sexta-feira, junho 24, 2016

Ex-ministro Paulo Bernardo recebeu mais de R$ 7 milhões em propina, dizem investigadores

Renato Onofre e  Cleide Carvalho 
O Globo

Fraude em crédito consignado desviou R$ 100 milhões entre 2010 e 2015

 Marcos Alves / Agência O Globo / 23-6-2016
O ex-ministro Paulo Bernardo deixa o Instituto Médico Legal em São Paulo 

SÃO PAULO — Em desdobramento da Operação Lava-Jato, o ex-ministro Paulo Bernardo, marido da senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR), foi preso em Brasília acusado de movimentar R$ 7 milhões num esquema de propina organizado no Ministério do Planejamento, pasta que ele comandou. O petista é peça central do desvio de R$ 100 milhões cobrados de milhares de servidores federais que tomaram empréstimos consignados — descontados na folha de pagamento — entre 2010 e 2015. A operação desta quinta-feira foi batizada de Custo Brasil, referência ao prejuízo que a corrupção causa aos trabalhadores.

O esquema também abasteceu o caixa do PT. O ex-tesoureiro João Vaccari, que já foi condenado na Lava-Jato e cumpre pena, teve nova prisão decretada. Ele comandava a distribuição do dinheiro desviado no partido. A operação desta quinta-feira, liderada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal de São Paulo, revela que a corrupção não se limitou à Petrobras e que as investigações avançam além de Curitiba.

— É uma resposta àqueles que celebravam com champanhe o declínio do caso em Curitiba, para mostrar que não é só Curitiba que faz investigação, o que faz muito bem. Isso é uma meta de todas as instituições: perseguir a corrupção — disse o procurador Andrey Mendonça, do Ministério Público Federal de São Paulo.

JUIZ DECRETA PRISÃO DE 11 ENVOLVIDOS
No esquema descoberto pela Custo Brasil, os servidores endividados pagavam R$ 1 de taxa de gerenciamento em cada prestação mensal do empréstimo. Esse gerenciamento das dívidas era feito pela empresa de informática Consist. No entanto, esse serviço custava apenas R$ 0,30; R$ 0,70 era destinado à propina, que, por meio de empresas de fachada, chegava aos envolvidos. Em cinco anos, os pequenos desvios resultaram no montando de R$ 100 milhões.

— É um exemplo de como a corrupção e a sonegação prejudicam o cidadão e aumentam o custo das operações — disse Fábio Ejchel, da Receita Federal, um dos investigadores.

Como funcionava o esquema

A fraude que desviou R$ 100 milhões de empréstimos consignados


O juiz Paulo Bueno de Azevedo, da 6ª Vara Criminal de São Paulo, determinou a prisão preventiva de 11 pessoas. Entre eles, mais um ex-tesoureiro do PT: Paulo Ferreira, marido da ex-ministra Tereza Campello. Ferreira deve se apresentar nesta sexta-feira à Justiça.

Bernardo foi ministro do PT por dez anos. No governo Lula, comandou o Planejamento. No de Dilma, Comunicações. Segundo a investigação, ele usou o escritório de advocacia Guilherme Gonçalves, de Curitiba, para receber a propina. O escritório pagou empregados, aluguéis de lofts e serviços jurídicos de Bernardo e Gleisi. Dos R$ 7 milhões destinados ao ex-ministro, 20% eram descontados pelo escritório e R$ 5,6 milhões foram para Bernardo. A investigação sobre Gleisi está no STF.

EX-VEREADOR PETISTA DELATOU ESQUEMA

 Ailton de Freitas/06-04-2011
O ministro das Comunicações Paulo Bernardo 

A ação teve como peça importante a delação de Alexandre Romano, ex-vereador do PT que operou para a Consist e foi preso em agosto de 2015 na Operação Pixuleco 2. Segundo Romano, Paulo Bernardo ficou com um terço da propina, que era dividida com funcionários do segundo e terceiro escalões do Planejamento.

O PT abocanhava dois terços. Caberia a Vaccari distribuir o dinheiro. O ex-tesoureiro determinou, segundo o delator, depósitos, inclusive a empresas de fachada. A Jamp, do delator Milton Pascowitch, pagou R$ 120 mil à Editora 247, que edita o site Brasil 247. Também recebeu dinheiro do esquema a Focal Comunicação Visual, que trabalhou na campanha da Dilma em 2014.

O esquema foi revelado pela primeira vez pelo GLOBO, em agosto de 2015. Segundo Romano, participaram das primeiras reuniões para organizar a fraude, além de Paulo Bernardo, Vaccari e Paulo Ferreira, o ex-ministro da Previdência de Dilma Carlos Gabas e Luís Gushiken, ex-ministro das Comunicações de Lula, morto em 2013. Gabas, que ganhou fama por ter levado Dilma para passear na garupa de sua Harley-Davidson, foi um dos alvos da operação desta quinta — ele se recusou a depor.

— Há um mandado para eu depor ou ficar calado. Optei por depor, mas com minha advogada. Pode marcar data e horário — disse Gabas.

Edilson Dantas / Agência O Globo 
Policiais federais chegam com documentos da eleição de 2014 
do PT na sede da PF, no bairro da Lapa em São Paulo 

Na sede do do PT em SP, os investigadores apreenderam caixas com recibos da campanha de 2014 e listas de repasses a candidatos.

Entre os beneficiários de propina estaria o secretário de Gestão do município de São Paulo, Valter Correia, um dos presos. Ele foi secretário adjunto do Planejamento. Nesta quinta-feira, pediu exoneração ao prefeito Fernando Haddad.

Os advogados do ex-ministro informaram que o contrato com a Consist não passou pelo aval do então ministro. Guilherme Gonçalves informou que o escritório prestou serviços à Consist e nunca fez pagamentos ao ex-ministro. A Consist afirmou que colabora com as investigações.


OS ALVOS DE PRISÃO PREVENTIVA

1) Paulo Bernardo Silva
Ex-ministro do Planejamento, é acusado de ter recebido R$ 7 milhões em propinas em contrato firmado pela Consist para gerenciar crédito consignado de servidores federais. O percentual de propina teria chegado a 9,6% do valor total desviado.

2) Guilherme de Salles Gonçalves
Advogado da campanha da senadora Gleisi Hoffmann, é suspeito de atuar como operador da propina de Paulo Bernardo. Recebeu da Consist e repassou ao ex-ministro por meio da compra de bens e prestação de serviços na Justiça Eleitoral. Teria ficado com 20% do valor

3) Nelson Luiz Oliveira Freitas
Diretor de sistemas de informação do setor de RH do Ministério do Planejamento. Teria recebido valores do esquema

4) Valter Correia da Silva
Secretário de Gestão do prefeito Fernando Haddad. Foi secretário adjunto do Ministério do Planejamento, teria negociado com o então tesoureiro do PT João Vaccari Neto, após a saída de Paulo Bernardo. Teria intermediado pagamento de propina

5) João Vaccari Neto
Ex-tesoureiro do PT, preso e condenado na Lava-Jato, é acusado de ter definido a divisão da propina paga pela Consist

6) Paulo Ferreira
Ex-tesoureiro do PT, antecessor de Vaccari, teria iniciado as negociações de propina com a Consist. É casado com Tereza Campelo, ex-ministra do Desenvolvimento Social no governo Dilma

7) Emanuel Dantas do Nascimento
Sócio da Consucred, atuaria como lobista e seria próximo ao ex-ministro da Previdência Carlos Gabas e teria participado do esquema.

8) Joaquim José Maranhão da Câmara
Sócio da Consucred

9) Daisson Silva Portanova
Advogado, teria repassado dinheiro a Paulo Ferreira, equivalente a 2,9% da parte que cabia a Paulo Bernardo

10) Dércio Guedes de Souza
Da empresa JD2 Consultoria, teria repassado propina a servidores

11) Washington Luiz Viana, teria repassado propina a servidores

(Colaboraram: Stella Borges e Luiza Souto)

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