domingo, novembro 08, 2015

Vai demorar para avaliarmos os danos da má gestão no Brasil

J.R. Guzzo
Revista EXAME 

Getty Images 
Dilma: as prioridades de nossa política externa
 são hoje os maiores perdedores da face da Terra

São Paulo — Há um prejuízo não contabilizado até agora na falência econômica múltipla produzida no Brasil pelo conjunto da obra Dilma-Lula-PT; é difícil fazer as contas dessa perda no momento, e continuará sendo difícil mesmo depois que o país, em algum dia no futuro, sair da recuperação extrajudicial em que está atolado após cinco anos de desgoverno contínuo, com a assinatura da atual presidente, somados a oito de “esquenta”, com a assinatura de seu “ex” no cargo.

O prejuízo em questão é o atraso que o Brasil está contratando hoje para seu desenvolvimento de amanhã.

A dificuldade em identificar um número capaz de medir com precisão quanto isso vai custar está no nevoeiro que necessariamente envolve cálculos a respeito do que poderia ter acontecido e não aconteceu — no caso, aliás, tudo o que não aconteceu de bom e o muitíssimo que aconteceu de ruim em quase 13 anos corridos de aposta do governo no lado que perde.

Mas todo mundo já pode contar que a recuperação da economia, quando vier, sofrerá com uma quantidade de espinhos muito maior do que seria razoável. É a proverbial “bomba de efeito retardado”.

O nome do problema, em termos simples, é: perda de tempo. E isso vai se traduzir, na prática, em perda de oportunidades, de energia, de mercados, de musculatura para competir, de competência tecnológica, de lugar na fila. O Brasil voltará a funcionar, mais cedo ou mais tarde — mas verá, com frustração, que seu motor não estará rendendo o suficiente para girar na velocidade necessária.

Verá à sua frente competidores que ainda há pouco tempo estavam lá para trás e, pior que isso, descobrirá que ficou difícil emparelhar com eles. Vai constatar que outros estarão ocupando os espaços que vêm perdendo agora, e aqueles em que precisaria entrar. Vai verificar que perdeu escala, carrega custos excessivos em tudo o que faz, trabalha com produtividade baixa.

Vai se surpreender com a descoberta de que é um país pura e simplesmente atrasado, que produz pouco, mal e caro. O Brasil não faz hoje o seu dever; não vai entregar amanhã o resultado. Num mundo que avança cada vez mais rápido, arrasta-se como um carro de boi. O México acaba de superar o Brasil como o maior produtor de carros da América Latina.

A África dos sonhos da política externa de Dilma, de Lula e do PT, em cima da qual o Itamaraty imagina construir a supremacia mundial do Brasil, é cada vez mais um competidor agressivo no mercado de matérias-primas e na produção agrícola, a única área em que as coisas vão bem por aqui; seu grande parceiro e aliado na vida real de hoje é a China.

Enquanto dezenas de países mundo afora assinam tratados de livre comércio entre si, e com isso aumentam de imediato suas exportações, seus empregos, sua renda, sua arrecadação pública e a produção geral de suas economias, o Brasil fica olhando sem fazer nada; acha que procurar esse tipo de acordo é executar uma diplomacia de direita, e precisamos de uma diplomacia de esquerda.

Nossas prioridades externas são os maiores perdedores econômicos existentes hoje na face da Terra — Venezuela, Argentina, o Babaquistão do Oeste e por aí afora. Não existe, nessa corrida internacional, uma questão de “espírito olímpico”, em que o importante não é ganhar vantagens meramente comerciais, e sim pregar o evangelho dos povos desfavorecidos.

Ao contrário, a única coisa que importa é ganhar, pois quem ganha é o bem-estar, a prosperidade e o futuro dos cidadãos beneficiados pelo aumento do comércio e da produção.

Na mesma estrada, em sentido inverso, quem perde não é o “país” — são os brasileiros, que em 2015, até o dia 30 de setembro, já perderam mais de 650 000 empregos (mais de 1,2 milhão, nos últimos 12 meses) e que precisam desesperadamente do trabalho que estariam tendo se o governo entendesse que o comércio externo é uma das chaves do progresso interno — e um motor do avanço social.

Na hora de correr atrás do que foi perdido vai se ver como ficou cara essa conta.

“Dilma já não tem condições de governar”, afirma Stephen Kanitz

Manoel Vidal
Tribuna da Internet


Kanitz mostra que Dilma já conseguiu brigar com todo mundo

Stephen Charles Kanitz é um consultor de empresas e conferencista brasileiro, mestre em Administração de Empresas pelo Harvard Business School, bacharel em Contabilidade pela Universidade de São Paulo, articulista de importantes publicações. Neste artigo, publicado em seu blog, Kanitz analisa a trajetória da presidente Dilma Rousseff e explica por que ela não tem mais condições de governar o país.

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FALTAM CONDIÇÕES OBJETIVAS PARA LIDERAR A NAÇÃO

Stephen Kanitz

Dilma já brigou com praticamente todo mundo, uma constante na sua vida. E nossa Constituição foi elaborada por advogados legalistas, não por engenheiros, contadores, administradores e auditores. E de forma legalista decidiram que um Presidente só pode ser deposto se fizer algo contra a lei, não por incapacidade objetiva de governar.

Numa empresa ao contrário, uma assembleia extraordinária de acionistas já teria sido convocada e a Dilma demitida, por falta de condições objetivas de liderar a empresa, apesar de ela ter sido eleita pelo Conselho de Administração.

Na democracia inglesa, também existe o recurso do Voto de Confiança ou Voto de Desconfiança, onde a qualquer momento os representantes do povo podem destituir uma Dilma, por ela ter perdido a confiança de 80% dos brasileiros, segundo pesquisas atuais, o que não é impeachment por alguma irregularidade, É uma simples constatação de perda de condições objetivas de liderar uma nação e o perigo que esta situação pode causar.

Vejamos as condições objetivas da Dilma de governar:

Dilma, como alertei em 2011 (http://blog.kanitz.com.br/mcgregor-ultrapassada/) usa a teoria administrativa ultrapassada chamada Teoria X, um estilo briguento de conseguir as coisas. Ninguém a obedece porque tem valores alinhados e sim, porque temem o gênio dela.

Dilma já brigou com praticamente todo mundo, uma constante na sua vida, por sinal. Brigou com seu marido, de quem se separou e que poderia agora lhe dar suporte emocional e carinho, acalmar esta pilha de nervos que ela demonstra a cada discurso.

Brigou com a mãe, a quem nunca mencionou em nenhum de seus discursos, que mostra outro problema pessoal. Brigou com seu meio irmão, que ela inclusive enganou quanto à divisão da herança do pai (http://www.novinite.com/view_news.php?id=120755).

Brigou com seu mentor Brizola, traindo o PDT e se juntou ao PT que a odeia. Brigou com seu eleitor Lula, a quem disse “não lhe devo mais nada”, e que está agora tramando contra ela. Brigou com seu ministro Guido Mantega, que não fala mais com ela.

Brigou com Henrique Meirelles, o mentor da política econômica de Lula e que deveria ter sido seu ministro da Fazenda, mas Dilma não quis saber. Deu no que deu.

Brigou com a Marta Suplicy, que só fala mal da Dilma, de uma forma que só uma mulher sabe fazer. Brigou com a Globo, a emissora que sempre é chapa branca, pode? Brigou com o líder do Congresso, Eduardo Cunha, que quer um impeachment a todo custo.

Brigou com seu vice, Michel Temer, e o partido que a apoia. Brigou com alas inteiras de seu Partido dos “Trabalhadores”, achando que o partido agora é dela.

Dá para brigar com ainda mais pessoas do que isto? Claro…

Brigou com o Líder do Senado, Renan Calheiros. Brigou com as empresas do setor elétrico. Brigou com as empresas do setor de educação. Brigou com o setor de álcool, hoje quebrado. Brigou com o setor agrícola. Brigou com os caminhoneiros de todo o Brasil.

Brigou com o Ministério Público, justo quem. Brigou com todo o sistema capitalista, que seu marxismo século XIX odeia. Brigou com a classe média, que agora externa sua insatisfação sempre que há oportunidade.

Dilma tem um sério problema pessoal não resolvido, que pelo jeito lhe tirou as condições objetivas de ser a Presidente do Brasil. Sua única alternativa é brigar consigo mesmo, ou seja, renunciando. Mas como ela acha que seria uma derrota do feminismo, eu temo que ela vá até o fim. Autocrítica ela não tem. Que economista tem, por sinal? Eles sempre estão certos, nunca erram.

Faltou-lhe bom senso, carisma, honestidade, humildade, vamos ser sinceros, faltou-lhe capacidade de liderança, que ela nunca teve.

Em nome de seu pai, em nome do país que abriu as portas para um refugiado búlgaro, em nome de um povo fraterno e solidário que permitiu a seu pai e a você vida nova, não destrua ainda mais o país que recebeu a sua família de refugiados. Você já se revelou uma persona non grata com a classe dominante que permitiu à família Roussef paz e tranquilidade, ao pegar em armas, assaltar bancos e joalheiros brasileiros, querendo derrubar aqueles que deram à sua família guarida.

Caso V.Exa. decida pedir desculpas a todos que a elegeram, no seu discurso cite pela primeira vez a sua mãe, o seu pai, o seu irmão, e agradeça os quatrocentões brasileiros e a elite dominante que abriram as portas para emigrantes como a sua família.

Não destrua com suas constantes brigas o país que lhe acolheu. Perceba que você perdeu sua capacidade de liderança, e mais, que você nunca deveria ter aceitado aquele convite do Lula, você colocou a sua ambição acima da sua capacidade de cumprir o prometido.

Volte amanhã, tente de novo

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

No caso do eSocial, muitos ficaram acordados até de madrugada. E ficaram felizes quando conseguiram emitir a guia

Não é coincidência. O sistema tributário brasileiro foi considerado o pior do mundo no relatório “Fazendo negócios” que o Banco Mundial acaba de lançar. Nem bem a gente conseguia estudar o documento, e a Receita correu para justificar o título: impôs ao contribuinte horas de trabalho extra para registrar os empregados domésticos e emitir a guia de pagamento dos impostos.

Foi na mosca. O relatório do Banco Mundial não mede prioritariamente o tamanho da carga tributária, mas se o sistema é amigável ou hostil ao contribuinte. Atenção, ao contribuinte honesto, que deseja manter em dia suas obrigações com o Fisco. Num ranking de 189 países, o Brasil ficou em 177º no quesito facilidade no pagamento de impostos.

Então não foi o último, dirão. Certo. Há 12 países que atormentam ainda mais o seu contribuinte. Entre eles, países africanos, como Nigéria e Senegal, e dois latino-americanos, aliás, nossos parceiros de Mercosul, a Venezuela e a Bolívia, respectivamente no penúltimo e no último lugar. Portanto, nosso comentário acima está correto: o Brasil tem o pior sistema tributário do mundo quando considerados as nações sérias e relevantes, com todo o respeito.

O documento do Banco Mundial avalia o ambiente de negócios para uma empresa média padrão. O sistema tributário é examinado a partir de dois itens básicos: quantas horas a empresa gasta para manter suas obrigações (2.600 no caso brasileiro) e quantos procedimentos precisa fazer.

Aplicando para a pessoa física, já podemos acrescentar mais horas e procedimentos com esse eSocial.
Não é um episódio pequeno. Na verdade, revela uma cultura de governo, entranhada na burocracia e nas repartições, que trata o contribuinte e o cidadão como se fossem empregados do governo, como se fossem devedores. Quando faz alguma coisa, como uma obra ou presta um serviço decente, o governante sai por aí alardeando que “deu” isso e aquilo para o povo. Por exemplo: “colocamos comida na panela das pessoas”.

Ora, quem coloca comida na panela são os brasileiros que trabalham duro e enfrentam condições difíceis por culpa dos governos. Ou é culpa do cidadão demorar duas horas para chegar ao trabalho e outras duas para voltar? Vai ver que não conhece as linhas de ônibus...

No episódio do eSocial, logo de cara ficou claro que o sistema não funcionava direito. Resposta das autoridades aos contribuintes: continuem tentando; tentem fora do horário de pico.

E não é que muitos ficaram acordados até tarde ou acordaram de madrugada? E ficaram felizes quando conseguiram emitir a guia para cumprir a obrigação.

É costume. Desânimo também. Tantos anos sendo maltratado, e o cidadão-contribuinte como que perdeu a esperança e o ânimo de reclamar. Vai pacificamente para a fila do hospital, espera no INSS, fica horas na frente do computador tentando emitir a tal guia. Quando é atendido agradece. Claro, deve mesmo, por educação, ser gentil e agradecer ao funcionário, mas, gente, é este que está ali cumprindo sua obrigação.

A repartição tem de ser amigável com o cidadão. O funcionário é empregado do cidadão. Se o serviço público não funciona, não se pode passar a responsabilidade para as pessoas, como fazem: Volte amanhã. Tente de novo. Você precisa de melhores computadores.

Do lado lá deles, por vários dias, ninguém pediu desculpas, ninguém se demitiu, ninguém caiu pelos erros ou omissões. E ainda ameaçaram: o prazo não seria prorrogado. Não emitiu a guia, toma multa.

FOI BOM?
Ao comprar uma parte da brasileira Hypermarcas por US$ 1 bilhão, a multinacional Coty assumiu o risco Brasil ou simplesmente aproveitou uma liquidação?

É fato que a Hypermarcas estava barata, por duas vias. A recessão derrubou o valor das ações em reais, e a desvalorização do real tornou a empresa ainda mais barata quando avaliada em dólares. Liquidação, portanto.

Por outro lado, mesmo uma multinacional de porte não gasta um bilhão de dólares só porque topou com uma pechincha. Logo, a companhia comprou Brasil, com dois parâmetros: um, o dólar já deve estar na cotação adequada; dois, um dia a crise passa e o mercado volta.

Tomara que estejam certos.

A Face Oculta.

Carlos Brickmann
ChumboGordo.com

O grande acordo “Tira do Meu que Eu Tiro da Sua” está evidente: Eduardo Cunha evitou que Gilberto Carvalho, Erenice Guerra, Antônio Palocci e um dos filhos de Lula, Fábio Luís, fossem convocados pela CPI do BNDES. Foi o agrado a Lula por ter ordenado ao PT que garantisse amplo direito de defesa a Eduardo Cunha e demais alvos do procurador Rodrigo Janot. A ampla defesa inclui um relator amicíssimo de Cunha e seu antigo seguidor.

Já o processo de impeachment contra Dilma está andando, mas em ritmo de discurso de Suplicy. Cunha já podia ter tocado ou rejeitado o processo, o que seria normal, mas preferiu ralentar. E aí há feriados, recesso parlamentar, festas de fim de ano. Cunha diz que não haverá recesso, mas é mais fácil boi enlatado voar do que esperar parlamentares para votar impeachment no recesso que não haverá. No ano que vem, depois do Carnaval – claro! – o clima já será outro, de eleições municipais.

OK? Não: hoje, mais importante que o jogo do Congresso é a face oculta da crise. A greve dos petroleiros tem inesperado índice de adesão. Uma surpresa, considerando que os sindicatos do setor são mais governistas do que Collor, Sarney, Maluf e Kátia Abreu juntos. E, para amanhã, segunda, está marcada uma greve explosiva, a dos caminhoneiros. Se der certo, bloqueia estradas, suspende o abastecimento, paralisa a economia, multiplica o efeito da greve dos petroleiros. Há, entre os caminhoneiros, alguns cujo objetivo é derrubar o Governo.

Agora não adianta muito olhar para Brasília: é preciso olhar para o país.

O movimento das ruas
A propósito, estão marcadas para o dia 15, domingo que vem, manifestações Fora Dilma espalhadas pelo país. Se houver desabastecimento, devem crescer.

Ele conhece
A frase de José Guimarães, do PT cearense, líder do Governo na Câmara, aquele cujo assessor foi preso no aeroporto com cem mil dólares na cueca, mostra que ninguém mais quer derrubar ninguém, que o acordo entre Governo e Eduardo Cunha está fechado – tão fechado quanto a boca dos partidos que se dizem de oposição: “Ninguém pode ser excluído de suas funções ou condenado sem o trânsito em julgado. E isso também vale para o Conselho de Ética”.

Questão de boa-fé
Tirando o Capitão Gancho, ninguém bota a mão no fogo pelo cumprimento de um acordo entre os personagens acima citados. Mas uma eventual traição envenenará o clima de tal maneira que a crise transbordará de volta para Brasília.

Acredite se quiser
Não, não é piada: na sexta-feira, realizou-se no Hotel Othon, no Rio, o seminário “Transparência e Corrupção nos Governos”, promovido pela Coordenação Socialista Latino-Americana. Quem falou em nome do PT? Mônica Valente, sua secretária de Relações Internacionais. E também esposa de Delúbio Soares. Mônica Valente criticou duramente não apenas a corrupção como o caixa dois nas campanhas eleitorais.

É a posição da família: Delúbio também era contra a caixa dois. Só aceitava, como tesoureiro do PT, o que chamava de “recursos não contabilizados”. Foi condenado no Mensalão à pena de seis anos e oito meses.

Os bons tempos passaram
O Ministério da Justiça promove meritória campanha de valorização dos imigrantes – uma campanha que este colunista, neto de ucranianos e romenos, genro de polonesa e romeno, só pode elogiar. O problema é que o Ministério dirigido por José Eduardo Martins Cardozo escorrega feio até quando está do lado certo. Um internauta, Heder Duarte, enviou a seguinte mensagem: “Imigrantes pacíficos são bem-vindos, já os jihadistas devem ser bloqueados de entrar no Brasil”. Correto: o imigrante pacífico enriquece a sociedade brasileira. Já os jihadistas proclamam a guerra santa muçulmana contra os infiéis, ou seja, todos os que tenham qualquer outra crença. O Estado Islâmico, por exemplo, é jihadista, como a Al-Qaeda.

A resposta oficial do Ministério da Justiça, conferida no seu próprio site: “Temos que desconstruir alguns conceitos, Heder. Os jihadistas, assim como qualquer outro povo de qualquer outra origem, vêm ao Brasil para trazer mais progresso ao nosso país e merecem respeito” (segue-se o símbolo  , que significa algo como “sorriso”).

É tanta besteira que fica difícil até rebater: primeiro, jihadistas não são um povo, mas pessoas de vários povos que partilham a crença de que todos têm de ser convertidos ao islamismo, mesmo que pela violência. Segundo, a guerra santa traz progresso para quem?

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, terá algo a dizer sobre a posição do seu Ministério?

Notícia enigmática
Nota publicada na coluna Giba Um (www.gibaum.com.br): “Muitos – de melhor memória – estão lembrando uma história de uma Ferrari que bateu na Rodovia Castelo Branco, o motorista fugiu e seus seguranças trataram de levá-lo para longe do local do acidente. Alguns investigaram e descobriram que o carro era de uma construtora de São Bernardo, cujo endereço é dentro de uma companhia de ônibus da chamada ‘rainha da catraca’. Se o arranjo for igual ao do apartamento dos Jardins, o motorista (e dono) poderia ser aquele filho famoso”.

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Memórias da salvação

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo

Lula chamou a delação premiada de mentira premiada. Responde com uma piada nervosa diante de tantas evidências de que os depoimentos são verdadeiros. Ignorou que a Lava Jato, com 33 delações premiadas e três acordos de leniência, devolveu R$ 2,4 bilhões ao País

Outro dia, escrevendo sobre o comício das diretas em Caruaru, lembrei-me de que no palanque estavam Collor e Lula, entre outros. Naquele momento não poderia prever ainda a importância que ambos teriam no processo democrático. Collor, o caçador de marajás, preparava sua cruzada contra a corrupção. Lula, encarnando a esquerda, falava de ética na política. Ambos os projetos, destinados a combater a corrupção, foram tragados por ela, sem distinção ideológica.

Leio no New York Times que dois políticos do Estado de Albany serão julgados nos próximos dias: Dean Skelos e Sheldon Silver. As acusações soam familiares: enriquecimento ilícito, propinas mascaradas em doações legais, parentes envolvidos. A matéria diz que a cultura da corrupção em Albany será julgada com os dois políticos. Acredito que sim, mas acho difícil suprimir uma cultura apenas com um veredicto.

Albany ainda tem uma pressão corretiva nacional. No caso brasileiro, não se trata apenas da cultura de um Estado da Federação: é de todo um país.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso conseguiu administrar a corrupção em seu governo, no sentido de que não evitou os escândalos; mas realizou seus objetivos. Ele próprio, porém, admite um problema sistêmico, a julgar pela sugestão que fez a Dilma e Lula numa viagem à África do Sul. Argumentando com a rejeição popular ao processo político tradicional, propôs uma urgente mudança.
Hoje, confrontados com todo o material que a Operação Lava Jato e outras investigações revelaram, estamos diante de uma situação singular: corrupção alarmante e grave crise econômica.

Diante da inflação e do desemprego crescente, que afetam todos nós, os políticos responsáveis acham que é preciso conversar, buscar uma saída antes que tudo seja engolfado por uma crise social. No entanto, nenhuma conversa, por mais produtiva que seja, pode deixar de lado que a cultura da corrupção está sendo julgada no Brasil. O veredicto final não resolverá o problema, mas certamente será um passo decisivo, tão importante para completar a democracia brasileira como foi aquele momento na década de 1980, quando lutávamos por eleições presidenciais diretas.

Embora a corrupção fosse tema de Collor em 1988 e de Lula em 2002, a revolução nas comunicações, a presença da internet, o avanço dos órgãos investigativos, a cooperação internacional, tudo isso converge agora para fortalecer a transparência. E enfraquecer os salvadores.

Diante da experiência fracassada de Collor e do PT, talvez fosse oportuno refletir sobre a frase de Cioran: a certeza de que não existe salvação é uma forma de salvação, é mesmo a salvação. As pesquisas, todavia, indicam um ângulo favorável aos salvadores. O PT é naturalmente rejeitado pela maioria, mas os opositores também registram altos índices negativos. Uma terceira força, vinda de fora, teoricamente, poderia derrotar a todos.

Na minha opinião, os políticos estão sendo julgados por todos esses anos de democratização, mas também, e sobretudo, por como se comportam no momento em que escândalos e crise econômica se entrelaçam.

Um exemplo da luta contra a cultura da corrupção se dá em torno de um instrumento legal, a delação premiada. É apenas uma lei que reduz penas se a pessoa disser a verdade e reparar seu crime, no caso, devolvendo o dinheiro.

Dilma combateu a delação premiada com uma emoção de esquerda. Lembrou-se dos que delataram os militantes nos anos de chumbo. Suprimiu um pequeno detalhe: que foram torturados para dizer a verdade.

Lula chamou a delação premiada de mentira premiada. Responde com uma piada nervosa diante de tantas evidências de que os depoimentos são verdadeiros. Ignorou que a Lava Jato, com 33 delações premiadas e três acordos de leniência, devolveu R$ 2,4 bilhões ao País.

Existe nas ruas uma certa hesitação em colaborar com a polícia. As expressões alcaguete e dedo-duro têm uma conotação negativa. Tiradentes, com a figura parecida com a de Cristo, teve seu Judas em Joaquim Silvério dos Reis. Para quem vê a democracia apenas como uma etapa é fácil confundir a polícia com repressão política; afinal, todas as instituições visam a preservar o sistema.

Com um viés de esquerda, foi possível transitar de uma luta pela ética na política para defesa da cultura da corrupção. Os empresários querem business as usual, as figuras que sobraram do palanque das diretas ainda devem ter conversas necessárias e a própria crise econômica pode ser superada num par de anos. Mas a sociedade, além das aflições da crise econômica, sente-se lesada por um governo quadrilheiro, desapontada com uma oposição hesitante.

A fratura não se fechará enquanto o problema em torno do crime e castigo não for resolvido. Isso pode consolidar os laços da sociedade com as instituições e, quem sabe, capacitá-la a empurrar os políticos para a frente, apesar deles.

Das diretas para cá o clima se degradou. Hoje vemos Lula movimentando fortunas na conta bancária, casa de campo, tríplex, exigindo menu de travesseiro. Ninguém imagina que tudo aquilo daria tanto dinheiro aos salvadores: Collor com seus carros de luxo, Lula faturando milhões com suas aulas magnas e, no fundo, a sirene do camburão.

Collor e o PT são dois momentos do processo. Seu fracasso precisa ser levado em conta na tentativa de recomeçar. Mais do que discursos e promessas e uma certa ingenuidade diante da fraqueza humana, será importante a transparência, apoiada em novas leis e no fortalecimento das instituições que investigam o poder político.

O governo elegeu-se com verba de corrupção, descumpriu a Lei de Responsabilidade Fiscal, manteve um esquema de rapina na Petrobrás. Enquanto estiver no poder, o relógio do recomeço está desligado. Não adianta tocar para a frente, como se não tivesse acontecido. Nem mantê-lo desligado até 2018. Não se para o tempo. No máximo, é possível ganhar horas com o fuso horário, como o deputado do PT que virou dono de um apartamento em Miami.

No cavalo de Agamenon,às portas de Troia

José Nêumanne
O Estado de São Paulo

Na quinta-feira 29 de outubro, em Brasília, onde assumiu a Presidência de fato no segundo mandato de sua substituta conveniente e conivente, Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva divertiu sua claque no Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT) com as metáforas de hábito e a grosseria de praxe. Nesse discurso, confessou que a afilhada praticara estelionato eleitoral na campanha vitoriosa da reeleição em 2014. “Tivemos um problema político sério, porque ganhamos a eleição com um discurso e depois das eleições tivemos que mudar o nosso discurso e fazer aquilo que a gente dizia que não ia fazer”, disse.

Na ocasião, proibiu investidas do PT contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), tido como o maior desafeto de Dilma e do partido. “Tudo o que interessa à oposição é que a gente arrume quinhentos pretextos para discutir qualquer assunto e depois não discutir o que interessa, que é aprovar o que a Dilma mandou para o Congresso Nacional. A não ser que tenha alguém aqui que ache que isso não é importante. Primeiro, vamos tentar derrubar o Eduardo Cunha, depois derrubar o impeachment e, depois, se der certo, a gente vota nas coisas que a Dilma quer”, ironizou. E recuou das rudes críticas que antes fazia ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy.

Nunca antes em sua vida pública, desde que assumiu a presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema, em 1975, Lula foi tão claro, estratégico e cuidadoso em qualquer discurso. Fez-se muito barulho em relação ao reconhecimento do estelionato, crime definido no Código Penal. Com a agravante de ter sido um estelionato que vitimou a Nação, em especial o eleitorado que não anulou voto, votou em branco ou se absteve de votar e, em particular, os brasileiros mais pobres e menos esclarecidos que acreditaram em sua candidata. E daí? Qualquer advogadinho do PT sabe e, na certa, lhe informou que estelionato não basta para abrir processo de impeachment contra a presidente.

Além disso, Lula recebe de novo inestimável apoio de quem se apresenta à cidadania como adversário. Há um vácuo jurídico na Constituição de 1988: inexiste lei que regulamente o impedimento de presidente. O texto legal de 1950, aos 65 anos de vigência, serviu de base para levar Collor a renunciar. Mas não é suficiente para depor Dilma de forma democrática. E é nesse argumento incontestável que os dependentes da miríade de boquinhas do governo lulodilmopetista se apoiam para chamar de “golpista” quem não suporta mais a presidente (7 em 10 brasileiros). A Constituição vige há 27 anos, o oitavo mandato presidencial está começando e nunca parlamentar algum cuidou desse detalhe.

Este não é, definitivamente, um pormenor para a oposição, que não encontrou até agora base jurídica séria para fazer o que a Nação quase inteira exige: retirar a estelionatária de palanque do cargo poderoso do qual comanda esta nossa marcha da insensatez para monumentais crises moral, econômica, política e quase à beira de outra, a institucional. Lula sabia disso quando confessou o delito da preposta. Os adversários, tudo indica, não.

Em relação à reeleição, recorde-se ainda que o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), requereu recontagem dos votos para verificar se não houve fraude na vitória da presidente sobre o senador Aécio Neves (PSDB-MG) no segundo turno do pleito de 2014. Qualquer usuário de computador em jardim de infância sabe que, no sistema de coleta e contagem de votos no Brasil, recontar votos é simplesmente impossível. Um ano depois, com a vencedora enredada em outras suspeitas, Sua Excelência disse o que todos já sabiam: não dá para recontar. Não contou, porém, por que, do alto de sua sapiência legislativa, não empreendeu alguma lei que ao menos dificultasse as fraudes que qualquer hacker iniciante pode praticar no Brasil.

O pior é que, mesmo sem o haver dito explicitamente, o ex no poder avalizou o mais asqueroso pacto de conivência criminosa de nossa História. Nele, a primeira mandatária da República e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, dois degraus abaixo dela na escada sucessória, achincalham as instituições garantindo um a impunidade da outra, e vice-versa. Em sua frase aqui citada, Lula não precisou de nenhum argumento para mandar seus asseclas evitarem incômodos a Cunha, fazendo ouvidos de mercador às evidências que brotam no seu prontuário policial como capim em pasto farto. A aceitação muda e mansa dos petistas à ordem do chefe, que, tal qual um Ulysses Guimarães do século 21, passou a comandar o governo federal, o partido e a oposição, é a maior prova de que apenas emudeceu o óbvio que, apud Nelson Rodrigues, ulula.

E se havia alguma dúvida de que o ex resolveu assumir, mantendo a preposta como rainha da Inglaterra de plantão, esta foi dirimida por sua guinada de 180 graus ao apoiar os ajustes e o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. O padimaceitou outro óbvio – de que a cabeça de Dilma está sob a espada de Dâmocles, suspensa pelo fio do rabo de um cavalo. O fio é dos bancos, que com a crise têm lucrado como nunca ninguém lucrou. Nisso ele é craque: há 40 anos o clã Lula da Silva morava numa vila operária e hoje se espalha em apartamentos de luxo, até na praia, mercê de sua carreira de palestrante para empresas acusadas de delinquir – o que lhe permitiu movimentar R$ 52,3 milhões em quatro anos, conforme o Coaf.

O descalabro de quatro desgovernos do PT, delatado nas Operações Lava Jato e Zelotes e com 3 mil brasileiros perdendo o emprego todo dia, mostra que o cavalo de cujo rabo pende a espada, e que Lula monta, após destruir tudo ao redor – empresas, empregos, crédito de agências de risco, honra e pudor –, não é de Átila, mas de Agamenon. Pois, às portas de Troia, abertas com a conivência de adversários néscios, ele planeja invadir-lhe as ruínas.

As 21 Copas do Brasil

 Paulo Rabello de Castro (*)
O Globo

Não será só com medidas pontuais de ajuste, como quer o desbaratado governo, que conseguiremos estabilizar as contas. Precisamos de ousadia e criatividade

Deu no “Jornal Nacional”: “... o governo já gastou R$ 400 bilhões, só este ano, com juros da dívida pública”. Mas não fará um tostão de economia — o tal superávit primário — para amortecer o impacto desses juros. O governo “gastou”, mas não liquidará a fatura indigesta. Vai rolar os juros para o futuro, como dívida nova. Dívida nossa. O repórter arrematava: a dívida pública chegará a 68% de PIB em 2015 e, se nada for feito, passará de 70% do PIB em 2016. Nada está sendo feito. Com essa notícia, o grande público começa a se inteirar de uma realidade catastrófica. O Brasil voltou a dever “demais”. E a pagar juros cavalares pela rolagem dessa dívida. O que não está claro é a profundidade do estrago deixado pela ruinosa gestão financeira do governo de Dilma Rousseff. Tudo indica que os juros acumulados este ano baterão em R$ 530 bilhões. Vamos configurar esta conta pensando em 21 Copas do Mundo, ao custo unitário de R$ 25 bilhões (como a nossa, em 2014) como se realizadas e pagas pelos contribuintes, de uma vez! Soa como completo absurdo, mas é a assombrosa verdade. Na época, ficamos discutindo se valia a pena bancar uma Copa, com ajuda do setor privado, e pagar em quatro anos. Achamos caro. Agora, sem debate público nem deliberação do Congresso, estamos encomendando e bancando 21 Copas de uma só vez. Com detalhe: sem realizar uma única obra pública para os contribuintes.

A realidade trágica dos juros públicos, de longe a conta mais elevada do planeta na sua categoria, acende um debate que não pode mais ser evitado. O Congresso jamais autorizou tal dispêndio e não o acompanha. O ministro da Fazenda a ele nem se refere. E o próprio Banco Central não dá ao tema o foco devido. O país tampouco tem freio limitador do endividamento federal; só agora aparece meritória iniciativa do senador José Serra, propondo uma lei a respeito. A deterioração das contas primárias do governo vem sendo alertada por analistas atentos e pelo TCU no episódio das “pedaladas”. E não é de hoje. O descontrole das despesas em 2015 é apenas o episódio final de anos de irresponsabilidade crescente na gestão financeira do Estado, que ninguém — pasmem! — controla preventivamente nesta República. A oportuna criação de um Conselho de Gestão Fiscal, capaz de fazer tal acompanhamento, dormita há 15 anos no Congresso e só foi acordada por iniciativa da bancada da “economia moderna” liderada pelo senador Paulo Bauer.

Conclusão simples: “quebramos”, mais uma vez, como país. Ainda tem remédio. Mas não será apenas com medidas pontuais de ajuste, como quer o desbaratado governo, que conseguiremos estabilizar as contas públicas. Precisamos de ousadia e criatividade, como assinalado no correto documento do PMDB sobre o atual impasse fiscal. Anos seguidos de rigorosa programação orçamentária, digamos até 2022, serão exigidos para se atingir a disciplina fiscal que nunca tivemos de fato. A Comissão Mista do Orçamento, presidida pela firme senadora Rose de Freitas, tem a missão histórica de retraçar o rumo perdido e consertar a lambança que agora ameaça as bases do Real, comprometido por uma inflação de dois dígitos. Um plano de controle orçamentário plurianual foi entregue pelo Movimento Brasil Eficiente à Comissão Mista, contendo os cálculos dos limitadores de dispêndio capazes de fazer o Orçamento de 2016 ser executado sem prejuízo dos investimentos e do crescimento. A ausência de ação imediata, no entanto, propiciará o impeachment do Brasil, antes mesmo do fim deste ano. Alternativas ao desastre existem, mas só a sociedade as poderá exigir do governante que não governa.

(*) Paulo Rabello de Castro é coordenador do Movimento Brasil Eficiente

Pedala, Lulinha

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O impeachment é um mecanismo legal. A única vergonha nacional é a barreira venezuelana no STF
Enquanto essa imprensa golpista fica tramando o impeachment de Dilma Rousseff, Lula da Silva resolveu explicar o que aconteceu, para acabar com a conspiração: as pedaladas fiscais foram necessárias para que o governo pudesse honrar o Bolsa Família e o Minha Casa Minha Vida. Ou seja: todo esse barulho em torno do TCU, toda essa grita por causa do rombo no Orçamento, toda essa crise político-administrativa não passam de espuma. O único fato real é que o governo popular, mais uma vez, arranjou uma maneira de ajudar os pobres. Aliás, já são quase 13 anos ajudando os pobres (a ficar mais pobres), por maneiras que até Deus duvida.

No dia em que os pobres entenderem quanto seu sofrimento foi usado por Lula para ficar no poder, o ex-presidente precisará se mudar para um triplex no Irã. O PT prostituiu o uso do dinheiro público no Brasil, arrombando as metas fiscais e de inflação, tudo embalado numa meticulosa maquiagem contábil, para poder financiar seu banquete fisiológico – do qual o mensalão e o petrolão são os pratos mais visíveis. Lula e os companheiros jogaram o Brasil numa recessão genuinamente nacional, genuinamente petista, empobrecendo democraticamente o país inteiro. Se a moda pega, assaltante apanhado com bolsa roubada vai dizer que é bolsa família.

O delator Fernando Baiano, operador do esquema do petrolão preso na Lava Jato, afirmou à Justiça que deu R$ 2 milhões a Fabio Luis da Silva, o Lulinha. As investigações esclarecerão os detalhes do maior caso de corrupção da República, mas já está evidente que seu dinheiro, caro leitor, foi usado sem parcimônia para irrigar o partido governante e os heróis do povo que o integram. Eles sabem disso e estão dobrando a aposta: Dilma acusou os “moralistas sem moral” de tramar sua queda. É preciso sangue-frio para falar em moral no centro de tamanha rapinagem. Ou melhor, sangue de barata – e isso não lhes falta. Depois de depenar um país com a ajuda de cúmplices que estão presos, causando à sua nação a perda do selo de confiança perante o mundo, você só consegue olhar nos olhos de um filho se tiver sangue de barata. E moral de barata.

Dilma Rousseff tem de sofrer o impeachment porque é a representante legal de um projeto de assalto ao Estado. Está mais do que evidente que o PT, partido que desmoralizou a bondade, instalou-se no poder para viver dele – rasgando o contrato da democracia e do princípio da representação política. Nada mais fará no Palácio diferente do que já fez, não há como. O que mais é preciso ser demonstrado? A maior empresa do país jogada na lona para, entre outras causas nobres, garantir a reeleição da presidente – como apontam todas as evidências da Lava Jato. O que mais precisa aparecer? Como disse Fernando Gabeira, o Brasil parece ter desacreditado até a imagem popular do batom na cueca: a mancha sempre pode ter vindo da lavanderia. E eles têm diversos especialistas em lavagem para assumir a culpa. São os laranjas de batom. Na cueca, só dólar.

Joaquim Barbosa deu seu pitaco. Disse que o impeachment “é um mecanismo brutal que não pode ser usado de qualquer maneira”. Prezado Barbosa: o impeachment não é um mecanismo brutal, é um mecanismo legal. E ninguém com juízo quer fazer nada de qualquer maneira, como juízes que atiram adjetivos ao vento. A única vergonha nacional até o momento é a barreira venezuelana no STF, seu velho conhecido, impedindo a investigação de uma presidente que em qualquer país 100% democrático já estaria sendo investigada.

E a barreira chavista conta com a operativa patrulha dos inocentes úteis (nem sempre inocentes, mas sempre úteis), que alugam suas santas reputações à mulher sapiens para renovar seus crachás de bondade progressista. Esse estranho oba-oba petista é cada vez mais envergonhado, naturalmente, e achou uma saída genial: eleger Eduardo Cunha o inimigo público número um. Cunha é hoje praticamente o único vilão nacional, porque quem rouba com estrelinha no peito é herói.

O pequeno detalhe dessa história é que Eduardo Cunha, presidente da Câmara dos Deputados, tem a chave do impeachment nas mãos. E o PT desperta seus instintos mais primitivos. Enquanto o gigante dorme, alguém tem de trabalhar.

Não foi bom para ninguém

Rosângela Bittar
Valor Econômico

Intrigante como já se passou quase um ano de exercício do segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, num governo claudicante, ameaçado de impeachment sem ter tido, na verdade, a oportunidade sequer de começar, e ainda não apareceu um sucessor bem situado e com perspectiva de se colocar na disputa de uma forma segura. Os três anos que faltam para a campanha formal são um tempo longo demais para deixar candidatos na rua, expostos às intempéries, mas se o governo continuar neste funcionamento vazio, uma engrenagem que só faz ratear, será inevitável que a escolha do próximo presidente da República tome conta do espaço político do país e nem a crise econômica mobilizará eleitos e eleitores.

Isso só não aconteceu, ainda, porque não há um nome em nenhum partido com o seu destino ligado a esta cadeira. As legendas, também, como o governo, soluçam, e não conseguem informações precisas sobre quem e o quê quer o eleitorado.

As pesquisas de opinião mais recentes mostraram o cenário oco do momento, em que todos os possíveis candidatos, do governo ou da oposição, estão mais ou menos situados no mesmo patamar de intenção de voto e de rejeição.

O cientista político e sociólogo Antonio Lavareda desestimula, nos seus estudos, que se considere, nas vastas listas submetidas ao eleitorado nesses levantamentos, os nomes que não participaram da última eleição. "Os que não foram candidatos, independentemente de a pesquisa dizer que o eleitor o conhece bem, não são conhecidos", afirma. Na maioria das vezes, submetem-se ao eleitor os nomes em lista estimulada, e em seguida pergunta-se se conhece aquelas figuras. Ora, quem respondeu à intenção de voto estimulada acabou de conhecer, não fazem nem três minutos, aquele candidato, portanto é uma resposta inócua para referência.

No caso das pesquisas deste fim de ano, seria necessário então, por esse princípio, separar o senador José Serra e o governador Geraldo Alckmin, ambos do PSDB. Foram citados pelo nível de conhecimento mas já vai longe o ano em que foram candidatos a presidente.

Restaria considerar, no grupo do governo, o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, e no da oposição, Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede). A única constatação, óbvia, que as pesquisas permitem fazer, é que os dados apurados mostram que a candidatura do ex-presidente Lula é inviável, hoje, e o PT bem faria se começasse a testar outros nomes, de preferência escolhendo-os entre os seus filiados que não participaram da cúpula partidária, nos últimos anos, por razões evidentes por si.

Por que a candidatura Lula se mostra inviável? O ex-presidente está com uma rejeição inédita, até mesmo no Nordeste, seu reduto mais fiel. Hoje, 55% do eleitorado diz que não votaria em Lula de jeito nenhum. Esse percentual era de 33% em maio do ano passado, uma queda vertiginosa para alguém carismático que cultiva a fama de pai dos pobres, que se vitimiza ainda com sucesso a qualquer obstáculo com que se depara na sua carreira política.

Só a rejeição, porém, não é tudo. Lula aparece nas respostas de 67% dos eleitores como tendo responsabilidade nos fatos criminosos em investigação na operação Lava-Jato.

São, então, 55% de rejeição, 67% que o responsabilizam pelo maior escândalo que sangrou a maior estatal brasileira. Um veredicto que torna inviável sua candidatura, hoje. A Lava-Jato, bem como agora a Operação Zelotes, no caso do Lula, constituem o fato político, jurídico, policial mais importante dessa conjuntura que vai empurrar o país até a sucessão e sobre ela exercer uma influência decisiva. As duas taxas combinadas são mortais para Lula, mas não o tirarão da campanha que se desenvolve hoje até que possa trabalhar por alguém. Vai ficar reservando lugar até o fim. Quem sabe não fica? Tudo depende.

Há, na cúpula do PT, com todas as ressalvas de que esse quadro pode mudar a partir do ano que vem, se houver recuperação econômica do país, quem defenda que, se o PT quiser ter a chance de manter o poder federal, melhor faria se encontrasse um nome, ou alguns nomes para serem testados desde já. Alguém, inclusive, a ser adotado pelo ex-presidente num grupo de petistas insuspeitos, fora da máquina partidária e do governo.

Da oposição são dois os candidatos que participaram da eleição do ano passado, e as pesquisas têm respostas diferentes para Aécio Neves (PSDB) e Marina Silva (Rede).

Aécio teve 33,55% dos votos válidos no primeiro turno e 48,36% dos votos válidos, no segundo turno. Houve um crescimento substantivo do primeiro para o segundo turno. As pesquisas deste mês, contudo, mostram o senador Aécio Neves reduzido à votação do primeiro turno que, de resto, é a votação padrão do PSDB em eleições presidenciais, seja quem for o candidato.

Na pesquisa MDA/CNT, Aécio aparece com 32% das intenções de voto, provando que tudo o que agregou em outubro de 2014, cerca de 15 pontos percentuais, ele não conseguiu reter.

É fato que na disputa do segundo turno o candidato recebe parte da votação do terceiro lugar e a adesão de quem não vota no seu adversário de jeito nenhum. Mas não conseguir agregar um votinho desses, conquistados fora do eleitorado do PSDB, é um fenômeno altamente negativo, cujas causas é preciso procurar. O senador Aécio Neves, que quase venceu a eleição presidencial, teve mais de 51 milhões de votos, e num espaço de um ano não conseguiu construir uma relação com esse eleitorado.

Marina Silva, outra candidata de 2014 no campo da oposição, terceiro lugar no primeiro turno, não está bem, mas em melhor situação que seus adversários, por enquanto na pesquisa, não se sabe se na eleição. Talvez até pelo silêncio que se impôs (ganhou com isso), só quebrado para revelar posições inaceitáveis para os eleitores, como condenar o impeachment (perdeu com isso), tornou-se incompreensível e no lusco fusco manteve-se em equilíbrio. No primeiro turno de 2014 teve 21,32% dos votos, e na pesquisa de agora 21,3% das intenções de voto.

O afeto que se encerra

Demétrio Magnoli 
O Globo

Nas periferias das cidades, a ‘nova classe média’ adquiriu materiais de construção e eletrodomésticos, mas não experimentou mudanças em saúde pública ou mobilidade urbana

O PIB de 2015 apresentará retração em torno de 3%. Há consenso, entre os analistas, de que 2016 conhecerá nova redução do PIB, mas as apostas variam largamente no intervalo de 1% a 3,5%. Na história registrada, só uma vez o Brasil experimentou recessão durante dois anos sucessivos: foi no alvorecer da década de 1930, sob o impacto do crash da Bolsa de Nova York, quando o mundo descia a ladeira da Grande Depressão. Um produto da queda cataclísmica será o cancelamento quase completo das chamadas “conquistas sociais” do lulopetismo.

Os números estão num estudo da Tendências Consultoria Integrada. Entre 2006 e 2012, cerca de 3,3 milhões de famílias ascenderam das classes de renda D e E à classe C, que ganhou o rótulo ilusório de “nova classe média”. No horizonte de 2017, a reversão do ciclo, ritmada pela inflação e pelo desemprego, empurrará 3,1 milhões dessas famílias de volta ao ponto de partida. Segundo Adriano Pitoli, coordenador da pesquisa, “a mobilidade que houve em sete anos deve ser praticamente anulada em três”. Tudo indica que, nas palavras dele, “estamos vivendo, infelizmente, o advento da ex-nova classe C”.

Lula lançou o Fome Zero, em janeiro de 2003, na cidade mineira de Itinga, no Vale do Jequitinhonha. Dez anos antes, na sua segunda campanha presidencial, conhecera Teresa Fernandes Pessoa, que partilhava um cubículo com oito filhos. O candidato pediu-lhe que “rezasse porque, se fosse eleito, iria me dar uma casinha”. Teresa rezou e votou, três vezes, até reencontrá-lo como presidente. Nunca ganhou a casinha, mas obteve o cadastro do Bolsa Família, pelo qual ainda agradece. Agora, contudo, uma reportagem do “Diário de Pernambuco” flagrou-a reclamando das despesas de luz e água, que consomem metade dos R$ 140 transferidos mensalmente pelo programa. Ela não tem outra renda e voltou à antiga prática, quase esquecida, de pedir arroz, farinha e feijão aos vizinhos.

O fenômeno do retorno à miséria lança um jato de luz sobre aquilo que deveria ser descrito como a economia política do lulopetismo. Na tradição do pensamento de esquerda, conquistas sociais decorrem de mudanças econômicas estruturais. Mas, por meio de programas de transferência de renda e políticas de estímulo ao consumo, Lula e Dilma conferiram à expressão uma estreita tradução monetária. Sobre o pano de fundo do ciclo internacional favorável, os aumentos reais do salário-mínimo e das aposentadorias, junto com a expansão do crédito e o Bolsa Família, proporcionaram a dezenas de milhares de famílias uma ascensão social tão rápida quanto precária. Nessa trajetória, encantados pelas luzes do poder, os intelectuais de esquerda rasgaram seus próprios textos teóricos para cantar as virtudes de um modelo orientado exclusivamente por imperativos eleitorais. A Teresa icônica, que volta a se equilibrar na corda bamba da solidariedade dos vizinhos, é uma personificação do fracasso político do lulopetismo e da falência intelectual de seus cortesãos nas universidades.

Nos três mandatos da “era de ouro” do lulopetismo, os serviços públicos permaneceram à margem das prioridades de governo. As “mães do Bolsa Família” ganharam um passaporte para o supermercado, mas as “filhas do Bolsa Família” continuaram excluídas do acesso a escolas de qualidade. Nas periferias das cidades, a “nova classe média” adquiriu materiais de construção e eletrodomésticos, mas não experimentou mudanças nos campos da saúde pública ou da mobilidade urbana. “É bom ver quantos brasileiros sabem enxergar também a metade cheia do copo, e não só a parte vazia!”, tuitou a seus fãs Luiza Trajano, a proprietária do Magazine Luiza, que tem centenas de milhões de bons e sonantes motivos para ignorar “a parte vazia”. Mas é nessa “metade” do “copo” que está fixada a imagem de uma fraude política de dimensões históricas.

No início de 2014, quando a Luiza do magazine difundiu sua mensagem otimista, o IBGE constatou que o peso da indústria na formação da riqueza nacional recuara para o menor nível, desde 2000. A desindustrialização brasileira não provocou, porém, redução significativa do emprego industrial. Atrás da aparente contradição, oculta-se a forte retração relativa da produtividade industrial, que decorre da carência de investimentos em capital fixo e inovação tecnológica. O fenômeno reflete a persistência dos elevados custos logísticos, tributários e financeiros que se agravaram pela política de fechamento comercial. Na base subterrânea da reversão das “conquistas sociais” está uma dramática perda de competitividade da indústria brasileira, que será temporariamente camuflada pela desvalorização cambial. O ajuste fiscal de Dilma e Levy não toca nas raízes da crise, assentadas sobre o lodo ideológico do lulopetismo.

No poder, o lulopetismo deslocou-se sociologicamente dos trabalhadores e das classes médias urbanas para o “povo pobre”, ou seja, na direção das classes D e E em ascensão rumo à “nova classe média”. A reeleição de Lula e os dois triunfos eleitorais de Dilma derivaram da sedução hipnótica exercida pelas políticas de renda, crédito e consumo. Os votos do Nordeste, das regiões deprimidas do Centro-Sul e dos anéis periféricos das metrópoles soldaram a hegemonia lulista. A “era Vargas” durou longos 15 anos, entre 1930 e 1945. Se Dilma sobreviver à borrasca em curso, a “era Lula” completará 16 anos. Contudo, no outono do patriarca, os pobres desertam em massa de sua trincheira.
Na economia, voltamos ao ponto de partida. Na política, porém, o porto original não mais existe. Maurício de Almeida Prado, de uma consultoria com foco na renda baixa, explica que a “ex-nova classe C” adquiriu nos anos gordos, junto com os celulares, uma experiência indelével: “É um novo tipo de classe baixa: mais conectada, escolarizada e, de certa forma, até mais preparada”. Há futuro, Lula, apesar de você.

A opção pela inflação

Monica De Bolle
O Estado de São Paulo

Dizem que o problema do Brasil é a incapacidade política de levar a cabo o inevitável ajuste fiscal. Contudo é igualmente possível dizer que o nó brasileiro reside no imenso desafio de convencer a classe política e a sociedade de que o modelo nacional de Estado de bem-estar promulgado pela Constituição de 1988 e subsequentemente turbinado pelas políticas do PT faliu. E é essa falência, somada aos desdobramentos dos escândalos de corrupção, que travam a política e impedem o ajuste.

Documento, amplamente citado na imprensa, preparado pelo PMDB expõe claramente o que todos os economistas de bom senso do País já sabem: para retomar a solvência das contas públicas é preciso implementar pacote de ditas maldades, que a sociedade brasileira não parece preparada para aceitar. Trata-se de acabar com a estapafúrdia regra de indexação do salário mínimo, de eliminar os vínculos entre receitas e despesas orçamentárias que impedem a execução adequada da política fiscal, de quebrar as regras automáticas de reajustes dos benefícios mais diversos, de reformar a Previdência.

Todavia, apesar da óbvia constatação de que em qualquer país do mundo o povo jamais está preparado para abrir mão de conquistas que drenam o Estado quando este perdeu a capacidade de se sustentar financeiramente, economistas de renome preferem a saída pelo clichê. É mais fácil culpar o sistema político. E é mais fácil porque assim se justifica a ideia do momento: esperar para ver o que acontece. Não que se admitam de pronto as implicações perversas da paciência dilatada. No caso, trata-se não de exercer a serenidade, resguardar-se, ou de cerrar fileiras; trata-se, antes de tudo, de jogar a toalha. O Brasil não tem política fiscal porque o Congresso não deixa, ou não tem consenso político no Congresso porque a política fiscal que realmente é necessária não o permite? Eis o velho e inútil dilema do ovo e da galinha, aquele que ilustra o problema da endogeneidade. Não há política fiscal sem política. E se a política é a arte da redistribuição de recursos do Estado, tampouco há política sem política fiscal. Logo, afirmar que a dominância política prevalece sobre a dominância fiscal que paralisa a economia brasileira é não compreender a natureza do problema. Dominância política e dominância fiscal são, afinal, dois lados de uma só moeda – aquela cujo destino é perder valor ante a disfuncionalidade instaurada.

Toalha no chão não é ideia boa. Não há ajuste fiscal porque a política não deixa. Se a política não deixa que o ajuste seja feito, não pode haver mais nada, segue a lógica niilista daqueles que desqualificam o debate sobre a crise brasileira como punhado de ideias que por um dia de prazer trariam mais de ano de sofrer.

Economias que padecem de desajustes fiscais consideráveis, como é o caso do Brasil, não podem prescindir de algo que segure a inflação, a variável de ajuste por excelência quando nada mais restou. Portanto, a dita “espera” corresponde a uma escolha declarada por mais inflação enquanto se aguarda uma definição dos rumos que a política fiscal haverá de tomar. A enormidade dos desafios sugere que a paralisia política e da política macroeconômica haverá de ser duradoura.

Enquanto isso, muitos hão de padecer com a elevação dos preços, ao mesmo tempo que um punhado haverá de ganhar com a inflação ascendente. Esse é o resultado trágico de jogar a toalha, o enorme retrocesso dos ganhos sociais e da travessia para a estabilidade macroeconômica tão duramente conquistada. Será mesmo que passar por isso novamente é melhor do que pensar em formas de evitar a escalada inflacionária enquanto o ajuste não vem?

Recentemente, propus que o câmbio fosse utilizado como forma de impedir, temporariamente, o descontrole dos preços. A ideia não é original, tampouco heterodoxa, embora alguns tenham sido céleres em tratá-la como heresia. “As reservas internacionais do País devem ser preservadas a qualquer custo”, disseram uns. “Tal ideia nos levaria às crises cambiais dos anos 90”, argumentaram outros. “Quem sabe dá certo, e aí mesmo é que o governo não haverá de sentir-se pressionado a avançar nas propostas de ajuste das contas públicas”, retrucaram os poucos com quem tendo a concordar. Aos que se sentiram afrontados com a ideia, a constatação: não é preciso vender reservas para manter o câmbio em determinada faixa de variação. Afinal, países mundo afora, e o Brasil não é exceção, dispõem de formas de influenciar a taxa de câmbio que não passam pelo Banco Central. No Japão, por exemplo, é prática comum usar instituições do sistema financeiro local para ajudar o Banco Central a controlar bruscas flutuações pontuais da moeda.

A considerar o texto da última ata de política monetária do Copom, há quem julgue que a autoridade monetária brasileira tenha jogado a toalha, seguindo os que aconselham a paciência. Há, porém, algo de intrigante no reino dos mercados de câmbio brasileiros. Desde o dia 5 de outubro, uma semana após o dólar ter ultrapassado a marca dos R$ 4,20, a cotação da moeda americana tem oscilado entre cerca de R$ 3,70 e R$ 3,95, a despeito da crise política – e das inúmeras más notícias veiculadas pelos jornais todos os dias. Coincidência cósmica? Fruto da ideia de que o Brasil está barato, “em liquidação”? Talvez. Mas é difícil não enxergar algo silenciosamente sustentado por diversas instituições financeiras públicas numa tentativa de auxiliar os esforços do Banco Central no combate inflacionário sem juros.

Eis, portanto, que, apesar da retórica e do repúdio à ideia de que o câmbio seja ainda a linha de última defesa contra a imperatriz de todos os nossos males econômicos, opiniões revestidas de teses macroeconômicas chocam-se frontalmente com as imposições de natureza prática. Pelos santos, beijam-se os altares. Pelo controle da inflação, abençoa-se o câmbio.

Em vez de crédito, juros do governo

Vicente Nunes
Correio Braziliense

As perspectivas cada vez piores para a economia trouxeram de volta um fantasma que vem tirando o sono do sistema bancário: a inadimplência. Ainda que as instituições financeiras só tenham a comemorar com os lucros recordes que vêm acumulando, a ameaça do calote ficou maior diante das dificuldades crescentes enfrentadas por empresas e famílias para honrar seus compromissos em dia.

O tamanho da preocupação pode ser medido em números. Pelos dados do Banco Central, os bancos já separaram do patrimônio R$ 163,1 bilhões para cobrir créditos de difícil liquidação. Essa montanha de dinheiro representa quase o dobro das perdas que as instituições foram obrigadas a lançar em seus balanços, de R$ 98,7 bilhões. Mas tal colchão de segurança pode ser insuficiente se os atrasos se multiplicarem.

A maior ameaça aos bancos vem das famílias, que já devem quase R$ 1,5 trilhão. Com o desemprego em disparada e a renda sendo corroída pela inflação, está cada vez mais difícil para os lares manterem as contas em ordem. A inadimplência, de 5,7%, ainda não acompanhou a velocidade das demissões no país porque, já antevendo o quadro de dificuldades, as instituições restringiram a concessão de empréstimos e financiamentos.

“Houve um processo seletivo grande por parte dos bancos”, diz Alex Agostini, economista-chefe da Austin Ratings. “Assim que a luz amarela acendeu em relação à inadimplência, as instituições se retraíram”, reforça. Mas o temor é grande. As estimativas de boa parte das instituições mostram a economia encolhendo mais de 3% neste ano e pelo menos 2% em 2016, com a inflação se mantendo acima do teto de meta definida pelo governo, de 6,5%, e o desemprego superando os 10%.

Para Agostini, os tempos que estão por vir serão difíceis. Na melhor das hipóteses, em 2017, haverá uma luz no horizonte. Mas isso não será garantia de retomada do crédito. Nesse período turbulento, a tendência dos bancos é de se pendurarem no governo para manter os ganhos intactos, como bem mostrou o Itaú Unibanco ontem, ao anunciar lucro líquido de quase R$ 6 bilhões no terceiro trimestre do ano. Parte importante desse resultado veio dos títulos públicos, que estão pagando taxas superiores a 17% ao ano.

Distorção
A expectativa dos banqueiros, reforçada quase que diariamente ao ministro da Fazenda, Joaquim Levy, é de que o governo consiga reverter a onda de pessimismo que está travando os negócios e estimulando o fechamento de vagas no mercado formal de trabalho. Nas conversas com os executivos, Levy procura traçar um quadro otimista, mas tudo depende da aprovação do ajuste fiscal pelo Congresso.

Apesar do voto de confiança, os banqueiros reconhecem que a margem de manobra do governo para resgatar a confiança se estreitou demais. Portanto, a ordem é manter o pé no freio do crédito e tirar da presidente Dilma Rousseff o que melhor ela pode dar ao sistema bancário: juros altos. As instituições, inclusive, estão fazendo a festa com as intervenções diárias do Banco Central no mercado para tirar o excesso de dinheiro em circulação. Essas operações, concentradas em até três meses, têm girado cerca R$ 850 bilhões.

“Estamos loucos por boas notícias. Enquanto elas não vêm, só nos resta ser conservadores e garantir uma boa rentabilidade para o dinheiro que está no nosso caixa. E isso envolve os títulos públicos, sejam os ofertados pelo Tesouro Nacional, sejam os oferecidos pelo BC”, afirma um executivo de um grande banco nacional. Ele reconhece que, no mundo ideal, os bancos deveriam estar cumprindo o papel de intermediador de recursos para estimular a produção e o emprego. “Mas quem distorce tudo é o governo, ao alimentar a insegurança e tirar a previsibilidade da economia”, acrescenta.

Nada a comemorar
» Técnicos do Banco Central dizem que não é o momento para comemorar o fato de o dólar ter caído abaixo de R$ 3,80, o que ajuda a inflação. “Na verdade, esse resultado decorre da falta de notícias ruins, que tem proliferado como praga nos últimos tempos”, diz um deles.

Saques da poupança superam depósitos em R$ 57 bi até outubro

Exame.com
Mariana Branco, Agência Brasil

Getty Images 
A alta da inflação também contribuiu
 para a perda de atratividade da poupança

Brasília - O Banco Central (BC) informou hoje (6) que os brasileiros retiraram R$ 3,264 bilhões a mais do que depositaram na poupança em outubro. 

Foi o pior resultado para o mês desde o início da série histórica do BC, em 1995. De janeiro a outubro, a caderneta acumula captação negativa de R$ 57 bilhões.

O saldo negativo em dez meses já supera o pior resultado anual da série histórica, registrado em 2003, quando a poupança encerrou o ano negativa em R$ 10,424 bilhões.

Em outubro, os saques na poupança somaram R$ 154,5 bilhões, superando os depósitos, que ficaram em R$ 151,3 bilhões. O valor total nas contas ficou em R$ 644,8 bilhões. O volume dos rendimentos creditados nas cadernetas dos investidores alcançou R$ 4,061 bilhões.

Vários fatores têm contribuído para a fuga de recursos da poupança em 2015. Em primeiro lugar, as elevações da Selic (taxa básica de juros da economia), atualmente em 14,25% ao ano, tornaram a poupança menos atraente que outras aplicações.

Segundo a Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), a caderneta é mais vantajosa do que os fundos de investimento apenas quando as aplicações são inferiores a seis meses, apesar de a poupança ser isenta de Imposto de Renda e de taxas de administração.

A alta da inflação também contribuiu para a perda de atratividade da poupança.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) está em 9,93% no acumulado de 12 meses até outubro.

O aumento dos preços e do endividamento dos consumidores diminui a sobra de recursos a ser aplicada na caderneta.

Burocracia, a praga que atormenta as empresas brasileiras que mais crescem

Carolina Melo
Revista VEJA

Uma pesquisa inédita, feita em 32 cidades, mostra como a vida das chamadas ‘scale-ups’, cuja atividade gera nada menos que 60% dos empregos do país, é amarrada pela insana burocracia nacional

 (Leo Caldas/ Laílson Santos / Jefferson Bernardes/VEJA)

A ironia é involuntária: o programa que infernizou a vida de milhares de brasileiros na semana passada chama-se Simples Doméstico. Cerca de 1 milhão de cidadãos tentaram acessar o portal eSocial para gerar um boleto com impostos e contribuições relativos ao seu empregado doméstico, mas nada foi simples. Com um software que não funciona, o eSocial tornou-se o mais recente pesadelo promovido pela burocracia nacional. Milhares de cidadãos tentaram cinco, dez, quinze vezes, e nada. Ficaram plantados na frente do computador de madrugada, e nada. Perderam horas de sono, de trabalho, de lazer, e nada. O sistema devolvia diversas gentilezas ¬¬- "deu erro", "está fora do ar", "senha errada", "tente mais tarde" -, menos o maldito boleto.

O desastre do eSocial ofereceu a milhares de cidadãos uma pequena mostra do massacre diário enfrentado pelos brasileiros que dão emprego, empreendem, criam empresas, fazem negócios. Brasileiros que, de certo modo, precisam gerar um boleto do eSocial quase todos os dias. Por isso, tornou-se óbvio dizer que os empresários e empreendedores são heróis nacionais. Eles navegam diariamente num oceano de burocracia - softwares que não funcionam, leis que mudam a toda hora, tributos que têm troca de alíquota, regras que não servem para nada - e frequentam com infeliz assiduidade o templo da burocracia nacional, os cartórios. Nesse ambiente hostil, muitos ainda conseguem inovar e crescer.

Na cola da lambança do eSocial, VEJA quis saber como é a vida dos empreendedores que, apesar de tudo, têm sucesso. A revista teve acesso exclusivo a uma pesquisa inédita sobre um tipo especial de empresa. São companhias de alto crescimento ou, na expressão em inglês, scale-ups - palavra que confere um contraste com a denominação das empresas iniciantes, as start-ups. Nos últimos três anos, as scale-ups aumentaram em pelo menos 20% seu número de empregados ou sua receita, a cada ano. No Brasil, existem cerca de 35 000 scale-¬ups. Elas representam menos de 1% do total das companhias brasileiras, mas criaram 3,3 milhões dos 5,6 milhões de empregos gerados de 2010 a 2012. Ou seja: de cada dez novos postos de trabalho, seis foram ofertados por uma scale-up.

Para fazer a pesquisa, a Endeavor, organização de apoio ao empreendedorismo com atuação internacional, resolveu deixar de lado os conhecidos dados nacionais e desceu à realidade das cidades, que é onde as empresas efetivamente existem e atuam. Escolheu as cidades que concentram o maior número de scale-ups, excluindo as situadas em regiões metropolitanas. Com esse critério, chegou a 32 municípios em 22 estados. Além de Brasília, são 21 capitais de estado e dez cidades do interior - quatro em São Paulo, duas em Santa Catarina, duas no Paraná, uma no Rio Grande do Sul e uma em Minas Gerais.

Nelas, os pesquisadores levantaram dados sobre o tempo que se leva para abrir uma empresa, regularizar um imóvel, aprovar um projeto arquitetônico e fazer uma ligação de energia elétrica, coisas que o empreendedor tem de enfrentar em algum momento. Conferiram também a alíquota média do IPTU, a alíquota do ICMS e os incentivos fiscais concedidos, além das dificuldades práticas para recolher tributos, da frequência com que são editados novos decretos tributários e do congestionamento de processos no tribunal de Justiça do estado. Mesmo sem o tormento de gerar um boleto no eSocial, esperava-se um resultado ruim. Mas o resultado foi aterrador. A burocracia parece calibrada para punir as empresas na hora em que elas mais crescem.

Eles ousam crescer e gerar empregos - e são punidos


Prejuízo de 300.000
O pernambucano Tiago Hurtado, 29 anos, dono da Cidiz: em busca de um imposto menor, ele mudou seu centro de distribuição do Recife para uma cidade da região metropolitana. Amarrado pela burocracia, levou inexplicáveis seis meses para trocar seu endereço tributário. Resultado: um prejuízo de 300 000 reais

Vivendo um pesadelo
O paranaense Thiago Fiorin, 35 anos, dono das Lojas KD: quando o Paraná elevou o ICMS de 12% para 18%, ele se mudou para São Paulo, onde a alíquota se manteve em 12% e onde está a maioria dos seus concorrentes. Preso pela burocracia, resume: “Em meses, minha vida se tornou um pesadelo”

Nove longos meses
O carioca Gustavo Mota, 33 anos, criador da We Do Logos: com um modelo de negócios inovador, ele pagava imposto sobre uma receita que não era sua. De mãos amarradas pela burocracia fiscal, teve de mudar, em nove meses, todo o seu negócio, para não falir

Exilado tributário
O carioca Fernando Campos, 36 anos, da Nuuvem: como até hoje não tem certeza sobre que imposto sua empresa deve pagar, ele resolveu reduzir o risco da insegurança abrindo um braço do seu negócio em Miami. Está amarrado no Brasil, mas livre nos Estados Unidos

Na fila de espera
O gaúcho Rafael Machado, 27 anos, do restaurante de comida mexicana Oak’s: as novas regras contra incêndio, depois da tragédia na boate Kiss, em Santa Maria, criaram uma demanda excessiva pelo Corpo de Bombeiros. Paralisado na fila de espera, Machado ficou dois meses com seu estabelecimento de portas fechadas

Livre das amarras
O mineiro Gustavo Maierá, 30 anos: com a ajuda de um serviço de sincronização de dados de Minas Gerais, ele conseguiu abrir sua empresa em apenas dezesseis dias, um recorde estrondoso. Sobrou tempo até para concorrer a uma consultoria tecnológica no valor de 40 000 reais. Concorreu e ganhou.

Falhas no eSocial são típicas da incompetência arrogante

Editorial
O Globo

Problemas na emissão de guia para recolhimento do FGTS e de encargos se devem a uma burocracia ineficiente, mas estável e nunca avaliada pelo mérito

Há figuras de linguagem que são chavões, desgastados pelo uso. Como afirmar que uma determinada imagem “vale mais que mil palavras”. Cabe, porém, recorrer ao artifício para registrar que a confusão criada pelo governo federal com o incompetente lançamento do sistema eletrônico de emissão de guia para o recolhimento do FGTS e encargos cobrados sobre o rendimento do empregado doméstico vale mais do que teses de doutorado acerca da opressão exercida sobre a sociedade por um Estado obeso, caro e inoperante.

A história da emissão da guia de recolhimento pelo sistema do eSocial, onde estão reunidos serviços da Receita Federal, da Caixa Econômica, do Ministério do Trabalho e da Previdência (INSS), funciona como um emblema do descaso do Estado para com o cidadão.

A formalização do emprego doméstico é coisa antiga, a burocracia pública não pode alegar que não teve tempo de se preparar para colocar à disposição dos empregadores um sistema que funcionasse. A emenda constitucional que estendeu direitos do emprego formal ao trabalho doméstico, a “PEC das Domésticas”, é de 2013.

Alguém em Brasília poderia ter tido a iniciativa de já convocar as áreas envolvidas no tema para começar a trabalhar no sistema de emissão de guias. Mas mesmo quando isso acontece, não se pode garantir que tudo funcione de forma minimamente aceitável.

Quem é forçado a navegar no site da Receita para pessoas físicas, por exemplo, conhece as dificuldades: páginas que avisam não ser seguras para o internauta, lentidão, labirintos digitais que precisam ser percorridos pelo contribuinte, quase sempre sem êxito, e assim por diante.

Por ilustrativa coincidência, a confusão no eSocial ocorre não muito depois do lançamento da versão de 2016 da “Doing Business”, do Banco Mundial, pesquisa que avalia as condições de vários mercados para o funcionamento das empresas. E o Brasil frequenta os piores lugares neste ranking, devido a este Estado avantajado, com grande capacidade de criar normas, impostos, toda sorte de obstáculos para pessoas e empresas.

Entre 189 economias, a brasileira está em 116º lugar, muito distante do Chile (48º), Colômbia (54º) e México (38º), para citar vizinhos de continente. Há várias explicações para tão pobre desempenho — como muito tempo, muita gente e muito dinheiro exigidos para as empresas pagarem uma quantidade excessiva de impostos.

Além do tamanho e custo do Estado, há o agravante de uma cultura da impunidade, porque os servidores, estáveis, nunca são avaliados pelo mérito. Por isso, têm a reação arrogante de aconselhar as pessoas que não conseguem emitir a tal guia a “tentar de madrugada". Ora, a burocracia pública que trate de resolver o problema que ela mesma criou.

Mas é pedir demais a um aparato que absorve 40% do PIB, gasta mais do que deveria e ostenta enorme incompetência sem risco de punição.

Respiro em dólares

Celso Ming
O Estado de São Paulo

O setor externo é dos poucos setores da economia brasileira que mostram sinais de ajuste

Enquanto o resto da economia afunda ou continua no marasmo, o setor externo (entrada e saída de moeda estrangeira no e do País) vai apresentando excelentes resultados. É dos poucos setores da economia que mostram sinais de ajuste.

A balança comercial (que registra exportações e importações) teve em outubro um saldo positivo de US$ 2,0 bilhões que, embora não surpreendente, foi superior à média das estimativas dos analistas do mercado. Os dez primeiros meses do ano acumularam um excelente superávit de US$ 12,2 bilhões.



Não dá para negar que esse resultado positivo é fruto de um quadro ruim. Foi a recessão que derrubou o consumo e as importações e, assim, virou o jogo perdedor do último ano. Isso fica mais claro quando se confere que, nos dez primeiros meses de 2015, a importação de bens de consumo caiu 16,5% sobre igual período de 2014. 

Também as exportações enfrentam retração do mercado global e forte queda dos preços das commodities. No período janeiro-outubro, caíram as exportações para todos os blocos econômicos (veja tabela no Confira). Os produtos básicos, que em 2014 pesaram quase 50% no faturamento total das vendas do Brasil, acusaram, nos dez primeiros meses deste ano, redução de 20,1%, o que dá boa ideia do impacto sobre a economia provocado pela baixa das commodities.

Outro jeito de avaliar como o comércio exterior passou a ser uma das respostas ao aperto é examinar o que produziu o saldo positivo. Ele é o resultado da queda muito maior das importações, de nada menos que 22,4% em relação a mesmo período do ano anterior. As exportações caíram menos, 15,2%. 

Com o recuo tanto das importações quanto das exportações, a corrente de comércio (que soma ambas) teve uma queda de 18,8%. Esse número sugere que o Brasil também perdeu participação no comércio global. Um fluxo comercial mais baixo é fator de aumento de custos. Mostram, por exemplo, transportes e instalações portuárias menos utilizados.

O dado negativo das importações de maior impacto na economia é a forte retração das entradas de bens de capital (máquinas e equipamentos). Queda de 18,2% no período, o que demonstra a fraqueza dos investimentos. E investimento fraquejante é produção também fraquejante no futuro.

Ainda não ficou visível o impacto sobre as exportações produzido pela alta do dólar em reais (desvalorização cambial) de mais de 50% no período de 12 meses. (O real mais desvalorizado barateia em dólares o produto exportado e, por isso, a longo prazo, tende a estimular as encomendas.)

As projeções do mercado para todo o ano de 2015, tal como medidas pela Pesquisa Focus do Banco Central, apontam para um saldo comercial positivo de R$ 14 bilhões. O Banco Central não espera mais do que R$ 12 bilhões. Ambas as projeções parecem excessivamente conservadoras. Mais provável é que fiquem entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões, o que seria um grande resultado para um ano econômico ruim, que apresentará queda do PIB de pelo menos 3% e inflação perto dos 10%.


Esta foi a queda das exportações e importações brasileiras por bloco econômico.


Setembro melhor
O desempenho da indústria vem sendo tão decepcionante que dados positivos merecem comemoração. É o que se pode dizer dos indicadores sobre faturamento divulgados nesta terça-feira pela Confederação Nacional da Indústria. Em setembro, acusaram avanço real de 1,2% sobre agosto.

Os sinais da balança

Míriam Leitão
O Globo

O Brasil vai bater recorde na exportação de milho. Nunca produziu tanto. Todo o agronegócio tem conseguido compensar em parte a queda dos preços com o crescimento da quantidade exportada. O excelente saldo de outubro, de quase US$ 2 bilhões, foi influenciado por este aumento do volume de vendas, mas foi resultado principalmente da forte queda das importações.

O superávit é muito dependente da queda nas importações, é isso que explica em grande parte o saldo positivo de 2015, que está em US$ 12,2 bilhões. O economista José Roberto Mendonça de Barros acredita que no ano que vem o superávit deve dobrar, indo dos US$ 14 bilhões a US$ 15 bilhões de 2015 para cerca de US$ 30 bilhões em 2016.

- O Brasil vai exportar este ano 27 milhões de toneladas de milho, uma montanha nunca vista. O clima esteve no ponto certo. Agora é que o excesso de chuva começou a afetar o plantio no Rio Grande do Sul, o que afetará a safra do ano que vem de soja, milho, arroz. Nas exportações agrícolas está havendo aumento da quantidade, e queda nos preços -, diz José Roberto.

É a soja, e não o milho, o nosso principal produto agrícola. Mas na maioria das culturas tem havido aumento de volume, explica o economista.

- Numa escala bem menor aconteceu com o arroz, que nós nunca exportamos e estamos vendendo este ano. A maior explicação para o resultado de outubro foi que a média diária de importação despencou 21,1%, frente a outubro de 2014. O saldo é positivo porque as exportações caíram menos, 4,1%. O dólar alto explica parte do cenário. Mas a diminuição na demanda por importados está acontecendo num ritmo forte.

Até quem acompanha de perto o movimento da balança comercial se assustou. Nas primeiras quatro semanas de outubro, o superávit acumulado no mês estava em US$ 880 milhões. Na última semana, saltou para US$ 1,996 bi. José Augusto de Castro, presidente da Associação do Comércio Exterior do Brasil (AEB) explicou que a média diária das importações encolheu para US$ 500,3 milhões.

- Em janeiro e fevereiro, o país importava mais de US$ 800 milhões ao dia. Em março, a média caiu para US$ 700 milhões. Recuou para US$ 600 milhões ao dia em agosto e agora diminuiu mais, para US$ 500 milhões. A média na última semana é similar ao que o país registrava em 2007. É muito pouco -, diz Castro.

José Roberto Mendonça de Barros explica que há anos a importação não cai de forma tão acentuada. E a queda é provocada por dois fatos: a alta do dólar e a diminuição da demanda interna pela recessão.

- Há um efeito de substituição de importações por causa do dólar alto que tem ajudado alguns setores, como o de têxtil e confecção, que além de vender para o mercado interno projeta um aumento da exportação de 10% no ano que vem - diz Mendonça de Barros.

O presidente da AEB, José Augusto de Castro, lembra que parte dos produtos consumidos no Natal é importada, mas nem as festas de fim de ano estão influenciando a balança em 2015.

No ano, as importações caíram 22,4%; as exportações recuaram 15,2%. Nesses 10 meses, o país comprou US$ 148,3 bilhões do restante do mundo, e vendeu US$ 160,5 bi. A soma desses valores é a corrente de comércio. Ela encolheu 18,8% na comparação com 2014.

- Estamos formando superávit, mas o que vale é a corrente de comércio. Ela indica como está a atividade da economia. A corrente está recuando. É bom ter superávit da balança comercial. Mas este resultado foi conquistado porque as exportações caíram menos que as importações. É o que chamo de "superávit negativo" -, lamenta Castro.

A participação do país no comércio global, que era de 1,19%, deve terminar o ano abaixo de 1%. Com a queda forte das importações, a AEB vai revisar novamente sua projeção para o superávit do ano. Em julho, a expectativa era de resultado positivo de US$ 8 bi. Agora deve chegar a US$ 13,5 bi.

José Roberto Mendonça de Barros continua achando que a recessão será profunda, porém curta. Ele não aposta num encolhimento do PIB do ano que vem na mesma intensidade de 2015. E acredita que, com o dólar alto, pode haver um grande movimento de consolidação na economia, repetindo eventos como o do Hypermarcas e Coty, que animou a bolsa ontem.