quarta-feira, junho 29, 2016

Multiculturalismo londrino entre o medo e a revolta

Claudia Sarmento, Especial 
O Globo 

Capital britânica votou maciçamente contra a saída da União Europeia; residentes temem hostilidades contra imigrantes

 JUSTIN TALLIS / AFP
No centro de Londres, um manifestante envolto em uma bandeira da UE 
participa de um protesto contra a saída do Reino Unido do bloco europeu 

LONDRES — Coração financeiro da Europa, Londres parece inconformada com a decisão britânica de deixar a União Europeia (UE). O choque que tomou conta dos moradores da capital, onde 60% dos eleitores votaram contra o Brexit, deu lugar ontem a um sentimento de depressão e revolta. A cidade manteve sua rotina, mas a era de incertezas que agora assombra o Reino Unido mudou o clima nas ruas. O prefeito Sadiq Khan — filho de imigrantes paquistaneses eleito recentemente, e cuja ascensão no cenário político representa o multiculturalismo associado a Londres — disse que a metrópole vai lutar para participar das negociações sobre a retirada da UE.

— Como país, decidimos deixar a UE, mas para a cidade vejo enormes benefícios em se manter no mercado único. Já disse ao governo que Londres deve estar na mesa de negociações — disse Khan, que criticou seu antecessor, Boris Johnson, líder da campanha pelo Brexit, por ter ignorado o impacto da decisão sobre a economia da capital.

Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista que saiu derrotado das urnas, sentiu a decepção dos moradores de Londres. Ao passar pelo Pride Festival, a parada gay da cidade, foi acusado de não ter feito o suficiente para evitar o Brexit.

— Foi sua culpa, Jeremy! — gritou um homem. — Pare de usar o movimento gay para disfarçar sua falta de liderança.

Corbyn, constrangido, respondia apenas que havia “feito todo o possível”.

O vídeo da cena, postado no Twitter, viralizou.

Em Brixton, na região de Lambeth, Sul de Londres, fica clara a posição da capital britânica na discussão que evidenciou a profunda divisão no Reino Unido. A área registrou o maior percentual de votos pela permanência na UE em toda a Inglaterra: 78,6%. Ao redor do mercado de Brixton, uma sucessão de coloridas barracas com todos os tipos de produtos, onde diferentes etnias se misturam, um casal de amigos não escondia o desânimo. May, que tem raízes irlandesa, francesa e indiana, e Tom, filho de mãe italiana e pai de Trinidad e Tobago, nasceram em Londres, mas já não sabem se querem continuar na capital.

— O Brexit foi a pior coisa que podia acontecer para a minha geração. Minha mãe já fala em se mudar. Acha que imigrantes serão tratados com hostilidade — disse o rapaz, produtor de vídeos.

A amiga, estudante de Sociologia, concordou:

— Não posso mais confiar num país que acreditou numa campanha marcada por xenofobia.

Brixton já foi uma área esquecida, palco de violentos conflitos sociais na década de 80. É um bairro de imigrantes, sobretudo africanos, mas nos últimos anos a gentrificação mudou a cara do local, atraindo londrinos jovens que buscam aluguéis acessíveis. As comunidades se cruzam nos mercados de rua, onde o Brexit dominou as conversas ontem.

— Nada de bom pode sair dessa decisão — resumiu um vendedor de roupas do Afeganistão, que deixou Cabul há 15 anos.

No Brixton Village, shopping com restaurantes de diferentes partes do mundo, a britânica Samantha Williams, funcionária de uma pequena loja de doces caseiros, contou que já havia recebido vários clientes inconformados com o resultado do referendo.

— Acho que as pessoas votaram sem entender direito os efeitos do Brexit — avaliou.

Uma petição publicada na plataforma digital Change.org já havia alcançado ontem 140 mil assinaturas para que Londres seja declarada “cidade mundial”. A esperança é que, assim, possa se juntar de forma independente à UE.

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