domingo, maio 08, 2016

É, sim, o conjunto da obra – o desastre total

 Rolf Kuntz
O Estado de S. Paulo 

Se o Senado cassar o mandato da presidente Dilma Rousseff, será certamente pelo conjunto da obra, o maior desastre econômico desde a crise dos anos 1930, mesmo se o julgamento ficar limitado, formalmente, a dois quesitos – as pedaladas fiscais e os decretos abusivos de abertura de créditos suplementares. Não se trata de condenar uma autoridade apenas por sua incompetência, embora seus erros, acumulados em muitos anos, tenham proporções olímpicas. Trata-se de levar em conta a história completa de uma administração, com um conjunto coeso de tolices, desmandos e irresponsabilidades. As irregularidades cometidas nos últimos anos foram componentes de um estilo de governo. Não foram tropeços ocasionais, separáveis do conjunto. Bem ao contrário: foram atos praticados para garantir tanto a reeleição quanto a continuidade de um padrão político e gerencial.

Pela mesma razão, é absurdo cortar a sequência dos fatos, como se as ações praticadas a partir de janeiro de 2015 fossem explicáveis sem as barbaridades cometidas até 2014. Segundo a Constituição, “o presidente da República, na vigência de seu mandato, não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções”. Nenhum ato discutido no processo de impeachment foi estranho às funções da presidente. E nada, no texto constitucional, proíbe a referência a um mandato anterior. Supor essa proibição equivale a autorizar – e, mais que isso, a estimular – irregularidades na busca da reeleição.

Mas a defesa da presidente Dilma Rousseff tem recorrido a outras alegações igualmente ruins. Não se pode condenar um governante, argumentou um defensor, quando suas decisões são fundamentadas pela opinião de um técnico. Em relação às pedaladas e a outras barbaridades orçamentárias, essa afirmação é grotesca.

Durante o primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff, essa fundamentação seria fornecida pelo secretário do Tesouro, famoso internacionalmente por sua contabilidade criativa. A presidente nele confiava e até lhe dava mais atenção que ao ministro da Fazenda. Mas não poderia, nem deveria, desconhecer o noticiário frequente sobre a criatividade contábil e sobre a maquiagem das contas públicas.

Este reconhecimento a imprensa merece. Os grandes jornais cobriram com atenção e competência a gestão das finanças federais. Foram capazes de mostrar as manobras para disfarçar a piora do balanço fiscal. Cobriram tanto as informações mensais do Tesouro e do Banco Central quanto as entrevistas, com explicações cada vez mais espantosas, do secretário do Tesouro. A cobertura foi mantida, sempre atenta, no segundo mandato, com a reafirmação da piora das contas públicas e a discussão dos atos governamentais.

Até 2014 a presidente ou desconheceu as informações da imprensa ou decidiu desprezá-las, dando preferência às versões produzidas pela contabilidade criativa. Depois disso, continuou agindo como se nenhuma advertência transmitida pelos jornais e por outros meios idôneos fosse relevante ou confiável. Além disso, houve alertas dentro do próprio governo. Técnicos do Tesouro chamaram a atenção para irregularidades e produziram documentos sobre o assunto, revelados em reportagem do jornal Valor. Resumindo: todo cidadão interessado no manejo das contas públicas sabia dos problemas, enquanto a presidente insistia em desconhecê-los ou em menosprezar sua importância.

A presidente ignorou ou desprezou as informações porque essa foi sua escolha. Não teve sequer o trabalho de verificar se as advertências e denúncias tinham algum fundamento. Se chegou a cuidar do assunto, deve ter logo desistido, ou, pior, preferiu aceitar as irregularidades e maquiagens e, portanto, consagrar os erros e desmandos como componentes de sua administração e de sua estratégia de conservação do poder.

A irresponsabilidade e a preferência pela maquiagem foram muito além das pedaladas e dos decretos irregulares. Com as pedaladas, o Tesouro adiou por muito tempo os desembolsos para certos programas e tornou-se devedor, irregularmente, de bancos públicos. Com os decretos de abertura de créditos orçamentários, a presidente foi além de seus poderes. Mas a irresponsabilidade e os disfarces foram marcas de toda a sua gestão.

Ao manter os controles de preços dos combustíveis, o governo impôs enormes perdas à Petrobrás e a milhares de acionistas minoritários. Ao conter politicamente as tarifas de energia elétrica, desarranjou as finanças das concessionárias. Ao tentar socorrê-las com recursos públicos, criou mais custos e desajustes para o já sacrificado Tesouro Nacional. O reajuste das contas de eletricidade, afinal inevitável, teve enorme impacto inflacionário, agravando o estrago nos orçamentos familiares.

A mesma preferência pelo voluntarismo, pela intervenção mal planejada e por políticas industriais arquivadas há décadas em outros países favoreceu o protecionismo, o uso discricionário de incentivos fiscais e financeiros e a proteção a grupos privilegiados. Nesse ambiente, nada mais natural que o fracasso das concessões de infraestrutura, valorizadas, afinal, somente como fontes de recursos – os famosos bônus – para reforço do Tesouro. A perda de muitos bilhões pelo BNDES em investimentos destinados a apoiar os favoritos da corte é parte dessa política.

Não há como separar do conjunto da obra as pedaladas fiscais e os decretos abusivos. Esse conjunto foi muito mal concebido como política de desenvolvimento, mas todos os seus componentes são muito interligados como integrantes de um estilo voluntarista, irresponsável e desastroso de uma política voltada para a perpetuação de um grupo no poder. A ocupação predatória do Estado foi um item fundamental dessa política. Uma parte dessa aventura tem sido contada na Operação Lava Jato. Como desmembrar essa história?

A previsão da morte de Tancredo e a vidente do Alvorada

Sebastião Nery
Tribuna da Internet

Ela chegou com um sorriso aberto no rosto jovem e bonito, elegante, simpática, turbante na cabeça, colares, braceletes, joias esfuziantes nos dedos e um olhar distante, misterioso. Era dona Flávia, a mulher do presidente da Associação Brasileira de Produtores de Maçã, Mário José Batista, gauchão vermelho, com cara de terra e sol. Lembro-me bem, era 8 de março de 1985, meu aniversário. As testemunhas continuam ai: Carlos Monforte, da TV Globo, Silvestre Gorgulho, do Jornal de Brasília, Milano Lopes, do Estado de S. Paulo, eu e outros jornalistas, na festa da maçã, que todo ano se realiza lá no Sul.

Jantávamos no belo Hotel Laje de Pedra, em Gramado. Faltava uma semana para a posse de Tancredo na Presidência. Surgiu o nome dele. Dona Flávia falava sobre a magia da Bahia e outras sabedorias. Ficou tensa: – Os senhores são amigos do doutor Tancredo?

– Somos, sim.

O marido, ao lado, não gostou: – Flávia, estamos aqui na nossa festa e comemorando o aniversário do Nery, não vamos falar de coisas tristes.

Silvestre insistiu: – Que coisas tristes?

Dona Flávia ficou corada, olhou serenamente para o marido: – Desculpem os senhores que são amigos dele, mas devo dar uma notícia ruim, que peço que fique aqui. Infelizmente nosso querido doutor Tancredo não vai ser Presidente, não vai assumir no dia 15. Ele vai morrer.

– Vai morrer de quê? De doença ou de um golpe militar? -perguntei.

– Não sei o que será. Mas posse ele não tomará. Tenho rezado muito para ele e para o doutor Sarney, que vai assumir. Estou vendo e conferindo toda manhã. Está nos globos, mapas, cristais, cartas, búzios, no escritório, onde os senhores estão convidados para almoçar conosco amanhã. Não sou uma profissional. Não trabalho por dinheiro. É apenas um dom, uma curiosidade intelectual, recebo amigos para sessões.

Ficamos lívidos. No dia seguinte, antes do almoço, ela nos mostrou, no vasto escritório ao lado do casarão, seus mapas, globos, cristais, baralhos e búzios. Balançando os coloridos balangandãs, apontava: – Vejam. Está aqui. Ele não vai assumir. Não vai ser Presidente.

Um leão enorme rugia e dava saltos numa jaula de ferro, aberta em cima, no meio do gramado do jardim. Fizemos um acordo. Ninguém publicaria. Alguns ficaram indignados: – Essa mulher é uma maluca.

Não era. Uma semana depois, todos já aqui em Brasília, Tancredo se internou e não voltou nunca mais.

ESTRANHA MAGIA
Agora, Brasília está vivendo dias alucinantes de estranha magia. Ninguém dá mais um tostão pelo mandato da presidente Dilma. Todo mundo já sabe que no dia 11 de maio o Senado vai aprovar a primeira fase do impeachment por uma diferença enorme de votos. O pais não aguenta mais o abismo em que o desastrado governo dela o lançou. Vai para casa.

Mas a lei lhe dá 180 dias de vadiagem no palácio da Alvorada, proibida de assinar qualquer ato ou dar palpite no governo. Mas como mantê-la seis meses sem nada fazer? Tenho uma sugestão: ela instala uma banca de magia no Alvorada e despacha com seus fantasmas: Lula, PT.

DIZ DILMA
1.- “Não posso me preocupar com pequenas ilegalidades”. Teria sido a resposta de Dilma, então ministra das Minas e Energia, quando um empresário a alertou sobre os escândalos que ocorriam na Petrobrás. O bem informado jornalista Elio Gaspari, na “Folha de São Paulo” (18/04/2016) transcreveu o diálogo. À época, ela presidia o Conselho de Administração da estatal. Ao não se preocupar com “pequenas ilegalidades”, deixou o terreno fertilizado para as “grandes ilegalidades”. Seria o eixo garantidor da ação livre, leve e solta dos corruptores e corruptos na empresa. E veio logo a desastrada compra da Refinaria de Pasadena.

2.- Fato pouco destacado: nos dois governos de Lula, Dilma ao deixar o Ministério das Minas e Energia, assumindo a Casa Civil em 2005, manteve, de maneira inédita, a presidência do Conselho de Administração da Petrobrás. Eleita Presidente, ela designou o ministro Guido Mantega para a presidência do Conselho. Controlava assim a Petrobrás.

PETROBRÁS
– Em quatro anos, somente com o subsídio à gasolina, ao diesel e outros derivados, acumulou um prejuízo (atualizado) de R$ 100 bilhões. Importava o barril de petróleo na média de 100 dólares e o revendia na variável de 70/75 dólares, para mascarar os índices inflacionários.

– Há décadas, paralelamente à exploração do “pós-sal” na Bacia de Campos, o seu corpo técnico desenvolvia estudos e pesquisas para uma nova fronteira geológica: o “pré-sal”, que foi mentirosamente anunciada como o milagroso descobrimento realizado pelo governo Lula.

– A sua carnavalização, aliada ao oportunismo político e eleitoral, em falácia do mais baixo nível, atropelou a racionalidade do verdadeiro debate público que envolveria as potencialidades do “pré-sal”. Em seu lugar, a demagogia populista atropelou a realidade com o “pré-sal político”, ignorando que, nas décadas de 80 e 90 foram perfurados mais de 150 poços no “pré-sal”.

Passeio em campo minado

Fernando Gabeira
O Estado de São Paulo

Quando Dilma entrou, na esteira de suas mentiras, lembrei que não teria lua de mel. Vinha de uma vitória eleitoral. Temer, por tudo de errado que Dilma fez, talvez ganhe um curto período

Gastamos um bom tempo da nossa vida pensando numa saída para a crise. Creio que Michel Temer também. Sua trajetória, no entanto, terá mais repercussão na crise do que qualquer um de nós. Daí a importância de monitorá-lo.

Os jornais falam de um Ministério em formação. É difícil analisar algo que ainda não existe. Mas a julgar pelas notícias, o projeto contém uma primeira contradição. Temer, diretamente e por intermédio de Moreira Franco, afirmou apoiar a Lava Jato.

O provável Ministério, todavia, tem vários nomes de investigados. Se forem confirmados, não há avanço em relação ao PT, que, por sua vez, é um retrocesso em relação ao governo Itamar. Neste os investigados não entravam. E se estivessem no governo, deixavam o cargo para se defenderem.

Essa é uma trama ainda secundária, porque o foco estará na reconstrução econômica. Temer parece escolher uma equipe com a visão clara de que é preciso reconquistar a credibilidade como primeiro passo para que se volte a investir.

Quanto mais leio e ouço sobre o rombo financeiro, não apenas sinto a dimensão da tarefa de levar o Brasil até 2018, mas percebo como faltam dados sobre a verdadeira situação que o PT e seus aliados, PMDB incluído, nos legam. Mexidas no tamanho do Estado, discussão sobre nosso sistema de Previdência, tudo isso só se fará de forma menos emocional se houver uma verdadeira revelação de nossos problemas financeiros.

Não se faz apenas com um discurso, ou mesmo um documento. É algo que tem de ser bem difundido, com quadros comparativos, animações e um trabalho de divulgação que consigam atenuar o peso do tema. Será preciso dizer, por exemplo, se o governo vai pôr dinheiro e quanto na Petrobrás, na Caixa Econômica, suas grandes empresas que vivem em dificuldade.

Leio também nos jornais que Temer vai trazer de volta uma velha guarda de políticos. Em princípio, nada contra. Mas é necessário lembrar que alguns problemas decisivos dependem de sensibilidade para a revolução digital.

Na quebra do monopólio das teles, além de pensar no avanço que isso traria para o Brasil, sabíamos também que havia regiões que não interessavam às empresas. Criou-se um fundo para universalizar a conexão telefônica e modernizar a infraestrutura de comunicações. Esse dinheiro jamais foi usado em sua plenitude, como manda a lei. Uma visão de retomada do crescimento tem de passar por um novo enfoque do mundo virtual e seu potencial econômico. Se nos fixarmos só no crescimento do universo material, corremos o risco de um novo engarrafamento adiante, se já não estamos de alguma forma engarrafados perante outros povos, como os coreanos, que trafegam com muito mais rapidez do que nós.

Temer disse que não é candidato. Isso é positivo não apenas porque ficou mais leve para atrair partidos com projetos para 2018. Mas, principalmente, porque ele pode tomar medidas que horrorizam um candidato.

Claro que as medidas serão debatidas, que em caso de divulgação ampla haverá uma consciência maior do buraco econômico. Ainda assim, os economistas preveem que em 2018 chegaremos ao poder aquisitivo de 2011. Certamente haverá uma aspiração de maior rapidez no processo de retomada. E Temer não pode andar tão rápido quanto a velocidade das expectativas.

Além disso, terá de navegar num mundo político desgastado, que dependeu da sociedade para chegar ao impeachment e dependerá dela para realizar a transição. Os temas da reconstrução mexem com diferentes interesses, dificilmente vão mobilizar da mesma forma que o impeachment.

Há, no entanto, um desejo de mudança.

Os rombos no Brasil sempre foram cobertos com aumentos de impostos, os contribuintes pagam o delírio dos governantes. Se Temer usar o caminho tradicional, vai romper com o desejo de mudança e adiar para as calendas um ajuste pelo qual o governo passe a gastar de acordo com seus recursos.

Todos gastaram muito. Há uma grande pendência sobre a dívida dos Estados com a União. Juros simples ou compostos? Na verdade, a discussão mesmo é sobre quem vai pagar a conta, que pode resultar num prejuízo federal de R$ 340 bilhões.

Finanças dos Estados parecem um tema muito chato. No entanto, quando você vive no Rio de Janeiro, vê hospitais decadentes, funcionários sem receber, escolas ocupadas, percebe claramente que, quando o governo entra em colapso, isso fatalmente influencia a sua vida cotidiana.

Um tema dessa envergadura acabou no Supremo Tribunal, quando, na verdade, teria de ser decidido no universo político, governadores e presidente. É uma demonstração de incapacidade que obriga o próprio Supremo a se desdobrar, estudar todo o mecanismo financeiro, ouvir as partes, estimular acordos que eles próprios já deveriam ter celebrado.

Com esses corredores e os obstáculos na pista será difícil chegar a 2018 se não houver um esforço de reconstrução que transcenda o mundo político. Esse esforço se torna mais viável com os dados na mesa: o estrago da corrupção e os equívocos da gestão econômica.

Algumas coisas já podem mudar nas próximas semanas. Por que tantos cargos comissionados? Por que reduzir investimentos, e não o custeio da máquina do governo? Incentivos para quê e para quem? Aumentos salariais do funcionalismo agora?

Quando Dilma entrou, na esteira de suas mentiras, lembrei que não teria lua de mel. Vinha de uma vitória eleitoral. Temer, por tudo de errado que Dilma fez, talvez ganhe um curto período. O problema é que a crise mexeu com a nossa noção de tempo, mais encurtado, desdobrando-se com imprevisíveis solavancos.

Mesmo ainda sem a caneta na mão, é preciso uma ideia na cabeça. A partir da semana que vem termina um capítulo da nossa História recente. O País precisa se reconstruir como se tivesse seus alicerces abalados por um bombardeio.

Dilma, a rampa e a porta dos fundos

Reinaldo Azevedo 
Veja online

Há exemplos notáveis na história de farsas judiciais; será que estamos diante de uma?

No dia da aprovação do relatório do senador Antonio Anastasia (PSDB-MG) por esperados 15 votos a 5, José Eduardo Cardozo, este impressionante advogado-geral da União, voltou ao Senado para vociferar: “É golpe, é golpe!!!”. E demonstrou que seu ânimo para a inovação é grande: “É golpe mesmo com direito de defesa”.

Hummm… Tá bom! Conhecemos exemplos históricos de grandes farsas judiciais, como o caso Dreyfus, na França, em 1894 e 1897, ou os Processos de Moscou, por meio dos quais Stalin eliminou toda a elite bolchevique da União Soviética, entre 1936 e 1938. Era um instrumento para consolidar o poder absoluto.

A França vivia sob um regime autoritário; a União Soviética era uma tirania. Nos dois casos, houve, sim, direito de defesa. Mas se tratava de farsas judiciais. Antes do julgamento, já se conheciam os condenados.

Mas será esse o caso do Brasil? O nosso país vive, por acaso, sob um regime de exceção? Por aqui, não são livres os tribunais para decidir segundo a consciência dos juízes? Se mais livres não são, é só porque um ou outro, infelizmente, aceitam se comportar como esbirros de partido.

Vivemos sob a vigência de uma Constituição democrática, oriunda de um processo constituinte que não criou vetos a nenhuma força política. Todas as correntes de opinião disputaram o mercado de ideias no país, mesmo aquelas que refutam a democracia por princípio.

Então cabe a pergunta: onde está o regime de exceção? Que a presidente atentou contra a Lei Fiscal, isso resta cristalino. Ao governo, sobra uma saída: “Ah, não foi por dolo”. A questão é saber se houve cálculo ou não; se ela tinha consciência do que estava fazendo. E tinha! A própria Dilma já disse em palanque que recorreu a tais instrumentos para garantir programas sociais. Nem é exatamente verdade. Mas a confissão também está feita.

Um grupo de deputados pretende acionar a presidente na Justiça em razão da sua permanente acusação de que está em curso um golpe no Brasil. Sim, é o caso. Não se pode permitir ao chefe do Executivo que faça pouco caso das instituições e que chame de golpe o funcionamento regular das leis e dos Poderes da República. Trata-se, obviamente, de uma agressão.

Mais: o golpe é um crime, não é mesmo?, que prevê punição. A presidente está ao menos obrigada a nominar os que estão sendo caluniados. Seriam, por exemplo, golpistas os 367 deputados que votaram em favor do envio do processo ao Senado? São golpistas os 15 senadores que disseram “sim” ao relatório?

Dilma diz que pretende descer a rampa do Palácio quando for apeada. Cada com a sua pantomima. A história prova que está saindo pela porta dos fundos.

Teori (Indiana Jones) Zavascki

Elio Gaspari
O Globo

Dizer que existe qualquer semelhança entre a figura publicamente sorumbática do ministro Teori Zavascki e Indiana Jones (Harrison Ford no filme) é coisa tão surpreendente quanto a notícia da manhã de quinta-feira de que ele suspendera o mandato de deputado do poderoso Eduardo Cunha.

Quem quiser usufruir 14 segundos de alegria poderá captar a essência do que aconteceu no Supremo Tribunal e na política brasileira. Basta ir à rede para ver (ou rever) a cena do confronto de Indiana Jones com o beduíno de roupas pretas. Pelo texto de George Lucas, Indiana Jones e o gigante duelariam. Um com seu chicote e o outro com uma cimitarra. Antes da filmagem, Harrison Ford propôs: “Vamos dar um tiro no otário”. E assim produziu uma das melhores cenas da História do cinema.

Pelo roteiro de Brasília, o STF deveria dizer se Cunha, como presidente da Câmara, estava ou não na linha sucessória. Seria um duelo do chicote com a cimitarra. Para surpresa do país e até mesmo de alguns ministros do Supremo, Teori Zavascki sacou o revólver e suspendeu o mandato de Eduardo Cunha.

O voto de Teori teve 79 páginas e nele listou uma dezena de malfeitos de Cunha. Desde tramas complexas a episódios comezinhos. Por exemplo, a polícia achou no bolso de seu paletó cópias de boletins de ocorrências relacionados com o deputado que relatava seu processo na Comissão de Ética da Câmara. Essas minúcias apenas confirmam o que todo mundo sabe, mas dezenas de maganos fingem desconhecer: o relator da Lava-Jato sabe muito, sabe coisas que o segredo de Justiça ainda protege. Teori construiu o cadafalso com paciência e método. Na hora certa, sacou e atirou. Se a bancada de Cunha na Câmara fosse menos audaciosa, teria apressado o seu julgamento no plenário. Agora marchará heroicamente para um vexame.

O beduíno da cena do filme podia ver que Indiana Jones tinha um revólver no coldre, mas acreditou na própria invencibilidade. No caso da turma de Cunha, acreditaram que em filme de Brasília ninguém mexe no roteiro.

OS DOIS MUNDOS DE MICHEL TEMER
Na noite de quarta-feira o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, estava na casa do Jaburu, onde o vice-presidente Michel Temer vivia o esplendor da expectativa do poder. Na manhã seguinte Temer soube que o condestável do PMDB fora mandado para o estaleiro. À tarde, por unanimidade, o STF confirmou o relatório do ministro Teori Zavascki.

Em menos de 24 horas Temer viu a diferença dos dois países em que vive. Num, é o príncipe de uma oligarquia política e empresarial. Noutro, chegará à Presidência levado por dois fatores estranhos e hostis aos marqueses. Nele estão a rua e a Operação Lava-Jato.

No mundo das armações de Brasília Temer poderá entregar o Ministério da Ciência e Tecnologia ao pastor Marcos Pereira, presidente do PRB (a sigla significa Partido da República Brasileira). No Brasil real, a neurocientista Suzana Herculano-Houzel, da UFRJ, vai-se embora para a Universidade Vanderbilt levando o que sabe e seus cachorros. No mundo real, Temer assumirá um país com três epidemias (dengue, zika e H1N1). No das tramas, não conseguiu colocar o cirurgião Raul Cutait no Ministério da Educação porque a pasta pertence ao Partido Progressista, que não gostou da ideia. 

Ganha uma viagem a Porto Seguro quem achar o trecho da carta de Caminha em que ele diz que a Saúde pertence ao PP.

Há uma mudança em curso no Brasil, e o ministro Teori Zavascki mostrou isso. Há pessoas que não percebem os tempos em que vivem. D. Pedro II foi banido, Washington Luís, deposto, e João Batista Figueiredo, esquecido.

ERUNDINA
Num dia em que aconteceram coisas inesperadas para a métrica da república de bananas, Eduardo Cunha foi afastado da Câmara, e seu sucessor, Waldir Maranhão (PP-MA), decidiu suspender a sessão da Câmara dos Deputados. O doutor, ilustre freguês da Lava-Jato, transformou o plenário no único lugar onde não se deveria discutir a decisão de Teori Zavascki.

A deputada Luiza Erundina, de 81 anos, sentou-se na cadeira de Eduardo Cunha e conduziu uma sessão que poderia ser chamada de informal.

Erundina tem estrela. Em 1988 ela disputava a prefeitura de São Paulo. Paulo Maluf era favorito, e o eleitorado descontente estava sem rumo. Uma semana antes da eleição ela estava em terceiro lugar nas pesquisas. Na noite do dia 9 de novembro, uma tropa do Exército invadiu a usina de Volta Redonda, matando três trabalhadores. No dia 15, Erundina foi eleita.

A senhora deverá ser candidata à prefeitura de São Paulo pelo PSOL.

BRASIL NA BOA
Nem tudo é má notícia a respeito do Brasil. O museu Metropolitan de Nova York abriu uma exposição de 60 porcelanas chinesas da coleção do empresário brasileiro Renato Albuquerque. São peças dos séculos XVI ao XVIII, uma pequena porção do tesouro de 1.600 itens do fundador da construtora Albuquerque Takaoka. Ela criou Alphaville, o primeiro grande condomínio para a classe média alta nacional.

Colecionando por prazer, Albuquerque fica longe dos holofotes. Até essa exposição, falava-se apenas na “Coleção RA”.

A exposição do Met vai até agosto.

CUIDADO
O doutor Alexandre Tombini, ou quem quer que venha a ser o novo presidente do Banco Central, deve tomar todo cuidado com possíveis movimentos da instituição na área do câmbio.

A conta é simples. Se uma empresa jogou com a alta do dólar, por mais que a queda de sua cotação não interesse ao BC, a intervenção, por melhor intencionada no aspecto geral, acaba beneficiando especificamente quem apostou no dólar caro.

Grosseiramente, em 1998 o notório banqueiro Salvatore Cacciola estava nesse tipo de jogo, apostando no dólar barato. A ação do BC acabou dando-lhe um refresco, e diretores de impecável honradez comeram o pão que Asmodeu amassou.

O passado ensina, o presente inquieta, e o futuro frita.

BLINDAGEM
Henrique Meirelles blindou sua posição no Ministério da Fazenda.

Se a escolha do doutor dará certo ou errado, não se pode dizer, mas é garantido que sem a blindagem ele não teria chance de êxito.

TESTE
Saber o que vai acontecer é coisa de cartomante. Apesar disso, sempre pode-se medir a capacidade de uma pessoa de pensar o impensável.

Aqui vai um teste primitivo. Tem cinco afirmações. Quem previu uma delas é ousado. Quem previu duas é um temerário. Quem previu todas pode abrir uma tenda de cartomante:

1- Dilma Rousseff não terminaria o mandato.

2- Eduardo Cunha perderia a cadeira.

3- Marcelo Odebrecht iria para a cadeia.

4- Leo Pinheiro, da OAS, colaboraria com a Lava-Jato.

5- Alemanha 7, Brasil 1.

Quem foi surpreendido em todos os casos é apenas um brasileiro normal. Os tempos é que estão emocionantes.

O mito desmorona

Editorial
Carlos José Marques, diretor editorial
Revista ISTOÉ

Engolfado pela maré de más notícias, Lula percebe que não consegue convencer a Justiça com os mesmos dribles verbais que costuma aplicar no campo político



Ao longo de 13 anos de julgo petista no País, o ex-presidente Lula tratou de enriquecer a sua biografia com uma profusão garbosa de feitos e pitadas de marketing que o converteram em líder impoluto das massas. Surfou a onda do crescimento econômico fácil gerado na estabilidade do real. Embalou o sonho da ascensão de classes. Vendeu o projeto aspiracional de um capitalismo moderno. “Era o cara!”, como dele falou, em um misto de admiração e deboche, o americano Barack Obama. Lula conseguiu tudo e foi também bastante eficaz na determinação de se manter na sela do privilégio. De onde nunca apeou. Mesmo com o passar da faixa, levou junto consigo as facilidades do poder e a ingerência nos seus bastidores para fazer valer interesses inconfessáveis. Perceba-se o alcance da responsabilidade do ex-presidente. Foi ele quem, na solidão do comando, na ansiedade das madrugadas insones, teve de escolher os bafejados pela regalia. Não houve regra, critério, coisa alguma, a não ser a opção soberana do petista em traçar os domínios da partilha de benesses. Quem não se condói de tamanho voluntarismo não possui sensibilidade. Mal desconfiaram dele, por tempos a fio, seguidores e espectadores da cruzada de oferendas. E agora, como que por um ato final, abre-se a cortina do espetáculo. 

Lula foi desmascarado por ninguém menos que o Procurador Geral da República. Rodrigo Janot, que ali chegou pelas mãos de seu denunciado, fez desmoronar o mito. Nas palavras solenes do emissário da justiça, baseadas em uma avalanche de provas, delações e evidências, “a organização criminosa jamais poderia ter funcionado sem que o ex-presidente Lula dela participasse”. Pronto. Ficou afinal delimitado o método de atuação e o responsável. Sacramentou-se nos autos processuais aquilo que todo mundo sabia. Ou, no mínimo, desconfiava. Lula alcançou, por mérito e reconhecimento, o olimpo da bandidagem como uma espécie de “capo” da quadrilha que mais fraudou os cofres públicos. Nunca foi de seu assecla, José Dirceu, como se quis acreditar, o posto de chefe do bando. Durante o escândalo do “Mensalão”, Lula protegeu-se alegando estar coberto pelo manto da mais profunda ignorância. Nada sabia e qualquer acusação o indignava. Os inquisidores deixaram passar. A sociedade aquiesceu. O Brasil vivia a opulência do desenvolvimento sem limites.

Do Mensalão para cá muita coisa mudou. O custo dos desmandos estourou. Ficou evidente. Ninguém mais aceita fechar os olhos a tantos delitos ou relevar a contribuição hierárquica de malfeitores e beneficiários, por mais destacado que seja o papel de cada um deles na República – de empresários a senadores, deputados, tesoureiros, marqueteiros, membros do executivo, muitos já foram parar atrás das grades, numa faxina moral sem precedentes na história nacional. Lula, por sua vez, está a um passo de virar réu e de ser enquadrado na Lei da Ficha Limpa. A denúncia, caso aceita no STF, enterrará de vez as suas pretensões ao Planalto. Algo impensável para quem de lá saiu, como diz, “nos braços do povo”. Não é, de todo modo, o único dissabor que ele enfrenta. Existem inúmeros processos a pesar sobre sua cabeça. Em seis outras frentes de investigação, o idealizador do PT experimenta a ameaça de derrocada e do apagar do brilho de sua estrela, com riscos reais e crescentes de terminar os dias na cadeia.  Janot o acusa de obstrução da justiça, por tentativa de sabotagem na delação do executivo Nestor Cerveró. Há um pedido de prisão encaminhado à PF. Por todos os lados, rastros indisfarçáveis de vantagens percebidas no sítio, no triplex, nos quase R$ 30 milhões em palestras, fecham o cerco de suspeitas a sua pessoa. E no inquérito-mãe da Lava-Jato, Lula ainda desponta ao lado de 69 denunciados, perfilando na fileira da frente com Eduardo Cunha e Renan Calheiros. 

Em muitos momentos dessa escalada, o ex-presidente agiu com uma truculência digna de nota – registrada em áudios para o estupor da plateia. Portou-se como um senhor do engenho, típico da era colonial nas suas paragens, que nada deve de explicações aos serviçais. Distribuiu palavrões. Arrotou valentia. Trovejou imprecações. Mirou autoridades de várias esferas com uma incontinência verbal que, em qualquer país do mundo, seria tratada como desacato. Houve uma circunstância especialmente sublime na cantilena de desaforos, quando ele tachou de “acovardados” a Suprema Corte, o STJ e o Parlamento. Aos poucos veio perdendo o “aplomb”. Notou que de nada lhe valia o papel de vítima. Os inquéritos avançavam. De uns dias para cá, dizem os interlocutores, Lula tem andado cabisbaixo. Soturno. Não subiu em palanques nas manifestações do Dia do Trabalho. Tem evitado exposições no mesmo ritmo de outrora.  Quem sabe até tenha caído em si sobre a gravidade das acusações que lhe pesam. De uma maneira ou de outra, a autoconfiança foi sendo minada desde a primeira batida policial em sua residência, quando ele foi levado coercitivamente para prestar depoimento. Engolfado pela maré de más notícias, Lula está percebendo, a duras penas, que não consegue convencer a justiça com os mesmos dribles verbais que costuma aplicar em sua defesa no campo político. Para ele e para os demais, nas barras dos tribunais, são as evidências que contam. 

E é assim que o Brasil vai assistindo a uma verdadeira ópera-bufa de cenários cambiantes. Com Lula, Dilma, Cunha e Renan estrelando. Cada um deles repleto de denúncias por crimes variados, muito embora neguem até o fim culpa ou participação. É preciso um basta! Não existem mais dúvidas sobre a necessidade de o Brasil ser passado a limpo. Já se vão 10 anos desde as primeiras apurações – uma década inteira! – com o Mensalão. E desde ali as coisas pioraram, com práticas criminosas ainda mais sofisticadas. Ficou provado e registrado que o esquema de pagamento a parlamentares funcionou como uma mera extensão do gigantesco propinoduto montado para saquear a Petrobras e outras estatais, cujo intuito maior era o desvio de caudalosos recursos para os fundos partidários do PT e de siglas aliadas. Nas conclusões da PGR, só Lula, com seu espectro de influência sobre os demais políticos e controle da máquina, poderia estar à frente de uma engrenagem tão verticalizada. De mito a menestrel de maracutaias foi um pulo sem escalas.

Quando será o futuro?

Arnaldo Jabor
O Globo

Vem aí o impeachment e com ele a pergunta angustiada: o que virá depois?

O Cazuza cantava: “Brasil, mostra tua cara!”. É isso. Durante o show de horrores na votação do impeachment, pudemos ler a história do Brasil na cara dos políticos. Meu Deus, como são feios nossos “homens públicos”, como são inatuais, de mau gosto. Seus rostos e caretas demonstram como será difícil modernizar esta terra.

Charles Darwin tem um livro chamado “A expressão das emoções no homem e nos animais”. Ali estão catalogadas as expressões fisionômicas dos chimpanzés, dos cachorros e dos homens. São baseadas no “princípio da antítese”, nome que Darwin criou, explicando, por exemplo, que um cachorro expressa amor ao dono por uma mutação corporal, facial e “rabeal”, absolutamente negadora de qualquer agressividade, amolecendo as costas, abanando o rabo, babando em nossa mão. Mas, Darwin não previu a cara dos políticos brasileiros.

O “princípio de antítese” dos nossos políticos, ao contrário, visa esconder o que sentem, pela negação de seus reais motivos. Assim, o canalha ostenta bondade, o ladrão apregoa honradez, o assassino, delicadeza.

Era assim, mas até isso está mudando. Assistindo ao desfile dos “cobras criadas” na Câmara, concluo que não apenas se perdeu a ideia de “vergonha na cara”, como ela foi substituída por um certo orgulho, um vago enlevo de ostentar a própria sordidez como um galardão. Antigamente, o canalha se escondia pelos cantos, roído de vergonha; hoje ele apregoa, com uma tabuleta na testa: “Roubei sim, e daí?!”. A alma do negócio era o segredo. Hoje, espanta-nos a visibilidade dos estelionatos, conjugada à sublime ejaculação das mentiras.

Cada vez mais o Feio domina o país tão bonito por natureza. Cada vez mais deparamos com o feio nas ruas alagadas, nas paisagens destruídas, na gente desesperada, ignorante, mal paga, com a miséria nos rostos, nas roupas, nos gestos, nos risos boçais. Essas crises sem fim estão nos deformando física e psiquicamente. Não só por tragédias visíveis, como catástrofes naturais; vivemos a tragédia do nada, a tragédia do retrocesso que vai nos reduzindo uma mera anomalia.

Durante o governo FHC conseguimos atrelar um pouco o Brasil a uma política econômica mais contemporânea. Estava tudo pronto para a decolagem. Mas chegou a turma braba dos lixeiros do comunismo e segurou o avião antes de ele ganhar voo. A partir dessa “tomada do poder”, como eles chamam, o Brasil virou um flashback, um filme rebobinado. Tudo voltou ao banho-maria, tudo voltou ao pântano. Passaram a chamar os retrocessos que fizeram de “avanços sociais”. Analfabetos e intelectuais ainda acreditam nisso. O maior crime do PT foi ter se aliado, ou melhor, feito um conluio com a pior direita brasileira: Lenin — Sarney.

Os séculos de patrimonialismo que nos legou Portugal , tirando da sociedade a autonomia sobre si mesma, transformou-a em uma massa amorfa, melancólica. Como uma compensação para a impotência, passamos a valorizar o fracasso como uma qualidade nobre. Os bons fracassam e os maus vencem. O fracasso passou a ser nosso mantra, puxando lamentos como “a vaca foi para o brejo” ou “estamos à beira do abismo”. Sempre estivemos à beira do abismo. Sempre.

O que estamos vendo aí é o súbito florescimento de colônias de micróbios que já nos afetavam há séculos. Flores podres desabrocharam. Tudo que está acontecendo hoje com espalhafato já acontecia silenciosamente, surdamente, nos últimos séculos. Os fatos estavam se gestando, montando-se, prontos para irromper. A barragem agora se abriu. O que estamos vendo é um “maktub” caboclo — tudo estava escrito. Esta crise que vivemos é inédita aqui. Já tivemos golpes militares, renúncias, tiros no peito, porres fugitivos. Eram crises mais agudas, mais óbvias, mais concretas. Hoje não. Esta crise é uma grande areia movediça que vai afogando instituições, velhos pilares da República, se coagulando como uma pasta, um brejo de não acontecimentos onde nossa vida afunda. A depressão econômica criou a depressão interna.

Mas, dizem os psicólogos que sem depressão não há descobertas. Assim, já entendemos que a esperança por um “país do futuro”, é uma forma de paralisia. Essa crise é terrível porque é uma caricatura. É a crise do superficial, do inerte, da anestesia sem cirurgia. Era evitável, se não fossem os atuais micróbios no poder. Esta crise é uma anedota, é um pesadelo humorístico. Esta crise não é só politica; é psiquiátrica. O mundo nos contempla como um país de trapalhões; não é catástrofe, guerra — é a esculhambação secular.

E como vamos sair dessa? Vem aí o impeachment e com ele a pergunta angustiada: o que virá depois? Já vemos os sinais de discordância entre os prováveis novos “donos do poder”. Como vai se tecer uma rede de tantos interesses conflitantes? Como conciliar olhos de rapina, focinhos de raposa, evangélicos de conveniência, coxinhas trêmulos, partidinhos de aluguel, cutistas radicais, militantes de propina, bandidos hipócritas e bandidos assumidos? Como desenhar essa constelação de egoísmos conflitantes? Como criar uma frente de salvação nacional como apregoam? Como fazer uma coalizão para o bem do país com ideias divergentes e delirantes explodindo em todas as direções? Onde se encontrará o ponto de convergência entre tantos bichos diferentes? Quem vai ser o domador? O Temer? Santo Deus...

Agora a nota de desespero, caro leitor: talvez nosso destino já esteja traçado — seremos assim no futuro, para sempre. Em seguida, aqui vai também um post-scriptum de otimismo: o Brasil evolui pelo que perde e não pelo que ganha. Sempre houve no país uma desmontagem continua de ilusões históricas. Esse é nosso torto processo: com as ilusões perdidas, com a história em marcha a ré, estranhamente, andamos para a frente. O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Mais do que crise, talvez isso tudo seja uma mutação. A bruta desgraça está ficando visível e talvez a melancolia dê lugar a uma indignação e depois a uma nova consciência.

Com Temer, situação vai parar de piorar

J.R. Guzzo
Revista EXAME 

ASCOM/VPR 
Novo patamar: a expectativa é que Michel Temer, caso assuma, 
monte um ministério mais qualificado do que o atual

São Paulo — Nada vai ser fácil neste governo de Michel Temer, que em breve estará aí, caso a Constituição brasileira seja cumprida e a presidente Dilma Rousseff se transforme, como ela mesma disse, em carta fora do baralho.

Se existe um superávit indiscutível no Brasil de hoje, é o dos prognósticos de dificuldades para os novos gerentes — eis aí algo que temos em plena abundância, ao contrário de produção, crescimento, emprego, arrecadação, investimento e tudo o mais que deveria haver e não há. Isso dito, a pergunta é: e as dificuldades de hoje, apontadas na frase anterior? Por acaso seriam menores?

Nada vai ser fácil, claro, e qualquer cidadão de razoável bom senso sabe muito bem disso, mas nada está sendo fácil com Dilma e o sistema integral de calamidades criado por ela na vida econômica e política do Brasil. E aí está, justamente, a primeira vantagem de um novo governo: vai parar de piorar. É pouco, pensam os mais exigentes ou os mais cansados da obsessão da presidente em governar mal.

Mas a verdade, na esfera das rea¬lidades práticas, é que o simples fato de interromper a hemorragia já ajuda muito. É mais ou menos como na clássica providência que tem de ser tomada, antes de qualquer outra, com o jogador que perdeu o controle e está se arruinando cada vez mais depressa na mesa da roleta: a primeira coisa a fazer é tirar o sujeito dali, pois assim fica garantido que ele vai parar de perder.

Depois se vê como fica — mas ninguém discute que perder 100 é melhor do que perder 200. Eis aí, precisamente, o nosso caso. O potencial destrutivo da presidente Dilma, como comprovam todos os fatos à disposição do público, vai gerar efeitos até seu derradeiro minuto de permanência no Palácio do Planalto.

Basta ver as ações de que foi capaz ao longo dos últimos dias, como se não bastasse a imensidão de desatinos dos últimos anos. Parar com isso, portanto, é um ganho real — e quanto mais cedo melhor.
Para entender a coisa de maneira mais clara, é só lembrar que o próprio ex-presidente Lula e o próprio PT já deixaram suficientemente definido que Dilma teria de renunciar ao exercício efetivo da Presidência se por acaso conseguisse escapar do impeachment — ficaria no Palácio do Planalto, pois é necessário haver um presidente oficial, mas deixaria de governar.

É mais do que compreensível: nem Lula nem o partido iriam se conformar em ficar simplesmente olhando a paisagem, durante os próximos dois anos e meio, e aceitar que Dilma destruísse o futuro político de todos. O ex-presidente, com certeza, tem outros problemas sérios para resolver, a começar pelas investigações da Operação Lava-Jato — que, a propósito, não vão parar, com Dilma ou sem Dilma.

Mas também sabe perfeitamente, com ou sem Lava-Jato, que sua carreira estaria morta se ela continuasse governando o país. Quanto à atuação concreta, em si, do anunciado governo de Michel Temer, a experiência aconselha o mais eloquente silêncio em matéria de previsões. Prognóstico, aí, só depois dos fatos — e, ainda assim, com prudência.

Algumas realidades, em todo caso, já estão desenhadas; o mercado tem tomado nota delas, e os sinais que emite são positivos. É pouco provável, por exemplo, que a política externa insana dos governos Lula-Dilma continue como está, prejudicando diretamente os interesses nacionais do Brasil em favor das Venezuelas e Bolívias da vida.

Há possibilidades de que o governo consiga investir sem gastar o dinheiro que o Tesouro não tem, gerando atividade econômica, empregos e arrecadação com concessões de obras públicas — algo que é simplesmente impossível enquanto Dilma e o PT estiverem mandando.

É de esperar, por um mínimo de lógica, que Michel Temer e seus ministros não queiram nem ouvir falar a palavra “pedalada”. Pode haver ministros ruins, mas é preciso um esforço sobre-humano de imaginação para achar que o novo presidente tenha a capacidade de montar um ministério de nulidades tão excepcionais como todos esses que Dilma arrumou. É o que temos no momento.

Tem jeito

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Situação é melhor do que logo após o impeachment de Collor. A recessão é mais profunda e mais longa, mas a economia é maior

Para voltar a crescer de maneira sustentada, ou seja, por vários anos seguidos, o Brasil não escapa de uma série de reformas estruturais. Pois esse é o problema, dizem. A cultura política brasileira não favorece esse tipo de reformas, ao contrário, bloqueia.

Isso é verdade em muitos momentos, mas a sociedade brasileira já passou por mudanças intensas, todas votadas e aprovadas no Congresso Nacional. E muitas das chamadas impopulares.

Nos dois governos FH (1995/2003), essa mudança foi vertiginosa. A gente nem acredita quando se faz a lista.

Eis aqui:

— Lei e instituto da Responsabilidade Fiscal, com superávit primário;
— metas de inflação com BC autônomo na prática;
— câmbio flutuante;
— solução da dívida dos estados e municípios, que passam a ter orçamentos equilibrados;
— quebra do monopólio da Petrobras e lei das concessões de exploração de petróleo;
— fator previdenciário;
— lei da suspensão temporária do contrato de trabalho;
— reforma administrativa (agências reguladoras e profissionalização na gestão de estatais);
— programa de saneamento do sistema financeiro privado;
— capitalização e profissionalização da gestão do BB e da Caixa;
— fechamento e privatização de bancos estaduais;
— privatizações (mineração, siderurgia, transportes, energia elétrica, telecom).

Reparem, são reformas que atingem todos os setores sensíveis: previdência, legislação trabalhista, funcionalismo público e privatizações. No nível macro, foi renegociada e pacificada a dívida externa.

Houve ainda mudanças microeconômicas, como a criação do mercado atacadista de energia e a criação do sistema tributário Simples para pequenas e médias empresas.

Também começaram os programas sociais, como o Bolsa Escola.

Isso criou as bases da estabilidade que Lula manteve em seu primeiro mandato e a elas acrescentou um extenso programa de melhoria no ambiente de negócios, pró-mercado. Tudo tocado por uma equipe econômica ortodoxa.

Eis as principais:

— Conta corrente e poupança simplificadas;
— crédito consignado;
— alienação fiduciária para imóveis e patrimônio de afetação para empresas, regras que turbinaram o crédito imobiliário;
— contribuição previdenciária para funcionários aposentados;
— nova lei de falências;
— portabilidade do crédito;
— Supersimples;
— Lei das SAs.

Foi longe e, de novo, em pontos considerados sensíveis.

Toda essa construção — que, com a ajuda da China, permitiu os anos dourados de crescimento com inflação perto da meta — começou a ser demolida a partir do segundo mandato de Lula. Foi quando o ex-presidente, sentindo-se seguro, resolveu fazer do “jeito do PT”.

Dilma foi meticulosa nesse desmonte, a tal ponto que hoje é preciso fazer tudo de novo: restabelecer a responsabilidade fiscal; sanear os bancos públicos; reformas previdenciária e trabalhista; desaparelhar a administração pública e as estatais; recuperar a credibilidade do Banco Central; voltar a privatizar; salvar as estatais, quebradas de novo; destravar o ambiente de negócios.

Ainda assim, a situação hoje é melhor do que a verificada logo após o impeachment de Collor. Verdade que a recessão atual é mais profunda e mais longa, mas a economia é maior, mais diversificada e, pois, com boa capacidade de recuperação.

A inflação, embora ainda alta, é um problema muito menor. As contas externas voltam ao equilíbrio. Reparem aqui: em 1993, o Brasil exportou menos de US$ 40 bilhões. No ano passado, mesmo com a queda de preços das commodities, foram US$ 200 bilhões. Já batemos US$ 250 bilhões (2011). Ou seja, a capacidade de recuperação via comércio externo é superior.

E, finalmente, no pós-Collor não tínhamos moeda. Hoje, o real está meio atacado, mas sobrevive, assim como os instrumentos de gestão econômica. Foram esquecidos, quebrados, mas estão aí.

Na política, muita gente pergunta quem seria o FH de Temer. Na verdade, não precisa. A tarefa hoje é restabelecer a confiança e retomar políticas econômicas conhecidas, o que é mais simples do que criar uma nova moeda e todas suas bases. Antes de FH, Itamar teve três ministros da Fazenda em menos de um ano. Hoje, Henrique Meirelles assume o comando em condições melhores.

Resumo da ópera: não é verdade que as reformas são impossíveis. O Brasil tem jeito.

Mas vai dar trabalho. E depende de Michel Temer conquistar credibilidade para encaminhar as reformas e um governo mais eficiente. Não vai conseguir isso com um governo parecido com o de Dilma e vulnerável à Lava-Jato.

O populismo no banco dos réus

Editorial 
O Estado de São Paulo

A Comissão Especial do Impeachment do Senado aprovou, por 15 votos a 5, o competente parecer do senador Antonio Anastasia que defende a admissibilidade do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Agora, para seu afastamento do cargo, basta o plenário da Casa confirmar a admissibilidade do processo.

O texto aprovado pela Comissão Especial não se limita a fazer uma detalhada análise da questão e apontar os fundamentos jurídico-políticos que constituem “indícios suficientes” para a adoção daquela medida prévia ao julgamento da chefe do Executivo pelo Senado. Tampouco se esgota na acurada argumentação que desmonta a tese petista de que se trata de um “golpe” contra a presidente da República. O amplo e minucioso trabalho do senador Anastasia é uma vigorosa denúncia do desprezo pelas normas fiscais que procuram garantir o necessário equilíbrio das contas públicas. Desprezo ditado pelas convicções estatistas e intervencionistas que inspiram o populismo irresponsável e eleitoreiro do lulopetismo.

Lula e o PT, adeptos da gastança descontrolada por meio da qual há quase 14 anos têm procurado garantir sua hoje agônica hegemonia política, sempre se opuseram aos controles fiscais. Comprovaram isso ao fazer violenta oposição e votar maciçamente contra a aprovação pelo Congresso, em 2000, da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF). E depois que chegaram ao poder em 2003 não perderam oportunidade de sabotar a aplicação desse regulamento que impõe freios à irresponsabilidade fiscal nos três níveis da administração pública.

Pois foi exatamente a irresponsabilidade, política e fiscal, de uma chefe de governo autoritária e convencida de que a promoção dos “interesses populares” está acima da lei – ou seja, de que os fins justificam os meios –, que resultou nas ilicitudes que embasam o pedido de seu impeachment: as “pedaladas” com as quais tentou maquiar as contas do governo e a edição de decretos de liberação de recursos sem autorização prévia do Congresso.

Por cautela, Anastasia limitou o foco de seu parecer àqueles dois crimes de responsabilidade – que são os que constam da denúncia aprovada pela Câmara – de modo a evitar alegação de nulidade do processo pela defesa de Dilma. Não se furtou, porém, a demonstrar claramente, com o apoio de ampla jurisprudência e de citações de renomados juristas, a natureza política do processo de impeachment, que inevitavelmente se ampara em evidências que não constam dos autos – o chamado “conjunto da obra”. Essa dimensão política do processo de impeachment é fortemente repudiada pela defesa de Dilma, que admite apenas a existência de atos administrativos “irrelevantes” que “não constituem crimes de responsabilidade” e por isso não podem justificar a perda do mandato da presidente da República. Mas o relatório demonstra que esses delitos evidenciam a prática sistemática de ilicitudes que, entre outras coisas, são responsáveis pelo descontrole fiscal que está na raiz da grave crise econômica que infelicita o País. Razão política suficiente, portanto, para que a ampla maioria dos brasileiros já tenha condenado Dilma Rousseff e esteja pedindo seu afastamento do governo. O Parlamento reflete, naturalmente, essa tendência.

Nessa linha de raciocínio, o senador mineiro refutou a acusação dos petistas de que o impeachment é “golpe”: “Nunca se viu golpe com direito a ampla defesa, contraditório, com reuniões às claras, transmitidas ao vivo, com direito à fala por membros de todos os matizes políticos, e com procedimento ditado pela Constituição e pelo STF”. Direitos, aliás, amplamente desfrutados pelo quinteto governista que integra a Comissão Especial do Impeachment.

É perfeitamente normal que, a esta altura dos acontecimentos, quando até dentro do Palácio do Planalto e do PT o impeachment é considerado batalha perdida, Dilma esteja amargurada com a perspectiva de ter sua carreira política abreviada. Essa amargura parece ter obscurecido completamente seu discernimento. O Estado apurou que ao tomar conhecimento do teor do relatório do senador Anastasia, Dilma lamentou a “ingratidão” do ex-governador mineiro, que recebeu “muita ajuda do governo federal” e com quem ela sempre manteve “uma relação republicana”. Esse tipo de cobrança tem bem a cara do populismo lulopetista.

Sexta 13, dia sem bruxa

Guilherme Fiuza,
 O Globo

Como os homens de bem farão, a partir de agora, para defender Lula sem poder gritar que bandido é o Cunha?




Os democratas que defendem Dilma e a quadrilha do petrolão contra o golpe de Sérgio Moro estão discretamente eufóricos. Os tanques da direita, que vieram arrancar a presidenta mulher à força do palácio, resolverão todos os seus problemas. Estava desconfortável (e, o que é mais grave, trabalhoso) esse negócio de ser governo.

Foram anos de sofrimento para continuar do contra, sendo a favor. Foi preciso instaurar o primeiro governo de oposição da história — e não pensem que isso é fácil. Aumentar os juros e gritar contra os juros altos, roubar o Estado e denunciar a corrupção, devastar a economia popular e defender o povo... Isso cansa uma pessoa.

Mas deu tudo certo: após 13 anos e meio de poupança ortodoxa, com propinas por fora e por dentro, valerioduto e pixulecos garantindo o formidável abastecimento do caixa partidário, chegou a hora de desfrutar. A elite vermelha volta para o presépio dos oprimidos, gorda e rica, só para jogar pedras — o que faz um bem danado à alma progressista e quase não suja as mãos. Mas eis que surge o revés inesperado.

Quando os professores de História já abrilhantavam suas aulas-comício, inserindo o golpe contra os imaculados parasitas para entregar o Brasil ao PMDB de Eduardo Cunha, viraram a mesa. Num ato sem precedentes, o Supremo Tribunal Federal destituiu o presidente da Câmara dos Deputados. Cunha caiu. E agora?

Foi um golpe duro demais para os democratas. É verdade que eles ainda têm o Bolsonaro, a PM de São Paulo, o Trump e a Guerra do Vietnã, mas a perda de um Eduardo Cunha não se repõe facilmente. Quem o STF pensa que é para cometer uma arbitrariedade dessas? Como os homens de bem farão, a partir de agora, para defender Lula — e todos os seus crimes progressistas denunciados pelo procurador-geral — sem poder gritar que bandido é o Cunha? A Anistia Internacional não está vendo isso?

O Prêmio Nobel da Paz está. Pelo menos um dos seus detentores, o escritor argentino Adolfo Pérez Esquivel, parceiro de Cristina Kirchner, Nicolás Maduro e toda essa turma boa que ama a democracia (amor infelizmente não correspondido). Pérez Esquivel fez história no Senado brasileiro ao denunciar o golpe de Estado contra Dilma Rousseff. E atenção: o golpe foi executado por Eduardo Cunha, o mau. Quem sabe até o seu afastamento agora não foi uma espécie de queima de arquivo?

Aí vem o relator da comissão do impeachment, naquela mesma bancada onde um Nobel da Paz fez história, e expõe de forma monótona, sem um pingo de glamour, todos os crimes cometidos por Dilma Rousseff no exercício da Presidência da República. Esse aí nunca vai ganhar um Nobel. Além de tudo, é estraga-prazeres: mostrou de forma absolutamente desagradável que Eduardo Cunha não tem nada a ver com o impeachment — apenas o colocou em votação. A Anistia Internacional não está vendo isso?

Nos dois anos de literatura da Lava-Jato, entende-se de onde vieram os bilhões de reais que bancam há anos os advogados mais caros do país para os guerreiros do povo brasileiro; que bancam há anos as campanhas eleitorais nababescas pelas quais o PT se tornou o feliz proprietário dos Três Poderes; que compraram movimentos sociais (sic), entidades de classe, jornalistas com indignação tabelada, espalhadores de boatos e manifestantes profissionais. Mas nada é tão poético quanto um pedido de propinas retroativas — atribuído ao companheiro Ricardo Berzoini pelo ex-presidente da Andrade Gutierrez.

Segundo Otavio Azevedo, o então presidente do PT e atual ministro da golpeada e oprimida Dilma avisou, em 2008, que a empreiteira deveria pagar propinas sobre as obras feitas desde 2003 (ano em que o Brasil foi redescoberto). O apetite dos representantes desse governo progressista é conhecido, vide seus tesoureiros presos e o envolvimento de todos — todos — os seus principais líderes em negociatas democráticas e revolucionárias. A conta é a seguinte: quem foi mais importante na construção heroica da atual pindaíba nacional? A gangue do Lula ou a do Eduardo Cunha?

Quem acertar ganha um Nobel da Paz e meio quilo de mortadela.

Da última vez em que o Brasil viveu um impeachment, o governo passou às mãos de um presidente filiado ao PMDB. O que se impôs, então, não foi uma orgia fisiológica — foi o Plano Real. Itamar Franco foi obrigado pela ruína política e econômica a dar poder ao Brasil que trabalha. Michel Temer está na mesma situação.

Os prognósticos apontam para a sexta-feira 13 o fim da agonia. Descerá a rampa, então, a criatura que Lula inventou para tomar conta da porta, enquanto eles limpavam a casa. Uma criatura que os brasileiros incrivelmente engoliram — mesmo que, diante dela, um Tiririca seja praticamente um Churchill. Tchau, querida.

A parada agora é entre o Brasil que trabalha e o Brasil que atrapalha.

Atos de desespero

Vicente Nunes
Correio Braziliense

Prestes a ser afastada do poder, a presidente Dilma Rousseff continua improvisando e tratando as contas públicas com remendos. Para bancar o populismo de última hora, ela decidiu aumentar uma série de tributos — dois deles já recusados pelo Congresso — para cobrir a correção de 5% da tabela do Imposto de Renda, medida que deveria ser anunciada há muito tempo e não no fim da festa. A correria para encontrar receitas que pudessem garantir o arroubo de boa vontade da petista criou uma série de constrangimentos na Receita Federal. De cada 10 auditores, nove classificam algumas das medidas como maluquice, a começar pela tributação de até 25% sobre heranças e doações, tratadas, agora, como renda. Se aprovada, essa cobrança provocará uma série de ações na Justiça.

Não há como acreditar que, com esse pacote improvisado, Dilma tente buscar apoio popular para reverter o que já está sacramentado: a aprovação de seu processo de impeachment pelo Senado na próxima quarta-feira. A presidente será afastada porque cometeu uma série de irregularidades nas finanças públicas. Ela repete insistentemente que é inocente, mas descumpriu claramente a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que não é uma lei menor. Dilma também pagará, ao ser retirada do Palácio do Planalto, por ter quebrado o país. Mesmo entre os caciques do PT, todos reconhecem que a administração da petista foi desastrosa do ponto de vista econômico.

A aprovação do impeachment pela comissão do Senado que discutiu o assunto praticamente sacramenta o fim da era PT. O partido, que chegou ao mais alto posto do país embalado por um discurso ético, encerrará, com Dilma, sua trajetória da pior forma possível: associado à corrupção. É praticamente impossível que, depois de afastada por 180 dias, a presidente consiga reunir forças políticas para retomar o poder. Nesse período, o discurso do golpe perderá força. Seu eventual sucessor, o vice Michel Temer, será ajudado justamente pelo maior pecado de Dilma, a economia.

Opção pelo fracasso 
Os próximos dias serão melancólicos para o país. Por pior que tenha sido o mandato de Dilma, seu possível afastamento explicita o fracasso de um projeto de governo que tinha tudo para dar certo. Mesmo quem não votou na petista em 2010 ficou feliz de ver uma mulher com histórico de combate à ditadura e sem as características nada abonadoras de políticos tradicionais subir a rampa do Palácio do Planalto. Os primeiros meses da administração da petista foram alvissareiros. Não à toa, a popularidade dela batia recordes.

O tempo foi passando e desvendando a verdadeira Dilma, voluntariosa, péssima gestora e incapaz de assumir os erros e corrigi-los a tempo. Para não ouvir críticas, ela se isolou em um pequeno grupo, cujos integrantes só se preocupavam em bajulá-la. Foi metendo os pés pelas mãos, afundando a economia no atoleiro e abrindo uma crise política sem precedentes. Mesmo tendo todas as condições de virar o jogo, preferiu seguir no caminho errado, num impressionante processo de autodestruição.

É duro ver a imagem da Dilma de hoje. É a expressão da derrota, ainda que bata no peito, diga que lutará até o fim e não será empurrada para debaixo do tapete por meio de uma renúncia do mandato. A petista sabe que errou, todos no seu entorno admitem que ela foi cavando o buraco no qual meteu o país, mas vai continuar vendendo o papel de vítima, quando, na verdade, a verdadeira fatura está sendo paga pela população, que enfrenta uma forte recessão, inflação resistente e desemprego em disparada.

Perto do lixo 
Muito provavelmente, na próxima semana, antes da votação do Senado, veremos mais uma ação de desespero do governo para tentar criar fatos positivos. O ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, devem lançar um pacote de estímulo ao crédito que, ao que tudo indica, terá pouca eficácia ante a grave situação financeira das empresas e das famílias. Técnicos da equipe econômica dizem que tudo vem sendo preparado há meses e que, enquanto houver governo Dilma, o jogo deve ser jogado.

Não há, porém, nenhuma boa vontade com a população. O que realmente o Planalto quer, com as medidas anunciadas, é criar constrangimento a seu sucessor. O problema é que o país como um todo sairá prejudicado, pois crescerá a incerteza em relação aos rumos das contas públicas. A cada dia, as estimativas de rombo para as finanças do governo aumentam. A impressão é que Dilma não sossegará enquanto não levar o Brasil a ser classificado pelas agências de classificação de risco como lixo.

Último tango de uma nota só

Dora Kramer
O Estado de São Paulo

Na comissão que ontem aprovou o prosseguimento do processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, um dos petistas mais críticos ao modo dela de governar, o senador Lindberg Farias, foi dos mais aguerridos defensores da desgastada tese do “golpe”.

O senador repetiu argumentos e recorreu aos instrumentos da falácia cometida na campanha de 2014 e desmentida logo após a reeleição, lançando acusações ao léu: Michel Temer na Presidência “entregaria” a Petrobrás à sanha do capital estrangeiro, daria fim aos programas de benefícios sociais, entre outras inverdades ditas por Dilma na campanha e que tanto prejuízo renderam quando a realidade a desmentiu.

Na época, Lindberg era crítico da presidente. Ele era adepto da ideia, apoiada por inúmeros petistas, de que o ex-presidente Luiz Inácio da Silva seria o melhor candidato. A defesa feita ontem obedeceu ao ritmo de último tango em cadência de uma nota só.

Nenhum problema, desde que a lógica e a realidade não sejam agredidas. Lamentavelmente, existe a agressão. Houve distorção quando se discutia inutilmente a condição de “vice” de Eduardo Cunha quando o artigo 86 lhe negava claramente essa prerrogativa.

Soam precipitadas e um tanto equivocadas análises desse cenário, segundo o qual Temer teria a ganhar, mas também a perder, com a decisão do Supremo Tribunal Federal de afastar Cunha das funções de deputado e, consequentemente, da presidência da Câmara.

Por essa ótica, Temer ganhou do STF a liberdade de não precisar se posicionar sobre a condição de Cunha e de livrá-lo de companhia constrangedora, mas perdeu um imprescindível operador dos trâmites legislativos para levar a bom termo as votações das propostas que precisará aprovar. Nesse aspecto residem duas questões. A primeira, precipitação decorrente da suposição de que Cunha mantém o poder de influência sem o cargo de presidente e o exercício do mandato. A segunda, o equívoco de acreditar que Temer e grupo mais próximo não têm experiência, influência e habilidade políticas para negociar a aprovação de medidas no Parlamento.

Um dado essencial: Cunha presidiu a Câmara por meio período. Temer foi presidente da Casa por três períodos completos. Realidade e pragmatismo darão conta de estabelecer o prazo de validade do poder de Cunha.

Ascensão e queda do petismo

Percival Puggina

 As razões do impeachment da presidente e do inferno astral do partido devem ser buscadas em sua compulsão à construção de versões, ao tratamento desonesto dos fatos e da história, aos sofismas, às inversões de responsabilidade e à incapacidade de se corrigir. Em uma só palavra: à mentira ou falsidade em suas muitas formas. O crime de responsabilidade não aconteceria fora desse quadro, digamos assim, clínico.

 Detalhando um pouco mais. Para alcançar a vitória em 2014 foi preciso, confessadamente, "fazer o diabo" e ele foi feito. Foi necessário escandalizar a todos com prévia proclamação sobre o quanto seriam "capazes de fazer para ganhar". E fizeram. A imperiosa determinação de vencer a qualquer custo implicava, entre outras ações e omissões, esconder a realidade fiscal e manter elevado o gasto público sem autorização legislativa. Tudo com olho na urna e um silenciador na consciência de quem ainda dispusesse de uma. Por isso, o crime de responsabilidade que dá causa ao impeachment tem, ele mesmo, origem num mal maior - a relação hostil com a verdade e com a realidade. É por ela que, nestes dias, fingem indignação e simulam ironias em atlético e aeróbico esforço para sovar um pouco mais a velha estratégia: construir versões, torcer os fatos, inverter responsabilidades, evadir-se das próprias culpas, perseverar na incorreção.

 Note-se: houve outros crimes de responsabilidade praticados pela presidente - crimes que prosseguiram, em cascata, desde antes de o processo haver começado a tramitar. Sobre todos eles, o tempo e a Justiça ainda haverão de falar. Alguns estão gravados e nós ouvimos.

 E SE FOSSE NO SEU CONDOMÍNIO?
 Veio de um amigo a mais clara explicação sobre o crime de responsabilidade praticado pela presidente Dilma. Perguntou-me ele: "Num condomínio, pode o síndico usar recursos do Fundo de Reserva sem autorização da assembléia?". E em seguida: "Se o síndico faz isso, o que lhe acontece?". As respostas são óbvias. Não pode o síndico agir assim por conta própria. E se o fizer, cai-lhe a casa em cima, entra em desgraça, é destituído da função. Ora, se tal conduta tem gravidade num condomínio, imagine-se quando falamos de um país e de seu orçamento!

UM PESO E UMA MEDIDA
 O Procurador Geral da República descarregou um caminhão de candidatos à investigação no colo do STF. Sobrou para ambos os lados do espectro político. Pouco depois, por unanimidade, o Supremo mandou Eduardo Cunha tirar férias. Ninguém foi às ruas protestar, ninguém esbravejou, ninguém saiu por aí a cuspir nos demais. A nação celebra todo gesto de limpeza, todo ato de Justiça, toda contribuição ao saneamento moral das instituições. Essa diferença em relação aos paladinos do indefensável, que chamam bandidos de heróis, só não vê quem não quer. Por isso, não imagine o vice-presidente que a inclemência institucional e popular em relação à organização criminosa que está sendo afastada do poder o beneficie além dos precisos termos da Constituição, que o fazem primeiro da linha sucessória. Tão logo assuma, estará sendo pessoalmente julgado por sua conduta e pelas escolhas que fizer. Os bons brasileiros têm um só peso e uma só medida.

Sob a égide do Poder Moderador

 Demétrio Magnoli
Folha de  São Paulo

No Brasil imperial, o imperador exercia privativamente o Poder Moderador, com a assessoria do Conselho de Estado. Graças a ele, o Primeiro Reinado configurou-se como monarquia absoluta. As desordens da Regência conduziram à instauração do parlamentarismo e à restauração do Poder Moderador, que passou a funcionar como "árbitro dos conflitos da elite" (José Murilo de Carvalho), estabilizando o Segundo Reinado. A decisão do STF de suspender o mandato de Eduardo Cunha, "uma das mais extraordinárias e corajosas da história político-judiciária do Brasil" (Joaquim Barbosa), ilumina uma crise institucional aguda. É um indício de que o governo transitório de Temer viverá à sombra de um novo Poder Moderador, desta vez exercido coletivamente pelos juízes da corte suprema.

A sentença do STF é "extraordinária" num sentido preciso, talvez vislumbrado por Barbosa: representa uma nítida violação das prerrogativas do Congresso e, portanto, da regra de ouro da separação de Poderes. Mas o adjetivo "corajosa" serve apenas como ornamento retórico de um ato judicial politicamente motivado, que se destina a arbitrar os "conflitos da elite".

Só os eleitos podem dispor do mandato dos eleitos –eis o princípio democrático que a corte suprema decidiu ignorar. O Congresso, mas não o STF, pode deliberar impeachment da presidente– e, ainda, o de um juiz do próprio STF. Mesmo o afastamento provisório de Dilma depende de duas deliberações parlamentares sucessivas. (Coisa diferente é a impugnação judicial da chapa eleita, que não se confunde com cassação de mandato.)

Em nome do mesmo princípio, a Constituição atribui exclusivamente ao Congresso a prerrogativa de cassar mandatos parlamentares. Até a mera confirmação da prisão em flagrante de um parlamentar exige autorização de sua Casa, isto é, da Câmara ou do Senado. Para circundar a letra constitucional, o STF recorreu ao subterfúgio da suspensão temporária do mandato de Cunha, fundamentada em interpretação ousada, ultraliberal, do Código de Processo Penal. Assim, alçando-se acima das fronteiras legais, o STF decretou uma excepcionalidade, que forma um embrião de jurisprudência. Depois de Cunha, será a vez de Renan?

Tempos anormais. A Câmara não reagirá à usurpação de poder pois sofre os efeitos devastadores da desmoralização do Poder Legislativo infligida ao longo do reinado lulopetista. Nesses 13 anos marcados pelo "mensalão" e pelo "petrolão", a maioria parlamentar associou-se ao Executivo em pactos de natureza mafiosa. Os mandatos populares converteram-se em passaportes para a delinquência política e a criminalidade comum. "Quando dizem que nossas instituições são fortes, isso cheira a piada", atirou o efêmero ministro da Justiça Eugênio Aragão, empossado com a missão impossível de implodir o que ainda resta de institucionalidade. Nesse diagnóstico (e só nisso!), ele tem razão: é sobre uma paisagem de ruínas que se ergue o novo Poder Moderador.

O STF conta com o apoio de uma opinião pública farta do personagem nefasto que seus pares protegem –e, ainda, com o elogio de um PT preso à lógica de sua própria narrativa embusteira sobre o impeachment. Mas, sobretudo, ampara-se nos interesses do governo adventício, a quem presta um serviço estratégico.

Temer monta um extenso arco governista, congregando o PMDB, os sócios menores do lulopetismo e a oposição. Ele terá esmagadora maioria parlamentar, mais que suficiente para cassar Cunha. Mas, agindo preventivamente, o STF soluciona o impasse, libertando-o do imperativo de mobilizar essa maioria num rumo capaz de produzir insanáveis fissuras entre as máfias políticas pacificadas, entregues à orgia da redivisão de feudos na administração pública. Sob aplausos gerais, o "árbitro dos conflitos da elite" anestesia a sociedade, postergando as rupturas inevitáveis.

Bolívar Lamounier:"Vivemos cinco anos de uma gestão criminosa


Mariana Queiroz Barboza 
Revista ISTOÉ

Para cientista político, pacote de bondades de Dilma é uma tentativa de atingir o eventual novo governo, a atual recessão já levou embora todas as conquistas dos últimos anos e, se assumir, Temer não pode agir como interino

Observador da política nacional há 50 anos, o sociólogo e cientista político Bolívar Lamounier, sócio diretor da Augurium Consultoria, pede desculpas pelo tom raivoso que tem adotado nas críticas ao governo. “Sempre me disciplinei a ser ponderado”, afirma. “Mas, de cinco anos para cá, conclui que não dá.”
  
Para Lamounier, membro da Academia Paulista de Letras e autor de diversos livros sobre a sociedade brasileira, a corrupção no País chegou a um nível inimaginável há poucos anos e afetou dramaticamente a imagem do Brasil no Exterior. Mas o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff e o andamento da Operação Lava Jato são passos importantes rumo ao amadurecimento da democracia.
 
 
''O PT tem discursos oportunistas. O partido tomou 50 vezes a iniciativa 
de impeachment. Em todos os casos, ele considerava 
legítimo. Quando ele está no poder, não é?''
 
“O Brasil está passando por uma crise saudável, mas profunda”, afirma. Nesse cenário, o sociólogo é otimista de que um eventual governo de Michel Temer, com Henrique Meirelles e José Serra, seria capaz de recuperar a credibilidade do Brasil. Da espaçosa sala da casa onde vive há 15 anos, num bairro nobre de São Paulo, Lamounier recebeu a reportagem da ISTOÉ na semana passada.
 
 ISTOÉ -
 Na quinta-feira 5, o ministro do Supremo Tribunal Federal Teori Zavascki afastou Eduardo Cunha da presidência da Câmara dos Deputados. Essa decisão veio tarde?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Queremos que essa limpeza seja feita o mais rápido possível, não só do Cunha, como a do Renan Calheiros e vários outros. Especificamente em relação ao Cunha, está em curso uma tentativa de afastá-lo de maneira que invalidaria o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff. É um recurso impetrado pela Rede. Isso evidentemente seria uma tentativa de golpe. Entendo que a decisão do Teori matou dois coelhos numa cajadada: afastou um homem acusado de corrupção e invalidou a tentativa de golpe por parte da Rede. Não é cedo nem tarde, veio no momento certo.

ISTOÉ -
Para Cunha, essa seria uma interferência indevida do Judiciário no Legislativo. Esse pedido de afastamento é legítimo?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Há duas coisas cuja legitimidade merece ser discutida: tanto o recurso da Rede quanto a decisão do Teori. Em ambos os casos, haveria uma intervenção, a meu ver, indevida do Supremo no Legislativo. Agora, se isso iria acontecer, por meio do Marco Aurélio Mello (relator da ação da Rede contra Cunha), podemos ver a ação do Teori como uma espécie de contragolpe preventivo. Já vimos isso antes. Em 1955, o Marechal Lott deu o chamado “golpe da legalidade”. Parece uma contradição em termos, mas é porque havia uma tentativa de impedir a posse do Juscelino Kubitschek. Ele, então, afastou o presidente interino antes. Infelizmente são coisas de um país cujas instituições ainda não estão bem consolidadas.

ISTOÉ -
Ter Cunha na linha sucessória seria uma mancha num eventual governo de Michel Temer. Essa é uma boa notícia para o vice-presidente? 

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Sem dúvida. Quanto mais clara ficar a linha sucessória, melhor. Infelizmente o substituto (Waldir Maranhão, do PP-MA) também parece ter uma ficha corrida considerável. O Brasil está passando por uma crise saudável, mas profunda. Uma crise de limpeza que há muito tempo se fazia necessária.

ISTOÉ -
 Como o sr. enxerga a narrativa de vitimização do PT?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 O PT tem discursos oportunistas, cada um improvisado de acordo com as circunstâncias. O partido tomou 50 vezes a iniciativa de impeachment desde o governo Sarney. Em todos os casos, ele considerava legítimo. Quando ele está no poder, não é? Tenho dificuldade de levar a sério qualquer discurso jurídico que venha do PT. 

ISTOÉ -
 Nas últimas semanas, a presidente Dilma tem se dedicado a um “pacote de bondades”, num momento em que a agenda é de ajuste fiscal. Como o sr. avalia essas medidas?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Repito: não levo a sério o discurso petista. Um dia, é preciso arrochar. No outro dia, tem pacote de bondades. E assim se sucede a cada semana, uma contradizendo a outra. São decisões populistas, irresponsáveis e inimigas do Brasil. Dilma está cansada de saber que as contas têm um rombo terrível. E demagogicamente, no apagar das luzes, ela resolve gastar mais.

ISTOÉ -
 É uma atitude desesperada?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Pior. É uma tentativa de atingir o mandato do futuro presidente. O País que se dane.

ISTOÉ -
 A recessão atual é uma das mais graves da história do País. Os ganhos com a queda da desigualdade nos últimos anos estão em risco?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Os ganhos foram muito menores do que o governo costuma propalar. Mas é claro que essa recessão já levou embora todos essas conquistas. Tudo virou pó. A destruição de riqueza a que estamos assistindo, devido à crise econômica, não tem paralelos na história do Brasil.

ISTOÉ -
 No fim do ano passado, o sr. publicou um artigo criticando a paralisia das elites em relação à crise. Recentemente, porém, alguns empresários se organizaram em favor do impeachment. Esse foi um ponto de inflexão?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Hoje escreveria um pouco mais aliviado do que em novembro. Estava vivendo uma grande angústia, porque via o País ser destruído e a sociedade não se organizava. Foi quase um apelo. Onde estava o instinto de defesa dos empresários, que viam suas empresas construídas ao longo de gerações irem para o vinagre? Umas à falência, outras endividadas em moeda estrangeira. Vivemos cinco anos de uma gestão criminosa. Dizer que isso é pura incompetência é pouco. Porque uma pessoa que desconhece o labirinto da vida pública, que não sabe nada de economia, que não tem tino para escolher auxiliares nunca devia ter se prestado à farsa de se eleger presidente da República. E é óbvio que foi uma farsa montada pelo Lula, porque, com seus próprios votos, Dilma não se elegeria nem vereadora.

ISTOÉ -
 Durante esse período de instabilidade, como fica a imagem do Brasil no Exterior?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Péssima. O Brasil no Exterior é hoje uma grande piada. Faço a ressalva de um período em que o Lula conseguia vender a imagem do Bolsa Família. Ponto para ele. Quanto ao resto, a imagem do Brasil nesses 13 anos foi catastrófica. Viramos amigos do tirano do Irã, do Chávez na Venezuela, do Morales na Bolívia. Foi uma política externa caótica, insensata, desprovida de qualquer significado.

ISTOÉ -
 Como fazer para resgatar essa imagem?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 A primeira coisa é mandar a Dra. Dilma para casa, impedir o Lula de fazer novos estragos, e deixar o governo Temer assumir efetivamente com um programa respeitável. E isso não é prometer o paraíso para depois de amanhã. Ele tem que comunicar à sociedade que vai recuperar a situação econômica e o crédito do governo junto à sociedade passo a passo. Isso pode levar seis meses, um ano, não sei. Mas Temer não pode se assumir como interino. Dois anos é tempo suficiente para um novo governo.

ISTOÉ -
 Quais obstáculos Michel Temer deve enfrentar se de fato assumir a Presidência da República?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 O principal é a estrutura política brasileira. Ela é desnecessariamente complicada. O Brasil não precisa de tantos partidos. Na hora de qualquer modificação, vem pressão de todos os lados, mal se consegue montar uma equipe. Temer já está recuando da meta de eliminar ministérios. Cortá-los pela metade é questão de bom senso, economia e eficiência. Mas não se consegue cortar pela mesma razão que eles foram implantados. A reforma política é a mãe de todas as guerras e, nesses dois anos do Temer, não há condições de tocá-la. O que podíamos fazer era aprofundar os estudos a respeito disso.

ISTOÉ -
 Num eventual governo Temer, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles é dado como certo na Fazenda. Como ele poderia ter uma atuação mais bem-sucedida que o ex-ministro Joaquim Levy?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Meirelles tem mais densidade política. Já foi ministro durante muitos anos, passou por muitas trovoadas. O Levy é um grande economista e uma pessoa seríssima, mas não tinha a força que Meirelles tem. Além do mais, Levy estava sendo sabotado diariamente. Ele era um ministro liberal num governo de Dilma Rousseff. Não há proposições mais antitéticas do que essas duas. Dilma tem cabeça estatizante. Para ela, empresa privada é um incômodo que ela tolera. Evidentemente não é uma pessoa que tem simpatia pela economia capitalista. Meirelles, junto com Temer e (José) Serra, será um fator preponderante nessa recuperação da credibilidade do governo aqui e no Exterior. É preciso recuperar a confiança de que o governo não vai cometer imprudências.

ISTOÉ -
 O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou o Planalto com a popularidade em alta. Hoje foi impedido de se tornar ministro da Casa Civil. Como o sr. vê essa transição?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Quem, neste País, poderia imaginar o conluio do Lula com os grandes empreiteiros? Eu nunca achei que ele fosse essa santidade, mas o grau da coisa nunca pude imaginar. Lula saiu da Presidência com 83% de aprovação graças ao seu talento, mas principalmente à China, que estava crescendo 10% ao ano e sustentando o Brasil. Porque o Lula não fez nada no plano interno em favor do crescimento econômico. Não fez reforma estrutural nem nas relações de trabalho nem tributária. Não fez nenhuma grande obra de infraestrutura. Ele entregou o governo ao Meirelles – nisso ele foi muito sagaz – e voltamos a ser um país exportador apenas de matéria-prima, como há 100 anos. Como isso rendia uma soma extraordinária de recursos, ele pôde se tornar extremamente popular distribuindo bondades e virou uma pessoa praticamente sem inimigos.

ISTOÉ -
 Ao fim desse processo, a democracia sairá fortalecida?

BOLÍVAR LAMOUNIER -
 Não tenho dúvidas. O processo da Petrobras caiu nas mãos de um juiz competente, enérgico, especializado em lavagem de dinheiro, que estudou profundamente nos Estados Unidos questões relacionadas à corrupção. Começamos a ver coisas que nunca tínhamos visto, como empresários na cadeia. Temos que admitir. Uma parte por nossas qualidades enquanto país e uma parte por sorte, demos um grande passo adiante. E acredito que isso seja, em seu conjunto, irreversível.