quinta-feira, maio 26, 2016

Do como nunca antes ao tchau e nunca mais.

Percival Puggina. 

Não vou puxar aqui o rosário das más notícias que desfilam cotidianamente nos meios de comunicação. A muitos de nós, elas chegam assim, como informação. A milhões de outros, como causas de tragédias pessoais e familiares. Alguns veem as estatísticas. Outros vivem as estatísticas em seu dia a dia. Ao governo que assume, o noticiário expressa a emergência e a urgência de medidas para afirmação de um rumo ascendente. Aos afastados do governo, essas notícias são desconforto político que deve, rapidamente, ser debitado ao "mercado", à CIA, ao Cunha, ao FHC, ao Moro, às "zelites", à direita, aos coxinhas e aos "golpistas". Jamais a si mesmos nem ao exercício rapineiro, irresponsável e incompetente das tarefas de gestão. Nunca à ideologia que abraçam. Profissionais da falácia, nem por acaso batem no próprio peito! O partido que pretendeu ter descoberto o Brasil em 2003 nos fez regredir no tempo e perder, inteiramente, os últimos 13 anos.

Tudo que aconteceu era previsível e deu causa à maior parte dos meus textos durante esse período. Simplesmente não havia motivo para que não acontecesse aqui, no andar dessa carroça, o mesmo que ocorreu em todos os países onde germinaram as ideias inspiradoras dos governos petistas. Dezenas de vezes, ao longo desses anos, participei de debates com destacadas lideranças e personalidades vinculadas ao Partido dos Trabalhadores, discutindo os projetos políticos em curso nos países ligados ao Foro de São Paulo. Sem exceção, sustentavam que Cuba era um modelo de justiça. Raramente falavam de Fidel sem que a veneração os exaltasse. Enchiam-se de ira quando contestados. Na Venezuela, diziam, havia democracia até demais. Ali, onde o setor público trabalha dois dias por semana para economizar energia, proclamavam estar em curso um exitoso modelo de governo socialista. Para que a Venezuela fosse incluída no Mercosul, expulsaram o Paraguai, cujo Senado vetava o ingresso do chavismo no Bloco. Quando? Quando Lugo foi constitucionalmente deposto do cargo.

É bem abastecido o repertório de fracassos dessa referência ideológica que liderou o Brasil nos últimos anos. O que vemos é o resultado inevitável de uma forma de conceber o Estado e a Política, a pessoa humana e a sociedade, a Economia e a História. Não há acerto possível onde tudo está mal pensado. Nem todo o desastre brasileiro é produto da organização criminosa que se instalou no poder. Tampouco é só irresponsabilidade e incompetência. Tem muito, mas muito mesmo, de erro de script, tipo "vamos fazer com o marxismo, o que os europeus não souberam".

Nos últimos dias, intensificou-se a articulação da esquerda mundial em torno das denúncias de um suposto golpe de Estado que estaria em curso no Brasil. Nada disso é espontâneo. Bem ao contrário. Através de meios de comunicação ideologicamente alinhados, e para um público sensível, o PT transforma em notícia internacional as palavras-chaves e os lugares-comuns da linguagem revolucionária, que não começa nem termina no Brasil. É um fenômeno comum a todo o Ocidente. Não, não é o mundo que reprova o impeachment da presidente. São os parceiros externos dos que saíram deixando-nos a esperança de que jamais voltem.

Seu principal interesse é e sempre foi o exercício de um poder revolucionário. Por isso, suas afinidades e zelos não são para com os cubanos, venezuelanos, nicaraguenses, equatorianos, bolivianos ou brasileiros. Tais empatias se estabelecem com os respectivos governos, em benefício da causa revolucionária comum. Danem-se os povos, dane-se o Brasil e seus desempregados, contanto que a revolução prossiga!

O projeto totalitário do PT

Editorial 
O Estado de S. Paulo 

A resolução divulgada pelo PT no dia 17 passado finalmente expôs por inteiro o projeto totalitário do partido. Ficou claro, pelo texto, que os petistas pretendiam submeter o conjunto da sociedade brasileira, inclusive suas instituições basilares, a seus tenebrosos propósitos, tornando-a prisioneira de um simulacro de democracia que, a pretexto de satisfazer os interesses do “povo”, serviria apenas para permitir que um sindicato de mafiosos se apossasse definitivamente do poder.

Não se trata de nada revolucionário, tampouco inédito. Pelo que se depreende da resolução, o modelo almejado – além de ter salientes aspectos do gangsterismo sindical – é o do populismo militar, cujo exemplo sonhado pelos lulopetistas é o do caudilho venezuelano Hugo Chávez. De acordo com esse pensamento, as Forças Armadas não existem como instituição do Estado, cuja função é zelar pela integridade territorial e pela garantia dos Poderes constitucionais, mas sim como um braço do Executivo em sua tarefa de sufocar os demais Poderes e, no limite, ser a vanguarda da militarização de toda a sociedade, deixando-a sempre de prontidão para obedecer às ordens do líder, sejam elas quais forem. Enquanto isso, a vanguarda partidária e associados podem assaltar o Estado à vontade.

Movidos por esse espírito, os petistas chegaram ao atrevimento de sugerir, em sua resolução, que os militares deveriam ter interferido no processo de impeachment em defesa da presidente afastada Dilma Rousseff – e só não o fizeram, conforme se deduz do texto, porque falta às Forças Armadas um oficialato com vocação democrática e nacionalista. Ou seja, para o PT, o Exército deveria igualmente afrontar as demais instituições e submeter-se de corpo e alma ao projeto do partido, já que este, segundo a convicção dos ideólogos petistas, é o único porta-voz e intérprete do povo, o que inclui os militares.

Na resolução, o PT colocou a questão militar entre os “descuidos” que cometeu ao longo dos mais de 13 anos em que esteve no poder. Depois de declarar que o partido deveria ter se preocupado não apenas em realizar “administrações bem-sucedidas”, mas principalmente em concentrar “todos os fatores na construção de uma força política, social e cultural capaz de dirigir e transformar o País” – ou seja, aparelhar todo o Estado –, o PT disse ter falhado ao não “modificar os currículos das academias militares” e ao não “promover oficiais com compromisso democrático e nacionalista”.

Ou seja, os petistas acreditam que as Forças Armadas carecem de líderes alinhados aos interesses do “povo” que o PT julga representar, razão pela qual os militares não entenderam o impeachment de Dilma como um movimento “golpista” essencialmente oligárquico e estimulado pelo imperialismo americano, como se lê na resolução do partido.

“O que eles queriam, que os militares tivessem ido às ruas defender o governo?”, questionou o general Gilberto Pimentel, presidente do Clube Militar, ao Estado. “As Forças Armadas são uma instituição de Estado. O erro deles, entre outros, foi ter tentado nivelar o Brasil por governos populistas como Bolívia e Venezuela”, completou Pimentel, expressando a indignação que a resolução petista causou entre os militares.

Na mesma linha foi o general Rômulo Bini Pereira, ex-chefe do Estado Maior da Defesa, para quem os petistas “queriam militares que abaixassem a cabeça para eles, como se tivéssemos Forças Armadas bolivarianas, como na Venezuela”.

O comportamento sereno das Forças Armadas em meio a toda a tensão causada pelo processo de impeachment é exemplo cabal da consciência dos militares a respeito de seu papel na democracia. Somente aqueles desprovidos de vocação democrática, como o PT, são capazes de enxergar nesse distanciamento dos militares um sinal de descompromisso com o País e com o povo. Felizmente a ousadia populista e autoritária do PT, que confessou agora sua intenção de aparelhar também o Exército, foi devidamente denunciada.

Completou-se o círculo. Vê-se pela resolução do PT, além de qualquer dúvida, que o objetivo do partido era – e é – moldar todas as instituições nacionais para que servissem a uma ideologia e a um bando que de democráticos nem o nome têm.

Temer, um peixe na rede

Eliane Cantanhêde
O Estado de S. Paulo 

A chegada de Michel Temer à Presidência, ainda interinamente, faz emergir com força avassaladora duas realidades brasileiras: Dilma Rousseff deixou um rombo de R$ 170 bilhões que nenhum santo vai cobrir do dia para a noite e Eduardo Cunha domina um Congresso e um sistema político que nenhum demônio imaginaria mais infernais.

Temer lida bem com a economia, depois de alçar Henrique Meirelles à liderança de uma equipe onde brilham alguns dos melhores nomes disponíveis no mercado. Mas tem, curiosamente, lidado mal com a política, com o réu Cunha nomeando réus como bem entende e com as idas e vindas em questões administrativas virando rotina. Temer é um peixe dentro d’água na política, mas nem ele escapa da rede do sistema.

Poucas vezes se viu tal consenso como no anúncio de Pedro Parente para a Petrobrás. Mas, na área política, a coisa não anda nada bem. Os deslizes de retórica de novos ministros, que falam verdades que não podem ser ditas, são apenas o caricato. O pior é constatar que um homem como Eduardo Cunha, afastado da presidência da Câmara e do próprio mandato, ainda manda e desmanda, e não só em um, mas em dois Poderes. Se Parente é o troféu dos acertos, Cunha é o troféu dos erros do governo interino.

Cunha nega, mas até o tapete verde da Câmara saber que foi ele quem impôs para a liderança do governo o deputado André Moura (PSC-SE), réu não em uma, mas em três ações penais no Supremo Tribunal Federal e investigado em quatro outros inquéritos, um deles por... tentativa de homicídio! Sem falar que já foi condenado em Sergipe por improbidade administrativa.

O líder do governo é responsável pela comunicação entre o Planalto e a Câmara, mas, além disso, Cunha tem o dedo na indicação do chefe de gabinete da Secretaria de Governo da Presidência, que é quem atende aos pedidos dos parlamentares, e na escolha de um cargo-chave da Casa Civil, por onde passam os atos do governo. Sinal de que poderá ter algum tipo de controle, no mínimo informações privilegiadas, sobre o fluxo de conversas, pleitos e interesses entre dois lados da Praça dos Três Poderes. E se ele quiser encaixar um caco daqui e dali?

Com Cunha tão forte, André Moura na liderança e o indescritível Valdir Maranhão na presidência interina da Câmara, eis que Temer tem o pior dos mundos no Congresso e sem alívio a partir do “túnel do tempo”, onde Renan Calheiros não é da turma dele, muito menos confiável. Isso tudo diante de um processo de impeachment que está longe de terminar e de votações dificílimas para tentar ajustar as contas públicas – o que nunca é apetitoso para políticos e costuma custar muito caro.

A isso, some-se... o que dizer? Some-se o constrangimento de ter um ministro do Planejamento, Romero Jucá, sob duas frentes poderosas. Numa, o Supremo autorizou a quebra de sigilo bancário e fiscal. Noutra, a Procuradoria-Geral da República pediu a abertura de investigação contra ele e três outros correligionários de Temer pelo rumoroso caso de Belo Monte. Confortável não é.

Há muitas diferenças entre Eduardo Cunha e Jucá. Cunha tem o único objetivo de trabalhar em benefício próprio, enquanto Jucá quer mostrar competência, fazer a ponte entre os planos de Meirelles e os votos no Congresso e sair dessa confirmando o perfil de bom economista. A opinião pública, porém, embola tudo no mesmo saco. E a Justiça, como se sabe, é cega. Ainda bem.

Nesse bolo todo, o fato é que o Brasil tem um déficit de R$ 170 bilhões e é preciso energia, suor, competência e confluência das forças políticas e econômicas para ir fechando o rombo e aplainar o caminho da recuperação. Temer tem de usar todo o seu instrumental político para tentar equilibrar o êxito nas escolhas da economia com o desastre de certas escolhas políticas. E o tempo corre contra ele.

Querem mulheres no governo? Janaína Paschoal no Ministério da Justiça!

Priscila Chammas Dáu.  

Ex-professor de faculdade falando mal de mim no Facebook. Que feio... bom, se é pra ser covarde, também sei. Tanto que vou responder aqui pelo meu perfil, pra garantir o quórum a favor. Seguinte, querido professor: onde tá escrito que a proporção de mulheres na população precisa ser igual à de mulheres nos ministérios?

Não vou defender o ministério de Temer, pois concordo que ele tem muitos erros e pessoas nomeadas por critérios duvidosos. Mas a falta de mulheres está muito longe de me afligir. Já te passou pela cabeça que a proporção de mulheres na política, especialmente nos partidos que não são de esquerda, é infinitamente inferior ao percentual de mulheres na população? Que esse número é tão ínfimo, que os partidos muitas vezes nem conseguem cumprir a cota de 30%?

Já te passou pela cabeça que talvez as mulheres não se interessem em ser políticas, tanto quanto os homens? Existem várias teorias para explicar o fato, mas não vou entrar nisso porque seria especulação. Falo com conhecimento de causa, pois estou na política, sou liberal, e sou a exceção das exceções. O número de mulheres é baixo, não porque os partidos são sexistas, misóginos e todo esse mimimi que vocês gostam de falar. Em todos os grupos que faço parte, tenho sido muito bem tratada e nenhum macho opressor me assediou ainda.

As mulheres não estão na política porque elas não querem. Vou repetir, pra fixar: ELAS NÃO QUEREM SER POLÍTICAS!! Isso não é achismo. É estatística. Qual é a solução? Obrigá-las?

O governo Temer (queira Deus) está tentando dar uma guinada liberal na economia, e a amostra de mulheres liberais na política é ainda mais baixa que a amostra de mulheres na política em geral. Por quê? Tenho minhas teorias, mas não cabe apresentá-las agora.

Voltando a Temer, sabemos que ele tentou chamar algumas mulheres, que por um motivo ou outro, não aceitaram. E aí? O que sugere, professor? Se pra você, o que o ministro tem entre as pernas, com quem ele se deita ou a quantidade de melanina que tem na pele são o que importa, a mim interessa o resultado prático de suas ações (nem nas intenções eu estou interessada).

Não costumo dividir as pessoas entre homens, mulheres, brancos, negros, homossexuais mulatos, índios, gordos, etc. Se organizar direitinho, dá pra todo mundo se enquadrar em alguma minoria. Pra mim, são todos indivíduos e isso é suficiente para serem respeitados.

Uma mulher não me representaria, necessariamente, melhor que um homem. Eu não preciso pensar igual a todas as mulheres. Não existe cérebro coletivo. Que bom! Adoro ser diferentona.

***Se esse texto não te convencer, começo hoje mesmo uma campanha pra pôr Janaína Paschoal no ministério da Justiça.

Meu palavrão predileto

Bolivar Lamounier (*)
O Estado de S. Paulo 

Como grande parte dos cientistas sociais brasileiros e latino-americanos, às vezes sinto uma vontade irresistível de empregar o adjetivo “liberal” como xingamento. Nesta parte do mundo, como bem sabemos, liberal é um feio palavrão.

Meus eventuais leitores por certo já repararam nisso. Por mais que procurem, os intelectuais, o clero, os dirigentes partidários e os chamados formadores de opinião não conseguem atinar com um termo mais adequado quando querem se referir depreciativamente a um economista, empresário, partido político ou ao próprio governo.

As entonações usadas são especialmente notáveis quando o personagem inquinado de fato propõe ou professa algo suscetível de ser considerado liberal. Pobre do partido político que fale em privatizar estatais deficitárias, ineficientes ou que simplesmente não tenham uma justificativa clara para serem mantidas no setor público. Maldito o governo que insista em manter as contas públicas e a inflação sob controle. “É um liberal”, alguém logo dirá. Ou, muito pior: “Não passa de um neoliberal”.

Resumindo, creio não exagerar quando digo que, entre nós, menoscabar o liberalismo se tornou uma atitude generalizada, direi mesmo um indicativo de qualidade intelectual: uma norma “culta”. Como isso aconteceu é uma história um pouco longa, mas farei o possível para contá-la no restante deste artigo.

A primeira causa – aliás, por definição – é o liberalismo político ser a teoria da democracia representativa – tanto assim que às vezes a designamos como democracia liberal; o oposto, portanto, do fascismo e do comunismo. Segue-se que o adjetivo “liberal” diz respeito a uma forma política dotada de instituições voltadas para a preservação da liberdade dos indivíduos e a autonomia de associações dos mais variados tipos. Como ideologias, o fascismo e o comunismo comportam exegeses imensamente complexas, mas os sistemas políticos que se propuseram a aplicá-las na realidade histórica foram totalitários, sempre e sem nenhuma exceção. Uma conclusão preliminar é, pois, que algo há de estranho em nossa alma latino-americana, ou pelo menos na alma das categorias profissionais a que me referi. Parece que odiamos viver em liberdade e esperamos um dia viver em Estados baseados no partido único, na polícia secreta e na censura generalizada dos meios de comunicação.

Outra causa perceptível é que o antiliberalismo geralmente aparece em estreita associação com o antiamericanismo. Odiamos a liberdade porque os Estados Unidos a cultivam e simbolizam. Porque tiveram a ousadia de se desenvolver economicamente de uma forma espetacular; por terem saltado de uma condição cultural de terceira classe para a dianteira em todos os setores do conhecimento, fato atestado por todos os rankings das universidades de todos os continentes. E, sobretudo, por sua visão atomística do individuo, uma filosofia abominável, eticamente inferior ao “comunitarismo” que nos guia e inspira, assim como inspirou ditaduras fascistas e comunistas pelo mundo afora.

Deve ser por esses e outros horrores do liberalismo em vários campos de atividade que nosotros tendemos a rejeitá-lo. Nossos corações e mentes pendem para o antiliberalismo, tão bem representado no século 20 por um Mussolini, um Stalin e até um Perón; e no passado recente, por um Hugo Chávez, o grande inspirador da revolução bolivariana e do progresso de seu país, a Venezuela.

Marxistas por formação ou simbiose, os antiliberais, como disse, tomam-se de sacrossanto horror quando pressentem a proximidade de um “neoliberal”. Esse, ao ver deles, é um indivíduo que não se contenta com manter a moeda estável e as contas públicas em ordem, com melhorar a eficiência no gasto público; não, eles querem mais que isso. Querem retirar do Estado suas atividades mais nobres, desde logo as que exerce por meio de empresas públicas, direcionando suas energias para tarefas comezinhas como a educação das crianças e dos jovens, para tentar minorar o sofrimento dos que acorrem aos nossos serviços públicos de saúde (cuja qualidade Lula certificou como sendo de Primeiro Mundo), ou ainda, a segurança pública e a defesa nacional.

Como pode alguém querer um Estado que faça “só isso”? – perguntam os petistas, os intelectuais de esquerda, alguns clérigos e, naturalmente, aquela parte do empresariado que gosta do capitalismo, mas odeia a concorrência.

Mas qual é, afinal, o ponto mais importante da disjuntiva liberalismo x antiliberalismo? O problema de fundo, o verdadeiro divisor de águas, parece-me ser o papel do Estado. O papel e, portanto, a dimensão e os tipos de atividades que devem permanecer na esfera pública, para bem assegurar os objetivos e a soberania nacionais. Antigamente, o que os antiliberais em geral e os fascistas em particular não toleravam era o que chamavam de Estado gendarme, guardião e protetor dos interesses burgueses; hoje, mais ou menos na mesma linha, o que causa urticária nos marxistas por formação ou simbiose é a (suposta) ideia do Estado “mínimo”. O que não deixa de ser curioso, tendo eles sempre acreditado que, depois da revolução socialista, o Estado pouco a pouco fenecerá, ou seja, perderá seu “caráter político”; por falta de função, ele se tornará cada vez menos necessário.

Escusado dizer que jamais algo parecido aconteceu em algum país socialista. Mas o ponto que importa é este: os segmentos intelectuais a que me referi, que tão exacerbadamente combatem o “neo”-liberalismo, na verdade, o fazem em nome de um “paleo”-liberalismo.

(*) Bolívar Lamounier é cientista político, sócio-diretor da Augurium Consultoria, membro da Academia Paulista de Letras, e autor do livro 'Tribunos, Profetas e Sacerdotes: Intelectuais e Ideologias no Século 20' (Companhia das Letras, 2014)

Vagalumes no temporal.

 Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Só há hoje uma certeza: quem disser que entende a crise está mal informado. Há linhas identificáveis de ação e de pensamento, há luzes sobre correntes políticas, mas sempre oscilantes diante da tempestade. Fatores estranhos à política interferem na análise: delações premiadas, o juiz Sérgio Moro, opiniões militares como a do comandante do Exército, general Eduardo Villas Boas, que reagiu duramente às declarações petistas sobre a necessidade de controlar e bolivarianizar o pensamento dos quartéis.

Aparentemente, Michel Temer tentou montar um núcleo duro, fiel a ele e bom nas negociações com os políticos, que daria suporte a um grupo técnico de peso e livre de suspeitas, responsável por tocar o Governo. E, como o pedágio é inevitável, há aqueles de sempre rodando no entorno.

Lindo desenho - mas vem Sérgio Machado, presidente da Transpetro por 12 anos, relacionadíssimo, e solta uma gravação detonando Romero Jucá, um dos políticos mais próximos a Temer. Mais: há comentários de que Machado teria também gravado Renan Calheiros e José Sarney. Renan joga sozinho; mas Sarney é o cacique dos caciques do PMDB. A qualquer instante, portanto, a situação pode mudar - ou não: e se Machado estiver jogando ao lado de um deles, e pelo menos uma das duas gravações não exista, seja só uma manobra na luta pelo poder?

Ou seja, as notícias não mudam. Mas há novidades sempre.

É ele de novo! 
Preste atenção em José Serra. Como ministro das Relações Exteriores, sem verba, vem criando fatos políticos, a partir do pito que deu nos bolivarianos que queriam palpitar na política brasileira. Seu sonho é ser candidato à Presidência; e trabalha para isso. 

Renan Calheiros também quer e parece agir discretamente na oposição a Temer. É bom de manobra, mas depende de um velho aliado. Se Sérgio Machado o gravou e resolver entregá-lo, muda tudo. Há quem diga que Gim Argello também o gravou. 

Em silêncio, por enquanto
É bom prestar atenção também em Paulo Skaf, presidente da Fiesp, amigo de fé de Michel Temer e cacique do PMDB paulista. Skaf quer ser governador. Mas é amigo há anos do governador Geraldo Alckmin, do PSDB. Skaf pode sentir a vontade de treinar no comício dos outros e sair forte para o Governo, em 2018. Impossível não é, e se Temer estiver bem avaliado suas chances serão boas. A máquina eleitoral já existe, a própria Fiesp, e ao longo dos anos Skaf aprendeu a comandá-la com precisão. Na Fiesp, nem há mais oposição: todos caminham com ele.

Comentário
A informação é de que Sérgio Machado procurou três de seus mais velhos e fiéis companheiros e padrinhos para forçar conversas em que eles discutiriam seus planos para o futuro e ele as gravaria, em busca de vantagens pessoais, entregando à Polícia os amigos que lhe deram poder e riqueza. 

Que caráter!

Falta explicar 
De Sérgio Machado, na conversa (que serviu de delação premiada) com Romero Jucá: "O Aécio, rapaz ... O Aécio não tem condição, a gente sabe disso. Quem que não sabe? Quem não conhece o esquema do Aécio? Eu, que participei de campanha do PSDB..."

A opinião pública talvez gostasse de ser mais bem informada. E como garante Machado, ele, que participou de campanha do PSDB, conhece. Que tal contar?

Os sábios
O curioso é que todos esses políticos que esquecem que o gravador existe conviveram com gente mais esperta. Tancredo Neves, por exemplo, dizia que telefone só servia para marcar encontro, e no lugar errado. Certa vez, quando preparava a candidatura à Presidência, Tancredo explicou: "Sei como as coisas funcionam. Já fui ministro da Justiça". 

Verdade: tinha sido ministro da Justiça em 1954, quando gravar telefones era complicadíssimo. Mas era possível. E ele nunca se esqueceu de evitar riscos.

Um nome é um nome 
A ação que atingiu Taiguara, sobrinho da primeira esposa de Lula, chamou-se Operação Janus. Envolve empreiteira brasileira, obras em Angola, dinheiro que saía oficialmente do Brasil mas ficava por aqui mesmo, e a firminha sem tradição nem condições técnicas que pegava a obra para que outra a fizesse, dividindo o pixuleco. 

Janus era o deus romano com duas caras, uma olhando para a frente, outra para trás. Bela inspiração.

É nóis!
Cinco horas de tiroteio na Favela da Rocinha, bandidos disputando o ponto e ignorando a presença do Bope. Dúvida: se a favela estava oficialmente pacificada, por que tanto tiro? 

Chumbo Gordo - www.chumbogordo.com.br
carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann

Temer vetou parte das medidas econômicas para evitar desgaste maior

 Vicente Nunes
Correio Braziliense

Se dependesse da equipe econômica, o pacote anunciado ontem pelo presidente interino, Michel Temer, teria sido muito mais duro. Em negociação com o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, o chefe do Executivo mandou retirar várias das propostas preparadas pelos técnicos, alegando que não havia clima político para levá-las adiante. Estavam no projeto inicial aumento de impostos e reajuste real zero para o funcionalismo público. Temer preferiu não comprar brigas e queimar todo o capital político neste momento. Alegou que as medidas anunciadas agora são suficientes para resgatar a confiança dos agentes econômicos e viabilizá-las no Legislativo.

No diagnóstico apresentado pelos técnicos, ficou claro que o país está quebrado. As contas não fecham. Seria preciso um arrocho muito duro para que, num prazo de dois anos, o país voltasse a registrar superavit primário. A aposta, agora, é de que, com o pacote que está na rua e depende quase que exclusivamente do Congresso, a perspectiva de retomada do crescimento se coloque no horizonte, ajudando a recuperar as receitas. Isso afastaria a mais desgastante das propostas: o aumento da carga tributária. Caso a recuperação se mostre mais demorada que o desejado, aí, sim, a alta de imposto passará a ser opção quase que inevitável.

Temer e Meirelles sabem que não podem falhar. E não esconderam a frustração com parte do mercado, que viu com ceticismo as medidas que limitam gastos à inflação do ano anterior. Os investidores reclamaram, sobretudo, da falta de detalhamento do que foi anunciado. Para técnicos do governo, será preciso gastar muita saliva a fim de dar a dimensão exata do impacto de se impor um teto para as despesas. Alegam que se trata de uma decisão muito agressiva. Nos últimos 17 anos, em apenas três as despesas do governo não cresceram mais que o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Como gostam de usar o economês, chamam a medida de nominalismo, isto é, correção apenas pela inflação.

Força de Meirelles 
A despeito das ressalvas dos investidores, todos têm a exata noção de que Temer entregou seu mandato, ainda provisório, nas mãos de Meirelles. O presidente interino precisa que a economia responda ao pacote para reduzir sua desaprovação popular rapidamente. Os números que o Planalto tem em mãos ainda apontam para uma atividade despencando, com o desemprego fazendo estragos nas famílias. A torcida é para que, com algumas das medidas aprovadas pelo Congresso, já em agosto ou setembro, a economia comece a reagir, estancando a sangria da arrecadação e reduzindo o total de demissões.

Temer não tem escapatória. A saída de Romero Jucá do Ministério do Planejamento sob suspeita de tentar melar a Lava-Jato abriu um flanco desnecessário e deu força aos que defendem a volta de Dilma Rousseff ao poder. O presidente interino ficou incomodado com isso. Analistas dizem que até a queda de Jucá, eram remotas as chances de a petista voltar ao poder. Agora, a probabilidade passou a ser de 10%, baixa, mas perigosa, sobretudo se o governo não conseguir avançar com as medidas que prometem reverter o descalabro fiscal.

Meirelles se encarregou que sair a campo para defender o pacote. Está se municiando de todos os números para desmontar teses de que o fracasso está no horizonte. O ministro não admite a possibilidade de repetir a trajetória de Joaquim Levy, que chegou à Fazenda com todas as pompas e saiu pelas portas dos fundos. Foi defenestrado dentro do governo e tratado com desdém no Congresso. A assessores, Meirelles tem cobrado empenho para que tudo o que for apresentado tenha consistência, não seja visto como bravata. Disso, o país está cheio.

Barreiras à vista 
O que o governo mais teme é que aspectos jurídicos acabem embarreirando propostas importantes, como a devolução de R$ 100 bilhões ao Tesouro Nacional pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Um dos criadores da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), José Roberto Afonso diz que há pareceres do Tribunal de Contas da União (TCU) contrários à operação. A Fazenda alega que tudo está nos conformes e que o banco não terá problema para fazer caixa, pois poderá vender todo tipo de títulos que tem em carteira.

Como se vê, dúvidas não faltam. Por isso, quanto mais transparência o governo der às medidas e às negociações com o Congresso, mais consistente será o pacote e mais rápido virá a confiança. Investidores são bichos ariscos, sempre veem o diabo nos detalhes. Ficaram ainda mais arredios depois de tantas promessas não cumpridas de Dilma. Vários deles alegam que a presença de Meirelles na Fazenda é uma garantia de que não haverá estripulias na política econômica. Mas, sozinho, o ministro da Fazenda não fará milagre. Precisará de um bom empurrão da política.

Os investidores torcem para que o pacote de ajuste fiscal dê resultados logo para que o Banco Central possa “comprar” a proposta de redução do deficit público. A partir do momento em que houver uma clara direção na política de gastos públicos, a autoridade monetária poderá começar a reduzir a taxa básica de juros (Selic), que está em 14,25% ao ano desde o ano passado. A redução do custo do dinheiro é a música que os agentes econômicos mais querem ouvir. Mas isso precisará ser muito bem combinado com o futuro presidente do BC, Ilan Goldfajn. Ele não está disposto a manchar sua biografia.

Marcos Lisboa: 'Ter déficit não é o problema. O problema é ele não parar de aumentar'

 Teo Cury
Veja online

Para o ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, preocupação com as contas públicas, no momento, é a trajetória da dívida, que cresce mais que o PIB

(VEJA.com/Divulgação) 
O economista Marcos Lisboa, atual presidente do Insper, atuou como 
secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda de 2003 a 2005 

Está dito desde antes do início do mandato do presidente interino Michel Temer: a maior prioridade do novo governo seria trabalhar para ajustar as contas públicas. O governo fechará 2016 com um rombo bilionário - e isso não chega a ser o maior desafio, segundo o economista Marcos Lisboa. "Ter déficit não é o problema maior. O problema é esse déficit não parar de aumentar", afirma o presidente do Insper, que foi secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda entre 2003 e 2005, no primeiro governo Lula.

O governo enviou ao Congresso nesta segunda o projeto em que pede autorização para encerrar o ano com rombo de 170,5 bilhões de reais. A votação da proposta ocorreu na madrugada desta quarta-feira, e foi aprovada, após uma sessão que se arrastou por mais de 16 horas. À medida que os gastos crescem, as contas só pioram, diz o economista. "Com isso, o déficit cresce mais do que a economia, o que é um problema", diz.

A taxa básica de juros do país está atualmente em 14,25%. Mesmo com esse patamar elevado, não adianta baixar as taxas "na marra", segundo o economista - e a chave para a redução é, mais uma vez, o ajuste fiscal, afirma Lisboa.

Parte dos juros altos de hoje deve-se à inflação, explica o economista. Já a outra é resultado dos juros reais, que são altos, e que aumentaram devido ao desequilíbrio fiscal dos últimos anos. "A crise fiscal traz muita insegurança do que vai acontecer nos próximos anos. Essa instabilidade macroeconômica e equívocos dos últimos anos se traduzem nos juros reais altos", afirma. Em sua visão, o governo tem de criar condições para que os juros caiam. "E isso passa, em particular, pelo ajuste fiscal."

Sem medidas de austeridade, o país não vai voltar a crescer, acredita o economista. "Reverter a trajetória do gasto público e como se interrompe essa trajetória de crescimento da despesa pública acima do Produto Interno Bruto (PIB) é o desafio mais urgente do país", afirma. Feito isso, diz, a equipe econômica do presidente interino Michel Temer deverá começar a acertar "o sistema tributário, que está disfuncional".

Nesta terça-feira, Lisboa participou da apresentação do relatório de diagnóstico sistêmico do país no auditório do Insper, em São Paulo. A radiografia da economia brasileira, da qual também participaram Martin Raise e Roland Clark, economistas do Banco Mundial, e Ricardo Paes de Barros, economista e professor titular do Insper, era feita no exato momento em que Temer e o ministro da Fazenda Henrique Meirelles anunciavam seu primeiro conjunto de medidas para tentar reequilibrar as contas públicas.

A morada do diabo

Alexandre Schwartsman
Folha de S. Paulo

Sob esta ótica as medidas anunciadas ontem são, em sua maioria, uma manifestação de intenções corretas, mas, para falar a verdade, não muito mais que isto.

Ainda em sua primeira versão, a mesma que causou (justificado) escândalo em agosto do ano passado, o orçamento federal previa déficit de R$ 30 bilhões, rapidamente transformado em superávit de R$ 24 bilhões, embora, é claro, apenas no papel. Tanto que a administração anterior já reconhecia que o número seria negativo e bem pior do que as primeiras estimativas, na casa de R$ 100 bilhões.

Ainda assim, quem segue a questão fiscal de perto já havia manifestado sua descrença, apostando num buraco ainda maior, e valores na casa de R$ 150 bilhões não chegavam a escandalizar ninguém, uma triste ilustração de como nos adaptamos facilmente à miséria. Neste sentido, o anúncio de um déficit de R$ 170 bilhões, equivalente a 2,7% do PIB, foi recebido por uma sociedade anestesiada.

Não há dúvida que o valor é horroroso e retrato do grau de deterioração das contas do governo nos últimos anos. Contudo, não chega a ser o pior desenvolvimento nesta frente: o que me deixa ainda mais horrorizado é o grau de incerteza que existe em torno dos números fiscais.

Não bastassem as repetidas revisões de metas (fenômeno constante nos últimos anos), há ainda a possibilidade de perdas de montante desconhecido associadas a eventos tão distintos como a necessidade de capitalização da Petrobras, ou a incapacidade da Eletrobras em publicar seu balanço auditado segundo regras internacionais, ou ainda o montante de créditos de má qualidade nos bancos federais e seus impactos sobre as finanças públicas.

É lamentável, mas aprendemos como um governo mal-intencionado e/ou incompetente na gestão fiscal pode causar um estrago sem precedentes. O quadro institucional, expresso em diplomas como a Lei de Responsabilidade Fiscal, ou a Lei de Diretrizes Orçamentárias, foi simplesmente despedaçado no processo. Recuamos ao menos 20 anos em termos de instituições fiscais. Idealmente estas deveriam ser reconstruídas, mas não temos sequer certeza se seremos capazes de tal tarefa.

Sob esta ótica as medidas anunciadas ontem são, em sua maioria, uma manifestação de intenções corretas, mas, para falar a verdade, não muito mais que isto.

Dessas, a antecipação de pagamentos por parte do BNDES para o Tesouro Nacional é a que deve produzir o maior impacto, R$ 100 bilhões. Da mesma forma, porém, que a concessão dos empréstimos não é despesa, sua amortização não é receita. Embora muito inferior ao tamanho da dívida (R$ 4 trilhões, ou 67% do PIB em março), o efeito equivale a algo como 1,7% do PIB, e pode reduzir a conta de juros em algo como R$ 7 bilhões/ano.

Já a fixação de um teto para as despesas do governo federal de acordo com a inflação antecipa uma queda destas relativamente ao PIB. No entanto, sem medidas mais claras no que se refere às vinculações e adequação da Previdência, não é claro como o teto será cumprido. O diabo mora nos detalhes e resta, portanto, saber como, na emenda constitucional sobre o tema, o governo pretende lidar com esta questão.

* * *

Segundo Alexandre Tombini, “a inflação em si jamais fugiu ao controle nesses dezessete anos do regime de metas”. O grau de alienação desta afirmação revela porque a inflação atingiu mais de 6% ao ano entre 2011 e 2014, 10,7% em 2015 e 9,6% nos últimos 12 meses, comparada a uma meta de 4,5%. Já vai tarde…

Governo apresentou os recados certos e as medidas necessárias

Míriam Leitão
O Globo

Foram bons os recados e as medidas anunciados pelo governo. As propostas foram no caminho correto, de criar mudanças estruturais e não apenas pontuais. Michel Temer aproveitou o momento para deixar algumas mensagens. Sobre as correções de rumo do governo interino, disse que não tem compromisso com o equívoco. Se errar, “consertá-lo-ei”, disse o presidente em exercício, usando uma mesóclise.

Ele explicou que as mudanças do governo não são fraquezas. É parte da democracia dialogar, ser pressionado e mudar em caso de equívocos. Extinguir o Ministério da Cultura foi um erro, e o governo logo corrigiu. Temer também errou ao colocar no Ministério do Planejamento, um investigado na Lava-Jato. As gravações com Romero Jucá foram divulgadas e o ministro deixou a Esplanada.  

Outro recado de Temer é que o governo não pode ficar parado por ser interino. As decisões precisam ser tomadas. No anúncio, o presidente estava rodeado pelos líderes dos partidos e disse que vai governar com o Congresso. As medidas serão avisadas às lideranças antes de serem anunciadas.    

Entre os projetos apresentados hoje, há a proposta de o BNDES pagar R$ 100 bi para a União, em três anos, devolvendo parte do financiamento que recebeu do Tesouro. A equipe econômica disse que o banco ficará equilibrado porque tem R$ 150 bi em caixa. Os governos do PT repassaram R$ 500 bi ao BNDES, uma operação com custo alto para o país. Ela aumentou a dívida pública e a economia não cresceu. O Tesouro se endividava a juros mais elevados, e subsidiava os empréstimos que o banco de fomento concedia a algumas empresas. A devolução desses R$ 100 bi vai ajudar a abater o endividamento público e diminuir o gasto com juros.

O resgate do fundo soberano, que tem patrimônio de apenas R$ 2 bi, também ajudará a abater a dívida pública. O patrimônio é formado por ações do BB, que serão vendidas em uma estratégia cuidadosa para que a cotação dos papéis não caia.

A criação para o limite de gastos depende do Congresso. É uma medida estrutural, mais efetiva do que os cortes pontuais. O governo vai apresentar uma Proposta de Emenda Constitucional para criar um teto para as despesas, que será corrigido pela inflação do ano anterior. As despesas com saúde e educação também respeitarão o teto. Dessa forma, não haverá aumento real dos gastos e a dívida pública vai recuar em relação ao PIB nos próximos anos. Essa matéria vai exigir um grande debate.

A equipe disse que não é o momento de criar impostos. Mas os subsídios foram limitados, não poderão crescer. A reforma da Previdência tampouco foi anunciada hoje. Foi uma boa decisão. Esse é um assunto que merece ser tratado separadamente.     

Outra medida que depende do Congresso é a Desvinculação das Receitas da União. A execução do Orçamento está muito engessada. Em momentos excepcionais, como nesta crise, o governo não tem espaço para adotar medidas especiais.

Foi uma boa apresentação nesta terça-feira, um dia após a maior crise nessas duas semanas de governo interino.

Melhor comédia em Cannes foi a apresentação dos artistas brasileiros

Guilherme Fiuza
Época

Babaquice em Cannes


Atores brasileiros denunciaram no Festival de Cannes o golpe de Estado no Brasil. Isso aconteceu pouco depois de o novo ministro da Fazenda declarar que sua primeira missão será descobrir e divulgar a verdade sobre as contas públicas no país. Ou seja: o governo derrubado pelos golpistas mantinha as finanças nacionais na clandestinidade – para poder cometer à vontade os crimes fiscais em que foi flagrado. Faltou traduzir para o francês: sujeitar a malandragem petista à lei é golpe. Sonia Braga tem todo o direito de querer trocar Gabriela Cravo e Canela por Dilma Cravo e Ferradura – cada um busca a felicidade onde bem entender. O que já passou da hora é a responsabilização criminal da presidente afastada por suas insinuações de golpe de Estado. Aí já não é cinema – é Código Penal.

O governo interino Michel Temer começou da seguinte forma: Henrique Meirelles na Fazenda, Ilan Goldfajn no Banco Central, Mansueto Almeida no Tesouro, Maria Silvia Bastos Marques no BNDES, Pedro Parente na Petrobras. Vamos explicar de forma alegórica, para a criançada de Cannes entender: sai o time da penitenciária, entra o Barcelona.

Mas os progressistas fiéis à companheira golpeada não gostam de Messi, Neymar, Luisito Suárez e companhia, que acham muito antipáticos e neoliberais. O time da penitenciária tem mais ginga – e se encaixa melhor no hino revolucionário que sustenta a mística dessa gente: caminhando e cantando e seguindo o cifrão.

A ordem, portanto, é disparar contra Temer. A primeira crítica proferida de todos os lados: é um ministério sem mulheres. Para os democratas golpeados, mulher é uma espécie de patente, um atributo genérico. Qual ou quais ministras os críticos recomendavam, e por que, ao novo governo? Ninguém sabe. Esses pobres golpeados tratam gênero como virtude, sexo como credencial.

Sendo assim, vamos à escalação das mulheres que fizeram história nos virtuosos governos petistas: Erenice Guerra, Gleisi Hoffmann, Graça Foster, Miriam Belchior, Benedita da Silva, Ideli Salvatti, Rosemary Noronha, entre outras sumidades – sem se esquecer, naturalmente, da estrela guia Dilma Rousseff. É necessário declinar os prontuários? Quem quiser diversão macabra que vá ao Google.

Viram como é fundamental um governo com mulheres? Essa é a narrativa tosca da qual o Brasil virou refém, e não só a turma da cantilena parasitária. Exigir mulher no ministério de Temer é o que há de mais machista: essa é a autêntica mulher objeto, transformada em troféu do proselitismo.

Mas eis que surge a troca de comando no BNDES. Quem assume? Maria Silvia Bastos Marques. O Brasil bonzinho detesta a virtude. Maria Silvia vale por todas as supracitadas juntas (no que elas remotamente tenham de bom, claro), mas sua nomeação atrapalha a narrativa de que o governo Temer é PMDB, é retrógrado, é machista, é Eduardo Cunha. Silêncio total. Ótimo: muito ajuda quem não atrapalha.

O BNDES enfrenta suspeitas de ter se tornado um antro de tráfico de influência do PT – e, particularmente, de Lula, como aponta investigação do Ministério Público sobre ações do ex-presidente em favor de empreiteiras no exterior. O problema da nomeação de Maria Silvia é que isso acaba. Se não do dia para a noite, tão logo ela vá iluminando ponto a ponto as catacumbas.

Como se pode ver, o golpe denunciado em Cannes é grave: só pode ser uma conspiração para matar a elite vermelha de fome. O Barcelona está em campo para tentar reverter o calamitoso 7 a 1 petista, e a patrulha progressista está à beira do gramado jogando pedra e gritando contra os conservadores, os feios, os chatos, as recatadas e as do lar.

Essa síndrome brasileira parece não ter cura. Freud (ou Nelson) poderiam diagnosticar uma inconfessável vontade de apanhar (por qualquer placar). Foi o que se viu no UFC Brasil. O campeão dos pesos pesados não resiste à presepada e entra com musiquinha de Fórmula 1, “sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor”, diz que são 45 mil com ele no octógono e… Os 45 mil são nocauteados com um direto no queixo aos dois minutos de luta.

Prezados parasitas da mística, vão procurar sua turma no Festival de Cannes – e celebrar o prêmio de melhor comédia. Deixem o Brasil que trabalha trabalhar.

Petistas aboletados na TV Brasil já provocavam gritariam contra saneamento da empresa

 Reinaldo Azevedo  
Veja online

Nova direção começa a moralizar a TV Traço, que já custou R$ 6 bilhões em 9 anos, e a companheirada já está berrando na imprensa

Ora, mas que graça. A TV Brasil, controlada pela EBC (Empresa Brasileira de Comunicação), havia se tornado a “gaiola das loucas” da esquerda. No jornalismo político, só eram contratados profissionais alinhados com o petismo. Com alguma frequência, isso não bastava: os ditos-cujos também tinham de insultar, em suas páginas pessoais ou em veículos privados a serviço do partido, políticos de oposição, jornalistas não-alinhados com os companheiros e ministros do Supremo considerados pouco submissos.

Dava-se de barato que a EBC era um reduto do petismo e de seus aliados. E fim de conversa. Quantas vezes vocês viram esse debate chegar à grande imprensa? Nenhuma!

Pois é… A EBC está sob nova direção. Ricardo Mello foi demitido. Em seu lugar, foi contratado Laerte Rimoli, que está sendo anunciado como um aliado de Eduardo Cunha. Isso é simplesmente uma bobagem e uma mentira. Ele foi convidado no ano passado para chefiar a diretoria de Comunicação da Câmara, mas não tem vínculo especial com o deputado afastado. Na campanha eleitoral de 2014, por exemplo, integrou a equipe de comunicação do candidato tucano à Presidência, Aécio Neves. Também pertenceu à equipe do governo FHC.

Associá-lo a Cunha é um serviço de desinformação. Adiante.

Desde que assumiu, Rimoli suspendeu os respectivos programas das seguintes personalidades, todas elas alinhadas com o governo afastado e prosélitos da causa petista, lulista e dilmista: Paulo Moreira Leite, Tereza Cruvinel e Sidney Rezende, este com programa na Rádio Nacional.

Vamos lá. Estou apoiando caça às bruxas na EBC? Não! Sou contra, aí sim, é que uma estatal, paga com dinheiro público, sirva a um partido politico e a uma causa ideológica. Infelizmente, é o que se fazia por lá.

Por que a gritaria? A senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM) era uma convidada do programa “Espaço Público”, que era comandado por Moreira Leite. Como a atração, que não atraía ninguém, não existe mais, ela foi desconvidada. E fez o que Vanessa mais sabe fazer: falar alto para ver se consegue ter razão.

Atenção!
Não, meus caros, eu não quero que a TV Brasil seja um veículo a serviço do governo Michel Temer ou sei lá de quem. Sabem quanto essa emissora já custou aos cofres públicos em nove anos? R$ 6 bilhões. Hoje em dia, consome coisa da ordem de R$ 1 bilhão por ano. Sabem quanto dá de audiência? Traço!!! Ninguém vê.

E tenho cá minhas dúvidas se alguém a veria ainda que não houvesse um só petista por lá, embora eles sejam especialmente chatos. As pessoas não têm paciência para comunicação oficial ou que desconfiam ser oficial.

Infelizmente, não creio que Temer tenha este propósito: no seu lugar, eu faria um rigoroso levantamento de quanto se consome de dinheiro, qual é a audiência que dá a TV Brasil, demonstraria que a empresa só serve para assaltar, na prática, o bolso dos brasileiros e fecharia aquele troço. O dinheiro torrado com os amiguinhos do PT seria transformado em unidades do Minha Casa Minha Vida.

Como funciona?
Só para contar como a coisa funciona. Esses jornalistas contratados a peso de ouro pela TV Pública — seu dinheiro, leitor! — não ajudavam a popularizar o governo petista na emissora porque ninguém via a TV Brasil. O busílis é outro.

Eles costumam ter outras atividades fora dali, como páginas pessoais na Internet em que defendem as causas petistas e atacam seus adversários. Entenderam? Na prática, o dinheiro público financiava esses empreendimentos.

Rimoli, que não é homem de Cunha, fez muito bem em pôr fim à farra. E Temer faria muito bem se pusesse fim é à TV Brasil.

Distante do povo

Thiago Mourão
O Globo

Não dá para abraçar um projeto de poder criminoso e sentir-se incompreendido pela população que pouco se beneficiou do Ministério da Cultura

O vaivém do MinC expôs o distanciamento de artistas em relação ao povo. Em 2014, os servidores do Iphan pararam as atividades dos museus por justa luta salarial. O Masp completou, em 2007, 60 anos com dívidas astronômicas e visitas decaindo; no mesmo ano, 76 instituições fecharam as portas temporariamente.

O Masp só começou a ter solução ao fim de 2014, sem intermédio do MinC. Pouco se fez pela valorização do museu. O ano de 2015 foi ameaçador para o Museu Nacional. Recentemente, O GLOBO publicou fotos dos graves problemas estruturais na Biblioteca Nacional, onde está a memória do Brasil desde o Império.

Os investimentos dos últimos 13 anos se basearam nos artistas, e não no público. O MinC se restringiu a editais para produção de filmes, shows e peças de teatro, mas as bilheterias dos filmes nacionais são ínfimas, e essa produção só rodou festivais vistos por cineastas.

Pergunte nas ruas o nome do último filme nacional a que assistiram. As salas de rua somem, e os blockbusters dominam o cardápio cinematográfico, deixando às produções locais tempo suficiente para apenas parentes e amigos assistirem. As temporadas teatrais são curtíssimas.

O Ibope divulgou que nenhum escritor da nova geração é lembrado em sua recente pesquisa, os contemporâneos na boca do povo se limitam a Paulo Coelho e Padre Marcelo Rossi. Cadê as livrarias de rua, que aproximam os autores dos leitores? O que foi feito das bibliotecas públicas?

Pontos de cultura, política pública de aproximação entre arte e público, têm sofrido para sobreviver. Artistas se fecharam em eventos, a sociedade os vê como vagabundos usurpadores do dinheiro público.

Enquanto o impune crime da Samarco sufocava pessoas, vidas, patrimônios, artistas desfilavam no Planalto ao som de “Alegria alegria”. Após o governador baiano aplaudir uma chacina na periferia, o mais famoso ator brasileiro vinha de Los Angeles abraçá-lo e pedir dez milhões do Erário para um filme sobre Marighella.

Em Salvador, ocuparam a sede do MinC ignorando que ele se localiza no abandonado Centro Histórico da primeira capital do país. Colocar-se dentro de um vestido chique e desfilar por Cannes com placas “Golpe no Brasil” não pega bem para 11 milhões de desempregados.

Esse distanciamento produziu uma profunda ignorância da sociedade a respeito do trabalho de fazer arte e da importância econômica e social desta indústria limpa e transformou os frequentadores palacianos, calados diante da dilapidação da Petrobras — principal empresa fomentadora de produções artísticas — em inimigos dos que morriam de bala e de falta de leito.

O governo interino fez lambanças como convidar medalhões nada a ver com a política para acalmar os ânimos; o desafio de Temer agora é criar um nobre ministério e dar espaço para Marcelo Calero, acabando o aparelhamento e fomento ideológico.

Não dá para abraçar um projeto de poder criminoso e sentir-se incompreendido pela população que pouco se beneficiou do Ministério da Cultura.

Menos discurso, mais ação.

Sérgio Sá Leitão
Folha de São Paulo

Há bons argumentos favoráveis e bons argumentos contrários à existência de um ministério exclusivo para a cultura, à fusão entre o Ministério da Cultura e o da Educação, à fusão entre o Ministério da Cultura, o do Esporte e o do Turismo e a outros modelos de arranjos institucionais.

Na França, referência internacional em política cultural, há o Ministério da Cultura e da Comunicação. No Reino Unido, onde se valoriza o impacto econômico e social das indústrias criativas, há o Departamento de Cultura, Mídia e Esporte, com status de ministério.

Na verdade, poucos países apresentam atualmente um ministério exclusivo para a cultura. O que não significa, necessariamente, desprezo ao setor ou ausência de reconhecimento da importância da cultura em suas múltiplas dimensões. A cultura, como se sabe, é muito maior do que o Ministério da Cultura.

Ter um ministério exclusivo também não significa, necessariamente, que o poder público valorize a cultura, compreenda de fato seu papel estratégico e realize uma política à altura. Os cinco anos e alguns meses de Dilma Rousseff na Presidência demonstraram um divórcio entre retórica e prática em diversas áreas, incluindo a cultura.

A despeito do discurso bem-intencionado, sobretudo nas campanhas eleitorais, tivemos um período ruim para a política cultural, de muita discussão e pouca ação, em que o orçamento do MinC foi progressivamente reduzido (em termos proporcionais ao orçamento total) e diversos programas foram descontinuados, à exceção do audiovisual.

Como sinal de austeridade, diante da recessão que vigora no Brasil e do gigantesco deficit fiscal herdado, o novo governo anunciou a redução do número de ministérios.

Formalizou a fusão entre o Ministério da Cultura e o da Educação, provocando a ira de parte relevante do setor cultural. No último sábado (21), o presidente interino Michel Temer decidiu recriar a pasta da Cultura.

Foi uma medida necessária para diminuir a temperatura da crise que se instalou. No entanto, assim como a fusão anteriormente anunciada, não representa um fato necessariamente positivo ou negativo.

A questão não é institucional; o que mais importa para a sociedade é um conjunto de definições concretas que encerre o divórcio entre retórica e prática no que diz respeito à política pública de cultura.

Trata-se de apontar claramente, por meio de ações, qual é o papel da cultura para a gestão Temer.

A intenção, afirmou o presidente interino, é impulsionar a área. A indicação de Marcelo Calero para o cargo de ministro da Cultura indica a vontade de transformar o desejo em realidade. É um gestor experiente, que soube manter e aperfeiçoar a bem-sucedida política implementada em minha gestão à frente do Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, entre 2012 e 2015, no governo Eduardo Paes.

É preciso formular uma política objetiva, baseada na ideia de que a cultura pertence ao campo da sociedade e acontece no plano local. Ao poder público cabe estimular, promover e proteger, e não produzir.

Deve-se levar em conta a dimensão simbólica, econômica e cidadã. E ter orçamento compatível, capacidade operacional, centralidade entre as políticas governamentais e parceria com os municípios.

A cultura pode ser um antídoto contra a recessão, por sua capacidade de gerar renda, emprego, inclusão e felicidade. Portanto luz, câmera ação!

Do bom e do pior

Zuenir Ventura
O Globo

A verdade é que o MinC morto acabou sendo mais valorizado do que em vida, quando acumulou mais dívidas do que elogios

Nestes movimentados primeiros oito dias do governo Temer, houve um pouco de tudo, do bom e do pior.

Entre os acertos está, segundo os analistas, a escolha da equipe econômica, com Henrique Meirelles à frente. Um destaque para o novo presidente da Petrobras garantindo que não haverá indicações políticas, isto é, cessa o aparelhamento partidário que, pela corrupção, transformou uma empresa que era orgulho em vergonha nacional.

Como um bom paradoxo, a constatação de que as melhores escolhas de um governo misógino foram duas mulheres: Maria Silvia Bastos para o BNDES e Flávia Piovesan para a Secretaria de Direitos Humanos.

No quesito polêmica, a extinção do Ministério da Cultura, uma medida precipitada que mobilizou a classe artística num protesto como há muito não se via.

Entre as muitas convidadas ou sondadas que recusaram o cargo de secretária, houve até quem recusou o que sequer recebeu, o convite ou a sondagem.

A verdade é que o MinC morto acabou sendo mais valorizado do que em vida, quando acumulou mais dívidas do que elogios. Chegou a dar calote até em prêmios, como fez com a artista plástica Thereza Miranda, que até hoje não recebeu os R$ 300 mil do Prêmio Marcantonio Vilaça, concedido pela Funarte há sete meses.

É possível que Temer agora consiga pacificar a área com a escolha de Marcelo Calero, que teve um bom desempenho ocupando o cargo equivalente na prefeitura do Rio e chega às novas funções querendo diálogo e, o que é mais importante, prometendo sanear a herança deixada, pagando as dívidas acumuladas. Thereza, aos 87 anos, agradece.

O que parece não ter conserto é a decisão do presidente interino de nomear como seu líder na Câmara o deputado André Moura, que tem como credenciais a amizade com Eduardo Cunha e sua folha corrida, onde aparece como réu no STF, como condenado por improbidade administrativa e com inquéritos na Lava-Jato, além de tentativa de homicídio.

Temer poderá alegar que, embora Moura pertença ao PSC, um partido com apenas nove deputados, representa o centrão, que, com seus 304 membros, facilitará a aprovação dos projetos impopulares que pretende lançar, embora isso lhe custe a suspeita de ser refém de Cunha.

Para desfazer essa impressão, o presidente afastado da Casa afirmou, enquanto se explicava na comissão de ética: “Não tem um alfinete no governo Temer indicado por mim”. Nessa altura, os conhecidos alfinetes não estavam nem aí. Aliás, o grande momento do show em que, durante nove horas, ele negou mais uma vez ter dinheiro lá fora — tudo é do trust — foi quando o deputado Júlio Delgado quis saber quem tinha bebido o vinho de mil dólares numa de suas milionárias viagens ao exterior: “O senhor ou o trust?”

Para desmoralizar o cinismo, só mesmo o humor e a ironia.

Vamos falar de cultura

João Cesar de Melo


Cultura é a roda de samba, a cerveja depois do trabalho, a praia no final de semana, o improviso das favelas, o biquíni das meninas, o pão com manteiga de manhã, a feijoada no sábado, o churrasco no domingo, a moqueca na Semana Santa, a roda de capoeira, a molecada jogando futebol num campinho qualquer, as tantas manifestações folclóricas…

Cultura são os cantores das noites, as bandas de amigos, os blocos de carnaval, os artistas das ruas, os artesãos das feirinhas, os homens dos cordéis, as mulheres das rendas, os repentistas do sertão, os funkeiros dos morros, os violeiros do pantanal, os rappers da periferia, os aposentados das praças, os pintores e escritores independentes, os poetas dos bares…

Cultura independe do governo. Cultura não se fabrica. Não se controla. Cultura é como o mercado. Acontece. Incontrolável. Indomável como a língua, que se transforma o tempo todo, a despeito do que os acadêmicos planejam. Quando a cultura vira política de governo, deixa de ser cultura. Vira panfleto.

O fim do ministério da Cultura teria um único resultado prático: Artistas que se acostumaram a com o dinheiro do governo teriam que captar recursos diretamente na sociedade.

Se o MinC e as leis de incentivo fossem extintas, pessoas como Chico Buarque teriam que fazer mais shows para manter seus estilos de vida. Teriam que se aproximar do povão. Aqueles que não quiserem se “vender ao mercado” buscando patrocínio de empresas privadas, teriam que fazer campanhas de crowdfuding na internet, assim como milhares de artistas independentes já estão fazendo. Com toda certeza, artistas consagrados não teriam dificuldades em viabilizar seus projetos a partir de doações espontâneas de pessoas comuns, suas fãs. As produtoras que se especializaram em captar recursos via leis de incentivo teriam que se especializar em captar recursos no mercado, na sociedade.

O ministério da Cultura representa um dos piores efeitos da democracia: A maioria sendo obrigada a financiar projetos que apenas uma pequena minoria usufrui. Cidadãos sendo obrigados, via pagamento de impostos, a bancar projetos que não lhes interessam. Filmes inteligentinhos. Exposições grotescas. Livros que ninguém lê.

O argumento de que o fim do MinC seria um atentado contra a cultura nacional insulta os inúmeros artistas que trabalham por conta própria, vivendo do talento que têm, sustentando suas vidas e suas artes na medida em que satisfazem outras pessoas.

O ministério da Cultura sempre foi um cabidão de empregos e uma fonte de dinheiro para uma elite composta por artistas famosos ou apadrinhados.

O ministério da Cultura é um vetor de concentração de renda. Metade dos recursos captados em 2015 foram destinados a apenas 3% dos projetos aprovados. Como levantou o Spotniks, entre 2005 e 2015 o orçamento da Ancine saltou de R$ 19 milhões para R$ 660 milhões, obtendo resultados nada proporcionais. Em 2008, foram lançados 79 filmes. Em 2015, 128. O número de expectadores cresceu de 89 para 155 milhões no período, porém, mantendo a média de 12% de interesse nos filmes nacionais. O que isso significa? Que por mais que se injete dinheiro no setor, o grande público não passa a se interessar mais pelos filmes nacionais; e por uma razão muito simples: A maioria das produções é feita apenas para o prazer da elite cultural.

E por falar em cinema…

A maior produção cinematográfica do mundo está na Índia, onde são feitos mais que o dobro do número de filmes feitos em Hollywood, sem dinheiro do governo. Sem programas de proteção ao cinema nacional, apenas 10% dos filmes assistidos na Índia são americanos. Os indianos pobres assistem até 5 vezes mais filmes do que os ricos. São vendidos mais de 3 bilhões de ingressos por ano. Na Índia, atores e produtores não trabalham para emocionar Hollywood, Cannes ou Berlin. Trabalham para emocionar dos indianos.

Falta honestidade ao cinema brasileiro.

A Ancine se assemelha em conceito, prática e resultado ao BNDES. Ambos injetaram dinheiro público em determinados setores que hoje continuam dependentes do governo, comprovando o que os liberais dizem desde sempre: Subsídios geram ineficiência.

A TV Brasil, criada por Lula, têm quase zero % de audiência, mas conta com um orçamento de meio bilhão por ano. Por que o povão não assiste o canal? Porque sua programação é um lixo. É para isso que existe o governo: Dizer que lixo é cultura.

É preciso esclarecer que a lei Rouanet não é uma simples lei que converte impostos em investimentos culturais. A burocracia do “benefício” exclui a quase totalidade dos artistas, já que para desvendá-la é necessária a contratação de uma agência ou produtora especializada. Por isso não vemos micro e pequenas empresas patrocinando artistas desconhecidos. Elas não conseguem sequer preencher os formulários, dada a complexidade e restrições da papelada.

Mesmo que um projeto vença a burocracia, ele e seu autor serão avaliados por uma comissão com escancarado viés ideológico. Projetos ou artistas avaliados como ameaça aos ideais socialistas são vetados. Parece exagero, mas é assim mesmo que funciona. Em resumo, a lei Rouanet é uma mera formalidade entre amigos.

Graças a lei Rouanet, R$ 1,4 bilhão deixaram de ser pagos em impostos em 2015. A título de comparação, a Polícia Federal contou com uma verba de R$ 1 bilhão no mesmo ano; e Dilma, antes de sair, mandou reduzir a verba da PF em 13%.

A extinção do MinC não acabaria com a cultura nacional. Acabaria apenas com a elite cultural bancada com dinheiro público, fazendo com que a classe artística e intelectual se tornasse mais criativa, se aproximasse mais da sociedade, se tornasse independente.

Ainda não foi dessa vez.

Acuado, Michel Temer recriou o MinC uma semana depois de extingui-lo. Não suportou a pressão.

Comprovou-se, assim, que a elite cultural utiliza seu poder de mobilização apenas em benefício próprio, esbanjando demagogia, arrogância e soberba. Apesar do discurso, não tem nada de altruísta. É completamente indiferente à situação do país. Exige que seus projetos sejam tratados com prioridade nacional. Não tem pudor em dizer que se não tiver acesso ao dinheiro público, a cultura do país cairá em desgraça. Não por acaso, dessa elite nunca vimos um único protesto contra os absurdos do governo do PT. Foram 13 anos de bajulações.

A cultura somos nós. Eles são os parasitas.


(*) João Cesar de Melo, Arquiteto, artista plástico e escritor. Escreveu o livro “Natureza Capital”.

Cartas de Berlim: Pra que TV pública?

Albert Steinberger
Blog do Noblat

A diversidade da mídia alemã garante que a vida aqui seja analisada por pontos de vista diversos


(Foto: Divulgação)
 Estúdio do telejornal Tageschau 

Ao se mudar para Alemanha, uma das primeiras correspondências que você recebe é a da “Rundfunkbeitrag”, uma taxa para Rádio e TV públicos. Por aqui, todos são obrigados a contribuir com um pagamento mensal de 17,98 euros por mês. Os recursos são administrados pelas próprias redes públicas. Tem quem reclame da taxa, mas a cobrança tem um papel importante.

A ideia é garantir a independência financeira do meios de comunicação públicos e uma linha editorial, de fato, independente. Diferente dos veículos estatais, que dependem de repasses do governo e, por isso, ficam am mercê das mudanças de humor e cores partidárias de quem está no poder.

As televisões e rádios públicas daqui são instituições alemãs consolidadas e contam com duas redes principais: o canal 1, ARD, e o canal 2, ZDF. Os dois competem entre si, mas são pensados para serem complementares. Enquanto, a ZDF tem uma administração central e nacional com sede na cidade de Mainz, a ARD é uma rede de emissoras regionais que tem como foco fortalecer a produção local de conteúdo e evitar uma concentração, como acontece no Brasil, no eixo Rio-São Paulo.

Ao todo, nove emissoras participam da ARD e dividem o trabalho de âmbito nacional. Por exemplo, o “Tageschau”, que seria o equivalente ao Jornal Nacional daqui, é sempre transmitido de Hamburgo pela NDR, já o “Morgen Magazin”, algo como o Bom Dia Brasil, fica em Colônia a cargo da WDR.

Até a rede de correspondentes deles é dividida entre as emissoras regionais. Por exemplo, o correspondente de rádio da América Latina, incluindo Brasil, fica a cargo da BR de Munique.

O resultado é que a paisagem da mídia por aqui é bastante equilibrada. No mercado de TV, os canais públicos lideram os índices de audiência, mas seguidos de perto por emissoras privadas. Não existe uma grande concentração. E o mais importante cada notícia pode ser vista por uma variedade de pontos de vista.

A diferença para o modelo brasileiro fica muito clara, quando entramos na esfera privada. A mídia do Brasil costuma cumprir bem o seu papel ao acompanhar o passos do governo, mas tem um olhar limitado sobre o funcionamento das empresas. Existe nas redações brasileiras uma cultura de não se falar sobre empresas privadas, porque se fala-se bem é uma publicidade gratuita e se fala-se mal existe o risco de perder um anunciante. Para os meios públicos, os anunciantes não importam.

Casos de corrupção são um bom exemplo. No Brasil, o foco da mídia se concentra excessivamente no governo e raramente no corruptor ativo das empresas. Já aqui na Alemanha, o maior caso de corrupção deste ano aconteceu com o escândalo da maquiagem das emissões de CO2 dos carros a diesel da Volkswagen.

Com verba escassa para reforma e até manutenção, prédios da UFRJ se deterioram

Ludmilla De Lima 
O Globo

Só para iniciar as obras emergenciais, a instituição precisaria de R$ 25 milhões a mais no orçamento, conforme cálculos do reitor Roberto Leher

 Fernando Lemos / Agência O Globo
A Capela São Pedro de Alcântara, na Praia Vermelha

RIO - Daqui a dois anos, o Museu Nacional completa 200 anos. Como presente de aniversário, a reitoria da UFRJ pretende entregar à população o palácio, que foi residência de dom João VI, dom Pedro I e dom Pedro II, totalmente restaurado. Transformar o desejo em realidade, no entanto, é o X da questão. Com um orçamento de cerca de R$ 460 milhões este ano para manutenção e investimento na universidade, que ainda convive com o fantasma dos cortes, não só é difícil preservar seu patrimônio, como fazer o mínimo: conservar os edifícios, em especial os históricos. A UFRJ, mais antiga universidade do país, conta com 12 conjuntos tombados, como mostra o livro “Conservação e reativação do patrimônio arquitetônico universitário”, lançado mês passado. Só para iniciar as obras emergenciais de que todos eles necessitam, a instituição precisaria de R$ 25 milhões a mais no orçamento, conforme cálculos do reitor Roberto Leher.

Nesses edifícios, funcionam um quarto das unidades acadêmicas e a administração central. Alguns estão em estado crítico, como a Capela São Pedro de Alcântara, dentro do Palácio Universitário, na Praia Vermelha, inaugurado em 1852 e tombado pelo Iphan. Em março de 2011, a igrejinha foi consumida por um incêndio. Até hoje, a restauração não saiu.

As edificações da UFRJ perpassam três séculos. Os organizadores do livro — Andréa Borde, coordenadora do Laboratório de Patrimônio Cultural e Cidades Contemporâneas, do Programa de Pós-Graduação em Urbanismo da instituição, e Paulo Bellinha, vice-diretor do Escritório Técnico da Universidade (ETU) — dividem as construções tombadas e as com potencial de tombamento em três grupos: as grandes estruturas do século XIX; as pequenas estruturas dos séculos XIX e XX; e as grandes estruturas do século XX.

PROJETO SE ARRASTA DESDE 2004
Na primeira lista, estão o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), primeira construção erguida no país a partir de 1812 para abrigar disciplinas hoje de nível superior (a Academia Real Militar, base do ensino de engenharia no país), no Largo de São Francisco; o Museu Nacional; o Palácio Universitário e o prédio do atual Instituto de Atenção à Saúde São Francisco de Assis, inaugurado em 1879, na Cidade Nova. Todos são tombados pelo Iphan.

Dos prédios mais antigos, o Palácio Universitário e o São Francisco de Assis passam por uma lenta recuperação, que tenta ultrapassar as barreiras da burocracia e da falta de recursos. No caso do palácio, as discussões sobre o projeto para telhados, em situação precária, e fachadas começaram em 2004, depois de 50 anos da última reforma. Somente em 2010, conseguiu-se a verba e as obras foram iniciadas, mas logo depois ocorreu o incêndio. No fim do ano passado, os trabalhos foram retomados. Até agora, dos 14 blocos de telhados, três foram concluídos. O projeto, de R$ 17 milhões, é custeado com verba da própria universidade, que, de 2014 para cá, teve cerca de R$ 140 milhões do seu orçamento contingenciados pelo governo federal.

Fernando Lemos / Agência O Globo
O prédio da antiga Escola de Eletrotécnica, no Centro 

— Nosso esforço inicial é recuperar telhados, fachadas e a infraestrutura elétrica desses prédios. Temos um lindo teatro na Escola de Música (no Passeio), mas é inviável mantê-lo com concertos sem ar-condicionado — diz Leher, que vem propondo ao Ministério da Educação e debatendo com outros reitores a criação de um fundo fora da matriz da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior, de financiamento das universidades federais, para preservação do patrimônio histórico, por meio de chamadas públicas para projetos.

Se a ideia for para frente, o plano da UFRJ é, em dez anos, recuperar de forma ampla os prédios tombados.

— Esse patrimônio não é da UFRJ, é do país. O Museu Nacional é uma instituição que está na origem da própria ciência no Brasil — critica o reitor, que busca no BNDES verbas para o restauro do museu, um projeto de R$ 11 milhões.

A dívida atual da universidade com fornecedores chega a R$ 120 milhões.

O segundo grupo de imóveis históricos inclui edifícios como os da Faculdade de Direito, do Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, da antiga Escola de Eletrotécnica (cedido ao Iphan) e da Escola de Música. No último, por exemplo, são necessários trabalhos como as reformas da parte elétrica (incapaz de sustentar um sistema de refrigeração na sala de concertos) e de murais (como o de Ivan de Freitas na parede externa voltada para a Lapa). Há um ano, foi iniciada, com recursos próprios (R$ 1,5 milhão), a obra nos telhados e na fachada do edifício das salas de aula.

Já o terceiro grupo inclui dois edifícios modernos, não tombados, dentro da Cidade Universitária, ambos projetos premiados, de autoria do arquiteto Jorge Moreira. Um é a sede do Instituto de Puericultura e Pediatria Martagão Gesteira e o outro é o da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). Os dois estão em mau estado de conservação.

Apesar dos problemas, Andréa Borde defende o tombamento dos edifícios, que ainda não foi pedido aos órgãos oficiais. Aliás, nenhum edifício do Fundão é preservado.

— Esses são bens que, sem salvaguarda, correm risco — afirma a professora.

******* COMENTANDO A NOTÍCIA:

A reportagem comprova que não é preciso existir um “Ministério da Cultura”para tenhamos um PROJETO CULTURAL digno do nome. Durante treze anos, os governos petistas mantiveram um Ministério da Cultura estruturado para nada, ou melhor, apenas para servir de cabide de emprego para os empregos, além de repartir verbas públicas para uma elite artística. 

E, mesmo assim, não conseguiu utilizar sequer 50% da verba destinada, e do que gastou, quase metade foi consumida com os marmanjos aboletados com salários nababescos. Portanto, esta desculpa de que a verba é escassa, vale tanto quanto uma nota de 3 reais. 

Cumprisse com a missão para a qual foi criado, e o tal Ministério ao menos teria se preocupado com a recuperação e manutenção de prédios do patrimônio histórico, afora museus e bibliotecas. 

Portanto, manter estruturas inúteis serve apenas para iludir a sociedade e enriquecer os aproveitadores.   

A Justiça e os ‘blogueiros’

Editorial 
O Estado de S. Paulo 

Na mesma semana em que começou o 5.º Encontro Nacional de Blogueiros e Ativistas Digitais, em Belo Horizonte, com a presença da presidente afastada Dilma Rousseff prevista na programação, a juíza Camila Rodrigues Borges de Azevedo, da 16.ª Vara Civil de São Paulo, rejeitou uma ação de indenização impetrada por um dos blogueiros mais simpáticos à presidente afastada contra o site Consultor Jurídico, especializado em questões legais. Segundo ela, esse blogueiro “progressista” acostumou-se a misturar jornalismo e negócios, induzindo seus leitores a acreditar que publica notícias quando, na realidade, sua principal atividade é desmoralizar pessoas por encomenda de clientes, quase todos vinculados ao PT.

Os dois acontecimentos não são fatos isolados. Financiada por recursos públicos desde a ascensão de Lula à Presidência da República, em janeiro de 2003, essa rede de blogueiros e ativistas digitais converteu-se num dos principais instrumentos do lulopetismo para publicar notícias favoráveis ao governo, atacar a oposição, difamar adversários políticos, agredir moralmente repórteres e colunistas dos grandes jornais e plantar boatos. Sempre invocando as principais palavras de ordem do PT, como a “democratização da comunicação” e a “luta contra o golpismo midiático”, essa rede também promoveu campanhas de desmoralização de empresários que não se submeteram a pressões, chantagens e achaques.

As críticas dos coordenadores desse encontro ao presidente interino, Michel Temer, que determinou a suspensão do patrocínio da Caixa Econômica Federal a esse evento e ainda solicitou aos Ministérios informações sobre seus planos de comunicação para avaliar como estão sendo aplicados os recursos de publicidade do governo, mostram quão desonestas são as atividades desse pessoal. O apoio financeiro da Caixa foi autorizado por Dilma em março e a decisão foi publicada pelo Diário Oficial. Em resposta à suspensão do patrocínio, os coordenadores do encontro apresentaram-se como “jornalistas independentes” e pediram contribuições aos seus leitores. “Nós, blogueiros e ativistas digitais, produzimos uma comunicação livre de amarras mercadológicas, que aposta no jornalismo cidadão, dando voz e vez a grupos sociais que são historicamente criminalizados pela mídia tradicional, que nos cotizamos num processo colaborativo para produzir reportagens investigativas de interesse local, regional e nacional” – afirmaram.

Apesar de alegarem contar com o patrocínio de sindicatos e movimentos sociais, anunciaram que acionarão judicialmente a Caixa Econômica Federal, por “quebra de contrato”. Também alegaram que, após o encontro, exigirão o pagamento do patrocínio autorizado por Dilma, o que revela que não são tão independentes como se apresentam. Por fim, acusaram o governo Temer de ser “reacionário, fascista, criminoso, racista e misógino” e disseram que continuarão as “lutas para garantir que posicionamentos retrógrados não mais assumam espaços de poder no País”.

A justificativa para o encontro, que abre mais uma oportunidade para que o lulopetismo possa voltar a denunciar um “golpe”, foram as propostas de discutir os “desafios da democracia no Brasil”, o futuro da democracia na América Latina e as formas de “democratização da comunicação”. São temas que já foram debatidos na Conferência Nacional de Comunicação patrocinada pelo governo Lula, em 2009, da qual resultaram propostas de censura da chamada “imprensa burguesa”.

Por trás desses jargões ideológicos, o que se tem na realidade é uma máquina de difamação travestida de jornalismo independente, como a juíza da 16.ª Vara Civil de São Paulo deixou claro na sentença em que condenou o blogueiro a serviço do lulopetismo a arcar com as custas judiciais, despesas processuais e honorários advocatícios fixados em 10% sobre o valor atualizado da causa.