sexta-feira, março 18, 2016

Um prodígio inédito

J. R. Guzzo
Revista EXAME

Não é possível, pela lógica comum, esperar nada de bom no futuro próximo de um país que caminha para completar 15 meses sem governo. Dá para esperar menos ainda quando se considera que, por exigência da lei, alguém tem obrigatoriamente de ocupar o cargo de presidente da República — o que lhe dá a oportunidade diária de tomar decisões erradas, sem que haja a menor chance de fazer alguma coisa certa, mesmo sem querer. Não dá: para profundo azar do Brasil como um todo, quem está na presidência é uma pessoa que erra com obsessão inédita há cinco anos seguidos, não consegue dizer nada que faça o menor nexo quando fala em público e perdeu, claramente, o equilíbrio mental mais rudimentar que se exige para a tarefa de governar seja lá o que for. Ainda pior, enfim, sempre pela mesma lógica, o comandante político que a colocou na cadeira mais elevada do poder público nacional, e sem o qual a atual presidente da República continuaria sendo uma cidadã perfeitamente desconhecida e provavelmente inofensiva, está, ele próprio, destruído moralmente. 

Enrolado de corpo, alma e cabeça com a Justiça penal, o ex-presidente Lula torna-se a cada dia um sério candidato a acabar sendo considerado o responsável pelo governo mais corrupto que o Brasil sofreu em toda a sua história. Muito bem, deu a lógica: está oficialmente confirmado que o país teve uma queda de 3,8% no PIB de 2015, a pior desde 1990. Mais que isso, com a recessão já contratada de 2016, os governos Lula, Dilma Rousseff e PT terão dado ao Brasil a mais longa série anual de retrocesso econômico de toda a sua existência como nação independente.

Dilma, por si só, é a responsável por um prodígio sem precedentes nos registros da economia mundial: sua passagem pela presidência da República já custou 1,6 trilhão de reais de prejuízo ao patrimônio geral do Brasil e dos brasileiros. É isso mesmo. O número chegou e passou a casa do trilhão, um tipo de cifra que só se consegue imaginar nas abstrações da matemática. Trata-se do que os economistas chamam de “prejuízo bruto”, ou a perda pura, simples e direta de riqueza e renda. A conta é simples. O PIB real do país no fim de 2015 deveria estar acima de 7 trilhões de reais, se tivesse havido um crescimento modestíssimo da economia nos cinco anos Dilma. Ficou abaixo do que era no final de 2013, às vésperas de sua segunda vitória na disputa pelo Palácio do Planalto. 

O Brasil está caminhando para inteirar oito trimestres seguidos de recessão, limite a partir do qual o vocabulário econômico começa a utilizar a palavra “depressão”. Nunca antes, na história deste país, alguém conseguiu algo parecido. A dívida pública criada por Lula e Dilma é a maior de todos os tempos, e está aumentando. Em 2015 o governo tirou dos impostos pagos pelos brasileiros mais de 500 bilhões de reais para pagar juros de sua dívida — e pagar aos “rentistas” tão odiados no palavrório oficial. Chama o que está devendo de “programa social”; na vida prática é apenas a mais espetacular transferência de renda que o Brasil já conheceu. A inflação chegou perto dos 11% ao ano. O desemprego, pelas contas de janeiro, estava rolando na base dos 100.000 demitidos por mês. Aí já é extermínio — ou, talvez, mais corretamente, anarquia, como mencionado no início da página. Dobramos a meta.

Os últimos acontecimentos políticos tornam tudo isso ainda mais funesto. O ex-presidente Lula, depois de ser levado pela polícia para um interrogatório, parece ter desistido de enfrentar seus atuais e crescentes infortúnios valendo-se da lei, como têm feito todos os acusados de corrupção pela Operação Lava Jato. Resolveu, pelo menos de boca, declarar guerra à democracia ao se recusar a obedecer as decisões da Justiça brasileira, chamar suas milícias para a violência na rua e ofender, com o linguajar de sarjeta mais agressivo que jamais tinha utilizado em público até hoje, autoridades legais, adversários e qualquer brasileiro que não se submeta a ele. A lógica disso tudo é muito ruim.

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