domingo, junho 05, 2016

Indústria volta ao patamar de sete anos atrás

Daiane Costa, Lucianne Carneiro, Marcello Corrêa e  Roberta Scrivano
O Globo

Resultado só não veio pior devido a exportações e ajuste de estoques

Dado Galdieri / Bloomberg/14-5-2014
Retrocesso. Fábrica de massas em Machado (MG): 
queda acentuada dos investimentos inibe a recuperação do setor  

RIO e SÃO PAULO - Após oito trimestres seguidos de retração, a indústria está hoje no mesmo patamar de produção de sete anos atrás. Mesmo assim, analistas destacam que o resultado do setor no início de 2016 — quando recuou 1,2% em relação ao último trimestre de 2015 — veio ligeiramente melhor do que o previsto, graças a um ajuste de estoques no setor e à recuperação das exportações.

— Observamos alguns segmentos da indústria conseguindo se colocar no mercado externo. Não fossem as exportações, o resultado da indústria seria pior. O setor externo ajuda a conter a queda, não compensa toda a queda da demanda interna, mas ameniza os efeitos — afirma Alessandra Ribeiro, economista da Tendências.

As exportações cresceram 6,5% em relação ao quarto trimestre do ano passado. Luiz Otávio Leal, economista-chefe do banco ABC, destaca que esses resultados, porém, estão superdimensionados por conta da alta do dólar.

— Os valores de exportação para contabilização no PIB são usados em reais. Então, quanto maior a desvalorização do real frente ao dólar, mais vão crescer as exportações em reais. Não é uma reação. É o efeito câmbio — pondera.

Ele acrescenta que, em relação ao mesmo trimestre do ano passado, o tombo da indústria foi menor agora graças, principalmente, à produção de energia. No fim do ano passado, o tombo foi de 8%, e, nos três primeiros meses do ano, o recuo foi de 7,3%. O setor de eletricidade e gás, porém, teve expansão de 4,2%, diz:

— A indústria ter caído menos na comparação anual teve a ver com a produção de energia e gás. No primeiro trimestre do ano passado, estávamos com bandeira vermelha (custo extra na conta de luz) e consumo menor de energia. Este ano, sem essas duas variáveis freando a demanda, essa atividade cresceu.

Claudio Dionísio, gerente de Contas Nacionais Trimestrais do IBGE, acrescenta que a expansão da atividade elétrica ocorreu, também, devido ao desligamento de usinas térmicas a partir do segundo semestre do ano passado, o que reduziu o custo para geração de energia.

Para o economista-chefe da LCA Consultores, Bráulio Borges, o ajuste dos estoques teve papel fundamental no ritmo menos intenso de queda do PIB neste início de 2016:

— A indústria de transformação é o segmento que mais sofria com o acúmulo indesejado de estoques, que acaba inibindo a produção. Mas se vê claramente um movimento de ajuste. Os estoques foram importantes para explicar o PIB menos pior agora.

Dono da Transcontrol, fundada há 47 anos no Rio, Luiz Cesar Ramos Souto fabrica peças eletrônicas e hidráulicas para a indústria de óleo e gás, e seus negócios já sentiam os efeitos da crise da Petrobras, desencadeada pela Operação Lava-Jato. Ele diz, porém, que a situação ficou muito pior este ano. Ele teve de demitir cem empregados, e hoje, com 130 funcionários, sua empresa utiliza apenas 20% de sua capacidade instalada — até o início de 2013, a Transcontrol tinha três turnos e ocupava quase 100% da capacidade.

— O primeiro trimestre foi horrível e não há perspectiva de melhoria antes do segundo semestre de 2017. Esse é um ano perdido — diz o empresário, que fornece componentes a grandes empresas fabricantes de sistemas de prospecção de petróleo.

INVESTIMENTO É NÓ FUTURO
Sem ver uma reversão de cenário no horizonte, Souto diz que está tentando adaptar seu negócio para fornecer à indústria eólica. Mas ressalva que este não é um processo fácil, nem rápido. Exportar também não é uma possibilidade, já que os EUA e a União Europeia conseguem fabricar os mesmos itens a preços muito mais baixos.

Para o presidente do Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, os resultados negativos da economia brasileira no primeiro trimestre “evidenciam que os estragos do governo anterior não pararam de aumentar”. Ele cita o investimento, que caiu 2,7%, em sua décima queda consecutiva. E que o consumo das famílias, em baixa há cinco trimestres seguidos, recuou 1,7%.

— Esses dados comprovam que o crescimento do gasto público não reativou a economia e ainda deixou a herança maldita do déficit de R$ 170 bilhões — afirmou Skaf.

Em nota, a Fecomércio-RJ afirmou que o mais preocupante no resultado do PIB no primeiro trimestre é a queda de 17,5% no investimento, “revelando que as dificuldades para o crescimento doméstico futuro permanecem”.

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