domingo, abril 24, 2016

Só mais uma consequência do Brasil arcaico: sua internet será reduzida

Filipe Vilicic 
Veja online



A notícia, em si, já não é nova, e tomou os trending topics das redes sociais nos últimos dias (no Twitter, #ForaInternetLimitada chegou a liderar dentre as hashtags): sim, operadoras de telefonia e internet, como a Net e a Vivo, limitarão a quantidade de consumo de dados da conexão fixa, seja a de sua casa, ou a de seu trabalho. Na prática, podem acabar (ou encarecer) as maratonas no Netflix, ou a jogatina de games online ou, simplesmente, o ato de passar horas conectado. Com um plano de internet de 10 GB de consumo por mês, por exemplo, só será possível assistir a uns 10 episódios de House of Cards. Passou disso? Ou a rede é cortada, ou tem sua velocidade diminuída ou é preciso pagar mais. Esse é o plano estratégico que a maioria das operadoras quer implementar a partir do ano que vem. E como isso afeta o consumidor? Parece que não estão muito aí pra isso.

O principal efeito econômico da medida, porém, não será sentido no âmbito familiar. Mas, sim, em empresas, em escolas, em órgãos públicos. Se não houver uma opção acessível de plano ilimitado de web, um empreendedor terá de investir muito mais de seu bolso para manter a velocidade de sua conexão e continuar a utilizá-la. Isso pode inviabilizar, por exemplo, novos negócios, como o surgimento de startups (que costumam ter início com aportes modestos de investimento).

Indo além, tente imaginar como será a situação em uma escola, pública ou privada. Será que terá orçamento para garantir computadores e tablets conectados aos alunos? Ou será imposto um retrocesso, no qual a internet estará disponível tão-somente em uma sala, por meio de um punhado de computadores (ao menos é nostálgico, vai parecer os anos 90). Se for o caso, isso não limitará o “acesso” a outro elemento fundamental, a educação? Mais que isso, a artimanha das operadoras pode acabar por alargar ainda mais a distância entre ricos (capazes de pagar pela internet rápida, e pelo ensino que dela provém) e pobres (que não conseguirão arcar com o serviço).

O Brasil parece não conseguir sair de sua condição arcaica, de país que gosta de estar e viver sempre a alguns passos das nações desenvolvidas. Há quem justifique que em outros lugares, como nos Estados Unidos, também há fronteira para os planos de internet. Só que não contam que existem também opções de consumo ilimitado (estuda-se ter o mesmo no Brasil, ao menos) e que os planos, sejam quais forem eles, são bem mais baratos.

Operadoras – e a Anatel, órgão cujo papel teórico é regular o setor, protegendo o consumidor – ainda justificam essa medida, ao dizer que está inviável manter o atual fluxo de dados da rede, cada vez mais congestionada por serviços de streaming, a exemplo do Netflix e do YouTube. Será que a melhor medida é cobrar isso do bolso do consumidor? Ou não existiria uma alternativa, como impor às empresas do setor um investimento maior em infraestrutura – até para aprimorar a atual conexão precária brasileira, como apontei nesse post anterior? Ou ainda rachar o custo dessa melhoria com o próprio Netflix, como se estuda fazer em países desenvolvidos?

Na questão, ainda pesa outro ponto. Por trás de todas essas justificativas salta aos olhos que a guerra das operadoras contra os serviços de streaming ultrapassa esta discussão. Ocorre que as primeiras, a exemplo da Net, também são donas de TVs a cabo. Nos últimos anos, elas têm reclamado que perderam assinantes, que migraram para opções de streaming, em especial, para o Netflix. Nesse tempo, tentam prejudicar o novo rival de diversas formas, como realizando lobby em Brasília para a aprovação de taxas mais pesadas para o serviço concorrente. Limitar a internet de casa seria, também, uma forma de prejudicar o Netflix – e, com isso, todos os seus assinantes.

É triste notar que, neste país, quando surge uma inovação disruptora, a primeira reação de quem ficou para trás é tentar expulsar a novidade. Se chega o Netflix, TVs por assinatura procuram taxá-lo ou torná-lo inviável ao consumidor, em vez de criar alternativas capazes de fazer frente ao “inimigo”. Se o Uber desembarca em São Paulo, taxistas clamam por sua proibição imediata, no lugar de se adequarem, melhorarem seu trabalho, e assim concorrerem honestamente. Aposto que se inventarem um software de inteligência artificial capaz de triplicar a produção em fábricas, tentarão impedi-lo no Brasil, pela justificativa de que isso afetaria fabricantes de, digamos, parafusos.

Quem quer combater a inovação com essas armas pensa apenas no próprio umbigo. Não está aí para como o Brasil continuará atrasado, defasado, sucateado, se resistir às novas tecnologias.

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