domingo, julho 10, 2016

O garçom de Lula

Ary Filgueira
Revista ISTOÉ

Carlos Cortegoso, que serviu Lula na década de 80 num restaurante do ABC, virou milionário com um esquema de empresas de fachada nas campanhas petistas


ASCENSÃO METEÓRICA
 Garçom de Lula que montou empresa para atender ao PT agora anda de Porsche

Na década 80, Carlos Roberto Cortegoso era um cara humilde. Trabalhava como garçom no restaurante “São Judas Tadeu – Demarchi”, estrela da rota do frango com polenta do ABC Paulista. Um belo dia, ao contrário da maioria dos colegas de profissão, Cortegoso encontrou a sorte grande. De bandeja, o garçom ganhou sua mega sena particular: conheceu o então sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva. O petista se apiedou daquele que o servia regularmente com contagiante bom humor e arrumou uma boquinha no Partido dos Trabalhadores para ele. A partir daí, sua vida virou do avesso. 

A conta bancária, hoje rechonchuda, aumentou proporcionalmente à mudança de personalidade. Hoje, Cortegoso anda de Porsche, como se nota na foto acima. Por ser o proprietário da Focal, gráfica de fachada que recebeu R$ 24 milhões da campanha de Dilma, mas não conseguiu declarar os serviços prestados durante perícia do TSE, Cortegoso está encrencadíssimo na Justiça Eleitoral. O ex-garçom do petista também encontra-se enredado na operação da Polícia Federal, que apura um esquema de desvio de recursos no Ministério do Planejamento por meio de empréstimos consignados. A humildade do passado espatifou no chão como copos e pratos mal equilibrados. Ao ser procurado por ISTOÉ, disparou, em tom esnobe: “Me caracterizaram como ‘garçom do Lula’. É que o repórter precisa do estereótipo para ficar engraçado, para vender mais. Eu entendo. Tem cara que tem que limpar banheiro cheio de m*, tem cara que dá o c*. E tem cara que tem de criar personagem. Porque o empresário perdeu a graça. Então, tem de arrumar um personagem, tipo o mordomo, garçom”.

Cortegoso montou sua primeira empresa, a Ponto Focal Comunicação e Marketing Visual LTDA, graças ao empurrãozinho de Lula. A firma sobreviveu por uma década. O maior cliente, na ocasião, era, claro, o PT, para o qual o empresário trabalhava durante as campanhas eleitorais. Em 2004, na metade do primeiro mandato de Lula, a Ponto Focal decidiu encerrar suas atividades, justamente um ano antes da divulgação da denúncia do mensalão. A manobra tinha como objetivo sair do radar da Polícia Federal. Para investigadores, a ascensão de Carlos Cortegoso pode ter ganhado impulsão no esquema de corrupção. Em delação do publicitário Marcos Valério, sócio da SMP&B, o nome de Cortegoso foi anexado à lista de beneficiário das propinas que o publicitário apresentou à CPI dos Correios. Segundo Valério, o garçom de Lula havia recebido R$ 400 mil da organização criminosa. A partir daí, Cortegoso submergiu.


O TERCEIRO ESCÂNDALO 
Cortegoso também é acusado de receber propina do esquema 
de Paulo Bernardo (foto) no Ministério do Planejamento

Embora tenha tirado a empresa de seu nome, continuou, segundo a PF, beneficiário do esquema, agindo à sombra da filha Carla Regina Cortegoso. Dez meses depois do encerramento da Ponto Focal, Carla abriu uma firma no mesmo ramo e deu continuidade aos negócios do pai. Mais uma vez,quem deu suporte foi o PT. Por descuido ou não, a filha de Cortegoso optou por pegar emprestada a marca do antigo empreendimento, excluindo apenas o primeiro nome. Assim, a razão social ficou: Focal Confecção e Comunicação Visual Ltda.

O partido foi o principal cliente da empresa nas últimas eleições. Não bastasse ter sido a segunda empresa que mais recebeu recursos da campanha de Dilma em 2014, de acordo com o TSE, 21 candidatos do PT declararam que tiveram gastos com a Focal, entre os quais, o candidato ao governo de São Paulo Alexandre Padilha e a ex-ministra Gleisi Hoffmann, que em 2014 concorreu ao governo do Paraná. Terminadas as investigações do TSE, as atividades da gráfica que não conseguiu comprovar os serviços prestados à campanha de Dilma correm sério risco de serem encerradas mais uma vez.

Na ficha corrida de Carlos Cortegoso, ainda consta o envolvimento na Operação Custo Brasil, da Polícia Federal, que investiga o desvio de R$ 100 milhões de taxa de empréstimos consignados dos servidores do Ministério do Planejamento. Ele é suspeito de ter recebido R$ 309 mil de propina.


ESTREITAS RELAÇÕES 
Carla Regina, filha de Carlos Cortegoso, assumiu a Focal
 e manteve a parceria com Lula e o PT

Embora suas palavras deixem transparecer o inverso, Cortegoso não nega que tenha trabalhado como garçom. Mas alega ter largado a profissão há quatro décadas. Por isso, na lógica peculiar dele, não poderia mais ser tachado como tal. Ao tentar explicar seu raciocínio, recorreu a mais um paralelo infeliz, para dizer o mínimo: “Depois disso (ter sido garçom), me formei em química. Falo três idiomas. Fui executivo. É igual um menino que faz troca-troca (sexo com pessoa do mesmo gênero) com dez anos. Aí, aos 59, ele é gay?”, questionou. “Então, eu fui garçom há 41 anos”, concluiu. Cortegoso pode ter largado a antiga atividade. Mas, a julgar pelas apurações da PF, ele continuou a receber uma gorjeta mais do que generosa. Em forma de pixuleco.

“Duas coisas no Brasil que dão problema: pensão alimentícia e fiel depositário”




Em entrevista à ISTOÉ, Carlos Cortegoso se recusou a falar sobre as denúncias contra ele e demonstrou irritação:

ISTOÉ – Como o sr. era garçom do Lula e conseguiu ficar milionário?
Carlos Cortegoso – Tem cara que tem que limpar banheiro cheio de m*, tem cara que dá o c*. E tem cara que tem de criar personagem, tipo o mordomo, garçom. Porque o empresário perdeu a graça.

ISTOÉ – Mas o sr. não era garçom?
Cortegoso – Falo três idiomas. Fui executivo. É igual a um menino que fez troca-troca com dez anos. Aos 59, ele é gay? Então, eu fui garçom há 41 anos.

ISTOÉ – Em 1998, a Vara de Execuções Fiscais Estaduais de São Paulo decretou a prisão do senhor. Por quê? 
Cortegoso – Eu era fiel depositário de um compressor (penhorado pela justiça). Fui lá e paguei. E foi tudo resolvido. Tem duas coisas no Brasil que dão problema: pensão alimentícia e fiel depositário.



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