quinta-feira, maio 26, 2016

Cartas de Berlim: Pra que TV pública?

Albert Steinberger
Blog do Noblat

A diversidade da mídia alemã garante que a vida aqui seja analisada por pontos de vista diversos


(Foto: Divulgação)
 Estúdio do telejornal Tageschau 

Ao se mudar para Alemanha, uma das primeiras correspondências que você recebe é a da “Rundfunkbeitrag”, uma taxa para Rádio e TV públicos. Por aqui, todos são obrigados a contribuir com um pagamento mensal de 17,98 euros por mês. Os recursos são administrados pelas próprias redes públicas. Tem quem reclame da taxa, mas a cobrança tem um papel importante.

A ideia é garantir a independência financeira do meios de comunicação públicos e uma linha editorial, de fato, independente. Diferente dos veículos estatais, que dependem de repasses do governo e, por isso, ficam am mercê das mudanças de humor e cores partidárias de quem está no poder.

As televisões e rádios públicas daqui são instituições alemãs consolidadas e contam com duas redes principais: o canal 1, ARD, e o canal 2, ZDF. Os dois competem entre si, mas são pensados para serem complementares. Enquanto, a ZDF tem uma administração central e nacional com sede na cidade de Mainz, a ARD é uma rede de emissoras regionais que tem como foco fortalecer a produção local de conteúdo e evitar uma concentração, como acontece no Brasil, no eixo Rio-São Paulo.

Ao todo, nove emissoras participam da ARD e dividem o trabalho de âmbito nacional. Por exemplo, o “Tageschau”, que seria o equivalente ao Jornal Nacional daqui, é sempre transmitido de Hamburgo pela NDR, já o “Morgen Magazin”, algo como o Bom Dia Brasil, fica em Colônia a cargo da WDR.

Até a rede de correspondentes deles é dividida entre as emissoras regionais. Por exemplo, o correspondente de rádio da América Latina, incluindo Brasil, fica a cargo da BR de Munique.

O resultado é que a paisagem da mídia por aqui é bastante equilibrada. No mercado de TV, os canais públicos lideram os índices de audiência, mas seguidos de perto por emissoras privadas. Não existe uma grande concentração. E o mais importante cada notícia pode ser vista por uma variedade de pontos de vista.

A diferença para o modelo brasileiro fica muito clara, quando entramos na esfera privada. A mídia do Brasil costuma cumprir bem o seu papel ao acompanhar o passos do governo, mas tem um olhar limitado sobre o funcionamento das empresas. Existe nas redações brasileiras uma cultura de não se falar sobre empresas privadas, porque se fala-se bem é uma publicidade gratuita e se fala-se mal existe o risco de perder um anunciante. Para os meios públicos, os anunciantes não importam.

Casos de corrupção são um bom exemplo. No Brasil, o foco da mídia se concentra excessivamente no governo e raramente no corruptor ativo das empresas. Já aqui na Alemanha, o maior caso de corrupção deste ano aconteceu com o escândalo da maquiagem das emissões de CO2 dos carros a diesel da Volkswagen.

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