domingo, abril 24, 2016

Dilma retoma tese de golpe e sugere que Temer não tem legitimidade

Anna Virginia Balloussier e Marcelo Ninio
Folha de São Paulo


Mark Lennihan/Associated Press 
A presidente Dilma Rousseff discursa durante cerimônia
de assinatura do Pacto de Paris, na ONU

Após evitar falar em "golpe" em seu discurso à ONU, a presidente Dilma Rousseff voltou a usar o termo em entrevista à imprensa brasileira em Nova York.

"Me dizer que não é golpe é tampar o sol com a peneira", declarou.

Ela afirmou que, caso haja quebra democrática no país, quer que o Mercosul e a Unasul analisem imediatamente o processo de impeachment, invocando a cláusula democrática, ferramenta para suspender um país-membro do bloco comercial.

Sobre a possibilidade de antecipação da eleição presidencial, ela disse apenas que essa saída "não é golpista".

"Não sou contra eleições de maneira alguma. Mas uma coisa é eleição direta com voto secreto e povo brasileiro participando", afirmou a presidente, insinuando que o impeachment seria algo como uma eleição indireta.

Dilma disse que tem o direito de "defender meu mandato" e sugeriu que o vice-presidente, Michel Temer, não tem legitimidade para assumir o Planalto. "Pessoas ilegítimas que não tiveram um voto" querem "assumir o destino do país", afirmou.

A presidente, que deu entrevista na residência do ex-chanceler Antonio Patriota, atual representante do Brasil na ONU, afirmou que se sente injustiçada.

"Eu me julgo uma vítima e estou sendo injustiçada. E sou presidente da República. Isso é muito grave. Se há injustiça contra o presidente da República, se eu me sinto vítima de um processo ilegal, golpista e conspirador, o que dizer da população do Brasil quando seus direitos forem afetados? A garantia do meu direito não é garantia minha pessoal. É a garantia de que no Brasil a lei vai se sobrepor a qualquer interesse pessoal ou político. E a lei é clara. A lei e a Constituição. A lei diz: o impeachment é previsto na nossa Constituição, mas diz que para ter impeachment tem de haver crime de responsabilidade."

Na porta, dois grupos protestavam, um contra e outro a favor do impeachment.

Os que defendiam Dilma carregavam flores. Uma manifestante usava máscara do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), enquanto balançava maços de dólar.

A ala pró-destituição contava com Kim Kataguiri e Renan Santos, líderes do Movimento Brasil Livre.

Dilma comentou também o efeito da crise política em sua família. "Acredito que ela está sofrendo muito. Imagina como estaria a sua família sofrendo. Não posso falar porque dói, dói muito." 

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