quarta-feira, junho 01, 2016

Feliz 2016: até esta quarta, brasileiro trabalhou só para pagar impostos

Da redação
Veja online

Tributos sugam 153 dias do ano, ou cinco meses e um dia de trabalho, segundo pesquisa. Há 30 anos, eram apenas 82 dias. Há dez anos, 145

(Germano Luders/VEJA)
 Neste ano, 41,80% de todo o rendimento que os brasileiros ganharem, 
em média, será destinado a pagar tributos

Os brasileiros trabalham 153 dias do ano, ou cinco meses e um dia, somente para pagar tributos, de acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT). Contado desde o início do ano, o prazo acaba nesta quarta-feira, 1° de junho.

A estimativa, que leva em consideração impostos, taxas e contribuições exigidos pelos governos federal, estadual e municipal, revela que os contribuintes têm de trabalhar cada vez mais para conseguir pagar impostos. Há 30 anos, em 1986, eram necessários 82 dias para pagar tributos. Em 1996, o número subiu para 100 dias. Em 2006, eram necessários 145 dias, até atingir os atuais 153 dias.

 (VEJA.com/VEJA)



Em média, os cidadãos têm que destinar 41,80% do seu rendimento bruto para pagar a tributação sobre renda, consumo, patrimônio etc. Nos anos de 2014 e 2015, o índice era de 41,37%.

"Tivemos, a partir do início do ano de 2015, uma série de aumentos de tributos, que causaram esse acréscimo de dias trabalhados pelos brasileiros somente para pagá-los, com reflexos neste ano de 2016", comentou, em nota, o presidente-executivo do IBPT, João Eloi Olenike.

No ranking dos países pesquisados, o Brasil se aproxima da Noruega, onde os cidadãos destinam 157 dias de trabalho aos tributos e de outros países europeus como Suécia (163), Alemanha (139).


 (VEJA.com/VEJA)


"No entanto, a população de lá tem um considerável retorno em termos de qualidade de vida, podendo usufruir dos serviços públicos, diferentemente do povo brasileiro, que paga muito e não tem o retorno adequado", afirma João Eloi.

Em São Paulo há um painel que mostra, em tempo real, quanto já foi pago para os governos federal, estaduais e municipais neste ano. A conta exibida no "Impostômetro" já ultrapassa 830 bilhões de reais.

Pesquisa – 
O estudo do IBPT considera a tributação incidente sobre rendimentos, formada pelo Imposto de Renda Pessoa Física, contribuições previdenciárias e sindicais, tributação sobre o consumo de produtos e serviços, como PIS, COFINS, ICMS, IPI e ISS, e tributação sobre o patrimônio, grupo que inclui IPTU e IPVA. Taxas de limpeza pública, coleta de lixo, emissão de documentos e contribuições, como no caso da iluminação pública, também são consideradas.

O levantamento foi feito por faixa de renda e considera o período de maio de 2015 a abril de 2016.

Brasil tinha 'pior governo do mundo', segundo relatório de competitividade

Veja online
Com informações Agência EFE

País aparece em último lugar nos quesitos transparência, burocracia, corrupção e condições para a entrada de capitais, que compõem ranking do Centro Mundial da Competitividade

(VEJA.com/VEJA) 
O Palácio do Planalto, em Brasília, sede do governo brasileiro; 
segundo diretor do Centro Mundial de Competitividade, 'é possível crescer, 
mas se o governo não faz seu trabalho, que é ter uma boa regulação e ser transparente, o país fracassa'

O relatório anual do Centro Mundial da Competitividade  (CMC) divulgado nesta segunda-feira evidenciou as dificuldades que a América Latina enfrenta para avançar nesse tema. O documento expressou uma preocupação especial com o Brasil, que ocupa um dos últimos lugares no ranking de países mais competitivos. O levantamento divulgado nesta segunda considerou dados de 2015, quando o país ainda era comandado pela agora presidente afastada Dilma Rousseff.

Dos 61 países que estão na classificação, liderada por Hong Kong, o Chile é o único país latino-americano que está entre os primeiros 40 colocados, em 36º - uma posição abaixo da que havia conseguido no ano passado. Os outros seis países da região mencionados no documento estão nas últimas vinte posições.

O segundo país latino-americano mais bem colocado é o México, em 45º, seguido de Colômbia (51º), Peru (54º) e Argentina (55º). O Brasil, que perdeu um posto em relação ao ano passado, aparece em 57º, e a Venezuela fecha a lista, em 61º.

"O Brasil tem neste ano o pior governo do mundo, pior que o da Venezuela, que o da Mongólia ou da Ucrânia", afirmou à agência EFE o diretor do CMC, Arturo Bris, em referência à avaliação feita no relatório sobre a eficiência dos governos.

Nesse indicador, especificou Bris, o Brasil está no último lugar entre todos os países. O país apareceu no 58º posto em 2014, passou ao 60º em 2015 e agora está em 61º, que é o último.

"O Brasil está na lanterna em transparência, burocracia, corrupção, em barreiras à entrada de capitais, à criação de empresas, pelo número de dias para criar uma empresa. É um desastre institucional", criticou o responsável pelo CMC.

Bris afirmou que o caso do Brasil mostra que o crescimento econômico "não é condição suficiente para a competitividade". "É possível crescer, mas se o governo não faz seu trabalho, que é ter uma boa regulação e ser transparente, então o país fracassa", ressaltou.

Prejuízo de gerações – 
O Brasil levará "gerações" para se recuperar, previu Bris, ao detalhar que, além dos problemas relacionados com suas instituições, enfrenta um déficit de infraestruturas físicas e carências graves em educação e serviços de saúde.

De acordo com análise que acompanha o ranking, os setores públicos dos países latino-americanos em geral são um "empecilho" para suas economias. Ainda segundo o relatório, a América Latina é uma região onde há carência das qualidades dos países que estão nas primeiras vinte posições: uma legislação favorável para os negócios e os investimentos, infraestruturas físicas e intangíveis (educação e sistemas de saúde) e instituições inclusivas.

"Atualmente, nenhuma das economias latino-americanas está perto de possuir essas qualidades da maneira necessária para progredir no ranking", comentou Bris.

Precisamos falar sobre herança

Gustavo Franco
O Globo 

Fez muito bem o Ministro da Fazenda, na verdade o presidente Michel Temer, em propor ao Congresso a alteração da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de modo a refletir as cores exatas do cenário econômico e fiscal que recebeu de Dilma Rousseff. É importante ter claro o legado da presidente afastada, inclusive para se acrescentar elementos aos julgamentos no Senado e diante da História.

O superlativo número de R$ 170 bilhões para o déficit primário no exercício de 2016, conforme aprovado na semana que passou, foi chocante e surpreendente para muitos. Mas é só um pedaço da história, e pequeno. Note-se, para começar, que este número não é bem uma meta, mas uma estimativa realista do que ocorrerá uma vez mantidas as coisas como estão. É certo que as autoridades têm o dever de buscar um número bem menor, mas é importante estabelecer com clareza o ponto de partida, e também que há muita coisa que não entra nessa conta.

Vale lembrar que, durante os dez anos anteriores a 2008, o resultado primário médio foi um superávit maior que 3% do PIB. Esta lembrança é importante para afastar a ideia de que a Constituição de 1988 teria sido culpada da deterioração fiscal recente. E também para que se tenha muito claro que foi Dilma Rousseff quem transformou um resultado positivo médio da ordem de R$ 190 bilhões (3% do PIB de 2016) em um negativo de R$ 170 bilhões.

A deterioração fiscal comandada por Dilma Rousseff foi, portanto, de R$ 360 bilhões, sendo este o tamanho do esforço fiscal que teria que ser feito hoje para colocar o país de volta na situação onde estava no período 1998-2007, quando houve crescimento, austeridade (ao menos quando medida por superávits primários) e melhoria na distribuição de renda.

São R$ 360 bilhões morro acima, só para arrumar o resultado primário. Se colocarmos na conta os juros, os números se tornam ainda mais perturbadores.

No ano de 2015, o Brasil foi o país cujo Tesouro Nacional mais pagou juros no mundo: 8,5% do PIB, contra 4,62% na Índia, 4,11% em Portugal, 4,02% na Itália e 3,61% na Grécia.

Em moeda corrente, estamos falando de R$ 502 bilhões em juros em 2015, quando o déficit primário (o resultado sem contar juros) foi de 1,88% do PIB, equivalente a R$ 111 bilhões. Assim, nesse ano, o déficit total do setor público foi de 10,38% do PIB ou de R$ 613 bilhões.

A mesma lei que recém alterou a LDO estimou o déficit nominal para 2016 em 8,96% do PIB, ou seja, R$ 579 bilhões, dentro dos quais estão os R$ 170 bilhões de que falamos logo acima. Estima-se que a conta de juros neste ano fique parecida com a do ano passado. A ver.

Tudo considerado, com este déficit nominal, a projeção para a dívida pública bruta ao final de 2016 é de 73,4% do PIB, uma alucinação. E não pense que foi só isso. Mesmo com o Tesouro entrando fortemente no vermelho, o governo resolveu fazer outros gastos fora do Orçamento, que não entram nas contas acima. Para tanto, transferiu cerca de R$ 500 bilhões para o BNDES em títulos, em várias operações. Como se a sua empresa estivesse dando prejuízo e você resolvesse se endividar para emprestar um valor correspondente à metade do seu faturamento a uma subsidiária.

Nesta semana que passou, um pedaço desse dinheiro foi devolvido, vamos ver quanto vai custar para regularizar essa operação.

Além disso, temos também as operações “anticíclicas” da Caixa e do Banco do Brasil, ordenadas explicitamente pelo governo. A quem pertencerá o prejuízo decorrente dessas atuações? Que tamanho tem essa conta? E as operações feitas com o dinheiro do FGTS?

Não seria bom ter um corte e uma análise circunstanciada do estado dessas instituições neste momento de transição e reflexão?

E as necessidades de capitalização da Petrobras, decorrentes da devastação a que foi submetida em consequência das insanidades heterodoxo-nacionalistas adotadas pelo governo afastado e da pilhagem engendrada pela quadrilha que ali se instalou?

A dívida da Petrobras cresceu a tal ponto que o fluxo de caixa descontado da empresa para o horizonte relevante de avaliação está zerado, ou pior, a depender do preço do petróleo nos próximos anos. Basta olhar os relatórios de analistas externos da empresa, todos acordes nesse terrível diagnóstico.

Isso mesmo, você não entendeu mal, a empresa está tecnicamente quebrada, funcionando da mão para a boca, um dia de cada vez, terrivelmente necessitada de um aumento de capital, ou da venda de ativos, de cortes dramáticos e providências difíceis. Uma empresa desse tamanho, ainda mais estatal, não pode entrar em recuperação judicial, não sem provocar um problema sistêmico.

Mas antes de pensar no conserto, que se registre a façanha: poucos anos depois do apogeu representado pela descoberta do pré-sal e do aumento de capital em Nova York em 2010, quando a companhia captou US$ 70 bilhões, na maior operação da espécie jamais registrada neste planeta, Dilma Rousseff conseguiu colocar a Petrobras a meio centímetro da recuperação judicial. Que portento em matéria de incompetência administrativa, imprevidência estratégica e desonestidade mesmo, esta última, inclusive, reconhecida oficialmente no balanço.

Fará bem o novo presidente da Petrobras em ter muito claras as condições da empresa no momento em que assumir as suas responsabilidades.

A mesma recomendação vale para a presidente do BNDES, para o qual já se decidiu devolver R$ 100 bilhões dos R$ 500 bilhões que recebeu do Tesouro. O banco deve ser capaz de demonstrar para onde foram os recursos, e talvez mesmo pagar o Tesouro com esses ativos. E, se houver prejuízo, que seja declarado e explicado para que as culpas pertençam a quem de direito.

Como foi acontecer uma tragédia desse tamanho?

É claro que temos que refletir muito sobre as brechas na Lei de Responsabilidade Fiscal e sobre o mau uso das empresas estatais, seja para propósitos políticos, para a corrupção, ou para simplesmente financiar e acobertar o populismo fiscal.

Mas nem por um segundo devemos esquecer que a responsabilidade pela catástrofe possui nome e sobrenome e que o Senado não estará se debruçando apenas sobre “pedaladas”, “jeitinhos” ou decretos feitos por assessores descuidados, mas sobre o maior descalabro fiscal que a história econômica brasileira registra desde, possivelmente, quando Dom João VI abandonou o país em 1821 e rapou o ouro que havia no Banco do Brasil.

E não por acidente as quedas no PIB do biênio 2015 e 2016, que se espera que atinjam 3,8% e 3,8%, ultrapassam o que se observou nos anos da Grande Depressão, 1930-31, quando as quedas foram de 2,1% e 3,3%.

É fundamental que se tenha clara a exata natureza e extensão da herança, para que as dores inerentes ao árduo trabalho de reconstrução financeira e fiscal do crédito público sejam associadas a quem produziu a doença, não ao médico.

Muito cacique

Editorial 
O Estado de São Paulo

Juntos, os Três Poderes da União têm mais de 1,12 milhão de servidores. Desse total, 30,93% exercem cargo comissionado ou função de confiança, indica recente relatório do Tribunal de Contas da União (TCU). Trata-se de um índice muito alto de discricionariedade no preenchimento das funções públicas, incompatível com a Constituição Federal, que obriga o poder público a fazer valer, entre outros, os princípios da eficiência e da impessoalidade.

O objetivo do estudo do TCU foi “identificar e avaliar riscos relativos às funções de confiança e aos cargos em comissão, assim como dar transparência acerca dos quantitativos, atribuições, requisitos de acesso e outras informações relevantes sobre o tema”. Trata-se de tema relevante, quer seja pelo histórico de um poder público inchado, com muita gente vivendo à custa do Estado, quer seja pelos 13 anos de lulopetismo, nos quais houve um deliberado aumento do número de nomeações, com o objetivo claro de aparelhar o Estado.

O estudo do TCU lembra que as funções de confiança devem ser exercidas exclusivamente por servidores ocupantes de cargo efetivo. Já os cargos em comissão – ou comissionados – são de livre nomeação e exoneração, ainda que a Constituição Federal exija a definição de porcentuais mínimos de servidores de carreira nesses postos. Com dados de julho e agosto de 2015, o levantamento analisou 278 organizações dos Três Poderes da União.

No Poder Executivo há 963.172 servidores ativos, com 33.581 cargos comissionados (3,4%) e 221.646 funcionários em funções de confiança (23%). Já o Poder Legislativo tem o maior porcentual de servidores em cargos em comissão. Para um total de 24.174 servidores, há 15.453 cargos comissionados (63,9%) e 3.743 servidores em funções de confiança (15,4%).

O Poder Judiciário, com seus 115.760 servidores, tem os maiores índices de pessoas em funções de confiança. São 55.964 (48,3%) servidores nessa situação, além de 8.525 cargos comissionados (7,3%). No Poder Judiciário é minoria quem não tem um cargo em comissão ou uma função de confiança. Tem mais cacique do que índio. Semelhante distorção foi encontrada em 65 dos 278 órgãos analisados pelo TCU.

O estudo analisou nove possíveis riscos relativos ao processo de escolha de funcionários comissionados. São eles: investidura de pessoas sem as necessárias competências, aumento de gastos com pessoal, conflito entre o interesse público e os interesses da pessoa indicada, cargos comissionados cujas atribuições não são de direção, chefia ou assessoramento, descumprimento dos porcentuais mínimos de servidores de carreira em cargos em comissão, perda de experiência em razão da transitoriedade dos cargos comissionados, não utilização de bancos de talentos ou fontes institucionais para seleção de candidatos, nepotismo e nomeação de pessoas impedidas por lei de assumir essas funções.

Esses riscos não são elucubrações – são bem reais. Ninguém nega que o bom funcionamento do poder público exija a previsão de cargos comissionados. Mas isso está longe de significar que um terço dos servidores tenha cargo comissionado ou exerça função de confiança. Além dos gastos que tais nomeações acarretam, é difícil vislumbrar eficiência num sistema tão maciçamente preenchido por escolhas pessoais, que, segundo a Constituição, devem ser exceções.

O problema não é, porém, apenas a questão da imensa quantidade desses cargos, cujo número certamente precisa ser reduzido. Como lembra o TCU, a discricionariedade envolvida na investidura de um cargo de livre nomeação e exoneração também deve se submeter ao princípio da eficiência. A livre nomeação não significa diminuição ou exclusão da exigência. Seja qual for o cargo, “os servidores públicos devem agir com qualidade, presteza e eficácia”. Aqui também está um urgente desafio.

Começa a luta pela volta à racionalidade fiscal

Editorial
O Globo

Primeiro anúncio de medidas é coerente com a imperiosidade do controle de gastos, sem o qual o país não voltará a crescer, em benefício dos próprios gastos sociais

No dia seguinte à crise anunciada decorrente da publicação de informações desabonadoras para o ministro do Planejamento Romero Jucá — a gravação de uma conspirata contra a Lava-Jato —, cujo desfecho foi a inevitável exoneração do senador, o governo Michel Temer voltou a se reequilibrar, com o anúncio das primeiras iniciativas da equipe econômica.

Enquanto Jucá fritava em público nas brasas da repercussão do vazamento dos diálogos entre ele e o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, dois alvos da Lava-Jato, Temer foi com uma comissão do governo entregar ao presidente do Senado e do Congresso, Renan Calheiros, a proposta de revisão da inexequível meta fiscal que lá deixara a presidente afastada Dilma Rousseff. Um gesto eloquente, de respeito ao Legislativo, cujo apoio ao ajuste é estratégico.

Na linha defendida pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de absoluta verdade estatística, transformar o déficit previsto para este ano de “apenas” R$ 99 bilhões para realistas R$ 170,5 bilhões — tem-se, assim, a dimensão das maquiagens contábeis praticadas na era Dilma — é o primeiro passo para se tomarem medidas concretas contra o descalabro. Para isso, Meirelles, ontem, na companhia de outros colegas de ministério — Eliseu Padilha, Geddel Vieira Lima e Dyogo Oliveira, interino no Planejamento — anunciou as primeiras ações objetivas para o novo Planalto começar a reverter o quadro de absoluta desordem fiscal.

Há iniciativas tópicas, como a devolução pelo BNDES de R$ 100 bilhões recebidos do Tesouro, de um total de R$ 500 bilhões destinados ao banco num dos momentos de maior surto de irresponsabilidade fiscal de Dilma/Mantega/Arno Augustin. Raspou-se, ainda, o Fundo Soberano, para usar R$ 2 bilhões no abatimento de dívidas, e foi defendida formalmente a mudança nas regras dirigistas e estatistas do pré-sal, para reativar os investimentos no setor de petróleo.

A fortuna que o Tesouro passara ao BNDES serviria para financiar investimentos, mas com um enorme subsídio embutido na operação, devido à diferença de taxas: o Tesouro pediu emprestado esse dinheiro pagando juros Selic (hoje, 14,5%), e o banco o repassou a taxas pela metade. A devolução do dinheiro dará alívio importante ao Tesouro (R$ 7 bilhões ao ano).

Num perspetiva estrutural, foi anunciada uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) para conter o aumento quase autônomo das despesas primárias ( todos os gastos, exclusive juros), uma das causas básicas da quebra do Estado. Todos esses gastos não aumentarão mais do que a inflação do ano anterior. Será, assim, criado o teto que Dilma rejeitou em 2005, na Casa Civil, ao lhe ser proposto por Paulo Bernardo e Antonio Palloci.

Como explicou Meirelles, de 1997 a 2015 essas despesas saltaram de 14% do PIB para 19%. Um aumento médio anual de 0,3% do PIB. Assim, não há Orçamento que possa ser equilibrado. O teto precisa ser aprovado para que, com força constitucional, o governo possa determinar o fim da indexação automática de benefícios previdenciários e sociais. Se isso vier a ser feito na reforma da Previdência, ótimo. Se não, terá de ser executado de outra maneira.

Mais um alvo desse primeiro conjunto de mudanças do governo Temer, como anunciado anteriormente, são as vinculações orçamentárias, mecanismo que, junto com a indexação, deixa as contas públicas incontroláveis. O dinheiro carimbado para Saúde e Educação também ficará sob o teto do crescimento apenas nominal das despesas.

O caráter de controle de gastos ficou evidente, como era reivindicado. Haverá grande grita das corporações e grupos políticos que se beneficiam dessas distorções. Mas não existe outro jeito de se retomar o crescimento, a fim de beneficiar os próprios programas sociais.

Governo Temer quer mudar conselhos de estatais

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Ao menos sete ex-integrantes do primeiro escalão de Dilma ocupam cargos em conselhos. Eliseu Padilha defendeu mudanças 'para ontem' para evitar 'conflito de interesses'

(Marcos Correa/AFP) 
Temer e Padilha: mudanças nos conselhos das estatais

O governo do presidente interino Michel Temer prepara uma grande reformulação nos conselhos de administração dos bancos públicos e das empresas estatais. Os conselhos - instâncias em que são tomadas as decisões estratégicas das empresas - têm em sua composição muitos representantes do governo da presidente afastada Dilma Rousseff. Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, revelou que o objetivo das mudanças é evitar "conflito de interesses".

Na visão do ministro, as pessoas que ocupam esses postos, indicadas pelo governo anterior, certamente contestarão as propostas administrativas do novo governo. Padilha evitou usar o termo "devassa" para classificar a atuação da gestão Temer nas empresas estatais, no Banco do Brasil, na Caixa Econômica Federal e em outros bancos públicos. "Essa palavra soa mal. Penso que tem de se fazer uma análise, uma auditoria", disse, acrescentando que "a orientação do presidente Michel é que não haja caça às bruxas". E emendou: "Nós não estamos procurando pessoas; estamos procurando solução do ponto de vista da gestão".

Padilha não citou casos específicos nem nomes de conselheiros. Mas, uma busca em dados de empresas controladas pelo governo mostra ao menos sete integrantes do primeiro escalão da gestão Dilma: o ex-ministro Jaques Wagner (Casa Civil) e o assessor especial da Presidência Giles Azevedo, no conselho da hidrelétrica de Itaipu; os ex-ministros Luís Inácio Adams (Advocacia Geral da União) e Waldir Simão (Planejamento), ambos nos conselhos da Brasilprev e da Brasilcap, duas coligadas do Banco do Brasil; os ex-ministros Aloizio Mercadante (Educação) e Edinho Silva, na BB Mafre, empresa de seguros do BB, e Miguel Rossetto (Trabalho), no BNDES. O ex-governador do Rio Grande do Sul Alceu Collares, Maurício Requião, filho do ex-governador do Paraná Roberto Requião, e Roberto Amaral, que ocupou o ministério de Ciência e Tecnologia no governo Lula, também integram o conselho de Itaipu.

Pela Lei das Sociedades Anônimas (S/A), há três formas de retirar conselheiros de administração em empresas de capital aberto: fim do mandato (usualmente de dois anos, com possibilidade de prorrogação), renúncia ou destituição em assembleia geral de acionistas.

Ao defender as mudanças nos conselhos, Padilha explicou que irá buscar um alinhamento dos conselheiros. Para ele, a gestão do governo deve ser feita "com pessoas que queiram que a proposta seja adotada e não com quem a conteste diametralmente". O ministro defendeu rapidez nas mudanças. "Em tendo havido uma mudança no governo e uma mudança de orientação do governo, é obvio que estas substituições deveriam ter acontecido ontem", afirmou. "Como não deu para acontecer ontem, de hoje em diante é obvio que têm de acontecer, porque senão teremos um conflito de interesses dentro do órgão, o que é inadmissível."

Ao ressaltar a necessidade de substituição dos conselheiros, Padilha lembrou o enfrentamento que ficou claro entre o governo anterior e o novo, em todas as esferas. "Haja vista o debate que se estabeleceu ontem na Câmara. Se as pessoas que hoje estão nestes conselhos representam aquela posição que foi expressa no debate de ontem, dentro do Parlamento, é obvio que essas substituições já deveriam até ter sido feitas", observou o ministro.

Questionado sobre o risco de judicialização, já que a função de conselheiro tem mandato definido, Eliseu Padilha respondeu: "Não vou discutir direito adquirido de ninguém. Vou tomar as providências que entendo defender os interesses do Estado brasileiro. Se isso derivar em alguma demanda judicial, estamos preparados para enfrentá-la".

Recentemente foi aberto um questionamento jurídico em mudanças determinadas pelo governo na Empresa Brasileira de Comunicação (EBC). Em meio a uma intervenção do Planalto, o presidente Ricardo Melo, eleito para o período de quatro anos pelo conselho da empresa, foi demitido. Melo, que havia sido empossado dois dias antes da saída de Dilma, está recorrendo ao Supremo Tribunal Federal (STF).

O ministro disse que não está definido ainda por qual conselho devem ser iniciadas as mudanças. Disse apenas que algumas já foram feitas e que outras virão.

Novo comando da Caixa estuda fechar agências deficitárias

Exame.com
Murilo Rodrigues Alves, Estadão Conteúdo

Andrevruas/Wikimedia Commons 
Agência da Caixa: desde 2010, 
a Caixa abriu 1.329 agências

Brasília - O novo presidente da Caixa Econômica Federal, Gilberto Occhi, encontrará um diagnóstico que mostra como o banco estatal precisa melhorar a eficiência operacional.

Uma centena de agências estão deficitárias, ou seja, fecham no vermelho, mas, mesmo assim, a vice-presidência que cuida da rede do banco recomendou o fechamento de apenas 15 delas que estão totalmente inoperantes.

A Caixa foi usada nos últimos anos pelo governo do PT como locomotiva do crédito no País, estratégia para impulsionar a atividade econômica. Dessa forma, a instituição conseguiu aumentar sua participação no mercado, mas essa expansão do crédito também provocou efeitos colaterais, como o aumento do nível de calotes do banco.

O alto número de agências deficitárias também é consequência dessa política. Desde 2010, a Caixa abriu 1.329 agências. A análise da direção do banco é que não se faz mais necessária toda essa estrutura, ainda mais com a mudança dos hábitos dos clientes, que cada vez mais optam pelos serviços pelo computador ou pelo smartphone.

No primeiro trimestre deste ano, a quantidade de usuários cadastrados para acesso via smartphones aumentou quase 63% em relação ao primeiro trimestre de 2016 e a de usuários via internet banking cresceu 20% na mesma comparação. Mesmo assim, a quantidade de transações online ainda representa menos de um quarto do total de transações realizadas no período. Um dos desafios do novo presidente será ampliar a presença do banco no meio digital.

Um empecilho para o fechamento das agências é que são usadas para o pagamento de benefícios sociais, como o Bolsa Família, mas a avaliação é de que esse serviço poderia ficar restrito às casas lotéricas. O banco tem atualmente 4,2 mil agências e pontos de atendimento e 26,5 mil correspondentes Caixa Aqui e Lotéricos.

O jornal O Estado de S. Paulo apurou que Gilberto Occhi já está avaliando esse estudo e tem intenção de colocá-lo em prática, mas quer avaliar o potencial de rentabilidade de cada agência e onde estão localizadas.

Redução de pessoal
O banco também deve manter a política de redução de custos com pessoal, com planos de demissão e de incentivo à aposentadoria. A Caixa cortou o número de funcionários de 100,3 mil para 97 mil em 12 meses.

No período, a despesa com pessoal cresceu 1,6%, bem abaixo da inflação, totalizando R$ 5 bilhões. A instituição está buscando ações para reduzir gastos e aumentar a produtividade.

Ao assumir a Caixa, Occhi também receberá o desenho de um caminho para a abertura de capital do banco estatal ainda no governo do presidente em exercício Michel Temer. Para que uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) seja possível daqui a dois anos, o banco estatal teria de privatizar antes três áreas: seguros, loterias e cartões.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Gastos com a EBC chegam a R$ 3,6 bilhões desde sua criação

Paulo Celso Pereira e  Eduardo Bresciani
O Globo

Novo governo quer enxugar gastos e priorizar prestação de serviços

André Coelho/Agencia O Globo/31-10-2011
Tereza Cruvinel, ex-presidente da EBC:
 foi preciso investir em equipamentos 

BRASÍLIA— O projeto de transformar a Empresa Brasileira de Comunicação (EBC) em uma instituição pública de comunicação chega ao fim depois de consumir mais de R$ 3,6 bilhões de recursos diretos do Orçamento do governo federal nos últimos oito anos, conforme levantamento feito pela assessoria técnica do DEM, a pedido do GLOBO. Os planos do governo interino de Michel Temer para a EBC são menos ambiciosos: o foco é enxugar os gastos e dar prioridade à prestação de serviços aos cidadãos.

— A ideia é cortar custos de forma radical — resumiu um assessor de Temer.

Em 2008, primeiro ano da EBC, foram gastos R$ 201 milhões do Orçamento, e despesas de R$ 109 milhões ficaram para serem quitadas nos anos seguintes. Em 2007, ano em que a nova empresa foi criada, o governo tinha reservado no Orçamento R$ 220 milhões para a Radiobras, antecessora da EBC, mas os pagamentos realizados naquele ano foram de R$ 115 milhões.

DESPESAS EM ALTA
Os gastos com a EBC foram subindo até chegar a R$ 482 milhões em 2010. Nos primeiros anos do governo Dilma Rousseff houve um recuo de cerca de 10% nas despesas, mas os gastos logo voltaram a subir e chegaram a R$ 547,6 milhões em 2015. Até o dia 18 de maio deste ano, já foram pagos R$ 226,3 milhões. O cálculo de gastos totais de R$ 3,6 bilhões, em valores nominais, não leva em conta os recursos que a EBC recebe pela prestação de alguns serviços e patrocínios de empresas públicas.
O número de funcionários da empresa saltou de 1.629 em 2007 para 2.615 em abril deste ano — um aumento de 60,5%.

A nova gestão afirma que somente nos primeiros cálculos já identificou um déficit de R$ 60 milhões nas contas deste ano. Os primeiros cortes miraram contratos de pessoas identificadas com o projeto anterior. Recém-contratado nas últimas semanas da gestão Dilma, o jornalista Sidney Rezende já foi dispensado. Os gastos com Sidney e sua equipe chegariam a R$ 100 mil mensais. A EBC informou que suspendeu ainda sete contratos que, somados, totalizariam R$ 3 milhões por ano, de profissionais como Luís Nassif, Paulo Moreira Leite, Emir Sader e Tereza Cruvinel — esta ex-presidente da EBC.

Para iniciar o novo projeto, o presidente interino Michel Temer trocou Ricardo Melo, nomeado (em um dos últimos atos de Dilma) para presidir a empresa por quatro anos, por Laerte Rímoli, que atuou na campanha presidencial do tucano Aécio Neves em 2014 e assessorou Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Presidência da Câmara. Em redações, Rímoli foi repórter nas sucursais de Brasília de O GLOBO, “Folha de S.Paulo”, “O Estado de S. Paulo” e “Veja”, além de ter ocupado cargos de direção na rádio CBN, na TV Globo e na TV Bandeirantes.

Melo recorreu na Justiça. Recebido com desconfiança, Rímoli ganhou pontos com funcionários ao nomear três servidores de carreira como diretores. Entre eles Lourival Macedo, novo diretor de Jornalismo. Também são servidores de carreira os novos diretores da Agência Brasil e da Rádio Nacional. A nova direção prometeu ainda preencher com servidores 70% das funções de comando.

PARCERIAS SERÃO REVISTAS
Dentro do projeto de reformulação serão reavaliadas parcerias com a TV venezuelana Telesur, assim como a aquisição de programas estrangeiros. Passará também por análise de viabilidade a transmissão de partidas de futebol. No ano passado, a TV Brasil exibiu as Série C e D do Campeonato Brasileiro. O modelo em que a nova TV Brasil vai se espelhar é o da TV Cultura de São Paulo, que também vem sofrendo cortes de orçamento.

O plano de fazer da EBC uma grande empresa de comunicação surgiu no segundo mandato do ex-presidente Lula. Em 2007, Lula dizia que audiência não era o objetivo principal, e sim criar uma programação de qualidade, que as pessoas fossem “querer assistir”. Ao longo de oito anos, porém, a TV Brasil não conseguiu conquistar muito público. Segundo o Ibope da primeira semana de maio, apenas dois programas registraram um ponto de audiência: um filme de Mazzaropi de 1969 e um documentário sobre o Rio Reno, de uma produtora britânica independente. Levando em conta a audiência média diária, a TV nunca sai do traço.

Primeira presidente da EBC e uma das idealizadoras do projeto, a jornalista Tereza Cruvinel ressalta que a folha salarial desde 2008 já superava os R$ 100 milhões. Diz que a estrutura era precária quando assumiu a função e que, por isso, foram necessários investimentos em equipamentos, além da construção de sede com novos estúdios. Destaca que cerca da metade do orçamento é gasta com a produção de programas oficiais, como os da TV NBR e da Voz do Brasil.

— Foi um erro deixar na mesma empresa os serviços para o governo e os de comunicação pública. Se um dia for ressuscitado esse projeto, defenderei que não se misture jamais. Disseram-me que essa nova diretoria quer extinguir a Diretoria de Serviço. Seria um gesto definitivo do abandono do projeto, e teriam até de mudar a lei para isso — diz Tereza.

Tereza deixou o cargo de presidente em 2011, mas apresentava um programa semanal na emissora, pelo qual recebia R$ 12 mil mensais. Para ela, o rompimento de seu contrato não se deu por motivos econômicos, mas por seu posicionamento crítico à gestão Temer.

Ela diz que a missão desse tipo de veículo não é lutar por audiência, mas oferecer produtos que sejam “complementares” aos exibidos por televisões comerciais e estatais, e destacou a exibição de programas para pessoas com deficiência, de música erudita, variedade de programação infantil e parcerias com produtoras independentes. Para ela, os recursos públicos destinados foram um bom investimento.

— Não é um gasto excessivo, um desperdício ou irrelevante. Comunicação pública é importante e merece ter investimento — defende.

Se teto para gastos for aprovado, país sairá de déficit ‘naturalmente’

Bárbara Nascimento
O Globo

Carlos Hamilton, da Secretaria de Política Econômica, defende controle das despesas

Givaldo Barbosa / O Globo
Anos de crise. Carlos Hamilton diz que em recessão é provável que haja déficit 

BRASÍLIA - Se conseguir aprovar no Congresso Nacional a proposta de emenda à constituição (PEC) que estabelece um teto para o gasto público, a equipe econômica deve deixar de lado o regime de metas fiscais que vigora atualmente e que tem sido constantemente desrespeitado nos últimos anos. Em entrevista ao GLOBO, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Carlos Hamilton, foi categórico ao dizer que não há motivos para que as duas políticas vigorem ao mesmo tempo.

Segundo ele, a ideia é que o governo volte a realizar superávits primários “em algum momento nos próximos anos”, à medida que conseguir controlar os gastos. Hamilton defendeu ainda as mudanças propostas para o mínimo constitucional da saúde e da educação. A ideia do governo é deixar de vincular os repasses obrigatórios para essas rubricas à receita, como ocorre hoje, e atrelá-los à variação da inflação.

Ele enfatizou que os repasses para essas áreas não ficarão menores, uma vez que o Congresso tem a prerrogativa de aumentar os valores considerando necessidades específicas e o crescimento populacional.

Caso a PEC seja aprovada, o governo pretende abrir mão de fixar uma meta de resultado primário?
Você não pode ter duas metas fiscais. O objetivo fiscal (estabelecido na PEC) é que a despesa de cada ano seja igual à do ano anterior mais a inflação, no máximo. Essa é uma meta. E o que vai acontecer com a questão do superávit? Naturalmente, à medida em que essa meta vá sendo alcançada ao longo do tempo, ano a ano, nós vamos sair de um déficit que nós temos este ano, estimado na faixa de 2,8% do PIB, que são os R$ 170 bilhões, e passar para um superávit em algum momento nos próximos anos. O superávit primário vai acontecer como consequência do atingimento desse limite de crescimento para a despesa pública. Então não dá para fixar uma meta para superávit primário e outra para despesa. Não dá. Seria mais ou menos como se o BC fixasse uma meta para câmbio e outra para a inflação. Só dá para ter uma. Em algum momento no passado o BC já teve um controle de taxa de câmbio e a inflação era a que desse. E hoje ele não tem mais. Ele tem uma meta para a inflação. E o câmbio é o câmbio que der, embora as coisas estejam entrelaçadas, tenha uma correlação. Então vale um raciocínio semelhante para nós agora. Tem esse limite para o crescimento da despesa e ao longo do tempo, à medida em que esse limite vá sendo observado, naturalmente esse déficit que a gente tem hoje vai se transformar em superávit.

Como funcionaria o mecanismo do teto para o gasto em anos de crise, em que não há crescimento real da despesa, como ocorreu em 2014 e 2015?
O limite de crescimento é esse aí, se for aprovado pelo Congresso. Caso o Congresso aprove a PEC – e nós esperamos que isso aconteça -, você terá um limite de crescimento para a despesa. O que não significa que o Congresso vá necessariamente todo ano aprovar o crescimento da despesa igual a esse limite. Tem que ver o que o Congresso vai aprovar.

Mas como a receita não cresce de forma real e o gasto tem autorização para variar até o limite da inflação, não haveria necessariamente um déficit em anos de crise?
Necessariamente não, mas é provável que isso ocorra.

Até que ponto é viável, em longo prazo, atrelar o mínimo para saúde e educação à variação da inflação, à medida que temos um crescimento vegetativo da população e um envelhecimento populacional também crescente.
Não é correto falar que o limite para as despesas com educação e saúde vai diminuir. Isso não é verdade. O limite para gastos com educação e saúde não vai cair. Isso é a verdade. O que essa PEC está propondo é que, em termos reais, os gastos com educação e saúde não vão diminuir. O que pode acontecer da forma como é hoje. Se a receita cai muito, como os gastos com educação e saúde são vinculados a um percentual da receita, eles podem cair de um ano para o outro. Aqui está dizendo que o piso não vai cair.

Mas, em função desses fatores, o gasto per capita com saúde e educação não vai cair? Como o governo vai equacionar essa conta?
Não é possível afirmar isso. O que a PEC está fixando é um mínimo. O quanto vai ser gasto em saúde e educação é o Congresso Nacional que define a cada ano. Respeitado os limites de crescimento de todas as despesas – que obedece o ano anterior mais a inflação – o Congresso Nacional, na elaboração do Orçamento é que vai decidir quanto vai ser gasto em educação e saúde. E evidentemente que os parlamentares vão levar em conta o tamanho da população e as necessidades. Não é correto que ao longo do tempo a despesa per capita com educação e saúde vai diminuir. O que está sendo fixado é o mínimo. A PEC está dizendo que, em termos reais, o gasto com educação e saúde não vai diminuir. Num ano como 2014 e 2015, em que a economia caiu 4%, se a PEC estivesse em vigência as despesas com educação e saúde não teriam diminuído. Não se pode dizer, a partir do que está escrito na proposta, que os gastos com educação e saúde per capita vão diminuir ao longo do tempo. Isso quem vai decidir é o Congresso a cada ano.

Para elaborar o Orçamento de 2017, a equipe econômica vai contar com a aprovação da PEC? Caso contrário, teríamos, necessariamente, um déficit.
Nós vamos ter que aguardar o Congresso, precisamos ver o que o Congresso vai dizer. O Congresso é soberano.

Só 4 entre 61 países perdem do Brasil em competitividade

João Pedro Caleiro
EXAME.com 

Germano Lüders / EXAME 
Terminal de grãos: infraestrutura e produtividade 
atrapalham a competitividade brasileira

São Paulo – O Brasil caiu uma posição e ficou no 57º lugar entre 61 países na última edição do ranking de competitividade da escola de negócios suíça IMD, divulgado hoje.

É nossa pior posição desde que o ranking começou a ser publicado em 1989. A perda acumulada é de 19 posições desde 2010, quando o Brasil teve seu melhor resultado: 38º.

O Brasil está na frente apenas de 4 países: Croácia, Ucrânia, Mongólia e Venezuela. Neste ano fomos ultrapassados pela Argentina, que subiu 4 posições e ficou em 55º. Em 36º, o Chile é a única economia latino-americana que não está entre os 20 últimos.

“Esse ano pode ter tido a influência de vários fatores, mas o cenário é de declínio constante”, diz José Caballero, pesquisador-sênior do Centro de Competitividade Mundial do IMD.

O estudo considera 340 critérios em 4 pilares: performance econômica, eficiência do governo, eficiência dos negócios e infraestrutura.

Um terço da pontuação vem de uma pesquisa de percepção de executivos, realizada no Brasil pela Fundação Dom Cabral entre janeiro e abril com mais de 200 respondentes.

A má posição do país reflete ao mesmo tempo pioras objetivas pontuais, a perda de espaço relativo na corrida com outros países e também um período interno longo de incerteza e falta de confiança.

“O ano passado foi a primeira vez que o Brasil recuou de nota em relação a si mesmo, e os outros países não estão parados nos esperando”, diz Carlos Arruda, professor da FDC e coordenador do estudo no Brasil.

Na contramão de uma Ásia com declínio relativo de competitividade, Hong Kong lidera o ranking desbancando os Estados Unidos, que caiu para terceiro. Em segundo está a Suíça.

O top 10 é Hong Kong, Suíça, Estados Unidos, Singapura, Suécia, Dinamarca, Irlanda, Holanda, Noruega e Canadá.

Performance Econômica
O Brasil ficou na 55ª posição em "Performance Econômica", uma queda de 25 posições em relação ao seu melhor momento (30º lugar em 2011).

Isso foi um reflexo do cenário dramático da economia brasileira no ano passado, com queda do PIB de 3,8%, inflação de dois dígitos e desemprego em disparada (item que foi de 14º para 43º no ranking geral).

A formação bruta de capital fixo caiu 15 posições e ficou em 59º enquanto a despesa de consumo das famílias despencou 52 degraus.

Por seu tamanho, o Brasil se beneficia em critérios de números absolutos, tais como investimento estrangeiro direto e escala do mercado de trabalho.

Eficiência do Governo
O Brasil ficou em último no pilar “Eficiência do Governo”, com a penúltima posição em critérios como custo de capital, transparência, burocracia, barreiras tarifárias, déficit do governo, regulações de trabalho, finanças públicas e spread de juros.

O cenário de crise ética e institucional pelos olhos do empresariado pode ser vislumbrado claramente: também somos penúltimo lugar mundial em percepção de "transparência" e "propina e corrupção".

Também houve piora sensível no item “risco de instabilidade política” (a pesquisa foi feita durante o desenrolar do impeachment) ao mesmo tempo em que melhorou a percepção de "Justiça".

De acordo com Arruda, isso é fruto de "Operação Lava Jato direto e da percepção nas empresas de que o Judiciário está operando de forma mais independente e eficiente”.

Eficiência dos Negócios
O Brasil chegou a 27ª posição no pilar de Eficiência de Negócios em 2012, mas foi caindo até chegar ao 51º lugar em 2015, onde continuou em 2016.

Isso é reflexo de notas baixas em itens que medem produtividade, práticas corporativas e habilidades da força de trabalho.

“Para competir em uma economia baseada em conhecimento, você precisa ter esse tipo de fundamento, e o que mais me preocupa no Brasil é a capacidade de inovar. As empresas precisam ser flexíveis e ter estratégias que possam mudar dependendo do momento, além de trabalhadores com habilidades particulares”, diz Caballero.

O crescimento real da produtividade brasileira caiu 12 posições em um ano, de 48º para 60º. A produtividade das companhias e dos trabalhadores continuou na mesma posição: 60ª e 58ª, respectivamente. 

Infraestrutura
Na parte de infraestrutura, o Brasil ganhou 7 posições. Parte disso vem da melhora de alguns indicadores, como a infraestrutura aeroportuária e de acesso à água após a seca de 2014.

Também levamos vantagem na nossa porcentagem de energia que vem de fontes renováveis, mass mudanças metodológicas tiveram impacto importante.

O investimento em telecomunicações, por exemplo, era calculado pela porcentagem do PIB e passou a ser medido pelo gasto de capital agregado, o que favorece países com grande volume.

O Brasil está bem posicionado no nível total de gasto público em educação (9º lugar) e de gasto em saúde (12º lugar), mas patina na nota do sistema educacional (59º) e na infraestrutura de saúde (60º).
De acordo com os pesquisadores, isso revela que o país não aplica os recursos que tem de forma correta e eficiente.

"Isso me diz que o investimento está sendo feito de forma errada. O Brasil precisa de políticas claras e consistentes e de consenso social sobre para onde quer caminhar", diz Caballero.

Desemprego no Brasil sobe a 11,2% no trimestre até abril

Exame.com
Com informações Estadão Conteúdo.


Desemprego: taxa no trimestre até abril foi de 11,2%, 
maior do que a do trimestre até março, que tinha sido de 10,9%

Rio de Janeiro - A taxa de desocupação no Brasil ficou em 11,2% no trimestre encerrado em abril de 2016, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) divulgados nesta terça-feira, 31, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Foi o pior resultado da série histórica da pesquisa, iniciada em 2012, mas veio dentro das expectativas dos analistas ouvidos pelo AE Projeções, que estimavam uma taxa de desemprego entre 10,90% e 11,50%, com mediana de 11,10%.

Em igual período do ano passado, a taxa de desemprego medida pela Pnad Contínua estava em 8,0%. No primeiro trimestre deste ano, o resultado foi de 10,9%.

A renda média real do trabalhador foi de R$ 1.962 no trimestre até abril de 2016. O resultado representa queda de 3,3% em relação ao mesmo período do ano anterior.

A massa de renda real habitual paga aos ocupados somou R$ 173,3 bilhões no trimestre até abril, queda de 4,3% ante igual período do ano anterior.

Desde janeiro de 2014, o IBGE passou a divulgar a taxa de desocupação em bases trimestrais para todo o território nacional.

A nova pesquisa substitui a Pesquisa Mensal de Emprego (PME), que abrangia apenas as seis principais regiões metropolitanas, e também a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) anual, que produz informações referentes somente ao mês de setembro de cada ano.

******

Em três meses, mais 1,8 milhão pessoas ficam desempregadas

Marcelo Loureiro
O Globo

A piora do mercado de trabalho é brutal. No trimestre até abril, o número de pessoas que procuram uma ocupação e não encontram chegou a 11,4 milhões. Chama a atenção a quantidade de trabalhadores que entraram nessa situação. Na comparação com o período encerrado em janeiro, a alta foi de 18,6%, estima o IBGE. Nesses três meses, mais 1,8 milhão de brasileiros engrossaram o contingente de desempregados. A taxa, no mesmo período, subiu de 9,5% para 11,2%.   

A comparação com o resultado do ano anterior também impressiona. A quantidade de brasileiros desempregados cresceu 42,1%. São mais 3,4 milhões de trabalhadores no contingente de desocupados. Com a atividade ainda sem sinais de retomada, as perspectivas para o mercado de trabalho infelizmente não são positivas.    

PIB encolhe 0,3% no 1º tri, queda menor que a esperada

João Pedro Caleiro
EXAME.com 

Alexandre Battibugli/Exame

São Paulo - O PIB do Brasil recuou 0,3% no 1º trimestre de 2016 em relação ao 4º trimestre de 2015, de acordo com dados divulgados hoje pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O PIB começou a registrar contração no início de 2015, então este foi o quinto trimestre consecutivo de queda, mas a queda foi menor do que no trimestre anterior (-1,4%).

O número também veio melhor do que o que estimado pela pesquisa da Reuters (-0,8%) e por instituições financeiras como o Itaú Unibanco (-0,8%) e o Banco Fibra (-1,1%).

O dólar reagiu com queda e às 9:13 recuava 0,28%, a 3,6023 reais na venda.

"Foi um bom resultado até e dá uma perspectiva positiva para o segundo trimestre. A saída da presidente deve melhorar os dados de maio e junho, levando eventualmente os números na margem para o terreno positivo já nesse semestre, quando imaginávamos que isso fosse acontecer mais para o final do ano", diz Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, que já está revendo suas projeções.

Na comparação com o mesmo trimestre do ano passado, a queda foi de 5,4%, a oitava consecutiva. Na comparação do acumulado dos últimos 4 trimestres em relação aos 4 trimestres anteriores, foi de 4,7%.

Na base trimestral, a agropecuária caiu 0,3%, a indústria recuou 1,2% e os serviços contraíram 0,2%.
Houve queda forte em setores como extração mineral (-1,1%), construção (-1%) e comércio (-1%) e resiliência de setores como eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana (+1,9%).

O investimento teve seu 13º trimestre consecutivo de recuo e o consumo das famílias caiu pelo 5º trimestre consecutivo, enquanto o consumo do governo voltou a subir. 

As exportações subiram 6,5% enquanto as importações caíram 5,6%. Na comparação com o mesmo período de 2015, os resultados foram de 13% e -21,7%, respectivamente.

Período de comparação
PIB
1º Tri 2016 / 4º tri 2015
-0,3%
1º Tri 2016 / 1º Tri 2015
-5,4%
Acumulado 4 tri / 4 tri anteriores
-4,7%
Valores correntes no ano (R$)
1.473,8 bilhões


Período de comparação
Agropec.
Indústria
Serviços
1º Tri 2016 / 4º tri 2015
-0,3%
-1,2%
-0,2%
1º Tri 2016 / 1º Tri 2015
-3,7%
-7,3%
-3,7%
Acumulado 4 tri / 4 tri anteriores
-1,0%
-6,9%
-3,2%
Valores correntes no ano (R$)
88,5 bilhões
257,6 bilhões
913,9 bilhões


Período de comparação
Investimento
Cons. Fam.
Cons. Gov.
1º Tri 2016 / 4º tri 2015
-2,7%
-1,7%
1,1%
1º Tri 2016 / 1º Tri 2015
-17,5%
-6,3%
-1,4%
Acumulado 4 tri / 4 tri anteriores
-15,9%
-5%
-1%
Valores correntes no ano (R$)
249 bilhões
946,6 bilhões
282,8 bilhões