terça-feira, novembro 17, 2015

O Bispo de Hypona

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


Charge de Latuff/Sul 21 (reprodução)

RIO – Agostinho, bispo de Hypona (hoje Annaba, na Argélia), um dos construtores do Cristianismo, autor de livros imortais como “Confissões”, “Cidade de Deus” e “Doutrina Cristã”, viveu dos anos 354 a 430, enfrentando as perseguições ao Catolicismo no mundo muçulmano, fugia da policia em pequeno barco quando foi cercado saindo de Hypona:

– O senhor viu o bispo Agostinho passando por aqui?

– Não vi não.

E o policial foi embora. O barqueiro levou um susto:

– Bispo Agostinho, sua Igreja ensina a não mentir.E o senhor mentiu.

– Não menti. Fiz uma “restrição mental”. Ele perguntou se eu vi o bispo passando. E eu não vi passando. Estou passando. Estamos passando.

LOTT
E foi em frente. No Brasil, tivemos um caso semelhante. Em 1955 Juscelino Kubitschek elegeu-se presidente da Republica. A UDN e seus militares tentaram um golpe para impedir a posse de JK O vice-presidente Café Filho internou-se em um hospital e assumiu o presidente da Câmara o mineiro Carlos Luz, que demitiu o ministro da Guerra marechal Lott e nomeou o general Fiuza de Castro.

Estava armada a jogada para impedir a posse de JK. Mas o marechal Lott e o general Odilio Denis rebelaram-se e exigiram a posse provisória de Nereu Ramos, presidente do Senado. O jornalista Otto Lara Rezende, da revista “Manchete”, foi entrevistar Lott:

– Marechal, os senhores rasgaram a Constituição?

– Pelo contrario, Otto. Nós garantimos o retorno aos quadros constitucionais vigentes.

O verdadeiro golpista Carlos Luz entregou o governo, Nereu Ramos assumiu a presidência e garantiu a posse de JK e João Goulart.

CUNHA
O híbrido deputado Eduardo Cunha está fingindo de Bispo de Hypona e marechal Lott. Diz que não tem dinheiro na Suíça, apenas “ativos”. E que os “ativos” não são dele, mas dos “trusts”, dos bancos.

É uma farsa. O bispo e o marechal não mentiam. Argumentavam. Defendiam-se: um da policia e o outro do golpe contra a posse de JK.

BRASIL
Em dois meses pela Europa, a pergunta que mais ouvia era uma:

– Como está o Brasil?

Infelizmente não está bem. E os números vêm piorando a cada dia.

1.–  No PIB mundial, medido em dólares, o Brasil manteve, por alguns anos, o 7º lugar. Em primeiro lugar, os EUA, com US$ 18,12 trilhões ; depois, China, 11,21; Japão, 4,21; Alemanha, 3,41; Reino Unido, 2,85; França, 2,47. Agora, no início de outubro, o Fundo Monetário, projetando o cenário para 2015, deslocou a economia brasileira para o 9º lugar, com o PIB que era de US$ 2,35 trilhões sendo rebaixado para US$ 1,80 trilhão. A Índia passou a ser a sétima, com US$ 2,18 trilhões. E a oitava a Itália, com US$ 1,8 trilhão.

2.– O Brasil em dólares perdeu o equivalente ao PIB da Suécia que é de US$ 520 bilhões, ou da Argentina que é de US$ 474 bilhões. Analisando o impacto desse rebaixamento brasileiro, constata-se que o cenário projetado é ainda mais grave. Para o PIB de US$ 1,80 trilhão, o FMI utilizou a cotação do dólar a 3,20 reais. A conta é fácil: o PIB do Brasil em 2015 é de 5,74 trilhões de reais. Com o dólar em 3,20, alcançaríamos o total de US$ 1,793 trilhão, ou US$ 1,80 trilhão.

3.– A moeda norte americana chegou a ultrapassar 4 dólares, em relação ao real, determinando um rebaixamento ainda mais doloroso do Brasil, no “ranking” das principais economias mundiais. Com o dólar valendo R$ 3,50, a redução do PIB brasileiro iria para US$ 1,64 trilhão. Cotado a R$ 3,60, a queda seria para US$ 1,59 trilhão.Valendo R$ 4,00, o nosso PIB seria de US$ 1,43 trilhão.

4.– O “ranking” do Fundo na amostragem do PIB em dólar, em diferentes países, demonstra: a) no Canadá é de US$ 1,78 trilhão; b) na Austrália, US$ 1,44 trilhão; c) na Coréia do Sul, US$ 1,41 trilhão; d) Na Espanha, US$ 1,40 trilhão. Na América Latina, o do México US$ 1,28 trilhão. Se o dólar continuar se valorizando ante o real, agravando as contas nacionais, a recessão econômica poderá levar o nosso PIB, medido na moeda americana, a ser ultrapassado também por alguns desses países.

PEDALADAS
Há quatro anos, o então ministro Guido Mantega blasonava:

– “O FMI prevê que o Brasil será a quinta economia em 2015, mas acredito que isso ocorrerá antes”.

Em 2010, ao final do seu governo, era Lula quem afirmava:

– “Se depender de Dona Dilma e de Dom Guido, vamos ser a quinta economia do mundo. Em 2016, vamos conquistar essa medalha de ouro.”

Apenas irresponsáveis pedaladas.

Joaquim Levy, o Robinson Crusoé

Gil Castello Branco (*)
O Globo

Lula tem vociferado que o ‘prazo de validade do ministro terminou’, como se o próprio não estivesse em situação semelhante

É conhecido o romance sobre Robinson Crusoé, náufrago que aprendeu a arte da sobrevivência e passou anos em uma ilha tropical, defendendo-se, inclusive, de índios canibais.

O personagem lembra a situação constrangedora por que passa Joaquim Levy. A presidente até tentou em algumas oportunidades — ainda que timidamente — evitar que o ministro fosse transformado em “Judas” mas não teve jeito. Levy virou “Geni”.

Os problemas surgiram quando da sua designação. Após mentir deslavadamente na campanha eleitoral, negando qualquer problema na economia, Dilma precisava indicar alguém com credibilidade no meio financeiro, quadro que o PT não possui. Parodiando o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, Dilma queria Trabuco (presidente do Bradesco), que indicou Levy, mas Lula preferia Meirelles, de quem Dilma nunca gostou.

Assim, a vida de Levy passou a ser um inferno. Tão logo submeteu ao Congresso as primeiras medidas de contenção de algumas despesas obrigatórias, alterando critérios para a concessão de pensões por morte, abono salarial e seguro-desemprego, o ministro passou a ser bombardeado. Em 2014, a soma dessas despesas atingiu R$ 148 bilhões, e os critérios vigentes facilitavam as fraudes. As propostas, no entanto, foram desfiguradas, sob as barbas da bancada governista. No próprio governo foi derrotado quando pretendia ampliar o contingenciamento e ao discordar do encaminhamento ao Legislativo de Orçamento deficitário para 2016, a gota d’água dos rebaixamentos do Brasil por duas agências de risco. Devia ter pedido o boné.

Com a dificuldade para cortar despesas obrigatórias — autorizadas por lei ou pela Constituição — que representam mais de 90% das despesas não financeiras, Levy enfiou a tesoura nas despesas discricionárias, para o que não dependia do Congresso. Diminuiu gastos com passagens, diárias, hospedagens, festividades, cópias e outras despesas administrativas. Mas os cortes burocráticos não são suficientes para impactar o déficit de mais de R$ 100 bilhões no Orçamento deste ano. Assim, os investimentos (obras e equipamentos) também foram atingidos e caíram 43% se comparados os dez primeiros meses de 2015 com o mesmo período em 2014. A retração real também foi observada no PAC, no Minha Casa Minha Vida e no Fies, entre outras iniciativas. Até o Pronatec, uma das bandeiras de Dilma durante a campanha eleitoral, sofreu redução de R$ 1,4 bilhão.

Como político sem verba é como neném sem chupeta, na semana passada Levy “foi massacrado” em uma reunião com senadores, sem que os petistas o defendessem. Para aumentar a “fritura”, Lula tem vociferado que o “prazo de validade do ministro terminou”, como se o próprio não estivesse em situação semelhante. Para não falar das críticas permanentes da fundação do PT e dos movimentos sociais chapas-brancas.

Hoje, Levy é o “bode” da Esplanada. Para os petistas, a sua demissão irá resolver todos os problemas. O sucessor abrirá as torneiras do crédito, o povo comprará geladeiras, as empresas voltarão a produzir, a economia crescerá, e os juros e a inflação irão baixar. Com a economia aquecida, a arrecadação aumentará e os municípios serão beneficiados, fortalecendo o PT nas eleições de 2016, estratégia essencial para 2018.

O problema é que a economia é afetada por fatos e expectativas. Para que fatos relevantes aconteçam, o governo depende do Congresso, que não lhe tem sido solidário, em função da baixa popularidade da presidente e até da incerteza que paira sobre a conclusão do seu mandato. Ninguém sabe quem será o ministro da Fazenda nas próximas semanas e o presidente da República nos próximos meses.

O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles passou a ser a oitava maravilha do mundo, mas não é improvável que surja outra opção, até para Dilma não ratificar a impressão de que entregou o governo ao seu “tutor”. Se assumir, Meirelles fará mais do mesmo e tentará livrar-nos da irresponsabilidade fiscal que gerou a reprovação das contas de 2014 pelo TCU. Com mais apoio político, tentará no Congresso reduzir vinculações que engessam o Orçamento nos grandes grupos de despesas, como Previdência, Saúde e Educação. Se fracassar, as agências de risco irão impor novos rebaixamentos, o que agravará, ainda mais, a conjuntura.

Na verdade, Levy só é o ministro da Fazenda porque seu substituto não foi anunciado no Diário Oficial. Tal como Robinson Crusoé, está ilhado, no bloco “P” da Esplanada dos Ministérios, cercado por canibais que querem sua cabeça.

(*) Gil Castello Branco é economista e fundador da organização não governamental Associação Contas Abertas

A tortura dos números

Denis Lerrer Rosenfield (*)
O Estado de São Paulo

Números, por mais que sejam torturados, não permitem que se diga algo diferente do que expressam. Distorções têm racionalmente limites, salvo para os que se contentam com imposturas ideológicas. 

Essa impostura está presente em Mato Grosso do Sul, na atuação do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), órgão da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Essa entidade da Igreja Católica entrou na luta propriamente política, denunciando um suposto “genocídio” da etnia guarani no Estado. Procura, com isso, prejudicar os empreendedores rurais, como se fossem responsáveis por tal “situação”. Vão mais longe, apregoando um boicote internacional a seus produtos. A impostura não conhece fronteiras!

Os números da Superintendência da Inteligência de Segurança Pública do Estado são eloquentes. Eles mapeiam os homicídio dolosos tendo indígenas como vítimas, nos anos de 2008 a 2015, no total de 229 casos, com os respectivos boletins de ocorrência e inquéritos policiais instaurados. Os inquéritos permitiram apurar a definição de autoria de 167 casos, perfazendo um porcentual de esclarecimento de 72,9%. Nestes, 85 são de adolescentes infratores indígenas, mais de 50% dos casos apurados. 

Os autores indígenas perfazem 155 dos casos apurados, enquanto autores não indígenas somam apenas 9. Ou seja, a violência é de indígena contra indígena, e não de branco contra indígena, como os agentes ideológicos não se cansam de apregoar. Eles criaram o conceito de “genocídio” em completo desapego aos fatos. Buscam a plateia das ONGS nacionais e internacionais, que estão mais preocupadas em denegrir a imagem do Brasil do que em ajudar os indígenas.

Se atentarmos para a motivação dos crimes, os oriundos do consumo de bebidas e drogas totalizam 88, restando 4 por vingança, 44 por desentendimento interpessoal/ciúmes e 47 por motivos fúteis. Ali não são os conflitos agrários que estão em causa, mas sim o abandono, a falta de políticas públicas e uma maior integração social e econômica.

A tendência do Cimi e da Funai, além de ONGs nacionais e internacionais, é tudo reduzir a um conflito fundiário, na verdade, à luta que “representam” contra o lucro, o agronegócio e o capitalismo em geral. Sua posição esquerdizante os impede perceber as mudanças culturais profundas que essas tribos sofreram. Clamam, isto sim, por melhores condições de saúde, de educação e por políticas públicas que reduzam e eliminem os preconceitos de que ainda são objeto.

A posição do Cimi é particularmente reveladora, pois foram as políticas missionárias da Igreja que, no passado, mudaram, se não destruíram as formas religiosas tribais, produzindo importantes conflitos identitários. Ou seja, pessoas que perdem sua identidade, no caso, tribal e religiosa, são as que se sentem abandonadas no mundo. Suicídios têm também causas culturais, religiosas.

Ora, esse órgão da CNBB está, na verdade, transferindo para os empreendedores rurais uma responsabilidade que, de certa maneira, é sua. Trata-se de uma espécie de sentimento de culpa, acompanhado de uma desresponsabilização moral. No caso, operaram uma conversão, a conversão ao marxismo via Teologia da libertação, como se assim pudessem voltar a outro tipo de trabalho missionário.

No estágio de aculturação em que essas tribos se encontram, o mais adequado seria a adoção de políticas públicas que os contemplassem como pessoas em busca de bem-estar, e não meras peças de museu que devem ser preservadas. Necessitam, isso sim, de políticas públicas voltadas para uma melhor qualidade de vida. Querem médicos, TV, automóveis e instrumentos de trabalho, não a volta do xamã. 

Em boa hora a Assembleia Legislativa sul-mato-grossense criou a CPI do Cimi, tendo como presidente a deputada Mara Caseiro e como relator o deputado Paulo Corrêa. Trata-se de um trabalho sério de investigação, voltado para desvelar a névoa ideológica que cerca as atividades dessa entidade e de ONGs correlatas.

Não estamos diante de um filme de faroeste, em que se possam discriminar mocinhos e bandidos. A realidade é muito mais complexa e nuançada. Ambos, na verdade, são vítimas - vítimas de políticas estatais e, mesmo, eclesiásticas, que têm como objetivo pôr as duas partes, com suas expectativas de direito, em confronto. 

A Funai nada faz para equacionar os conflitos. De fato, é parte do problema, não de sua solução, incentivando lutas e confrontos. Considera sagradas suas “demarcações de terras”, quando são frequentemente distorcidas, com base em laudos antropológicos de cunho ideológico. 

Ademais, aferra-se a desrespeitar as decisões do STF estabelecidas quando do julgamento do caso da Raposa-Serra do Sol. Ora, dentre outras condicionantes, estipulou a Corte Máxima o marco temporal da Constituição de 1988 como linha divisória das terras indígenas e vedou a ampliação de seus territórios. Termina, assim, por criar uma infinidade de conflitos e judicializações, enquanto reclama dessa mesma judicialização! 

Na verdade, esse órgão estatal procura colocar-se acima do Estado e do STF. Se seguíssemos sua política, empreendedores rurais seriam simplesmente expropriados de suas terras, como se não tivessem títulos de propriedade reconhecidos pelo Estado há décadas, anteriores à Carta de 1988. 

Logo, se há necessidade de mais territórios indígenas em algumas áreas, por causa de explosão demográfica ou outra, não adianta insistir no conflito. A razão exigiria apostar na solução e esta passa pela compra de terras, pelo valor de mercado, pagas em dinheiro. Assim, ambas as partes poderiam ter suas expectativas de direito atendidas. Por que não uma aposta na negociação e no reconhecimento mútuo de direitos?

(*) Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRGS

Uma lei bolivariana, em defesa dos desonrados

Percival Puggina
Tribuna da Internet

O Congresso Nacional aprovou e a presidente Dilma sancionou um projeto de lei que, nas circunstâncias atuais do país, parece ter sido concebido em reunião conjunta com o cubano PCC e com o PSUV (partido da ditadura venezuelana). A legislação brasileira já regula e penaliza, como deve, a calúnia, a injúria e a difamação. A nova lei acrescenta uma extraordinária facilidade para a obtenção do direito de resposta, por determinação judicial, já nas primeiras 24 horas da solicitação, tenha ou não havido tempo para contraditório ou ampla defesa.

Parece desnecessário explicar que a nova lei, com data de 1 de novembro, não foi pensada, redigida e rapidamente aprovada tendo em vista a proteção do cidadão comum ou das instituições privadas. Quem, em primeiríssimo lugar, buscava resguardo de imagem eram os próprios legisladores que aprovaram o projeto e a chefia do governo que sancionou a lei. Na perspectiva de uns e outros, o que está a exigir providências não é o insignificante e pouco digno papel que desempenham perante a crise moral, política, econômica e social do país, mas a rejeição nacional a esse tipo de protagonismo.

AFINAL, O QUE QUEREM?
Fico a me perguntar o que esperam os ilustres cavalheiros e as distintas damas que a sociedade faça? Que os corteje com aplausos e reconhecimentos? Que exclamemos – “Como vai bem o ilustre parlamentar quando defende o governo! Que gestos! Que eloquência!”. Ou então: “Os 81 senhores senadores receberam carros novos. Que atenções e medidas lhes poderão exigir as remotas províncias enquanto desfrutam o fugaz odor da novidade?”. Ou ainda: “Que mais pode fazer um governo em hora de crise, além de zelar por si mesmo?”. O país? Ora, o país! O que é ele, diante dos cargos e recursos do poder?

Por questão de formação, cuido de ser civilizado nas minhas críticas, que raramente são pessoais. Por isso, não temo incorrer nas vedações da lei. Mas é forçoso reconhecer que ela inibe a crítica política. Decisões a esse respeito dependerão exclusivamente do entendimento imediato dos juízes a quem couberem (a lei exige urgência nas decisões relativas à matéria). Os julgadores podem considerar que não há distinção entre honra objetiva e subjetiva, ou seja, o reclamante pode ser um canalha condenado e preso, mas tem o direito de não ser chamado de canalha ou (como li num artigo jurídico) “não ser totalmente canalha”.

Doravante, desonrados lutarão bravamente em defesa da própria honra, em breves e exitosos duelos jurídicos, apadrinhados pela nova lei.

Aula de traição

 Vicente Nunes
Correio Braziliense

O governo não perde a oportunidade de tumultuar o ambiente quando tudo do que precisa é de um clima de tranquilidade para tentar tirar o país do atoleiro. E faz questão de caprichar, se o objetivo for desestabilizar o ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Agora, aliados da presidente Dilma Rousseff já definiram até o prazo para o chefe da equipe econômica cair: o fim de dezembro ou, no máximo, janeiro de 2016.

É incrível a justificativa para a demissão de Levy. Ele não conseguiu entregar o que Dilma e o partido dela, o PT, tanto queriam: a retomada do crescimento econômico. Os petistas se conscientizaram de que a situação do país está tão ruim que não haverá propaganda enganosa que consiga eleger prefeitos do partido no ano que vem. Com a retração de mais de 3% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano e de queda de ao menos 2% em 2016, há o risco de a legenda ser riscada do mapa, com os eleitores de menor renda, que sempre votaram no PT, tomando as ruas para protestar contra o desemprego.

Não é possível que Dilma e o PT realmente acreditem que, defenestrando Levy, todos os problemas do Brasil se resolverão. Foi a petista que empurrou o país para a beira do precipício ao optar por uma política econômica desastrosa. Dilma abusou do direito de errar. Trouxe a inflação de volta — o índice acumulado neste ano, de 8,52%, é o maior desde 1996 —; provocou um tsunami de demissões — 1,2 milhão de vagas foram fechadas nos últimos 12 meses —; e estraçalhou as contas públicas, a ponto de o Brasil ser jogado novamente no grupo de países vistos como párias pelos investidores.

Constrangimento 
E não é que o PT de Dilma quer justamente resgatar essa política que Levy tentou enterrar? Em todas as conversas de petistas, está claro que a receita para o Brasil voltar a crescer passa pelo estímulo ao consumo e ao endividamento. Em 2008, o então presidente Lula abriu os cofres para evitar que o estouro da bolha imobiliária nos Estados Unidos arrastasse a economia brasileira. O crédito foi disseminado, com os bancos públicos se transformando em máquinas de emprestar. Nessa empreitada, o Tesouro Nacional foi usado sem constrangimento, inundando o caixa das instituições e elevando a dívida pública.

Naquele momento, a receita funcionou. O Brasil foi um dos primeiros países a sair da crise. Mas, para eleger Dilma, em 2010, Lula fez o diabo. Gastou o que não podia. E foi vitorioso. Esperava-se, porém, que, com a petista eleita, um raio da racionalidade e de bom senso se abatesse sobre o governo. Contudo, Dilma não só manteve a gastança e o estímulo ao endividamento como acelerou o passo ao implantar a inacreditável nova matriz econômica. O resultado todo mundo sabe: três anos seguidos de rombo nas contas públicas — 2014, 2015 e 2016 — e a maior recessão desde 1930.

Nem mesmo a chegada de Levy ao governo, vista com euforia no início pelos investidores, foi capaz de conter o caos. O ministro da Fazenda fracassou porque, na verdade, Dilma nunca quis mudar. Acenou com um segundo mandato mais responsável, mas continuou fazendo as mesmas estripulias, cuja conta, como sempre, cai no colo da população. De salvador da pátria, Levy hoje é o empecilho de que o PT quer se livrar na ânsia de manter o projeto de poder.

Ambições 
A demissão de Levy está tão certa que seu possível futuro sucessor, Henrique Meirelles, já teria recebido autorização de Lula para se reunir com lideranças políticas a fim de discutir cenários econômicos. O ex-presidente do Banco Central nega veementemente que esteja com um pé na Esplanada dos Ministérios. Mas que ele quer voltar por cima para Brasília, ninguém tem dúvidas. Como não é bobo e tem ambições, inclusive a de ser presidente da República, está fazendo todas as exigências possíveis. Teme fracassar e sair pelas portas dos fundos, como pode ocorrer com Levy.

O ex-presidente do BC só terá sucesso como chefe da equipe econômica se Dilma realmente abrir mão de definir a política econômica. E apoiar de verdade o ajuste fiscal, que é boicotado diariamente nos círculos petistas. Se não mostrar serviço nos primeiros dois meses, Meirelles morrerá na praia, como Levy. Esse, coitado, foi traído e perdeu a capacidade de agir. Só continua ainda onde está por desejo de poder. De ministro da Fazenda, ele agora só tem o título.

Apreensão no BC 
» No Banco Central, a possível demissão de Joaquim Levy é vista com apreensão. Se Meirelles realmente for nomeado para o Ministério da Fazenda, fará mudanças na autoridade monetária. Para ele, o time de Alexandre Tombini foi um fiasco ao nunca ter entregado a inflação na meta.

Hora da recompensa 
» Meirelles, quando se refere ao sistema de metas de inflação, bate no peito e diz que foi a sua política eficiente no comando do BC que permitiu que o custo de vida ficasse abaixo de 4% em 2006, ampliando a sensação de bem-estar e ajudando Lula a se livrar do mensalão e ser reeleito.

Estelionato à vista

Editorial 
O Estado de São Paulo

Tudo leva a crer que Lula está prestes a assumir o controle total do governo, agora forçando Dilma Rousseff a demitir o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e substituindo-o por alguém de confiança do ex-presidente e disposto a adotar uma “nova política econômica” destinada a “acelerar a retomada do crescimento econômico”. Segundo se informa, Lula e os ministros do núcleo político do Planalto – políticos alinhados com o ex-presidente, que os colocou onde estão exatamente para isso – intensificaram na última semana a pressão sobre a presidente da República para que substitua urgentemente Levy, de preferência pelo ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles.

Considerando que a crise econômica e a debacle moral e o consequente impasse político paralisaram o governo e provocaram o rebaixamento da popularidade de Dilma a índices sem precedentes, faz sentido que Lula tenha pressa em preencher o vazio deixado por sua pupila no comando da ação governamental, tarefa que já executou com êxito no que se refere à área política, ao “nomear” Jaques Wagner e Ricardo Berzoini para o comando da Casa Civil e da Secretaria de Governo.

Falta agora o chefão do PT colocar alguém de sua confiança à frente do Ministério da Fazenda, para executar a “nova política” que, na verdade, nada tem de nova, pois se trata apenas da reedição da gastança na forma da liberação de crédito para a aquisição de bens de consumo. É óbvio que não se pode pensar em crescimento econômico sustentável sem investimentos em infraestrutura, nos chamados bens sociais como educação, saúde, saneamento, segurança, transportes, etc. Mais uma vez, porém, não é hora de pensar em projetos que só dão retorno a longo prazo.

Resta saber se Henrique Meirelles estará disposto a assumir os enormes riscos da “política econômica” com a qual Lula sonha como último recurso para salvar sua pretensão de chegar de novo à Presidência da República em 2018. E se, para fazê-lo, tolerará o convívio com a presidente que o detesta.

A economia brasileira foi jogada num buraco cada vez mais profundo pelo delírio populista do PT, associado ao dogmatismo ideológico e à incompetência de Dilma. Beneficiado por uma conjuntura favorável, que encheu os cofres públicos com impostos, o governo se permitiu gastar sem fazer contas, subsidiar programas com inaudita generosidade, fornecer crédito abundante e fácil para consumo e fazer uma impensada desoneração fiscal.

Quando começou a “sair mais dinheiro do que entrava” – como admitiu dias atrás o próprio Lula –, a crise econômica se apresentou aos brasileiros como o resultado inescapável da insustentabilidade do delírio consumista no qual o lulopetismo tentou – e, pelo jeito, vai insistir nisso – ancorar seu projeto de poder.

Dilma e o próprio Lula estavam convencidos, na transição do primeiro para o segundo mandato da presidente, de que a situação econômica era grave e exigia, prioritária e urgentemente, que as arrombadas contas do governo fossem colocadas em ordem. Era a necessidade do ajuste fiscal que entrava em cena. E Lula indicou para o ministério da Fazenda um executivo de perfil liberal, ninguém menos que o presidente do Bradesco, Luiz Trabuco. Trabuco não foi liberado para o cargo pelo conselho do banco e Dilma ficou com Joaquim Levy.

Mas a discussão das medidas necessárias ao ajuste fiscal, especialmente aquelas que contrariam os interesses dos assalariados, assustou as correntes esquerdistas do Parlamento, as bases sindicais do PT e as organizações filopetistas. O ajuste fiscal passou a ser apontado como uma ameaça às conquistas sociais. E não demorou para que Lula, sempre atento aos reflexos eleitorais dos acontecimentos, passasse a sabotar o demonizado ajuste e fazer eco às reivindicações de uma “nova política econômica” – como se o governo tivesse alguma.

Mais do que depressa, Lula quer reviver o consumismo inconsequente que o transformou num grande líder popular. Com que dinheiro se produzirá esse milagre? Bem, o interesse eleitoral de Lula é mais importante do que detalhes como esse. Afinal, como creem os petistas, o governo tudo pode, basta querer.

Comédia de erros

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo

Nunca antes na História deste país se sacrificaram tanto as prioridades nacionais no altar da ideologia
A Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Senado Federal está organizando uma série de audiências públicas sobre defesa nacional e a situação da indústria brasileira no setor. Nesse contexto, juntamente com Eduardo Bonini, presidente da empresa Visiona, participei na semana passada de audiência sobre o programa espacial, com ênfase na construção de satélites e na operacionalização da Base de Lançamento de Satélites de Alcântara, no Maranhão.

O programa espacial, corretamente, é uma das prioridades da Estratégia Nacional de Defesa, aprovada pelo atual governo brasileiro.

Os esforços da Aeronáutica para desenvolver um veículo lançador de satélites nacional não dispõem de recursos suficientes para as pesquisas e construção de equipamento simples para cargas de baixo peso. A indústria nacional, com os cortes orçamentários, está perdendo técnicos que poderiam construir satélites com porcentual importante de participação da indústria no produto final. A Base de Alcântara, localizada em posição privilegiada, próxima da linha do Equador, tem competitividade para concorrer no mercado global de lançamento de satélites comerciais de meteorologia e de comunicações. Há interesse de empresas europeias, norte-americanas, chinesas e russas em participar com empresas brasileiras desse significativo mercado internacional. A Visiona, empresa formada pela Embraer e pela Telebras, seria a coordenadora da integração de todos os interessados.

Nos últimos 13 anos, contudo, por um viés ideológico, o programa registra um atraso considerável.

A razão dessa lamentável situação foi a decisão do PT, então oposição e depois governo, de se opor ao Acordo de Salvaguarda Tecnológica assinado com os Estados Unidos em 2001. A negociação com esse país é importante pelo fato de as empresas norte-americanas serem responsáveis por cerca de 85%-90% dos lançamentos desse tipo de satélite no mundo e porque permitiria que todos os países que lançam satélites de pequeno porte pudessem utilizar a base de forma mais econômica. A Rússia e a China assinaram acordos desse tipo com os Estados Unidos.

O Brasil preferiu assinar um acordo com a Ucrânia para desenvolver o projeto Cyclone, que previa a construção de um veículo lançador para pôr em órbita o satélite brasileiro. O irônico em todo esse episódio é que para lançar o satélite da Base de Alcântara seria necessário que o Brasil assinasse o acordo de salvaguarda com os Estados Unidos, porque o veículo lançador ucraniano tem componentes norte-americanos. Segundo telegrama da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, de 2009, revelado pelo WikiLeaks, até uma gestão diplomática foi feita pelos ucranianos para os norte-americanos concluírem o acordo com o Brasil. O desfecho de todo o imbróglio foi o cancelamento do acordo com a Ucrânia, depois de um custo declarado de R$ 500 milhões, sem nenhum resultado.

A descoordenação e a incompetência não terminam aí. Em 2003, o então ministro das Relações Exteriores anunciou na Câmara dos Deputados, onde o acordo estava sendo examinado, que, juntamente com os ministros da Defesa e da Ciência e Tecnologia, tinha sido decidido que o acordo de salvaguarda tecnológica ia ser retirado oficialmente por não ser de interesse do governo brasileiro. Em 2013, em audiência pública conjunta das Comissões de Relações Exteriores da Câmara e do Senado, essa decisão foi confirmada por outro chanceler brasileiro.

Para surpresa geral, ao examinar a documentação atual dessa matéria no Congresso Nacional, verifiquei que o governo brasileiro não havia retirado o acordo e ele ainda está em tramitação.

O acordo, que poderá tornar viável o uso da Base da Alcântara, gerar recursos (cada lançamento de satélite custa cerca de US$ 50 milhões, que iriam para o Tesouro Nacional) e criar empregos altamente qualificados, há 14 anos segue sua via-crúcis pelas comissões do Congresso; 13 anos na Comissão de Constituição e Justiça, controlada pelo partido do governo, com a perspectiva de ser declarado inconstitucional. Enquanto isso, o acordo com a Ucrânia, cópia do negociado com os Estados Unidos e finalizado a toque de caixa, teve tramitação rapidíssima e foi aprovado pelo Congresso sob a liderança do PT.

O que fazer para resolver essa situação, em que o interesse nacional é posto num distante segundo plano por considerações político-partidárias?

A renegociação do acordo com os Estados Unidos, se o atual governo se dispuser a fazê-la, encontrará forte resistência da burocracia norte-americana, visto que a decisão de 2001 foi política, graças a entendimentos diretos entre os presidentes dos dois países.

A solução mais pragmática, em vista de toda essa comédia de erros, seria o Congresso Nacional superar o viés ideológico e aprovar o acordo com as ressalvas que decidir recomendar ao governo brasileiro. Os entendimentos poderiam ser retomados com o governo de Washington, como previa o comunicado final da visita do presidente Barack Obama ao Brasil, em março de 2011. Estranhamente (ou não seria de estranhar), na recente visita da presidente Dilma aos Estados Unidos, em julho passado, o assunto deixou de ser incluído entre as prioridades do governo brasileiro e não há registro de que o tema tenha sido tratado com as autoridades norte-americanas em qualquer nível.

Caso o assunto não seja reaberto pelo governo brasileiro de maneira positiva e pragmática, o programa espacial, tanto o desenvolvimento do veículo lançador quanto a utilização comercial da Base de Alcântara, continuará em ponto morto. Será mais uma política de Estado vítima da plataforma partidária sobreposta aos reais interesses do país.

Nunca antes na História deste país se sacrificaram tanto as prioridades nacionais no altar da ideologia.

Mundo rico sobe, Brasil desce

Editorial 
O Estado de São Paulo

O Brasil perde de todos os países da União Europeia, quando se comparam as taxas de crescimento econômico estimadas para este e para o próximo ano, os balanços das contas públicas e os resultados gerais das contas externas. Perde também de 13 dos 28 membros do bloco no quesito desemprego. Fica atrás dos Estados Unidos em todas essas comparações. Os sócios da União Europeia devem crescer em média 1,9% neste ano, 2% em 2016 e 2,1% em 2017, segundo as projeções de outono, divulgadas na semana passada. Para os 19 países da zona do euro, as médias estimadas para a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) nesses três anos ficam em 1,6%, 1,8% e 1,9%. As taxas previstas para os Estados Unidos são 2,6%, 2,8% e 2,7%.

A presidente Dilma Rousseff e alguns de seus ministros continuam atribuindo o péssimo desempenho brasileiro à situação externa. Devem desconhecer os números das economias mais desenvolvidas. A China, maior compradora de produtos básicos brasileiros, ainda avança em ritmo invejável, na faixa de 6% a 7%. Atribuir ao menor dinamismo chinês a vergonhosa situação brasileira também é uma tentativa inútil de esconder o fracasso das políticas de Brasília. A acomodação chinesa afeta muito mais os países mais desenvolvidos, mais abertos e mais integrados nos grandes fluxos comerciais de todos os tipos de produtos.

Só um país da União Europeia, a Grécia, deve ter recessão neste e no próximo ano. As estimativas apontam contração de 1,4% em 2015 e de 1,3% em 2016, com retorno ao crescimento (2,7%) em 2017. As taxas de desemprego ainda serão as mais altas do bloco – 25,7% neste ano, 25,8% no próximo e 24,4% no seguinte.

A Espanha continuará em segundo lugar na escala do desemprego, com taxas de 22,3%, 20,5% e 19% estimadas para os três anos. Mas a economia espanhola, assim como outras fortemente afetadas pela crise, continua a recuperar-se, com taxas de expansão estimadas em 3,1%, 2,7% e 2,4%.

Portugal, outro país submetido a um duro programa de ajuste, saiu da recessão no ano passado e deve crescer 1,7% em 2015 e 1,7% em 2016. A campeã do crescimento neste ano, com avanço de 6%, deve ser a Irlanda, uma das primeiras economias a enfrentar a dureza da arrumação fiscal e bancária nos primeiros anos depois do estouro da bolha financeira.

Em suma: a recuperação continua nos países desenvolvidos, com ritmos desiguais de crescimento econômico e taxas diferentes de desemprego. Mas as condições fiscais melhoram de forma geral e os Tesouros apresentam balanços cada vez melhores. O contraste com os números brasileiros é indisfarçável.

Enquanto se projeta algum crescimento para a maioria dos países da União Europeia neste ano e no próximo, as estimativas indicam para o Brasil mais dois anos de recessão, com o PIB encolhendo 3% ou pouco mais neste ano e cerca de 1% em 2016. A recessão, embora pessoas do governo pareçam esquecer ou desconhecer, começou no ano passado.

O déficit geral do setor público, no Brasil, passa bem de 9% e aproxima-se de 10%. As médias estimadas para a União Europeia são 2,5% neste ano, 2% no próximo e 1,6% em 2017. Para a zona do euro os números projetados são 2%, 1,8% e 1,5%. Só se projetam déficits acima de 3%, em 2015, para quatro países: Grécia (4,6%), Espanha (4,7%), França (3,8%) e Croácia (4,9%). Mas o ajuste progride em todos esses países. Nos Estados Unidos, o déficit deve ficar em 4% em 2015, 3,5% em 2016 e 3,2% em 2017. Há rumos definidos para a política fiscal em todos os países avançados, enquanto no Brasil ainda se adivinha o resultado primário deste ano (sem contar os juros) e ainda se tropeça na elaboração do orçamento para 2016.

O desemprego brasileiro está perto de 9%. A média da União Europeia, puxada para cima por alguns países, é 9,5% e deve seguir em queda. Nos Estados Unidos está em 5,3% e também recuando. Isso torna mais provável o aumento dos juros americanos até o fim do ano – notícia ruim para um país vulnerável como o Brasil.

E o Brasil?

Maria Helena Rubinato Rodrigues de Sousa
Blog Noblat

Ora, o Brasil, quer dizer, nós, os que habitamos este imenso território, nós que procriamos, trabalhamos, sofremos, pagamos impostos, assistimos em silêncio à tempestade que se forma sobre nossas cabeças e que a cada dia se avoluma, e que só temos voz na hora de votar, nós que nos danemos!

Assim pensam as autoridades deste país que só regride, regride, regride. Mas, como disse o pedreiro Antonio Furtado Costa, morador da Grande Belém, capital do Pará: “A gente é simples, mas não é besta” (O Globo, 12/11, pg. 3).

Pois é isso mesmo, Antonio. Bestas não somos. Os graúdos que se cuidem...

O jornalista Ricardo Noblat postou neste seu Blog, em 11/11, nota intitulada “Lula deve estar triste”. E explica qual o motivo, em sua opinião, para a tristeza do ex-presidente: o susto que levou ao ser informado dos descalabros do mensalão e do petrolão, pois o coitado, ingênuo, de todo inocente, não tinha a menor ideia do que se passava naquela empresa que já foi grande e que hoje é um camundongo acuado.

Pois ouso discordar do Noblat, meu mestre, cuja credibilidade é de tal ordem que digo claramente: ele forma minha opinião. Mas, como toda regra, há exceções e esta é uma delas: Lula está triste, sim, mas não pelo susto que não levou. Ele está amargurado por causa das agruras e desventuras do presidente da Câmara, o homem que tem em suas mãos a caneta que pode dar partida para o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff.

Segundo o ex-ministro Nelson Jobim (de qual pasta? já nem lembro, foram tantas...), conselheiro do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para questões jurídicas e políticas, “O melhor cenário para Lula é o impeachment”. 

Como Lula é uma metamorfose ambulante, pode ser que hoje a opinião de Jobim seja a errada, assim como é possível que o ex-presidente sinta tristeza pelos motivos citados por Noblat.

Mas, certamente, o Brasil não é o motivo principal de sua tristeza. Pois, se fosse, a cartilha assinada pelo PT e publicada ontem, teria sido rasgada em mil pedaços e engolida pelos que a assinaram.

Pelo menos é o que eu faria com um texto que acusa “a força-tarefa da Operação Lava Jato, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes e setores da imprensa de agirem deliberadamente, com base em "mentiras", para "eliminar o partido da vida política brasileira."

Ao contrário do que diz essa cartilha que é uma ode aos malfeitos, nós, brasileiros, devemos aplaudir e honrar o bravo juiz Sergio Moro, o Ministério Público e a PF e resistir aos que tentam rotular de modo injusto o ministro Gilmar Mendes, do STF.

Porém, mais do que tudo, devemos ser gratos à Imprensa, essa instituição que é a que mais pensa no país, já que é a que nos mantém, a nós, os indigitados cidadãos, informados de todas as patranhas perpetradas contra o Brasil.

Podem esquadrinhar todos os palanques de Lula e dona Dilma nestes últimos meses e verão que eles só sabem lutar por uma causa: a manutenção do poder. Governar o país é de somenos importância. O que importa é manter o leme em mãos petistas, agora e, se possível, por muitos e muitos anos!

Contudo, muita gordura nas mãos pode prejudicar as manobras e aí o leme, escorregadio, acaba levando a nave para o lado oposto do que querem seus comandantes.

Como não somos bestas, não é, Antonio, recomendamos aos graúdos que lavem bem as mãos, retirem toda a gordura e segurem com firmeza o leme para que o Brasil volte a navegar para o futuro e deixe de vez a miragem do passado para trás.

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Dentre os muitos golpes que sofremos nesta semana que se encerra um me tocou profundamente: perder Sandra Moreyra tão moça ainda. Herdeira do talento do avô Álvaro Moreyra e do pai Sandro, seu texto belíssimo, sua inteligência e sua alegria farão muita falta, por muito tempo.

O valor do vale

Míriam Leitão
O Globo 

Quanto vale um vale? Sobre isso se discutirá nos próximos dias. A presidente Dilma ontem, na visita do sétimo dia, disse que a multa será de R$ 250 milhões para a Samarco. Mas quanto dessa multa vai para o Vale do Rio Doce? Normalmente as multas engordam contas paradas no governo. O Rio Doce pode estar sendo cimentado neste momento, explica um procurador.

Demorou uma semana para que o senso de urgência chegasse ao governo, e ontem, finalmente, a presidente Dilma visitou o local, mesmo assim há razoáveis dúvidas sobre a efetividade da ação governamental. Quando as empresas pagam as multas, como a que o governo aplicou na Samarco, o dinheiro fica lá parado. Ao todo o governo tem R$ 5 bilhões em multas por crimes ambientais e para as quais não há mais recurso. Ao todo, há R$ 30 bilhões. Aplicar multa na Samarco sem que o dinheiro vá para o Vale do Rio Doce é uma forma de iludir a opinião pública.

Há dois perigos imediatos rondando a região atingida pela tragédia em Mariana. A barragem do Fundão, a primeira que rompeu da mineradora Samarco, ainda tem uma parte de rejeitos retida. Só que a base que a segura tem risco de romper e aumentar a inundação de lama. Perigo maior: o rompimento das duas barragens erodiu um pedaço da base de uma terceira muito maior, a de Germano, que tem três vezes mais rejeitos do que a primeira. Se ela se romper será uma inundação ainda pior.

Inundação de que? O governo continua dizendo que a lama não é tóxica. Será? Mineradoras lidam com metais pesados. Mas há outro risco. Não se fala nisso abertamente porque ainda faltam comprovações, mas perto da barragem rompida há uma cava da Vale de extração de ouro. Se tiver havido mistura pode ter arsênico na composição da lama que agora escorre por todo o Vale.

Entrevistei ontem na GloboNews o procurador federal em Minas Gerais Adércio Leite Sampaio e ele contou que esses 50 milhões de metros cúbicos de lama podem cimentar o leito do Rio Doce. Alerta que tem sido feito pelos meus colegas do GLOBO de que a lama está destruindo a vida. Não é um perigo que está de passagem para o mar, é um risco continuado, ele permanece e se sedimenta no fundo do rio da maior bacia hidrográfica do Sudeste.

A presidente do Ibama, Marilene Ramos, que também entrevistei, disse que este é o maior desastre ambiental do Brasil e um dos maiores do mundo provocado por uma mineradora. Além das multas sobre a Samarco, será iniciada uma ação civil pública para responsabilizar a empresa e suas controladoras pelas ações de reparação.

Há danos reparáveis e irreparáveis. Sobre as vidas humanas perdidas, tudo o que se pode fazer é indenizar as famílias. Já suas casas destruídas precisam ser construídas em outro local, mas como a comunidade pediu: os moradores querem ficar juntos como estavam em Bento Rodrigues. A empresa, da Vale e da BHP, ao fazer a análise de risco ambiental havia registrado que Bento Rodrigues não estava na zona de influência da barragem. Imagina! Hoje o distrito não existe mais.

Aí reside outro problema. As mineradoras fazem elas mesmas o estudo de impacto ambiental e o governo sanciona. Elas se fiscalizam. Evidentemente sempre dizem que nada há de errado. Os discordantes podem apenas registrar sua desaprovação. Foi assim com a renovação da licença em 2013.

Mas tudo pode piorar. O novo Código de Mineração que tramita no Congresso aumenta a liberdade das mineradoras. Pelo artigo 109 do substitutivo de autoria do deputado Leonardo Quintão (PMDB-MG) fica estabelecido que se houver potencial mineral numa região não será possível criar área de proteção ambiental. A mineração tem supremacia sobre tudo o mais.

Na opinião de Marilene Ramos, o Brasil deveria ter, como outros países, um fundo de mineração para reparar o estrago ambiental. As mineradoras são obrigadas por lei a compensar os impactos que causam, mas o que acontece quando uma empresa quebra ou entra em recuperação judicial, como a MMX? A presidente do Ibama acha que dificilmente a empresa de Eike Batista fará a compensação dos danos que causou. É preciso discutir a sério os riscos e custos da mineração. Mas o urgente agora é lutar para impedir a morte do Vale do Rio Doce. Seu valor é incalculável.

Ajuste fiscal tem que ser prioridade nº 1 , diz Meirelles

Exame.com
Álvaro Campos e Ricardo Leopoldo, Estadão Conteúdo

Antonio Cruz/AGÊNCIA BRASIL 
Ajuste fiscal: Meirelles afirmou que, tendo em vista a carga tributária 
elevada brasileira, a resolução para a questão fiscal passa 
por uma revisão das despesas públicas

São Paulo - O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles afirmou na manhã desta sexta-feira, 13, que é preciso estabelecer como "prioridade número um" a questão do ajuste fiscal. A declaração foi dada durante evento em São Paulo, promovido pelo Instituto Millenium com ex-presidentes do BC.

"É fundamental uma trajetória consistente da dívida pública. A trajetória da dívida tem de ser revertida e estabelecermos como prioridade número um o ajuste fiscal e o equacionamento dessa questão", afirmou.

Segundo ele, é preciso enfrentar os problemas de curto prazo, mas deixar claro que serão endereçadas questões mais estruturais.

"Algumas delas são de difícil equacionamento, inclusive político. Se fosse fácil, teríamos resolvido há muito tempo. Isso acontece com o aumento constante das despesas públicas por um período muito longo".

Meirelles afirmou que, tendo em vista a carga tributária elevada brasileira, a resolução para a questão fiscal passa por uma revisão das despesas públicas.

"Isso deve passar por medidas de ordem legal e mesmo constitucional. É um ponto importante de mobilização no Brasil atualmente é a limitação das despesas públicas, em vez de garantir simplesmente que as despesas estejam asseguradas pelas normas legais e constitucionais".

Ele admitiu, no entanto, que talvez seja preciso, no curto prazo, um aumento de impostos, em função de uma questão emergencial de reverter a trajetória da dívida pública.

O Brasil e o brasileiro de hoje em 15 fatos, segundo o PNAD

Talita Abrantes, Raphael Martins, Rita Azevedo 
EXAME.com 

Thinkstock

São Paulo - Nova edição da Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios (PNAD), divulgada nesta sexta-feira pelo IBGE, revela que uma série de mazelas históricas persiste no Brasil de hoje.

Pela primeira vez na década, o trabalho infantil cresceu no país. Segundo o estudo, mais de meio milhão de crianças e adolescentes com idade de 5 a 17 anos engrossaram a força de trabalho no país no ano passado.

O levantamento endossa a tendência dos últimos anos de redução da concentração de renda no Brasil. Só a região Sudeste contrariou a série histórica: o Índice de Gini local cresceu 0,7% no período, passando de 0,475 para 0,478.

A diferença entre ricos e pobres continua gritante: em 2014, eram 25,4 milhões de pessoas ganhando menos de 1 salário mínimo e apenas 779 mil com uma renda superior a 20 salários mínimos.

O tamanho do Brasil em números

Segundo a contagem do IBGE, na semana de referência em que a pesquisa foi realizado, a população brasileira correspondia a 203,2 milhões de pessoas - 1,7 milhão a mais do que no ano anterior.

Até os 19 anos de idade, os homens eram a maioria da população nesta faixa etária. A partir dos 20 anos, a situação se inverte e isso se reflete na população residente. O levantamento revela que elas estão estudando mais, mas ainda ganham 70% do salário dos homens.

Os dados revelam também que a pirâmide etária brasileira está se afunilando. Ao mesmo tempo em que a participação de idosos aumenta, cai a das crianças de até nove anos.

Desigualdade de renda piora no Sudeste

 Desde 2004, segundo dados do IBGE, o índice de Gini - que mede a distribuição de renda no país - está em trajetória decrescente. Em 2013, o Índice de Gini da distribuição do rendimento mensal real de todos os trabalhos estava em 0,495 e passou para 0,490 no ano passado.

O Índice de Gini vai de 0 a 1 - quanto mais perto de 0, menor é a concentração de renda em uma determinada localidade.

Contrariando a tendência nacional, a desigualdade de renda piorou na região Sudeste no período analisado. Isso porque a renda média dos 10% mais pobres caiu em 2014, 0,7% abaixo de 2013. Dessa forma, o Índice de Gini cresceu 0,7% no período, passando de 0,475 para 0,478.

No Brasil, os 20% que ganham menos tiveram aumento no rendimento, enquanto os 10% que ganham mais tiveram redução.

A região Sul é a que ostenta a menor concentração de renda do país. Na região, o índice de Gini a distribuição do rendimento mensal real de todos os trabalhos ficou em 0,442. O Nordeste, por sua vez, lidera em desigualdade nessa categoria com uma taxa de 0,501.

Pela primeira vez na década, trabalho infantil cresce no Brasil

 Entre 2013 e 2014, o número de crianças e adolescentes de 5 a 17 anos trabalhando cresceu 4,5%, colocando 143,5 mil  a mais em ocupação profissional. Ano passado fechou com 3,3 milhões de pessoas nessa faixa etária trabalhando no Brasil.

O aumento contraria a série histórica que vinha em queda desde o início dos anos 2000. Em 2001, a taxa de ocupados na infância e adolescência era de 12,7% contra os 7,8% atuais.

De 2001 a 2014, o índice de ocupação de jovens de 15 a 17 anos foi o que mais caiu, em 8 pontos percentuais, segundo o PNAD. Em especial nessa faixa etária, isso significa um possível retardamento na entrada no mercado de trabalho para priorizar uma melhor qualificação.

As mulheres continuam estudando mais ...

Em média, segundo o PNAD, os brasileiros ficam 7,7 anos na escola - um indicador puxado, principalmente pelas mulheres. Enquanto os homens estudam, em média, 7,5 anos, elas passam 8 estudando.

Os dados revelam que, até os 18 anos de idade, os homens são maioria nas escolas. A situação se inverte quando elas chegam a idade adulta.Em 2014, 6 milhões de mulheres com mais de 18 anos estavam estudando em 2014. Em contrapartida, eram cerca de 5 milhões de homens na mesma faixa de idade.

... e ganhando menos

 Apesar disso, as mulheres seguem recebendo salários inferiores ao dos homens. Em média, a renda dos homens economicamente ativos é de R$ 2.062 reais. Nas mesmas circunstâncias, as mulheres ganham R$ 1.509. 


13,2 milhões de adultos ainda não sabem ler

 O número de analfabetos no Brasil permaneceu estável entre 2013 e 2014. Segundo dados do PNAD, 8,3% dos brasileiros com mais de 15 anos não sabiam ler nem escrever no ano passado - ou o equivalente a 13,2 milhões de pessoas.

A região Nordeste ostenta os piores índices de analfabetismo do país. No total, 16% dos adultos estão nessa condição. Entre os homens nordestinos, a taxa é de 18,5% que não sabem ler.

40% dos brasileiros não terminaram o Ensino Fundamental

No total, 11% da população brasileira com mais de 25 anos não tem qualquer nível de instrução ou não completou sequer 1 ano de estudo. Outros 32% pararam em algum momento do Ensino Fundamental - sem pegar o diploma.

Apenas 13% dos brasileiros completaram o Ensino Superior - em 2013, eram 12,6% nessa categoria.
O cenário é diferente para as pessoas que estavam trabalhando no momento da pesquisa. Entre os trabalhadores, 30% tinha ensino médio completo e 26% não havia concluído o Ensino Fundamental. Neste grupo, cerca de 7% não tinha nenhuma instrução. 

Praticamente todas crianças de 6 a 14 anos estão na escola

 A maior taxa de escolarização do Brasil está entre as crianças de 6 a 14 anos. Nesta faixa etária, 98,5% dos brasileiros estão na escola. Agora, dos 15 aos 17 anos - quando deveriam estar no Ensino Médio -, a taxa de adolescentes estudando cai para 84,3%. Dos jovens com idade de 18 a 24 anos, 30% não estudava.

Em média, segundo o PNAD, os brasileiros ficam 7,7 anos na escola

Quatro em cada 10 brasileiros não moram onde nasceram

Quase 40% dos brasileiros não moram na cidade em que nasceram - isso corresponde a cerca de 80 milhões de pessoas vivendo fora de seu município de origem. Desse total, 32 milhões não vivem sequer no estado de onde são naturais.

Mais de 10 milhões de pessoas que moram hoje em São Paulo não são naturais do estado. Em termos proporcionais, o Distrito Federal é a unidade que mais abriga gente de outros lugares - 49,3% da população total.

Mudar de cidade ou de estado no Brasil, pelo menos aparentemente, é um bom negócio. O nível de ocupação dos brasileiros não naturais ao município e estado é superior (cerca de 60%) ao das pessoas que nasceram por lá (cerca de 55%). 

Uma pátria um pouquinho mais velha 

Aos poucos, a população tem envelhecido. Em 2014, pouco mais de 27,8 milhões de pessoas tinham mais de 60 anos. Isso significa que quase 13,7% dos brasileiros são idosos.

Em 2013, a proporção era um pouco menor - 13%.

Ao mesmo tempo em que a participação de idosos aumenta, cai a das crianças de até nove anos. Se em 2013 elas representavam 14,1% da população, em 2014, esse percentual caiu para 13,8%.

A região Norte é que concentra o maior número de crianças - por lá, quase 18% das pessoas têm nove anos ou mais. Por outro lado, o Norte aparece como a região com mais idosos - mais de 15% dos habitantes da região.

Sul é a região com mais viúvos

 Sete em cada cem pessoas que vivem no Sul são viúvos. A região é que a tem a maior proporção de adultos que perderam o marido ou a mulher. O Norte é a região com a menor participação de viúvos - 4%.

De 2013 para 2014, a proporção de casados teve uma pequena redução de 38,7% para 38,4%. A maior parte da população disse não estar em uma união estável. Pouco mais de 49% declararam estar solteiros ou numa união estável. 

Mais garagens com carro

 Em 2014, pouco mais de 30 milhões de domicílios brasileiros tinha, ao menos, um carro na garagem. O número é 6,7% maior do que no ano anterior. O Norte e o Nordeste foram as regiões que registraram os maiores aumentos - cerca de 10%.

Enquanto mais gente comprava carros, menos casas tinham aparelhos DVD e rádios. Em 2013, 72% dos lares brasileiros possuíam um DVD e em quase 76% deles, as músicas tocavam nas rádios. Em 2014, essas proporções caíram para 68% e 72,1%, respectivamente.

200 mil domicílios ainda não têm luz

 Dos 67 milhões de domicílios do país, 0,3% ainda não tinham acesso à luz elétrica no Brasil. Apesar de uma porcentagem baixa, em números absolutos ainda são 200 mil as casas sem energia no país.

A região Norte é a com pior índice, com 2% dos domicílios sem luz. As outras regiões passam dos 99% de abrangência.

24,5 milhões de moradias não têm rede coletora de esgoto

 Acesso à rede coletora de esgoto é o mais crítico dos fatores de infraestrutura levantados pelo PNAD em 2014. No Brasil, apenas 63,5% dos domicílios têm coleta de esgoto instalada. São 24,5 milhões de casas sem o serviço.

Coleta de lixo falta em 10% das moradias, enquanto água encanada não está presente em 15%.

95 milhões de brasileiros acessam a internet

 Entre a população com 10 anos ou mais, foram 95,4 milhões de moradores residentes no país que acessaram a internet, um crescimento de 10 milhões de pessoas em relação a 2013. A proporção de internautas, segundo o estudo, passou de 49,4% para 54,4% do total da população residente.

O maior grupo é da população de jovens, de 15 a 19 anos. Entre eles, mais de 80% acessaram a rede em algum momento do ano de 2014. Aumentando a gama de idade, entre 10 e 29 anos, temos a metade dos internautas do país, 51,5% do total.

Ainda falando em tecnologia: entre pessoas de 10 anos ou mais, 136,6 milhões tinham telefone celular para uso pessoal, ou 77,9% da população nessa faixa. No Sul, Sudeste e Centro-Oeste, mais de 80% do grupo tem um celula


Desemprego em tendência de queda

 Bons tempos… Até o ano passado, a situação do emprego no país era favorável. Com alguma oscilações, as taxas anuais de emprego fecharam 2014 em 6,9% frente ao pico da década passada, de 9,7% em 2013.

O rendimento do trabalho no período também vinha bem, com a média mais alta desde 2001. Em 2014, o número chegou a R$ 1.785 mensais contra R$ 1.386 de 2001.

Adeus às conquistas

Tiago Dantas, Renata Mariz e Silvia Amorim 
O Globo

No Norte e Nordeste, reduto do lulismo, eleitores lamentam retrocesso e culpam políticos

Jorge William / Agência O Globo  
Veida Maria Monteiro, moradora de Jurunas: 
"Acabou negócio de danone" 

BELÉM (PA), PETROLINA (PE), SÃO RAIMUNDO NONATO (PI), JUAZEIRO (BA) e SÃO PAULO - Eles viram a vida melhorar nas últimas décadas. Na era Lula, experimentaram um inédito aumento do poder de compra. Adquiriram TVs, geladeiras, motos, carros, casa própria. Mas, agora, brasileiros que ascenderam socialmente sentem os efeitos da crise econômica e temem que a bonança tenha ficado para trás. Nos últimos dias, O GLOBO visitou dez cidades do Norte e do Nordeste do país e constatou como o desemprego e a inflação têm afetado a vida dessas pessoas.

Crise provoca efeito nos eleitores


Pedro Kirilos/ Agência O Globo
O pedreiro Dilton Ferreira dos Santos, de 50 anos, 
viu reduzir os trabalhos na construção civil 

A crise provoca um efeito político que fica evidente na conversa com eleitores. Representantes do lulismo e eleitores de Dilma Rousseff em cidades do interior de Pernambuco, Bahia e Piauí, onde a petista teve mais de 80% dos votos, dizem-se insatisfeitos com a presidente, embora alguns atribuam o agravamento do quadro à classe política como um todo.

Eles criticam o aumento dos preços e as mudanças nas regras de aposentadoria, e mencionam boatos sobre cortes no Bolsa Família — os cortes, até agora, só afetaram a verba de gestão do programa. A porcentagem de pessoas que avaliam o mandato de Dilma como ótimo ou bom na região caiu de 53%, no fim de 2014, para 10%, em agosto deste ano, segundo o Datafolha.

As regiões Nordeste e Norte devem registrar nos próximos dois anos ritmo maior de crescimento das classes D/E, segundo pesquisa da Tendências Consultoria. O estudo mostra que, até 2017, em todo o país, 3,1 milhões de famílias devem entrar para esse grupo, formado por quem tem renda média familiar mensal de até R$ 1.957. A maioria retorna da festejada classe C, que volta a minguar após a perda de bens e benefícios conquistados nos últimos anos.

— De 2004 a 2013 a gente teve um padrão de crescimento fortemente puxado pelos setores de varejo e serviços, conhecidos por empregarem a mão de obra de baixa qualificação. Só que a festa do consumo acabou, e esses setores estão puxando a derrocada para baixo agora — disse o coordenador da pesquisa, Adriano Pitoli.

Morador de São Raimundo Nonato, no interior do Piauí, o pedreiro Dilton Ferreira dos Santos, de 50 anos, viu reduzir os trabalhos na construção civil que antes sobravam na região. Pela primeira vez desde 2012, está desempregado há mais de três meses. A trajetória de Santos se confunde com a de muitos nordestinos: depois de passar boa parte da juventude trabalhando na lavoura sem salário fixo, conseguiu empregos que pagavam até R$ 1.000 mensais a partir de 2010. Construiu casa, comprou TV, geladeira e uma moto, que guarda na sala, já que o imóvel não foi projetado para ter garagem.

Na Grande Belém (PA), drama parecido é enfrentado pelo também pedreiro Antonio Furtado Costa, de 44 anos. Morador de Ananindeua, ele adotou o seu próprio “ajuste fiscal”: aposentou o ventilador e trocou as lâmpadas. Mesmo assim, a conta de luz passou de R$ 35,78 em setembro para R$ 57,92 em outubro. Seus ganhos semanais, que chegavam a R$ 1,8 mil até o início deste ano, caíram para cerca de R$ 800.

— Antes, eu passava serviço para colegas para não deixar o cliente esperando. Agora, faço orçamentos, espero o cliente ligar, e nada.

Com ensino fundamental, Antonio fala com desenvoltura sobre o momento político. Diz que, desde o impeachment de Collor, só vota nulo, por “falta de credibilidade” dos candidatos. Apesar de o filho ser beneficiário do Bolsa Família, critica o governo e outros políticos, como Eduardo Cunha, presidente da Câmara:

— A gente é simples, mas não é besta.

Jorge William / Agência O Globo
Antonio Furtado Costa, 44 anos, questiona como é possível a despesa 
com energia passar de R$ 35,78 em setembro para R$ 57,92 em outubro 

'Acabou negócio de Danone'
Veida Maria Monteiro, que recebeu das mãos do ex-presidente Lula o primeiro cartão do Fome Zero em Belém, ponto de partida do programa entre as capitais do país, lembra que ficou “famosa na época”. Era 2003. O benefício, já na forma do Bolsa Família, derivado do Fome Zero, estendeu-se até 2009 e ajudou a elevar o padrão de vida de sua família. O tanquinho deu lugar a uma máquina de lavar. Fogão e geladeira foram renovados. O micro-ondas completou a cozinha. A casa, antes de madeira, ganhou uma nova estrutura de alvenaria.

Ela conta que as dificuldades começaram mesmo há cerca de um ano, quando os serviços que o marido faz, como ajudante de obras, passaram a ficar mais escassos. A família vive dos poucos bicos que ele vem conseguindo, dos bolos e lasanhas que ela tenta vender na porta de casa e de um salário-mínimo que recebe de benefício assistencial pela filha do meio, que tem paralisia cerebral e só fica acamada.

Diante do aperto, hábitos adquiridos nos últimos anos já estão virando coisa do passado, conta Veida:
— Acabou negócio de Danone, tomamos menos refrigerante agora. Também reduzimos o material de limpeza. Antes eu comprava marcas melhores, agora só o necessário e das marcas mais baratas.

Na manhã da última sexta, Veida lembrou de como ficou “alegre demais” em pegar na mão de Lula, e resgatou o passado recente de conquistas. Depois que os três filhos cresceram, parou de receber o Bolsa Família.

— Fiquei triste quando disseram que eu não tinha mais direito, porque qualquer dinheirinho é bem-vindo. Mas minha filha, que tem três filhos, conseguiu o benefício. Já ajuda na criação dos meus netos — conforma-se Veida.

A última aquisição é a nova geladeira. Para isso, passou quase um ano acumulando moedas. Porquinho quebrado, era o suficiente para dar a entrada. O restante foi parcelado no nome de uma amiga, que tem emprego fixo e acesso a crediário. Na semana do vencimento do boleto, “deixo até de comer”, brinca Veida, sorrindo, para “honrar o compromisso”.

Ela ainda admira Lula. Afirma que ele “veio de baixo”, “conhece as dificuldades do pobre” e, por isso, votaria de novo nele. Para ela, as coisas “começaram a andar para trás” no governo Dilma.

— O governo dele (Lula) foi melhor. Eu não votei na Dilma.

 ‘Mala na cabeça para não pegar táxi’

 Jorge William / Agência O Globo
O taxista Sandoval de Jesus Mesquita Nascimento acumula dívidas 

Em 2004, Sandoval de Jesus Mesquita Nascimento decidiu abandonar a rotina estressante e mal remunerada de motorista de ônibus, profissão que exerceu durante 22 anos, para ser taxista. O mercado estava propício. Vantagens para adquirir o carro. Clientela em alta. Mudou de casa, comprou bens. Passados 10 anos, acumula dívidas.

— Tinha canal fechado, foi cortado. A internet está cortada há três meses. Se preciso fazer uma consulta, vou ao “cyber”. Estamos tirando o supérfluo — diz o taxista. — O governo Lula foi bom, abriu muitas portas. O primeiro da Dilma também foi positivo. Mas este segundo governo não está dando para aguentar.

Item importante, a luz chegou a ser cortada, mas uma das três filhas pagou a conta. A prova de que a crise chegou, para o paraense de 58 anos, foi o faturamento no mês de outubro, quando Belém recebe o Círio de Nazaré, festa que arrasta milhares de fieis pela cidade.

— Costumava fazer R$ 7 mil em outubro. Consegui R$ 4 mil e pouco no mês passado. As pessoas carregavam a mala na cabeça, iam se arrastando, mas não pegavam táxi.

Denise Cunha Maia, de 53 anos, mulher do taxista, animou-se em 2014 a abrir uma lojinha de roupas, depois de anos de bons negócios como informal, vendendo a amigos e conhecidos. Blusas, calças e vestidos ficaram encalhados. Atualmente, até crédito de recarga de celular ficou estagnado. No final da tarde do último sábado, ela contabilizava dois créditos vendidos, contra uma média de 12 a 15 diariamente num passado não muito distante.

— Cortei manicure, que ia toda semana.

A prioridade de Denise é manter o plano de saúde que, com muito custo, consegue pagar desde 2010, com o aluguel de duas quitinetes no bairro do Tapanã.

Medo de ter que vender veículos

 Agência O Globo 
Paulo Cesar Rodrigues cogita vender o carro ou
 a motocaso não arrume emprego até o fim do ano 

Entre 2010 e 2013, o emprego em uma empresa de cerâmica rendeu um salário que Paulo Cesar Rodrigues, de 27 anos, considerava razoável. Ganhando em torno de R$ 1,2 mil por mês, ele pôde comprar uma casa em Afrânio, no interior de Pernambuco, onde ainda vive com a mulher e os dois filhos. Na sala, recentemente pintada, há sofá, TV a cabo, computador e uma moto vermelha.

A casa foi construída em um tempo em que guardar veículos não era uma necessidade dos moradores da cidade. Como na moto não cabem as duas crianças, Paulo Cesar também comprou um carro. Embora admita que possa ter que vender um dos veículos caso não arrume emprego até o fim do ano, ele espera não ter que se desfazer do que conquistou nos tempos de bonança.

— A coisa vinha vindo bem até 2012, 2013, mas aí foi ficando mais complicado. De uns meses para cá, tudo o que a gente vê é o povo reclamando dos preços das coisas, do desemprego, do governo, de tudo.

O ceramista diz estar insatisfeito com o segundo mandato da presidente Dilma, embora ainda não tenha muita certeza sobre como vai votar nas próximas eleições:

— Lula fez muita coisa no começo, ajudou muito aqui no Nordeste. Mas neste ano, com a Dilma, as coisas estão diferentes. Ela vai ter que arrumar as coisas, ou então vai aparecer um outro que resolva. Mas ruim do jeito que está, não pode ficar.

Sem se desfazer da moto e do carro, o ceramista vai tentar fazer economias e continuar procurando emprego. Mas, ao conversar com colegas que trabalham em outras empresas, tem notado que demissão não é o único problema causado pela crise:

— O que as pessoas dizem é que aumentou o serviço e caiu o salário.

'Coisas têm um preço a cada dia’

Agência O Globo 
Única fonte de renda da família de Antonio Jose de Souza 
são os cerca de R$ 280 que recebem do Bolsa Família  

Nos últimos anos, a pesca e a plantação de grãos deram à família de Antônio José de Souza, de 50 anos, uma casa, telefones celulares com internet, TV com antena parabólica e uma moto, que substituiu o antigo burrinho que o pescador utilizava para buscar água na lagoa de Pavussu, no interior do Piauí. Enquanto o trabalho do patriarca garantia a renda da família, os filhos puderam estudar sem se preocupar com a lavoura.

Em boa parte do Nordeste a crise econômica veio acompanhada de uma seca que já dura pelo menos cinco anos. A lagoa da cidade, considerada uma das maiores do estado, secou completamente há dois meses. Sem chuva, Antônio não consegue plantar nem pescar. Como os produtos agrícolas são poucos, o comércio local está desaquecido e também faltam empregos na construção civil.

Antônio vive na casa que construiu com a mulher, uma filha e dois netos. A única fonte de renda da família são os cerca de R$ 280 que recebem do Bolsa Família. Como o dinheiro do programa chega todo mês, o benefício funciona como fonte de crédito para fazer compras fiado.

Embora viva em uma das cinco cidades que mais dependem do Bolsa Família no Brasil, Antônio se declara insatisfeito com o segundo mandato da presidente Dilma. O pedreiro lembra, porém, que a situação era mais difícil antes dos anos 2000:

— Sempre fui com Dilma. No começo via ela com outros olhos. Ela disse que não ia fazer as coisas de Aécio (Neves), mas está cortando tudo. O salário não aumenta, mas as coisas têm um preço a cada dia.

O pescador pondera que a presidente tem que “fazer alguma coisa”.

Roupa da família lavada na mão

 Jorge William / Agência O Globo
Antonia Cristina Pinheiro da Conceição vive da extração do açaí 

A cultura do açaí, da qual dependem milhares de famílias do país, especialmente no Norte, já teve dias melhores, segundo as populações ribeirinhas. Na comunidade que vive na Ilha do Combu, a poucos quilômetros de barco do porto de Belém, o comentário se repete, com pequenas variações:

— A gente vive do açaí, graças a Deus. Mas tudo aumenta, menos o preço que o batedor quer pagar — reclama Antônia Cristina Pinheiro da Conceição, referindo-se ao atravessador que transforma o fruto sólido em preparo pastoso.

Ribeirinha de 47 anos, que há 8 migrou da Ilha do Marajó para Belém, fugindo da fome e da falta de oportunidades, Antônia viu em coisas triviais, para grande parte da população, os maiores saltos de qualidade de vida que já experimentou. Primeiro a energia elétrica, que chegou há cerca de cinco anos onde mora. Os eletrodomésticos são poucos e antigos. Uma máquina de lavar velha pifou faz alguns meses. Enquanto não sobra dinheiro para consertar, ela lava na mão as roupas da família, que inclui marido, dois filhos que moram no mesmo terreno e netos.

A diminuição da renda, que oscila de menos de R$ 100 na semana a cerca de R$ 200, também levou Antônia a usar mais lenha para cozinhar, do lado de fora da casa feita de madeira em tons vermelho e rosa. O fogão passou a ser ligado apenas para preparos rápidos ou alguma necessidade de higiene do neto de apenas 6 dias de vida.

— O gás está caro demais. A gente tem que garantir o dinheirinho de comprar nossa água para beber e cozinhar, porque essa aqui é suja, só dá pra lavar roupa e limpar a casa — diz ela, apontando para o rio na porta de casa. — O resto, a gente vai se virando.

'Remédio é caro'

 Pedro Kirilos / Agência O Globo
A vida do pedreiro Genivaldo Alves Pereira, de 45 anos, mudou a partir 2010 

A vida do pedreiro Genivaldo Alves Pereira, de 45 anos, mudou muito a partir 2010. Foi nessa época que nasceram seus dois filhos. Construiu sua casa, em um terreno doado pela prefeitura de Petrolina (PE), e comprou os primeiros móveis, parcelados. 

Teve que trabalhar de domingo a domingo na construção civil para alcançar seus objetivos. Não faltava emprego na cidade e, para ele, o esforço alia a pena para dar uma vida melhor para sua mulher e as crianças.

Genivaldo está sem emprego há três meses, e nem bico consegue fazer. Com a crise, até pequenas reformas, que poderiam render R$ 50 por dia, deixaram de aparecer. Na opinião do pedreiro, a situação tende a piorar nos próximos meses:

- Você vai no mercado hoje é um preço; amanhã é outro. Remédio é caro. Você vai no posto e não tem.

Embora não tenha nenhuma fonte de renda e tenha duas crianças pequenas, Genivaldo teve o pedido do Bolsa Família negado. Segundo ele, nunca explicaram o porquê. Talvez daí venha a crítica aos políticos, de uma forma geral:

- Em vez de eles ajudarem a gente a dar um ganha-pão para poder dar para as crianças, ficam só pensando neles, colocam um monte de vereador para ganhar salário alto e não fazer nada.

Atualmente, os gastos da família são pagos com carretos que Genivaldo faz numa carroça amarrada a seu burrinho, que é também o único veículo que possui.

'Bolsa Família ajuda muito'

 Pedro Kirilos / Agência O Globo
Valdimar Miranda, de 49 anos, cria leitões, ovelhas e galinhas 

Quando os leitões, ovelhas e galinhas que o agricultor Valdimar Miranda, de 49 anos, cria não estão no seu quintal, eles ocupam um prédio abandonado na vizinhança. É um posto de saúde que estava sendo construído pelo governo federal em Pavussu, no interior do Piauí. As obras pararam há cinco meses, segundo Valdimar, e o boato na cidade é que só serão retomadas em 2016.

A criação de animais garante o sustento de Valdimar, a mulher e os dois filhos. Manter os animais, no entanto, está cada vez mais difícil. Como o estado enfrenta uma seca há pelo menos cinco anos, os animais não podem comer grãos plantados ali, e o agricultor precisa comprar ração pronta em outra cidade.

A prosperidade de Valdimar foi acompanhada pelo aumento do crédito durante a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A compra e venda de animais a partir de 2006 rendeu casa mobiliada e uma moto para Valdimar. O veículo substituiu a bicicleta e o burrinho, antigos meios de transporte da família.

- Do tempo de Lula para cá as coisas melhoraram. A gente pôde fazer empréstimo. Ia no banco, pegava uns R$ 2 mil emprestado e comprava em cabrito. Dava uns 10 cabritos. Daí criava e vendia por um precinho maior. E assim ia indo.

Na avaliação de Valdimar, o governo de Dilma "não está muito bem", mas tem uma vantagem: a manutenção do Bolsa Família:

- Bolsa Família ajuda muito, mas sozinho não dá para viver. Tem muitos que esperam só o dinheiro do Bolsa Família chegar, mas a maioria não é assim.

'Antes a gente comia filezinho'

 Jorge William / Agência O Globo 
Crise afeta a vida dos brasileiros. Patricia Correa Gonçalves
 e Mayke Correa Gonçalves 

Os tempos de venda via catálogo, como representantes autônomos, muitas vezes rodando o interior, ficaram para trás. Hoje, são os clientes que procuram os irmãos Patrícia e Mayke Correa Gonçalves, de 34 e 32 anos, respectivamente, na loja modesta de pisos e revestimentos que abriram no bairro Jurunas, na periferia de Belém. Depois de um período de bons negócios, eles decidiram formalizar a empresa, em 2012. As vendas bombaram até o início deste ano, quando o faturamento passou a cair de forma inesperada. O jeito foi demitir quatro dos cinco funcionários que tinham. E apertar o cinto em despesas que, até alguns anos atrás, eles nem pensavam em ter.

Antes, conta Patrícia, ela morava com os dois filhos de favor nos fundos do lote da mãe, numa casa de dois cômodos. Agora, no apartamento amplo que construiu em cima do terreno que a família adquiriu para abrir a loja, cada filho tem seu quarto, com televisão. O mais velho passou a fazer inglês. Videogames e viagens, como uma recente a Caldas Novas, em Goiás, tornaram-se possíveis.

Mayke também enumera o que conseguiu nos últimos anos. Além de ter saído do aluguel, pois também construiu seu apartamento em cima da loja, conta como foi importante ter proporcionado para a família acesso à internet, tevê por assinatura. Mudou as crianças de uma “escola particular só que popular para uma bem melhor este ano”. Mas, cauteloso, já começou a fazer cortes.

- Antes a gente comia aquele filezinho, agora não dá mais. Tem que economizar porque as vendas caíram muito, foi impressionante, até agora não sei como explicar - diz ele.

Na casa de Patrícia, os passeios com os filhos também têm sido alvo de ajustes:

- Temos ido ao cinema menos. Não podemos mais ir a tudo. Falo para eles escolherem entre uma programação e outra. Jantar e almoçar fora também passamos a escolher com mais critério.