quinta-feira, maio 26, 2016

Com verba escassa para reforma e até manutenção, prédios da UFRJ se deterioram

Ludmilla De Lima 
O Globo

Só para iniciar as obras emergenciais, a instituição precisaria de R$ 25 milhões a mais no orçamento, conforme cálculos do reitor Roberto Leher

 Fernando Lemos / Agência O Globo
A Capela São Pedro de Alcântara, na Praia Vermelha

RIO - Daqui a dois anos, o Museu Nacional completa 200 anos. Como presente de aniversário, a reitoria da UFRJ pretende entregar à população o palácio, que foi residência de dom João VI, dom Pedro I e dom Pedro II, totalmente restaurado. Transformar o desejo em realidade, no entanto, é o X da questão. Com um orçamento de cerca de R$ 460 milhões este ano para manutenção e investimento na universidade, que ainda convive com o fantasma dos cortes, não só é difícil preservar seu patrimônio, como fazer o mínimo: conservar os edifícios, em especial os históricos. A UFRJ, mais antiga universidade do país, conta com 12 conjuntos tombados, como mostra o livro “Conservação e reativação do patrimônio arquitetônico universitário”, lançado mês passado. Só para iniciar as obras emergenciais de que todos eles necessitam, a instituição precisaria de R$ 25 milhões a mais no orçamento, conforme cálculos do reitor Roberto Leher.

Nesses edifícios, funcionam um quarto das unidades acadêmicas e a administração central. Alguns estão em estado crítico, como a Capela São Pedro de Alcântara, dentro do Palácio Universitário, na Praia Vermelha, inaugurado em 1852 e tombado pelo Iphan. Em março de 2011, a igrejinha foi consumida por um incêndio. Até hoje, a restauração não saiu.

As edificações da UFRJ perpassam três séculos. Os organizadores do livro — Andréa Borde, coordenadora do Laboratório de Patrimônio Cultural e Cidades Contemporâneas, do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da instituição, e Paulo Bellinha, vice-diretor do Escritório Técnico da Universidade (ETU) — dividem as construções tombadas e as com potencial de tombamento em três grupos: as grandes estruturas do século XIX; as pequenas estruturas dos séculos XIX e XX; e as grandes estruturas do século XX.

PROJETO SE ARRASTA DESDE 2004
Na primeira lista, estão o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), primeira construção erguida no país a partir de 1812 para abrigar disciplinas hoje de nível superior (a Academia Real Militar, base do ensino de engenharia no país), no Largo de São Francisco; o Museu Nacional; o Palácio Universitário e o prédio do atual Instituto de Atenção à Saúde São Francisco de Assis, inaugurado em 1879, na Cidade Nova. Todos são tombados pelo Iphan.

Dos prédios mais antigos, o Palácio Universitário e o São Francisco de Assis passam por uma lenta recuperação, que tenta ultrapassar as barreiras da burocracia e da falta de recursos. No caso do palácio, as discussões sobre o projeto para telhados, em situação precária, e fachadas começaram em 2004, depois de 50 anos da última reforma. Somente em 2010, conseguiu-se a verba e as obras foram iniciadas, mas logo depois ocorreu o incêndio. No fim do ano passado, os trabalhos foram retomados. Até agora, dos 14 blocos de telhados, três foram concluídos. O projeto, de R$ 17 milhões, é custeado com verba da própria universidade, que, de 2014 para cá, teve cerca de R$ 140 milhões do seu orçamento contingenciados pelo governo federal.

Fernando Lemos / Agência O Globo
O prédio da antiga Escola de Eletrotécnica, no Centro 

— Nosso esforço inicial é recuperar telhados, fachadas e a infraestrutura elétrica desses prédios. Temos um lindo teatro na Escola de Música (no Passeio), mas é inviável mantê-lo com concertos sem ar-condicionado — diz Leher, que vem propondo ao Ministério da Educação e debatendo com outros reitores a criação de um fundo fora da matriz da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, de financiamento das universidades federais, para preservação do patrimônio histórico, por meio de chamadas públicas para projetos.

Se a ideia for para frente, o plano da UFRJ é, em dez anos, recuperar de forma ampla os prédios tombados.

— Esse patrimônio não é da UFRJ, é do país. O Museu Nacional é uma instituição que está na origem da própria ciência no Brasil — critica o reitor, que busca no BNDES verbas para o restauro do museu, um projeto de R$ 11 milhões.

A dívida atual da universidade com fornecedores chega a R$ 120 milhões.

O segundo grupo de imóveis históricos inclui edifícios como os da Faculdade de Direito, do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, da antiga Escola de Eletrotécnica (cedido ao Iphan) e da Escola de Música. No último, por exemplo, são necessários trabalhos como as reformas da parte elétrica (incapaz de sustentar um sistema de refrigeração na sala de concertos) e de murais (como o de Ivan de Freitas na parede externa voltada para a Lapa). Há um ano, foi iniciada, com recursos próprios (R$ 1,5 milhão), a obra nos telhados e na fachada do edifício das salas de aula.

Já o terceiro grupo inclui dois edifícios modernos, não tombados, dentro da Cidade Universitária, ambos projetos premiados, de autoria do arquiteto Jorge Moreira. Um é a sede do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira e o outro é o da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Os dois estão em mau estado de conservação.

Apesar dos problemas, Andréa Borde defende o tombamento dos edifícios, que ainda não foi pedido aos órgãos oficiais. Aliás, nenhum edifício do Fundão é preservado.

— Esses são bens que, sem salvaguarda, correm risco — afirma a professora.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

A reportagem comprova que não é preciso existir um “Ministério da Cultura”para tenhamos um PROJETO CULTURAL digno do nome. Durante treze anos, os governos petistas mantiveram um Ministério da Cultura estruturado para nada, ou melhor, apenas para servir de cabide de emprego para os empregos, além de repartir verbas públicas para uma elite artística. 

E, mesmo assim, não conseguiu utilizar sequer 50% da verba destinada, e do que gastou, quase metade foi consumida com os marmanjos aboletados com salários nababescos. Portanto, esta desculpa de que a verba é escassa, vale tanto quanto uma nota de 3 reais. 

Cumprisse com a missão para a qual foi criado, e o tal Ministério ao menos teria se preocupado com a recuperação e manutenção de prédios do patrimônio histórico, afora museus e bibliotecas. 

Portanto, manter estruturas inúteis serve apenas para iludir a sociedade e enriquecer os aproveitadores.   

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