domingo, julho 10, 2016

O desajuste político das contas públicas

Rolf Kuntz
O Estado de São Paulo

Pode-se medir o sucesso de várias formas, algumas espantosas, principalmente quando se trata de políticas públicas no Brasil. O governo poderá fazer uma festa se fechar 2016 com um déficit primário de R$ 170,5 bilhões. Poderá abrir champanhe se reduzir o buraco no próximo ano para R$ 139 bilhões, valor correspondente, segundo a estimativa oficial, a 2,05% do produto interno bruto (PIB). Somando os juros, porém, a conta mostrará um rombo total muito maior. Esse resultado, conhecido como déficit nominal, tem estado na vizinhança de 10% do PIB, uma monstruosidade, pelos padrões internacionais. O déficit nominal americano ficou em 3,7% no ano passado e deve oscilar por um bom tempo nas vizinhanças desse número. A média geral dos países da eurozona tem estado na faixa de 2% a 3%. A média latino-americana bateu em 7,3% no ano passado – com a maior parte dos países muito abaixo disso – e tende a cair.

É preciso ir além da economia para entender por que as contas públicas brasileiras vão tão mal e como se combina uma recessão prolongada e severa com inflação tão alta – 6,41% há dois anos, 10,67% em 2015 e, se as projeções estiverem certas, algo em torno de 7% em 2016. O número estimado pelo governo para o próximo ano, 4,8%, ainda é pior que o da maior parte do mundo e aparentemente incompatível com um crescimento econômico de apenas 1,2%, também usado como referência para a definição da meta fiscal.

O objetivo fixado para 2017, um déficit primário de até R$ 139 bilhões para o governo central, pode parecer um tanto frouxo, à primeira vista. Para definir essa meta, no entanto, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, teve de vencer a oposição de colegas de governo e aliados políticos. Havia quem defendesse a repetição dos R$ 170,5 bilhões como limite do déficit primário. Outros, mais moderados, propunham valores na faixa de R$ 150 bilhões a R$ 160 bilhões. A primeira resistência a um ajuste mais ou menos sério, portanto, está dentro do Executivo, apesar das promessas do presidente interino. Mas ele, de toda forma, acabou bancando a proposta menos leniente.

Pelos dados conhecidos, o objetivo afinal escolhido é basicamente realista. O governo da presidente Dilma Rousseff costumava apresentar metas mais ambiciosas, no projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), para ajustá-las depois à evolução desfavorável de suas contas. O governo provisório do presidente Michel Temer decidiu seguir o caminho contrário: explicitar o problema, no início, e evitar a correção da meta durante o exercício.

Na hipótese mais otimista, o governo alcançará um déficit menor que R$ 139 bilhões se as condições da economia ajudarem e, principalmente, se estiver disposto a aperfeiçoar a gestão. Se continuar no poder, o presidente Michel Temer ainda terá de comprovar a disposição de seguir uma política severa. O mercado aposta nesse compromisso, embora ele tenha confirmado bondades prometidas pela presidente afastada, inflando a folha de salários, e tenha concedido algumas de sua iniciativa, como um reajuste maior do Bolsa Família.

Mas o desafio real supera de longe a tarefa de reforçar as contas nos próximos dois anos e meio. O governo já avançou em pelo menos uma frente, ao propor um limite para a expansão do gasto público. Um teto correspondente à inflação impedirá o aumento real da despesa, mas será insuficiente para racionalizar o sistema orçamentário. Será preciso ir além, negociar a reforma da Previdência e desmontar, por exemplo, a vinculação da receita a certas classes de despesas.

O Brasil gasta em educação tanto quanto a Coreia do Sul, pouco mais de 3% do PIB, mas com resultados muito inferiores. Numa lista de 139 países, a Coreia aparece em 66.º lugar quando se trata da qualidade do sistema educacional. O Brasil, em 133.º, bem perto, portanto, do fim da fila. O levantamento foi publicado há poucos dias pelo Fórum Econômico Mundial. Outras fontes de comparação, como o programa internacional de avaliação de estudantes da OCDE, também têm mostrado o Brasil em posições muito ruins.

Dá-se muita importância, no País, ao volume de gasto orçamentário, e quase nenhuma a questões como prioridade, eficiência e qualidade dos projetos e programas. Vinculações de verbas apenas engessam o Orçamento, dificultam o uso racional de recursos e ainda facilitam o desperdício e a corrupção. Se o gasto é obrigatório, para que cuidar da qualidade e de resultados? A resposta é evidente nos dados brasileiros de educação e de saúde.

Desengessar o Orçamento, uma tarefa politicamente complicada, é muito importante, mas também é apenas parte da solução. Segundo a doutrina mais popular entre os políticos, a função principal do governo é gastar e distribuir comodidades – sem referência necessária a itens como interesse coletivo, equidade, estratégia nacional, objetivos de longo prazo e, é claro, limitação de recursos. Conceitos como competência, produtividade, impessoalidade e responsabilidade foram banidos da gestão pública nos últimos 13 anos. Nunca foram dominantes, desde quando Gregório de Matos desancava em seus versos o governo da Bahia, mas já foram imensamente mais importantes do que na gestão petista.

Se conseguir ajeitar as contas públicas e mobilizar capitais privados, o governo poderá reativar os investimentos vinculados a programas públicos. Mas voltar a investir também será insuficiente se os projetos continuarem ruins, os custos forem mal calculados, o acompanhamento for falho e as obras forem demoradas e de baixa qualidade. Muito mais que dinheiro, gestão é o grande fator escasso para a formulação e a execução dos programas. Gestão, num país como o Brasil, é essencialmente um problema político. Governos de outros países podem precisar de missões do Fundo Monetário Internacional para aprender a fazer e a executar orçamentos. O problema do Brasil está além da competência de missões técnicas.



Sem inovar, Brasil abre mão de uma rota para sair da crise

Aline Scherer 
Revista EXAME 

Germano Luders/Exame 
O engenheiro Carlos Pacheco: experiências frustradas à frente 
de dois centros de excelência tecnológica no país

Campinas e Rio de Janeiro — Falar da dificuldade de inovar no Brasil é como criticar a Seleção Brasileira de Futebol: todo mundo tem algum palpite. O engenheiro Carlos Américo Pacheco pode não entender muito de futebol, mas ninguém pode duvidar de suas credenciais para discutir inovação.
Pós-doutor em economia pela Universidade Colúmbia e secretário executivo do Ministério da Ciên¬cia e Tecnologia no último mandato de Fernando Henrique Cardoso, Pacheco já comandou algumas das renomadas instituições do país na área de tecnologia. Uma delas foi o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Como reitor, ele olhou nos olhos a besta da burocracia brasileira.

Pacheco negociou um acordo do ITA com o americano Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das universidades mais prestigiadas do mundo e de onde saiu boa parte do grupo de 40 estrangeiros que ajudaram a montar o instituto brasileiro na década de 60.

O projeto previa a revisão do currículo, com a inclusão de matérias sobre empreendedorismo e negócios, além da criação de um laboratório de inovação para colaboração com empresas, como o Media Lab, do MIT. Depois de mais de um ano de negociações, o projeto sucumbiu por falta de apoio do governo na reta final, de acordo com Pacheco.

“A última coisa que queríamos era assinar o contrato e, no dia seguinte, um corte de orçamento acabar com o projeto. Decidimos encerrar as negociações antes que isso acontecesse e evitamos um papelão”, diz.

Pacheco resolveu encurtar seu mandato na reitoria do ITA e, em março de 2015, tornou-se diretor-geral do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, no interior de São Paulo, onde está em construção a maior obra de infraestrutura científica do Brasil. O Sirius será o mais moderno acelerador de partículas do mundo caso seu lançamento ocorra conforme o previsto, no final de 2018.

Quando estiver pronto, servirá para realizar pesquisas em áreas tão distintas quanto a de mineração e a de fármacos. O laboratório Argone, com sede em Chicago, contratado pelo departamento de energia americano para atualizar o acelerador de partículas do país, acompanha de perto as inovações contidas no Sirius. É um caso raríssimo em que o Brasil está produzindo algo mais avançado do que os Estados Unidos.

Em sua gestão à frente do CNPEM, Pacheco propôs aumentar as parcerias com o setor privado, com a prospecção ativa de clientes. “A ideia era multiplicar o impacto econômico positivo que somos capazes de produzir por meio da pesquisa”, diz. O CNPEM presta serviços para aproximadamente 40 empresas.

Mais contratos ajudariam a aumentar o orçamento, hoje totalmente dependente do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, que diminuiu de 93 milhões de reais, em 2015, para 61 milhões, em 2016, obrigando o corte de 10% do quadro de cientistas. No entanto, mais uma vez, Pacheco viu seu esforço desperdiçado.

“As pretensões eram oportunas, mas existiam muitos conflitos pessoais”, afirma o renomado físico Rogério Cerqueira, presidente do conselho de administração do CNPEM. Segundo ele, o relacionamento com os demais diretores não foi fácil por divergências quanto à real vocação do centro.

“Os 60 laboratórios do centro são abertos para o uso da comunidade científica mundial e, em adição a isso, trabalhamos também para a indústria. Todos entram na mesma fila para usar os espaços”, diz Cerqueira. Por ano, cerca de 2 000 pesquisadores de diferentes universidades e países utilizam as instalações do centro, em geral durante até quatro semanas — sem pagar nada por isso.

Em março, Pacheco pediu demissão do cargo. Um comitê de busca deverá escolher um novo diretor-geral até o final deste ano. As desventuras de Pacheco resumem uma série de entraves que tornam a inovação no Brasil coisa para abnegados. Embora ocupe atualmente o nono lugar entre as maiores economias do mundo, o Brasil está muito mal em todos os rankings globais de inovação.

O Global Innovation Index, realizado pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual, em parceria com a Universidade Cornell e com a escola de negócios Insead, coloca o país na 70a posição entre as nações mais inovadoras em 2015 — nove posições atrás em relação ao ano anterior. O ranking avalia números como emissão de patentes, volume de exportações e investimento per capita em pesquisa.

“Não importa o tamanho do mercado ou da economia, a inovação depende da qualidade do ambiente para os negócios”, diz Heitor Carrera, sócio da consultoria Boston Consulting Group. A Suíça é avaliada como a nação mais inovadora e tem o 20o PIB mundial.

“É um país que oferece pouco subsídio fiscal, mas apostou na educação e por isso atrai empresas atrás de mão de obra extremamente qualificada”, afirma Carrera.

Um estudo realizado pela consultoria Accenture com 200 profissionais em cargos ligados à inovação e à pesquisa no Brasil, obtido com exclusividade por EXAME, mostra que para quase metade deles a dificuldade em conseguir incentivos e a falta de políticas públicas são os dois principais entraves à inovação.

A lista de problemas não para por aí, e vai desde o excesso de burocracia até a pouca interação com parceiros externos. “Uma questão maior paira sobre todos esses aspectos — a falta de confiança. A empresa não confia no governo, que não confia na academia, e vice-versa”, diz o britânico Armen Ovanessoff, diretor do núcleo de pesquisas em tendências da Accenture e responsável pelo estudo.

Não é um drama apenas para especialistas e empresas. É um obstáculo para a economia como um todo. Com o fim da expansão da demanda por commodities e com a queda vertiginosa do preço do petróleo, economias muito dependentes de recursos naturais têm perdido seu brilho.

Um estudo coordenado pelos professores Calestous Juma e Lee Yee-Cheong, da Universidade Harvard, aponta a América Latina como prova de que somente o acúmulo de capital não é suficiente para garantir a redução da pobreza e o crescimento da economia no longo prazo. O continente tem um nível de renda relativamente alto e, ainda assim, apresenta baixas taxas de crescimento.

“É preciso inovação e tecnologia para transformar a base do desenvolvimento e diminuir a dependência da exploração dos recursos naturais”, afirmam os autores. De acordo com o estudo, os casos mais bem-sucedidos estão na Ásia — Coreia do Sul e Taiwan mantêm altas taxas de crescimento impulsionadas pela indústria e pela produção orientadas para exportação.

Os brasileiros entendem tanto de café quanto os coreanos e taiwaneses de tecnologia. Mas, enquanto Coreia do Sul e Taiwan exportam eletrônicos e semicondutores, o Brasil importa cápsulas de Nespresso.

“Temos importância fundamental na cadeia global de alimentos, e isso não está em questão”, diz Humberto Luiz Ribeiro, secretário de Comércio e Serviços do Ministério do Desenvolvimento entre fevereiro de 2011 e junho de 2014.

“Somos imbatíveis até em colheitadeira. O problema é que não participamos do que vem depois.” Ribeiro, que passou o ano de 2015 como professor convidado na Universidade Cornell, no estado de Nova York, diz que uma das chaves para o salto da economia do país é a “servicificação”, ou a agregação de valor ao que produzimos.

Se o caminho parece claro, o mesmo não pode ser dito da consistência com que o Brasil se mostra disposto a trilhá-lo. O americano Ken Herd sabe o que é lidar com essa falta de clareza. Herd abriu centros de desenvolvimento tecnológico para a multinacional General Electric na Índia, na China, na Alemanha e nos Estados Unidos.

Hoje é responsável pela unidade do Brasil, instalada no Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Lá, três máquinas do tamanho de prédios de sete andares ocupam um galpão de ¬¬3 000 metros quadrados.

Projetadas para simular as condições da exploração de petróleo e gás natural em camadas profundas do oceano, elas testam a resistência de materiais ao ambiente corrosivo do fundo do mar e ao efeito da pressão da água nos dutos de extração de petróleo que ficam a mais de 3 quilômetros de profundidade. Os primeiros pesquisadores chegaram em novembro de 2011.

De lá para cá, porém, as condições básicas que levaram à decisão de construir o centro de estudos mudaram radicalmente.

A Petrobras, principal cliente, está envolvida num escândalo de corrupção mais profundo do que a camada de pré-sal. Uma medida provisória assinada em setembro do ano passado para suspender a Lei do Bem — em vigor há dez anos para reduzir os impostos com as contratações de pesquisadores e com a importação de materiais de pesquisa e desenvolvimento — atrapalhou os planos dos executivos.

Seis meses mais tarde, em março, a medida foi arquivada e a Lei do Bem voltou a valer. Mas, para boa parte das empresas, o estrago já está feito. No planejamento da GE, o laboratório teria uma equipe de 400 pesquisadores. Por enquanto há 130.

“Com a previsão de corte de incentivos fiscais, desaceleramos as contratações”, diz Herd. “Fico frustrado em ver que a inovação no país dá dois passos para a frente e dois para trás”, afirma Gilberto Peralta, presidente da GE no Brasil. “Não há consistência.” A solução para superar os resultados pífios não depende só de dinheiro.

Ao contrário do que se poderia supor, em valores absolutos, o Brasil é o décimo país que mais investe em pesquisa e desenvolvimento: 64 bilhões de reais em 2013. O valor é quase quatro vezes maior do que o registrado uma década atrás. Um dado diz muito sobre a dispersão dos esforços para a inovação no Brasil: países inovadores têm menos prioridades oficiais nos investimentos relacionados ao tema.

No caso da Coreia do Sul são seis. No Brasil, as prioridades até o ano passado eram 15. A nova estratégia de inovação do Ministério da Ciên¬cia, publicada em maio, ressalta 11 áreas. Israel, com foco em nove temas, foi além na tentativa de garantir a eficácia dos investimentos. Criou a figura do cientista-chefe no começo da década de 70. O cargo está vinculado ao Ministério da Fazenda, e não ao da Ciência.

Assim torna-se possível manter uma forte conexão entre os resultados econômicos e as pesquisas que serão feitas. Atualmente, Israel tem a segunda maior concentração de startups per capita do mundo, atrás apenas do Vale do Silício, na Califórnia.

Um dos filhotes mais célebres desse ambiente favorável é a empresa que presta serviços de mapas colaborativos Waze, adquirida pelo Google em 2013 por mais de 1 bilhão de dólares, criada por três jovens israelenses cinco anos antes. A incapacidade da economia brasileira de incentivar a inovação produtiva — a que gera empregos e cria empresas mais fortes e lucrativas — resulta numa distorção básica.

Ao contrário do que acontece em nações reconhecidamente inovadoras, grande parte dos pesquisadores brasileiros não trabalha em empresas. A esmagadora maioria — 68% — está empregada em universidades. Apenas 26% estão no setor privado e outros 6% em instituições de pesquisa. Em países como Estados Unidos, Alemanha e Japão, bem mais da metade desses cérebros está nas companhias.

E o setor privado aqui tem diminuído sua participação. “A inovação é um investimento de risco que, em geral, demora para trazer resultados, mesmo que excepcionais. Mas grande parte dos empresários brasileiros prefere fazer investimentos mais seguros e com retorno em curto prazo”, afirma o consultor Valter Pieracciani, que ajuda empresas como Ambev e Nestlé a introduzir processos de inovação.

A pulverização dos esforços torna-se clara em outra estatística. No Brasil há 4 857 laboratórios de pesquisa em 185 universidades, de acordo com o primeiro levantamento desse tipo, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em julho de 2015. Mas 90% dessas instituições empregam, em média, somente quatro pesquisadores.

A maioria é controlada pelo Estado e não tem autonomia nem para contratar nem para demitir os pesquisadores. Além disso, o lucro que eventualmente geram é repassado à União. Algumas tentativas de driblar essas amarras nunca avançaram. Há quase 20 anos criou-se uma figura jurídica que permite celeridade na administração pública: as organizações sociais.

Nesse modelo, as contratações seguem o regime CLT e o lucro obtido, caso prestem serviços, pode ser reinvestido diretamente na organização, que recebe verbas públicas para suas atividades e tem metas quantitativas de desempenho revisadas anualmente. No entanto, ainda hoje existem pouquíssimas organizações sociais.

Dos 20 institutos de pesquisa cadastrados pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, somente seis operam dessa maneira. O CNPEM é um exemplo. O Instituto de Matemática Pura e Aplicada ¬(Impa), outro.

Não fosse essa “liberdade”, o instituto não teria como contratar o pesquisador Artur Ávila, primeiro latino-americano e lusófono a receber a medalha Fields, equivalente a um Prêmio Nobel no campo da matemática. Ávila trabalha no Impa durante seis meses e, na outra metade do ano, em um instituto na França.

Não é coincidência que nenhuma das quatro instituições de pesquisa brasileiras listadas entre as 100 melhores do mundo seja uma autarquia.

São elas: a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O ranking leva em conta, principalmente, a quantidade de publicações científicas por ano de cada entidade.

Vocação
Existem tentativas de driblar alguns desses entraves. Um exemplo é a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii), criada em 2013. Seu objetivo é ajudar os institutos de pesquisa e os laboratórios brasileiros de universidades a escolher uma vocação, de acordo com a melhor especialidade de cada um deles.

Nos seus três primeiros anos de funcionamento, a Embrapii conseguiu cadastrar 17 institutos dessa forma. Cada um deles tem 16 metas mensais, como prospecção de clientes, participação em eventos e taxa mínima de sucesso de projeto.

Mantida com recursos dos ministérios da Educação e da Ciência, a Embrapii banca um terço do valor dos projetos — o restante é negociado entre cada instituição de pesquisa e seus clientes. Até agora, para cobrir um terço das despesas de 60 projetos, a Embrapii investiu 54 milhões de reais.

“Nossa meta de longo prazo é cadastrar 1 000 institutos de pesquisa na próxima década”, diz Jorge Almeida Guimarães, presidente da Embrapii. Um dos projetos em andamento envolve o centenário Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), e credenciado na Embrapii como especialista em alto desempenho de materiais.

Uma aliança entre quatro empresas — Natura, Boticário, Theraskin e Yamá — contratou o IPT para desenvolver uma tecnologia capaz de encapsular partículas em escala microscópica. O projeto custou o total de 2,3 milhões de reais. Dividido em seis partes, o risco da inovação diminuiu consideravelmente para as companhias envolvidas. 

No Brasil, as empresas dispostas a investir em inovação ainda têm de encarar o tradicional embate entre empresa e academia, sobretudo quando se trata da divisão de autoria e dos lucros, fruto em grande parte da falta de prática nessa relação. Considerado um dos laboratórios farmacêuticos mais inovadores do país, o Cristália encontrou uma maneira para dirimir conflitos nessa frente.

O fundador e presidente da companhia, Ogari Pacheco, enfrentou várias dificuldades ao começar a fazer parcerias com universidades. “Ainda existe esse ranço em muitos lugares no país: o empresário acha os pesquisadores de universidades muito sonhadores, e os acadêmicos demonizam o empresário por buscar o lucro”, diz. Para mediar a relação, Pacheco montou um comitê científico em 2004.

O conselho se reúne uma vez por mês para analisar propostas de pesquisadores de vários lugares do Brasil e do mundo. Hoje há 50 parcerias já fechadas que ajudam a reforçar o reconhecimento da companhia como maior produtora de anestésicos da América Latina. Outro bom exemplo em construir confiança entre instituições vem da Embraco, maior fabricante mundial de compressores.

Dona de uma das parcerias com universidade mais tradicionais no país, a empresa criou um vínculo umbilical com a Universidade Federal de Santa Catarina. Desde os anos 80, a Embraco mantém um laboratório dentro da universidade, responsável pela criação do primeiro compressor com tecnologia nacional, vendido para os cinco continentes.

Atualmente, a Embraco desenvolve mais de 70 projetos em conjunto com 200 especialistas da universidade, entre alunos e professores — o mais promissor deles está orçado em 25 milhões de reais e é sigiloso. “Seja em ano bom, seja em ano ruim em termos de resultados financeiros, sempre mantivemos os investimentos na parceria”, diz Evandro Gon, diretor de inovação da Embraco.

“Desenvolver uma relação umbilical quebrou algumas das resistências dos pesquisadores em se dedicar aos nossos projetos.” Uma política econômica protecionista também não favorece a inovação brasileira. Como alguns dos empreendedores mais bem-sucedidos nessa frente sabem, a competição global é um estimulante natural para a inovação.

O caso da catarinense WEG, uma das maiores fabricantes de motores elétricos do mundo, com mais de 100 patentes obtidas apenas na última década, ilustra bem essa premissa. Numa visita à Alemanha em 1970, os fundadores da companhia perceberam que só existiam dois tipos de empresa nesse segmento: as grandes e dominantes; e as nanicas, fadadas a desaparecer.

Para ampliar a chance de fazer parte do primeiro grupo, decidiram que seria preciso exportar. Não só para incrementar a receita mas também para forçar o desenvolvimento de produtos competitivos globalmente. O primeiro embarque de motores, para o Uruguai, ocorreu no mesmo ano, quando a empresa tinha menos de uma década de existência.

Atualmente, a WEG detém 14% desse segmento no mercado americano e vive o período de expansão internacional mais intenso de sua história. Foram 20 aquisições no exterior desde 2010. A lógica por trás das compras tem sido ampliar o portfólio, entrar em novos mercados e adquirir tecnologia.

“A exposição ao mercado global tem sido fundamental para manter a competitividade da companhia”, afirma Harry ¬Schmelzer Jr., presidente da WEG.

“Os países bem-sucedidos foram os que se engajaram no comércio exterior e aprofundaram sua integração com o restante do mundo”, afirmam os economistas Fabio Giambiagi e Alexandre Schwartsman no livro Complacência — Entenda Por Que o Brasil Cresce Menos do Que Pode. Não há uma única medida capaz de solucionar todas as questões que ainda impedem o país de avançar nessa frente.

“As nações se engajam em trocas porque ganham ao se especializar em vez de tentar produzir tudo domesticamente.” Por enquanto, essa é uma batalha que, no Brasil, foi vencida por alguns empreendedores resilientes. E, infelizmente, é um grupo que ainda está longe de ser a regra.


A Turquia é o rosto do mundo

Sebastião Nery
Tribuna da Internet


Terrorismo sangra a Turquia, um dos berços da civilização

A Turquia não é um país. É um mapa. É o único país do mundo que já teve 12 capitais: Troia, Hattusa, Xanthos, Sardes, Pergamo, Amaseia, Bizâncio, Constantinopla, Bursa, Edirne, Istambul e Ancara hoje. Com belos e estranhos nomes, viveram desde o começo dos tempos naqueles 780 mil km2 e hoje tem 65 milhões de habitantes. São uma enciclopédia da humanidade, herança de civilizações superpostas, desde o início dos tempos. Ali há marcas do homem 100 mil anos antes de Cristo.

A Turquia é o maior museu a céu aberto do mundo. Cada cidade um pedaço de eternidade. Em cada canto um resto de civilização que se perdeu nas dobras da história e no sopro dos ventos, cobrindo de terra e tempo cidades e civilizações. Toda a história antiga girou em torno de brutais batalhas pela conquista de ligações de terras e mares, nos estreitos de nomes lindos: Gibraltar, Peloponeso, Dardanelos, Bosforo. Hoje, entre a Europa e a Ásia há um novo estreito, feito de terra e chão, a Turquia. Toda ela é patrimônio histórico e cultural da humanidade.

Ali a Grécia esteve durante séculos, o Império Romano deixou marcas e garras, a Mesopotâmia virou Europa, o Cristianismo viveu seus três primeiros séculos de perseguições e exílio e viveu seus três primeiros séculos de poder oficial. Ali a humanidade acendeu fogueiras eternas de cultura e sabedoria. Ali nasceram Homero o maior dos poetas e São Paulo o maior dos jornalistas, Tales de Mileto, Pitágoras, Anaximandro,

DE PLATÃO A SÃO PEDRO – 
Ali ensinaram Platão e Apelikon de Teos, os maiores dos professores e bibliotecários. Ali Hipódromos criou o urbanismo Ali se fez a primeira Escola de Escultura. Ali Cleópatra e Marco Antonio se amaram.

Quando Noé ancorou sua arca foi ali, no monte Ararat (5.165 metros). O Tigre e o Eufrates são dali. O templo de Artemisa e o Mausoléu de Halicarnasso estão (estavam) ali. Para se asilarem, Nossa Senhora e São João fugiram de Jerusalem para lá e lá morreram. São Pedro falou ali, pela primeira vez, a palavra cristão.

A gruta do patriarca Abraão, padroeiro dos judeus, era em Urfa, ali. E o manto, as espadas, uma carta, o estandarte, pelos da barba, dente e pegadas de Maomé estão ali. Ali houve uma biblioteca de 200 mil volumes, antes de Cristo, a mais importante do Império Romano.

Assassino, desarvorado, o terrorismo planta na Turquia sua barbárie, duas vezes em poucos meses, contra a Mesquita Azul, a Praça do Sultão, o aeroporto monumental. O terrorismo sangra a Turquia porque ela é o rosto da humanidade.

CASTELO DE AREIA – 
Agora, histórias outras. Nossas histórias.

1.- Em 2009, a “Operação Castelo de Areia” já contava valores e fazia cálculos na divisão de propina na Transpetro da Petrobrás . A força tarefa daquela operação encontra anotações do diretor financeiro Pietro Bianchi, da construtora Camargo Correa, associados a Sérgio Machado. O Ministério Público detalha a conta da Camargo Correa no Banco de Andorra transferindo valores para o HSBC Private Bank Zurich, em benefício da Jaravy Investments Inc. com sede no Panamá.

Ao anular a “Operação Castelo de Areia”, o Superior Tribunal de Justiça impediu as investigações, só retomadas com a Operação Lava Jato.

SERGIO MACHADO – 
Como o tempo é o senhor da razão, em dezembro a Polícia Federal executou mandados de busca e apreensão na Transpetro e nos endereços de Sérgio Machado. Ele era alcançado pela chamada “República de Curitiba”. Apareciam contas no exterior envolvendo seus filhos no esquema de corrupção montado na estatal.

Antecipando a possível prisão pela Lava Jato do bravo, exemplar e intransigente juiz Sergio Moro, Machado buscou em Brasília a Procuradoria Geral da República (PGR), garantindo entregar todo o esquema corrupto e os benefícios políticos dos desvios milionários dos recursos transferidos para os senadores que garantiram sua nomeação, por longo tempo, na presidência da Transpetro.

Na deleção premiada, o infame saía de gravador escondido até em camas de hospital, captando conversas com Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá, surgindo secretos diálogos não conseguindo gravar os senadores Edson Lobão e Jader Barbalho, nominou os cinco parlamentares como recebedores de vários milhões de reais da fortuna corrupta que administra. Na PGR, garantiu a devolução de R$ 75 milhões incorporados a seu patrimônio. No fim teve homologada pelo ministro Teori Zavascki, do STF, a sua delação que atingiu a cúpula do Senado no PMDB.

Machado cumprirá pena de dois anos e pouco na confortável residência na praia do Futuro, em Fortaleza, “em paz com a sua consciência”, como afirma. Nesse tempo de reclusão, contemplará os verdes mares cearenses sonhando com “pedras preciosas” da riqueza no seu “dolce far niente”.

CANTANHÊDE – 
A incansável e incomparável jornalista Eliane Cantanhêde, em “O Estado de São Paulo”, sob o título “Pena Leve”, constatou:

“Machado roubou mais para ele do que para qualquer partido. Quem devolve R$ 75 milhões desviou quanto? Ainda fica com quanto? Multa e tornozeleira desacreditam a máxima de que o crime não compensa”.

O golpe, o golpe, o golpe

Arnaldo Jabor 
O Globo

O verdadeiro golpista foi o PT, esse partido que nos desmanchou

Dilma e o PT continuam a bradar que está em curso um golpe contra eles. Vão berrar isso na Olimpíada, vão continuar até 2018, quando esperam eleger o Lula. Mas creio que esse demagogo narcisista encontrará seu destino antes disso.

É espantoso ver o ardor com que a “barbie” de esquerda Gleisi Hoffmann e o Lindbergh Farias, bem conhecido em Nova Iguaçu, defendem Dilma. Por que será? Para mostrar força, já que ambos são investigados na Lava-Jato? E o José Eduardo Cardozo? Ele parece estar lutando pela própria vida. Sua fidelidade canina é emocionante. Que será que ele quer? Algum sonho de poder ou é só amor?

Todos se aferram à tecnicalidade das chamadas “pedaladas fiscais”, questionando-as, periciando-as, como se esse detalhe fosse a única razão para o impedimento.

Sem dúvida, foram o irrefutável crime contábil de seu governo. Mas, não só as malandragens da administração são crimes; também foram espantosos os desastres econômicos e políticos que essas práticas provocaram. Foi golpe sim quando deram as pedaladas, desrespeitando a Lei de Responsabilidade Fiscal, para fingir que as contas estavam sob controle. Mais do que aumentar o endividamento, o governo recorreu a manobras para fechar as contas públicas. A chamada contabilidade criativa incluiu, por exemplo, repasses do Tesouro ao BNDES, que não aparecem como aumento de dívida.

O verdadeiro golpista foi o PT, esse partido que nos desmanchou. O golpe começou desde o governo Lula, que abriu para o PT e aliados as portas para o presidencialismo de corrupção.

Suas ações foram tão incoerentes, tão irracionais, que explicações políticas ou econômicas não bastam. Para entender a cabeça desses elementos, temos de recorrer à psiquiatria. O diagnóstico é um sarapatel feito de estupidez ideológica, falso amor ao povo, bolivarianismo, oportunismo e a deliciosa descoberta da facilidade de roubar num país tão permissivo com os ladrões.

Foram muitos os golpes que Dilma e sua turma cometeram.

Foi golpe quando mentiram espetacularmente na campanha eleitoral dizendo que o país estava bem, quando desde 2014 já rondava a falência. A presidente assumiu o segundo mandato já sabendo que dificilmente poderia cumprir as promessas de campanha.

Foi golpe quando, em decorrência da transgressão da Lei de Responsabilidade Fiscal, os gastos públicos disfarçados provocaram o desemprego de mais de 12 milhões de trabalhadores, com a inflação subindo para mais de 10% O endividamento do setor público disparou no governo Dilma. 

Em 2014, o setor público gastou R$ 32,5 bilhões a mais do que arrecadou com tributos — o equivalente a 0,63% do Produto Interno Bruto (PIB), o primeiro déficit desde 2002. A dívida pública líquida subiu pela primeira vez desde 2009, de 33,6% do PIB em 2013, para 70% agora. Sua herança maldita faz a dívida pública crescer quase dois bilhões por dia.

Foi um golpe quando permitiram que nosso rombo fiscal chegasse a R$ 170 bilhões.

Foi um golpe sim quando Dilma comprou a refinaria de Pasadena por 1 bilhão e meio de dólares, 300 vezes o preço original de 43 milhões. É assustador ouvir de Dilma que ela não sabia de nada (nunca sabem nada) e que o caolhinho Cerveró a teria enrolado.

Isso já poderia ser motivo para impedimento: ou ela fez vista grossa para as roubalheiras da Petrobras (“oh... malfeitos toleráveis para a ‘revolução’ petista...”) ou por incompetência e negligência criminosa mesmo, ao não examinar direito, como “presidenta” do Conselho de Administração, a caríssima compra de uma refinaria lata velha. Só isso, já era motivo. Aliás, o Cerveró reagiu às explicações de Dilma: “Ela sabia de tudo... ela mentiu e me sacaneou”. A chanchada está cada vez mais vulgar.

Foi imenso o crime da destruição de nosso maior orgulho, a Petrobras, que virou um ferro velho endividado, vendendo ativos. Foi golpe.

E vêm aí mais coisas horrendas na Eletrobrás do Lobão, nos fundos de pensão, nas empresas públicas. São golpes de morte.

Foi um golpe o aparelhamento do Estado pelos petistas. Foi golpe nomear mais de 50 mil elementos para lotear o governo.

Os gargalos na infraestrutura brasileira foram ignorados, e encareceram os custos da indústria. Foi golpe o atraso em obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e também a demora nas licitações de ferrovias, rodovias e portos. Foi golpe também financiar portos e pontes na Venezuela e em Cuba.

Mantega foi um “golpe”, denunciado por todos os economistas sérios do mundo. Dilma abandonou de vez o chamado “tripé macroeconômico” de FHC em favor de uma “nova matriz” que quebrou tudo. Não demitiram Mantega porque seria admitir um fracasso, inadmissível para uma velha comuna.

Foi golpe o termo de posse que Dilma enviou para Lula em segredo, para livrá-lo da Justiça comum.
Golpes pouco lembrados são os gigantescos gastos para fazer propaganda. Uma prática vexaminosa sempre foi o dinheiro que se gastou em propaganda dos órgãos públicos para enganar a população sobre fracassos inconfessáveis.

Só em 2014, Dilma gastou mais de 2 bilhões e meio em propaganda. Em 2015, dois bilhões e trezentos. Total: seis bilhões de reais para engambelar a opinião pública em dois anos. E mais: desde o início do governo do PT foram gastos mais de 16 bilhões de reais em publicidade. Não é um golpe?
E o pior golpe é o inconcebível desrespeito às instituições do país. Dilma acusa o Supremo Tribunal, a Procuradoria Geral, o Congresso, milhões de pessoas nas ruas, de tramarem o golpe contra ela.

E mais ainda:

É um golpe feio a arrogante “presidenta” pedir sanções contra o Brasil a países vagabundos da Unasul bolivariana... A presidenta do Brasil fala mal do Brasil no mundo todo. Pode?

Isso poderia até ser o caso de infração à lei de Segurança Nacional. Lei 7.170/83.

Uniram-se os inimigos da lava jato. E nós?

Percival Puggina. 

 Cheguei a crer que fosse inviável parar a Lava Jato. Hoje, essa certeza arrefeceu. Ainda que não seja possível retirar do juiz Sérgio Moro e dos promotores da força-tarefa as garantias constitucionais que lhes asseguram a autonomia para agir, existem maneiras de lhes suprimir os meios de ação e, até mesmo, de os neutralizar. A despeito da respeitável determinação da turma de Curitiba e do irrestrito apoio do povo, essas artimanhas estão sendo exibidas diante dos nossos olhos.

A Lava Jato suscitou contra si o mais poderoso grupo de inimigos que já se formou no Brasil. Para combatê-la, uniram-se parceiros tradicionais e inimigos tradicionais, instalados em elevadíssimos andares no edifício do poder. Estão fisicamente dispersos, mas se articulam e operam, como bem se sabe, em todos os poderes e instituições da república. A força tarefa tem contra si numerosa bancada no Congresso Nacional, muitos dos melhores advogados do país, bem como negociadores e articuladores políticos de competência comprovada. Esse conjunto de antagonistas dispõe, ao alcance da mão, de todos os meios financeiros e materiais que possam ser requeridos pela tarefa de a estancar. 

E note-se: estou me referindo somente aos figurões que hoje medem diariamente a distância que os separa da porta da cadeia, seja porque lá já estão, seja porque é para lá que receiam ser levados. A estes se acresce, ainda, um conjunto de forças figurantes. É formado por quantos dependem do grupo principal e têm grande interesse em que malefício algum aconteça a seus maiores. A onda de choque de cada sentença e de cada prisão também causa dano sobre esse numeroso grupo que hoje enfrenta a interrupção de seus fluxos de caixa. Aliás, se fosse possível uni-los numa legenda, por exemplo, formariam talvez a mais influente agremiação do país.

É o exército da máfia. Legião de brasileiros que acorda, diariamente, com olhos e ouvidos postos nos movimentos da Polícia Federal, face mais imediatamente visível das operações já criadas ou ainda por ser instaladas e pensa, em harmonia com o andar de cima: isso tem que parar.

Há mais, leitor. Os inimigos da Lava Jato dispõem, em seu favor, de uma legislação protecionista, garantista, que faz do foro privilegiado e do sigilo sucedâneos legais da omertà, a lei do silêncio da máfia no sul da Itália.

Pois bem, se essas forças estão se articulando e, visivelmente, começam a agir nos processos, nos projetos e composições de poder, chegou a hora de os cidadãos retornarem às ruas, conforme está programado para acontecer no próximo dia 31. Os últimos meses tornaram evidente que o impeachment é irreversível. O governo Dilma acabou. Ótimo. Revelou-se com nitidez, porém, um inimigo que está além dos jogos de guerra entre governo e oposição. Refiro-me à criminalidade atuante nas instituições nacionais.

Por causa dela e contra ela, é necessário que no dia 31 de julho, aos milhões, voltemos novamente às ruas, em ordem e com entusiasmo cívico. É hora de exigirmos o fim do foro privilegiado, de cobrarmos a aprovação sem delongas das medidas do MPF contra a corrupção e de levarmos à Lava Jato mais do que nosso apoio. Faremos ver a seus inimigos que a nação os conhece e rejeita. Com determinação e esperança, unidos, daremos à Lava Jato nossa voz, nosso ânimo e a expressão de nosso amor ao Brasil.

Carta de uma mulher honesta

Editorial
O Estado de São Paulo

Na Comissão Especial do Senado que julga o impeachment, o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo, na condição de advogado da presidente afastada, tem repelido com veemência, alegando a necessidade de respeitar o rigor processual, qualquer argumento da acusação relativo ao conjunto da obra de Dilma Rousseff que não se atenha às duas imputações de crime de responsabilidade que constam do processo: as “pedaladas” fiscais e os decretos que liberaram recursos sem autorização prévia do Congresso Nacional. Na quarta-feira passada, perante a mesma comissão e sem aparentar constrangimento, Cardozo foi obrigado a fazer exatamente o que não se cansou de condenar. Por delegação de Dilma, que optou pelo direito de se manter protegida atrás das colunas do Palácio da Alvorada, o advogado leu o “depoimento pessoal” de sua constituída, que, além de repetir os argumentos de defesa até agora expostos perante a comissão, dedica várias páginas à autoglorificação piegas e à exaltação de seu governo falido.

“Saibam todos que vocês estão julgando uma mulher honesta, uma servidora pública dedicada e uma lutadora de causas justas”, começa por afirmar a imodesta descrição que Dilma faz de si mesma. E prossegue na mesma linha: “O destino sempre me reservou grandes desafios. Alguns pareciam intransponíveis, mas eu consegui vencê-los. Já sofri a dor indizível da tortura, já passei pela dor aflitiva da doença, e hoje sofro a dor igualmente inominável da injustiça. O que mais dói neste momento é a injustiça. O que mais dói é perceber que estou sendo vítima de uma farsa jurídica e política”.

Sobre Dilma ser honesta, trata-se de afirmação prematura. As investigações sobre a compra da Refinaria de Pasadena, autorizada por ela quando presidia o Conselho de Administração da Petrobrás, continuam em andamento. Pode ser que ela não tenha obtido benefícios materiais nesse e em outros episódios sob investigação policial. Mas honestidade não é apenas não roubar. É também impedir que os outros roubem, quando se tem poder para isso. E é implausível a ideia de que Dilma não sabia de absolutamente nada sobre o mar de lama em que as administrações petistas navegaram. Omissão, nesse caso, também não é honestidade. Como não é tampouco honesto mentir em campanha eleitoral.

Quanto às dores “indizíveis” de que Dilma se orgulha de ter padecido “sem esmorecer”, muitas coisas podem ser ditas. Para os 11 milhões de brasileiros que confiaram em suas promessas de prosperidade e hoje amargam o desemprego e a impossibilidade de dar uma vida digna a suas famílias, é igualmente “indizível” a dor da frustração que o governo de Dilma lhes impôs.

Em outro trecho da carta, Dilma combina pieguismo de mau gosto com total alheamento da realidade: “Olho para trás e vejo tudo o que fizemos. Olho para a frente e vejo tudo o que ainda precisamos e podemos fazer. O mais importante é que posso olhar para mim mesma e ver a face de alguém que, mesmo marcada pelo tempo, tem forças para defender suas ideias e seus direitos”. Se ela de fato vê “tudo o que fizemos”, deveria morrer de vergonha. E se também enxerga o que “precisamos e podemos fazer”, está mais do que na hora de se poupar do constrangimento de um impeachment que sabe inevitável, entregar a carta de renúncia e retornar de vez a Porto Alegre.

Dilma não consegue realmente enxergar, em qualquer direção para a qual dirija o olhar, os erros que cometeu, nos quais por isso persevera ao demonstrar que cultiva a imagem de si própria como mártir da democracia. Em matéria de erros, o máximo a que ela se permite é o conforto das generalidades: “Na minha vida, os que me conhecem sabem que incorri provavelmente em erros e equívocos, de natureza pessoal e política. Errar, por óbvio, é uma decorrência inafastável da vida de qualquer ser humano”.

Felizmente, o impeachment de Dilma Vana Rousseff consolida-se a cada dia como uma “decorrência inafastável” dos muitos erros em que ela decerto, e não “provavelmente”, incorreu.

E ficam os (longos) dedos

Carlos Brickmann
Brickmann & Associados Comunicação

Assim é se lhe parece, diz a deliciosa peça de Luigi Pirandello. Mas a política, território do jogo de sombras, nunca é o que parece.

O poderoso presidente da Câmara, Eduardo Cunha, renunciou ao cargo. Mentiu ao plenário e foi apanhado – o que é quebra de decoro e motivo de cassação. Diz que saiu para que seu processo não mantenha a Câmara paralisada. Mas só saiu porque as chances de perder o mandato cresciam, porque a Procuradoria ameaçava de prisão sua mulher e sua filha, porque é melhor deixar a Presidência do que perder o mandato inteiro, porque é melhor perder os anéis e manter os ágeis dedos em boas condições de uso.

A ex-poderosa presidente afastada, Dilma, em processo de impichamento, trabalha do mesmo jeito: prepara o Programa da Volta, um plano de esquerda para retornar ao poder ao lado de Lula. Mas o laço entre Dilma e Lula era vidro e se quebrou, as chances de a presidente ser desimpichada se reduzem, e que é que ela faria no Governo, se seus aliados mudaram de lado e hoje são Temer desde criancinhas? Voltar-se-iam a ela? Adulá-la-iam – até Meirelles, que era a solução de Lula para a Fazenda?

Lula já não manda na Fazenda, nem no sítio de Atibaia, que diz que não é dele. E essa história de volta é esquisita. Como nos antigos livros, há Moros na costa. O caminho para Atibaia e Guarujá, ou para São Bernardo e o velho sítio Los Fubangos, pode passar por Curitiba.

Melhor não.

O que não parece é
O ex-presidente Lula mudou-se temporariamente para Brasília, no hotel Royal Tulip (que não é dele, eta leitor viciado em pensar maldade!), para comandar a campanha de Dilma contra o impeachment. A equipe de Lula e Dilma inclui personalidades como o senador Roberto Requião, do PMDB do Paraná (e amigo do presidente venezuelano Nicolás Maduro, aquele que vê num passarinho a imagem de seu ídolo Hugo Chávez); o pessoal do PT, do PCdoB (para quem Israel tomou o comando do Governo Temer, com ministros judeus como Raul Jungmann e Sérgio Etchegoyen – ambos, aliás, cristãos), do PSOL, PDT, Frente Povo sem Medo, Frente Brasil Popular.

Mas o objetivo não é ganhar a batalha do impeachment: é mostrar que há disposição de luta. E só. Já está bom demais.

E os papagaios de pirata?
Para ter certeza de que a batalha não é para valer, procure nas fotos da campanha de Dilma os dilmistas de carteirinha. O prefeito paulistano Fernando Haddad; o governador mineiro Fernando Pimentel, amigo de Dilma desde os tempos em que consideravam “companheiros de armas”. O ministro pra qualquer obra Aloízio Mercadante.

As fotos de Dilma, quando as há, estão livres deles. Talvez posem hoje atrás dos ombros de outro personagem bem menos popular do que já foi: Wally, de Onde Está Wally.

O que é …
Um dos articuladores do impeachment foi Paulo Skaf, da Fiesp, que criou os patos infláveis contra a alta dos impostos (“não vou pagar o pato”). Agora o presidente Temer já admite a alta dos impostos para reduzir um pouco o tremendo déficit orçamentário. A CISE, talvez, sobre os combustíveis, que não precisa de aprovação do Congresso. Ou a CPMF, que o pessoal de Dilma tanto defendia.

Problemas? Não: o pessoal de Dilma agora é de Temer. Nem é preciso modificar as ideias de que todos precisam ter múltiplos assessores. Para o Governo, vamos combinar, é mais fácil aumentar impostos do que reduzir despesas. Onde já se viu privar um funcionário de médio escalão de seu carro com motorista?

… mas se disfarça
A campanha “somos contra a alta dos impostos, mas é necessária” já começou: pesquisa patrocinada pela Associação Comercial de São Paulo diz que 77% dos brasileiros acham justo que os mais ricos paguem mais impostos. Aliás, não são bem os mais ricos: são os que têm maiores salários.

As grandes fortunas ficam fora. Rico mesmo é sempre poupado.

Dúvida pertinente
Quem é mais malvado: quem acha que Temer é a cara da Dilma ou quem diz que a Dilma é a cara do Temer?

Assalto triplo
Editorial da Folha de S.Paulo: “O dossiê para a candidatura do Rio continha 1.100 projetos de arquitetura e urbanismo distribuídos em 538 páginas. Foram anexados 130 documentos de garantias que, se empilhados, alcançariam 2,5 metros de altura. Trata-se um monumento representativo do que restará para a cidade após a Olimpíada: mais papel do que legado”.

Tiro ao alvo
A Folha, no editorial, foi desnecessariamente cruel. No balanço de custos e benefícios da ação olímpica oficial, ficará comprovado que tanto papel era não apenas necessário, mas até insuficiente.

Chumbo Gordo – www.chumbogordo.com.br
carlos@brickmann.com.br
Twitter: @CarlosBrickmann

Política explícita

Carlos Alberto Sardenberg 
O Globo

Governo é interino, depende de votos de senadores, que não gostam de brigar com o funcionalismo

Os reajustes já concedidos ao funcionalismo público federal custarão R$ 68,7 bilhões nos próximos três anos. Sem problemas, diz o pessoal do governo Temer. Esse gasto estava previsto e cabe no processo de ajuste fiscal, que, aliás, prevê déficits nos próximos dois a três anos.

Entenderam?

O governo promete um ajuste, ou seja, a redução do déficit e um futuro superávit. Então, espeta uma despesa de quase R$ 70 bi — e tudo bem? Para qualquer pessoa de bom senso, a conversa é simples: sem os reajustes, o déficit seria expressivamente menor, de maneira que o ajuste exigiria menos sacrifício em outros setores e menos endividamento.

Toda vez que o presidente Temer e seus economistas tentam explicar que a lógica é diferente, a coisa só piora. Por exemplo: dizem que esse gasto com o funcionalismo já estava previsto e se trata de um reajuste abaixo da inflação.

Então imagine: você está com suas contas no vermelho, e anuncia para a família que está comprando um carro. Seu pessoal se inquieta: então vamos aumentar nossa dívida? E você: sem problema, estava previsto, e o carro está com um preço bom.

A mesma coisa vale para o alívio concedido na dívida dos governos estaduais. Mais dinheiro para os estados, menos receita para a União, logo, maior o déficit federal, mas estava previsto, cabe no ajuste etc...

Tudo considerado, era mais simples ficar no óbvio: o governo é interino, depende de votos de senadores e seus partidos, os quais querem atender a suas bases estaduais e não gostam de brigar com o funcionalismo.

Tradução: o governo está adquirindo seu mandato efetivo. Além disso, os operadores políticos de Temer dizem que estão trocando concessões por votação de matérias importantes para o ajuste futuro das contas.

Sendo assim, eis a questão seguinte: conseguindo o mandato com tais concessões, o governo terá força para depois impor seu programa, para governar como promete ao público?

Terá, garante um amigo nosso, parlamentar de muitos anos, que explica sua convicção de um modo, digamos, popular.

Assim: “Por enquanto, o presidente não é presidente. É interino, depende de uns votos de senadores e seus aliados. E esses não aliviam. Chegam lá no gabinete, vão entrando e cantando de galo: ‘Ô Michel, eu quero no mínimo uma diretoria e duas secretarias de ministério bom’. Depois de votado o impeachment, mandato assegurado, a história é outra. Os mesmos caras vão chegar lá pedindo licença e cumprimentando: ‘Presidente, como vai o senhor?...”

Política explícita.

Parece que a equipe econômica acredita nisso. O ministro Henrique Meirelles cercou-se de fiscalistas — gente que leva a sério o equilíbrio das contas públicas — e garante que tem a fórmula para tocar o ajuste. A peça chave é a proposta de emenda constitucional estabelecendo que o gasto do governo federal de um ano é o mesmo do ano passado mais a inflação decorrida.

Trata-se, portanto, de um congelamento do gasto real. Quando a economia voltar a crescer, em dez anos a despesa do governo federal terá uma queda equivalente a cinco pontos percentuais do PIB. É dinheiro.

Com isso e mais a reforma da Previdência, outro ponto chave da proposta de Meirelles, será possível voltar ao superávit e à redução do endividamento.

É o roteiro da equipe econômica.

Seria o mesmo da equipe política?

Vamos falar francamente: o congelamento real das despesas muda um hábito político antigo, o de que sempre cabe mais alguma clientela no gasto público. E sempre cabe porque as demandas são sempre justas.

O modo como o pessoal do governo Temer justifica os aumentos do funcionalismo é a expressão exata dessa mentalidade: não tem dinheiro, vai aumentar o déficit, mas sabe como é... o pessoal está merecendo.

O mesmo para o alívio da dívida dos estados — os governos estaduais gastaram além da conta, mas sabe como é... estão precisando. E assim vai.

E convém reparar: reforma da Previdência e teto para o gasto público dependem de emenda constitucional, com maioria de três quintos dos votos na Câmara e no Senado.

Haja política explícita.

Começou a operação Lava Crime

Guilherme Fiuza
Revista ÉPOCA

O escândalo obsceno de Pasadena, repleto de digitais de Dilma, não mereceu o devido inquérito

O ex-ministro Paulo Bernardo foi preso. Ele ocupou as Pastas do Planejamento e das Comunicações nos governos Lula e Dilma. Um ministro importante – ou, mais que isso, um dos líderes da hegemonia petista no Planalto. É acusado de roubar R$ 100 milhões de servidores públicos – destinando a maior parte do roubo para o caixa do Partido dos Trabalhadores, sem esquecer-se de reservar seu pixuleco particular. Mas Paulo Bernardo foi solto pelo STF, em decisão providencial do companheiro Dias Toffoli.

Veio também do Supremo Tribunal Federal outra decisão importantíssima para a preservação da saúde da quadrilha. Em ato do companheiro Teori Zavascki, o processo contra Lula por tentativa de comprar o silêncio de Nestor Cerveró foi parar longe das mãos de Sergio Moro. O argumento do ministro companheiro para mandar a operação cala a boca para a Justiça Federal de Brasília é impagável: o suposto delito de Lula denunciado pelo senador cassado Delcídio do Amaral não está no âmbito das investigações da Lava Jato.

Perfeito: o ex-diretor da Petrobras Nestor Cerveró foi condenado no escândalo do petrolão, investigado pela Operação Lava Jato, mas a tentativa de um ex-presidente da República de impedir que o condenado contasse tudo o que sabia sobre o escândalo investigado pela Operação Lava Jato não tem nada a ver com a investigação conduzida pela Operação Lava Jato. Claro como petróleo roubado.

Surge então o companheiro procurador Rodrigo Janot, autor de vistosas coreografias para bagunçar o processo de impeachment, e recomenda que José Dirceu tenha sua pena pelos crimes do mensalão perdoada. Outra decisão cristalina. Ela ocorre no exato momento em que o juiz Sergio Moro, esse golpista, aceita nova denúncia contra o ex-ministro de Lula e o torna réu pela segunda vez na Lava Jato. Como se vê, a floresta de implicações de Dirceu no assalto ao Estado brasileiro perpetrado pelo PT não enseja outra providência senão o perdão.

E a quem caberá, no STF, a decisão final sobre o perdão ao guerreiro do povo brasileiro? Ao companheiro Luís Roberto Barroso – isso, aquele mesmo. Façam suas apostas.

Outra dobradinha da Procuradoria-Geral com o Supremo que tem feito história no refresco à quadrilha do bem é a Janot-Teori. Funcionou melhor que a zaga do Barcelona rebatendo a saraivada de denúncias contra a companheira afastada Dilma Rousseff. Nem o escândalo obsceno de Pasadena, repleto de digitais da companheira, mereceu o devido inquérito – sempre sob as escusas de não haver indícios suficientes contra ela, embrulhadas no sofisma de que presidente no exercício do mandato não pode ser investigado.

Mais uma falsidade, naturalmente. Presidente não pode ser réu, mas o delito no qual supostamente se envolveu pode e deve ser investigado. Menos na democracia companheira – onde as instituições são muito sensíveis aos corações valentes.

Aí aparece uma perícia no Senado decretando que a Sra. Rousseff não pedalou. Como o Brasil é uma mãe, a opinião pública é uma geleia e as instituições são uma sopa, a barbaridade se dissemina com solene indignação.

Não adianta informar ao jardim de infância que a perícia contratada pelos ciclistas operou apenas mais uma malandragem – alegando que não há ato direto da Sra. Rousseff nas pedaladas. Claro que não há. O ato da ex-mandatária foi justamente uma omissão – não pagar os débitos do Tesouro com o Banco do Brasil, a Caixa Econômica e o BNDES, forçando os bancos públicos a emprestar a seu controlador, o que é proibido pela lei fiscal.

A tal perícia deixou só um crimezinho pendurado no processo de impeachment, reconhecendo que os decretos de crédito suplementar não foram autorizados pelo Congresso Nacional. No país da geleia geral, onde as convicções são formadas com a meticulosidade de um churrasco em Atibaia, vai emergindo a versão de que os ladrões não eram tão maus assim – e no fundo são até simpáticos. Aí, Dilma lança sua vaquinha para percorrer o Brasil contra o golpe. E você achava que sabia o que era uma ópera-bufa.

Libertem Paulo Bernardo. Prendam os milhares de servidores públicos desfalcados no escândalo do crédito consignado. Tragam Dilma de volta. Deem mais uma chance à elite vermelha – ela ainda não tinha terminado de raspar o tacho.

O ziriguidum da corrupção

Editorial
Carlos José Marques (*) 
Revista ISTOÉ

Bateu na cadência do samba o mais novo e espetaculoso desvio de dinheiro público levado adiante pela comissão de frente dos saqueadores do Petrolão. Também pudera! Em se tratando de roubo petista na esfera estatal o esquema virou um verdadeiro carnaval. Quem é o mestre-sala da vez? Olha o Paulo Ferreira aí, gente! Sim, mais um tesoureiro do PT – como passou a ser rotina – meteu a mão na cumbuca dos recursos do Estado e financiou, para estupor geral (se é que ainda é possível se chocar com essa turma), várias agremiações carnavalescas e seus diletos parentes. Farra com verba alheia nos dias de Momo. PF – não confundir com o prato executivo, nem com a polícia que apura o festival de tramoias – tem uma queda pelo batuque dos pandeiros e se transformou até em tema de enredo de escola de samba.

A Academia Praiana de Porto Alegre o homenageou, como bom patrono que foi, por bancar as fantasias, carros alegóricos e quetais com o dinheiro afanado do Centro de Pesquisas da Petrobras (Cenpes), uma ilha de excelência tecnológica transformada em covil dos bandoleiros do PT. O tesoureiro Paulo Ferreira não fez por menos. Teve até madrinha de escola recebendo um “mensalinho” do padrinho com propina gorda da Petrobras. A Sociedade Recreativa e Beneficente Estado Maior da Restinga (popularmente conhecida como Tinga) não para de aplaudir a generosidade do doador arrivista. Um escárnio sem tamanho! A que ponto a era de governos do PT engabelou o Brasil. 

É incrível que todos os tesoureiros do partido tenham sido pilhados em flagrante nos esquemas de corrupção federal. Repita-se: todos estiveram metidos nas irregularidades, encrencados com as mais variadas delinquências, de extorsão pura e simples a enriquecimento ilícito. Para não perder a evolução do bloco dos quadrilheiros, vale lembrar a lista: como abre-alas, Delúbio Soares, primeiro a ir parar atrás das grades. Seguiu-se a ele o também ex-tesoureiro petista e salafrário de estrela maior, João Vaccari Neto, que continua na prisão. Paulo Ferreira se junta agora aos petralhas do cofre petista. E o último deles, Edinho Silva, para não perder o ritmo do rebolado, é investigado como os demais por ameaçar empresários e exigir contribuições de caixa dois para a campanha da honorável Dilma Rousseff, aquela que nada sabe, nada viu.

Essa, por sua vez, na coreografia ensaiada de porta-bandeira guiada pelo mestre Lula, tratou de entoar o refrão de vítima de uma “farsa jurídica e política”. Palavras dela. Esculhambou com a sua cantilena os poderes constituídos do País, colocando-os na condição de meros embusteiros articulados em conluio para uma ardilosa deposição. Dilma enxerga estandartes de um golpe aonde só existe ritos e regras constitucionais. Ofende a lei e seus executores. Lula, de sua parte, comporta-se como um pierrô abandonado. Tenta voltar à ribalta jogando confetes e serpentinas nos foliões do Congresso para atrair apoio à causa perdida de uma Dilma reestabelecida no trono da algazarra. Na semana passada voou à Brasília no intento de convencer indecisos a votarem contra o impeachment. Prometeu mundos e fundos, como se tivesse crédito para tanto.

 Dilma, no seu plano, viraria uma rainha sem poder, só fanfarra, consagrando dessa maneira o verdadeiro golpe de que tanto falam. E ainda acenou com a possibilidade de ajudar nas campanhas dos prefeitáveis. Francamente, existem ainda políticos nos dias de hoje que desejem o selo de garantia petista, e de um lulismo carcomido, para as eleições que se avizinham? A apoteose no desfile de bizarrices se deu com o pedido de sua banca de advogados para que o juiz da Lava-Jato, Sergio Moro, se declarasse suspeito nos processos que envolvem o ex-presidente. Lula almeja regime de “exceção de suspeição” de Moro por se sentir perseguido quando investigado nos casos do sítio de Atibaia e do tríplex no Guarujá. Nada fez, nada levou dessas propriedades. Entenda-se a extensão infinita de “injustiças” contra os petistas e aliados: dias atrás, o ex-ministro Paulo Bernardo, mais um, teve os bens bloqueados por fraudes no crédito consignado. 

O ex-ministro Edison Lobão também foi alvo de inquérito por lavagem de dinheiro. O amigo dileto de Dilma, Valter Cardeal, entrou na rota de processos por montar um propinoduto no sistema elétrico, como atravessador de recursos ilícitos ao partido. E no parlamento os senadores investigados Gleisi Hoffmann (mulher de Bernardo) e Lindberg Farias continuaram a bradar fervorosamente contra a espiral de provas das irregularidades. O escarcéu petista está virando comédia. Como um Quixote a atacar moinhos, até a idealizadora da agremiação, Marilena Chaui, viu fantasias no enredo armado. Disse que o juiz Moro foi treinado pelo FBI e que o objetivo da Lava-Jato é tirar o pré-sal dos brasileiros. Os petistas sapateiam na avenida, com piruetas e enganações, para iludir a plateia em um ziriguidum da corrupção.

(*) Carlos José Marques é diretor editorial da Editora Três

É necessário diminuir o peso do Estado na economia

Editorial 
O Globo 

O preconceito com privatizações ficou à margem do tempo. Mudou o conceito, da simples venda de empresas estatais para uma real mudança no papel do Estado


Em meio a uma crise sem precedentes, produziu-se em Brasília uma autêntica obra de arte política, a Lei de Responsabilidade das Empresas Estatais.

Durante ano e meio, à margem da tempestade perfeita que caiu sobre o Executivo e o Legislativo, por causa da corrupção em contratos de empresas estatais e órgãos públicos, o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) negociou à exaustão com todos os partidos, e aprovou um conjunto de normas com o objetivo de impedir o uso político das empresas estatais.

O resultado foi um raro consenso parlamentar — PT incluído — sob a forma de legislação inovadora, em torno da profissionalização da gestão das empresas públicas, com adoção de mecanismos de mercado e barreiras inéditas ao loteamento político-partidário.

Houve uma tentativa rasteira de subversão do projeto na Câmara, mas o Senado recuperou o espírito da proposta de lei, legitimou-a no voto, e o presidente interino Michel Temer sancionou na semana passada, com vetos pontuais e precisos.

Agora, é preciso ir além. A emergência da crise impõe a necessidade de redução do peso e do tamanho do Estado na economia. Não se trata de mera questão ideológica ou acadêmica, mas de racionalidade: a sociedade não suporta mais pagar por um Estado caro, esbanjador e ineficaz tanto na produção quanto na prestação de serviços essenciais.

Tem-se um bom retrato das distorções no conjunto das empresas públicas, usadas politicamente na última década de forma intensiva e prejudicial ao erário.

Além do mais, qual a razão para a Petrobras manter ativos como uma fábrica de fios sintéticos ou alguns dos campos de petróleo no Nordeste se a própria estatal avaliou e concluiu pela certeza de que já não precisa deles? Qual o sentido de se manter empresas como a Telebras, a Valec e a Infraero?

O preconceito com privatizações ficou à margem do tempo. Mudou o conceito, da simples venda de empresas estatais para uma real mudança no papel do Estado. Como lembrou a economista Elena Landau, em recente entrevista ao GLOBO, o novo ciclo alcança áreas como infraestrutura, se reveste de formas inovadoras, como os contratos de gestão, as parcerias público-privadas, e concessões. Ao Estado moderno cabe, sim, forte papel regulatório, com atuação eficaz na defesa da sociedade.

A meta fiscal estabelecida pelo governo federal para 2017 significa, na prática, uma tentativa de conter o déficit nas contas públicas no limite de R$ 139 bilhões.

Para realizá-la, governo federal e os estados dependem do auxílio das chamadas receitas extraordinárias, passíveis de se obter na escala necessária apenas com a venda de empresas públicas, contratos de gestão, parcerias público-privadas e concessões. É a saída.

Macarrão instantâneo e doutrinação marxista

Renan Cruz. 
Instituto Liberal

O lugar em que menos tive aulas de História durante um ano letivo foi na faculdade de História... Era doutrinação pura. Muitos ouvem falar do aparelhamento esquerdista na área de Humanas, mas poucos sabem o tamanho do precipício intelectual que está sendo cavado por dentro da chamada "academia". A extrema-esquerda, daquele tipo que ainda considera o PT moderado demais em sua implantação do bolivarianismo, está roendo as cordas de sustentação do pensamento no Brasil.

A doutrinação é rápida. Vi acontecer. Comparo ao macarrão instantâneo. Um discurso de três minutos de esquerdices ferve a cabeça do sujeito e, pronto, ele está no ponto para ser consumido. Um psolista já surge com garfo e faca na mão e o consome. Volte três anos depois e verá o quanto de asneira estará sendo declamada pelo(a) futuro(a) professor(a).

A formação de professores está consumida pelo "marxismozinho" de segunda classe, imposto de cima para baixo. O marxismo parte de quem ensina, orienta e dá as notas. O plano é perfeito e poucos escapam. A maioria chega com uma formação básica deficitária, com valores e posicionamentos ainda imberbes, inaptos a subsistir à pressão.

Embora intelectualmente desonestos, essa raça consegue captar, como se tivessem um radar dos infernos, quais são os cooptáveis. E nestes infunde o discurso. Como estamos falando da maioria, o que temos nas universidades brasileiras são esquerdistas "saindo pelo ladrão" (sem trocadilhos) e entrando nas salas de aulas de crianças de onze a dezessete anos. Em um período crucial de formação estes "professores" incitam seu alunado a transformar-se, também, em mini revolucionários de botequim.

Logo, em nossas escolas não há mais período de formação, mas sim período deformação. Assim, o ciclo se consolida. Mesmo em colégios particulares a lobotomia segue incólume. "Limpa a alma" dos burguesezinhos com os progressismos paridos no pós-68, redimidos por infundirem nos filhos a famigerada "consciência social".

Por outro lado, pais que pagam caro para dar aos filhos a melhor educação, acabam descobrindo que os seus filhos se transformaram em "gremlins" anarcossocialistas que compartilharão vídeos da Marilena Chauí e, na universidade, serão os primeiros a aplaudir qualquer pretenso intelectual que cite de cor os frankfurtianos. Tudo em razão de incitações ebulientes de militantes de meia pataca travestidos de educadores.

O que sei de história pesquisei por conta. A graduação que empunho, por si só, não me creditaria a ser qualquer coisa além de sindicalista, militante sem-terra com I-phone ou papagaio psolista. As licenciaturas e cursos de pedagogia, desprezadas no ambiente universitário, graduam professores ruins e como o nível de corte é baixo, todo mundo acaba aprovado e entra no mercado de trabalho que, para a área, é abundante. Como caíram no conto do vigário, se tornam replicadores do canto lamuriento.
Logo, esses finados espíritos livres estarão dentro de salas de aula como autoridades. Serão matriarcas e patriarcas, formando em casa o que Pondé chama de "revolucionários que não arrumam nem o próprio quarto". Além, é claro, de infestarem o serviço público, sendo agentes de formação de analfabetos funcionais condicionados a depender de benesses estatais.

Um dia, quando seu filho chegar em casa dizendo que em Cuba tudo funciona às mil maravilhas e que o atraso do Brasil é essa "burguesia", essa classe média mesquinha que respalda o retrocesso, você ficará se perguntando onde foi que errou.

Motivos e princípios

Demétrio Magnoli
Folha de São Paulo

O ministro José Serra adiou sua intenção de suprimir a parte ruim do Mercosul, que é a união alfandegária, mas rapidamente, pela inação, está suprimindo a parte boa, que é a cláusula democrática. Propondo o adiamento de uma decisão até agosto, tenta conciliar a posição paraguaia, favorável à suspensão da Venezuela, com a uruguaia, que pretende cumprir a regra usual, transferindo a presidência rotativa do bloco ao regime de Nicolás Maduro. É uma forma de fugir ao dilema político que revela tanto a fraqueza estrutural do governo Temer quanto a inaptidão de Serra para chefiar o Itamaraty.

"O que pensa da postura do Brasil diante da posição paraguaia?", perguntei a Aloysio Nunes Ferreira, presidente da Comissão de Relações Exteriores do Senado e um dos parlamentares que, no ano passado, foi a Caracas prestar solidariedade aos presos políticos venezuelanos. Na resposta, ele preferiu não opinar, mas declarou compreender a posição paraguaia, "porque reflete a mágoa de um país que foi suspenso do Mercosul sem que tenha havido uma ruptura da ordem democrática".

Há dois erros aí: 1) A suspensão obedeceu ao espírito da cláusula democrática pois, embora seguindo a letra da lei, o "impeachment-express" no Paraguai violou o princípio geral do direito de defesa do presidente impedido; 2) A especulação sobre os motivos da solicitação paraguaia de suspensão da Venezuela não passa de um pretexto malicioso para silenciar sobre a tática do apaziguamento conduzida por Serra.

O Paraguai tem razão, independentemente de suas motivações. O Protocolo de Ushuaia do Mercosul reza que "a plena vigência das instituições democráticas é condição essencial" para a integração. O Protocolo de Assunção, de 2010, vai além e identifica "os direitos humanos e as liberdades fundamentais" como "pilares" do bloco. Eis o motivo pelo qual a Venezuela deveria ter sido suspensa há mais de um ano, quando o regime encarcerou centenas de opositores, inclusive líderes políticos eleitos, provocando protestos da ONU e do Parlamento Europeu. Mas o Itamaraty de Serra mostra-se disposto a conviver com um sócio que escarnece dos dois protocolos –desde que, para manter as aparências, ele não seja alçado à presidência do Mercosul.

Princípios importam mais que motivos. O governo Dilma tinha razão ao forçar a suspensão do Paraguai, mesmo se apenas seguia sua estrela ideológica, como ficou provado quando calou diante dos encarceramentos políticos da falida "revolução bolivariana", uma violação incomparavelmente mais grave. Hoje, a soma do desrespeito aos direitos humanos com a ruptura institucional representada pela anulação das prerrogativas da Assembleia Nacional por um tribunal servil ao regime coloca a Venezuela fora do campo das democracias. Os motivos da inação do governo Temer são diferentes dos da inação do governo Dilma, mas ambos confluem no pátio de um ilusório "realismo" que subordina os princípios a mesquinhas conveniências.

O "realismo" de Serra mal dissimula o medo de agir. "A Venezuela rechaça as insolentes e amorais declarações do chanceler de facto do Brasil", respondeu a chanceler de Maduro à mera proposição postergatória do Itamaraty, aproveitando para repetir que o impeachment de Dilma configura um "golpe de Estado". O cenário onírico no qual um país com presos políticos brada sobre uma ruptura democrática no Brasil só serve como evidência da tolice do apaziguamento de Serra. A tática desastrada, além de tudo, aprofunda as divisões no Mercosul, paralisando o bloco e minando o pouco que resta da liderança regional brasileira.

"As nações fazem sempre a coisa certa, depois de esgotar todas as demais possibilidades", disse certa feita o chanceler israelense Abba Eban. O Brasil aguardará até o fechamento formal da Assembleia venezuelana para, tarde demais, fazer a coisa certa? 

Meirelles, o bode e o cabrito

Vinicius Torres Freire
Folha de São Paulo

Henrique Meirelles tirou um bode da sala bagunçada das contas do governo federal. Na foto do anúncio do deficit do ano que vem, pareceu vitorioso. O rombo ainda será enorme, mas o conselho político de Michel Temer queria um buraco ainda maior. Pelo menos esta era a história que vazava do governo.

A fim de cumprir sua promessa, o ministro da Fazenda terá de arrumar R$ 55 bilhões, se todas as contas de seus economistas estiverem certas. É improvável que consiga essa dinheirama sem algum aumento de imposto. Um cabritinho, pelo menos, voltará para a sala.

Durante semanas, a discussão era se o deficit primário ficaria entre R$ 150 bilhões e R$ 170 bilhões, no limite superior, segundo chegou a aventar o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. A meta ficou enfim em R$ 139 bilhões.

Este ano, o deficit previsto do governo federal é de R$ 170,5 bilhões, equivalente a pouco mais de 2,7% do PIB; dada a meta para 2017, ficaria em 2,1% do PIB.

O deficit de 2014, ano final de Dilma 1, com pagamento de pedaladas, ficou em 1,9% (mas o governo Temer diz que Dilma 2 deixou muito esqueleto e contas a pagar que não estavam explícitas, o que em grande parte é verdade).

Parece um esforço grande de redução do rombo, mas ainda é um desastre, quase inevitável sem um baita aumento de impostos. Repita-se, portanto, o que Meirelles conseguiu, olhando só números frios, foi tirar um bode da sala. Mas não se trata aqui nem no governo apenas de números frios ou quentes, mas de política.

Meirelles, com apoio de Temer, passou vários recados aos povos dos mercados e aos donos do dinheiro grosso em geral.

Primeiro, que ainda está no controle do governo da economia. Logo, seria mais ou menos razoável acreditar que há chance de o programa econômico Temer-Meirelles ir adiante. Mantém alguma expectativa positiva, que tem contribuído para a muito tênue despiora da economia.

Segundo, que o governo Temer continua na firme intenção de não elevar impostos. De onde virão os R$ 55 bilhões para reduzir o rombo de 2017?

Ontem, Meirelles reafirmava o que já vazara: de privatizações, vendas de partes de estatais, concessões, cobrança de dívidas com o governo e outras mágicas que o governo pretende inventar até agosto. Apenas então vai se pensar em imposto adicional.

No entanto, uma CPMF tal como a cogitada pelo governo Dilma 2 renderia uns R$ 50 bilhões. Em tese, o tamanho da paulada tributária deve ser bem menor; melhor ainda, com um imposto que recaia menos sobre empresas e, decerto, ricos. Além do mais, economistas do governo têm dito que reonerações de impostos sobre empresas vão ficar para quando o PIB voltar a crescer bem, 2018, se tanto.

Terceiro, parece se reafirmar o pacto implícito entre governo e a elite econômica (ou parte relevante dela). Isto é, o governo pede que engulam a seco esse deficit fiscal monstruoso, por um trio de anos ainda, pois tem mais a oferecer.

Em troca, arrumaria um plano de redução firme de tamanho do Estado, da despesa (o teto) e de privatizações. De quebra, viriam várias flexibilizações (licenciamentos, burocracias, leis trabalhistas), melhoras do "ambiente de negócios" etc.

Em suma, o Plano Temer ainda respira politicamente.

Não basta cassar Cunha

Ruth de Aquino
Revista ÉPOCA

Concentrar os males do país num bode expiatório não leva a lugar nenhum. A luta só começou

Não basta tirar o bode da sala ou da Câmara. Os excelentíssimos deputados e senadores tentarão transformar a renúncia e a provável cassação de Eduardo Cunha numa espécie de redenção parlamentar. O presidente interino Michel Temer também aposta na saída de Cunha para alcançar uma trégua com o eleitor que pressiona por moralidade.

O cessar-fogo será temporário. Se alguém pensa que uma cassação calará o anseio por uma reforma política, está equivocado. O Brasil não consegue mais tolerar um Congresso recheado de políticos venais e incompetentes. Ladrões com foro especial, com mordomias e privilégios, que só renunciam e choram quando é atingida a própria família. Em 2007, Renan Calheiros renunciou para escapar de cassação e hoje preside o Senado, apesar de citado em inúmeros inquéritos no Supremo Tribunal Federal por lavagem de dinheiro.

Com tantos temas cruciais a ser votados, como a renegociação da dívida dos estados falidos, a Previdência e os projetos de combate à corrupção (esses jogados para escanteio por Temer e seu soldado André Moura), os parlamentares entrarão em recesso branco. Férias de inverno espremidas entre a gazeta junina e a Olimpíada. Será interessante apurar o que farão neste julho de sol tépido. Irão à Suíça?

Enquanto isso, nenhum de nós pode parar – porque há crise, desemprego e dívidas. Para o ano que vem, o governo prevê um rombo mais “discreto”, de R$ 139 bilhões, depois da derrocada econômica deixada como herança por Dilma Rousseff, outra “vítima” de perseguição como seu ex-aliado Cunha. A meta fiscal talvez só seja cumprida se pagarmos ainda mais impostos. Socorro. Nada disso afeta os deputados e senadores, que gozam 55 dias de recesso por ano e trabalham de terça a quinta-feira.

O Brasil comemora, aliviado, a renúncia de Eduardo Cunha, o bandido da hora. E aí? O peemedebista renunciou apenas à presidência da Câmara – da qual já fora afastado pelo Supremo Tribunal Federal. Cunha mantém o mandato de deputado, enquanto não for cassado.

Quais benefícios Cunha preserva, após a renúncia teatral? Salário de R$ 33.763. Atendimento médico para ele e toda a família. Apartamento funcional em Brasília ou auxílio-moradia de R$ 4.253. Verba de R$ 92 mil para contratar até 25 funcionários para o gabinete. Cota parlamentar de até R$ 35.759,97 mensais para alimentação, hospedagem, combustível e passagens aéreas para o estado de origem, o Rio de Janeiro. Isso é um escândalo.

Cunha só perde o direito de morar na residência oficial da presidência da Câmara, no Lago Sul de Brasília. Vive ali com a mulher que enternece seu coração e o faz chorar, a ex-apresentadora de TV Cláudia Cruz. O casal terá até 30 dias para sair da mansão. Cunha perde a segurança pessoal e o transporte em jatinho da FAB.

Ah, mas Cunha será cassado e perderá os benefícios e os direitos políticos por oito anos. A questão é: e os outros 512 deputados? Em primeiro lugar, são demasiados. A julgar por seu desempenho na votação do impeachment de Dilma, a maioria é de envergonhar a nação. Reduzir o número de partidos e de congressistas seria muito bom para a moral e para as finanças de Brasília. Mas também não basta.

São eles o espelho dos brasileiros? Então, que sejam mesmo o reflexo de seus eleitores deserdados. Que percam essa montanha de privilégios incompatíveis com um país em desenvolvimento e agora em recessão. Que percam o direito a aposentadorias integrais vitalícias, porque há uma crise na Previdência. Eles tiram dos aposentados pobres para proteger seus clãs e ainda abrem contas secretas milionárias com propinas. Usam verba pública e de empreiteiras para pedir nosso voto.

Se existe uma esperança de que o exercício da política tenha a ver com a defesa real do interesse público, as regras precisam mudar. Quem se candidata a deputado ou a senador não pode abocanhar uma vida de conto de fadas – e, ainda por cima, se transformar em reles vilão.

Os congressistas que porventura cassarem Cunha se sentirão imbuídos de uma aura de moralização, como se fossem os cavaleiros da Távola Redonda e não do Apocalipse. Na verdade, cassam um para que eles próprios se livrem da pressão do eleitor. Concentrar os males do país num bode expiatório não leva a lugar nenhum. A luta só começou. Que a Lava Jato continue a incomodar esquerda e direita e a gerar filhotes com nomes exóticos pelo país afora.

Que Renan Calheiros não consiga coibir as delações, com seus projetos contra “abuso de autoridade”. Que as Marilenas Chauís do PT continuem a desmoralizar não os juízes, mas a si mesmas, por insanidade. Não tem Game Over. Falta muito para o apito final. Que a sociedade continue mobilizada contra os farsantes.