domingo, abril 17, 2016

O País que queremos

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Vivemos uma situação terrível, misturada à expectativa de que talvez o Brasil saia disso um país melhor. Até mesmo os governistas, que têm poucas chances amanhã na Câmara dos Deputados, esperam que a atual gestão se reinvente caso o pedido de admissibilidade do impeachment da presidente Dilma Rousseff seja derrubado e ela ganhe fôlego no Planalto. É imensamente maior a chance de que o pedido passe e o vice-presidente Michel Temer comece logo a formar um novo gabinete ministerial para ser empossado antes da metade de maio.

Há uma discussão muito importante, porém, que precisa envolver mais gente, e sempre é deixada de lado: o Brasil que queremos ter. Faltou muito disso na campanha eleitoral de 2014. Governo e oposição evitaram fazer uma discussão séria dos problemas para não desagradar ao eleitor. O resultado foi esse quadro terrível em que mergulhamos. É algo frequente em nossa história evitarmos encarar os problemas e enfrentarmos uma situação ainda pior depois, por conta do adiamento. O debate só será possível com serenidade, portanto, será preciso, antes, superar o ódio que só cresce no país desde o momento em que as urnas do segundo turno da eleição foram abertas.

Fazer o projeto desse Brasil dos sonhos é fácil: sem corrupção, sem poluição e sem violência, com educação e saúde gratuitas e universais, melhor infraestrutura, emprego e estabilidade do poder de compra e meio ambiente preservado. O crescimento econômico não é uma meta em si, é algo necessário para chegar a esse quadro ainda tão longínquo. A grande questão é a outra lista, a dos sacrifícios que estamos ou não dispostos a fazer. Crescer significa ter um monte de gente trabalhando mais, seja em número de horas ou em eficiência — de preferência as duas coisas. Até aí, está tudo tranquilo, está fávorável. O problema é que, em geral, achamos que quem tem de se esforçar mais são os outros.

Estamos dispostos a trabalhar um período maior antes da aposentadoria para garantir o crescimento? Talvez não. Nesse caso, teremos de encarar um país mais pobre para nós e para nossos filhos e netos. O argumento de que o dinheiro pode sobrar se acabar com os desvios de dinheiro público não vale. Se a corrupção continuar nos níveis atuais, tudo será mais difícil. Mas, reduzida, os problemas não se resolvem.

Ouvir antes e falar depois 
Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e um dos maiores economistas heterodoxos do mundo, faz uma crítica muito consistente aos colegas ortodoxos. “Eles acham que o pessoal dos sindicatos, das ruas, tem de entender que a reforma da Previdência é indispensável. Talvez estejam certos. Mas isso tem de ser demonstrado às pessoas. Não adianta economistas acharem que é um absurdo não saberem.”

É preciso, portanto, discussão, humildade e aprendizado de todos os lados. Talvez a escolha do país seja continuar se aposentando cedo. Para um amigo, o sonho da aposentadoria é um valor forte para os brasileiros. Todo mundo começa a trabalhar pensando no dia em que vai parar. É algo, portanto, tão forte quanto o sonho americano. Nos Estados Unidos, quase todo mundo quer carro novo, casa própria com quintal grande e filhos com diploma universitário. A certeza é de que será necessário ralar muito para conseguir isso.

Escolhas 
Se o Estado tiver de financiar as aposentadorias, como já faz hoje, não podemos esperar que faça as outras coisas, ou pelo menos não todas elas. Temos dificuldade de aceitar essa limitação. Isso é causa de outra de nossas mazelas: a inflação. Duas décadas depois do Plano Real, nossa taxa ainda é muito alta para padrões mundiais. Uma das razões disso é que o governo gasta mais do que arrecada. Para que a carestia não seja ainda mais terrível do que já é, temos de encarar juros muito acima do que se vê em outros países. Se quisermos que as empresas paguem menos pelo crédito, e assim façam investimentos, temos de aceitar gastos públicos inferiores aos atuais.

Ser cético quanto às chances de essa discussão prosperar é justo. Mais difícil ainda é que ela possa influenciar o novo governo que está em vias de se formar. Mas o debate precisa começar um dia, e talvez assim influenciará algum presidente. Como a campanha de 2018 será longa — já começou —, talvez seja essa uma oportunidade.

Depende do presidente 
O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB) disse ontem que sua permanência no cargo depende “do presidente”. Falou assim, no masculino. São ínfimas as chances de Braga ficar no cargo, porém, em um governo Temer, afinal, ele ignorou a decisão do partido de desembarcar da administração de Dilma. Além disso, ele reforçou suas críticas ao impeachment, que considera político, não jurídico. Braga comentou o leilão de transmissão de energia realizado nesta semana, que teve apenas 61% dos investimentos contratados. Para o ministro, o resultado é um sucesso no quadro político atual, de insegurança. O ministro também fez um balanço dos 16 meses no cargo, e destacou que o setor está muito melhor do que antes. Ele falou com jornalistas no prédio da Eletronorte, já que o acesso à Esplanada estava difícil.

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