência, desvios de verbas públicas e recebimento de propina. Delator do petrolão, o doleiro Alberto Youssef disse que Lula e Dilma sabiam da existência do maior esquema de corrupção da história do país. 

Dono da construtora UTC, o empresário Ricardo Pessoa declarou às autoridades que doou dinheiro surrupiado da Petrobras à campanha de Lula à reeleição, em 2006. O lobista Fernando Baiano afirmou que repassou 2 milhões de reais do petrolão ao pecuarista José Carlos Bumlai, amigo de Lula e tutor dos negócios dos filhos do petista. Baiano contou aos procuradores que, segundo Bumlai, a propina era para uma nora do ex-presidente. A relação de nomes é conhecida, extensa e plural - dela faz parte até uma amiga íntima de Lula. A novidade agora é que a lista foi reforçada por um novo personagem. Não um personagem qualquer, mas Luís Cláudio da Silva, um dos filhos do ex-presidente. O cerco está se fechando.

Com reportagem de Hugo Marques e Pieter Zalis

Lula, Dirceu e 50 milhões de euros ao PT em Macau

Felipe Moura Brasil  
Veja online

Portugal também cerca o "chefe"

O negócio contou com o envolvimento político de Lula da Silva e de José Sócrates

O Estadão repercutiu nesta segunda a reportagem do jornal português O Público sobre mais um escândalo envolvendo Lula e seu braço-direito, atualmente preso, José Dirceu.

Ambos participaram direta ou indiretamente de negociações que teriam rendido 50 milhões de euros de propina “ao grupo petista” em uma conta de Macau, em troca das autorizações políticas necessárias a um acordo de telecomunicações luso-brasileiro.

“A Polícia de Portugal está investigando pessoas próximas ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, bem como ex-governantes e gestores brasileiros e portugueses, num inquérito relacionado ao negócio fechado entre a operadora Oi e a Portugal Telecom (PT) em 2010. (…)

A suspeita é de que pagamentos teriam aberto as portas para que o acordo tivesse a autorização necessária da parte do estado brasileiro e agências reguladoras.

O dinheiro para essa autorização teria vindo de construtoras brasileiras, numa forma de quitar uma dívida que existia entre essas empresas e a Portugal Telecom, avaliado na época em 1,2 bilhão de euros.

O Ministério Público português confirmou ao Estado que existem duas investigações ocorrendo em paralelo e que a cooperação com o MP brasileiro tem sido ‘constante’.

Segundo o jornal, existe a suspeita de ‘pagamentos de várias dezenas de milhões de euros ao universo restrito do ex-presidente da República Lula da Silva, bem como a ex-governantes e gestores brasileiros e portugueses.’

O dinheiro teria vindo de empresas como a construtora Andrade Gutierrez, ‘através de territórios como Angola e Venezuela’. (…)

Segundo o jornal Público, o inquérito afeta ‘a abrangência dos contatos que se estabeleceram entre os círculos próximos do ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva e os do ex-primeiro-ministro José Sócrates’. (…)

Segundo a revista Sol, também de Portugal, documentos com anotações ‘Portugal Telecom’ foram encontrados na casa de Luís Oliveira Silva, sócio e irmão de José Dirceu.”



Mário Soares, ex-presidente do Portugal que teria sido contratado para aproximar os empresários a Lula, procurou o escritório de advocacia LSF & Associados, ligado a Dirceu, segundo o Público.

“A empresa portuguesa teria sido informada de que o ‘negócio com a Oi está condicionado à entrega ao grupo petista de 50 milhões de euros, verba que deve ser movimentada por uma conta em Macau. Sem pagamento, não haverá parceria”.

A partir desse momento, as conversas entre Lula e Sócrates teriam se intensificado.”

O Público conclui:

“As autoridades suspeitam agora de eventuais verbas ilícitas entregues ao grupo de Lula da Silva e a políticos e gestores portugueses. E os indícios apontam para uma origem na parcela de 1,2 bilhão, com o Ministério Público a querer saber quem deixou a sua assinatura.”

Comento:
O governo do PT, portanto, está envolvido nos mais diversos tipos de venda, como, por exemplo:

– venda de autorizações políticas para acordo entre empresas de telecomunicações;

– venda de medidas provisórias para beneficiar montadoras de veículos;

– venda de ministérios para salvar Dilma Rousseff do impeachment.

É mesmo um governo vendido.


Relatório detalha movimentação nas contas de Lula, Palocci e Erenice

Folha de São Paulo

Um novo relatório do órgão de inteligência financeira do Ministério da Fazenda afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e os ex-ministros petistas Antonio Palocci e Erenice Guerra movimentaram recursos milionários após deixar o governo, de forma incompatível com suas atividades no setor privado, de acordo com reportagem publicada pela revista "Época" na edição que chega às bancas neste sábado (31).

Segundo o relatório obtido pela revista, produzido pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), as empresas de Lula, Palocci e Erenice movimentaram R$ 294,6 milhões em suas contas desde 2008. O valor representa a soma de entradas e saídas, ou seja, o que faturaram com seus clientes, mais o que repassaram a outras contas para realizar despesas, investimentos e aplicações financeiras, por exemplo.

De acordo com o Coaf, a empresa criada por Lula em 2011 para contratar suas palestras faturou R$ 27 milhões até maio deste ano e transferiu R$ 25,3 milhões para outras contas, movimentando ao todo R$ 52,3 milhões. O faturamento da empresa foi revelado em agosto por reportagem da revista "Veja" baseada em outro relatório produzido pelo Coaf.

Edson Silva - 26.out.14/Folhapress
O ex-ministro Antonio Palocci em Ribeirão Preto (SP)

Palocci foi ministro da Fazenda de Lula e abriu sua empresa de consultoria, a Projeto, em 2006, ano em que deixou o governo e se elegeu deputado federal. Ele movimentou R$ 216,2 milhões até abril deste ano, segundo o relatório do Coaf divulgado pela revista "Época". Desde junho de 2011, quando deixou o posto de ministro da Casa Civil do governo da presidente Dilma Rousseff, a consultoria de Palocci faturou R$ 52,8 milhões, segundo o Coaf.

Palocci deixou o governo Dilma após a Folha ter revelado a existência de seus negócios como consultor e a multiplicação de seu patrimônio pessoal. Ele sempre defendeu suas atividades como legítimas e se recusou a revelar a identidade de seus clientes. Entre 2007 e 2010, quando Palocci era deputado, a Projeto faturou R$ 35 milhões, de acordo com informações repassadas pela Receita Federal ao Ministério Público Federal.

Segundo a reportagem da revista "Época", o relatório do Coaf mostra que Lula repassou recursos a seus filhos e investiu no ano passado R$ 6,2 milhões num plano de previdência privada.

Em nota, o Instituto Lula informou que os valores se referem a 70 palestras ministradas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva contratadas por 41 empresas, "todas realizadas, contabilizadas e com os devidos impostos pagos". A nota enfatiza que "não há nada de ilegal na movimentação financeira do ex-presidente" e que "os recursos são oriundos de atividades profissionais, legais e legítimas de quem não ocupa nenhum cargo público".

No caso de Palocci, o relatório diz que sua consultoria faturou R$ 4,7 milhões com a Caoa, montadora e revendedora de veículos investigada na Operação Zelotes suspeita de envolvimento com suposto esquema de compra de medidas provisórias. Investigadores investigam suspeitas de que houve pagamento de propina para garantir incentivos fiscais para as montadoras na MP 471, aprovada pelo Congresso no fim de 2009.

A relação de Palocci com a Caoa já era conhecida. Em maio, a empresa afirmou à Folha que o ex-ministro prestou consultoria em dois períodos, de 2008 a 2010 e de 2012 a 2013, "nas áreas de planejamento estratégico, econômico, financeiro e de relações internacionais". A empresa disse que "não comenta detalhes sobre contratos".

A assessoria de imprensa do ex-ministro Antonio Palocci afirmou que seus ganhos e os de sua empresa "estão clara e transparentemente registrados e sempre informados às autoridades competentes".

Em nota, chama de "caluniosas e mentirosas as ilações" e que buscam relacionar os serviços da Projeto Consultoria à aprovação de benefícios ao setor automotivo. Afirma ainda que Palocci está afastado da vida pública há mais de quatro anos e que retomou as atividades empresariais nesse período.

ERENICE
Erenice Guerra foi secretária-executiva da Casa Civil quando Dilma era a ministra, no governo Lula, e sucedeu a chefe quando ela deixou o posto para concorrer à Presidência nas eleições de 2010. Erenice deixou o cargo após acusações de tráfico de influência envolvendo sua família no âmbito do ministério.

Segundo a revista "Época", o escritório de advocacia da ex-ministra recebeu R$ 12 milhões entre agosto de 2011 e abril deste ano e transferiu R$ 11,3 milhões a outras contas, movimentando um total de R$ 23,3 milhões no período. Procurada pela Folha, a ex-ministra não foi localizada.

PIMENTEL
Ainda de acordo com a revista, o governador de Minas Gerais, Fernando Pimentel (PT), chamou atenção do Coaf ao fazer um saque de R$ 150 mil dois meses após vencer as eleições. Na análise das movimentações, diz a revista, os investigadores apontaram um "comportamento atípico" do governador, já que ele teria apresentado informações incorretas sobre a operação ou evitado esclarecê-la.

A Polícia Federal investiga se o comitê do PT em Minas recebeu recursos ilícitos de contratos assinados entre órgãos públicos e empresas de Benedito Rodrigues de Oliveira, amigo de Pimentel, preso com R$ 113 mil em dinheiro vivo dentro de um avião. A Operação Acrônimo averigua supostos desvios de recursos para a campanha de Pimentel ao governo de Minas, em 2014, e suspeitas de tráfico de influência.

Em nota, os advogados de Pimentel disseram que desconhecem a origem e o conteúdo dos documentos e que o governador "apresentará todos os esclarecimentos assim que as informações mencionadas na mensagem forem disponibilizadas nos autos do inquérito".

"O governador reafirma jamais ter participado de qualquer ato ilícito, colocando-se, como sempre o fez, à disposição para todo e qualquer esclarecimento, sempre que apresentados os documentos nos quais se fundam as supostas acusações", continua a nota.