quarta-feira, julho 06, 2016

Responsável pela maioria das arenas do Pan, Delta deixou problemas

Carolina Oliveira Castro
O Globo

Ex-presidente da construtora, Fernando Cavendish teve prisão decretada

Genilson Araujo / Genilson Araújo/23-8-2006
As obras no Engenhão, que custaram cinco vezes 
mais que o orçado e tinham defeito 

RIO — Superfaturadas, mal-acabadas e pouco eficientes. Assim costumam ser definidas as obras feitas pela empreiteira Delta Construções para o Pan-Americano de 2007. Menos de nove anos depois de serem construídas, as que ainda estão de pé tiveram que passar por reformas estruturais significativas para poderem receber a Olimpíada do Rio.

Atrasos, problemas de engenharia e sucessivos aumentos de preço fizeram com que CPIs e investigações fossem feitas ao longo dos anos, sem nenhum resultado. Na quinta-feira, o Estádio Aquático Maria Lenk foi citado nas investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, que aponta desvio de verbas e superfaturamento em obras da Delta.

A empreiteira de Fernando Cavendish, que teve sua prisão decretada, participou da construção de três das quatro arenas erguidas para o Pan. O velódromo, que seria temporário, subiu de preço e passou a ser fixo. Foi licitado por R$ 7 milhões e custou R$ 14,1 milhões. Fora dos padrões olímpicos, ele foi desmontado e levado para a cidade de Pinhais, no Paraná, onde está abandonado por falta de dinheiro para remontagem.

A mais problemática das obras assumidas pela Delta no Pan foi a construção do Engenhão. Inicialmente orçado em R$ 60 milhões (como consta no Diário Oficial do dia 15 de janeiro de 2003), o estádio olímpico já tinha consumido, em março de 2007, R$ 360 milhões da prefeitura. Cinco vezes mais.

A Delta, que formava um consócio com a Racional e a Recoma, abandonou a obra do estádio quando a cobertura estava começando a ser montada. Faltando meses para o começo do Pan, a obra foi assumida pelo Consórcio Engenhão (Odebrecht e OAS).

Em 2013, a prefeitura do Rio interditou o Engenhão, alegando que a cobertura corria risco de colapso por erro no projeto feito pelo primeiro consórcio. A Odebrecht e OAS pagaram mais de R$ 200 milhões pela obra e cobram da Delta na Justiça. Além disso, a prefeitura gastou R$ 52 milhões para resolver o crônico problema de iluminação do Engenhão. Nessa conta estão ainda a drenagem do gramado e todo o sistema hidráulico.

Em 2010, Delta, Odebrecht e OAS, venceram a licitação para reforma do Maracanã, mas a empresa de Cavendish também abandonou a obra, que custou R$ 1,266 bilhão e é investigada pela Lava-Jato por suspeita de superfaturamento e pagamento de propina ao então governador, Sérgio Cabral.

O Maria Lenk tinha o custo previsto de R$ 88,2 milhões, mas acabou custando em R$ 91,6 milhões. Para os Jogos, a prefeitura gastou mais R$ 32 milhões em reformas estruturais.


Como funcionava o esquema, segundo o MPF


1- Delta Construções (Fernando Cavendish)
Entre 2007 e 2012, teve 96,3% do seu faturamento oriundo de verbas públicas, chegando ao montante de quase R$ 11 bilhões

2- Desse total, mais de R$ 370 milhões foram lavados, por meio de pagamento ilícito a 18 empresas de fachada, criadas pelos chamados "operadores" do esquema

3- Essas empresas fantasmas foram criadas por Carlinhos Cachoeira, Adir Assad e Marcelo Abbud.

Carlinhos Cachoeira
Foi preso na Operação Monte Carlo, sob acusação de comandar uma quadrilha que explorava o jogo ilegal em Goiás. Também foi alvo de CPMI no Congresso.

Essas empresas fantasmas foram criadas por Carlinhos Cachoeira, Adir Assad e Marcelo Abbud.

Adir Assad
Foi condenado por lavagem de dinheiro e associação criminosa na Operação Lava-Jato, mas estava em prisão domiciliar desde dezembro do ano passado.

Marcelo Abbud
Agia junto com Adir Assad. Seu nome já aparecia na CPMI do Cachoeira, instalada no Congresso.

4- As empresas fantasmas lavavam os recursos públicos por meio de contratos fictícios. Os valores eram sacados em espécie para o pagamento de propina a agentes públicos, impedindo o rastreamento das verbas.

Nenhum comentário: