domingo, maio 08, 2016

Milhares de brasileiros perdem o plano de saúde

Mariana Queiroz Barboza 
Revista ISTOÉ

Com o aumento do desemprego, famílias são obrigadas a cancelar ou rebaixar o benefício e migrar para o sistema público

O gerente comercial Ricardo Lucio de Carvalho, de 52 anos, trabalhava há 18 anos numa multinacional de cosméticos no Rio de Janeiro quando, no fim do ano passado, foi demitido. “A gente trabalha tantos anos numa empresa, gera recurso, constrói uma história e é descartado em cinco minutos”, diz. Casado e pai de três filhos, Carvalho teve que entrar na Justiça para garantir o direito ao plano de saúde nas mesmas condições negociadas pela empresa por mais dois anos – com a diferença que agora os R$ 2,5 mil mensais saem de seu bolso – e não fazer parte de uma estatística que só cresce. Entre março de 2015 e março de 2016, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), 1,33 milhão de pessoas perderam ou cancelaram seus planos de saúde e agora têm que recorrer ao Sistema Único de Saúde (SUS). Metade da queda ocorreu no Estado de São Paulo, que concentra a atividade econômica. Num momento em que a arrecadação dos governos estaduais e federal só cai, o aumento dessa demanda onera ainda mais um setor público já sobrecarregado. 

''Nos últimos anos, os reajustes foram muito altos. Na minha
idade, não tenho como pagar o novo valor''
Julio Cerqueira César Neto, engenheiro aposentado 

A relação com os números de desemprego é bem próxima. No mesmo período, o saldo de criação de vagas formais, de acordo com o cadastro do Ministério do Trabalho, foi negativo em 1,8 milhão. “É um mercado muito sensível ao emprego”, diz o advogado Rafael Robba, especializado em direito à saúde. “Quando a empresa demite, é comum não informar ao funcionário que ele pode manter o benefício por mais alguns meses.” Nesses casos, é preciso que o indivíduo tenha sido demitido sem justa causa e contribuído com o pagamento da mensalidade do plano, ainda que subsidiado pela companhia. Hoje os coletivos empresariais e, em menor proporção, os coletivos por adesão (mediados por associações de classe e sindicatos) representam quase 80% dos planos ativos no País.
“A diminuição do número de beneficiários, que começou no ano passado, demorou a acontecer se comparada à redução da atividade econômica”, diz Luiz Augusto Carneiro, superintendente-executivo do IESS. “Com o agravamento e a duração da crise, as pessoas que, mesmo perdendo o emprego, tentaram manter o plano ou adquiri-lo de outra maneira, descobriram que não têm condições de continuar arcando com esse serviço por conta própria.” Segundo o estudo do IESS, a única faixa etária que não apresentou recuo no número de beneficiários foi a de 59 anos ou mais, justamente a que mais utiliza os serviços de saúde. “Ter um plano de saúde é o terceiro maior sonho de consumo do brasileiro, atrás da casa própria e da educação”, afirma Carneiro. A perspectiva do instituto é que, até o fim do ano, o total de beneficiários fique abaixo dos 48 milhões.


CONSEQUÊNCIA
A redução nos planos de saúde aumentou a demanda em hospitais do SUS

Entre quem ainda consegue manter o plano, não depender do SUS é um dos principais motivos para colocar o benefício no fim da lista de gastos a serem cortados do orçamento. O que resta, então, é mudar de categoria, como fez o engenheiro aposentado Julio Cerqueira César Neto, de 85 anos. Ele e a mulher, Helena Villaça Cerqueira César, pagavam mais de R$ 6 mil mensais por um plano de saúde. Com o aumento dos custos, tiveram que abrir mão do atendimento em hospitais de elite de São Paulo, como o Albert Einstein e o Sírio-Libanês, para migrar para um plano que custa o terço do valor. “Nos últimos dois anos, os reajustes foram muito altos, entre 20% e 30%”, afirma Cerqueira Neto. “Na minha idade, a receita que tenho não é suficiente para pagar esse valor. Se não tivesse conseguido migrar, talvez tivesse que cortar o benefício.”




FOTOS: FELIPE GABRIEL/Ag. Istoé; EPITACIO PESSOA/AE 

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