quarta-feira, maio 04, 2016

Os doze trabalhos de Temer

Josef Barat
Chumbo Gordo.com (*)

O caminho de Michel Temer é inverso ao de Hércules: ele terá que executar árduos trabalhos para administrar um trágico espólio de desacertos, após servir por oito anos.



Após consulta ao Oráculo em Delfos,  como penitência, Hércules deveria executar uma série de doze trabalhos e servir doze anos a Euristeu, seu meio irmão, ambos eleitos por Zeus.

Ao final dos trabalhos ele se tornaria imortal. O caminho de Michel Temer é inverso. Após servir lealmente por oito anos à sua cabeça de chapa, ambos eleitos com o apoio de Zeus, ele terá que executar árduos trabalhos para administrar um trágico espólio de desacertos.

O primeiro deles, por ser o mais fundamental, é o de estrangular o destrutivo Leão de Neméia do descrédito internacional e da falta de confiança dos mercados. Isso vai exigir uma mudança significativa de postura do governo em relação à política externa e ao relacionamento institucional com os agentes econômicos.

O segundo é matar a Hidra de Lerna do desajuste das contas públicas, estancando as diversas cabeças dos déficits crônicos e do aumento da dívida pública. Para cortar as cabeças e impedir sua reprodução, terá que promover um rigoroso ajuste fiscal e ter o apoio incondicional de uma equipe econômica responsável.

O terceiro é alcançar e conter a Corça de Cirinéia, que com velocidade espantosa vem desmantelando os fundamentos macroeconômicos e contribuindo – juntamente com o forte desajuste das contas públicas – para o descrédito internacional, o rebaixamento pelas agências de risco e a falta de confiança dos investidores.

É importante, portanto, voltar ao tripé do superávit primário, metas de inflação e câmbio sem intervenção.

O quarto é capturar pelo cansaço o descontrolado Javali de Erimanto da inflação, que  devasta tudo que encontra pela frente, desde os ganhos das famílias até a gestão financeira das empresas.

Em consequência, o quinto trabalho é o de limpar currais do rei Augias dos obstáculos burocráticos, das intervenções absurdas do governo e dos dejetos dos três mil bois da carga tributária absolutamente irracional.

O sexto trabalho é o de matar, no Lago Estínfalo, os monstros que, pelo seu gigantesco tamanho, interceptam no voo os raios do Sol. Trata-se, portanto, de dar transparência e transmitir confiança, no sentido de estimular níveis de investimento mais compatíveis com o crescimento e estimular a inovação e o desenvolvimento tecnológico.

Mas, para isto, é preciso ter capacidade de convencimento e criar um ambiente de pacificação nacional. O que é importante, também, para o sétimo trabalho, qual seja o de capturar vivo e montar o Touro de Creta da previdência social.

Ou seja, de estancar a sangria de um sistema que não tem sustentação diante da carência dos recursos e compromete sua viabilidade num momento crucial de transição da pirâmide etária.

O oitavo, de enorme dificuldade, é enfrentar os  cavalos do Rei da Trácia que vomitam fumo e fogo. É buscar uma racionalização da carga tributária e uma profunda renegociação do pacto federativo em torno do sistema tributário, tarefa que exige força e habilidade.

O nono trabalho é o de vencer as amazonas da rainha Hipólita, apossando-se do cinturão mágico dos programas sociais que elas vestem. Trata-se, no fundo, de dar uma lógica efetivamente mais inclusiva aos programas sociais e maior racionalidade aos gastos, evitando, tanto a perversa geração de dependência, quanto a absoluta falta de transparência na aplicação dos recursos.

O décimo é matar o Gigante Gerião do sistema de saúde pública. É o monstro de três corpos, seis braços e seis asas, de concepções obsoletas, em meio ao caos das epidemias de Dengue, Chicungunha, Zika e falência dos hospitais públicos. Trata-se de dar mais seriedade e consistência às ações de saúde pública.

O décimo primeiro trabalho será o de colher os pomos de ouro do Jardim das Hespérides, após matar o dragão de cem cabeças que os guardava. Um dragão que representa um sistema educacional disfuncional, eivado de “ideologias” obsoletas e absolutamente distanciado do mundo contemporâneo.

O dragão terá que ser  morto por um Atlas e é um trabalho para o herói mostrar que veio mesmo para mudar. É crucial para qualquer esperança que se possa ter no futuro do Brasil.

O último trabalho consiste em domar o cão Cérbero (hoje transformado em cobra cascavel), saído do mundo dos mortos-vivos com autorização de Hades. A condição é a de conseguir dominá-lo e reduzi-lo à sua real dimensão de morto vivo, sem usar as suas armas.

Terá que lutar só com a força dos seus braços e mostrar que a alternativa do entendimento e da união nacional será mais efetiva para o país que o discurso do ódio e da confrontação inconsequente.

Que os deuses mais sábios do Olimpo o ajudem e lhe deem apoio nos árduos trabalhos!

(*) Artigo publicado originalmente no Diário do Comércio, edição  digital de 29 de abril de 2016

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