domingo, abril 17, 2016

A economia sem Dilma

Fabíola Perez e Helena Borges
Revista ISTOÉ

Queda do dólar, retomada de investimentos e redução do desemprego são alguns dos efeitos positivos que podem surgir com o novo governo

Nas últimas semanas, foi possível identificar os efeitos positivos que a saída da presidente Dilma Rousseff provocará na economia. Sempre que o impeachment se tornava uma possibilidade real, o dólar caía, as ações da Bolsa de Valores se valorizaram e uma onda de otimismo impregnava diversos setores da sociedade. Com o afastamento definitivo de Dilma, os especialistas apostam em resultados ainda mais significativos. Um estudo da gestora de recursos Mauá Capital concluiu que, com um novo presidente, o dólar cairá de R$ 3,50 para R$ 3 até o final do ano e a Bovespa subirá dos atuais 50 mil para 60 mil pontos. Isso, porém, é apenas uma pequena indicação das mudanças que podem ser desencadeadas. “A saída de Dilma fará aumentar a estabilidade, já que a matriz econômica que ela vinha seguindo é repleta de equívocos”, diz João Luiz Mascolo, economista do Insper. “A simples troca de governo vai gerar um entusiasmo inicial.”


O fôlego da economia depende essencialmente da confiança da sociedade. Quando as pessoas deixam de acreditar em um governo, elas adiam investimentos, cancelam projetos e mergulham em um estado de paralisia difícil de reverter. Se este governo está às voltas com escândalos de corrupção, é ainda mais complexo sair do fundo poço. Na maioria das vezes, só uma ruptura – um novo presidente – pode virar o jogo e recuperar a credibilidade perdida. “O ponto de partida é muito delicado”, afirma Maria Cristina Mendonça de Barros, economista da MB Associados. “O resultado fiscal nesse início de ano foi bastante perverso, houve uma piora crescente.” A lista de arranjos para desafogar os indicadores econômicos é extensa, mas especialistas concordam que a primeira meta após o impeachment deveria ser alcançar o superávit fiscal. Ou seja, o governo precisa gastar menos do que arrecada – e lançar medidas, por mais dolorosas que sejam, para fazer o País andar.

O grande desafio do crescimento econômico é estimular uma espiral de investimentos. Quanto mais capital aplicado, mais empregos surgirão, a produtividade das empresas aumenta e novos negócios vão aparecer naturalmente. Países como Chile e Coreia do Sul mantém o nível de investimento em 30% do PIB. No Brasil, o índice atual está em 18%. Sob Lula e Dilma, houve apenas um estímulo ao consumo das famílias, sem mudanças estruturais. “Dilma tentou repetir as fórmulas de incentivo, incorreu num equívoco fiscal e acabou com as contas públicas”, diz Mascolo. Com isso, a economia foi tomada pela inércia e estagnação gradual de diversos setores. Segundo economistas, o afastamento de Dilma abriria espaço para um equilíbrio fiscal. O professor de finanças do Ibmec do Rio de Janeiro, Gilberto Fraga, acredita que, com o impeachment, a inflação voltará ao patamar de 6% a 6,5% até o final do ano. A taxa de desemprego, estimada hoje em 11%, poderia cair para 9%. “Haverá uma movimentação na contratação de mão de obra, o que nos fará começar 2017 com a economia um pouco melhor”, afirma ele. Um dos pilares de um novo modelo de desenvolvimento passaria pelo incentivo aos micro e pequenos empresários. “Um país com alta taxa de juros e sem chances para empresários não consegue prosperar”, afirma Istvan Kaszan, professor da Escola Brasileira de Administração Pública da Fundação Getúlio Vargas (FGV).


DESEMPREGO 
Trabalhadores esperam horas para se candidatar às vagas de emprego 
em São Paulo. Após o impeachment, projeções apontam para a redução na taxa 

Com a saída de Dilma, o PIB poderia recuperar pelo menos um ponto percentual ainda em 2016. Apesar dos primeiros indicadores positivos, economistas afirmam que a evolução será obviamente gradual, uma vez que as perdas bateram recordes históricos – e ainda não atingiram um nível de estabilidade. O consumo das famílias, por exemplo, seguirá em queda até o ano que vem. A renda familiar só voltará a subir em 2018 e 2019. Projeções estimam que a renda per capita brasileira só chegará ao patamar alcançado em 2014 daqui a 10 anos. Ou seja, o legado do governo Dilma será uma década perdida. Para se ter uma ideia do tamanho do estrago, até 2017 cerca de 10 milhões de pessoas devem voltar às classes D e E, anulando as conquistas sociais dos últimos anos. “Até quem perdeu o emprego e usou o dinheiro do FGTS para montar um pequeno negócio está com dificuldade, porque ninguém compra”, afirma Cimar Azeredo, Coordenador de Trabalho e Rendimento do IBGE. “Isso gera uma dívida maior ainda, porque todo o investimento foi direcionado a uma aposta.”

A crise afetou tanto pequenos empresários quanto gigantes do setor industrial. Com quedas na produção, há expectativa de mais falências para o restante do ano. “A população precisa entender que o crescimento não virá facilmente”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados. “Aumentar a produtividade de um país é um trabalho para décadas.” Apesar da turbulência política e econômica, um importante aspecto deverá sair fortalecido com o afastamento de Dilma: a transparência na gestão pública. “A sociedade está descobrindo quais são os custos sociais e os impactos da corrupção”, diz Maria Cristina da MB Associados. “A partir de agora, teremos um Estado com mais responsabilidade.”


“Vivemos uma década perdida”
Ex-aliado de Lula, o empresário Lawrence Pih
fala de sua desilusão com o receituário petista


ISTOÉ – O impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT) ajudaria a resolver a crise econômica nacional?
Lawrence Pih – Daria uma injeção de ânimo, mas a questão é tão complexa que, sozinho, o afastamento da presidente não vai resolver. São necessárias mudanças profundas.

ISTOÉ – Que mudanças?
Pih – Reformas política, tributária, trabalhista e previdenciária. Isso é impossível hoje. As questões políticas são tão amplas que, se começarmos hoje, levaríamos 50 anos para colocar tudo nos trilhos.

ISTOÉ – A última década está perdida?
Pih – Certamente. Só será possível recuperar o PIB de 2014 por volta de 2024.

ISTOÉ – Quais são os principais equívocos do governo?
Pih – O projeto de uma nova matriz econômica é um modelo bastante populista, uma grande irresponsabilidade. O político dá benefícios ao povo e consegue se reeleger. Demorei a notar isso e dou a mão à palmatória.

ISTOÉ – Como fazer a mudança?
Pih – Para arrumar a economia, é preciso pagar o preço necessário. Tem muitos interesses que estão enraizados no nosso sistema.

ISTOÉ – O que está errado?
Pih – O Brasil tem um modelo patrimonialista há séculos. Os políticos buscam o poder por interesses próprios. Nas eleições que levaram Lula à presidência, acreditei que haveria uma mudança radical. Não houve.

Foto: Diego Padgurschi/Folhapress 

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