sexta-feira, maio 26, 2017

Outra fonte de recursos para o PT

Cilene Pereira
Revista ISTOÉ

A delação de Joesley Batista revela mais um esquema montado pelo partido de Lula e Dilma para se manter no poder. Desta vez, usando pagamento de propina no BNDES e até a compra de deputados contra o impeachment da ex-presidente. Joesley deu US$ 150 milhões para os dois

(Crédito: Eraldo Peres)
 PROPINA 
Segundo as delações, Lula recebeu US$ 50 milhões em vantagens indevidas 

Os personagens são praticamente os mesmos. Os métodos e objetivos, também. Os ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, os ex-ministros Guido Mantega e Antonio Palocci e o ex-tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, estão entre os nomes que constam da delação do empresário Joesley Batista. Assim como estiveram implicados nos escândalos do Mensalão, em 2005, ou no do Petrolão – ou nos dois juntos – todos eles aparecem agora nas confissões de Batista. O propósito era apenas um: obter recursos financeiros para concretizar seu projeto de poder.

As informações passadas pelo empresário são estarrecedoras. Em primeiro lugar porque compõem o retrato de como o PT se valeu de uma estrutura importante do Estado, o BNDES, para formar um caixa que subsidiasse as campanhas dos ex-presidentes Lula e Dilma. O relacionamento de Batista com o banco, que em princípio deveria fomentar a economia brasileira, e não interesses partidários, começou há doze anos. Em 2005, ele foi levado ao então ministro do Planejamento, Guido Mantega, por um conhecido em comum, Victor Sandri. O objetivo era pedir ajuda para a liberação, pelo BNDES, de um financiamento de U$80 milhões ao grupo JBS. Em troca do auxílio, Mantega teria pedido 4% do valor. Segundo Batista, seu pleito teria sido aprovado com rapidez.

Cinco milhões por deputado
As relações entre Mantega e Batista consolidaram-se, a ponto de o empresário ter dispensado intermediários. “Chefe, como é que eu acerto?”, perguntou ao ex-ministro. “Fica com você, confio em você”, respondeu Mantega. “E o percentual?”, indagou Batista. “Vamos vendo caso a caso”, disse Mantega. O delator contou aos procuradores que negociou diretamente com o ex-ministro, em 2009, o pagamento de propina no valor de US$ 50 milhões após o fechamento de um acordo pelo qual o BNDES comprou debêntures do JBS no valor de US$ 2 bilhões.

Um ano depois, Mantega teria pedido a Batista que abrisse uma conta para abastecer a campanha da ex-presidente Dilma. O empresário quis saber para quem havia sido desviado o que pagara até então. A resposta: para Lula. Ele perguntou se os dois sabiam do esquema, e Mantega teria respondido que sim. Em 2014, essas contas teriam US$ 150 milhões. Além do BNDES, o esquema funcionava na Petros e no Funcef, os fundos de pensão da Petrobrás e da Caixa Econômica Federal. Em seu despacho, o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato, diz que, segundo a delação de Batista e de Ricardo Saud, diretor de Relações Internacionais do grupo JBS, Lula teria recebido “vantagens indevidas” da ordem de US$ 50 milhões. Dilma, de US$ 30 milhões.

O vínculo entre o ex-ministro do Planejamento e da Fazenda dos governos Lula e Dilma e o delator perdurou por muito tempo. Um dos episódios mais recentes, em que de novo Mantega teria pedido ajuda financeira de Batista, ocorreu às vésperas da votação do pedido de impeachment de Dilma, no ano passado. O empresário contou que foi surpreendido em sua casa com a chegada do deputado João Bacelar (PR-BA). O parlamentar o procurou a pedido de Mantega. Sua missão era convencer o dono da JBS a comprar trinta deputados, ao preço de R$ 5 milhões cada um, para que votassem contra o afastamento da ex-presidente. Batista concordou em comprar cinco, por R$ 3 milhões cada. Até março haviam sido pagos R$ 3,5 milhões. Batista não revelou os nomes dos deputados que receberam o suborno.

Ao mesmo tempo em que fazia os pagamentos para as contas designadas por Mantega, Batista recebeu também do ex-ministro Antonio Palocci um pedido para ajudar na campanha à presidência de Dilma em 2010. O valor solicitado foi de R$ 30 milhões. Batista contou que, na ocasião, Palocci lhe informou que o dinheiro nada teria a ver com as contas abertas para Lula e Dilma por orientação de Mantega. Palocci teria dito, aliás, que sequer possuía conhecimento dessas contas.


O deputado João Bacelar (foto) procurou o dono da JBS. 
Pediu dinheiro para subornar parlamentares 

O dono da JBS ajudou outro braço importante do esquema montado pelo PT. O ex-tesoureiro João Vaccari Neto o procurou pedindo que ele emprestasse uma conta no exterior. “Joesley, eu volta e meia tenho pagamentos a receber no exterior e eu não tenho para onde mandar. Você não quer receber esse dinheiro, ficar com você, e no dia em que eu precisar, você faz esses pagamentos para mim?”, perguntou Vaccari. Batista assentiu. A conta, em Nova York, passou a ser gerida por um funcionário seu e por João Guilherme Gushiken, filho do ex-ministro Luiz Gushiken. Segundo o relato do delator, o dinheiro lá depositado pagou até mesmo contas do próprio Vaccari.

OS PREÇOS DE CADA UM

Como funcionavam dois dos esquemas envolvendo o PT, segundo delação de Joesley Batista

1 – COMPRA DE VOTOS CONTRA O IMPEACHMENT DE DILMA ROUSSEFF
• A proposta foi feita pelo deputado João Bacelar (PR-BA) a pedido do ex-ministro Guido Mantega
• Deveriam ser comprados 30 deputados, com propinas que chegariam a até R$ 5 milhões para cada um
• Joesley concordou em comprar 5 parlamentares, por R$ 3 milhões cada um
• Até março, havia pagado ao todo R$ 3,5 milhões
• O nome dos congressistas subornados não foi revelado

2 – CAIXA PARA LULA E DILMA
• Foi feito com os esquemas de propina no BNDES e nos fundos Petros e Funcef
• O ex-ministro Guido Mantega foi o interlocutor
• Em 2014, o saldo das contas somava US$ 150 milhões

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