domingo, abril 24, 2016

As ‘verdades’ ditas por Dilma estão pela metade

Míriam Leitão
O Globo


A jornalistas estrangeiros, a presidente disse ser vítima de "meias verdades", e deu sua versão sobre vários assuntos. Nessa descrição, o processo de impeachment, por exemplo, é um golpe. Ao repetir isso a exaustão, a todo o momento, para veículos estrangeiros, Dilma coloca toda a democracia brasileira sob suspeição.

Na explicação sobre o que seria o "golpe", ela diz que não cometeu crime de responsabilidade. Na realidade, o julgamento ainda vai ocorrer no Senado. Até agora, a Câmara apenas autorizou o processo contra a presidente. São os senadores que vão julgá-la, em sessão comandada pelo presidente do STF. Na versão da presidente, é um golpe porque ela não cometeu crime; as pedaladas teriam sido apenas um problema contábil. A verdade inteira é que a Lei de Responsabilidade Fiscal foi desrespeitada. O artigo 36 proíbe empréstimos com bancos públicos e a tomada de financiamento com qualquer banco em ano eleitoral; Dilma não respeitou essas regras. Se isso foi crime de responsabilidade, o Senado vai dizer. 

Eduardo Cunha não poderia comandar o rito na Câmara, nisso ela tem razão. Sendo réu em processo de corrupção, ele não deveria ser presidente da casa. É verdadeiramente uma distorção do sistema político brasileiro que precisa ser resolvida o quanto antes. O que Dilma se esqueceu de dizer é que Cunha fazia parte da base. Ela cita jornais para dizer que ele iniciou a análise do pedido de impeachment por revanche. A decisão do presidente da Câmara veio após uma briga dentro da coalizão, quando o PT deixou de apoiá-lo no processo no Conselho de Ética da Câmara.  

Dilma trata Michel Temer como aquele que não tem voto e quer assumir a presidência. O vice estava na chapa vencedora, levou votos do PMDB para a candidatura. E é a Constituição que determina que, no caso de impedimento da presidente, o vice assumirá o cargo.

Realmente, foi lamentável o pronunciamento do deputado federal Jair Bolsonaro — que não teve o nome citado pela presidente — durante seu voto. Ele exaltou os crimes hediondos do coronel Brilhante Ulstra, já falecido e nunca punido. O deputado citou o nome de um torturador, envolvido na morte de 40 pessoas. Mas Dilma tenta confundir ao tratar a apologia à tortura feita por Bolsonaro com a expressão dos votos a favor do impeachment na Câmara.  

Na coletiva, a presidente voltou a repetir que um novo governo cortaria gastos sociais. Na verdade, os erros na economia cometidos por Dilma é que colocam em risco os programas sociais, porque deixaram as contas públicas desequilibradas.

Disse que a crise foi uma surpresa. O repórter contou uma conversa que teve com um taxista, eleitor de Dilma e que se sentia enganado. A presidente disse que pode apresentar outros eleitores que pensam diferente. A crise, na versão de Dilma, não foi prevista por ninguém. Ela falou sobre o setor de energia. A verdade é que inúmeros especialistas alertavam para os problemas que estão na origem do tarifaço de 2015. Não foi apenas a seca; erros de gestão, como o corte no preço da energia em 2012, levaram à crise. Os desequilíbrios do setor de energia já estavam postos em 2014, mas o governo não tomou providências antes das eleições.   

Dilma acha que está sendo vítima de machismo. É claro que o machismo é um problema no Brasil, mas esse caso não tem a ver com o processo de impeachment.

A presidente repetiu que foi o governo dela e o de Lula que permitiram as investigações contra a corrupção. Na realidade, porém, a autonomia do Ministério Público está prevista na Constituição.   

Dilma continua sem admitir os erros de seu governo. Durante a coletiva, se colocou na condição de vítima de um golpe. Mas a verdade completa é que o STF está ditando o rito, o Congresso está ouvindo a defesa do governo e a imprensa está acompanhando, como acontece em uma democracia.

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