segunda-feira, maio 02, 2016

Vacância de poder

Mel Bleil Gallo
Revista ISTOÉ

Dilma cancela reuniões por falta de quórum, servidores esvaziam gavetas e mulher de ministro faz ensaio fotográfico em gabinete. É o (lamentável) retrato de um fim de governo


A foto acima é a imagem mais bem acabada do que virou o governo Dilma, enquanto o afastamento da presidente da República não é sacramentado pelo Senado. Até a principal mandatária do País reconheceu, na última semana, que o adeus – ao menos por seis meses – é uma questão de dias. Como, em política, não há vácuo de poder, o sucessor de Dilma, o vice-presidente Michel Temer, já negocia abertamente o preenchimento de cargos no futuro governo. Claro que isso muda a atmosfera e as relações de poder em Brasília. Nos últimos dias, o clima de fim de feira provocou uma série de acontecimentos esdrúxulos e um corre-corre generalizado no Palácio do Planalto e na Esplanada dos Ministérios a procura de novos empregos. Os elevadores acostumados a transportar políticos, empresários e lobistas aos andares e gabinetes mais concorridos da República passaram a conduzir aos andares térreo e subsolo caixas de papelão e engradados de madeira. A maioria de propriedade de servidores demissionários, orientados pelos integrantes do primeiro escalão a esvaziar suas gavetas e distribuir currículos. As agendas dos ministros estão vazias. Antes sem tempo para atender a convites, a ministra da Agricultura, Kátia Abreu, almoçou solitariamente em um bandejão na última semana.

No Palácio do Planalto, o último a sair apagará a luz. A presidente Dilma até desistiu de fazer a reunião de coordenação política, que normalmente ocorre às segundas-feiras de manhã. Motivos: falta de quórum e de tema para discutir. Não há mais planos de governo. Se antes a agenda era “não cair”, agora consiste em desgastar o vice-presidente Michel Temer e “buscar uma saída honrosa para Dilma na história” – como se fosse possível. A menos de cem dias das Olimpíadas, o Ministério dos Esportes sofre com a vacância de poder na Esplanada. Os problemas começaram após a saída do ex-ministro George Hilton (PROS-MG), que, sem sucesso, chegou a se desfiliar do PRB para tentar permanecer na pasta. Com o troca-troca, quem assumiu seu posto interinamente foi o então secretário de Alto Rendimento e ex-secretário executivo dos Esportes, Ricardo Leyser, do PCdoB. Na última terça-feira, o Diário Oficial da União trouxe a exoneração de Marcos Jorge de Lima, secretário-executivo indicado pelo PRB. Na mesma edição, um ato assinado por Dilma e pelo ministro interino nomeava o próprio Leyser, novamente, secretário-executivo da pasta - posto que agora acumula com o de ministro interino. Inadmissível. Enquanto isso, quem depende das benesses do governo petista tenta manter a boquinha – ou ampliá-la – até o último suspiro. Na última segunda-feira 25, em reunião com Dilma, MST, CUT, UNE e MTST pediram para que integrantes dos movimentos fossem indicados para preencher as vagas deixadas por partidos que desembarcaram do governo nas últimas semanas, mesmo que a nomeação durasse poucos dias.

Mas o cúmulo da esculhambação ainda estava por vir. Somente em um governo que se assemelha a um fim de feira poderia ter como tema político mais comentado da semana o episódio envolvendo a ex-Miss Bumbum Brasil nos Estados Unidos, Milena Santos. Nas dependências dos prédios do Executivo, Legislativo e Judiciário de Brasília a pergunta mais repetida foi: “Você viu a esposa do ministro do Turismo?”. A jovem exuberante escolheu o gabinete ministerial de seu recém-empossado marido como cenário para uma sessão de fotos ao lado de seu marido. As imagens foram publicadas em sua página pessoal de Facebook, sob as legendas “meu primeiro dia de primeira-dama do Ministério do Turismo do Brasil” e “ao lado de um grande homem, existe sempre uma linda e poderosa mulher”. No cliques, o carinho entre o casal se evidenciava pelo olhos nos olhos, mãos dadas e selinho na boca. O ministro Alexandre Teixeira, ilustre desconhecido como a maioria dos titulares das pastas hoje na Esplanada, está no cargo há menos de uma semana. Engana-se quem pensa que Dilma, sempre intolerante com deslizes alheios, ficou furiosa com a história. Nem ligou. Segundo assessores, não tem mais cabeça para isso.

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