domingo, maio 22, 2016

Não só pedaladas justificam o afastamento definitivo da governanta louca. O conjunto da obra é criminoso!!!

Adelson Elias Vasconcellos

Que a bruxa Zika Vanna Rousseff e seus vampirinhos sugadores sejam enviados para o submundo de onde vieram e de lá não saiam nunca mais. 



É claro que a cambada do governo da ex-presidente Dilma, e ela própria, tentarão criticar o déficit anunciado por Henrique Meireles, na base do não é bem assim,   que se trata de um exagero,  que o exagero produzido é conspiração da direita, da imprensa, de quem era oposição, das zelites, enfim, aquele discurso vigarista que já conhecemos bem.

Acontece que, para quem acompanhava minimamente o governo afastado, este discurso dilmista é papo furado.  Desde de setembro de 2010, antes mesmo da petista ser eleita, baseando-se nas ideias que defendia durante a campanha, já se afirmava que Dilma iria optar pelos caminhos errados.  A senha para tal conclusão se prendia à afirmação de que "ajuste fiscal" era coisa do passado. Uma ova! Naquela altura, dada a gastança desenfreada promovida por Lula para eleger a sucessora, imporia a necessidade de se apertar o cinto, ao menos no primeiro ano, para recuperar o equilíbrio das contas públicas, então comprometidas pela irresponsabilidade de Lula. 

Passamos o primeiro mandato inteiro alertando para as escolhas ruins, para o excesso de despreocupação com o equilíbrio fiscal,  para o abuso na maquiagem que escondia a face real destas contas, a falta de direção, assistindo-se um governo investir exclusivamente em angariar votos mirando sua reeleição. 

Se a gente fizer uma retrospectiva  dos indicadores econômicos no período 2011/2014, vamos observar que, a rigor, Dilma chegou à campanha contando com um único indicador positivo: emprego/desemprego. Explicamos que, mesmo assim, de todas as quedas, este indicador sempre seria o último dado a despencar.

Não foram apenas as sucessivas quedas do PIB, o crescimento da inflação e, por conseguinte, dos juros, a elevação da dívida pública, a queda na produção e na renda, o abismo experimentado pela indústria durante três anos sucessivos. Foi a falta de uma política econômica que compatibilizasse receita e despesa. De um lado, tínhamos um governo gastador, com enormes desperdícios e vícios de pura ostentação, de outro, desonerações amalucadas sem nenhum critério técnico. Assim, enquanto o governo incentivava o gasto desabusado, de outro ele próprio trabalhava por reduzir sua própria receita. A conclusão só poderia resultar um mergulho na recessão profunda,  com a consequência, inevitável, do desemprego em massa. 

E não pensem que o rombo se restrinja apenas aos 170,5 bilhões anunciados por Henrique Meirelles. Há muito esqueleto que precisa ser retirado do armário. Sabe-se que há mais de 200,0 bilhões referentes a restos a pagar. O buraco na Eletrobrás sequer foi dimensionado, e com a chegada de Pedro Parente, será preciso aguardar certo tempo para conhecermos os verdadeiros números da Petrobrás. Serão necessárias muitas devassas em todos os ministérios, estatais, fundos de pensão, para que a verdade das contas seja conhecida. Dilma, antes de ser obrigada a se afastar, plantou muita safadeza, muitas armadilhas, muitas bombas-relógio. Não foi apenas a pior e mais medíocre presidente da nossa história. Quiçá terá sido a mais mau caráter e desonesta dentre todos. E olhem que a concorrência é de peso. Mas ninguém se iguala em desonestidade ao que Dilma fez antes, durante e depois, já que reuniu uma quadrilha de assessores para sabotar o governo Temer e, em consequência, agir contra o país e suas instituições, numa repetição de crimes de responsabilidade sem fim. 

A petista, como se vê, não tem apenas as pedaladas fiscais para justificar seu afastamento. E olhem que não tocamos aqui no assunto corrupção. Rousseff estufa o peito para dizer que não roubou, que não tem contas secretas no exterior. Primeiro, permitir que roubassem  não deixa de ser uma forma de roubo. Segundo, até agora ela não explicou os milhões de reais que bancaram suas duas campanhas e que, já se sabe, eram produto da roubalheira da Petrobrás. Quanto a contas secretas no exterior, o fato de não terem sido descobertas não significa que não existam. 

Num período relativamente curto - foram cinco anos e alguns poucos meses-, Dilma destruiu o trabalho de construção de 50 anos, jogou no lixo a estabilidade econômica, a esperança de uma nação de 200 milhões de pessoas, o sacrifício bancado por várias gerações para que chegássemos a esta quadra nos regozijando com um Brasil melhor, mais venturoso, mais próspero.

Para os que acompanham este blog, nadas das desgraças presentes que o país está suportando, não foi prevista e alertada nos textos e comentários ao longo do tempo. Em julho próximo, estaremos completando 10 anos de existência, mantendo sempre um posicionamento crítico em relação aos governos petistas, discordando visceralmente de suas escolhas e de seu projeto de poder, sempre colocado acima de um projeto de país. 

É por isso que vamos torcer muito para que Dilma seja afastada em definitivo, para que o Judiciário não seja tão generoso nas punições aos petistas condenados como o fizeram no mensalão. Talvez seja esta a grande oportunidade para podermos dar um “BASTA” definitivo às ideias retrógradas da esquerda, do tal “bolivarianismo”. Nada desta patuscada diz respeito ao Brasil, ao seu povo, à sua história. Chega de vulgaridade, mistificação, empulhação, baixarias de toda ordem inclusive as culturais. Chega deste atraso rombudo, deste obscurantismo bestialógico, desta estupidez ideológica. O brasileiro que estuda e trabalha, trabalha e estuda, quer seguir em frente, abraçar a civilidade, quer um país moderno e livre deste ranço cadavérico.  Basta-nos o exemplo da Venezuela para sabermos o que não nos serve. 

Para se ter ideia do quanto a presença desta senhora é perniciosa ao país, o Brasil, entre organismos internacionais e embaixadas e consulados no exterior, acumula uma dívida de R$ 6,7 bilhões !!! Há representação diplomática que não vê dinheiro há mais de quatro meses, ficando impedida de pagar água, luz, telefone, afora salários. E quanto aos organismos internacionais como ONU, OEA, FAO, UNESCO, OIT, etc, praticamente tira do país o poder de consultar e atuar em favor dos nossos interesses . Imaginem o vexame que os brasileiros no exterior precisam suportar diante de um governo caloteiro, sem falar em serviços que deixam de ser prestados  para aqueles que viajam, estudam, trabalham ou moram fora porque nossos serviço diplomático está com telefone e luz cortados por falta de pagamento! 

Que a bruxa Zika Vanna Rousseff e seus vampirinhos sugadores sejam enviados para o submundo de onde  vieram e de lá não saiam nunca mais. 

Certa vez sugeri que a “afastada” procura-se especialista para tratar-se. Os últimos meses, mais do que nunca, recomendam que ela o faça o quanto antes, antes que lhe fuja, de vez, a pouca lucidez que lhe resta.

A falta que faz a leitura!
Bem que a classe artística brasileira poderia aproveitar as muitas horas de total ociosidade na ocupação de prédios públicos, em protestos descarados contra a incorporação do Ministério pela da Educação, ler e conhecer um pouco mais a constituição brasileira. 

Quem sabe não parassem de externar tanta baboseira!!!! É impressionante o tamanho da ignorância desta gente que se quer culta e não tem um tiquinho de domínio da lei maior do país. Quem quebrou o país, quem cortou milionárias verbas dos programas sociais, da educação e da saúde, quem enlameou o Brasil com corrupção,  rebaixou nosso grau de risco, aliou-se com governos ditatoriais e totalitários, quem jogou a estabilidade no lixo foram os governos do PT comandados por  Dilma e Lula.

E já que se acham assim tão preocupados com a “cultura brasileira”, respondam: após 13 anos de poder, qual o legado cultural que os petistas deixaram para as futuras gerações? Ou será que apenas interessa aos “artistas” as tetas do Tesouro Nacional?

As mordomias de Dilma
Informa o blog O Antagonista:

Dilma Rousseff, no Palácio da Alvorada, tem 120 empregados, entre cozinheiros, garçons, equipe médica, seguranças, piscineiros e arrumadeiras.
O Globo informa que Michel Temer quer reduzir essa mordomia.
Dilma Rousseff nomeou também 35 assessores.
"Como esses postos pertencem à estrutura da Presidência, assessores de Temer defendem que o presidente interino solicite a devolução de alguns deles".
A área jurídica da presidência estuda também uma maneira de "limitar os deslocamentos de Dilma com aeronaves da FAB ao trajeto Brasília-Porto Alegre".
Os brasileiros terão de cobrir o rombo de 170 bilhões de reais deixado por Dilma Rousseff nas contas públicas. Ela pode contribuir renunciando a meia-dúzia de piscineiros e arrumadeiras.

Para lembrar: Collor foi deposto por muito menos razões do que Dilma e a ele foram negados quaisquer privilégios. E olha que o processo era para ser igual!!! 

De qualquer maneira, fica claro porque os petistas se aferram tanto ao poder. O país e os brasileiros que se danem. Cai fora, bruxa! 

O que o PT deixa de "melhor" e de pior

 João Cesar de Melo
 Instituto Liberal

Depois de 13 anos e 5 meses, período no qual o Brasil saboreou seu “melhor momento econômico”, segundo Lula, o PT entrega um país com 33 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, 39,5% da população sem ensino fundamental completo, 13% de analfabetos, 35 milhões sem acesso a água tratada, 100 milhões sem acesso a sistemas de coleta de esgoto, sendo que 4 milhões de pessoas sequer contam com banheiro nos locais onde residem.

Depois de 13 anos e 5 meses, período no qual o pré-sal foi descoberto e que, segundo os petistas, alimentaria o grande salto de desenvolvimento do Brasil, ocupamos a 120° posição no ranking de qualidade de infraestrutura, a 112° posição no ranking de liberdade econômica, a 75° posição no ranking de desenvolvimento humano e a Petrobrás tornou-se a empresa mais endividada do mundo. O Brasil continua importando combustível.

Os 60 mil assassinatos por ano colocam o país no topo do ranking mundial de violência urbana.

Resumindo, o Brasil continua um país tão pobre, tão atrasado, tão mal educado e tão violento quanto sempre foi, porém, vivendo o pior momento econômico de sua história, com desemprego acima de 10%, recessão de 4% prevista para 2016 e um retrocesso acumulado de 8% até 2017, com uma dívida bruta de quase 70% do PIB.

O Partido dos Trabalhadores fez o Brasil voltar ao passado, mas há o que comemorar.

A era petista, especialmente o governo Dilma, coincidiu com a revolução da informação que vem ocorrendo em todo mundo.

Enquanto os socialistas cobravam do governo medidas de “democratização da mídia” – eufemismo para desmantelamento de jornais e redes de televisão -, o capitalismo tornava computadores e telefones celulares conectados a internet acessíveis a um número cada vez maior de pessoas, proporcionando a construção de uma rede mundial e espontânea de informação que está obrigando a tradicional imprensa a se reformular. Graças às ambições das grandes corporações de tecnologia, centenas de milhões de indivíduos tornaram-se os repórteres do nosso tempo, refutando as mentiras dos grandes jornais, denunciando a parcialidade das grandes redes de televisão e inviabilizando a existência da mídia impressa.

Graças a revolução da informação, as campanhas publicitárias do governo têm cada vez menos eficácia; cada número ou obra apresentada é refutada minutos depois por pessoas comuns que mostram a realidade dos fatos através de imagens, vídeos e testemunhos.

Foi um grande azar para o PT ter chegado ao poder nessa época. Mesmo com todo o dinheiro e com toda a estrutura do governo, não conseguiu controlar o discernimento de dezenas de milhões de pessoas.

Graças a incompetência, a arrogância, a roubalheira e as mentiras do PT, as pessoas começaram a questionar a esquerda e procurar se informar melhor sobre a direita; e nessa procura descobriram as ideias liberais e libertárias. Pessoas comuns, que outrora eram reféns de dois ou três canais de televisão, se viram diante de uma fonte infinita de informações.

Quem quis, soube a verdade a respeito da ditadura cubana e de outros regimes comunistas, descobrindo as semelhanças entre eles e o fascismo.

Quem quis, soube a verdade a respeito do regime militar no Brasil, que os “heróis” reverenciados pela esquerda estavam a mando de ditaduras imensuravelmente mais violentas e totalitárias do que a brasileira.

Quem quis, percebeu que os partidos de bandeira vermelha no Brasil não são nada menos do que partidos comunistas; e foi isso o que construiu a rejeição ao PT, fazendo com que grande parte de seus eleitores se transformassem em seus maiores críticos.

Para o desespero do movimento comunista brasileiro, não apenas a direita conservadora representada por Bolsonaro ganha popularidade, mas também pessoas e canais liberais e libertários. O Instituto Liberal e o Instituto Mises são cada dia mais visitados. Nos dias que antecederam o impeachment, os quatro sites de política mais visitados são de direita, representando nada menos do que 40% do número total de acessos. A terceira posição nesse ranking é ocupada pelo Spotniks, protagonizado pelo brilhante Filippe Hermes e que conta com uma equipe de apenas dois articulistas e dois profissionais de TI, deixando para trás portais de grandes jornais e sites patrocinados pelo governo. Entre a 5° e a 25° posição, constam apenas 7 sites de esquerda, somando míseros 15% dos acessos.

Para o desgosto da esquerda, o número de visitas ao blog do Rodrigo Constantino só vem aumentando desde que ele saiu da revista Veja. No google, as buscas por matérias sobre Ludwig von Mises já superam em duas vezes as buscas por matérias sobre John Maynard Keynes. Bruno Garschagen se tornou bestsellerem seu livro de estreia. Livros e artigos não alinhados ao socialismo são cada dia mais lidos, desbancando em muito as publicações relacionadas a esquerda. Dos 9 ebooks sobre política mais vendidos pela Amazon, 7 são de autores conservadores, liberais e libertários. Nunca antes na história desse país, o marxismo foi visto como algo tão velho, tão atrasado, tão mal cheiroso.

Graças a revolução da informação, os brasileiros estão percebendo as intenções totalitárias do PT e dos partidos que o apoiam; estão vendo que esses partidos também apoiam a ditadura cubana e o regime bolivariano implantado por Ugo Chávez e continuado por Nicolás Maduro, o mesmo líder socialista que disse que o impeachment de Dilma foi um golpe de estado e que dois dias depois decretou estado de exceção na Venezuela, intervindo nas empresas privadas e ameaçando prender empresários que se recusem a trabalhar para o governo. Hoje, o povão enxerga tudo isso na telinha de seu celular.

A sociedade brasileira está se politizando na mesma medida em que se livra da influência marxista, tomando conhecimento do mundo que existe além dos mantras e das liturgias comunistas.

Para o desespero da extrema-esquerda brasileira, já existe nas universidades movimentos conservadores, liberais e libertários para ocupar os centros e diretórios acadêmicos.

Graças ao PT, houve um racha na sociedade. Se até dez anos atrás a sociedade era influenciada por partidos e militantes de extrema-esquerda, hoje, esses militantes gritam apenas para si mesmos, já que a maior parte da sociedade já consegue identificar extremismos, falácias e alternativas.

Depois de treze anos e cinco meses de PT, formamos uma sociedade muito mais consciente e interessada no que acontece nas câmaras e nos palácios do Brasil.

A economia política de ‘os menino pega o peixe’

Rolf Kuntz, 
O Estado de S. Paulo 

Meter a mão em dinheiro público pode ser apenas um crime na maior parte do mundo, mas no Brasil é também um problema fiscal. Membros do governo andaram examinando, nos últimos dias, se deveriam considerar, na revisão das contas públicas, algum aporte de dinheiro à Eletrobrás, saqueada no Brasil e encrencada no mercado americano de ações. A segunda maior estatal brasileira ainda devia a apresentação do balanço de 2014. O fechamento continuava atrasado porque faltavam informações sobre propinas e desvio de dinheiro. À primeira vista, nada tão grande quanto a pilhagem da Petrobrás, mas suficiente para incomodar os xerifes do mercado de capitais dos Estados Unidos. Em resumo, o banditismo cevado no esquema petista de loteamento do Estado complicou a gestão das contas públicas. Mas calcular o déficit primário – durante a semana, os palpites oscilaram entre R$ 150 bilhões e R$ 200 bilhões – seria apenas um passo para a revisão da meta fiscal e, portanto, para o início do ajuste das finanças oficiais. Essa arrumação, segundo analistas, é a primeira e talvez maior tarefa da nova administração, se o governo chefiado pelo presidente interino sobreviver além de seis meses. Se essa fosse a maior parte da agenda, tudo seria muito mais simples.

A pauta real envolve desafios maiores e é bem mais ambiciosa. De fato, nada mais será possível se o governo for incapaz de ajeitar as contas e em seguida conter e reduzir o peso da dívida pública, mas isso é só uma condição para todo o resto. Esse resto é a parte mais importante. As linhas principais da grande tarefa já foram indicadas. Será preciso criar condições para um crescimento seguro. Esgotada a capacidade ociosa, restará um potencial de crescimento próximo de 1% ao ano, talvez pouco menor. O assunto é examinado em estudo recente do Ipea, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Será indispensável pensar em produtividade e competitividade. Esses objetivos foram negligenciados por muitos anos, enquanto o governo deu prioridade à gastança, à distribuição de favores fiscais e financeiros e ao protecionismo.

O baixo poder de competição da economia brasileira tem sido mostrado em estudos produzidos dentro e fora do País. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) tem realizado periodicamente relatórios sobre o assunto. Na pesquisa divulgada em 2015, o Brasil ficou na penúltima posição, num conjunto de 15 países desenvolvidos e emergentes. Na avaliação geral, Canadá, Coreia do Sul, Austrália, China e Espanha compuseram o terço superior. O Brasil ficou no terço inferior em quase todos os fatores. Ficou em quarto lugar no quesito disponibilidade e custo de mão de obra, mas essa vantagem desapareceu quando se tratou da produtividade dos trabalhadores industriais. Nesse item, o País apareceu na 12.ª posição num total de 14 competidores.

Na educação, um dos fatores determinantes da qualidade da mão de obra, a posição brasileira tem sido humilhante. Três dimensões foram consideradas: disseminação, qualidade e recursos aplicados. As informações coletadas permitiram a comparação completa entre 11 países, mas conjuntos maiores foram usados em algumas comparações. Quanto à disseminação, o Brasil ficou em penúltimo lugar numa lista de 11. Em relação à qualidade, em 10.º num conjunto de 12. Mas quando se tratou das despesas, o País apareceu em posição intermediária, classificado como 8.º num grupo de 13.

De acordo com a tabela, a Coreia gasta o mesmo que o Brasil, 3,3% do produto interno bruto (PIB), mas a Coreia ocupou o primeiro lugar nas classificações pela qualidade, pela disseminação e pela parcela de pessoas com formação superior (66% da população entre 25 e 34 anos). No Brasil, essa fatia corresponde a apenas 14% (dados de 2012). Com gastos proporcionalmente menores que os do Brasil apareceram o Chile, a Rússia, a China e o México, mas todos ficaram em posições superiores à brasileira no quesito qualidade.

A desgraça na área educacional é também confirmada, periodicamente, nos exames do Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, mantido pela OCDE. No teste de 2013 o Brasil ficou em 58.º lugar entre 65 países. No último quadro geral, os brasileiros foram classificados em 58.º lugar em matemática, 59.º em linguagem e 55.º em ciências.

Em 2011 houve um debate azedo, no Brasil, sobre um livro distribuído pelo Ministério da Educação. Segundo esse livro, frases como “os menino pega o peixe” são aceitáveis na linguagem oral. Mas quem fala assim, advertem os autores, pode ser “vítima de preconceito linguístico”. Críticos dessa besteira foram chamados de elitistas e ignorantes. Adotou-se, na defesa dos erros, uma distinção entre linguagem falada, ou informal, e linguagem culta. Pode-se afirmar a distinção, sim, mas em outros termos. Em países com melhor educação as normas de concordância vigoram na fala informal. O acerto é quase instintivo quando se é bem alfabetizado.

O Ministério da Educação deveria conferir se erros básicos de gramática são tolerados em escolas de países mais competitivos. A baixa qualidade educacional é uma grave limitação à produtividade, à competitividade e, portanto, à geração de empregos decentes. Quem fala “os menino pega o peixe” está condenado a ser pouco produtivo e a ganhar mal. Os bons empregos continuarão reservados a quem puder competir com os trabalhadores dos países dinâmicos.

O Brasil gasta em educação mais que países com resultados muito melhores. Cuidar mais da qualidade do gasto – em educação e em qualquer outra área – será parte fundamental de qualquer boa política de crescimento. A arrumação das contas oficiais tem de ir muito além do ajuste contábil. Eliminar a custosa e contraproducente vinculação de verbas deve ser parte dessa mudança. Nesse capítulo haverá muita briga, porque a vinculação pode render bons negócios.
É preciso pensar na qualidade do gasto,  além de cuidar do equilíbrio das contas.

Os cinco deputados do Piantella, 14 anos depois

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


Acompanhados de Jucá, os cinco deputados do Piantella

Tarde de sábado no restaurante Piantella, o melhor de Brasília. Lula havia ganho as eleições presidenciais de 2002 contra o tucano José Serra e estava em Porto Alegre, com José Dirceu e a cúpula do PT, discutindo com o PT gaúcho a formação do novo governo. Um grupo de jornalistas estávamos a um canto, almoçando e conversando sobre o pais. De repente, entram nervosos, aflitos, os deputados Moreira Franco, Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Eliseu Padilha, da direção nacional do PMDB, e começam a discutir baixinho, quase cochichando. Em poucos instantes, chega o deputado Michel Temer, presidente nacional do PMDB. Nem almoçaram. Beberam pouca coisa, deram telefonemas, saíram rápido.

Nada falaram. Acontecera alguma coisa grave. Voltariam logo.

Um deles voltou e contou a bomba política do fim de semana. Antes de viajar para o Rio Grande do Sul, Lula encarregara José Dirceu, coordenador da equipe de transição e já convidado para Chefe da Casa Civil, de negociar com o PMDB o apoio a seu governo, em troca dos ministérios de Minas e Energia, Justiça e Previdência, que seriam entregues a senadores e deputados indicados pelo partido.

MAIORIA NO CONGRESSO
Lula já havia dito ao PT que eles não podiam esquecer a lição da derrubada de Collor pelo impeachment, que o senador Amir Lando, do PMDB de Rondônia, relator da CPI de PC Farias, havia definido como uma “quartelada parlamentar”. No Brasil, para governar era preciso ter sempre maioria no Congresso. O PT tinha que fazer as concessões necessárias.

O primeiro a ser chamado era o PMDB, o maior partido da Câmara e do Senado. Lula mandou José Dirceu acertar com o PMDB, combinaram os três ministérios e ficaram todos felizes. Em Porto Alegre, na primeira noite, Lula encontrou a gula voraz do PT gaúcho, que exigia exatamente os ministérios de Minas e Energia, da Justiça e da Previdência.

Lula cedeu. Chamou Dirceu e deu ordem para desmanchar o acordo com o PMDB. Dirceu perguntou como conseguiriam maioria no Congresso.

– Compra os pequenos partidos – disse Lula. Fica mais barato.

NASCIA O MENSALÃO
Dilma virou ministra de Minas e Energia, Tarso Genro da Justiça e a Previdência ficou para resolver lá na frente. E assim nasceu o Mensalão.

Quinta-feira, quatorze anos depois, na posse do governo Temer no palácio do Planalto, na primeira fila, lá estavam precisamente os “Cinco do Piantella” daquela tarde de domingo: Michel, Moreira, Padilha, GedDel e Henrique: o presidente e seus mais próximos amigos.

A RESPOSTA DA HISTÓRIA
É unânime: dos mais de 60 discursos feitos da tribuna do Senado, na noite de quarta para quinta-feira, o mais brilhante e primoroso, o mais profundo e inteligente, um discurso que ficará na Historia dos grandes discursos do Parlamento brasileiro, foi o do ex-presidente e senador Fernando Collor. O Senado o ouviu do começo ao fim em total silêncio. Como nos grandes dias do Congresso.

Infelizmente, lá não estavam, para ouvi-lo, o presidente Mauro Benevides e o relator Amir Lando, derrotados, os ex-deputados Lula, José Dirceu, José Genoino, Aloísio Mercadante, o marqueteiro João Santana, da tropa de choque da acusação, prisioneiros ou quase, e outros.

A História anda devagarinho, mas sempre chega.

GETÚLIO
Se consultar os “Anais do Congresso Nacional”, o brasileiro lerá ali um discurso do general deputado Euclydes de Figueiredo, da UDN do Rio, herói da Revolução Constitucionalista Paulista de 1932, que na Constituinte de 1946 pedia a convocação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para “apurar os crimes da ditadura”.

E ele dizia, da tribuna da Câmara, que foram crimes que estarreceram a nação, escandalizaram o Brasil diante do mundo e, por isso, era preciso que a Câmara os investigasse, punisse os responsáveis, para que servisse de lição para as próximas gerações. E o principal réu era o ditador, Vargas.

Por que agora esconder Lula atrás das cortinas?

OS MUÇULMANOS
Dois em um só mês. Em trinta dias, dois ilustres muçulmanos, um inglês e um brasileiro assumiram o comando de sua capital ou de seu país: o prefeito de Londres, Sadic Khan e o presidente do Brasil, Michel Miguel Elias Temer Lulia. E ainda há os idiotas que fazem discriminação racial.

Dilma já é quase uma cidadã comum

J.R. Guzzo, 
Revista EXAME 

Paulo Whitaker / Reuters 
Não vai ter... Dilma: em breve, sua influência na política brasileira
 poderá ficar limitada ao título de eleitor

São Paulo – Deixa de fazer parte do linguajar político do momento, por desaparecimento de propósito prático, a expressão “não vai ter golpe”, uma das mais utilizadas pelo sistema de comunicação e propaganda do governo desde o início do processo de impeachment da presidente da República.

O que passou a vigorar no mundo das realidades, desde a manhã do dia 12 de maio, é que não vai ter Dilma. Os 5 quilômetros que separam o Palácio do Planalto, onde governava oficialmente o Brasil, e o Palácio da Alvorada, onde não está claro o que poderá fazer de útil até seu julgamento final pelo Senado, formam um trajeto que não oferece a opção de volta.

Decorridos no máximo 180 dias, a presidente ora afastada estará apta a retomar sua existência como cidadã comum. Sua ¬influência na vida pública brasileira, a partir de então, estará limitada ao título de eleitor e ao direito de acrescentar um voto à soma final da apuração a ser computada nas próximas eleições municipais, como é o caso para a grande maioria de todos nós.

Uma das maneiras mais seguras de perder tempo, daqui para a frente, será prestar atenção no que Dilma vai dizer enquanto sua situação legal não ficar tecnicamente definida. A observação se justifica porque Dilma permanecerá na mídia escrita, falada, televisada e digitalizada na tela dos celulares, computadores e onde mais for possível que seu nome apareça.

Qualquer pessoa menos atenta, dessa forma, pode ficar com a impressão de que a presidente afastada continua desempenhando um papel importante nos rumos da nação — se está presente todo santo dia nos meios de comunicação, seus movimentos devem ter alguma relevância, não é mesmo? Não, não é — o que torna perfeitamente dispensável o trabalho de ouvi-la.

Dilma, para todos os efeitos práticos, não é mais presidente; é apenas afastada. Já há um bom tempo, na verdade, ela só tem existido na mídia — se a imprensa não falasse dela, nada de notável iria mudar.

No momento de sua saída, não tinha um ministério, não tomava nenhuma decisão, não assinava nenhum documento relevante; chegou perto da perfeição, nessa inércia surrealista, ao nomear¬ e exonerar o ex-presidente Lula do cargo de ministro da Casa Civil sem que ele tivesse conseguido dar nem mesmo 1 hora corrida de expediente. Assim continuará até o fim de seu estágio no Alvorada.

É perfeitamente previsível, na presente situação, que apareçam notícias, análises e comentários sobre o “ministério paralelo” que, segundo anunciam alguns assessores, vai acompanhá-la em seu novo local de atividades. Mas o que se pode esperar de uma coisa dessas?

Se Dilma não produzia o mínimo resultado com os ministros constantes do Diário Oficial, que diabo vai fazer de concreto com esses ministros paralelos, cuja capacidade de decidir é 100% nula? Há também a promessa de viagens internacionais em que Dilma faria denúncias contra o “golpe” — e, com isso, deixaria o governo Michel Temer numa situação delicadíssima perante a comunidade das nações.

O que não se sabe é quais são os chefes de Estado, de partidos e de organismos mundiais, em carne e osso, que vão recebê-la em tais viagens. Que decisões podem tomar em relação ao Brasil? Vão retirar os embaixadores ou promover um boicote econômico? Vão juntar-se a Dilma para entrar com um processo contra Temer no Tribunal Internacional de Haia?

Tudo isso só vai existir, é claro, nas páginas e nos programas dos meios de comunicação; no plenário do Senado Federal, onde estão os votos para o único julgamento que interessa, o efeito será zero. (Não conta ponto, nessa ofensiva estratégica, ser recebida pelos presidentes de Venezuela, Bolívia e outros do mesmo gênero.)

Estão abertos os cálculos para determinar por quanto tempo, ainda, Dilma terá algum interesse real para Lula, o PT e quem está hoje indignado com sua partida. A vida segue.

Carta aberta a Fernanda Montenegro

Mônica Lustosa (*)
 Instituto Liberal



Prezada Senhora,

Sirvo-me da presente para fazer algumas considerações sobre a sua adesão à manifestação contra a decisão de fundir – sim, o governo interino procedeu à fusão das pastas, e não à extinção de nenhuma delas – o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação, que passam a integrar o Ministério da Educação e Cultura (MEC), como o foi no passado. Para minha surpresa, a senhora fez a seguinte declaração: “Isso é uma tragédia. E o presidente interino vai pagar um preço alto por essa visão de um ministério que é sempre dotado de um orçamento miserável, mas é a base de um país”. Sua alegação é tão sintomática que requer uma análise acurada, o que passo a fazer adiante, embora eu não esteja convicta de estar à altura da incumbência. Preliminarmente, cumpre destacar a influência que a senhora exerce sobre o povo brasileiro, o que lhe atribui imensa responsabilidade sobre o teor das suas palavras. Uma pessoa com tamanho prestígio pode dar grande contribuição para um povo que atravessa tão difícil momento de transição política e econômica, como é o caso do Brasil.

Passando ao mérito, a senhora começa atribuindo à fusão das duas pastas a condição de “tragédia”, quando nossas verdadeiras tragédias são outras, entre as quais podemos citar: (1) a situação dos hospitais da rede pública; (2) a violência urbana – que, em 2015, levou à morte mais de 42 mil brasileiros –; (3) a epidemia do vício em drogas, cuja entrada no país foi extraordinariamente facilitada pelo criminoso relaxamento das fronteiras nacionais para execução das políticas estabelecidas pelo metagoverno que atende pelo nome de Foro de São Paulo; (4) o rombo dos fundos de pensão, que já prejudica milhões de aposentados e pensionistas que dependem disso para viver; (5) a corrupção sistêmica do governo que recebeu amplo apoio da classe artística, com raras e honrosas exceções; (6) o altíssimo índice de desemprego, que já ultrapassa 11 milhões de brasileiros e que tem levado ao desespero inúmeras famílias – se cada trabalhador tiver 3 pessoas economicamente dependentes, significa que 44 milhões de pessoas compartilham esta dramática situação, quase um quarto da população nacional –; (7) e a crise política e econômica, que obriga o governo interino a cortar drasticamente os gastos públicos. Isso, senhora, são nossas verdadeiras tragédias.

Na frase seguinte, a senhora argumenta que “o presidente interino vai pagar um preço alto por essa visão (…)”. Vale perguntar – porque resisto a acreditar – se isso é uma ameaça. Bem, se a senhora pressiona com tom de intimidação o presidente interino – escolhido para ocupar o cargo de vice-presidente pela presidente que recebeu amplo apoio da sua classe –, que acaba de tomar posse e tem a desafiadora missão de ajustar as contas públicas, então, é bom lembrá-la que Michel Temer, assim como Itamar Franco, está na única situação em que o Brasil pode ser governado sem populismo, a maior praga da América Latina. Como ele não pretende se candidatar à Presidência da República, nas próximas eleições, não precisará submeter sua gestão aos caprichos de pessoas mimadas e egoístas, que usam discursos coletivistas para legitimar seus interesses pessoais e corporativistas.

Ainda na mesma frase, comentada no parágrafo anterior, a senhora explica a “visão” do presidente interino que reputa como “trágica”: a “visão de um ministério que é sempre dotado de um orçamento miserável”. Ora, nosso orçamento público é miserável sim! Aliás, assim como a ciência médica existe em razão da enfermidade, a ciência econômica existe para solucionar um problema – a escassez de recursos –, razão pela qual todo gestor, público ou privado, mesmo numa situação superavitária, tem a obrigação moral de fazer mais com menos. No caso do orçamento público brasileiro, a situação é ainda mais grave, uma vez que esse tem um déficit de mais de 170 bilhões de reais, sem contar com o rombo das unidades federativas, das estatais e dos fundos de pensão. Ressalte-se, ainda, que a gravíssima situação dos cofres públicos é resultado da gastança criminosa do governo impedido pelo Congresso Nacional, e não do governo interino contra o qual a senhora se rebelou publicamente. A senhora, como formadora de opinião, deveria estar lembrando aos seus pares que só há duas maneiras de um governo alcançar o superávit: através do aumento da carga tributária ou por meio de corte nos gastos públicos. Considerando que o povo brasileiro já é espoliado com a dedução compulsória de 40% da sua renda, resta-nos a redução dos gastos. Então, eu lhe pergunto em que item a senhora propõe que os gastos públicos sejam cortados: (a) na saúde, (b) na segurança pública, (c) nos programas sociais (que, aliás, foram mantidos pelo governo interino), (d) na infraestrutura, ou (e) nenhuma das alternativas anteriores? Eu não duvido que a classe artística opte pela alternativa “e”, mas a senhora tem maturidade suficiente para saber que, assim, a conta não pode fechar.

Uma das lições de Margaret Thatcher era a seguinte: “Nunca esqueçamos uma verdade fundamental: o Estado não tem fonte de dinheiro senão o dinheiro que as pessoas ganham por si mesmas e para si mesmas. Se o Estado quer gastar mais dinheiro, somente poderá fazê-lo emprestando de sua poupança [que o Estado brasileiro definitivamente não tem] ou aumentando seus impostos [ou seja, tirando mais do povo]. Não há dinheiro público, há apenas dinheiro dos contribuintes”. Se para a gestão do orçamento doméstico não há mágicas, o mesmo serve para o orçamento público, pois ambos são regidos por leis matemáticas e contábeis, que não podem ser revogadas pelo decreto de um burocrata. Assim, a fatura da gastança do governo anterior, que recebe a apropriada alcunha de “herança maldita”, deve ser paga por toda a sociedade, e não pela população usuária de serviços públicos essenciais – como saúde, segurança e educação.

E por falar em educação, não tomei conhecimento de qualquer mobilização da constelação de celebridades para contestar a fusão dos dois ministérios em virtude do prejuízo que a medida eventualmente possa causar aos que dependem do ensino público. Não. A reclamação é somente com a “cultura”, nome mais palatável para o setor de entretenimento, que é o que realmente está em jogo aqui. A razão dessa atitude corporativista é simples: o que os senhores realmente estão exigindo é privilégio, já que, sem a proteção estatal, os preços dos shows, filmes e peças teatrais, evidentemente, subirão, e os senhores terão que, como todo brasileiro, experimentar o gosto amargo da crise econômica causada pelo governo que vocês mesmos apoiaram. Ao arguir que entretenimento – como aconselharia Confúcio, vamos dar os nomes certos às coisas, até porque cultura é algo muito mais amplo – é “a base de um país”, a senhora está usando um discurso coletivista para defender a microesfera dos seus interesses pessoais, pois, embora seja realmente importante, não deve ser subsidiado pelo Estado, mas pago pelo usuário do serviço. Base de um país, minha senhora, e que só pode ser patrocinada pelo Estado, é saúde e educação (para os que não podem pagar), segurança, defesa e justiça. Essas são as obrigações estatais dos povos prósperos; o resto – francamente! – é serviço a ser pago pelo consumidor, e não pelos cofres públicos. No entanto, não é esse o entendimento do governo interino, pois, infelizmente, ele afirmou que dará mais verbas para a “cultura” e ampliará a Lei Rouanet, o que, diante de todo o exposto acima, eu lamento muitíssimo. Assim, a fusão dos dois ministérios terá como economia apenas a redução dos gastos com funcionalismo público (ordenados, gratificações e privilégios) e despesas de infraestrutura.

A senhora conclui: “Esse congresso aí pode achar que é uma bobagem, uma frescura ou coisa de veados ou de alienados ou… Esse governo, até quando ele existir na atual conjuntura do Temer (sic), vai sofrer um protesto violento, e eu estou neste protesto”. Torço para que o presidente interino não sucumba às ameaças e intimidações da sua classe e corte o que for lícito cortar para o bem do nosso povo, que é quem paga a conta da inconsequência dos senhores.

(*) Mônica Lustosa  é advogada, especialista em propriedade intelectual e diretora jurídica da HoodID – Registro de Direitos Autorais Online

O ‘New York Times’ errou

Carlos Alberto Sardenberg
O Globo

Não era difícil observar, mesmo para um jornalista estrangeiro, que Dilma era fator de acirramento das duas crises

O editorial do “New York Times” que critica o afastamento de Dilma Rousseff começa equivocado logo pelo título: “Piorando a crise política brasileira”.

Ora, está na cara que a crise não piorou. Ao contrário, o ambiente é mais tranquilo. Ok, estamos falando com uma semana de vantagem em relação à publicação do editorial, no último dia 13. Mas não era nem um pouco difícil observar, mesmo para um jornalista estrangeiro, sempre com visões mais superficiais, que Dilma no governo era fator de acirramento das duas crises, a política e a econômica. Aliás, bastaria consultar analistas de Wall Street, ali pertinho da sede do jornal.

Analistas do mercado não são torcedores. Eles só querem saber como será o desempenho deste ou daquele presidente para avaliar se é o caso de colocar ou retirar dinheiro no país.

Em resumo, e sem juízo de valor, era quase unânime a conclusão: sem Dilma, a crise política arrefece e abre espaço para medidas econômicas, quebrando a paralisia em que se encontrava o país.

É o que está acontecendo.

O “Times” erra também quando examina as causas do impeachment. Diz que a presidente é acusada por uma “suposta trapaça financeira”, apenas uma “tática” empregada por outros presidentes.

Curioso que o jornalão chega perto das pedaladas, quando descreve, en passant, parte do mecanismo: “usar dinheiro dos bancos públicos para cobrir déficits orçamentários”.

Mas alguém lá no board de editores tinha que ter reparado que a explicação estava incompleta. Talvez porque não existam bancos públicos nos EUA, não do tamanho dos nossos, o editorialista do “Times” não tenha cogitado da extensão do caso.

De todo modo, existe aqui uma imprecisão jornalística: usar como? Mandar o banco público pagar obras? Pagar salários?

Importante especificar, porque o uso do objeto da acusação foi algo expressamente proibido pela lei: o governo tomando dinheiro emprestado nos seus próprios bancos.

E aqui o “Times” poderia facilmente fazer a comparação com o que ocorre no setor privado. É regra praticamente universal que o dono não pode se financiar no seu próprio banco. Não apenas essa prática criaria uma concorrência desleal, como colocaria todo o sistema financeiro sob risco.

Imaginem: os acionistas de um grande banco tomam emprestado, no seu banco, para investir numa empresa de petróleo, de sua propriedade. A companhia de petróleo entra em dificuldades. Os acionistas deixam de pagar ao seu banco para salvar sua petrolífera — e quebram todos os outros que têm conta ou investimentos com o banco.

No caso da relação governo/banco público, o risco é macroeconômico. Tomando empréstimo no seu banco, o governo cria dinheiro do nada e, com isso, gera inflação, dívida e juros altos para toda a sociedade.

Isso acontecia direto no Brasil antes das atuais regras de estabilidade fiscal. Bancos estaduais quebraram, incluindo o maior deles, o Banespa, assim como, é lógico, também quebraram os governos que eram seus donos. O BB e a Caixa tiveram que ser capitalizados nos anos 90 por causa dessa prática.

Eis a “trapaça financeira” — uma violação da responsabilidade fiscal, que gerou um déficit de quase 2% do PIB e disparou a dívida pública.

O jornal também compra a versão de Dilma segundo a qual ela fez o que outros presidentes fizeram.
Equívoco jornalístico de novo. Bastaria ter observado um gráfico — o que mostra a movimentação das contas entre o Tesouro (governo) e seus bancos. Por essas contas, o Tesouro manda dinheiro para o banco, a Caixa, por exemplo, pagar o seguro-desemprego ou o Bolsa-Família ou para o BB cobrir juros subsidiados.

Nas administrações FH e Lula, o Tesouro ora ficava credor, ora ficava devedor nessas contas. Quando devedor, por períodos curtos e na casa das centenas de milhões de reais. Dilma simplesmente parou de pagar por meses seguidos a partir de 2013 e acumulou dívidas — ou tomou um crédito — que beiraram os R$ 100 bilhões.

É certo que um jornal de fora não tem como entrar nesses detalhes. Mas o “Times” poderia ter apurado melhor.

Assim, não diria que Dilma está sendo injustiçada porque não roubou dinheiro do petrolão. Ela não está sendo acusada disso.

Também não diria: “muitos suspeitam” que Dilma está sendo atacada porque permitiu o andamento da Lava-Jato, que apanhou políticos que a condenaram.

De novo, o “Times” simplesmente compra a narrativa da presidente e comete outra imprecisão jornalística. “Muitos” quem? Suspeitam como? Além disso, os indícios já bem apurados mostram o contrário, que Dilma tentou obstruir a Lava-Jato. E mais: ela não permitiu nada, simplesmente nem ela nem Temer têm como impedir a operação. Aliás, na última terça, o PT jogou fora essa história e disse que a Lava-Jato é “golpista”.

O “Times” erra de novo quando aceita a hipótese de que os políticos que acusam Dilma estejam apenas querendo trazer de volta a política do “toma lá, dá cá”. Trazer de volta? O governo petista fez isso largamente, desde Lula.

Entre os que votaram pelo impeachment, há muitos deputados e senadores investigados e/ou citados na Lava-Jato. Mas as razões do impeachment são outras. E a operação vai apanhando os envolvidos, antes e depois, como foi com o Eduardo Cunha.

Uma “boa” herança da era PT e do governo Dilma: uma lista do que não fazer em Ciência e Tecnologia

Filipe Vilicic 
Veja online

O sucateamento dessa área tem espantado do Brasil cientistas de ponta, a exemplo de Suzana Herculano-Houzel 



Suzana Herculano-Houzel 

Levantei, com o auxílio da repórter Talissa Monteiro, uma série de presepadas do último governo federal nas áreas de Ciência e Tecnologia. A intenção: montar uma lista com algumas dicas do que não fazer, para o próximo governo que teve início há pouco – e para quem for que assumir em 2018.

1. Não usar o conceito de inovação apenas como marketing, para angariar votos na campanha.Explico: em 2014, uma das promessas de Dilma Rousseff, ainda candidata à reeleição, era construir o que chamava de “sociedade do conhecimento”. Seria um Brasil com menor burocracia e fomentador das áreas de ciência e tecnologia. Lindo, não? Na prática, naufragou – e, há dois anos, era fácil deduzir isso. Em abril, o Ministério da Ciência e Tecnologia teve seu orçamento reduzido em 25%, para R$ 3,3 bilhões, o menor dos últimos 12 anos. Em consequência, o CNPq suspendeu a concessão de bolsas no exterior, a Capes também congelou 7 408 ações de incentivo a estudantes e a Faperj sofreu corte de 50% de seus recursos. Todos, órgãos ligados à tal “sociedade do conhecimento”.

2. Não aprovar pílulas ditas milagrosas como se fossem remédios infalíveis. Só quem não leu notícias nos últimos meses não sabe do que estou falando: a tal pílula do câncer. Em abril, em clara jogada populista, Dilma sancionou o uso da fosfoetanolamina sintética. Isso sem levar em conta pareceres técnicos, vindos de seus próprios ministérios (vários deles), que pediam que a presidente vetasse integralmente o projeto. Motivo? Simples. Por enquanto, é apenas crendice a conclusão de que a tal pílula de fosfoetanolamina auxilia no combate ao câncer. Mas qual seria o mal disso, poderiam perguntar? A questão é que, por não ter enfrentado avaliações científicas adequadas, também não se sabe dos potenciais malefícios de se consumir a droga. Ou seja, quiseram liberar no mercado uma substância química que ninguém sabe direito o que faz…

3. Não permitir o acesso grátis da população a apenas alguns serviços de internet, agredindo, dessa forma, o conceito básico de neutralidade da rede (ou se libera tudo, ou nada, para não correr o risco de privilegiar apenas “parceiros”, “amigos”, o que o político da vez acha propício). O governo de Dilma tentou isso de variadas formas, como no apoio ao criticado projeto internet.org, do Facebook.

4. Não tentar criar leis protecionistas em relação à internet, uma rede global. O PT flertou com essa estratégia em diversas situações, como quando pensou em exigir que multinacionais, a exemplo do Google e do Facebook, armazenassem dados de usuários nacionais em data centers no país. A medida não impediria a espionagem estrangeira (a falha desculpa do governo para tentar que isso vingasse), nem conseguiria manter usuários em território brasileiro (outra justificativa arcaica). No fim, só faria uma coisa: espantaria essas empresas do Brasil e, logo, serviria de bloqueio para o desenvolvimento da web no país.

5. Não apoiar projetos de aliados na câmera (do último governo, à época; e, hoje, do de agora) que visam, na prática, tão-somente, punir quem fale mal de político na internet.

6. Parar de dar fim a incentivos fiscais para a venda de smartphones, tablets e computadores. Motivo: o barateamento dos gadgets ajudaria a desenvolver empresas e a levar o novo mundo, o da internet, para populações mais pobres. Indo na contramão, o governo achou que taxar esse setor seria uma boa ideia.

Não seria difícil estender essa lista, convenhamos. Contudo, se o atual governo de Michel Temer (e todos os que vierem) simplesmente atentarem aos pontos acima, e pararem de encarar a inovação como marketing, não como o bom motor da sociedade (o que é, de fato), já estaria de bom tamanho.

Há exemplos claros de como a ciência brasileira está sucateada. Em 2013, quando visitei a Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (Cern), sede do acelerador de partículas LHC, na Suíça, uma leva de pesquisadores brasileiros que lá estavam me chamaram para realizar uma “reclamação”. O que queriam? Eles se queixavam do seguinte: o governo federal dizia, propagandeava, que os apoiava; porém, passava meses sem enviar dinheiro a eles (ou seja, ficava devendo). Se não fosse a ajuda do Cern, que nos dá salários ‘por fora’, passaríamos fome aqui”, afirmou, então, um desses cientistas – que pediu para não ser identificado, por óbvio medo de represálias.

Recentemente, pesquisadores da USP e da Unicamp têm me ligado reclamando de uma série de apoios financeiros que nunca chegam do governo federal. Ok, tem a crise aí. Porém, são, novamente, aportes prometidos e propagandeados pelo governo. Frente a esse cenário deplorável, cientistas de ponta, a exemplo da neurocientista Suzana Herculano-Houzel, se deparam com a necessidade de deixar o país.Em artigo para a revista Piauí, Suzana destacou como nunca teve verba liberada para uma série de seus projetos, que já tinham financiamento aprovado, e como, no país, cientistas improdutivos acabam por terem os mesmos salários dos melhores nomes da área. Resultado: ela zarpou, para a Universidade Vanderbilt, nos EUA.

O cenário pode ser revertido? Sim, sempre. Ainda mais quando se fala em inovação. Amanhã, por exemplo, o Supremo Tribunal Federal votará se suspende a tal pílula do câncer, ou se segue com sua aprovação. A decisão já será um sinal de para onde andamos.

Aliás, na área de saúde o governo de Temer não começou bem. Frente à polêmica da pílula, o que disse o novo ministro, Ricardo Barros? “A fé move montanhas”. Desde o Renascimento a humanidade aprendeu que não é receitado misturar crença com ciência. Ainda mais quando no cerne está o tratamento de uma doença, como o câncer. 

Diplomacia e modernização

Editorial 
O Estado de S. Paulo 

O governo brasileiro mostra disposição de mudar a diplomacia comercial, depois de 13 anos de terceiro-mundismo requentado. Mas terá sentido pensar nisso neste momento, quando o discurso antiglobalização ganha importância na campanha eleitoral nos Estados Unidos? A resposta é positiva. A posição do novo governo americano em relação ao comércio internacional só será definida, de fato, depois da eleição. De toda forma, é difícil imaginar um recuo no caso da parceria transpacífico ou mesmo nas negociações de um ambicioso acordo com a União Europeia. Enfim, há argumentos mais que suficientes para defender um novo esquema de integração do Brasil no mercado global, mesmo sem levar em conta oscilações da política da maior economia do mundo.

O terceiro-mundismo petista, fortemente vinculado à estratégia kirchnerista, foi testado longamente e o resultado foi o previsível. Como poderia esperar qualquer pessoa sensata e razoavelmente informada, o Brasil ficou fora de uma porção de acordos bilaterais e inter-regionais, isolou-se enquanto outras economias buscavam multiplicar seus laços de comércio e ficou limitado a uns poucos pactos com mercados pouco importantes.

Brasil e Argentina perderam o passo na globalização e ficaram para trás, mantendo amarrados o Uruguai e o Paraguai, os outros dois sócios originais do Mercosul. A indústria perdeu peso nas vendas externas brasileiras. A participação dos manufaturados no total das vendas externas passou de mais de 50% para menos de 40% em poucos anos. O setor automobilístico, favorecido internamente por benefícios fiscais e pouco empenhado na competição internacional, acomodou-se no acordo automotivo Brasil-Argentina, um pacto de mediocridade.

A política industrial prometida pelo governo jamais foi além da distribuição de favores tributários e financeiros – principalmente para setores e grupos favoritos – e de medidas protecionistas. A política do componente nacional, anacrônica e indefensável por qualquer critério razoável, foi um custoso fiasco.

O último capítulo conhecido desse fracasso foi o pedido de recuperação judicial da Sete Brasil. Essa empresa, criada como parte daquela política, resultou em prejuízos de bilhões para seus acionistas, incluídos fundos de pensão de estatais, e em problemas graves para seus credores. Parte importante das provisões para devedores contabilizadas por grandes bancos, a começar pela Caixa, é explicável por esse fracasso e pela devastação econômica e financeira da Petrobrás.

O Mercosul acaba de retomar as negociações com a União Europeia, depois de muitos anos de impasse. O entendimento parece hoje mais difícil do que há alguns anos, mas isso se deve principalmente a atrasos causados pela resistência do Mercosul, principalmente do governo argentino, mas também do brasileiro. É necessário, de toda forma, continuar tentando.

A nova diplomacia deve incluir entre suas prioridades a busca de um Mercosul mais dinâmico, menos protecionista e mais voltado para a integração global. Se as dificuldades forem muito sérias, será conveniente abandonar a união aduaneira e retornar ao status mais modesto de área de livre-comércio, com cada país livre para negociar com parceiros de fora do bloco.

Ampliar e aprofundar o acordo com o México é uma prioridade óbvia, um objetivo para ser perseguido isoladamente ou com o Mercosul. É preciso aumentar os vínculos com os países da Aliança do Pacífico – Chile, Colômbia, Peru e México – e inscrever no topo da agenda uma integração maior com os Estados Unidos, ainda o principal e mais confiável mercado para a indústria manufatureira do Brasil.

Não há como pensar a política de desenvolvimento e a diplomacia comercial como assuntos separados. Abertura e integração com outros mercados devem ser componentes essenciais da modernização produtiva do Brasil e da busca de eficiência. O resto é anacronismo e retrocesso.

Prova de fogo

Demétrio Magnoli
O Globo

Uma nova política externa precisa de diplomatas leais ao interesse nacional, não aos dogmas ideológicos do lulopetismo

‘Não vamos calar, mas não vamos escalar”. Foi assim que o novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, sintetizou sua orientação sobre o estremecimento diplomático com a Venezuela e outros países da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba). Nas duas notas emitidas pelo Itamaraty, o Brasil “rejeita enfaticamente” as “falsidades” propagadas pelos governos daqueles países sobre “o processo político interno”, “repudia” as declarações de Ernesto Samper, secretário-geral da Unasul, e qualifica seus juízos como “incompatíveis com as funções que exerce e o mandato que recebeu”. São duras respostas à escalada retórica de líderes que subordinam os interesses de suas nações a conveniências táticas específicas.

Nicolás Maduro descreveu o impeachment no Brasil como “golpe de Estado parlamentar” e, na sequência, aplicou um golpe de Estado contra o Parlamento de seu país, decretando o estado de exceção. O regime chavista em declínio teme, mais que tudo, as repercussões do impedimento de Dilma Rousseff sobre a Venezuela. Significativamente, o que assusta o chavismo aparece refletido na nota da presidente afastada, que enxerga na “farsa jurídica aqui montada” (isto é, o impeachment supervisionado por um STF independente) o risco de “desestabilização de governos legítimos” (isto é, a tirania venezuelana).

No país vizinho, vergado pelo colapso da economia, a maioria parlamentar eleita deflagrou um processo de revogação constitucional do mandato de Maduro por via plebiscitária. Sob o efeito demonstração do Brasil, os eleitores tendem a se libertar do medo e exigir que uma corte suprema servil ao chavismo obedeça à lei, dando seguimento à convocação da consulta popular. A escalada diplomática é uma tentativa de dissolver o impacto da substituição legal do governo Dilma. Os demais países da Alba apenas fazem eco à gritaria insultuosa oriunda da Venezuela.

O Brasil terá que tomar a iniciativa, em meio à tempestade. Os EUA são carta fora desse baralho, pois os focos regionais de Barack Obama são a abertura para Cuba e a conclusão da paz na Colômbia, que depende da cooperação de Havana e Caracas. No governo e no Itamaraty, uma corrente quer tomar o “não escalar” ao pé da letra, circunscrevendo a resposta às notas diplomáticas. Atrás disso, está a crença de que o governo Temer precisa se firmar internamente, antes de avançar no campo minado da política latino-americana. Uma corrente oposta argumenta que, nesse caso, política externa e política interna encontram-se indissoluvelmente conectadas, não oferecendo ao governo outra alternativa senão a contraescalada.

De fato, as narrativas “interna” e “externa” sobre o “golpe” são faces complementares de uma estratégia única. A acusação de ilegitimidade do governo Temer nasce no PT e desdobra-se na campanha diplomática da Alba. Serra só podia declarar publicamente que não pretende “escalar”, pois países sérios não emulam os discursos histéricos de regimes como o da Venezuela. Contudo, o ministro enfrenta sua prova de fogo, que também é um teste crucial para o governo Temer. Uma reação tímida, apenas reativa, redundará em desmoralização do Itamaraty e retardará a consolidação externa e interna do novo governo.

Na linha da contraescalada, o regime chavista surge como alvo óbvio. A Venezuela ruma ao abismo econômico, conduzida por um sistema de poder autoritário e corrupto. Analistas preveem que, no futuro próximo, o país precisará de ajuda humanitária internacional. O regime controla o Judiciário, a alta oficialidade militar foi parcialmente incorporada ao partido oficial e milícias armadas chavistas atemorizam a população. Líderes opositores encontram-se encarcerados, sob sentenças emanadas de farsas judiciais. Bloqueando o caminho legal da consulta revogatória, Maduro semeia a explosão social. O isolamento do governo venezuelano alinha-se com o interesse nacional brasileiro de prevenir uma guerra civil em país fronteiriço e atende ao princípio constitucional de defesa dos direitos humanos no âmbito da política externa.

Não basta, embora seja um bom começo, invocar a cláusula democrática do Mercosul. A articulação para isolar o regime venezuelano só terá sucesso se envolver diversos parceiros regionais, especialmente a Argentina de Mauricio Macri e o México de Enrique Peña Nieto, na denúncia do autoritarismo chavista e no amparo à Assembleia Nacional eleita. A necessária contraescalada enseja uma oportunidade para a reconstrução da arquitetura estratégica da América Latina, por meio da aproximação do núcleo do Mercosul com a Aliança do Pacífico. No horizonte de Serra, brilham as luzes de uma ativa diplomacia comercial. Mas, para abrir essa comporta, o Brasil deve enfrentar o desafio geopolítico evidenciado pela crise em curso.

A embaixada em Caracas é um ativo valioso na contraescalada. Sem exageros ou encenações teatrais, ela pode organizar a interlocução cotidiana com os líderes da Assembleia Nacional e repercutir informações sobre violações de direitos humanos. Contudo, sabotará as ações do Itamaraty se continuar sob o comando do embaixador Ruy Pereira, antigo chefe de gabinete de Samuel Pinheiro Guimarães, que abandonou à própria sorte a delegação parlamentar brasileira encarregada de prestar respaldo aos presos políticos venezuelanos. Uma nova política externa precisa de diplomatas leais ao interesse nacional, não aos dogmas ideológicos do lulopetismo.

A crise aberta pela escalada do chavismo coloca Serra numa encruzilhada. Se sucumbir às hesitações inerentes ao governo Temer e aos conselhos de diplomatas profissionais imersos no pensamento rotineiro, o ministro será confrontado com um desafio maior no futuro próximo — e terá que enfrentá-lo em condições piores. Resta-lhe o caminho de assumir a iniciativa, articulando uma contraescalada serena, mas persistente e decisiva.

Política externa voltará a servir ao país, ‘jamais a um partido’, diz Serra

André De Souza e  Maria Lima
O Globo

Transmissão de posse no Itamaraty foi realizada nesta quarta-feira

André Coelho / Agência O Globo
 José Serra toma posse como novo ministro de Relações Exteriores 

BRASÍLIA — O novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, atacou a direção do Itamaraty durante os governo do PT. Sem citar nomes, ele disse que a diplomacia brasileira voltará a servir ao país, e não ao governo ou a um partido. O discurso foi feito durante solenidade de transmissão de cargo, da qual também participou seu antecessor, o ex-ministro Mauro Vieira, o último no comando do Itamaraty durante o governo da presidente afastada Dilma Rousseff.

— A nossa política externa será vigida pelos interesses da nação, e não do governo, e jamais de um partido — disse Serra.

Ele estabeleceu várias diretrizes que vão guiar sua gestão. Entre outras, ele citou: respeito aos direitos humanos; destaque para o tema ambiental; atenção aos acordos bilaterais com outros países; aproximação do Mercosul com a Aliança do Pacífico, bloco integrado por Chile, Peru, Colômbia e México; fortalecimento dos negócios com os países ricos.

O ex-ministro Mauro Vieira fez um breve balanço de sua atuação e desejou êxito ao sucessor. Ele defendeu o Mercosul, dizendo que o bloco econômico sempre foi valorizado pelos governos brasileiros, independentemente da cor partidária. Vieira também reclamou da falta de recursos, que, segundo ele, está afetando o trabalho dos servidores lotados em postos no exterior. Em relação a isso, Serra disse que vai tirar o Itamaraty da "penúria" provocada pela irresponsabilidade fiscal.

— Minhas primeiras palavras são de boas vindas e para lhe desejar sucesso — disse o ex-ministro, acrescentando:

— As dificuldades são grandes e conjunturais, mas sabemos que o Brasil é maior do que elas e vai superá-las, encontrando o caminho do crescimento, da prosperidade.

Entre os presentes estavam o ex-presidente José Sarney, o núncio apostólico (embaixador do Vaticano no Brasil), Giovanni d'Aniello, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Gilmar Mendes, e o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Francisco Falcão. Parlamentares e ministros do governo Michel Temer também foram à cerimônia.

RECUPERAÇÃO DAS FINANÇAS
Serra disse que encaminhou um pedido de R$ 200 milhões para recuperar as finanças do Itamaraty. Há histórias de diplomatas com até quatro meses de aluguel atrasado no exterior. Ele até brincou com o ministro do Planejamento, Romero Jucá, presente na cerimônia e responsável por liberar verbas no governo.

— Eu cumprimento Jucá em nome dos ministros presentes. Mesmo porque o Jucá vai ter um papel fundamental junto comigo para recuperação das finanças do Itamaraty — disse Serra, atraindo aplausos e risos dos presente.

Serra disse que a diplomacia do século XXI não pode repousar apenas na retórica, mas precisa buscar resultados. Pregou também a modernização e fortalecimento do ministério.

— Vamos recuperar a capacidade de ação do corpo diplomático. Acreditem — disse Serra.

— Quero fortalecer a casa e não enfraquecê-la. Esse é um compromisso e um convite a todos os funcionários — acrescentou o ministro.

Apesar das críticas aos antecessores, ele disse que a diplomacia brasileira terá olhos para o futuro, e não para o passado.

— A nova política externa brasileira será olhos voltados para o futuro e não para os desacertos do passados — disse Serra, sendo aplaudido.

Na conclusão do discurso, disse:

— Obrigado. Mãos à obra e vamos em frente.

DOIS SECRETÁRIOS GERAIS
Além da reviravolta na política externa, retirando o viés político-partidário, Serra vai reforçar a área de formulação de políticas de comércio exterior com a criação de dois cargos de secretário geral: um específico para a área ocupado pelo embaixador Marcos Galvão, e outro para cuidar da administração da Casa, que continua com o embaixador Marcos Danese. Diplomatas que irão assessorar o novo chanceler, explicam que a ideia não é nova e no governo do ex-presidente Fernando Collor o Itamaraty chegou a ter três secretários geral.

O embaixador Marcos Galvão deixa a chefia da missão brasileira junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) para ocupar a segunda Secretaria Geral. Sua atuação na formulação de políticas comerciais será reforçada com a nomeação do o atual embaixador do Brasil na China, Roberto Jaguaribe, para chefiar a Apex Brasil ( Agência Brasileira de Promoção das Exportações e Investimentos).

Mesmo não tendo vingado a tentativa de extinção do Ministério da Indústria e Comércio Exterior (Midc) para que a parte de comércio exterior fosse anexada ao Itamaraty, Serra deixou claro que essa área será sua menina dos olhos, para ajudar na derrubada de barreiras comerciais, aumento das exportações e parcerias com grandes blocos econômicos, recuperação da economia e geração de empregos.

A Agência Brasileira de Promoções de Exportações e Investimentos (Apex) saiu do Mdic e passou para o Ministério das Relações Exteriores.

— Na época do Collor chegamos a ter três secretários gerais: um cuidava do controle interno, outro da administração do Itamaraty e o terceiro da formulação política. Não sei avaliar se deu certo ou não — observou um dos diplomatas ouvidos pelo GLOBO.

A prioridade para a política de comércio exterior foi uma das 10 diretrizes anunciadas hoje por Serra para sua gestão.

Falar é pouco, Serra

Clóvis Rossi
Folha de São Paulo

O ministro das Relações Exteriores, José Serra, discursa na transmissão de cargo no Itamaraty


Para ser fiel ao discurso de posse, em que prometeu ser vigilante com violações da "democracia, liberdades e direitos humanos em qualquer país", o ministro José Serra deve apoiar a iniciativa da Human Rights Watch de pedir à Organização dos Estados Americanos a aplicação da cláusula democrática à Venezuela.

A HRW alega que "o colapso da independência judicial na Venezuela e a consequente propagação das violações aos direitos humanos e da impunidade afetam princípios fundamentais consagrados na Carta [da OEA] e em outros acordos regionais".

Tem toda a razão, mas, para que a OEA possa de fato considerar a petição, é fundamental que um país-membro a respalde.

O Brasil deveria ser o primeiro a fazê-lo. Se a Venezuela de Nicolás Maduro pode dar palpites sobre assuntos internos do Brasil, como o fez ao considerar golpe o impeachment de Dilma, por que o Brasil não pode fazer o mesmo?

Como ensina Marcos Troyjo, em sua coluna online desta quarta-feira (18), "só na superfície, ou no senso comum, agir diplomaticamente é 'colocar panos quentes', 'engolir sapos' ou 'ficar numa boa com a turma toda'. Às vezes, diplomacia é abandonar meias palavras; deve-se falar e agir no tom mais severo possível".

No caso venezuelano não se trata de defender só a democracia, claramente violada pelo governo de Nicolás Maduro, mas de tentar salvar a própria Venezuela.

O cenário atual é descrito à perfeição por Moisés Naïm e Francisco Toro, em artigo para "The Atlantic":

"Nos últimos dois anos, a Venezuela experimentou o tipo de explosão que raramente ocorre em país de renda média como ela, exceto em caso de guerra. As taxas de mortalidade estão disparando; um serviço público depois do outro está entrando em colapso; inflação de três dígitos [720% este ano] deixou mais de 70% da população na pobreza [76%, para ser exato]; uma onda incontrolável de crime mantém as pessoas trancadas em casa à noite; consumidores têm que permanecer na fila por horas para comprar comida; bebês morrem em grande número por falta de remédios simples e baratos e de equipamento nos hospitais, assim como os mais velhos e os que sofrem de doenças crônicas."

Até a esquerda "chavista" (a do Chávez original, não a de seu sucessor desastrado) critica o governo e duvida de sua alegação que trava uma "guerra econômica" e acena com uma invasão que só ele vê.

Escrevem para o sítio "Aporrea", em que essa esquerda se expressa, Toby Valderrama e Antonio Aponte: "Outra vez, o governo fala de guerra, de invasões, de perigos estrangeiros, comportando-se como a criança que fez estragos na cozinha e acusa a irmã, a empregada (...). Que estranho esse governo que nunca se equivoca, não retifica nada, ao contrário, reafirma os decretos e condutas que todos veem que não funcionaram."

Só o referendo revogatório daria aos venezuelanos a chance de escolher um novo governo capaz de tentar condutas que, de repente, funcionem. Mas só a pressão externa permitiria, eventualmente, que ele se torne realidade.

Filme de horror

 Vicente Nunes
Correio Braziliense

Que o Orçamento da União sempre foi considerado uma obra de ficção não é novidade para ninguém. Mas, na gestão da presidente afastada, Dilma Rousseff, todos os limites do bom senso foram superados. O rombo estimado para o governo federal de R$ 170,5 bilhões neste ano representa quase o dobro do buraco previsto pela equipe do ex-ministro da Fazenda Nelson Barbosa, que foi escalado pela petista para rebater os novos números. Vai dizer o quê? Se prevalecer a verdade, ele terá que assumir que, ao calcular a meta fiscal, com estimativa de deficit de R$ 96,6 bilhões, tentou camuflar a realidade, ou seja, enganar a população, como foi feito na campanha à reeleição de 2014.

A situação das contas públicas é de descalabro, como diz o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, e pode ficar ainda pior se o Tesouro tiver de arcar com dívidas entre R$ 9 bilhões e R$ 40 bilhões da quebrada Eletrobras. Isso comprova que a administração de Dilma não economizou nos truques contábeis, que pedalou sem dó as despesas, que gastou o que não podia, que deu calote sem constrangimento e que sustentou privilégios a grupos específicos movidos pela corrupção. Agora, para corrigir tudo isso, o país terá que fazer um esforço monstruoso. Não haverá saída fácil. Mas, como sempre acontece, a maior parcela da fatura recairá sobre os mais pobres, que não têm como se proteger dos desarranjos da economia.

Na verdade, a destruição das finanças do país já tem punido a população desde o início de 2015, quando caiu a máscara da gestão desastrosa de Dilma. A gastança desenfreada provocou a disparada da inflação, que se mantém resistente, mesmo com os juros nas alturas — o IPCA-15 de maio, de 0,86%, foi o mais elevado para o mês desde 1996. O desemprego praticamente dobrou e bate recorde em todas as regiões do Brasil, sendo que, no Nordeste, reduto eleitoral do PT, o quadro é dramático. Há previsões de que os 11,1 milhões de desempregados de hoje no país se transformem em 14 milhões.

Arte de se superar 
Apesar do espanto que o rombo projetado pelo atual governo provoca, pelo tamanho, era mais que esperado. Dilma sempre gosta de se superar para pior. Foi assim com o Produto Interno Bruto (PIB). Quando ela assumiu, em 2011, o país crescia a um ritmo de 7%. No ano passado, houve queda de 3,8% e, em 2016, o tombo pode chegar aos 4%. Desde 1930 e 1931, não se via dois anos seguidos de retração da atividade. A inflação de 10,67% em 2015 foi a maior em 12 anos. E mais: o Brasil não convive com uma taxa básica de juros (Selic), de 14,25% ao ano, desde 2006. Nas contas públicas, o buraco saltou de R$ 32,5 bilhões em 2014, para R$ 111 bilhões no ano seguinte, e, agora, alcançará R$ 170,5 bilhões.

É ou não é o retrato do desastre? O mais assustador, porém, é saber que não veremos a saída dos escombros tão cedo. Para Ivo Chermont, economista-chefe da Quantitas Asset Management, se tudo der certo na política econômica que será tocada por Meirelles, ainda veremos deficit público em 2017. O crescimento da economia, acredita ele, será de modesto 0,6%, com viés de baixa, e o desemprego continuará aumentando. “O governo Dilma escondeu demais o jogo. Mentiu na peça de ficção que é o Orçamento. Aumentou gastos no apagar das luzes, superdimensionou receitas. Não tinha como dar certo”, diz.

Chermont destaca que o rombo de R$ 170,5 bilhões, equivalente a 2,75% do PIB, representa apenas uma pequena parcela do buraco nas finanças do governo. Quando incluídos os gastos com juros, o deficit nominal chega nos 10% do PIB. Não há país emergente com um resultado tão ruim. Esses números ajudam a entender porque a dívida pública pulou de 52% para 67% do PIB desde que Dilma chegou ao Palácio do Planalto. Pelas estimativas de especialistas, se o governo não conseguir conter a gastança, o endividamento pode atingir o correspondente a 80% das riquezas produzidas pelo país até o fim do ano que vem. É por isso que o Brasil perdeu a chancela de bom pagador pelas agências de classificação de risco.

Risco da politicagem 
Meirelles fala que o rombo de R$ 170,5 bilhões é realista e consistente com a realidade do país. Não apresentou, porém, medidas concretas para revertê-lo ao longo do tempo. Dada a situação, não há mais espaço para paliativos. Ou a administração de Michel Temer encara de vez o problema, sem politicagem, ou poderá pegar o chapéu e sair de cena rapidinho. O que o Brasil precisa neste momento é de um governo capaz, despreocupado com eleições e com força suficiente para convencer o Congresso da importância de aprovar projetos que vão mexer com interesses e reverter privilégios arraigados.

Em 2014, a maioria da população decidiu dar mais um mandato a Dilma, a despeito de todas as evidências de que ela estava quebrando o país. O processo de impeachment aberto pelo Senado pode apear de vez a petista do poder. Mas não encurtará o sofrimento da população, a quem caberá arcar com mais impostos e adiar o tempo da aposentadoria. Escolhas erradas fazem parte da vida. O que não pode é insistir no erro, justamente o que fez Dilma, mesmo tendo sido alertada sobre o caminho perigoso para o qual ela estava levando o Brasil.

“O que vimos nos últimos anos no governo foi um laboratório no qual se realizaram experiências terríveis. Mesmo com tudo de ruim que se produzia, as apostas eram dobradas”, afirma Ivo Chermont. Portanto, avisa ele, neste momento, apenas o diálogo não será suficiente para resgatar a economia e o país. Será preciso cortar na carne. Governo, empresas e famílias podem se preparar para um período difícil antes de o horizonte se abrir.

O Brasil que o PT tentou esconder

Débora Bergamasco
Revista ISTOÉ

O abismo entre o discurso do PT e o País real é ainda mais profundo do que se imaginava. É o que mostra um diagnóstico preliminar realizado pelo governo Temer. Vem mais bomba por aí


Nos próximos dias, o presidente Michel Temer pretende apresentar um diagnóstico da situação real do Brasil, herdado por ele após o afastamento da presidente Dilma Rousseff. Pretende, com essa iniciativa, tirar o véu do País da fantasia – cantado em verso e prosa pelo ex-marqueteiro do PT João Santana durante a campanha eleitoral de 2014 –, e repetido como ladainha em procissão por Dilma Rousseff nos últimos dois anos. A radiografia – traduzida numa espécie de inventário – vai do Orçamento da União à execução dos programas sociais e convênios, da condição das representações brasileiras no exterior à publicidade institucional. Os ministros trabalham no levantamento dos dados, mas já é possível afirmar que o cenário é de terra arrasada. A começar pelas contas da União.



O governo estima que o rombo no Orçamento seja algo em torno de R$ 200 bilhões, mais que o dobro do que havia estimado a administração petista (R$ 96,7 bilhões). Na área da Saúde, por exemplo, o Brasil perdeu 23,5 mil leitos de internação hospitalar na rede pública nos últimos cinco anos, segundo dados do Conselho Federal de Medicina (CFM). Entre 2010 e 2015, o número de leitos para uso exclusivo do SUS baixou de 335,5 mil para 312 mil. Por enquanto, Temer tem evitado usar o termo “herança maldita”, expressão muito explorada pelo PT quando o partido do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ascendeu ao poder em 2003. O peemedebista tem sido pressionado pelos aliados a lançar mão da mesma estratégia tão logo tenha em mãos o diagnóstico completo. Será uma forma de quebrar o argumento petista de que muito fez pelo social, quando os números reais mostram o oposto, e mostrar que Dilma e seus auxiliares foram irresponsáveis diante do iminente afastamento. Vem do Ministério das Cidades um exemplo da falta de compromisso do PT com o País. Foi autorizada a construção de 11,2 mil unidades financiadas pelo programa Minha Casa Minha Vida na véspera da votação do impeachment do Senado. A pasta não dispõe de recursos para isso, obrigando o novo ministro, Bruno Araújo (PSDB-PE), ao desgaste do cancelamento da medida.

(Crédito:Ailton de Freitas/Agência O Globo)
RADIOGRAFIA 
O ministro do Planejamento, Romero Jucá, 
é um dos responsáveis por fazer o inventário petista 

O governo provisório também submeteu programas sociais ao pente-fino. O novo ministro do Desenvolvimento Social e Agrário, Osmar Terra, defende a melhoria nos mecanismos de controle do Bolsa Família, uma das principais vitrines do governo do PT. Terra estima que uma revisão de procedimentos pode provocar o desligamento de até 10% dos beneficiários. Segundo o ministro, a fórmula atual dá margem a fraudes pois o sistema utiliza a “autodeclaração” da renda. Ou seja, o candidato ao auxílio informa sua renda nos centros de assistência social, possibilitando declarações de renda menor do que é de fato. O cadastro conta atualmente com 15 milhões de famílias. O Tribunal de Contas da União (TCU) identificou a concessão indevida de benefícios do programa a 163,2 mil famílias. O valor pago a esses beneficiários pode ter chegado a R$ 16 milhões em um único mês. O TCU se baseou em dados de junho de 2015.

Por falar em TCU, o órgão de fiscalização auxiliar do Congresso abriu duas frentes de apuração que podem causar mais problemas para Dilma e seus auxiliares. Numa delas, será avaliado se a petista desrespeitou a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) em 2016. O  governo petista ampliou limites de desembolso a ministérios e a operações de empréstimos após ter realizado, em março, um contingenciamento de R$ 21,2 bilhões, elevando a R$ 44,6 bilhões o volume de despesas discricionárias (não obrigatórias) bloqueadas no Orçamento deste ano. Essa apuração corre sob segredo de Justiça, assim como uma outra destinada a analisar nomeações realizadas nos dias que antecederam o afastamento de Dilma do Palácio do Planalto. Um exemplo disso foi a nomeação de membros do Conselho Nacional de Educação (CNE) antecipada em dois meses para garantir assentos no órgão antes que o PT fosse afastado do governo. O CNE é ligado ao Ministério da Educação, até o início do mês comandada por Aloizio Mercadante, um dos mais próximos aliados de Dilma. A pasta da Educação suspendeu  novas inscrições do Programa Bolsa Permanência, como forma de desgastar a nova gestão junto a estudantes de universidades federais em situação de vulnerabilidade socioeconômica.


O TCU identificou a concessão indevida de benefícios do programa Bolsa Família a 163,2 mil famílias. O valor pago a esses beneficiários pode ter chegado a R$ 16 milhões em um único mês

Outro absurdo ocorre na área das Comunicações. Há um funcionário comissionado para cada dois servidores nos Correios, estatal subordinada à pasta agora comandada por Gilberto Kassab (PSD-SP). Os Correios têm previsão de realizar concurso público para contratar 9 mil funcionários, mas têm exatamente a mesma quantidade em licença--médica, além de 4,5 mil aposentados por invalidez. Existem ainda questões relacionadas à publicidade institucional. De acordo informações levantadas pela Secretaria de Comunicação (Secom) da Presidência da República, agora comandada pelo jornalista Márcio Freitas em substituição ao petista Edinho Silva, foram empenhados R$ 360 milhões para a publicidade institucional do governo nos cinco primeiros meses de 2016, contra R$ 190 milhões no mesmo período de 2015. É toda a verba de publicidade que estava prevista para este ano. O novo Secretario de Governo, Geddel Vieira Lima, denuncia o aparelhamento da pasta durante a gestão petista. De acordo com o integrante do PMDB da Bahia, o PT usou o órgão para dar cargos a militantes, muitos fantasmas. Tudo está sendo esquadrinhado, segundo ele.

Aliados de Temer o convenceram a fazer a exposição durante um café da manhã no Palácio do Jaburu na quarta-feira 18. Eles avaliam como crucial a iniciativa de o presidente ir a público fazer o contraponto à gestão de Dilma. Há um entendimento de que expor a “terra arrasada” deixada pelo PT pode ajudá-lo a conter focos de insatisfação em parcela da sociedade e a convencer população e o Congresso sobre a urgência de medidas para tirar as finanças públicas do atoleiro. Temer ainda não se convenceu sobre o formato mais adequado para fazer o anúncio. Os ministros Romero Jucá (Planejamento) e Henrique Meirelles (Fazenda) trabalhavam para fechar o diagnóstico das contas até o fim desta semana. Na avaliação dos assessores de Temer, o rombo fiscal é a situação mais crítica. O levantamento, a cargo de Meirelles e Jucá, será importante para azeitar a votação da redução da meta fiscal de 2016. Será a primeira grande batalha do governo Temer no Congresso.