quarta-feira, maio 04, 2016

PSDB exige de Temer duas décadas em 2 anos

Josias de Souza

Após entender-se com Temer na presença de Renan, o notório, 
Aécio cobra combate à corrupção

O PSDB aprova nesta terça-feira a plataforma de governo que entregará a Michel Temer. Contém 15 “princípios e valores” que soam como trilha sonora de “um novo Brasil”. Tomado pelo conteúdo, o documento pode ser confundido com um inofensivo instrumento de cordas. Mas não passa de uma forca disfarçada. Tocando-o ao pé da letra, Temer apertará o nó em torno do próprio pescoço.

Descontados todos os defeitos de seus respectivos governos, FHC e Lula deixaram um par de marcas positivas nos seus 16 anos de poder. Um restabeleceu o valor da moeda. Outro reduziu as desigualdades sociais. O mandato de Dilma será eletrocutado porque a marca dos seus cinco anos e meio de Presidência foi a ruína. Madame conseguiu aviltar a estabilidade econômica e dissolver os avanços sociais.

Pois bem. O PSDB sugere que Temer retire do papel durante o mandato tampão de dois anos e meio que lhe cai no colo aquilo que tucanos e petistas não foram capazes de realizar em duas décadas de poder: reforma política, reforma tributária, reformas estruturais, reforma educacional, reforma do SUS, combate ao crime organizado, redefinição do pacto federativo… Tudo isso e mais a guerra contra quatro inimigos insidiosos: a inflação, a gastança desmedida, a corrupção e o fisiologismo.

Herdeiro de um caos que o seu PMDB ajudou a construir, Temer está condenado a equilibrar-se em meio ao entrechoque das forças corruptas e arcaicas que se reúnem à sua volta. Talvez se dê por satisfeito se, além de não cair, conseguir entregar em 2018 um país sem retrocessos institucionais e com uma economia de fornalhas religadas. Nesse roteiro minimalista que a conjuntura impõe, o caminho mais curto para o fracasso é a adoção do programa multi-temático do PSDB, uma espécie de abraço de gigante no mundo.

Embora José Serra arraste a asa para o novo governo antes mesmo da formalização do afastamento de Dilma, o tucanato diz condicionar o ingresso de seus filiados no ministério de “salvação nacional” à aceitação do seu programa de “princípios e valores''. Temer não hesitará em dizer que as prioridades tucanas coincidem com as suas. Acreditará quem quiser.

O PSDB cobra de Temer a continuidade da Lava Jato. Faz a exigência num instante em que a Procuradoria pede ao STF autorização para abrir inquéritos contra Aécio Neves. Como se fosse pouco, o tucanato se abstém de romper os conluios que levam o PSDB a silenciar diante das presidências espúrias de Eduardo Cunha, na Câmara, e de Renan Calheiros, no Senado.

“O novo governo deve estar comprometido com o combate incessante ao fisiologismo e à ocupação do Estado por pessoas sem critérios de competência”, anota o documento do PSDB no item de número três. Considerando-se que o ministério de Temer inclui a malta partidário que traiu Dilma depois de fartar-se no mensalão e de participar do assalto à Petrobras, pode-se concluir o seguinte: a diferença entre a sinceridade tucana e a hipocrisia é que a sinceridade tem limites.

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