sexta-feira, março 18, 2016

Golpe de Estado

Editorial
O Estado de S. Paulo


 Não é outra coisa senão um golpe de Estado a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a chefia da Casa Civil do governo de Dilma Rousseff. Esse ato foi, simultaneamente, uma declaração de guerra aos brasileiros honestos e às instituições da República e a abdicação de fato da presidente Dilma de seu cargo, entregando-o de vez a seu criador e consumando dessa maneira o tal “golpe” que o PT, Dilma e Lula tanto acusavam a oposição de tramar. Temos agora na Presidência de fato da República um tipo que não recebeu um único voto para ocupar aquela posição nas últimas eleições.

Já os mais de 54 milhões de votos que Dilma recebeu na reeleição foram rasgados com essa assombrosa decisão. Dilma tornou-se, por vontade própria, subalterna do demiurgo petista, na presunção de que este, como “primeiro-ministro” em um parlamentarismo de fancaria, terá o poder que ela não tem mais – e a capacidade que nunca teve – para reverter o colapso de seu triste governo.
Ao mesmo tempo, Dilma aceitou acoitar Lula em seu gabinete, concedendo-lhe foro especial para que o chefão tenha melhores condições de tentar se safar da Justiça – uma sacada que transforma o exercício do governo em algo próximo do mais puro e simples gangsterismo. Também se poderia dizer que o bando, que estava acéfalo, agora tem um chefe.

Investigado em diversas frentes em razão de suas relações promíscuas com o baronato do capitalismo oportunista, Lula foi pilhado vivendo à custa desses generosos patrocinadores, preocupados em lhe proporcionar o bom e o melhor – tudo como pagamento pelos lucrativos serviços que Lula lhes prestou nos governos petistas. A polícia e a Justiça entendem que o capo ainda precisa explicar melhor, sem xingar os investigadores nem debochar das instituições, como ele constituiu tão fraterna confraria – que, não por acaso, está no centro da roubalheira na Petrobrás.

Não era pequena a possibilidade de que Lula fosse preso a qualquer momento em razão dos diversos inquéritos dos quais é alvo em primeira instância. Agora, feito ministro, terá o privilégio de ter seu caso avaliado pelo Supremo Tribunal Federal, onde espera receber – e rogamos para que esteja totalmente enganado – a condescendência que certamente não teria do juiz federal Sérgio Moro.

Assim, Lula se torna o próprio exemplo de uma de suas tantas bravatas a respeito da impunidade no Brasil, na época em que ele ainda era o paladino da ética na política. Disse ele, em 1988: “No Brasil é assim: quando um pobre rouba, vai para a cadeia; mas quando um rico rouba, vira ministro”. Já se pode dizer que, para ser ministro do atual governo, a probidade é dispensável – a única exigência é que o candidato esteja sob investigação da Polícia Federal ou seja réu da Justiça. O Brasil já sente saudade do tempo em que os ministros eram escolhidos apenas como forma de barganha fisiológica.

Se a cartada de Lula será ou não bem-sucedida, só o tempo dirá, mas convém lembrar que o foro privilegiado não livrou da cadeia a quadrilha petista que atuou no mensalão. Enquanto o dia de encarar o tribunal não chega, Lula poderá exercer a Presidência de facto, sem ter recebido um único voto de um único brasileiro para isso. E não se diga, com o cinismo que é peculiar ao lulopetismo, que Lula, afinal, nunca deixou a cadeira presidencial e sempre influenciou Dilma. O que vai acontecer daqui em diante, ao menos na cabeça dos apaniguados do chefão petista, está em outro patamar: Lula vai ditar a política econômica, promovendo a “virada” tão desejada por essa caterva de irresponsáveis.

Já se espalhou que Lula pretende implementar um certo “plano de reanimação nacional”, para reverter a crise econômica. Nem é o caso de perguntar como o mago petista pretende realizar tamanho milagre, pois nada disso é se não rematada empulhação, como quase tudo o que caracteriza sua trajetória. Mas é o suficiente para animar a tigrada, com vista a 2018. O presidente da CUT, Vagner Freitas, por exemplo, já disse que Lula vai mudar “radicalmente” o governo e “dar uma guinada à esquerda”. Pobre Brasil.

Aos cidadãos brasileiros, ofendidos por essa desavergonhada demonstração de desprezo pela democracia, resta exercer nas ruas o direito de manifestação e pressionar o Congresso e o Judiciário a não permitirem que o golpe se complete. O Brasil não pode ser governado por uma quadrilha.

Ao dar posse a Lula, Dilma ataca Moro – e também as ruas

Laryssa Borges, Felipe Frazão e Marcela Mattos,
 Veja online

Presidente saudou o 'grande aliado' e afirmou: “A gritaria dos golpistas não vai me tirar do rumo'

(Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)
 A presidente Dilma Rousseff e o ex- presidente Luiz Inácio Lula da Silva 
durante a cerimônia de posse dos novos ministros no Palácio do Planalto, em Brasília

Às 10h38 da manhã desta quinta-feira, com ares de comício, a blindagem contra o maior expoente dos quadros petistas, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi consolidada. Uma desgastada presidente da República, praticamente escanteada à condição de emérita, sacramentou o habeas corpus presidencial - ainda que temporário - do antecessor e padrinho político, dando a Luiz Inácio Lula da Silva o terceiro mandato à frente do Palácio do Planalto. Uma liminar concedida pela Justiça Federal do Distrito Federal suspendeu a posse minutos após a cerimônia.

Blindado às pressas pelo governo depois da certeza de que a força-tarefa que combate o petrolão poderia pedir ao juiz Sergio Moro sua prisão temporária a qualquer momento, Lula foi empossado como ministro da Casa Civil um dia depois de grampos telefônicos feitos com autorização judicial terem revelado o desprezo da dupla Dilma-Lula às instituições e escancarado que a nomeação não passou de uma estratégia de fuga dos rigores da lei.

Ignorando o fato de que o grampo não deixa dúvidas sobre quem está efetivamente atentando contra os princípios democráticos, Dilma Rousseff tirou da manga mais uma desculpa para tentar explicar por que teria mandado o termo de posse de Lula para que ele assinasse "em caso de necessidade". Depois da esdrúxula versão de que Dilma encaminhou o documento porque Lula poderia faltar à própria posse, a presidente petista disse que a ex-primeira-dama Marisa Letícia, também alvo de investigações do Ministério Público "não estaria bem", o que justificaria a ausência do empossado. "Convulsionar a sociedade brasileira em cima de inverdades, de métodos escusos, de práticas criticáveis viola princípios e garantias constitucionais, viola os direitos dos cidadãos e abre precedentes gravíssimos. Os golpes começam assim", tergiversou a presidente. "A gritaria dos golpistas não vai me tirar do rumo e não vai colocar nosso povo de joelhos".

E mais: alegou que a posse do ex-presidente Lula como ministro da Casa Civil, mesmo diante das evidências claras de menosprezo às instituições e à justiça, seria uma "grande oportunidade". "Todo mundo sabe que as dificuldades muitas vezes costumam criar grandes oportunidades. As circunstâncias atuais me dão a magnífica chance de trazer para o governo o maior líder politico desse país".

Com gritos contra veículos de comunicação e escorada em uma claque de aliados, movimentos estudantis e sindicalistas, Dilma Rousseff atacou o juiz federal Sergio Moro e ousou exigir o silêncio dos recentes movimentos de rua, que ocuparam as principais cidades do país no último domingo com pedidos de impeachment. "Para o bem do Brasil, todo esse barulho, que não é a voz rouca das ruas, mas algaravia advinda da excitação de pré-julgamentos, deve acabar", disse. "Devemos combater esse ambiente que eletriza artificialmente o país e deixa a população em estado de permanente sobressalto", completou.

Sobre os sobressaltos sucessivos provocados pelo escândalo de corrupção na Petrobras, nenhuma palavra. Diante de um Lula em silêncio, os ataques a Sergio Moro seguiram sem trégua: "O Brasil não pode se tornar submisso a uma conjuração que invade as prerrogativas constitucionais da Presidência da República. Não porque a presidenta seja diferente dos outros cidadãos e cidadãs, mas porque se se fere a prerrogativa da presidenta, o que farão com as prerrogativas dos cidadãos?", questionou. "Interpretação desvirtuada, processos equívocos, investigações baseadas em grampos ilegais não favorecem a democracia neste país. Quando isso acontece, fica nítida a tentativa de ultrapassar o limite do Estado democrático de Direito, de cruzar a fronteira que é tão cara para nós que a construímos, que lutamos por ela e que resistimos, a fronteira para o estado de exceção", completou.

A ascensão de Lula ao cargo para fugir do juiz Sergio Moro ocorre exatos dois anos depois do histórico dia 17 de março de 2014, data em que a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Lava Jato, a maior e mais eficiente investigação contra esquemas de corrupção, lavagem de dinheiro e desvio de dinheiro público de toda a história. O ex-presidente petista é a figura mais notória entre os investigados do petrolão. É suspeito de ter recebido favores travestidos de reformas em um sítio em Atibaia (SP), no notório tríplex no Guarujá (SP) e em um sem-número de palestras e doações nebulosas das principais empreiteiras do país, todas investigadas por fraudarem contratos públicos e desviarem dinheiro para pagar propina a políticos e funcionários da Petrobras.

Desconstruindo a carta aberta de Lula. Ou: O falso segue as leis; o de verdade manda tomar no c…

Reinaldo Azevedo 
Veja online



Em sua carta, Lula se diz um fiel observador das leis e homem que respeita o Judiciário. Se é assim, por que ele e seu partido chamam de “golpe” um processo de impeachment que está ancorado na Constituição, nas leis e que teve seu rito definido pelo Supremo? O mesmo Supremo ao qual ele apela agora em busca, diz, de Justiça?

Divulgou-se na noite desta quinta uma “carta aberta” assinada por Lula em que, com medo de ser preso, ele expressa o seu respeito às instituições e, em particular, ao Poder Judiciário, diz-se vítima de injustiça, resume o seu perfil de democrata inatacável e, como de hábito, lembra a sua origem pobre como mais uma evidência de seu exclusivismo moral. Lixo.

Ao redator, dou os parabéns. Quem terá sido? Certamente o exército de advogados opinou, mas alguém conferiu unidade de estilo. Acho que a revisão é de Luiz Dulci. É muito malformado, mas é bem informado. Até já leu bons poetas — o que, como se vê, também não salva ninguém.

Lula diz que sua intimidade foi violada. Depende do que pretende afirmar com isso. De fato, isso aconteceu porque o sigilo telefônico estava quebrado. Mas ilegal, sabem seus advogados, o procedimento não foi porque havia autorização judicial.

Já escrevi no blog e reitero: a reserva quanto ao que veio a público está relacionada àquela parte das gravações feitas depois da suspensão da quebra de sigilo. O resto, os defensores de Lula sabem bem, está dentro das normas. De toda sorte, certamente essa parcela não coberta pelo intervalo da quebra não será usada como prova em juízo.

Sergio Moro pode suspender o sigilo de uma investigação? Pode. Está na sua competência? Sim. Tem autoridade para tornar público o que está nos autos? Tem. Depende da relevância do que lá vai.

Se Lula conversa com a presidente da República e se esta lhe envia um termo de posse para que ele use “apenas se necessário”, a questão, lamento, não é privada, mas pública. Se o ex-presidente diz a um prefeito que só ele próprio tem condições de pôr a Polícia Federal e o Ministério Público Federal no seu devido lugar, também essa não é matéria individual, mas que diz respeito à coletividade. Afinal, ele foi nomeado ministro, não?

Se Lula, feito o condestável da República, pede a um advogado amigo seu que pressione Rodrigo Janot, procurador-geral, a investigar Aécio Neves e se deixa claro que esse procurador lhe deve a eleição — ou teria chegado em terceiro lugar —, também isso não é matéria privada. Se, num bate-papo com Jaques Wagner, logo depois de falar com a própria presidente, sugere que se façam gestões junto a ministros do Supremo para ver atendidos a seus pleitos, isso nos diz a todos respeito.

Os leitores sabem que sempre digo tudo o que penso. Há conversas que vieram a público que, de fato, não têm o menor interesse. O que Eduardo Paes pensa da forma física de Dilma ou o juízo de valor que faz do trabalho de Pezão, convenham, são irrelevantes para o Brasil e a Lava Jato. Podem adensar o anedotário político e pronto. Não vai além disso. A divulgação de tal trecho era, a meu ver, desnecessária.

O Lula da carta, redigida por advogados com receio de que seu cliente seja acusado de obstrução da Justiça — e me parece que tal acusação é absolutamente procedente —, pinta um homem absolutamente conformado com os pressupostos do Estado de Direito.

Infelizmente, o Lula que conversa com Sigmaringa Seixas diz, com todas as letras, que está com o saco cheio de formalidades e cobra do amigo uma interferência informal junto a Janot.

Acho justo que Lula reclame dos vazamentos. Ocorre que ele o faz hoje; lembro que, quando estava na presidência e tal procedimento atingia adversários seus, ele mandou brasa: quem não quisesse a Polícia Federal na sua porta, que andasse direitinho…

É evidente que vazamentos têm de ser coibidos — e não cabe à imprensa ser dona do sigilo. Mas não é menos evidente que eles não determinam a qualidade ou a verdade da informação que se divulga. Nota à margem: as gravações não são vazamentos.

Será mesmo?
Em sua carta, Lula se diz um fiel observador das leis e homem que respeita o Judiciário. Se é assim, por que ele e seu partido chamam de “golpe” um processo de impeachment que está ancorado na Constituição, nas leis e que teve seu rito definido pelo Supremo? O mesmo Supremo ao qual ele apela agora em busca, diz, de Justiça?

Esse Lula supostamente pacífico e respeitador das instituições estará na Paulista, nesta sexta, comandando uma súcia que tem a ousadia de chamar de golpista um processo legal e legítimo. E é ele que vem falar em nome do respeito às leis?

Esse mesmo Lula que faz ares de ofendido permitiu que o partido, que segue o seu comando, e o próprio governo, que agora está sob os seus cuidados, lhe preparassem uma cerimônia de posse em que a imprensa foi hostilizada de maneira vergonhosa. Os brucutus que se manifestavam num espaço que pertence, por excelência, à institucionalidade se opunham, isto sim, é à liberdade de informação.

Não venha agora se dizer um extremoso defensor das leis quem expressa a convicção, em conversa com a própria presidente da República — e com a anuência desta — de que os tribunais estão acovardados e de que algo precisa ser feito.

Não venha agora se dizer um subordinado do Estado de Direito aquele que se declara em guerra, comparando-se ao general comunista vietnamita Vo Nguyen Giap e que, apelando a uma linguagem incrivelmente chula, industria o ataque de mulheres de seu partido a um procurador que o investiga. E o faz apelando a questões que dizem respeito à vida pessoal do outro.

O Lula dessa carta aberta não passa de uma tentativa fraudulenta de responder à fala muito dura de Celso de Mello, decano do Supremo, que falou em nome do tribunal, lembrando que ninguém, nem o Sumo Pontífice do Petismo, está acima da lei.

Esse Lula caroável e servil às leis é uma farsa. O Lula de verdade manda tomar no c… qualquer um que decida enfrentá-lo, ainda que segundo os mais estritos limites legais. O Lula de verdade anunciou que comparece nesta sexta a um ato que vai chamar de “golpe” o cumprimento da lei e da Constituição.

O falso Lula da carta está com medo que o verdadeiro Lula das gravações vá para a cadeia.

Réquiem para Lula e Dilma

Ricardo Noblat



Guardem na memória este dia: 16 de março de 2016.

De manhã, ao dizer “sim” ao convite para ser o todo poderoso Ministro-Chefe da Casa Civil da presidência da República, Lula, na prática, inaugurou seu terceiro mandato, decretando assim o fim antecipado do segundo mandato de Dilma.

À tarde, ao quebrar o sigilo de parte das investigações da Lava-Jato, o juiz Sérgio Moro acabou com o mal inaugurado terceiro mandato de Lula. Caberá ao Congresso, com a pressa que o caso requer, providenciar um novo governo. O país não pode ficar sem um.

A ascensão de Lula deveu-se à inoperância do governo Dilma. A queda de Lula, à sua arrogância, à sua desfaçatez, à sua ambição desmesurada, à sua imprevidência e à sua falta de compromisso com valores e princípios. Nada disso foi descoberto ontem.

Mas tudo isso ficou escancaradamente à mostra com a divulgação do conteúdo de conversas travadas ao telefone por Lula com Dilma, Ministros de Estado e funcionários do segundo escalão do governo. Ouvir Lula falando o que falou choca até os que imaginavam conhecê-lo um pouco.

De resto, ficou demonstrado que ele e a presidente conspiraram juntos para dar uma rasteira na Justiça. A nomeação de Lula para ministro não passou daquilo que até os mais ingênuos desconfiavam: uma rota de fuga. Lula imaginou que fugiria para o céu. Fugiu para o inferno.

Fica para os doutos juristas concluírem o tipo de crime que Lula e Dilma cometeram, se é que cometeram. Obstruíram a Justiça? Trata-se de crime de improbidade administrativa da parte de Dilma? Ou de crime de quebra de decoro? Dilma poderá ser acusada de crime de responsabilidade?
Se ainda lhe restasse um pingo de grandeza, Dilma renunciaria ao cargo para evitar os meses de incertezas, desavenças e conflitos que poderão marcar o processo de impeachment. De Lula, não se espere um gesto de grandeza. Ele nunca o teve.

Nos últimos meses, só cuidou de sobreviver à ameaça de ser preso. E é disso que continuará a se ocupar. Uma vez dentro do governo, usará todos os instrumentos que o poder lhe oferece para salvar a própria pele. Não lhe importa a que custo.

Se necessário, tentará incendiar o país. Foi ele mesmo quem disse, recentemente, ser o único político brasileiro com capacidade de realizar tal proeza. Em um governo sob o seu comando, tudo será permitido desde que se alcancem os objetivos desejados.

Comprar apoios de deputados e senadores para derrotar o impeachment? Ele sabe como fazê-lo. Pressionar ministros de tribunais superiores para que atendam aos seus interesses? Sem problema. Não lhe parece indecente fazê-lo. Na verdade, ele não sabe o que é decência.

Agir para abafar escândalos, para reduzir a independência funcional da Polícia Federal e, se possível, acabar com o que chama de República de Curitiba? Sua eventual salvação depende disso. Considera-se um ungido por Deus a quem tudo é permitido. E tem certeza que todos o temem.

Está mais do que na hora de nos livrarmos dele.

‘Condutas criminosas à sombra do poder jamais serão toleradas’, diz ministro do STF

Carolina Brígido 
O Globo

Celso de Mello sai em defesa da corte e diz que Lula ofendeu gravemente o Judiciário

O Globo (13/11/2013)
 O decano do tribunal afirmou que o foro especial
 não confere tratamento diferenciado aos poderosos  

BRASÍLIA – O mais antigo integrante do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Celso de Mello, fez na tarde desta quarta-feira discurso ferrenho em defesa da corte. Ontem, foram divulgadas escutas telefônicas indicando que a presidente Dilma Rousseff teria nomeado o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a Casa Civil com o intuito de blindá-lo contra ameaça de prisão. Com o cargo, Lula passaria a ser investigado pelo STF, e não pelo juiz Sérgio Moro, na primeira instância da Justiça Federal. O decano do tribunal garantiu que o foro especial não confere tratamento diferenciado aos poderosos – e que criminosos serão punidos independente do cargo que ocupam.

— A República, além de não admitir privilégios, repudia a outorga de favores especiais e rejeita a concessão de tratamentos diferenciados aos detentores do poder ou a quem quer que seja. Por isso, cumpre não desconhecer que o dogma da isonomia a todos iguala, governantes e governados, sem qualquer distinção, indicando que absolutamente ninguém está acima da autoridade das leis e da Constituição de nosso país. Condutas criminosas perpetradas à sombra do poder jamais serão toleradas, e os agentes que as houverem praticado, posicionados, ou não, nas culminâncias da hierarquia governamental, serão punidos na exata medida e na justa extensão de sua responsabilidade criminal — avisou o ministro.

O decano também protestou contra trecho das gravações em que Lula diz a Dilma que o STF era uma corte “totalmente acovardada”. Segundo o ministro, o ex-presidente “ofendeu gravemente a dignidade institucional do Poder Judiciário” com a qualificação “grosseira e injusta”. Ele disse que a atitude é “torpe e indigna” de quem teme a lei. E garantiu que os juízes não hesitarão em condenar quem quer que tenha cometido crime.

— Esse insulto ao Poder Judiciário traduz, no presente contexto da profunda crise moral que envolve os altos escalões da República, reação torpe e indigna, típica de mentes autocráticas e arrogantes que não conseguem esconder, até mesmo em razão do primarismo de seu gesto leviano e irresponsável, o temor pela prevalência do império da lei e o receio pela atuação firme, justa, impessoal e isenta de juízes livres e independentes. (Esses juízes) não hesitarão em fazer recair sobre aqueles considerados culpados, em regular processo judicial, todo o peso e toda a autoridade das leis criminais de nosso país — disse o decano.

Em seguida, com o semblante visivelmente irritado com o noticiário recente, Lewandowski reiterou a defesa do STF.

— Os constituintes de 1988 atribuíram a esta suprema corte a elevada missão de manter a supremacia da Constituição Federal e a manutenção do Estado Democrático de Direito. Eu tenho certeza de que os juízes dessa casa não faltarão aos cidadãos brasileiros com o cumprimento desse elevado hunos — afirmou.

O advogado Pedro Gordilho também subiu à tribuna do plenário para dizer que os colegas que atuavam no STF apoiavam totalmente o discurso de Celso de Mello.

Lula faz do país uma sub-República de bananas

Josias de Souza



A conversão de Lula em superchefe da Casa Civil de uma Presidência em franco encolhimento, aplica na conjuntura política do país um redutor. Tudo fica menor a partir do instante em que, incapaz de elevar a própria estatura, Dilma rebaixa o teto de sua autoridade por meio de um autogolpe.

Em condições normais, os suspeitos costumam ser expurgados dos governos. Sob a anormalidade que passou a reger sua ex-gestão, Dilma rebaixa todos os padrões éticos. Lula chega ao quarto andar do Planalto arrastando as correntes dos processos em que é investigado por corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica.

Os ministros do STF frequentemente acham que estão sentados à direita de Deus. Ao fugir da caneta de Sérgio Moro para refugiar-se atrás do biombo celestial do foro privilegiado —agora convertido em 'desaforo privilegiado'— Lula trata o Supremo como uma espécie de Casa da Mãe Joana de toga, reduzindo-o ao patamar de tribunal de quinta instância.

Considerando-se o conjunto da coreografia, o Brasil, com sua presidente autoconvertida em ex-presidente ainda no exercício da Presidência, virou uma sub-República de Bananas. É o primeiro país do planeta a ser presidido por uma piada.

Lula: ministro ou presidiário?

Gil Castelo Branco 
O Globo



Jararaca é o nome popular dado a várias espécies de serpentes. Alimentam-se de ratos e sapos. São vivíparas, ou seja, dão à luz filhotes. O seu veneno pode ser mortal. Assim sendo, ato falho ou não, foi curioso ver o próprio Luiz Inácio Lula da Silva comparar-se a uma cobra, destas que existem em várias regiões das Américas do Sul e Central.

Para atiçar a sua militância, o ex-presidente disse: “Se quiseram matar a jararaca, não bateram na cabeça. Bateram no rabo, e a jararaca está viva como sempre esteve”. Para os procuradores do Ministério Público Federal, entretanto, já havia suspeitas do rabo preso, antes mesmo da batida. O fato é que a bravata de Lula foi um tiro no pé e adicionou milhares de pessoas à maior manifestação da história do país.

Neste domingo, mais de 3,5 milhões de brasileiros reforçaram a repulsa à jararaca. Há 45 dias, pesquisa divulgada pela Ipsos constatou que para 67% dos entrevistados Lula é tão corrupto quanto os outros políticos. No início do ano, porém, ainda não eram tão comentados assuntos como o triplex do Guarujá, o sítio de Atibaia, o apartamento vizinho ao seu em São Bernardo, o pagamento da Odebrecht pelo armazenamento de sua mudança de Brasília, os recursos pagos à empresa de um dos seus filhos e os presentes recebidos, entre outros.

Poucos sabiam que 47% dos recursos recebidos pela LILS (empresa de palestras de Lula) e 60% dos valores destinados ao seu instituto vieram de empreiteiras envolvidas na Lava Jato: Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Odebrecht, UTC, OAS e Queiroz Galvão. Essas empresas, aliás, se não bastasse tudo o que aprontaram, continuam contratadas pelo governo federal, sem qualquer impedimento para assinarem novos contratos, termos aditivos ou participarem de concessões. No ano passado, juntas, receberam R$ 1,3 bilhão.

Após o MP de São Paulo pedir a prisão preventiva de Lula, aumentou a possibilidade de o ex-presidente assumir um ministério no atual governo. Desta forma, pasmem, ele teria e seus familiares até poderiam invocar foro privilegiado para saírem do raio de ação do juiz Sérgio Moro, tal como está sendo pretendido pelos familiares de Cunha. Se assim for, Lula confiará na lentidão e no julgamento político do STF e Dilma, sem apoio político, entregará definitivamente o governo ao tutor. Se a jogada der errado, morrerão abraçados. No entanto, para quem está se afogando, qualquer rolha é boia. Ironicamente, na internet, circula frase pronunciada por Lula em 1988. “Quando um pobre rouba vai para a cadeia; quando um rico rouba, vira ministro”.

Como a megamanifestação fortaleceu muito a Lava Jato e o juiz Sérgio Moro, a nomeação poderá não se consumar. Mas o que irá acontecer se o ex-presidente for condenado e preso? Para Lula e os devotos do PT, o ex-presidente se tornará um herói. Para a maioria dos brasileiros, se Lula for preso se tornará um presidiário, simples assim.

Certamente, o PT irá espernear, bem como alguns partidos historicamente aliados. Outros, como o PSB já fez e o PMDB cogita fazer, se tornarão independentes e irão se posicionar para o eventual afastamento de Dilma e para as eleições de 2018. Nas ruas, ou na porta do presídio, estarão o MST, a UNE e a CUT, entidades custeadas, em grande parte, com recursos públicos. A UNE, por exemplo, de 2003 a 2016, recebeu R$ 57,5 milhões do governo federal. A CUT, às custas da contribuição sindical que somos obrigados a pagar, amealhou R$ 59 milhões no ano passado.

Para os brasileiros que foram às ruas no último domingo, não há corruptos de estimação. Pouco importa se investigações envolvem doleiros, publicitários, deputados, senadores, governadores, o ex-presidente, ou mesmo, as campanhas eleitorais da presidente. Nas manifestações, políticos de vários partidos foram hostilizados. Ninguém aguenta mais ver o sujo se defender acusando o mal lavado. Na democracia, pau que bate em Chico, pode bater em Cunha, Cerveró, Renan, Odebrecht, Lula, Aécio, Alckmin e em qualquer cidadão desde que, comprovadamente, tenha desrespeitado as leis. Golpe é um “acordão” interromper a Lava Jato. Neste momento em que a corrupção é deslavada e institucionalizada, precisamos conhecer toda a verdade.

Voltando às cobras, para evitar o mal que elas podem causar, é importante preservar os seus predadores, entre os quais as águias. Uma delas, Rui Barbosa, disse: “Deus deixou ao homem três âncoras: o amor à pátria, o amor à liberdade e o amor à verdade. Damos a vida pela pátria. Deixamos a pátria pela liberdade. Mas à pátria e à liberdade renunciamos pela verdade”. Assim seja.

Lula é o “jarareco” desastrado

Sebastião Nery
Tribuna da Internet



O Palácio dos Bandeirantes, em São Paulo, estava agitado naquela noite, em 1984. O governador Franco Montoro tinha convocado os governadores do PMDB e Leonel Brizola, do PDT, para jantar. Com a derrota das eleições diretas na Câmara, ia ser lançada a candidatura de Tancredo Neves à Presidência da República, pelo Colégio Eleitoral. Montoro tinha dado ordens expressas à portaria: só entravam os convidados: governadores, senadores, deputados federais e estaduais e os jornalistas credenciados.

De repente surgiu uma confusão lá fora. Um homem baixinho chegou sem convite e foi barrado. O major-chefe da guarda não o deixou entrar. Ele disse que era governador, o major não acreditou. O baixinho reclamou aos gritos. Lá da varanda, vi, reconheci o visitante e avisei ao governador Franco Montoro, que saiu rápido.

O major grandalhão estava barrando com o braço o pequenino governador do Acre, depois senador Nabor Júnior, um metro e meio de altura. Montoro chegou aflito e irado:

– Major, pode ir embora! Está afastado do Palácio! Não tem condições de exercer essa função. Não conhece o governador Nabor Júnior, do Acre?

O major coitado quase chorou, abaixou a cabeça e foi saindo:

– Ai meu Deus! Desde a escola primária que esse Acre me persegue. Eu nunca acertava a capital. Como é que eu ia acertar agora o governador?

Nabor já estava lá dentro. E nós, alguns deputados e jornalistas, às gargalhadas, pedimos a Montoro para perdoar o pobre major. Foi perdoado.

LULA
Lula é o major do palácio Bandeirantes. Um desastrado. Só se mete na hora errada. E diz besteiras sem parar. Preocupado em manter-se como líder maior do PT, quando abre a boca é para escancarar o baixo nível político de sua esperteza. E o pais lhe dando novos, criativos e perfeitos apelidos, como agora o de “Jarareco”: mistura de “jararaca com pixuleco”.

MILTON REIS
Conheci Milton Reis nos anos 50. Vizinhos de andar no Hotel Financial, em plena Avenida Afonso Pena, no coração de Belo Horizonte. Educadíssimo, de simpatia cativante e boas posições políticas, ele trabalhava para o banqueiro Antônio Luciano, dono do hotel e do Banco Financial e dava seus primeiros passos na vida pública, onde exerceria sucessivos mandatos de deputado estadual e federal pelo PTB mineiro.

Milton era homem de confiança de João Goulart em Minas, amigo próximo de Juscelino Kubitschek e aliado fiel de Tancredo Neves. Foi fidelíssimo à candidatura do marechal Lott à presidência em 1960, mesmo sabendo do naufrágio que se anunciava diante do furacão janista.

Dispensou a presença do pesado candidato da coligação PSD-PTB e percorreu sua região de influência, o rico e histórico sul de Minas, levando a suave e carismática Edna Lott, a filha, que encantava com sua palavra fácil e seu charme, e que iria ter morte trágica, anos depois, na estância climática de Lambari, assassinada por um ex-namorado.

Em 1964 Milton Reis escapou do Ato Institucional nº 1 por conta da má informação dos milicos. Passou por puro descuido, após ter sido um escudeiro fiel do governo de Jango. Reelegeu-se deputado federal pelo MDB mineiro em 1066, ao lado de outros grandes nomes como Tancredo Neves, Simão da Cunha, José Maria Magalhães, Renato Azeredo, João Herculino, Celso Passos e Nísia Carone. Fez dura oposição ao regime militar e, como vice-líder do líder Mário Covas, encaminhou a votação em que a Câmara dos Deputados negou licença para processar Márcio Moreira Alves. No AI-5, em dezembro de 1968, apenas o discreto Renato Azeredo e Tancredo Neves (irmão de general…) escaparam da fúria que dizimou a admirável bancada do MDB de Minas.

POETA E POLÍTICO
Cassado, Milton Reis foi cuidar da vida. Publicou livros de poesia (um deles, “Vozes da Minha Fonte”, prefaciado pelo mestre Agripino Grieco, foi saudado pela crítica como de altíssimo nível), abriu uma financeira e ficou rico. Mas não transigiu, não se acumpliciou, não aderiu aos golpistas de 64. Manteve-se retilíneo e fiel às suas profundas convicções democráticas. Até que em 1982, fazendo a campanha de Tancredo ao governo mineiro, recuperou o mandato que a ditadura lhe havia roubado. Foi meu colega na Câmara, dos melhores e mais atuantes.

Milton era um animal político. Amigo de Tancredo, apoiou Aécio para a Presidência e fez um concorrido jantar em sua casa para o ex-deputado Pimenta da Veiga, candidato tucano ao Palácio da Liberdade. Perguntado pelas possibilidades de Pimenta, foi mineiramente sibilino:

– “Venha, te espero. Não é um jantar de homenagem, é de solidariedade. O Pimenta é boa gente e vai ganhar muita experiência”.

Morreu em Minas meu querido colega, dileto amigo Milton Reis.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Também fui amigo de Milton Reis, que era uma figura notável, tinha uma casa em Copacabana, no Posto Dois, onde deu uma grandiosa festa para Tancredo Neves, quando ele foi eleito presidente. Era educadíssimo, sempre de bom humor, virou um cidadão do mundo, mas tinha paixão por Pouso Alegre, no Sul de Minas, que era sua base eleitoral. Foi o principal responsável pelo desenvolvimento socioeconômico daquela região. É mais um personagem da boa política que se vai, deixando muitos amigos e admiradores. (C.N.)

Em desespero, Dilma tenta autogolpe com Lula

Josias de Souza


O brasileiro já ouviu muitas histórias de gente tirando gênio de garrafas. Mas nunca antes na história desse país se ouvira falar de alguém obrigando o gênio a retornar à garrafa. Na versão de um ministro petista é o que Lula está fazendo com Dilma. Vendida em 2010 como gestora genial, ela foi convencida a entregar ao antecessor o futuro dos escombros que restaram do seu governo.

Numa tentativa desesperada de se livrar do impeachment, Dilma fará de Lula um superministro, com sala no Planalto. Ele chefiará a articulação política do governo e projetará sua sombra sobre toda a Esplanada, especialmente sobre a pasta da Fazenda. Depois de acusar os rivais de tramar um golpe, Dilma recorre a um autogolpe. Lula entrará pela porta dos fundos numa espécie de terceiro mandato.
A manobra envolve alto risco. Ao patrociná-la, Dilma como que exerce um dos poucos privilégios que ainda lhe restam —o privilégio de escolher seu próprio caminho para o inferno. Com o governo esfarelando-se, madame atrelou seu destino ao de Lula, divorciando-se definitivamente das ruas.

No último domingo, o asfalto roncara sobretudo para exigir o impeachment de Dilma e prestigiar Sérgio Moro, cacifando-o para punir inclusive Lula ‘Jararaca’ da Silva. Em resposta a essas demandas, Dilma resolveu unir o inútil ao desagradável: para se manter no cargo, concede à serpente o foro privilegiado dos ministros, livrando a cobra criada do PT dos rigores do juiz da Lava Jato.

O movimento é inútil porque, ainda que consiga deter o impeachment, o máximo que Lula fará por Dilma é acomodá-la no verbete da enciclopédia como a primeira pessoa na história a se tornar ex-presidente ainda no exercício da Presidência. É desagradável porque a presença de Lula na Esplanada, além de não ser um bom exemplo, é um péssimo aviso: o governo entrou na fase do vale-tudo.

Tomado pelo que se diz dele no Planalto, Lula retornará a Brasília para operar milagres. Na política, promete reagrupar o bloco partidário que dava suporte aos governos petistas no Congresso. Na economia, acena com uma reviravolta capaz de abreviar a retomada do crescimento. Falta combinar com a lógica.

Quando ainda era um presidente da República popular, Lula só conseguiu apoio no Congresso comprando aliados com o dinheiro sujo do mensalão e do petrolão. Os parlamentares governistas continuam com o mesmo código de barras na testa. Mas o governo, com a força-tarefa da Lava Jato no seu encalço, já não pode remunerá-los como antes. O novo superministro manuseará um orçamento em ruínas.

Não é só: retratado nas ruas como um boneco-presidiário batizado de Pixuleco, investigado por corrupção, tráfico de influência, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, Luís Inácio já não é o mesmo Lula da Silva. É nessa condição de ex-Lula que terá de convencer o PMDB, por exemplo, de que é mais negócio permanecer com Dilma do que colocar na cadeira dela o correligionário Michel Temer, seu substituto constitucional.

A contabilidade do impeachment favorece Dilma. Para aprovar o pedido na Câmara, os antagonistas do governo precisam reunir 342 votos. Para barrar o impedimento, o Planalto tem de juntar apenas 171 votos. Líder do governo na Câmara, o deputado José Guimarães (PT-CE) afirma que, se o governo não tiver algo como duzentos votos no plenário, é porque a propalada governabilidade já foi para o beleléu.

Na economia, a guinada defendida por Lula e seus devotos no PT passa pelo abandono de projetos como a reforma da Previdência e de estratégias como o rigor fiscal. Tudo em nome de uma hipotética retomada do crescimento ainda em 2016. Como se fosse possível colher bons indicadores sem plantá-los.

De resto, a aposta do Planalto na capacidade de Lula de fazer e acontecer desconsidera o fato de que a Lava Jato introduz na conjuntura muitas surpresas, espantos, choques, assombrações e uma certa dose de ‘sim senhor, quem diria?!?’.

Nesta segunda-feira, por exemplo, enquanto o morubixaba do PT se equipava para os novos desafios, veio à luz a notícia de que o ex-deputado federal Pedro Corrêa, cacique da tribo do PP, preso em Curitiba, fechou um acordo de delação premiada com a força-tarefa da Lava Jato.

Corrêa contou aos investigadores, entre outras coisas, que Lula tinha plena ciência das propinas que o PP beliscava na Petrobras. Aos pouquinhos, a turma de Curitiba vai fechando o cerco ao redor de Lula. Ainda que fuja de Sérgio Moro, o presidente informal da República terá de se entender com o STF. E já estão no forno novas delações.

Fica-se com a impressão de que Dilma passará a dispor não de um ministro providencial, mas de um cúmplice full time. De certo mesmo, o autogolpe propiciará, por enquanto, uma perda da dignidade funcional de uma presidente em apuros. E dignidade é como virgindade. Perdeu, está perdida. Não dá segunda safra.

Ali Babá e os 40 alopradões.

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Dilma pensava em salvar seu Governo tirando o gênio da garrafa. Mas, fã de Alice no País das Maravilhas, não conhece as Mil e Uma Noites. Nos tempos de Ali Babá, os tesouros ficavam numa caverna, que se abria com a senha Abre-te Sésamo. Hoje, os 40 ladrões se multiplicaram. Os tesouros ficam num cofre de banco ou num sindicato e parte é alopradamente usada para comprar silêncios. Mas quem vende silêncio costuma delatar os compradores para sair da cadeia.

O problema, para o Governo, é que as delações saem aos poucos. Se todas surgissem ao mesmo tempo, daria para inventar uma história boa, que arrumasse os fatos. Não está dando: inventa-se uma história bonitinha, eu não sabia, a casa era emprestada, toma que o filho é teu, e aí surge nova delação, desmentindo tudo. As denúncias de Delcídio, agora liberadas, são de arrepiar. E atingem, com gravação e tudo, o mais fiel dos fiéis, Aloízio Mercadante. Na sexta, quando Dilma disse que ia renun..., quer dizer, que não ia, ou sabe-se lá, quem era o único ministro a seu lado? Ele: Aloízio Mercadante. Que propôs a um assessor de Delcídio tudo o que fosse pedido, em troca de não haver delação premiada. Algum promotor mal-humorado pode entender isso até como obstrução à Justiça.

Delcídio cita Lula, Dilma, políticos do PP, PMDB, PT, PTB. E Delcídio pode ser fichinha: o deputado federal Pedro Corrêa, do PP, também decidiu falar. É do ramo, sabe como as coisas são feitas. Ele nunca quis aparecer: nomear e dividir, era disso que gostava. Pelo jeito, a Federal terá de importar japonês.

Aloprem-se
Lula deve favores a Mercadante - que, entre outras coisas, desistiu de uma eleição garantida para a Câmara Federal para ser vice de Lula, que não tinha chance. Mas, apesar disso, Lula não quer Mercadante por perto. Considera-o afoito, incapaz de um projeto que dê certo. Foi Lula que chamou a equipe de Mercadante de "os aloprados" numa eleição estadual, em que José Serra já estava eleito. Os petistas acharam que valia a pena comprar um dossiê falso contra ele e foram apanhados.

Por pouco não atrapalharam a reeleição de Lula em 2006. 

Recordando
Pedro Corrêa está condenado a 20 anos e sete meses de prisão (e preso desde 10 de abril do ano passado), por recebimento de propina de R$ 11,7 milhões, 72 crimes de corrupção passiva, mais 328 operações de lavagem de dinheiro.

Mercadante, antes de buscar o assessor de Delcídio, tentou contato com a família do senador. Mas a esposa Malka recusou qualquer conversa com ele. Desde o início, irritada com o comportamento dos antigos companheiros de Delcídio, que o abandonaram, defendia que o marido optasse pela delação premiada.

Prevendo
Não dá para jurar que o autor dessas frases seja o citado. Mas é de ambos que me lembro. De Pedro Malan, ministro da Fazenda: "No Brasil, até o passado é imprevisível". De Joelmir Beting, um dos maiores jornalistas do país: "Prognóstico bom só depois do jogo". 

Mas arrisquemos: Lula pode ir (ou não) para o Governo. Mas não irá nem para a Fazenda nem para a Casa Civil, porque as empreiteiras e os amigos ainda não terminaram de reformá-las. Se for para o Governo, e der certo, teremos, como nunca dantes neste país, uma ex-presidente em exercício (todas as manhãs, alguns quilômetros de bicicleta). Se não der certo, teremos dois ex-presidentes em exercício, até que o vice Temer os convide a descansar.

Vale tudo
A entrada de Lula no Governo é a última tentativa de sobrevivência de Dilma. Lula sem dúvida é politicamente mais competente do que ela e qualquer dos seus ministros. Pode fazer algumas indicações interessantes - uma boa aposta seria Henrique Meirelles, que foi seu presidente do Banco Central, para o Ministério da Fazenda - isso se ele estiver disposto a aceitar as teses de Meirelles, que não assumirá pasta nenhuma para perder sua reputação. 

Mas os riscos são altíssimos: primeiro, a discussão jurídica, se a nomeação tem ou não o objetivo de salvá-lo do juiz Sérgio Moro; segundo, a superexposição a que ficam submetidos sua esposa e três de seus filhos, que não têm foro privilegiado; terceiro, os resultados a curto prazo. Lula assumiu em 2003 como esperança e hoje está longe de ter o apoio de que já desfrutou. E, alvo de delação premiada (Delcídio o aponta como responsável por providências que podem causar problemas), sobreviverá? 

O PMDB como é
OK, o PMDB decidiu, mais ou menos, afastar-se de Dilma, mas deu 30 dias de prazo para efetivar o rompimento - em outras palavras, espremer o resto do leite das tetas quase secas do Governo. Ninguém precisa deixar seu cargo até lá. 

Em compensação, nenhum membro do partido pode aceitar um convite - menos, naturalmente, o deputado Mauro Lopes, que esperava há tempos ser nomeado ministro da Aviação Civil. Como não disse Sua Excelência, o PMDB sempre lutou por cargos; vai mudar justo quando a vez dele chegou? Então, tudo bem, nada de inflexibilidade. 

E, se mais cargos houver, mais exceções haverá.

Chumbo Gordo - www.chumbogordo.com.br
carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann

É o fim

Editorial 
Folha de São Paulo 

A nomeação do ex-presidente Lula (PT) para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil poderia expressar o estado de desespero terminal em que se encontra um governo com índices baixíssimos de popularidade e com escassa sustentação para evitar o próprio impeachment no Congresso.

Há mais, entretanto. Logo após sacramentada a inclusão de Lula no ministério, divulgou-se a gravação de uma conversa entre este e Dilma Rousseff (PT), na qual se escutam claras indicações de que não se resumiam a raciocínios políticos os objetivos da nomeação.

Confirma-se aquilo que os mais exacerbados adversários do governo foram rápidos em considerar como essencial na manobra.

Na iminência de ter decretada sua prisão por Sergio Moro, juiz federal que trata das decisões em primeira instância da Operação Lava Jato, o líder máximo petista queria se blindar, posicionando-se num cargo com foro privilegiado.

Pelo telefone, Dilma assegurava a Lula que seu termo de posse no ministério estava pronto; seria enviado para "caso de necessidade".

Como entender tal conversa se não como um verdadeiro acerto entre elementos interessados em fugir ao alcance da lei?

Será a palavra "cumplicidade" forte demais para aplicar a uma presidente da República e a um ex-presidente que se afobam em arranjar artifício desesperado para manter a corrupção impune, a Justiça paralisada e o privilégio intacto?

A dupla superou, com certeza, tudo o que já se tinha visto no PT e arredores em matéria de cinismo, de imprudência e provocação.

Cinismo, porque poucas horas antes a presidente concedera entrevista refutando a tese de que Lula estava sendo nomeado apenas para escapar da polícia. Tratar-se-ia, na verdade, de obter novas energias políticas no enfrentamento da crise.

Mas não: o argumento elaborado vinha, ao que tudo indica, apenas disfarçar o que merece ser chamado de esforço de atrapalhar o livre funcionamento do Judiciário.

Imprudência, portanto: às voltas com iminente pedido de impeachment, a presidente dá novos e escandalosos fundamentos a uma possível ação contra seu mandato.

Provocação, acima de tudo. Dias depois de um protesto com dimensões jamais registradas na história do país, Dilma e Lula se associam para acender, de forma provavelmente irreversível, uma indignação popular ainda mais intensa.

Mal anunciada a manobra, iniciou-se uma manifestação espontânea em frente ao Palácio do Planalto. A afluência popular repetiu-se em São Paulo e só fez crescer quando se teve notícia das gravações comprometedoras. No Congresso, a palavra "renúncia" é pronunciada aos brados pela oposição.

Já se dizia que, com a nomeação de Lula, o governo Dilma Rousseff chegava ao fim. Talvez a frase deva ser encarada, a partir dos próximos dias, de forma mais literal do que se pensava.

Os motivos de Lula Lá no Ministério

Claudio Tognolli



Lula no comando da parte econômica… na verdade é instrumento para poder usar o dinheiro público para comprar apoio o congresso para:

1) Não fazerem o impeachment. 2) Mudar a lei para castrar a lava jato.

O plano é alastrar as delações. 
E colocar o congresso no mesmo barco. 

 Aí o lobby de Lula vai mudar a lei com apoio dos delatados e a compra dos que não foram atingidos.

 Lula vai para articular isto. 

Esta será a prioridade do uso dos recursos públicos.

E mais:

Nesse plano também se inclui fazer campanha e populismo como aumentar as bolsas famílias e se lançar candidato em 2018. 

Na verdade: comprar o congresso e os eleitores para 2018.

Esse é o plano. Quem viver verá…

Momentos de República bananeira

Clóvis Rossi
Folha de São Paulo 

Bastou Luiz Inácio Lula da Silva voltar ao primeiro plano da cena política para que se pudesse usar seu bordão: nunca antes neste país o Brasil viveu momentos tão intensos de República bananeira.

A divulgação da gravação de conversa entre Lula e a presidente Dilma Rousseff mostra cenas explícitas de baixaria partidas de quem, mesmo tendo deixado a Presidência, teria a obrigação de zelar por um mínimo do que se convencionou chamar de "majestade do cargo".

A gravação faz com que a crise atravesse a praça dos Três Poderes e se instale (também) no prédio do Supremo Tribunal Federal.

Afinal, a iniciativa de Dilma de promover uma, digamos, "nomeação express"é uma clara tentativa de obstrução da Justiça.

Não que Lula, ao ser nomeado, ganhe imunidade. Mas ganha a possibilidade de ter a investigação contra ele passar para um degrau acima do juiz Sérgio Moro, sempre disposto a emitir ordens de prisão contra poderosos do setor público ou privado.

Qualquer ação contra Lula, portanto, terá de ser autorizada pelo Supremo —essa instituição que está "totalmente acovardada", na avaliação de Lula revelada pelo grampo.

A sabedoria convencional manda dizer que uma afirmação desse teor tende a predispor o STF contra Lula. Um de seus ministros, Gilmar Mendes, já tomou publicamente posição contra a nomeação de Lula, mas esse não é um dado definitivo sobre o conjunto da Casa, porque Gilmar é notoriamente contrário ao governo.

Bem feitas as contas, o vazamento da gravação anulou o efeito positivo que o governo imaginava ter obtido com a aceitação por Lula do cargo de chefe da Casa Civil.

O que se admitia no próprio Palácio do Planalto, antes da nomeação, é que Lula representava a última carta da presidente para manter-se no cargo.

Hoje por hoje, nos cálculos de governistas fiéis, mas não cegos, o governo não dispõe de votos suficientes para barrar o impeachment, se e quando o processo começar no Congresso.

Parêntesis: há quem, entre os governistas, acredite que nem Lula operará o milagre de salvar Dilma, dada como em estado terminal.
Fecha parêntesis.

O relevante no fato de que a crise atravessou a praça é que também no STF, pelo que a Folha pôde apurar, se considera que Lula-ministro é a última bala que resta na agulha do revólver de Dilma para se defender.

Se é assim, a tendência natural do Supremo é a de funcionar como bombeiro. Ou, em termos práticos, evitar derrubar a nomeação de Lula, mesmo que a oposição ou o Ministério Público recorram à Corte Suprema, alegando tentativa de obstrução da Justiça.

Essa tendência pode, no entanto, ser modificada pelo teor das declarações do ex-presidente contra o STF. Acho improvável que os ministros partam para uma retaliação, mas a situação geral é de um tal confusão que qualquer previsão é uma aventura.

Tudo somado, tem-se que o dia começou com o governo certo de que tinha uma mão de cartas boa para sair do corner, com Lula ministro, e termina com a suposta bala de prata oxidada.

De paz e amor a jararaca

Fernando Gabeira
O Estado de S. Paulo 

A crise brasileira é tão asfixiante que às vezes preciso de uma pausa, ouvir música, ler algumas páginas de romance. Em síntese, recuperar o fôlego.

As crises assumem ritmos mais rápidos no seu final. A reação de Lula na entrevista coletiva, ao sair da PF, não me pareceu a de um candidato.

Em 2002 foi difícil vencer com o “Lulinha paz e amor”. Em 2018 será impossível vencer como jararaca. Um candidato não se identifica com uma cobra peçonhenta. Nem se considera a alma mais honesta do Brasil. Verdade que seu marqueteiro está na cadeia. Mas onde está a intuição política que sempre lhe atribuem?

Ele perdeu a cabeça e, com ela, a chance de representar a serenidade do inocente. Seu marqueteiro representou. Não evitou a cadeia, mas, pelo menos, era um scriptmais elaborado.

Lula queria ser algemado. O marqueteiro e a mulher, também. Eles colocaram as mãos para trás, incomoda menos que as algemas reais, mas não tem o mesmo efeito. No fundo, um tremendo esforço para se fazer de vítima, conquistar pela emoção a simpatia que os fatos liquidaram.

Na Justiça, a decisão vai trabalhar com os fatos. Se alguém, realmente, quer contestar sua provas, precisa argumentar também com evidências.

Nem sempre as decisões na esfera do crime são bem recebidas. Em muitos pontos do Rio, prisões resultam em protestos, queima de pneus e bloqueios. Alguns líderes religiosos, quando presos, também emocionam seu rebanho.

No campo da política, há sempre o cuidado com os conflitos sociais. Para quem viu conflitos sociais, o que aconteceu na sexta passada foi apenas uma briga de torcidas e, na verdade, mais pacíficas que as de futebol.

Leio num jornal brasileiro que iriam buscar, entre outros, um gesto de solidariedade de Nicolas Sarkozy. Leio num jornal francês que Sarkozy também está às voltas com a polícia. Sujou, bro.

Apesar de seu ritmo, os últimos dias têm trazido uma ponta de otimismo, mesmo nos mercados, que são tão voláteis. Esse otimismo está baseado na queda de Dilma, mas deve ser estendido também a Eduardo Cunha. Os dois são rejeitados pela maioria. Não se trata apenas de festejar uma queda, desfazer-se de uma pedra no caminho. É criar uma chance de, superando o impasse político, recuperar a economia.

O que move as pessoas no domingo não é só a unânime luta contra a corrupção, mas também a clareza sobre as dificuldades cotidianas. Elas podem não ter uma noção clara do que deva ser feito. Mas sabem que algo precisa ser feito. E urgente.

Sempre que foi preciso, a sociedade brasileira manifestou-se claramente. Será assim no domingo e, para dizer a verdade, não acredito em conflitos, como algumas vozes do PT sugerem e Dilma confirma, a seu modo, pedindo paz.

As coisas vão se resolver de forma tranquila e o bicho-papão não tem como amedrontar ninguém. Escaramuças pode haver, mas seriam mais um caso de polícia: mais gente presa e neutralizada.

É ingênuo supor que as pessoas, dando-se conta de que o País está à deriva, com um governo que se elegeu com grana da Petrobrás, numa enorme crise econômica, vão ficar em casa só porque uns caras de camisa vermelha fazem cara feia ou gestos obscenos com o dedo.

Quando as pessoas denunciam a corrupção estão baseadas em fatos reais, documentados, investigados com rigor. Sabem que a Petrobrás foi saqueada, sabem dos milhões de dólares que foram repatriados. Não adianta cara feia. Se isso fosse uma saída histórica, bastava saquear o País e dizer: não me prendam porque senão vamos para as ruas gritar; não apareçam para protestar porque estou bravo, viro uma jararaca.

Outro dia, o bispo auxiliar de Aparecida recomendou aos seus fiéis pisarem na cabeça da jararaca. E um juiz condenou um adversário do PT a pagar multa de R$ 1,00 por ter criticado o partido. E ironizou que é um partido que tem a pessoa mais honesta de todas.

O bispo via a luta contra a jararaca como a luta entre o bem e o mal. Quem se colocou como cobra venenosa foi o próprio Lula. E o fez num recado para a Justiça. É uma declaração subconsciente de culpa: jararaca eu sou, acontece que vocês não atingiram minhas funções vitais, sigo sendo uma cobra venenosa.

Dilma reclamou de injustiça, mas até hoje não defendeu Lula no mérito. Colaborou na forma: protestou pelo fato de a Lava Jato tê-lo levado a depor debaixo de vara.

Inconscientemente, Lula pediu para ser destruído. O bispo levou-o ao pé da letra. A Lava Jato certamente entendeu de outra forma. E optou pela pesquisa. São os fatos que já existem e os que ainda não foram divulgados que vão definir o destino do governo e de Lula.

Tanto parlamentares como juízes precisam saber claramente o que a sociedade pensa. Não trabalham com pesquisa e, de qualquer forma, não se antecipam nunca. São viciados no único estímulo: um sopro na nuca, de preferência um vento bem forte, 100 km por hora.

Em outras palavras, a manifestação de domingo pode ser o sopro que falta para romper o impasse político. Mas, de qualquer maneira, a vaca já foi pro brejo. Não há horizonte com o governo Dilma, exceto empobrecer mais, enquanto ela luta por se agarrar no cargo.

No domingo há, ainda, a chance de uma aproximação maior de todos os que querem mudança. É fundamental que estejam próximos durante a travessia até 2018. Esta, sim, já me preocupa mais que as bravatas de Lula. Precisa de um mapa do caminho para recomeçar em 2018 com a economia recuperada e um grau de consciência nacional que não deixe jamais o Brasil chegar ao ponto a que chegou.

Essa é minha esperança. Por ela vou às ruas. Não para me expressar, pois isso posso fazê-lo com liberdade na imprensa. Nem para flertar com a política, interesses partidários ou eleitorais. Vou para a rua porque acho que é o lugar onde devem estar todos os que queiram tirar o Brasil do buraco e encerrar este triste episódio histórico.

Vou para a rua porque é onde devem estar todos os que queiram tirar o Brasil do buraco.

Um prodígio inédito

J. R. Guzzo
Revista EXAME

Não é possível, pela lógica comum, esperar nada de bom no futuro próximo de um país que caminha para completar 15 meses sem governo. Dá para esperar menos ainda quando se considera que, por exigência da lei, alguém tem obrigatoriamente de ocupar o cargo de presidente da República — o que lhe dá a oportunidade diária de tomar decisões erradas, sem que haja a menor chance de fazer alguma coisa certa, mesmo sem querer. Não dá: para profundo azar do Brasil como um todo, quem está na presidência é uma pessoa que erra com obsessão inédita há cinco anos seguidos, não consegue dizer nada que faça o menor nexo quando fala em público e perdeu, claramente, o equilíbrio mental mais rudimentar que se exige para a tarefa de governar seja lá o que for. Ainda pior, enfim, sempre pela mesma lógica, o comandante político que a colocou na cadeira mais elevada do poder público nacional, e sem o qual a atual presidente da República continuaria sendo uma cidadã perfeitamente desconhecida e provavelmente inofensiva, está, ele próprio, destruído moralmente. 

Enrolado de corpo, alma e cabeça com a Justiça penal, o ex-presidente Lula torna-se a cada dia um sério candidato a acabar sendo considerado o responsável pelo governo mais corrupto que o Brasil sofreu em toda a sua história. Muito bem, deu a lógica: está oficialmente confirmado que o país teve uma queda de 3,8% no PIB de 2015, a pior desde 1990. Mais que isso, com a recessão já contratada de 2016, os governos Lula, Dilma Rousseff e PT terão dado ao Brasil a mais longa série anual de retrocesso econômico de toda a sua existência como nação independente.

Dilma, por si só, é a responsável por um prodígio sem precedentes nos registros da economia mundial: sua passagem pela presidência da República já custou 1,6 trilhão de reais de prejuízo ao patrimônio geral do Brasil e dos brasileiros. É isso mesmo. O número chegou e passou a casa do trilhão, um tipo de cifra que só se consegue imaginar nas abstrações da matemática. Trata-se do que os economistas chamam de “prejuízo bruto”, ou a perda pura, simples e direta de riqueza e renda. A conta é simples. O PIB real do país no fim de 2015 deveria estar acima de 7 trilhões de reais, se tivesse havido um crescimento modestíssimo da economia nos cinco anos Dilma. Ficou abaixo do que era no final de 2013, às vésperas de sua segunda vitória na disputa pelo Palácio do Planalto. 

O Brasil está caminhando para inteirar oito trimestres seguidos de recessão, limite a partir do qual o vocabulário econômico começa a utilizar a palavra “depressão”. Nunca antes, na história deste país, alguém conseguiu algo parecido. A dívida pública criada por Lula e Dilma é a maior de todos os tempos, e está aumentando. Em 2015 o governo tirou dos impostos pagos pelos brasileiros mais de 500 bilhões de reais para pagar juros de sua dívida — e pagar aos “rentistas” tão odiados no palavrório oficial. Chama o que está devendo de “programa social”; na vida prática é apenas a mais espetacular transferência de renda que o Brasil já conheceu. A inflação chegou perto dos 11% ao ano. O desemprego, pelas contas de janeiro, estava rolando na base dos 100.000 demitidos por mês. Aí já é extermínio — ou, talvez, mais corretamente, anarquia, como mencionado no início da página. Dobramos a meta.

Os últimos acontecimentos políticos tornam tudo isso ainda mais funesto. O ex-presidente Lula, depois de ser levado pela polícia para um interrogatório, parece ter desistido de enfrentar seus atuais e crescentes infortúnios valendo-se da lei, como têm feito todos os acusados de corrupção pela Operação Lava Jato. Resolveu, pelo menos de boca, declarar guerra à democracia ao se recusar a obedecer as decisões da Justiça brasileira, chamar suas milícias para a violência na rua e ofender, com o linguajar de sarjeta mais agressivo que jamais tinha utilizado em público até hoje, autoridades legais, adversários e qualquer brasileiro que não se submeta a ele. A lógica disso tudo é muito ruim.

O pecado de Dilma

 Vicente Nunes 
Correio Braziliense

A contagem regressiva começou. Dentro e fora do governo já se admite que a presidente Dilma Rousseff será afastada do poder nos próximos meses. Ainda que nada de concreto sobre a corrupção da Petrobras tenha atingindo a petista, a pressão para que ela sofra o impeachment tornou-se incontrolável. Com o grito ecoado das ruas no último domingo, será difícil reverter a disposição do Congresso em interromper o mandato presidencial.

A perspectiva entre integrantes da equipe econômica é de que, agora, o movimento pelo fim do governo será liderado pelos empresários, que estão vendo parte importante dos negócios ruir. Como muitos têm fortes ligações com políticos, vão cobrar uma decisão rápida, que possa resgatar a confiança no país. Entre os donos do dinheiro, ninguém acredita na capacidade de Dilma de liderar um processo que retire o país da gravíssima recessão.

Os relatos sobre empresas que vêm chegando ao Ministério da Fazenda e ao Banco Central são alarmantes. Se a paralisia da atividade perdurar por mais três ou quatro meses, uma leva de grandes empresas irá à bancarrota. A lista é enorme e diversificada. A quebradeira só não se tornou realidade ainda porque há uma ação coordenada entre os bancos para renegociar e alongar as dívidas até a tempestade passar. O problema é que o quadro de incertezas só se agrava.

Em conversa recente com técnicos da equipe econômica, executivos de um dos maiores bancos do país disseram que, há meses, não realizam novas operações de empréstimo a grande empresas. Os negócios atuais se restringem a rolar débitos por total incapacidade de pagamento. Essas rolagens estão, porém, se esgotando, pois a geração de caixa das companhias é cada vez menor. Não há produção, e as vendas despencam. O grito de socorro já está na ponta da língua.

Complacência 
Os empresários reconhecem que a pecha de corrupta ainda não colou em Dilma, mas acreditam que ela pagará o preço de o partido dela, o PT, ter comandado o maior esquema de desvio de dinheiro público da história. Não há como dissociá-los. O maior pecado de Dilma, pelo menos até agora, foi ter destruído os pilares da estabilidade econômica. Ela simplesmente trouxe de volta a inflação, a recessão e o desemprego, destruindo a sensação de bem-estar que, por anos, sustentou a complacência da população com os desmandos no país.

Nada indica, porém, que a saída de Dilma vá resgatar o Brasil do atoleiro. As opções que se colocam são terríveis. O vice-presidente Michel Temer está citado em várias depoimentos colhidos pela Justiça dentro da Lava-Jato. Tanto o presidente do Senado, Renan Calheiros, quanto o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que aparecem na linha de sucessão, podem ser denunciados e presos. A população já demonstrou que não comprou o discurso vazio do PSDB de Aécio Neves, que foi obrigado a se retirar das manifestações em São Paulo debaixo de vaias.

Diferentemente de 1992, quando Fernando Collor de Mello foi defenestrado do poder por corrupção, hoje não há uma base política forte para dar suporte a quem vier a assumir o lugar de Dilma, caso ela deixe o governo. Nenhum dos postulantes tem a imagem de honestidade de Itamar Franco, que avalizou o Plano Real. Não por acaso, as ruas demonstram tanta aversão aos políticos, independentemente da ideologia. Para o eleitorado, o sistema político se tornou sinônimo de corrupção, uma visão perigosíssima, que abre espaço para aventuras e o fortalecimento da extrema direita.

Abraço dos afogados 
Sem solução simples à vista, o destino do Brasil será derreter, caminhando para o mais dramático dos cenários: a depressão econômica. O Banco Central mostrou que, em janeiro, quando se esperava os primeiros sinais positivos da economia, o país encolheu 8,12% em relação ao mesmo período do ano passado. Esse tombo, medido pelo Índice de Atividade Econômica (IBC-Br), desconsidera os fatores atípicos do período. Por isso, já se fala em retração entre 6% e 7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2016 se a crise política se estender.

Há, no governo, quem acredite que Dilma pode recuperar o fôlego se o ex-presidente Lula assumir um ministério com a missão de mudar a política econômica. Ele acredita que, se o governo voltar a gastar, a distribuir dinheiro para os mais pobres e para o empresariado, conseguirá reverter o ânimos e enterrar o processo de impeachment. Lula, caso aceite o convite de Dilma, trará de volta o populismo que prevaleceu nos quatro primeiros anos de mandato da atual chefe do Executivo e que quebrou o país.

Ao partir para a gastança, Lula poderá agradar às bases sindicais, que pedem mais deficit público, e reunir os poucos mais de 170 votos no Congresso para garantir a sobrevida de Dilma. Mas, em vez de recuperar o país, o empurrará de vez do precipício. O petista é investigado pela Lava-Jato, tem um mandado de prisão sendo analisado, não inspira mais confiança entre os agentes econômicos e é rejeitado por parte significativa dos eleitores. No atual contexto, O risco é de Dilma e Lula afundarem abraçados e levarem o Brasil para o estado de anarquia no qual ninguém consegue governar.

Dr. Eugênio Aragão também não pode ser ministro da justiça

Jorge Béja
Tribuna da Internet


Juridicamente e moralmente, a nomeação de Eugênio é indevida

A entrega da pasta da Justiça ao vice-procurador-geral eleitoral, doutor Eugênio Aragão, merece censura. Franca e contundente. Acima da legislação que trata desta escolha, aceitação e nomeação, está a moralidade pública que não as permite e veda. Governo, partido e parlamentares governistas (ou não) que estão sendo investigados, denunciados e condenados por iniciativa do Ministério Público Federal por crimes de lesa-pátria, não poderiam e não poderão, jamais, ter como ministro um membro deste próprio Ministério Público Federal, do seu mais alto escalão, aliás. Anda mais ministro da Justiça. Que barbaridade!

É uma acumulação imoralíssima. Seria o mesmo que convocar um juiz ou desembargador federal (do Paraná, de preferência), ou convidar ministro do Supremo ou do Superior Tribunal de Justiça, para ser, também, ministro de Estado. O impedimento que recai sobre o doutor Eugênio é impedimento natural. É supralegal. Nem precisa constar da legislação. É questão de pudor, de sensatez, de brio, de honorabilidade… Quem integra instituição a cujos membros competem investigar, denunciar e julgar os integrantes dos poderes Legislativo, Executivo e Judiciário não pode exercer outra função pública em qualquer um desses três poderes da República.

O doutor Eugênio Aragão integra o Ministério Público Federal. É ele um dos 73 subprocuradores-gerais da República. Desde que assumiu a promotoria pública e após dois anos de exercício, o doutor Eugênio nunca mais deixará de ser promotor (procurador) público federal. Seu cargo é vitalício. Com que autonomia, com que liberdade, independência e sem subordinação a um governo que seus próprios pares investigam e denunciam por práticas criminosas, o doutor Eugênio Aragão vai desempenhar a função de ministro da Justiça? Será que ele próprio se sentirá à vontade e fará uma gestão apolítica, imparcial e isenta?

Quero ver o dia em que Dilma escalar o ministro da Justiça Eugênio Aragão para reprovar um gesto, uma ação ou atitude que a promotoria pública federal tenha tomado contra este(s) ou aquele(s) membro(s) integrante(s) do seu governo.

QUESTÃO LEGAL
A Constituição Federal proíbe que membros do Ministério Público exerçam, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo uma de magistério (CF, artigo 128, II, letra “d”). No mesmo sentido dispõe a Lei Orgânica do Ministério Público da União (Lei Complementar nº 75 de 1993): “É vedado aos membro do Ministério Público da União…IV – exercer, ainda que em disponibilidade, qualquer outra função pública, salvo uma de magistério” (artigo 237, nº IV). A justificativa legal para que o doutor Eugênio Aragão, sem deixar a carreira no MPF, assuma o ministério da Justiça, estaria no artigo 29, § 3º dos Atos das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT), que é um anexo integrante da Constituição Federal de 5 de Outubro de 1988. Lá diz que o membro do Ministério Público, que já integrava a instituição antes da promulgação da Carta da República, poderá optar pelo regime anterior à Constituição, no que diz respeito às garantias e vantagens. E quanto às vedações, ficam referidos integrantes sujeitos à situação jurídica anterior, não se sujeitando, portanto, às proibições introduzidas com a nova Carta de 5 de Outubro de 1988. É verdade.

Antes da promulgação da CF/88, as Constituições de 1946 e 1969 não previam tal vedação. Daí porque o doutor Eugênio Aragão, que ingressou no MPF em 1987, não estaria apanhado pela proibição do artigo 128, II, “d” da Constituição de 88, ao contrário de seu colega, doutor Wellington César, que ingressou no MPF após 1988, chegou a ser empossado ministro da Justiça, mas teve que deixar a pasta por ordem do STF.

QUESTÃO MORAL
Tá bem. O fato do doutor Eugênio Aragão ter ingressado no Ministério Público em 1987, antes, portanto, da Constituição de 1988, não o impede de, mesmo sem deixar a carreira na promotoria pública federal, assumir, também, o cargo de ministro da Justiça. Há embasamento legal, muito embora discutível, uma vez que frente à Constituição não existe Direito Adquirido, e isto se aprende nos bancos das faculdades de Direito quando se começa a estudar Direito Constitucional. O que a nova ordem constitucional impõe derroga e faz desaparecer do mundo jurídico todos os anteriores preceitos que com ela não se conformam. Ou que com a nova ordem seja(m) colidente(s) e incompatível(veis), ainda que contida na mesma Carta, daí advindo a chamada Inconstitucionalidade à (própria) Constituição.

ESTÁGIO PROBATÓRIO
Além disso, a vitaliciedade o doutor Eugênio Aragão só veio adquirir em 1989, após cumprir dois anos seguidos no exercício da promotoria pública. É assim para promotores e para juízes. É o chamado “estágio probatório”. Ocorre que nem tudo que é legal é moral. Um exemplo: legalmente, credor de uma dívida prescrita não pode mais cobrá-la, nem o devedor tem o dever de pagá-la. E moralmente?

Outro exemplo: aos membros do Ministério Público Federal compete, dentre outras funções institucionais, exclusiva e privativamente, investigar e promover a ação penal pública contra agentes públicos federais, do mais simplório até o presidente da República, e que tenha(m) cometido crime(s) contra os bens materiais e imateriais na Nação. Isso é rigorosamente legal. Mas, sem deixar o MPF,esses mesmos membros podem ir também integrar o Executivo, que é um dos três poderes sobre os quais o Ministério Público Federal tem sob os seus olhos de fiscalização e poder de atuação repressiva? Isso é moralmente aceito? É decente?

Vamos aguardar para ver se algum partido político dê entrada no STF com outra ação de Descumprimento de Preceito Fundamental, para barrar essa outra indicação de Dilma, como ocorreu com o anteriormente indicado, o doutor Wellington César.

QUESTÃO DE MORALIDADE
Não é o tempo, nem uma determinada data que torna indecente e moralmente recusado o que antes era tolerado como decente a aceito moralmente. Antes ou depois da Constituição Federal de 1988, a moralidade administrativa jamais aceitou ou aceita que um Procurador da República, um Promotor Público Federal, sem deixar a instituição à qual pertence, vá ser ministro da Justiça de um governo e partido que a própria Procuradoria da República fez sentarem-se no banco dos réus e serem condenados. A incompatibilidade é total. São opostos que não se atraem.

Conversa vadia de Mercadante conduz a Dilma

Josias de Souza

Há cadáveres demais nos autos da Lava Jato. Insepultos, produzem um fedor lancinante. Como em toda grande tragédia, a contagem das vítimas do petrolão é lenta. A pilha de corpos cresce a cada nova delação. Nesta terça-feira um pedaço das confissões do ex-líder governista no Senado Delcídio Amaral desabou sobre a cabeça de Aloizio Mercadante. Abatido, o ministro leva o cheiro de enxofre para dentro do Palácio do Planalto. Até aqui, o excesso de mortos vinha ofuscando a imagem do principal defunto: o mandato de Dilma Rousseff.

A voz de Mercadante soou em gravações insólitas. Nelas, o ministro conversa com Eduardo Marzagão, principal assessor de Delcídio no Senado. Faz gestões para dissuadir a delação do senador, que estava preso. Insinua que pode obter dinheiro para os advogados e fazer lobby em favor do preso junto aos presidentes do Senado, Renan Calheiros, e do STF, Ricardo Lewandowski.

Se perguntarem a qualquer petista quais são os três ministros mais próximos e leais a Dilma, ele responderá: Mercadante, Mercadante e Mercadante. Como de hábito, a presidente dirá que “não sabia” da movimentação de seu fiel escudeiro. Mercadante também se apressa em isentar madame. Difícil vai ser encontrar quem lhes dê crédito fora do pequeno círculo de áulicos composto pelos auxiliares que chamam Dilma de “presidenta”.

Num dos trechos da gravação, Mercadante afirma: “Eu sou um cara leal. A Dilma sabe que, se não tiver uma pessoa para descer aquela rampa, eu vou com ela até o final. Eu gosto do Delcídio, eu acho ele um cara muito competente, muito habilidoso, foi fundamental para o governo, um monte de virtudes, muito mais jeitoso, ia atrás, se empenhava, fazia…”

Com sua lealdade excessiva, o ministro ajudou a aproximar Dilma da porta de saída, que dá para a rampa do Planalto. Juridicamente, falta uma prova de que o ministro falasse em nome da chefe. Politicamente, o óbvio vale como evidência. A credibilidade de Dilma aproxima-se um pouco mais do chão. Mercadante talvez já não tenha como acompanhá-la numa derradeira descida.

O comportamento do ministro pode ser tipificado no Código Penal. Chama-se tentativa de obstruir a Justiça. Ironicamente, Delcídio havia sido preso pela mesma razão. Tentara comprar o silêncio do delator Nestor Cerveró. E foi pilhado em flagrante numa gravação feita por seu interlocutor, filho do ex-diretor da Petrobras. Enrolado, Delcídio suou o dedo a mais não poder. Entre os nomes que mencionou estão, além de Lula e Dilma, o vice Michel Temer, alternativa constitucional a Dilma, e o grão-tucano Aécio Neves, principal opção presidencial da oposição.