quarta-feira, julho 06, 2016

O lado sadio da crise

Celso Ming
O Estado de São Paulo

Desta vez a área externa não está ajudando a afundar a economia; Ao contrário, deverá contribuir substancialmente para a recuperação

As contas externas, ou seja, o fluxo de pagamentos e recebimentos do Brasil com o exterior em moeda estrangeira, estão se saindo mais satisfatoriamente do que o esperado.

Na última terça-feira, o Banco Central já havia revisto para melhor as projeções para este ano. Mas é provável que seus números sejam conservadores, especialmente depois de conhecidos os resultados da balança comercial dos primeiros seis meses do ano, “o melhor primeiro semestre da história”.



Em 2014, o saldo de transações correntes, que engloba comércio, serviços, rendas e transferências (só exclui o fluxo de capitais), fechara o ano com um rombo de US$ 104,2 bilhões, ou 4,31% do PIB. No ano passado, já houve uma melhora substancial e esse déficit caiu para US$ 58,9 bilhões, ou 3,32% do PIB. Para o fim deste ano, o Banco Central projeta um saldo negativo de apenas US$ 15,0 bilhões, ou 0,87% do PIB.

A perspectiva é a de que, ainda no primeiro trimestre de 2017, o rombo seja zerado e se transforme em superávit. E pode até ser zerado antes se o desempenho da balança comercial continuar sendo tão positivo quanto vem sendo.

Nos seis primeiros meses deste ano, as exportações foram US$ 23,6 bilhões superiores às importações. É bastante provável que, em todo este ano, o saldo da balança comercial acabe apontando um superávit superior aos US$ 50 bilhões, com que conta hoje o Banco Central.

A principal explicação para essa melhora, num momento em que os maiores parceiros comerciais atravessam temporada de relativa estagnação e, portanto, de baixa disposição para compras, é um fator negativo. É a recessão interna que derrubou o consumo, derrubou as importações (em 28,9% em seis meses), deixou alguma sobra para exportação e também enxugou as despesas com viagens ao exterior. 

Duas são as mais importantes consequências dessa substancial melhora das contas externas: a crescente sobra de dólares e, portanto, pelo efeito da lei da oferta e da procura, certa tendência à valorização do real (baixa do dólar); e o alastramento da percepção, tanto dentro do País como lá fora, de que esta crise brasileira é diferente das anteriores, na medida em que não apresenta crise cambial, com fuga de moeda estrangeira, deterioração da dívida externa e tudo o que vem junto. Enfim, por mais lamentável que seja a situação das contas públicas internas, desta vez a área externa não está ajudando a afundar a economia. Ao contrário, deverá contribuir substancialmente para a recuperação.

A pergunta à procura de resposta é se a queda do dólar no câmbio interno que ultrapassou os 11% apenas em junho não acabará por provocar efeito oposto, aumento de importações e redução das exportações, e, com isso, reverter essa situação ganhadora do balanço de pagamentos. Por enquanto, não há sinal disso, porque também não há indícios de que a atual fase de recessão esteja sendo revertida.

CONFIRA:



A tabela acima mostra como evoluíram, nos primeiros seis meses do ano, as exportações brasileiras de acordo com o fator de agregação de valor. Por aí se vê que as exportações de produtos básicos caíram mais (-6,4%) do que as de produtos industrializados (-1,7%).

Baixa das commodities
A desvalorização do real ainda em 2015 atuou para reduzir o impacto da recessão tanto na exportação dos produtos básicos quanto na dos industrializados. Por outro lado, pesou contra o resultado da exportação dos produtos básicos a queda dos preços internacionais das commodities em dólares.

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