quarta-feira, junho 29, 2016

O novo nacionalismo veio para ficar

 Simon Toubeau (*)
O Globo

O que temos assistido com a ascensão do euroceticismo é à explosão de uma forma robusta do nacionalismo populista

 Juergen Schwarz / AP
Ato contra refugiados na Alemanha: a questão
 é uma das usadas por partidos nacionalistas 

É uma trágica ironia que a União Europeia — originalmente construída para acalmar os impulsos nacionalistas do século XX — esteja hoje por trás do ressurgimento de tais sentimentos em grande parte da Europa. O referendo que emitiu um voto para o Brexit é a mais recente e dramática indicação de que esse novo nacionalismo veio para ficar.

Tal nacionalismo foi construído em grande parte como reação à forma como a UE tem evoluído ao longo das últimas décadas. O que começou como um mercado comum cresceu para abraçar uma moeda única, o Espaço Schengen e a integração no domínio da Justiça e assuntos internos. Tudo isso diluiu aspectos centrais da soberania nacional: Estados têm menos controle sobre a política macroeconômica, fronteiras e pessoas.

A União Europeia tornou-se mais ampla ao incorporar a Europa Central e Oriental. A inclusão de 12 novos Estados-membros, com histórias, estruturas econômicas e tradições democráticas distintas tornou o processo de tomada de decisões ainda mais complicado. Ao mesmo tempo, essa situação fez a política da UE menos sensível à opinião pública. Essas transformações têm sido inquietantes para os eleitores em certos países — como o Reino Unido.

Mas o que temos testemunhado no Reino Unido é parte de uma mudança muito mais ampla nas atitudes públicas em relação à UE do que os analistas têm chamado de “consenso permissivo” para um “desacordo constrangedor”. No passado, os líderes europeus discretamente perseguiram a integração em áreas como a agricultura, e o público deu pouca atenção a isso. Mais recentemente, porém, os líderes têm procurado tomar decisões coletivas em áreas como comércio de serviços, sistemas bancários e asilo político. Mas eles têm que ter em mente que eleitores em casa são mais propensos a prestar mais atenção e a serem céticos.

Esse ceticismo fortalece a percepção de que a União Europeia é responsável pelo mal-estar sentido por muitos eleitores europeus. Isolamento econômico e reestruturação industrial, austeridade e privatizações, desemprego e insegurança no trabalho, medo da imigração. Tudo alimenta os sentimentos negativos que as pessoas têm sobre a UE.

O euroceticismo é encontrado nos extremos do espectro político. À esquerda, os eleitores e os partidos veem a UE como um enredo neoliberal. Ela existe apenas para servir às grandes empresas que fazem lobby em Bruxelas para uma legislação favorável. Para a direita, a UE é um gigante burocrático que impõe a regulamentação excessiva e ameaça as identidades nacionais antigas, incentivando a migração laboral. Quando esses dois pontos de vista se fundem, como acontece na base política do Partido da Independência do Reino Unido (Ukip), eles são fortemente tóxicos.

O Ukip é apenas um dos muitos partidos desse tipo. Retóricas e padrões de apoio político semelhantes colaboram para o sucesso de outras legendas também. A Frente Nacional na França, os Novos Democratas da Suécia e o Partido dos Finlandeses acompanharam de perto os eventos no Reino Unido.

Alguns têm mesmo clamado por seus próprios referendos, Frexit ou Swexit após Brexit. Outros adequam o seu euroceticismo para atender às idiossincrasias locais. Tome, por exemplo, as plataformas do Partido da Liberdade da Holanda, virulentamente anti-islâmico, ou a ação violenta promovida pelo Aurora Dourada, da Grécia.

Mas, em todos os casos, o que temos assistido com a ascensão do euroceticismo é à explosão de uma forma robusta do nacionalismo populista. Ele vai durar porque mapeia e reforça a culpa de linhas sociais existentes.

Mais importante: ele depende da existência de divisões entre os vencedores e os perdedores da globalização no século XXI. Ele prospera sobre as diferentes experiências dos poliglotas viajados que trabalham em profissões altamente qualificadas e os mirrados indivíduos deixados para trás pelas transformações econômicas globais.

Se trabalham em empregos de baixa remuneração nas cidades portuárias de Essex ou reivindicam benefícios de desemprego em Lille, aqueles deixados para trás compartilham um sentimento comum de desespero e frustração que rende uma rejeição visceral de corpos estranhos.

Em certos países, como a Polônia e os nórdicos, divisões sociais e ideológicas também se transformam em geográficas. Moradores patrióticos da zona rural veem seus vizinhos metropolitanos — e seus valores liberais — com suspeita.

E, na ausência de uma alternativa socialista crível para protegê-los, muitos se voltaram para o instinto mais básico de solidariedade com a etnia nativa e dominante: o inglês, o francês, o alemão. Em todos os países, o que sustenta esse nacionalismo é o agrupamento de indivíduos com interesses econômicos de esquerda e valores conservadores que divergem tremendamente do padrão dominante.
Assim, quando estes sentimentos são agrupados por atores políticos empresariais, tais como o Ukip, ganha-se um sabor político que faz lembrar o nacionalismo do passado. Mantém uma visão da História do país que glorifica o controle democrático nacional e defende um retorno reacionário ao passado, não importem os custos econômicos.

É sinceramente anti-intelectual, oferece soluções fáceis para problemas complexos, prefere o que chama de “fala franca” a uma dicção bem articulada, e é totalmente sem remorso em seu desdém.

A principal diferença é que, em contraste com o passado, a democracia é agora o único jogo. Os sistemas em que esses partidos nacionalistas operam são (relativamente) estáveis e a rotatividade geracional deveria conduzir à predominância de valores liberais, sugerindo que existe um limite para o conjunto de apoio.

Contudo, mesmo que as instituições democráticas em si não estejam em questão, a democracia atualmente oferece o mecanismo pelo qual esses partidos nacionalistas podem contaminar as plataformas de outras legendas tradicionais. Eles podem exercer pressões competitivas durante as eleições locais, nacionais e europeias, obrigando os partidos maiores a mudarem suas promessas políticas, na tentativa de evitar a perda de eleitores.

Então, a menos que significativas reformas econômicas e sociais internas enfrentem as divisões agudas sobre as quais esse nacionalismo populista se apoia, isso persistirá num futuro próximo. E a menos que a UE possa gerir suas instituições com maior legitimidade democrática, isso vai continuar a incitar a ira populista. Os eleitores precisam ser capazes de se identificar com as pessoas que tomam decisões em seu nome.

O Reino Unido pode ser o primeiro país a sair da UE, mas pode não ser o último. O novo nacionalismo europeu está aqui para ficar.

(*) Simon Toubeau é professor da Escola de Política e Relações Internacionais da Universidade de Nottingham. Este artigo foi originalmente publicado em “The Conversation” (http://theconversation.com)

Depois da comédia de erros, forças se mobilizam no Reino Unido para permanecer na União Europeia

Reinaldo Azevedo 
Veja online

Governo da Escócia acena com a possibilidade de o país deixar o Reino Unido; líderes conservadores e trabalhistas defendem que Câmara dos Comuns vete a saída

Uma espetacular comédia de erros. Eis o resultado do referendo que deu a vitória ao “Brexit”, que é a saída do Reino Unido da União Europeia. Já escrevi aqui: parece que muita gente acordou de um delírio coletivo. De tal sorte a situação é particular que os mais calados são justamente os vitoriosos. A impressão que tenho é a de que se divertiam em pregar a saída, na certeza, no entanto, de que seus adversários venceriam, e eles poderiam continuar a atribuir à “burocracia de Bruxelas” todos os males do mundo.

A campanha dos que se opunham à saída foi essencialmente errada. Insistiu-se excessivamente na demonização ideológica dos que defendiam o rompimento, acusados de brucutus de direita e de xenófobos, e não se deu a devida ênfase às dificuldades que adviriam dessa separação — sim, até agora não se conseguiu apontar um único ganho efetivo.

Já há um intenso movimento de líderes conservadores e trabalhistas para que a Câmara dos Comuns vete a saída — o que é possível, já que o referendo, do ponto de vista legal, tem caráter apenas de consulta. O governo da Escócia já disse que quer o país na União Europeia — e isso pode significar, então, sair do Reino Unido. Nesse caso, seria preciso fazer um novo referendo no  país. Em setembro de 2014, por 55,4% a 44,6%, os escoceses decidiram se manter na União. Mas agora a situação é outra.

Mais de três milhões de pessoas já assinaram uma petição para a realização de uma nova consulta, e lideranças importantes do país, como Tony Blair, ex-primeiro-ministro, defendem uma segunda votação.

Ocorre que líderes da União Europeia querem agora que o Reino Unido acelere o processo de saída. Quem decidiu crescer na crise é François Hollande, o fraco presidente francês. Para ele, o divórcio é agora irreversível, o que é, vamos convir, no mínimo, uma posição estranha. Por quê? Porque, legalmente, a decisão cabe à Câmara dos Comuns, e não será Hollande a definir como ela tem de votar.

O que parece é que o presidente francês não vê com maus olhos a saída do Reino Unido, um parceiro de Angela Merkel, a chanceler alemã, na defesa das políticas de austeridade para o bloco. O socialista talvez sonhe com um protagonismo maior da França, que ficaria numa posição de mais força diante da superpoderosa Alemanha.

Reitero o que escrevi aqui na madrugada de domingo. Não acho que venha o fim do mundo nem creio na teoria do dominó. Se o Reino Unido efetivar a sua saída, terá de fazer tantos acordos bilaterais com a União Europeia que o efeito prático da saída pode não ser tão grande — e, qualquer que seja, será negativo para a população do Reino Unido, se “unido” continuar. O resultado das eleições na Espanha, com o ligeiro crescimento do PP, que é pró-União Europeia, talvez indique que o voto em favor do rompimento só ameaça mesmo de cisão é o próprio Reino Unido.

Três milhões de britânicos apoiam improvável 2° referendo

Exame.com
Com informações Agência EFE

Christopher Furlong/Getty Images 
União Europeia: 51,9% dos eleitores escolheram romper os laços
 com Bruxelas, frente aos 48,1% que preferiam se manter na UE

Londres - Mais de três milhões de britânicos apoiaram com assinaturas um pedido ao parlamento para que o Reino Unido realize outro referendo sobre a UE, mas os políticos e os analistas apontaram que é improvável que isto ocorra.

O pedido perante a câmara dos Comuns para anular a consulta de 23 de junho e realizar outra já reúne 3.076.028 assinaturas, o que obriga os deputados a debatê-la.

O texto impulsionado pelo britânico William Oliver Healey, pede aos parlamentares a "implementação de uma norma pela qual se o voto para ficar ou sair (na UE) estiver abaixo de 60%, com uma participação inferior a 75%, deveria ser convocado outro referendo".

No dia 23 de junho, 51,9% dos eleitores escolheram romper os laços com Bruxelas, frente aos 48,1% que preferiam se manter na UE, em uma consulta que teve 72,1% de participação.

Segundo uma outra pesquisa divulgada pelo "The Mail on Sunday", 7% dos britânicos lamentam ter apoiado o "Brexit" ou saída da UE no referendo de quinta-feira.

Esta pesquisa, feita pela firma Survation com 1.033 adulto entre sexta-feira e sábado, diz também que 4%, equivalente a 696 mil, se arrependem de ter respaldado a opção de permanência.

Se estes eleitores pudessem votar novamente, o resultado da consulta não mudaria, mas daria uma vitória mais estreita ao "Brexit", aponta o jornal.

Na mesma pesquisa, 49% (contra 37%) asseguram que teria votado a favor da permanência na União Europeia se o primeiro-ministro, David Cameron, tivesse negociado um melhor acordo com Bruxelas sobre a liberdade de movimento dentro do bloco comunitário.

O suposto excesso de imigração comunitária foi o principal argumento do grupo que fez campanha a favor de deixar / abandonar a UE. 

A decisão britânica de sair da UE pode ser revertida?

Redação
BBC Mundo

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Jovens estão entre os principais insatisfeitos
 com a decisão de sair da União Europeia

As primeiras consequências da decisão dos eleitores britânicos de deixar a União Europeia foram sentidas logo após a divulgação dos resultados do plebiscito, na última sexta-feira: o primeiro-ministro David Cameron anunciou sua renúncia, a libra esterlina sofreu uma queda histórica e os mercados financeiros mundiais somaram perdas da ordem de US$ 2 bilhões.

E isso foi só o começo. Logo a agência Moody's informou que tinha rebaixado a nota de crédito do Reino Unido de "estável" para "negativa" e foi noticiado que várias multinacionais estavam se preparando para fechar postos de trabalho em Londres. Somou-se a isso a confirmação pelo governo escocês de que estava se preparando para um segundo plebiscito sobre sua independência.

Diante disso, muitos analistas e eleitores passaram a se perguntar: é possível reverter o Brexit, o processo de saída do Reino Unido da União Europeia?

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A libra e os mercados foram afetados negativamente pelo Brexit

Possível, mas pouco provável,

A resposta curta é: sim.

Mas a resposta longa é que, embora não seja impossível, parece altamente improvável, dado que a maioria dos eleitores britânicos falou claramente a favor de dizer adeus à UE.

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52% dos britânicos votaram para sair da União Europeia

"O povo britânico votou a favor de deixar a União Europeia e sua vontade deve ser respeitada", disse Cameron, que fez campanha a favor da permanência, ao anunciar sua renúncia.

Também é certo que a consulta de 23 de junho não é juridicamente vinculativa.

Isso significa que a decisão final sobre deixar ou permanecer no bloco europeu terá que ser tomada por um parlamento com uma maioria de deputados contrários ao Brexit.

E enquanto o Reino Unido não invocar o artigo 50 do Tratado da União Europeia, que estabelece procedimentos para a saída de um Estado membro, as negociações para efetivar a saída nem podem começar.

Os perigos do tempo
Os líderes europeus disseram esperar que o Reino Unido ative o mecanismo de "o mais rápido possível", com alguns até mesmo chegando a dizer que deveria ser uma questão de dias.

Mas, em seu discurso, Cameron disse que era uma tarefa para seu sucessor.

O processo para eleger um novo primeiro-ministro, no entanto, vai exigir um tempo no qual muitas coisas poderiam acontecer.

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Cameron disse que não vai iniciar o processo de separação da UE

Por ter maioria parlamentar, o partido de Cameron sozinho pode escolher por si só o próximo ocupante da 10 Downing Street sem chamar novas eleições.

"Neste momento, não precisamos de um calendário preciso, mas na minha opinião deveríamos definir como objetivo ter um novo primeiro-ministro antes do início da reunião anual do Partido Conservador em outubro", disse Cameron em seu discurso de renúncia.

Mas se os conservadores não conseguem superar suas divisões internas, novas eleições poderiam ser inevitáveis.

E várias vozes já estão aparecendo para insistir que a tarefa histórica de tirar o Reino Unido da União Europeia depois de 43 anos exige um novo governo com um mandato claro.

Caixa de Pandora?
Novas eleições, no entanto, também dariam aos eleitores a oportunidade de apoiar uma mudança de rumo no que diz respeito à UE.

E muitos daqueles que não apoiaram o Brexit parecem acreditar que uma nova votação -uma nova consulta ou novas eleições generais- produziria resultados diferentes.

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Mais de 3 milhões de pessoas já assinaram 
uma petição por um segundo plebiscito

Um de seus argumentos tem a ver com a taxa de participação relativamente baixa dos jovens, uma grupo amplamente favorável a permanecer na União Europeia que poderia mobilizar-se ao perceber que "a coisa é realmente séria".

Mas muitos também parecem convencidos de que boa parte dos que votaram para a saída da UE foi enganada por políticos que já começaram a renegar suas promessas de campanha ou a ser desmentidos pela realidade.

E não falta quem pense que a verdadeira razão pela qual grandes apoiadores do Brexit disseram que não há pressa para ativar o artigo 50 é, basicamente, que não se atrevem a começar um divórcio que pode ter consequências desastrosas para o país.

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As principais figuras do Brexit, como Boris Johnson (à dir.), 
não querem que o processo de separação começa rapidamente

"A Escócia se separaria, haveria caos na Irlanda, uma recessão, os acordos comerciais seriam quebrados. E Boris Johnson sabe", diz um participante de um fórum de leitores do jornal The Guardian.

"Quando Boris Johnson disse que não havia necessidade de ativar o artigo 50 'ainda' realmente quis dizer 'nunca'", continua o comentário, referindo-se o favorito para suceder David Cameron.

Frustração e descontentamento
O argumento do ex-prefeito de Londres e de seus aliados, no entanto, é que o Reino Unido só precisa de tempo para se preparar e ser capaz de negociar a separação nas melhores condições possíveis para o país.

E muitos daqueles que votaram a favor da Brexit acreditam que os pró-europeus estão errados ao apresentá-los como ignorantes manipulados que nem saberiam o que era a UE antes da votação. O desconhecimento foi sugerido após a divulgação de que "o que é a União Europeia" tenha sido a segunda consulta mais popular no Google.uk no dia após o referendo.

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A favor do Brexit também votaram uma parte menor 
dos jovens e os britânicos mais pobres

Além disso, não há nada que sugira que os testemunhos dos arrependidos que dizem ter votado a favor da UE sem realmente entender o que estava em jogo passem de uma anedota.

E o nível de frustração que levou a decisão histórica de 23 de junho, certamente, não deve ser desconsiderado.

Ao mesmo tempo, a incerteza sobre o futuro do Reino Unido e da União Europeia não agrada ninguém, assim que uma decisão sobre o tema não pode ser adiada indefinidamente.

E, embora a UE não possa forçar Londres a iniciar o processo, tudo indica que ele vai começar mais cedo ou mais tarde.

Tudo isto significa que, no momento, é difícil ver o Brexit como mais do que uma realidade inevitável.

O que ainda não está claro, no entanto, é como ele será produzido, quando e com que consequências.


Multiculturalismo londrino entre o medo e a revolta

Claudia Sarmento, Especial 
O Globo 

Capital britânica votou maciçamente contra a saída da União Europeia; residentes temem hostilidades contra imigrantes

 JUSTIN TALLIS / AFP
No centro de Londres, um manifestante envolto em uma bandeira da UE 
participa de um protesto contra a saída do Reino Unido do bloco europeu 

LONDRES — Coração financeiro da Europa, Londres parece inconformada com a decisão britânica de deixar a União Europeia (UE). O choque que tomou conta dos moradores da capital, onde 60% dos eleitores votaram contra o Brexit, deu lugar ontem a um sentimento de depressão e revolta. A cidade manteve sua rotina, mas a era de incertezas que agora assombra o Reino Unido mudou o clima nas ruas. O prefeito Sadiq Khan — filho de imigrantes paquistaneses eleito recentemente, e cuja ascensão no cenário político representa o multiculturalismo associado a Londres — disse que a metrópole vai lutar para participar das negociações sobre a retirada da UE.

— Como país, decidimos deixar a UE, mas para a cidade vejo enormes benefícios em se manter no mercado único. Já disse ao governo que Londres deve estar na mesa de negociações — disse Khan, que criticou seu antecessor, Boris Johnson, líder da campanha pelo Brexit, por ter ignorado o impacto da decisão sobre a economia da capital.

Jeremy Corbyn, líder do Partido Trabalhista que saiu derrotado das urnas, sentiu a decepção dos moradores de Londres. Ao passar pelo Pride Festival, a parada gay da cidade, foi acusado de não ter feito o suficiente para evitar o Brexit.

— Foi sua culpa, Jeremy! — gritou um homem. — Pare de usar o movimento gay para disfarçar sua falta de liderança.

Corbyn, constrangido, respondia apenas que havia “feito todo o possível”.

O vídeo da cena, postado no Twitter, viralizou.

Em Brixton, na região de Lambeth, Sul de Londres, fica clara a posição da capital britânica na discussão que evidenciou a profunda divisão no Reino Unido. A área registrou o maior percentual de votos pela permanência na UE em toda a Inglaterra: 78,6%. Ao redor do mercado de Brixton, uma sucessão de coloridas barracas com todos os tipos de produtos, onde diferentes etnias se misturam, um casal de amigos não escondia o desânimo. May, que tem raízes irlandesa, francesa e indiana, e Tom, filho de mãe italiana e pai de Trinidad e Tobago, nasceram em Londres, mas já não sabem se querem continuar na capital.

— O Brexit foi a pior coisa que podia acontecer para a minha geração. Minha mãe já fala em se mudar. Acha que imigrantes serão tratados com hostilidade — disse o rapaz, produtor de vídeos.

A amiga, estudante de Sociologia, concordou:

— Não posso mais confiar num país que acreditou numa campanha marcada por xenofobia.

Brixton já foi uma área esquecida, palco de violentos conflitos sociais na década de 80. É um bairro de imigrantes, sobretudo africanos, mas nos últimos anos a gentrificação mudou a cara do local, atraindo londrinos jovens que buscam aluguéis acessíveis. As comunidades se cruzam nos mercados de rua, onde o Brexit dominou as conversas ontem.

— Nada de bom pode sair dessa decisão — resumiu um vendedor de roupas do Afeganistão, que deixou Cabul há 15 anos.

No Brixton Village, shopping com restaurantes de diferentes partes do mundo, a britânica Samantha Williams, funcionária de uma pequena loja de doces caseiros, contou que já havia recebido vários clientes inconformados com o resultado do referendo.

— Acho que as pessoas votaram sem entender direito os efeitos do Brexit — avaliou.

Uma petição publicada na plataforma digital Change.org já havia alcançado ontem 140 mil assinaturas para que Londres seja declarada “cidade mundial”. A esperança é que, assim, possa se juntar de forma independente à UE.

O Reino Unido está fora da União Europeia. E agora?

Veja online


(Toby Melville/Reuters) 
Bandeiras do Reino Unido e da União Europeia são vistas juntas em Londres 

O Reino Unido deve encaminhar em breve um pedido de desfiliação da União Europeia (UE) após o referendo de quinta-feira que decidiu pela saída do país do bloco. O primeiro passo é novo governo britânico enviar uma carta formal aos 27 países-membros da UE para pedir o desligamento. Em seguida, o Conselho Europeu pedirá que a Comissão Europeia negocie o acordo de saída, que, para ser concretizada de fato, precisa do aval unânime do bloco. No total, o processo de desligamento pode durar ao menos dois anos e envolverá a discussão do eventual fim da livre circulação de britânicos pela UE, assim como a de europeus pelo território britânico.

Além de consequências nacionais, a decisão pode afetar o mundo todo política, econômica e socialmente. Idealizada após a II Guerra Mundial (1939-1945) como forma de pacificar a Europa, um dos continentes mais marcados por conflitos, a União Europeia antes não permitia que nenhum país deixasse o bloco. A flexibilidade foi concedida com o artigo 50 do Tratado de Lisboa, assinado em 2007, porém, até hoje, nenhuma nação tinha decidido retroceder. Por isso, não dá para mensurar ainda as consequências da saída do Reino Unido.

O que se tem são apenas previsões e, assim como as pesquisas de intenção de voto davam o "remain" (permanência) como vitorioso no referendo, poderão se provar erradas no futuro. O resultado do referendo, realizado ontem, não é legalmente vinculante. Em tese, o Parlamento britânico, como órgão independente, pode ignorar o resultado e não iniciar as negociações para a saída do país. Mas o atual premiê, David Cameron, renunciou ao cargo e argumentou que não é capaz de conduzir o país "para este novo destino", já que ele mesmo se opunha ao chamado Brexit (saída britânica). Isso abre caminho para que um líder nacionalista assuma o posto e brigue para que a decisão do referendo seja reconhecida.

A seguir, as possíveis consequências do rompimento para o Reino Unido e a UE.


Reino Unido está fora da União Europeia. E agora?


Crise política e institucional
O primeiro-ministro britânico David Cameron anunciou que irá deixar o cargo em outubro, quando um congresso do Partido Conservador deve escolher um sucessor. Por enquanto, o ex-prefeito de Londres Boris Johnson é o nome mais forte. É possível que haja também pressão popular e campanhas para a convocação de novas eleições parlamentares para formar um novo governo.

O desencontro entre os resultados do referendo na Inglaterra e nos outros países do Reino Unido também pode causar conflitos internos. Escócia e Irlanda do Norte votaram por permanecer na UE e os políticos nacionalistas dos dois países já sinalizaram que pretendem trabalhar por um referendo para se separarem do Reino Unido.

Consequências para a UE
É consenso que a saída do Reino Unido da União Europeia diminui o poder do bloco no cenário mundial. Ao lado da Alemanha e da França, o Reino Unido é uma das principais potências europeias e sua ausência na UE significaria, além da perda de influência na política externa, uma carência em termos militares, já que os britânicos são responsáveis pelo quinto maior gasto militar do mundo e os primeiros no bloco. A nação também agrega a UE toda sua vasta rede diplomática, historicamente beneficiada pelo enorme poderio do Império Britânico, que tinha colônias e protetorados em todos os continentes do mundo. A inteligência britânica, capitaneada pelo serviço secreto MI6 e pelo Escritório Central de Comunicação do Governo (GCHQ, na sigla em inglês), também é um trunfo que a União Europeia pode perder.

Política externa
Assim como a França, o Reino Unido é a maior potência da política externa do bloco, podendo se vangloriar de um grande contingente militar e laços estreitos com os Estados Unidos. Washington já deixou claro que, após a desfiliação, terá menos interesse em Londres como aliado por causa da percepção da perda de influência.

O Reino Unido não estará mais sujeito a posições conjuntas da UE, por exemplo, em sanções econômicas contra a Rússia, mas continuará sendo membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Imigração
Até que fique claro qual será o acordo que substituirá os atuais termos de associação da UE, é difícil dizer qual será a política de imigração adotada. Muitos especialistas acreditam que, com a adesão do Reino Unido aos acordos de livre comércio, o compromisso de livre circulação entre os países europeus também será legitimado, assim como acontece atualmente com a Noruega ou a Suíça.

No entanto, até que esse novo acordo seja estabelecido, é possível que a imigração para o país seja regulado inteiramente pela lei nacional britânica. Nesse caso, imigrar para o Reino Unido se tornaria ainda mais difícil do que já é: os cidadãos da UE enfrentariam longas filas e checagens de documentos. Uma diminuição acentuada da imigração de trabalhadores poderia levar a falta de mão-de-obra na área da construção civil e em outros serviços.

Os britânicos também teriam de solicitar vistos para viajar pelo resto do continente e cidadãos ingleses vivendo em países como Espanha podem ter de cumprir regras de integração bastante rígidas, como a obrigação de falar a língua oficial da nação, antes de ganharem o visto de residência.

Justiça
O Reino Unido tem muitas exceções em questões políticas de justiça e assuntos internos, sobretudo a dispensa da zona de circulação conhecida como Espaço Schengen. Não está claro que restrições os britânicos irão adotar para a entrada de estrangeiros. A UE prometeu reagir à altura.

Atualmente o Reino Unido reconhece mandados de prisão de outros países da UE, compartilha informações entre as polícias, inclusive dados pessoais, e é membro da polícia do bloco, a Europol. Seu envolvimento futuro, incluindo o acesso a bancos de dados do bloco, pode diminuir — o que irá significar menos cooperação no policiamento e no combate ao crime.

Efeito dominó
A saída do Reino Unido da União Europeia pode dar início a um efeito dominó entre os países do bloco e enfraquecer o atual modelo europeu. Os pedidos de referendo para sair do bloco podem se multiplicar em caso de Brexit e ecoar nos países nórdicos, muito afetados pela onda nacionalista que também atinge a nação britânica. Os países escandinavos, importantes contribuintes para o orçamento da UE, temem que as sucessivas crises europeias acabem afetando sua prosperidade.

Na França, a presidente da ultradireitista Frente Nacional (FN), Marine Le Pen, considerou que o Brexit concede "uma legitimidade suplementar para levar esse debate à França" e exigir um referendo sobre sua relação com a UE. "O Reino Unido iniciou um movimento que não vai parar", afirmou Marine. "Começou o movimento para o fim da União Europeia", completou. A líder da extrema-direita francesa reivindicou a abertura de negociações entre França e União Europeia para revisar seu estatuto, depois das quais teria que ser realizado um referendo, "uma necessidade democrática".

Clima
O Reino Unido é o segundo maior emissor de gases de efeito estufa na Europa e suas empresas prestadoras de serviços estão entre os maiores compradores de créditos de carbono do Sistema de Comércio de Emissões (ETS, na sigla em inglês) da UE. Embora a maioria dos analistas acredite que o Reino Unido irá se manter no esquema de compra de créditos de carbono, o referendo é visto como hostil ao mercado, já que o Reino Unido não conseguirá mais adotar reformas rígidas para elevar o preço.

A desfiliação britânica também irá interromper os planos do bloco de dividir o fardo de seu compromisso com o acordo climático de Paris. Os defensores do meio ambiente também temem que as metas climáticas da UE sejam menos ambiciosas sem a liderança britânica para equilibrar Estados-membros mais relutantes, como a Polônia, que é muito dependente de sua indústria carvoeira.

Economia
O Reino Unido não estará mais sujeito às regras orçamentárias da UE, que limitam o déficit orçamentário dos governos a 3% do Produto Interno Bruto (PIB) e a dívida pública a 60% do PIB.

O país, portanto, poderá ter qualquer déficit orçamentário que quiser sem ser repreendido pela Comissão Europeia e por outros ministros do bloco. Os britânicos também estariam livres do monitoramento da Comissão e de recomendações sobre ações futuras.

Comércio
O restante da UE tem um superávit comercial de bens de cerca de 100 bilhões de euros com o Reino Unido, e o Reino Unido exporta cerca de 20 bilhões de euros a mais em serviços do que importa, sobretudo devido aos serviços financeiros. Os defensores da desfiliação dizem que é do interesse da UE concordar com um acordo de livre comércio com o Reino Unido se o país deixar o bloco.

Mas existe a tendência de o foco se concentrar mais em bens do que em serviços em acordos de livre comércio. A Suíça, onde os serviços financeiros representam uma fatia maior do PIB do que no Reino Unido, não tem acesso generalizado aos mercados de serviços financeiros da UE e acumula um déficit no comércio de serviços financeiros com o bloco.

Finanças
As empresas de serviços financeiros sediadas no Reino Unido, de bancos a câmaras de compensação e fundos, podem perder os rentáveis "passaportes" da UE, que lhes permitem vender serviços em todo o bloco de 28 nações com custos baixos e um conjunto único de regras.

O sistema de passaportes contribuiu para tornar Londres um dos maiores centros financeiros do mundo. Alguns bancos americanos, japoneses e não europeus que têm sede na capital britânica já disseram que irão cogitar transferir partes de seus negócios dentro da UE no caso de uma saída britânica do bloco.

8 razões pelas quais os britânicos votaram pela saída da União Europeia

BBC Brasil


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Promessas econômicas, imigração e histórico turbulento de 
casamento entre Reino Unido e bloco marcaram campanha

A saída da União Europeia venceu por uma margem apertada - 51.9% a 48,1% - no plebiscito realizado nesta quinta-feira no Reino Unido, o que mostra uma grande divisão no país.

Confira abaixo alguns dos fatores que determinaram o veredito dos britânicos, que deve ter consequências profundas no mundo.


1. O peso (ou não) da economia


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Libra registrou queda histórica com o anúncio dos resultado

O público britânico foi bombardeado de alertas sobre como ficaria mais pobre caso escolhesse sair da União Europeia. Mas isso parece não ter convencido muito.

Especialistas do FMI (Fundo Monetário Internacional), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e de várias outras organizações se pronunciaram afirmando que o crescimento econômico seria prejudicado, o desemprego aumentaria, o valor da libra cairia e as empresas britânicas ficariam em uma espécie de terra de ninguém fora do bloco.

Internamente, o Bank of England levantou a hipótese de recessão e o governo afirmou que poderia ser obrigado a aumentar o imposto de renda e cortar os gastos no serviço público de saúde (o NHS), na educação e na defesa.

Além disso, o presidente americano, Barack Obama, sugeriu que a Grã-Bretanha voltaria para "o fim da fila" nos acordos com os Estados Unidos.

Enquanto alguns partidários da permanência na UE admitiam que o chamado "Projeto Medo" estava indo longe demais, os defensores da saída foram rápidos em afirmar que o temor era espalhado pelas elites ricas.

Mas o fato de o público ter descartado tão rapidamente as opiniões de especialistas indica algo que supera a simples revolta contra o sistema. Sugere que muitos se sentiram fora do alcance dos benefícios econômicos dos mais de 40 anos de permanência no bloco.

2. Promessa de dinheiro para a saúde


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Boris Johnson usou números sobre saúde na campanha pela saída

A declaração de que a saída do bloco iria liberar até 350 milhões de libras (mais de R$ 1,7 bilhão) a mais por semana para aplicar na saúde pública é o tipo de frase política dos sonhos para qualquer marqueteiro: fácil de entender e atraente para todas as idades e correntes políticas.

Por isso os partidários da saída da UE a usaram tanto em sua campanha.

E o fato de que a promessa não resiste à análise - o número foi questionado por autoridades do governo e descrito como potencialmente enganador pela Autoridade de Estatísticas britânica - não reduziu sua força.


3. Imigração


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Nigel Farage foi criticado por abordagem sobre imigração ao defender Brexit

A campanha pela saída do bloco transformou a questão da imigração em seu trunfo, principalmente ao englobar assuntos como identidade nacional e cultural, o que tinha apelo entre os eleitores de baixa renda.

O resultado sugeriu que o medo da imigração, o impacto dela na sociedade e o temor do que pode acontecer nos próximos 20 anos eram mais amplos e profundos do que se suspeitava.

O argumento central era de que o Reino Unido não poderia controlar o número de pessoas entrando no país enquanto continuasse no bloco.

A linguagem e imagens usadas pela campanha foram criticadas e houve tensão até mesmo entre as várias correntes partidárias pró-saída. Suas mensagens, porém, estavam em sintonia no argumento central: retomar o controle das fronteiras e garantir a soberania nacional.

4. O primeiro-ministro


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David Cameron já anunciou que deixará o cargo de primeiro-ministro

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, pode ter saído vitorioso de uma eleição geral e dois referendos nos últimos dez anos, mas sua popularidade parece ter chegado ao fim.

Ao se colocar no centro e à frente da campanha pela permanência na UE, e qualificando a decisão como uma questão de confiança, ele colocou em jogo seu futuro político e reputação pessoal.

Cameron apostou que conseguiria mudar a relação da Grã-Bretanha com a União Europeia até mesmo dentro de seu partido, o Conservador.

O problema é que isso era baseado em promessas de reformas que muitos achavam modestas demais.
Sem conseguir convencer os conservadores mais céticos de seu partido, Cameron também não conseguiu o apoio dos trabalhistas e muito menos dos indecisos.

Com o fracasso, o primeiro-ministro anunciou que renunciará ao cargo em outubro.

5. Os trabalhistas


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Trabalhistas não conseguiram mobilizar seus partidários

A campanha pela permanência precisava dos eleitores trabalhistas, e o fato de que eles não participaram tanto quanto esperado ainda vai ser motivo de muita discussão entre os integrantes da oposição ao governo conservador.

O Partido Trabalhista - que tinha 90% de seus parlamentares a favor de ficar na UE - julgou muito mal o comportamento de seus partidários e, quando percebeu que havia algo errado, não conseguiu fazer muita coisa para mudar isso.

Eles até usaram as figuras mais famosas do partido na campanha - como o ex-primeiro-ministro Gordon Brown e o prefeito de Londres Sadiq Khan. Mas não conseguiram mudar a impressão de que havia uma divisão profunda dentro do partido.

Seu líder, Jeremy Corbyn, receberá a maior parte da culpa. Críticos afirmam que o apoio dele à UE foi muito morno, e que sua ênfase na necessidade de uma "Europa social" simplesmente não convenceu muita gente.

6. Estrelas do 'Leave'


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Boris Johnson foi um dos "soldados" mais ativos 
durante a campanha pela saída do bloco

Os britânicos sempre souberam que alguns ministros de governo iriam apoiar a saída do bloco.

Mas o ministro da Justiça, Michael Gove, foi além, se tornando um dos grandes motores da campanha pela saída ao lado do ex-prefeito de Londres, o conservador Boris Johnson.

Gove trouxe o peso intelectual e Johnson, o apelo popular que conseguiu conquistar eleitores além da divisão entre conservadores e trabalhistas.

Ambos percorreram o país todo. O ex-prefeito, por exemplo, "mergulhou" em pubs; o ministro ajudou a elaborar o manifesto pela saída e encarou as perguntas do público em programas de TV.

Por outro lado, há também Nigel Farage, líder do Partido Independente do Reino Unido (Ukip) e um dos rostos mais famosos da campanha pela saída do bloco.

Ele fez o que era esperado: provocou muita polêmica com suas declarações e também motivou os eleitores de seu partido e muitos outros a irem votar.


7. Eleitores mais velhos


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Resultado pode se revelar uma questão geracional

Nas próximas semanas os especialistas poderão debater detalhes do comparecimento do eleitorado. Uma das conclusões já previstas: os mais velhos aprovaram em peso a saída da União Europeia.

É fato: quanto mais velho é o eleitor, maior é o esforço para ir votar - 78% das pessoas com 65 anos foram às urnas na eleição britânica de 2015; entre as de 18 a 24 anos, 43%; e de 25 a 34 anos, 54%.

Muitos eleitores, porém, correram para se registrar entre os dias 15 de maio e 9 de junho: 2,6 milhões de pessoas, muitas delas jovens, se credenciaram para ir às urnas.


8. Relacionamento difícil


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Britânicos e UE tiveram convivência conturbada

O casamento entre Reino Unido e Europa nunca foi fácil.

Foram necessários anos para os britânicos se juntarem à Comunidade Europeia, em 1975. E muitos apoiaram a entrada de má vontade, ou apenas por razões econômicas superficiais.

Essa ambivalência se transformou em hostilidade: foram décadas de ceticismo de políticos e de grande parte da imprensa britânica em relação à União Europeia.

A geração mais jovem era vista como mais favorável ao bloco, mas ainda é preciso comprovar a afirmação com análises mais detalhadas de como foi a votação desta quinta.

Parece claro que o resultado não é só uma decisão de cunho político, mas também uma declaração de identidade nacional.



Brexit pode ajudar agricultura, mas Brasil perde apoiador na UE, diz consultoria

Veja online
Com informações Estadão Conteúdo

Vendas do agronegócio aos britânicos tendem a ficar mais ágeis sem as amarras da UE, avalia MacroSector; em contrapartida, Reino Unido pode privilegiar relação com os EUA

(Toby Melville/Reuters) 
Bandeiras do Reino Unido e da União Europeia são vistas juntas em Londres

A saída do Reino Unido da União Europeia, conhecida como "Brexit", pode ajudar as exportações da agricultura brasileira, na avaliação de Fabio Silveira, sócio e diretor da consultoria MacroSector. Segundo ele, a agropecuária inglesa é pequena e o Brasil pode ampliar as vendas externas ao Reino Unido, sem a pressão de outros países agrícolas da UE, como a França.

"A Inglaterra é uma potência financeira, mas a agricultura é fraca. Isso é bom para o Brasil, já que a saída favorece um acordo bilateral com a Inglaterra. Por outro lado, a Inglaterra é uma das apoiadoras da aproximação do Mercosul com a União Europeia, defensora do livre comércio, e vai ser ruim para o país perder esse apoio", disse Silveira.

Segundo o economista, o Reino Unido e a Inglaterra, em particular, devem buscar a formação de um bloco de comércio com os Estados Unidos após a saída da UE. "Os ingleses preferirão fundar bloco com os Estados Unidos, rejeitando a questão histórica e a integração com a Europa".

Esse possível bloco entre Inglaterra e Estados Unidos seria prejudicial ao Brasil, já que os ingleses dariam preferência, na avaliação do sócio da MacroSector, ao comércio com produtos americanos. Ainda segundo Silveira, o cenário de curto prazo será marcado por instabilidade, mas apenas em virtude de uma reacomodação do fluxo de capital após a decisão do Reino Unido.

"Reposicionamento com Brexit é diferente de crise causada pela Grécia no passado, por exemplo. Não há ameaça de um colapso financeiro, com a possibilidade de quebras de bancos", disse. "É possível que o BC inglês suba juros para fortalecer a libra, mas dentro desse movimento de reacomodação."

O separatismo no Brasil

Amanda Almeida
O Globo

Um movimento separatista, chamado São Paulo Livre, enxergou, na saída do Reino Unido da União Europeia, uma ótima oportunidade de atrair holofotes para a sua causa. Está convocando os eleitores do estado para participar de um plebiscito, em 2 de outubro, sobre a separação de São Paulo do resto do país.

"A Grã-Bretanha saiu da UE. E agora é a nossa vez. A vez de São Paulo. Os tempos mudam e nós, paulistas, queremos sair do Brasil e fazer um país só nosso, chamado São Paulo", anuncia o grupo nas redes sociais.

São Paulo Livre | Divulgação



A adesão ao grupo, pelo menos na internet, no entanto, é pequena, em comparação à população de São Paulo (44 milhões de pessoas). Pouco mais de 9,5 mil pessoas seguem a o movimento em uma das redes.

Aos seus seguidores, o grupo pede voluntários para ajudar no dia do plebiscito e antecipa as perguntas:

"Você está insatisfeito com o jeito como São Paulo está politicamente representado na República Federativa do Brasil?" 
( ) Sim
( ) Não

Se 'sim', você gostaria que São Paulo se tornasse um país independente?"
( ) Sim
( ) Não"

Para conquistar adeptos, o movimento anuncia que "no país novo, haverá uma simplificação do sistema tributário (menos impostos, e impostos menores); forte apoio à pequena e média empresa e ao empreendedor individual, para que mais empregos sejam gerados e a economia cresça com estabilidade".

Sobre política, o grupo, lançado em 2014, vocifera que "os atuais partidos não nos representam mais". "Com um país novo, teremos novos partidos; um parlamento unicameral - sem Senado- menor e muito mais econômico que o Congresso brasileiro; e leis implacáveis contra a corrupção e o mal-uso do dinheiro público", registra.

O movimento diz que não é ligado a partidos políticos. Em relação ao impeachment da presidente afastada, Dilma Rousseff, se posiciona favoravelmente.

 São Paulo Livre 2 | Divulgação



OUTROS CASOS. 
O São Paulo Livre não defende uma causa inédita. Há movimentos separatistas em outros estados do país. O Sul é meu país quer que os três estados da região (Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná) se tornem independentes do Brasil.

"Somos um povo que tem seu passado escrito com o sangue e o trabalho de nossos ancestrais, e exatamente por termos consciência deste patrimônio histórico, é que nos sentimos responsáveis pela história que haveremos de deixar para os que vierem depois de nós. Somos amantes do trabalho e da liberdade, mas queremos ser os responsáveis pelo nosso destino", diz a carta de princípios do grupo.

Brasileiros terão passagem rápida nos serviços de fronteira em Portugal

O Globo 

Acesso pelo sistema automatizado nos aeroportos lusos começa a valer em julho

 Cristina Massari / Agência O Globo 
Torre de Belém e o Rio Tejo, durante o pôr do sol:
 influências islâmicas e orientais 

RIO - A partir de julho, viajantes com passaporte brasileiro terão acesso à passagem rápida pelo sistema de Reconhecimento Automático de Passageiros Identificados Documentalmente (Rapid), nos aeroportos de Portugal, segundo informações do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), divulgadas pelo site Portugal Digital (portugaldigital.com.br).

Até lá, a passagem pelo sistema automatizado de de controle de fronteiras, vinha sendo reservada a penas aos cidadãos portugueses e do conjunto da União Europeia.

Além do Brasil, serão beneficiados pelo sistema eletrônico de leitura de de passaportes, que dispensa intervenção humana direta, os cidadãos de outros oito países: Austrália, Nova Zelândia, Japão, Coreia do Sul, Cingapura, Canadá, Estados Unidos e Japão.

"São nacionalidades isentas de visto e que, ao mesmo tempo, os nacionalidades isentas de visto e que, ao mesmo tempo, os respetivos certificados técnicos podem ser adaptados para o Rapid de modo a poder ser feito o cruzamento e a consulta às bases de dados necessárias a nível nacional e internacional", detalhou a diretora do diretora do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), Luísa Maia Gonçalves.

OMC aponta que Brasil está menos protecionista

Exame.com
Jamil Chade, Estadão Conteúdo 

©AFP / Fabrice Coffrini 
OMC: apesar da tendência de queda, Brasil só perde 
em protecionismo para os Estados Unidos, entre países do G-20

Genebra - Mergulhado em uma recessão, o Brasil foi o terceiro país a adotar o maior número de barreiras comerciais em 2015. Mas, pela primeira vez e a partir do início de 2016, o governo usou mais medidas liberalizantes do que barreiras ao comércio.

Isso é o que revela informe da Organização Mundial do Comércio (OMC) que serve de base para os trabalhos do G-20.

De um total de 24 medidas adotadas pelo governo entre outubro de 2015 e maio de 2016 - o auge da crise no País -, apenas 9 foram restritivas. O restante promoveu a queda de tarifas de importação para diversos setores ou retirou entraves para a entrada de produtos.

O volume ainda se contrasta com os indicadores dos últimos anos. Em 2014, foram 35 barreiras criadas pelo Brasil apenas na área de antidumping. Mas, em 2015, o Brasil reduziu o total de medidas antidumping para 23 e foi superado por Índia e Estados Unidos.

O recuo da pressão protecionista no Brasil coincide com uma queda importante no fluxo de comércio. Segundo a avaliação da OMC, o País teve uma das maiores quedas de importação do mundo em 2015, com redução de 15%.

Ainda assim, os estoques de barreiras no País colocam o Brasil entre os mais protecionistas do G-20. Somando todas as ações desde a eclosão da crise, em 2008, foram quase 180 medidas antidumping, número superado apenas pelos EUA, com cerca de 200.

No caso brasileiro, o principal alvo são os chineses, com mais de 60 barreiras.

Em 2015, as barreiras técnicas do Brasil chegaram a 115, uma vez mais superado apenas pelos EUA, com 283.

Mas o estoque de medidas ainda em vigor preocupa a OMC. Em seu informe ao G-20, a entidade constata que o volume de medidas protecionistas atingiu o maior nível desde que começou a monitorar a adoção de barreiras, em 2009.

Entre outubro de 2015 e maio de 2016, as economias do G-20 criaram 145 novas barreiras, quase 21 a cada mês. "Há muito tempo estamos preocupados com o aumento das medidas restritivas", disse Roberto Azevêdo, diretor-geral da OMC.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Brasil vai negociar acordo mundial em serviços

Exame.com
Lu Aiko Otta, Estadão Conteúdo

David Paul Morris/Bloomberg 
Comércio exterior: entrada do Brasil nas negociações de novo bloco
 contraria determinação da presidente afastada Dilma Rousseff

Brasília - Contrariando uma determinação do governo da presidente afastada Dilma Rousseff, o governo brasileiro pedirá para entrar nas negociações do Acordo Internacional de Comércio de Serviços (Tisa, na sigla em inglês), que envolve 23 países, entre eles Estados Unidos, México, Canadá e os integrantes da União Europeia.

No momento, o País encontra-se fora dos entendimentos, que poderão ditar a participação num mercado que movimenta estimados US$ 44 trilhões ao ano e abrange serviços em áreas como a bancária e a de saúde, entre outras.

Por estar fora, o governo brasileiro não sabe, oficialmente, o que está em discussão. Os documentos são restritos aos participantes, embora parte deles tenha sido vazado pelo WikiLeaks.

"Ou discutimos os termos do acordo, ou simplesmente aderiremos a ele depois", explicou o ministro da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, Marcos Pereira.

Ele contou que obteve autorização do presidente em exercício Michel Temer para ingressar nas negociações durante reunião na noite de sábado. "No governo anterior, tinha uma orientação para não entrar", contou.

O ministro anunciou a decisão no encontro da Coalizão Empresarial Brasileira, promovido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). No evento, a entidade divulgou sua agenda internacional para o ano, e o ingresso do Brasil no Tisa era um dos pontos reivindicados.

Na avaliação da CNI, a indústria brasileira pode ter dois tipos de ganho com o acordo.

Primeiro, pela redução de custos, pois há setores em que há restrição ao trabalho de profissionais estrangeiros, por exemplo. Segundo, por abrir mercados para exportar serviços no qual o Brasil é competitivo, como softwares, engenharia e automação financeira.

A indústria usa mais serviço do que se imagina, explicou o assessor de Comércio Exterior da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica, Mario Branco.

Isso porque a produção hoje em dia é terceirizada, com diversas indústrias produzindo partes de um mesmo bem, e o pagamento dessas etapas terceirizadas conta como compra de serviços. Por isso, a estimativa é que os serviços representam 70% do PIB brasileiro.

As negociações do Tisa começaram em 2012 e há uma previsão que sejam concluídas em novembro. O Tisa é um acordo plurilateral, ou seja, envolve apenas um grupo de países. No Tisa, cada país escolhe que serviço quer negociar com quem. Uma vez fechado o acordo, os resultados são estendidos aos demais participantes do grupo.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Brasil e Argentina lenientes diante da Venezuela

Editorial
O Globo

Eleição de Macri e chegada do tucano José Serra ao Itamaraty não se traduziram em uma diplomacia mais atuante contra a violação de direitos humanos no país vizinho

A Organização dos Estados Americanos (OEA) iniciou esta semana reuniões cruciais para discutir a crise da Venezuela. Ontem, o Conselho Permanente da entidade se reuniu com representantes do governo, num encontro mediado pelos ex-chefes de Estado e governo José Luis Rodríguez Zapatero, da Espanha; Leonel Fernández, da República Dominicana; e Martín Torrijos, do Panamá, com apoio da Unasul. Amanhã, o status de democracia do país deverá ser examinado a pedido do secretário-geral Luis Almagro, que invocou a Carta Democrática da OEA, podendo resultar na suspensão da Venezuela por violação de direitos humanos. Caracas tentava ontem suspender este encontro.

Os atores envolvidos nas negociações ressaltam a importância do diálogo entre oposição e o governo de Nicolás Maduro. Mas enquanto a diplomacia regional debate o impasse político, o país afunda na mais grave crise de sua história. Com a maior inflação do mundo e uma economia totalmente desestruturada, a população vive sob escassez generalizada e um índice explosivo de violência. Há racionamento de água e energia elétrica e extensas filas para se obter itens de primeira necessidade, inclusive alimentos e remédios.

A oposição, que domina a Assembleia Nacional, obteve 1,35 milhão de assinaturas para convocar um referendo revocatório do governo. No entanto, o regime, além de manter importantes líderes da oposição na prisão, como Leopoldo López, aparelhou instituições como o Judiciário, o que impede inciativas de mudança. É dessa forma que Maduro tenta anular ou adiar a consulta. Se o referendo não for realizado este ano, em vez de novas eleições, assumirá o vice-presidente, o chavista Jorge Arreaza e tudo continuará igual.

A eleição de Mauricio Macri, crítico de Maduro, para a Presidência da Argentina, e a chegada de José Serra ao Itamaraty, cujo partido liderou no Senado brasileiro um movimento pela punição do regime bolivariano por violação da cláusula democrática do Mercosul, sugeriam uma mudança de posição radical da diplomacia dos dois principais sócios da Venezuela no bloco sul-americano. No entanto, o Itamaraty continua reticente, afirmando que “apoia iniciativas construtivas que visem a promover o entendimento entre o governo da Venezuela e a oposição”.

Macri, por sua vez, mudou de tom para eleger sua chanceler, Susana Malcorra, no lugar de Ban Ki-moon. Ela enfrenta duas rivais na briga pela secretaria-geral da ONU, a búlgara Irina Bokova e Helen Clark, ex-premier da Nova Zelândia. O titular do cargo é indicado pelos países-membros do Conselho de Segurança, onde a Venezuela ocupa um dos assentos rotativos. E o governo argentino vem, segundo a imprensa regional, negociando com Maduro não só o voto venezuelano, mas também sua influência sobre outros membros, como Rússia e China. Diante da calamidade que assola a Venezuela, é frustrante ver importantes nações sul-americanas fugindo à responsabilidade que a situação impõe.

Desafio do Mercosul é integrar a infraestrutura, diz Uruguai

Exame.com.
Suzana Inhesta, Estadão Conteúdo

Thinkstock 
Integrar a infraestrutura é fundamental para agregar valor ao comércio
 no bloco, disse o presidente do Consejo Uruguaio para Relaciones Internacionales

São Paulo - O presidente do Consejo Uruguaio para Relaciones Internacionales (CURI), Sergio Abreu, afirmou que um dos principais desafios do Mercosul é avançar na integração de infraestrutura e de serviços de infraestrutura para agregar valor ao comércio intrabloco. "Nossas potencialidades estão em aproveitar todos os nossos recursos naturais, que é o nosso diferencial", disse, citando que uma das prioridades do bloco sul-americano poderia ser o projeto da Hidrovia do Mercosul.

"Países que têm uma assimetria no escoamento de produção têm que aproveitarem melhor", completou.

Agustín Castaño, da Prysma E&T Consultores, avaliou que para que haja uma integração energética competitiva na região, tem que se considerar a inclusão da Bolívia e Chile. "Por exemplo, o gás natural liquefeito (GNL) é uma realidade da região. Para se otimizar a oferta de gás regional no Mercosul, poderia se fazer um acordo tripartite entre Bolívia, Brasil e Argentina", sugeriu.

Segundo ele, a Bolívia ofereceria a matéria-prima e Brasil e Argentina viabilizariam a retirada e distribuição do gás.

Castaño citou também a importância de se trabalhar melhor as energias renováveis no bloco. "Esse tipo de energia já é uma realidade na região. No Uruguai, por exemplo, é grande o uso de energia eólica", falou.

Hoje, conforme ele, há três empreendimentos binacionais, mas que na verdade são interconexões municipais e não são integrados: as usinas hidrelétricas binacionais de Salto Grande (Uruguai-Argentina), Yacyretá (Paraguai-Argentina) e Itaipu (Paraguai-Brasil).

"Temos que resolver as pequenas disputas para criar o conceito multilateral na questão energética do bloco", ressaltou.

Os especialistas participaram do seminário "Juntos Hacia El Mundo", organizado pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) em parceria com o Consejo Argentino para Relaciones Internacionales (CARI); Consejo Uruguaio para Relaciones Internacionales (CURI); e o Centro Paraguaio de Relaciones Internacionales (CEPEI).

Jornal 'La Verdad’ suspende impresso por falta de papel na Venezuela

O Globo 

Publicação responsabiliza governo por não oferecer subsídios, que são controlados no país

Reprodução
'Diario La Verdad' é mais uma publicação a suspender 
edição impressa por falta de papel na Venezuela 

CARACAS — Sem circular desde domingo, o jornal venezuelano “Diario La Verdad” anunciou a suspensão da sua edição impressa por falta de papel. Esta é mais uma das dezenas de publicações que já se viram obrigadas a parar suas impressões por conta das dificuldades na obtenção de subsídios pelo governo nos últimos anos. Na Venezuela, a venda e a distirbuição de papel-jornal é controlada por um órgão público — que, segundo o jornal, não responde às suas constantes solicitações para receber papel.

 “Esta falta de resposta é responsável pelo fato de que a partir de hoje os leitores do ‘Diario La Verdad’ não possam conseguir nossa edição impressa”, diz o comunicado publicado pelo jornal nesta terça-feira.

Em nota, o diário ainda fez um apelo pelo direito à informação e à liberdade de expressão na Venezuela e ressaltou a grave crise econômica que atinge o país.

“Agradecemos à solidariedade dos nostros leitores, anunciantes e distribuidores, que infelizmente não são alheios às dificuldades que impõe a escassez sobre seus inventários comerciais e as prateleiras de suas casas”.

O problema da imprensa venezuelana remonta a 2013, quando os jornais deixaram de receber subsídios do governo para a compra de papel-jornal. No ano seguinte, foi criado um órgão público, a Comissão Maneiro, que controla totalmente a venda e a distribuição. O resultado foi o fechamento de vários diários de linha independente. O primeiro, ainda em 2013, foi o gratuito “Primera Hora”, que deixou de ser impresso definitivamente por falta de papel. Depois foi a vez do “Antorcha”, de Anzoátegui, por falta de insumos. Se, em 2013, havia 115 diários no país, restam agora 94.

Em março, um dos jornais mais antigos do país, com mais de 80 anos de circulação, o “El Carabobeño” imprimiu sua última edição impressa, colocando, de uma só vez, cerca de 300 trabalhadores na rua. Na primeira página do jornal, toda preta, um editorial em branco denunciava o “golpe à liberdade”.

“Chegou o impensável dia em que o ‘El Carabobeño’ põe fim a suas edições impressas. É o resultado de um enfrentamento entre a verdade e o direito que os cidadãos têm de estar informados, e um governo que chegou ao poder através de artimanhas para administrar verba e instituições nacionais como melhor lhe convêm”, disse o editorial.