domingo, maio 22, 2016

A prisão perpétua imposta ao ex-capitão do time exige a reprise dos vídeos estrelados por José Dirceu e Lula

Augusto Nunes
Veja online

'Feliz o país que tem um político da magnitude do Zé Dirceu', disse o presidente em 2005. 'Não há provas contra mim', jurou em 2010 o ex-ministro que hoje se qualifica de 'cadeieiro'

A condenação de José Dirceu a 23 anos de prisão, agora por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e organização criminosa, exige a reprise de dois vídeos que reaparecem com frequência nas redes sociais. Ambos reproduzem trechos do programa Roda Viva. No primeiro, o colunista contracena com o então presidente Lula no Palácio do Planalto. No segundo, contesta invencionices do ex-chefe da Casa Civil acusado de chefe de quadrilha no processo do Mensalão, ainda à espera de julgamento no Supremo Tribunal Federal.





“Feliz o país que tem um político da magnitude do Zé Dirceu”, diz Lula na entrevista gravada em 7 de novembro de 2005. Pergunto se toparia ser testemunha de defesa do companheiro que fora atropelado pela devassa do escândalo do Mensalão, perdera o cargo de ministro em julho e, em 1° de dezembro, teria cassado o mandato de deputado federal. “Eu sou”, respondeu Lula. “Qual é a prova contra o Zé Dirceu?”

Nos minutos seguintes, sempre à beira do grau de combustão, o presidente capricha em acrobacias retóricas para deixar muito claro que não sabe de nada, não tem nada com isso, nunca ouvira sequer rumores sobre as bandalheiras que ocorriam a poucos palmos do próprio nariz.. O desfile de falácias chega ao clímax com o assassinato da verdade consumado pela frase famosa: “O Mensalão não existiu”.

Se não existiu, Dirceu nada fez de errado. Um inocente foi engaiolado pelo STF que acreditou em crimes inexistentes. De novo, a oposição tapeou a Justiça. A bordo de tais imposturas, o guerrilheiro de festim ergueu o braço esquerdo e cerrou o punho como convém a um “guerreiro do povo brasileiro” ─ como berravam na porta da Papuda os soldados sem comandante. Lula não visitou no presídio o ex-capitão do time do Planalto. E nunca mais aceitou dar as caras no Roda Viva.



“Não há nenhuma acusação contra mim”, reincide José Dirceu no trecho do Roda Viva exibido em 1° de novembro de 2010. Digo que há, sim, e menciono algumas. Mas não há provas, teima o entrevistado, repreendendo os integrantes da bancada por não terem lido o processo. Por motivos insondáveis, o confronto entre fato e fantasia foi transformado por milicianos do PT num dos grandes momentos do combatente que nunca soube a diferença entre gatilho e culatra.

O Dirceu acabou com o jornalista tucanalha, berraram meses a fio os patrulheiros em ação na internet. A maluquice foi implodida pela hospedagem indesejada na Papuda e reduzido a pó em agosto de 2015: quando cumpria o restante da pena em liberdade, o delinquente sem remédio foi capturado pela Operação Lava Jato e transferido para República de Curitiba. Desta vez Lula nem abriu o bico. Desta vez não apareceram os órfãos do guerreiro do povo brasileiro.

“Vou ficar aqui uns sete ou oito meses”, previu Dirceu. “Se for condenado, passo mais uns cinco anos preso e depois vou pra casa. Tá tudo bem: eu sou cadeieiro mesmo”. Um monumental erro de cálculo, constatou-se nesta quarta-feira. Para um homem de 70 anos, a pena de 23 anos de reclusão é o outro nome da prisão perpétua.

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