domingo, julho 03, 2016

Empresa do grupo J&F pagou propina para receber recursos do FI-FGTS, diz delator

André De Souza
O Globo

Valor financiado pelo fundo em favor da Eldorado totalizou R$ 940 milhões

Eliaria Andrade / Agência O Globo 
O empresário Joesley Batista 

BRASÍLIA — O ex-vice-presidente da Caixa Econômica Fábio Cleto disse em seu acordo de delação premiada que a empresa Eldorado — do grupo J&F, o mesmo do frigorífico JBS — pagou propina para obter recursos do fundo de investimentos FI-FGTS. Parte do dinheiro desviado foi para o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Cleto, que recebia uma parte menor da propina, disse ter sido beneficiado com R$ 1,68 milhão. O valor financiado pelo fundo em favor da Eldorado totalizou R$ 940 milhões.

As informações estão num pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aceito pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), para realizar operação de busca e apreensão em endereços de vários investigados. No documento, Janot diz que Joesley Batista, um dos donos da J&F, pediu em 2012 recursos no FI-FGTS para construir uma fábrica de celulose em Mato Grosso do Sul. A operação foi aprovada, com voto favorável de Cleto no Comitê de Investimentos do fundo. Depois, Cunha informou ao então vice-presidente da Caixa que ele receberia uma propina de R$ 680 mil.

Cerca de um ano depois, a Eldorado precisou descumprir um dos itens do acordo, que a impedia de se endividar acima do indicado no contrato. Cleto conseguiu flexibilizar esse ponto, medida que, segundo Janot, era incomum, uma vez que poderia alterar todo o equilíbrio da operação. Por esse motivo, Cleto receberia mais R$ 1 milhão.

Janot destacou que o doleiro Lúcio Bolonha Funaro — ligado a Cunha e que também teria participação no esquema — era amigo de Joesley Batista. Foi ele inclusive quem apresentou Cleto ao empresário. Funaro, Cleto e Joesley estiveram juntos nove vezes, disse Janot, uma delas em viagem ao Caribe. Por essas razões, Janot pediu busca e apreensão na casa de Joesley, mas não na residência dos outros sócios da J&F.

"Se a relação entre Lúcio Bolonha Funaro e Joesley Batista ultrapassa o aspecto 'profissional', é possível que haja elementos de convicção na residência de Joesley. Reforça essa possibilidade o fato de que apenas um dos três sócios da J&F, o Joesley, ter sido apontado como participante das tratativas de pagamento da propina pelo colaborador. Assim, faz sentido, ao menos a princípio, que ele tenha feito o pagamento sem o conhecimento dos demais sócios e levado as provas disso para sua residência, onde o acesso deles é mais restrito", escreveu Janot.

GRUPO BR VIAS
Segundo Janot, Cleto citou pagamento de propina pela empresa Viarondon Concessionária Rodovias S/A, do grupo BR Vias, que conseguiu um financiamento de R$ 300 milhões. Cleto disse ter recebido R$ 120 mil pelo negócio. Um dos sócios é Henrique Constantino, da família proprietária da empresa aérea Gol.

"Cleto afirmou que Lúcio Bolonha Funaro tinha relacionamento com Henrique Constantino e que, então, a solicitação para aprovação da operação foi feita por Funaro, por intermédio de Eduardo Cunha. Ao ser questionado de quem foi cobrada a propina, Cleto afirmou não saber, mas, em vista da proximidade de Funaro com Henrique Constantino, acredita que tenha sido deste último", escreveu Janot.

Cleto disse também ter recebido R$ 76 mil de propina da empresa Cone S/A, controlada pela Moura Dubeux. Nesse caso, não há informação do valor da operação financiada pelo FI-FGTS.

OUTRO LADO
Em nota, a Eldorado afirmou que desconhece os motivos que levaram à operação desta sexta-feira e declarou ter atuado de forma transparente e dentro da legalidade:

"A Eldorado confirma que a Polícia Federal realizou busca e apreensão em suas dependências em São Paulo na manhã de hoje. A companhia desconhece as razões e o objetivo desta ação e prestou todas as informações solicitadas. A Eldorado sempre atuou de forma transparente e todas as suas atividades são realizadas dentro da legalidade. A companhia se mantém à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos adicionais", diz o texto divulgado pela empresa.

****** COMENTANDO A NOTÍCIA:

Creio que, na hora que se abrir a caixa preta do BNDES, correspondente ao período petista de governo, os Batista terão muito que explicar à Justiça. Leiam nota interessante do blog O Antagonista:

(...)
O 'Eldorado' dos Batista
A propina paga por Joesley Batista a Eduardo Cunha para conseguir recursos do FI-FGTS é apenas parte da nebulosa história da Eldorado Celulose, do grupo J&F.

Antes de acessar quase R$ 1 bilhão do cofre do FGTS, a Eldorado conseguiu colocar a mão em meio bi dos fundos de pensão Petros e Funcef, que se tornaram sócias da empresa ainda na sua fundação.

Quem ajudou a abrir as portas dos fundos de pensão foi Mario Celso Lopes, sócio dos irmãos Batista até 2012. Um ano antes, a Eldorado também conseguiu no BNDES um empréstimo de R$ 2,7 bilhões.

Em 2014, os Batista tentaram abocanhar mais R$ 2,8 bilhões dos fundos Petros, Funcef e Previ (do Banco do Brasil), mas a operação - de tão escandalosa - foi abortada.

Em maio passado, porém, ainda com Luciano Coutinho no comando do BNDES, a Eldorado conseguiu mais R$ 358 milhões.

Não foi Cunha que conseguiu isso tudo, Janot. (...)



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