quinta-feira, março 03, 2016

Ponto Morto

 Vicente Nunes
Correio Braziliense

O rebaixamento duplo do Brasil pela agência de classificação de risco Moody’s foi a pá de cal que faltava para a economia brasileira. Não há mais perspectiva de qualquer recuperação do país neste ano. O consenso é de que o Produto Interno Bruto (PIB) cairá mais de 4% neste ano. Entre 2015 e 2016, o tombo acumulado será de pelo menos 8,3%. Pelos cálculos do economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros, na melhor das hipóteses, o PIB só voltará aos níveis de janeiro de 2014, quando atingiu seu ápice, em 2020. Nunca se viu um retrocesso tão grande do país em tão curto espaço de tempo.

Nem mesmo os mais otimistas assessores de Dilma Rousseff veem perspectiva de reação da economia. Para eles, a percepção que se tem é de que o país está em ponto morto, descendo uma ladeira que não se sabe onde acaba. Tudo está fora da ordem. A crise política só se agrava. A Polícia Federal deve levar mais uma penca de políticos para a cadeia. A situação fiscal é alarmante, com possibilidade de a dívida pública chegar aos 80% do PIB ainda neste ano. O Banco Central perdeu a capacidade de controlar a inflação. Os mais pessimistas falam em carestia de 10% neste ano.

Na opinião de Camila Abdelmalack, economista-chefe da CM Capital Markets, enquanto não houver um desfecho da crise política e da Operação Lava-Jato, não há o menor espaço para recuperação do país. Ela está convencida de que 2017 também será um ano perdido. Tanto que revisará a projeção para o PIB de alta de 1% para queda de ao menos 0,5%. “Para nós, 2016 se tornou um ano morto e nunca 2017 esteve em meio a tantos perigos”, diz. A fatura, como se sabe, recairá sobre a população, com forte queda da renda e disparada do desemprego. Não há como ser diferente.

A perspectiva dos agentes econômicos era de que, com a volta dos trabalhos do Congresso, o país desse um sinal de maturidade política, com as desavenças sendo superadas pela necessidade de se tirar a economia do atoleiro. O que se observa, porém, é um descompasso entre os interesses de deputados e senadores e o que realmente precisa ser feito. O quadro se agrava devido à fragilidade política da presidente da República e à incapacidade dela de dimensionar o tamanho do desarranjo fiscal do Brasil. As medidas que saem do Palácio do Planalto só aprofundam o rombo das contas públicas.

Onda de quebradeira
O pessimismo em relação a 2016 está se agravando diante dos indicadores preliminares de janeiro e fevereiro. Tudo está no fundo do poço. A produção industrial desabou, a ponto de, na média, um terço dos parques produtivos ter sido desligado em janeiro. As vendas do comércio estão no menor nível em 13 anos, por causa, sobretudo, da falta de crédito e da disparada dos juros. É possível que pelo menos 160 mil vagas com carteira assinada tenham sido fechadas no primeiro mês do ano, o que só amplia o risco de aumento de calotes.

Esperava-se que, com a forte alta do dólar entre 2014 e 2015, a indústria começasse a reagir, mas, na avaliação de Camila, nada mudou. As empresas ficaram dependentes demais dos subsídios dados pelo governo. À medida que esse arsenal, que ajudou a destruir as contas públicas, foi sendo desmontado, a produção acelerou o processo de queda. Isso mostra, no entender da economista da CM Capital, que o parque fabril brasileiro está longe de ser competitivo. A complexa estrutura tributária e a infraestrutura em frangalhos engolem qualquer ajuda que possa vir do câmbio.

Para Camila, o que se pode esperar, em vez de reação da produção, é o fechamento de empresas. “Uma onda de quebradeira está por vir”, alerta. É o retrato de uma economia que está em queda livre. O ideal, para conter esse quadro, era que o mundo estivesse em situação melhor. Mas, com a fragilidade dos Estados Unidos e a forte desaceleração da China, não haverá mão amiga que impeça o Brasil de viver a pior recessão em quase 90 anos. “O processo de retração que estamos vivendo levará anos para ser revertido”, adverte.

Em berço esplêndido
A torcida é para que, frente ao desastre que se está vendo, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) agilize a análise do processo que envolve suspeitas de uso de dinheiro da corrupção na Petrobras na campanha de Dilma Rousseff. Um desfecho rápido serviria para diminuir as incertezas quanto ao comando do país. Mas tudo indica que as discussões vão se arrastar por até dois anos, o que servirá para alimentar a crise política e devastar a economia.

É triste ver a que ponto o país chegou. A presidente da República corre o risco de perder o mandato. O governo não tem base política e o principal partido da coalizão, o PT, está disposto a criar mais problemas para o Palácio do Planalto. No Congresso, só se fala sobre qual político será o próximo a ser preso dentro da Lava-Jato. Nada de relevante para o país é aprovado. Já a equipe econômica, que poderia funcionar como um contraponto a tantas mazelas, está sob total descrédito.

Resta à população cobrar, nas ruas, uma mudança brusca desse quadro no qual ela é a grande perdedora. Ficar de braços cruzados, acreditando que, uma hora ou outra, a situação vai melhorar, é contribuir para o pior. Bater panelas durante discursos televisivos de políticos chama a atenção, mas é pouco perto do tamanho dos problemas que estamos enfrentando. Quanto antes os eleitores se movimentarem, menor será o prejuízo, que, ressalte-se, já está em um nível assustador.

Ídolo petista
Os petistas estão caindo de amores pelo primeiro-ministro do Canadá, Justin Trudeau. O fato de ele ter anunciado que o país conviverá com deficit fiscal por pelo menos seis anos para reanimar a economia está soando como música aos que, no partido de Dilma Rousseff, defendem a gastança como antídoto para a recessão.

Insistindo no erro
O Banco Central parece que não aprendeu a lição. Durante o primeiro mandato de Dilma, foi constantemente enganado pelo Ministério da Fazenda de que o país faria um ajuste consistente nas contas públicas. Agora, está avalizando o sistema de banda fiscal, que prevê rombo de até 1% do PIB neste ano.

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